29 dezembro 2009

Quando eu for grande...


Dentro das redacções típicas que se faziam na primária como o relatório das últimas férias ou do passeio anual, havia aquela do “O que eu quero ser quando for grande”. Podia existir mais ou menos motivação e inspiração para fazer correr a pena sobre a matéria, mas quanto à imaginação essa não tinha dificuldade em divagar sobre o assunto.

Umas décadas passadas continuo com alguma frequência a falar do que quero fazer ou ser “quando for grande”, face ao espanto ou condescendência dos que acham que a utilização dessa expressão por mim terá o prazo de validade já largamente ultrapassado.

À entrada de mais um ano, que em concreto não quer dizer muito mais do que mais um “plim” de contagem de ciclo, que se continue então a divagar sobre o que se há-de ser e fazer quando se for grande, sem deixar, é claro, de realizar algo próprio de quem já é grande. Complicado?

16 dezembro 2009

Carta a quem ainda não vota nem tem sindicato

A todos aqueles que não têm idade para votar nem muito menos para serem sindicalizados quero dizer que quando chegarem a essa altura vocês estarão tramados. Isto porque nós que votamos e temos sindicatos e essas coisas todas andamos alegremente a gastar mais do que ganhamos, pedindo emprestado por conta, conta essa que vos irá chegar um dia mais tarde. É um pouco como a orquestra continuar a tocar enquanto o Titanic se afundava, mas para pior. Se a música não contribuiu para o acidente nem os músicos poderiam ter evitado o naufrágio, aqui está tudo nas nossas mãos.

Dizem por aí que o “défice não é prioritário”. Pode estar bem quando eu me endivido para investir em algo que gera riqueza e essa riqueza reembolsa o empréstimo. Não posso é endividar-me para continuar a ir ao restaurante, quando na carteira não houver dinheiro suficiente. Ou melhor, não devo, porque esse gasto não devolve nada, só atira o problema para frente e somado de juros. Mas a situação actual é ainda pior! Quando alguém se afunda em dívidas, em geral, é o próprio a resolver o problema. Nós somos mais finos. Continuamos a frequentar o restaurante e o problema vai sobrar para vocês!

Por isso, quando ouvirem alguém dizer que não aceita limitações nas promoções nem redução nos direitos adquiridos, quando ouvirem os autarcas queixarem-se das limitações ao seu endividamento, que não os deixa fazer mais rotundas com ou sem a respectiva fonte cibernética, quando ouvirem um ministro dizer que “resolveu um problema” sacando do livro de cheques público, nessas alturas lembrem-se de que isso tem tudo a ver com lutar para não deixar de ir ao restaurante.

Nesta fase nem acrescento o dinheiro mal gasto por incompetência, o gastar a “dar” seguido do gastar a publicitar a “dádiva”, nem as outras coisas de tribunal que também não ajudam nada. Refiro apenas os exemplos do “para já é gastar sem cortar e logo se verá”.

Eu sei que é um fardo demasiado grande pedir-vos para serem assim polícias e críticos de quem tem idade para ter juízo, ainda por cima quando vocês nem sequer têm peso eleitoral, mas não vejo mais a quem recorrer. Desejo-vos boa sorte.

02 dezembro 2009

Minaretes no horizonte

A decisão Suiça de proibir os minaretes é, no mínimo, polémica. Não será de forma nenhuma útil ou positiva como medida para conter ou limitar a expansão do radicalismo islâmico, antes pelo contrário. Penso, no entanto, que uma boa parte dos suíços que votaram contra os minaretes não estão alinhados com a extrema-direita xenófoba, básica e bronca que promoveu o referendo. É muito perigoso simplificar dessa forma e deixar essa gente capitalizar este resultado.

Em primeiro lugar não se trata de uma limitação à prática religiosa, é uma limitação arquitectónica. Se numa aldeia histórica preservada são proibidas as caixilharias de alumínio, não terão os suíços direito a “protegerem a sua paisagem” contra elementos que considerem estranhos à sua cultura?

Por outro lado, e deixando de lado os radicalismos islâmicos e xenófobos, há a ter em conta o problema real da “intrusão”. Muitos muçulmanos não se limitam a professar a sua crença individualmente. Procuram moldar o mundo exterior e impor as suas regras, muito diferentes dos padrões sociais ocidentais actuais. Recentemente vi uma notícia de nos EUA um bar ter tido problemas por estar a uma distância de uma mesquita inferior à “regulamentar”. Fortemente aconselhado a deixar de servir bebidas alcoólicas acabou por colocar cortinas opacas nas janelas....

Ao abordar a questão da abertura e das limitações nas práticas religiosas no mundo, porque não trazer amplitude e maturidade para o fórum? Em muitos países que se indignam com esta limitação, realmente, os campanários não estão proibidos, são os próprios alicerces das igrejas e outros templos que não se fazem. Celebrar o Natal, mesmo em privado, pode ser crime. Porque não serenamente e sem afrontamentos trazer a palavra “reciprocidade” para o palco? Seria seguramente mais inteligente, mais justo e mais eficaz do que deixar correr o jogo dos radicais.

Em resumo, não aplaudo a medida mas de uma coisa estou certo: não gostaria nada, mas mesmo nada, de num fim de tarde de verão me ver impedido de beber uma cerveja numa bela esplanada em frente ao mar por ter sido construída uma mesquita ali ao lado na esquina.

27 novembro 2009

Enquanto a bela dorme

Enquanto o país mediático se entretinha a contar e recontar deputados e a especular acordos e coligações; enquanto o PSD suspirava pelo seu D. Sebastião e os seus barões e escudeiros afiavam as armas; enquanto os professores exigiam a anulação do processo de avaliação; enquanto os tribunos arengavam com maior ou menor elegância e os comentadores comentavam os comentários de outros comentadores, ele crescia.

O deficit das contas públicas, que é como quem diz, o estado gastar muito mais do que recebe. É certo que uma boa parte do problema tem origem externa, há uma crise mundial que não ajuda nada, mas isso não altera um milímetro da questão fundamental: é insustentável viver assim!

Obviamente que dentro da mui retórica discussão sobre qual é a real autoridade de um governo minoritário e com a oposição ameaçando disparar e aprovar legislação populista avulsa, ao deficit económico virá somar-se o deficit de iniciativa e de reformas sérias. Fragilizado, o governo continuará numa espécie de campanha eleitoral permanente, distribuindo papas e bolos. Não se aumentam os impostos, a contenção nos aumentos salariais é uma opção que pode ser tomada ou não. Enfim, nada que desagrade a ninguém porque podemos sempre ter umas eleições ao virar da esquina. De notar que não se trata bem de distribuir o que existe: trata-se de pedir emprestado e gastar agora para, lá para a frente, noutro horizonte, alguém reembolsar o empréstimo com os devidos juros.

O que devia ser claro para todos os actores é que a redução do défice é uma necessidade e uma prioridade indiscutível. Fingir que ele não existe ou pretender que o seu tratamento pode ser indolor é irresponsabilidade. Capitalizar politicamente as medidas impopulares indispensáveis é não merecer a democracia. Por fim, os milhões perdidos e desviados cujos processos judiciais não existem ou vegetam podem ser quantitativamente apenas uma gota no oceano, mas acabar com eles representa um mundo de diferença em atitude e exigência...por onde tudo começa.

24 novembro 2009

O Vinil está de volta?


Há por aí uns cartazes anunciando que ele está de volta. Não sei se os discos de vinil estarão mesmo a regressar em força mas que a oferta aumentou recentemente, é bem verdade. Porquê? Por moda de alternância, tipo saia curta – saia comprida, porque as capas são maiores e muito mais giras, por snobismo de seguir um caminho diferente do do rebanho principal?

Quando se banalizaram os CD’s era previsível que o vinil iria encolher até um reduto muito reduzido dos anti-digitais e estagnaria assim numas tribos muito especificas e selectivas, mas sempre a descer e sem alguma vez inverter a tendência. Basta recordar a facilidade e rapidez da degradação dos discos e agulhas, a pouco autonomia e a inflexibilidade na sequência de escuta. Para ouvir algo selectivamente lá andava a agulha a subir e a descer no meio do disco com fortes probabilidades de deixar uma “assinatura” no local da aterragem.

O CD resolveu essas limitações todas. A menos que avariasse de vez, reproduzia sempre da mesma forma. Com a frequência da codificação e síntese para lá do limite detectável pelo ouvido humano e com equipamento decente acho difícil que se possa dizer objectivamente que o resultado seja inferior ao conseguido pela agulha roçando no vinil. Perfeito, portanto, não? Se calhar o problema será mesmo esse: é demasiado perfeito e repetitivo. Ou seja, a agulha não passa sempre de forma igual, os mini-micro, ou grandes, risquinhos que vão nascendo dão um resultado variável no tempo que nunca é uma fotocópia perfeita como no digital. A agulha acrescentará até um timbre, uma vibração própria, acepticamente retirada do digital perfeito e que agradará a alguns.

Para lá do snobismo, será que os puristas do analógico buscam precisamente um som que não seja perfeito, que não seja clonado, que seja vivo, que tenha “ruído”, que assim se torne mais humano? Não sei. Pode é ser uma oportunidade para fazer evoluir os sintetizadores digitais e acrescentar lá um vibrato e uns arranhões aleatórios!!!

23 novembro 2009

Jogos de fronteiras

Pois é. O Glosa Crua entupiu de novo. A minha última semana foi dominada por um assunto com alguma sensibilidade e dificuldade em ser tratado sem ferir susceptibilidades. Tentemos...

Peter Gabriel dizia, citando de cor, “Se o olhar matasse, seguramente o faria nos Jogos sem Fronteiras, guerra sem lágrimas...” Vem isto a propósito do apuramento para o próximo Mundial de Futebol e se alguém acha que as cuspidelas recebidas pela nossa selecção na Bósnia foram más.....

Para países com algum deficit de afirmação, em que o sentido geral é de estarem na mó de baixo, o apuramento para o Mundial é como poder ir nadar para a piscina dos grandes. Funciona como compensação para os outros pontos que não estão no melhor. Exemplos não faltam e em todos os continentes.....

Eu vivi com alguma proximidade o processo de apuramento entre o Egipto e a Argélia. Vi-o mais do lado Argelino e, é claro, a interpretação é a minha. Em circunstâncias normais o Egipto seria o favorito do grupo, mas a boa campanha da Argélia levou a que antes do último jogo no Cairo, esta estivesse nitidamente em vantagem. Até uma derrota por uma diferença por um golo seria suficiente para o Egipto ficar de fora...

De ambos os lados já não estava em jogo um simples jogo. Estava em causa o lugar do país na primeira plateia das nações. A Argélia chegava ao Cairo acreditando que faltava muito pouco, o Egipto com dúvidas provocava por todas as formas. O autocarro dos primeiros é apedrejado e correm mundo as imagem de jogadores sangrando.

No jogo de 14/11 a Argélia entra no minuto 90 a perder por 1-0, portanto apurada. Nos descontos o segundo golo do Egipto força ao jogo do desempate para o dia 18/11 no Sudão.

É no dia 15/11 que chego a Argel. Frente ao hotel há um burburinho enorme de gente na rua, policia e ambulâncias. Estavam a espancar 3 egípcios expatriados de uma empresa de telecomunicações. Corria o boato de que vários argelinos teriam sido mortos no Cairo e era a vingança, somente por serem egípcios. O boato não foi confirmado, mas já não se estava no domínio do racional. Não se pensava noutra coisa que não fosse no jogo de desempate do dia 18 e na vingança desportiva e “física”. Cortejos inflamados atravessam a cidade barricando o transito. Os escritórios da EgyptAir e de outras empresas egípcias são incendiadas pela multidão em fúria. O governo oferece as entradas no estádio, os “mecenas” financiam as viagens. Apoiar a equipa é politicamente correcto e comercialmente interessante. O governo acaba por oferecer as viagens também.

A multidão rejubila “vamos a eles”. E naqueles olhares de quem sentado numa janela aberta de um automóvel gritava e acenava com o passaporte recém-emitido eu li o olhar de quem estava pronto para ir para a guerra. E não é bonito de ver.

11 novembro 2009

Mais um folhetim “oculto”?

A “Face oculta” se calhar até nem é muito excepcional e os seus ingredientes principais encontrar-se-ão em muitas outras operações mal ou bem investigadas, por investigar e mais mal do que bem julgadas. Tem, no entanto, algumas características que a tornam um pouco emblemática. Em primeiro lugar o percurso de Armando Vara – o balcão da agência bancária, o ministério, a fundação para a prevenção rodoviária e a administração da Caixa e BCP. E depois a natureza dos materiais - sucata. Não se trata de um negócio fino de telecomunicações ou armamento. É mesmo ferro velho e afins e coisas que não sendo ferro velho foram transaccionadas como o sendo.

Como é que figuras do nível em questão se “envolvem”, da forma que a justiça há-de apurar, oxalá, mas de alguma forma se terão envolvido, neste mundo do tráfico do ferro-velho? E como é que um negociante de sucata, acusado de roubar carris de uma linha de caminho de ferro, pode presumir que tem poder e influencia suficientes para pedir a substituição do presidente da Refer!? Não o conseguiu, é certo, não se sabe quão alto o pedido chegou, mas que ele o solicitou isso parece claro!

O fenómeno da corrupção e do desvio de bens públicos não é especifico de Portugal. Não pretendamos ter essa especificidade única. Infelizmente é intrínseco de uma boa parte da natureza humana e conjuga-se em todas as línguas. A diferença está em como as sociedades e as instituições lidam com e penalizam esses crimes.

Espero sinceramente que por uma vez este caso vá até ao fim com rigor e eficácia. Infelizmente, a “feira mediática” não ajuda. De que é que se fala principalmente? Do que fazer às escutas do Primeiro-Ministro. Ou são relevantes no contexto com as devidas consequências, ou não são, mas que se esclareça rápido. Esta emotiva discussão em torno do envolvimento do PM ajudará a vender jornais, é certo, mas é grave demais para sendo relevante ser ignorado e não o sendo se manter a suspeição. Não defendo uma “imunidade institucional” à francesa, mas um país não pode viver com este clima especulativo em torno da figura do Primeiro-Ministro. E o Presidente do Supremo e a PGR podem ter as suas divergências mas não fica nada bem nem digno exporem-nas assim na praça pública. O processo é demasiado importante para ficar enredado e resumido a um superficial folhetim.

E, no meio disto tudo, os trocos supostamente recebidos pelo CDS/PP são uma gotinha de nada. A solução para esta parte fica para quando se acabar com o actual esquema de financiamento dos partidos. Até lá são todos culpados e todos inocentes.

09 novembro 2009

Serei eu o “raro”?

A minha máquina fotográfica principal é uma Sony R1 com 4 anos. Tem uma objectiva fixa da Zeiss 24-120 e estreou o sensor Sony CMOS de 10,3 MPx de dimensão aps-c e que até equipou outras coisas de pedigree superior. Tecnicamente chamam-lhe bridge porque quando se espreita no buraco do visor não se vê a imagem ao vivo mas sim uma reprodução num pequeno monitor lá dentro. Foi um pouco precursora nesse segmento. Tirando situações de pouca luz, pouco usadas por mim, e mesmo não sendo uma metralhadora a focar e a disparar, tem-me dado bastante satisfação.

Ao procurar agora evoluir e ao analisar a oferta existente, vou de espanto em espanto.

Em primeiro lugar todas as máquinas acima de um dado patamar são “reflex”. O reflex consiste num conjunto de espelhos, fixos e móveis, que trazem a luz que atravessa a objectiva até ao visor e ao olho do fotógrafo. No tempo do tudo óptico não havia alternativa. Neste momento, se se fizer uma máquina bridge com o mesmo sensor de uma reflex e com as mesmas lentes, também intermutáveis, e resolvendo a questão da focagem pelo espelho, teremos idênticas performances e fotografias de qualidade igual. Como diferença a máquina será mais leve, mais compacta, mais fiável, silenciosa e mais barata! Para os fotógrafos que valorizem o peso e o toque, seria possível e fácil prever uma versão mais gorda e mais pesada. Mas não existe essa oferta. O que existe é o preconceito de que máquina de qualidade é sinónimo de “reflex”. Nada a fazer, vai ter que ser mesmo reflex.

Uma componente importante da fotografia é a composição, o como se “olha” para a cena a captar. No tempo do tudo óptico, o olho estava colado ao visor e os pontos de visão disponíveis limitados à mobilidade da cabeça. Em particular na vertical, podia-se com mais ou menos conforto, equilíbrio e ginástica estar entre bicos de pés e cócoras. Para ir próximo do nível do chão, só mesmo estendendo ao comprido no dito cujo.

No digital acabou a necessidade de ter o olho colado à câmara. E lá vem nova surpresa: aquilo que qualquer compacta rafeira faz que é mostrar a cena a fotografar num monitor externo, as reflexs têm dificuldade. Algumas de topo de gama como a muito recente Sony A850, por exemplo, não o fazem de todo. Outras fazem-no sem focagem automática e a grande maioria têm-no de uma forma que não interessa. Explico: se eu tiver apenas um monitor fixo nas costas da câmara, continuo a ter que a usar à altura dos olhos. E, para um bicho daqueles, devem ser muito raras as situações em que se justifica ter a máquina na ponta dos braços, afastada do corpo. Se a altura é essa, toca mas é a encostar à cara e a usar o visor tradicional.

Muito interessante é ter um monitor que se possa pôr na horizontal para conseguir fotografar a um nível baixo sem sujar a roupa e poder trabalhar confortavelmente no tripé olhando para a maquina “de cima para baixo”. Em resumo, se 80 ou 90% das fotos são tiradas pelo visor tradicional, existem 10 ou 20% em que dá muito jeito o monitor ajustável e não parece que seja tecnicamente muito difícil consegui-lo. E aqui mais uma surpresa: no topo da gama dos sensores de dimensão APS-C, e em máquinas recentes como Nikkon D300s ou a Canon EOS7D, não existe! Aliás, se a minha investigação está certa, a Canon que consultou mais de 5 mil fotógrafos para desenvolver a 7D, pura e simplesmente ignora o assunto. A Nikkon só se lembrou disso para a 5000. Raios!!!

Serei eu o “raro” ? Bom, pelo menos há uma vantagem. Ao ficar restrito a modelos inferiores irá sobrar-me orçamento!

05 novembro 2009

Com esta oposição....

A oposição ainda não entendeu que perdeu as eleições por jogar na oposição em vez de apostar na construção. Quando o PS os convida para de alguma forma participarem activamente na governação manifestaram-se indisponíveis. Quando o PS apresenta um programa de governo alinhado com as suas propostas eleitorais, acham escandaloso!. Como não tem maioria absoluta, deveria ter mudado algo... e quando eles próprios, no momento devido, fecharam as portas ao compromisso. E os eleitores que votaram no PS, por acaso a maioria, não merecem que este seja coerente com as suas propostas eleitorais? Já me parece mais uma lógica daquelas “à la Palácio de Belém”.

O PSD continua de fulanização em fulanização. Qualquer boneco, espantalho ou manequim serve desde que permita ganhar eleições. Aí, por uma vez, Menezes tem razão. Antes de discutir a pessoa para segurar na bandeira, têm que discutir rumo, identidade e ideias Quanto aos actuais potenciais, fique Sócrates sossegado. Passos Coelho pode ter boa figura e falar bonito mas espremido é um deserto de substância; Marcelo é um tsunami de opiniões, avaliações e considerações mas não tem perfil de timoneiro.

Na realidade o que está em causa é a governação do país depois de uma eleições muito recentes. E há quem ache que as eleições, não correndo como previam, não valem. Vamos ali trocar de fato e voltamos já, prontinhos para as próximas! Tudo isto me parece de uma irresponsabilidade assustadora.
Mais do que nunca cheira e tresanda que o que está em jogo é única e exclusivamente o acesso ao poder pelo poder. Aqueles que estão a ver chegar à sua casa as reestruturações, os lay-offs e os encerramentos sentirão, naturalmente, revolta. E a essa gente, que é muita, ver a eventual revisão do processo de avaliação dos professores ser feito assunto político de primeira página...também deve agoniar.

03 novembro 2009

Mercedes SL 500, 03-27-SQ + Mercedes CL 65 AMG, 68-GV-25

Segundo o JN da semana passada estes dois veículos foram oferecidos pelo sucateiro de Ovar a dois altos quadros da EDP e da Galp. Por acaso até estranho as matrículas. Não correspondem a matrículas novas de Junho deste ano, altura da suposta oferta. Qual o sentimento de impunidade que podem presumir estes beneficiários para aceitarem assim um produto de origem tão rastreável como um automóvel?

Parece que um ex-empregado de balcão de agência bancária do interior profundo que subiu até ser administrador de um grande banco privado chamado Armando Vara ajudou um pouco, pondo a sua agenda e lista telefónica à disposição do sucateiro.

Tirando os “virgens” de poder e um líder político particular que, além de falar muito bem, tem uma grande capacidade de esquecer o que disse e o que fez, por exemplo quanto a sobreiros e submarinos, por todo o lado se nota aquele silêncio confrangedor dos telhados de vidro.

Ainda bem que há cada vez menos empresas públicas. Apesar de tudo, prestar contas a um investidor privado será sempre mais rigoroso do que no caso público. Infelizmente ainda continuam a existir algumas que mesmo sem serem públicas vivem alegremente do contribuinte.

Armando Vara é um caso notável de sucesso na vida. É este o modelo de sociedade que queremos que seja um exemplo a seguir? Pelo menos por uma vez: Justiça! Por favor...! Para condenar quem nos rouba e vacinar quem isso planeia.

02 novembro 2009

Contra a corrente



Pum... Pum... Pum .... Pum... Pum.Pum.Pum !

Com mais ou menos coreografia, com um sem gaita de foles a dar algum toque melódico, a base e o realce é aquela sequência de pancadas. A alguns incomodam pelo intensidade e, digamos que... pela barbaridade. Para outros evoca qualquer coisa lá do fundo, não facilmente classificável, mas seguramente sua.

Em tempos ao bater a mesma base nos bordões de um violão, eu dizia que não era uma questão de técnica, esta até extremamente simples, e portanto acessível para mim, mas antes de estado de espírito.

O domingo das festas de Viana. Uma cidade que as sente e as assume como poucas outras. A luz estava muito bem e luz em grego é “foto”. E sem querer lá fui seguindo o pum-pum-pum... De alguma forma passaram, teimosamente, olhando fixamente contra a corrente. Contra uma certa corrente de um tempo sem tempo.. e gostei de o ver.

01 novembro 2009

Três cantos

Um atraso na definição da disponibilidade quase me atirava de novo para os galinheiros lá em cima, neste caso não por limitação de orçamento mas por escassez de lugares disponíveis. Sobrou um camarote ali ao lado do palco, com 6 lugares pagos e em que apenas 4 pessoas podiam ver a cena sentadas. Um som abaixo das expectativas e do mínimo exigível. Para quem busca ouvir cantantes de palavras e não as consegue entender, é frustrante.

Uma selecção de temas que necessariamente sabe a pouco, tal é o tamanho da obra de cada um. Alguns temas datados, mais datados para uns do que para outros, naturalmente. Mas sobretudo um belo momento de música e cultura portuguesa. Os últimos trabalhos de fundo de originais de cada um daquele trio já têm uns anos, mas mesmo que o melhor já tenha passado, são três pessoas que optaram arriscadamente pela música dando um contributo assinalável a sermos o que somos e a sabermos quem somos.

Herdeiros à vista não há. Mesmo o Rui Veloso de outra meia geração à frente parece ter parado. Os tempos são diferentes. Nos tempos actuais mais facilmente se gasta em “shots” numa simples noite do que num CD original, considerado caro. Se há 20-30 anos atrás fosse assim tão fácil “descarregar” música sem pagar, será que eles teriam tido condições para criar e viver da música? Não sei. Sei que ainda recentemente comprei o último álbum de Rão Kyao, “Em Cantado”, porque gosto e porque sim!

29 outubro 2009

A minha bexiga e a ecologia militante

Recentemente vi duas notícias que deixaram a minha bexiga com sérios problemas de consciência ecológica.

A primeira veio, salvo erro, do Brasil e dizia que se toda a gente urinasse durante o duche, a água poupada na descarga de autoclismo multiplicada por tal e tal e tal daria uma enormidade com significativo impacto ambiental positivo! Terão descontado a água adicional do chuveiro necessária para deixar limpas as várias peças sanitárias e órgãos afectados no processo?

A segunda veio, salvo erro, da Nova Zelândia. Uma companhia aérea convida os passageiros a passarem no WC antes de embarcarem. Se metade deles o fizeram, o peso descarregado e respectivo efeito na carga do avião dá uma poupança de combustível que multiplicado por tal e tal, é um balúrdio!

Portanto, a partir de agora, cada vez que beber um copo de água a mais que me obrigue a descarregar a bexiga, lembrar-me-ei que isso é mau para o ambiente. Vou passar a olhar desconfiado para as garrafinhas de água que põem nas mesas das salas de reunião.

Com as companhias aéreas é mais grave. Como esta questão do peso tem impacto directo nos seus resultados a imaginação pode disparar. Quando estiver num aeroporto mal climatizado que me obrigue a suar, já vou saber a que é que isso é devido!

27 outubro 2009

Alguém ainda tem pachorra para a gripe A?

Bolas....! Já não se pode ouvir falar mais nisto. No mesmo dia em que se inicia a campanha de vacinação em Portugal com reportagens em directo das picadelas “vips”, aprende-se que no hemisfério sul, onde o Inverno está a terminar, esta terrível pandemia não provocou mais mortes do que a gripe banal de todos os anos.

Durante este tempo em que se falou e falou e falou desta ameaça, quanta gente morreu de malária, por exemplo? Quanta gente morreu simplesmente de fome? A relação entre a atenção mediática dada a esta ameaça e os seus efeitos reais, não têm certamente paralelo, e pelo ridículo.

Quanto custou e quanto custará ainda esta cena toda? Quem pagou e quem ganhou?

26 outubro 2009

Pensões, populações e populismos

Não deve haver um assunto tão prestável a populismos como as pensões. Quanto ao princípio, e na minha perspectiva, as pensões de reforma só podem ser um fenómeno de solidariedade transversal entre gerações e nunca fruto de poupança individual. Se eu planear e poupar para 15 anos e viver 25 como vou fazer nos últimos 10 anos? Também não aceito que a minha renda futura esteja dependente do valor de empresas geridas ao trimestre e com cotações auscultadas à hora. São escalas de tempo demasiado diferentes e quem ainda acredita no contrário pode ir ao Chile ver o resultado da aplicação das teorias dos “Chicago boys”.

A minha geração paga as pensões da anterior e as minhas pensões serão pagas pela seguinte. Resta resolver a equação de a população activa x taxa de desconto igualar a população reformada x valor médio da reforma. Considerando que não é justo nem digno reduzir o valor da reforma e que aumentar a quotização dos “próximos” não é simpático.... só sobra aumentar a população activa e reduzir a reformada ... por aumento da idade da reforma. Não há milagres nem outras alternativas de raiz e até é justo por um dos factores básicos de desequilíbrio ser exactamente o aumento da esperança de vida.

Voltando ao populismo. Parece que vamos ter na assembleia uma oposição em bloco que fiel aos seus princípios que não permitem coligações nem acordos de governo, prenuncia um alinhamento na oposição ao governo, pronta a lançar legislação avulsa sobre temas sensíveis, confortavelmente suportada por uma postura de “sniper” pronto a fazer descer o governo a seu bel-prazer. Uma dessas iniciativas é bloquear a descida das pensões indexadas à inflação, quando esta for negativa. Se bloqueiam a indexação neste caso, então quando a inflação subir e recuperar para o valor anterior, também não terá efeito... ou estamos mesmo no populismo?

17 outubro 2009

Género claro



A figura ao lado, crismada Ardi, parece ser o novo mais antigo antepassado do ser humano, com 4,4 milhões de anos. Acreditando que a evolução foi contínua fica um pouco a questão de como se pode estabelecer a fronteira de daí para a frente é humano ou quase e para trás já não o é.
Mas a minha surpresa é afirmarem sem dúvidas de que se trata de uma fêmea. De uns restos de ossos com milhões de anos consegue-se apurar o género. De uma/um atleta viva/vivo sul-africano é aparentemente muito mais complicado...! Será que as autoridades desportivas terão que pedir ajuda a alguém mais especializado?

14 outubro 2009

Amem-se ou deixem-se!

A relação entre Portugal e Brasil é um caso típico de um divórcio afectivamente ainda não consumado. Dois séculos após a separação ainda não conseguem olhar e falar um do outro de forma fria e racional e continuam naquela coisa bipolar do amor entrelaçado com o ódio.

Há um livro de Chico Buarque em que uma figura ridícula tem antepassados portugueses? Lá estão eles de novo a culpar Portugal pelo seu subdesenvolvimento! Por acaso não é essa a mensagem do livro e o autor até é grande demais para cair nessas tricas.

Agora há uma pretensa reportagem já com 2 anos de Maitê Proença, pretensamente humorística mas basicamente parvinha e é um “Ai Jesus!”. E lá vêm as patéticas exigências de pedidos de desculpa. Ora... Estas coisas tristes e infelizes ficam e classificam quem as profere e é tudo. Mal estaria o mundo se por cada parvoíce declarada os visados saíssem sistematicamente em cruzada de pedidos desculpas. Aliás, ironizar com a escolha de Salazar como o maior português de todos os tempos, nós podemos fazê-lo; que outros o façam é que não toleramos! Isto chama-se menoridade. Curiosamente o cuspir na fonte é bastante simbólico e outra menoridade, para não dizer criancice: a fonte tem história e o acto é de quem a quer renegar/provocar sem a conseguir ignorar. Parece o puto reguila a desprezar ostensivamente a história da família e a quebrar propositadamente uma peça de louça do serviço antigo dos avós. Se Maitê Proença se identifica com essa postura, não lhe fica bem mas é um problema seu.

Em resumo: amam-se ou deixem-se, ou, pelo menos, deixem-se destas susceptibilidades e arrogâncias gratuitas. É evidente que Portugal e Brasil têm muito em comum e a ganhar em conjunto. O primeiro passo é acabar com os estereótipos e as generalizações abusivas de que os “outros” são todos “assim”. O que está certo e justo aproveite-se e construa-se em cima; o que está errado e estúpido ignore-se.

13 outubro 2009

Dizer sem falar



Berlusconi: Mas que jeitosa que ela é ! Venham daí esses ossos e mais o resto! (E onde é que ele tem fixado o olhar??)
Obama: Bom, bom.... em que é este tipo está a pensar?!Michelle: Toma lá a mãozinha porque mais do que isso não vais tu apertar!
Cena passada durante a última cimeira do G20 em Pittsburgh e publicada na Jeune Afrique de 4 a 10/10/2009

11 outubro 2009

A expectativa basta ?

Por muito promissor que seja o mandato de Barack Obama, a atribuição do Prémio Nobel da Paz é, na minha opinião, errada. Obviamente que existe um muito salutar mundo de distância entre o seu discurso e a sua postura e o seu predecessor e isso é extraordinariamente positivo. Acho no entanto que um prémio Nobel deve premiar obra/realização/concretização e não atitude e expectativa. A atitude é fundamental. É o início e é por aí que tudo começa. No entanto é apenas o primeiro passo. Entre anunciar e fazer vai um grande caminho e doloroso caminho.

Que seria se um prémio Nobel científico fosse atribuído a alguém que apenas anunciou um muito interessante e ambicioso programa de investigação? Ou entregar o da literatura a quem declarou que pretende escrever um excelente livro?

06 outubro 2009

Ai Dona Manuela!

Por favor tirem a senhora deste filme e rapidamente. Acabo de ler uma notícia no DN com as seguintes declarações de Manuela Ferreira Leite, proferidas anteontem em Alcobaça :

Citação: “Nós estamos todos à espera de ouvir o Partido Socialista dizer de que forma vai alterar o programa eleitoral com que se apresentou ao país para que sofra os ajustamentos necessários para haver soluções de governabilidade";
Citação: “O PSD irá fazer uma oposição responsável, mas uma oposição que não abdica nunca dos seus princípios, dos seus valores, do seu programa”;
Comentário na notícia: A líder do PSD deixou claro que a responsabilidade de ajudar o PS a cumprir a legislatura deve ser entregue aos pequenos partidos, do CDS ao PCP e BE.
Em resumo e se entendi bem: O PS que por acaso até ganhou as eleições mas não tem maioria absoluta terá que fazer alterações ao seu programa/estabelecer compromissos para poder governar – tem alguma lógica.

O PSD que teve menos votos e perdeu as eleições não muda uma linha. Ou seja, os princípios do PSD são uma coisa imaculada e sagrada, não passíveis de ajuste. O PSD não está disponível para participar em compromissos e não tem nem assume nenhuma responsabilidade no esforço de “governabilidade” do país. Se realmente o PS necessita de apoio parlamentar para governar, que a arraia miúda faça o frete.
Parece uma espécie de birra da senhora: Como não nos deram a maioria então também não contem connosco.

Para quem faz da denúncia do défice democrático uma bandeira, não me parece nada bem.

01 outubro 2009

Falta o cão

De regresso à base depois de uns dias atribulados ouvi em diferido a famosa comunicação de Cavaco Silva sobre o caso das escutas. É má demais para ser verdade. Em vez de pôr claramente o assunto preto no branco, o PR só levantou poeira. Que é que interessa a formalidade de que ninguém pode falar em nome dele e de que não é crime um assessor ter uma opinião? Não é crime alguém pensar que o sol gira em torno da terra, mas há funções e posições cuja responsabilidade não é compatível com a divulgação de opiniões fantasiosas infundamentadas e não justificadas

O cenário de um assessor de confiança vir em nome do presidente pedir expressamente a um jornal para publicar uma suspeição deste calibre é muito grave. Pode não haver um enquadramento jurídico que a condene mas não é compatível com uma sã “coluna vertebral”, indispensável ao órgão Presidência da República.

Acha estranho o email ser publicado 17 meses depois... mas não acha estranho a notícia do Público ter saído 17 meses depois, sendo que é essa notícia que realmente está na génese do problema?

Sobre as suas acções há um monte de silogismos: “por causa disto, fiz aquilo..” que me ultrapassam completamente. Ou sou burro, ou ele, ou julgará que a audiência o é.

No final, a história das debilidades do seu correio electrónico. Ao apresentá-lo assim o que quer dizer? Que se calhar pode estar a ser espiado? Se é esse o caso, explique melhor porque de charadas e indirectas já estamos cheios; se é apenas um “preciso de actualizar o meu antívirus!” é bom que o faça, mas não devem existir muitos países no mundo em que um PR vem solenemente dizer ao país que os seus informáticos são uns nabos.

Relativamente ao conteúdo do famoso email o que toda a gente quer saber é:

1. O assessor do PR foi falar ao Público por sua encomenda ou não? Claro que não o assumirá, e desfia-nos a encontrar provas! Não sendo esse o caso também não haveria motivos para “fazer alterações na casa civil” – seria uma enorme injustiça!
2. O assessor inventou a trama toda por sua iniciativa? Devia ser severamente julgado e não simplesmente transferido de funções preventivamente!
3. Foi tudo invenção dos jornalistas.... hummmm. Que a Presidência o assuma então e veremos então a resposta de L. Alvarez.

Antes das eleições, eu dizia que o PR é uma espécie de guardião da democracia. Está lá para intervir apenas quando for necessário, não antes e achava que Cavaco Silva não tinha esse perfil. Iria tentar ser interveniente e não apenas guardião. Confirma-se e confirma-se também que não tem mesmo nível para ser Presidente. Falta um cão para controlar o presidente.

24 setembro 2009

O interesse e o princípio

Francisco Louçã é contra os PPR. Eu por acaso também acho que a renda da reforma deve ser fruto de uma transferência equilibrada (a equilibrar...) entre a população activa e a reformada e não principalmente fruto de poupança, mas aqui a discussão não é essa.

Ele teve um PPR, pequenino é certo, mas teve. Ana Drago comprou acções na privatização da PT. Poucas é certo, mas comprou. Na defesa Louçã levanta a bandeira dos pequeninos, são as poupanças de pobrezinhos, mas honestos. Só que em termos de princípios, não há escala.

Se o BE é contra os PPR e as privatizações de algumas empresas, pode-o defender com mais ou menos utopia, não há asfixia. Agora, o que não é defensável é o que interesse do proveito individual passe por cima do princípio. Para um partido tão virgem e puro, procurando capitalizar o facto de ainda não estar manchado por sobreiros, freeports, sln’s e afins, é muito mau!

23 setembro 2009

Alguém tem ainda paciência para estes dois?



E cá estão eles outra vez! Para quê não sei. Li o livro de Gonçalo Amaral, “A verdade da mentira”, entretanto judicialmente banido. Parece que o ex-inspector da PJ está proibido de prestar declarações em defesa da sua tese de que Madeleine está morta e os pais envolvidos. Dir-se-ia que é uma espécie de asfixia, não?

Não entendo nada destes meandros jurídicos, mas da leitura do livro fiquei com algumas questões sem resposta:
  • Porque apagaram o registo das mensagens nos seus telemóveis?

  • Porque “arrumaram” o apartamento antes da chegada da polícia?

  • Será normal que um casal de médicos com 3 filhos daquelas idades, em férias num país estranho, não traga medicamentos?
  • Porque estiveram com a mala do carro aberta a arejar um largo tempo, quando souberam que iam chegar os cães pisteiros?
Ou estarei proibido de publicar isto??

Nota: Foto do DN

21 setembro 2009

Não aconteceu nada – é só fumaça!

Foi com uma frase deste tipo que Marcelo Rebelo de Sousa caracterizou o caso das escutas. Dá-se um puxão de orelhas ao assessor e pronto: não se fala mais no assunto! Oh Sr Professor! O que diria o Senhor se o assunto fosse do outro clã ou até mesmo do seu, mas não assim em cima das eleições? Não haverá aqui mais nada a explicar!??

E o Sr Director do Público que de manhã acha e acusa que somente os serviços secretos poderiam ter entrado no sistema informático do jornal (está a precisar de umas aulas básicas de “segurança em informática é apenas uma questão de tempo e empenho” - até um puto teimoso consegue entrar na Nasa) e a seguir, diz que não, que “detectaram” a saída do email do jornal. Diz o provedor do mesmo jornal que ele e outros jornalistas tiveram o seu correio electrónico hierarquicamente devassado – provavelmente dentro do âmbito da acima referida acção de detecção.

E diz a Dra. Manuela, sempre um passo atrás dos acontecimentos, já depois do desmentido, que não quer viver num país em que o Director de um jornal de referência é espiado! Oh minha senhora: os seus assessores não ouvem as notícias nem lhes actualizam os discursos? E viver num país em que o Presidente da República organiza o lançamento de sibilinos mísseis institucionais deste calibre, não a incomoda?

E diz o Dr Paulo Rangel que não vê no PS solidariedade com os jornalistas do Público! A título de quê é que esta solidariedade deveria ser prestada é que não entendi. Porque se merecem alguma é contra serem objecto de maquinações dos assessores. Na prática não o merecem porque por motivos não explicados, dispararam o míssil mesmo antes das eleições e esquecendo-se de referir que a “pista” da Madeira já tinha sido investigada e não tinha dado nada.

Ontem no telejornal vi lá o Dr Jorge Sampaio e pensei: se este homem se candidata às próximas presidenciais que acontecerá ao PR actual? Conseguirá a proeza de não conseguir fazer os dois mandatos?

Hoje o Dr Cavaco Silva transfere o assessor para outras funções, talvez seguindo o conselho do Prof. Marcelo. Só que esta fumaça deixou cinzas e não vale a pena soprar ou varrer para debaixo do tapete. Vão ficar agarradas às solas dos sapatos do PR.

19 setembro 2009

Uma campanha diferente

Esta campanha tem algo de diferente das anteriores.

Os debates entre os protagonistas tiveram picos de audiências. Qual a parte devida ao interesse genuíno na discussão das propostas e a motivada pelo espírito do duelo, do circo, do gladiador e de assistir em directo à “porrada” não sei dizer. Não deixa de ser curiosa a necessidade que os media tinham de no final arbitrar quem ganhou e quem ficou por terra.

As entrevistas pelos “Gatos Fedorentos” foi uma novidade absoluta. Aqui pode-se colocar a questão sobre se parte do interesse não seria pelo “voyeurismo” e por querer ver o “sangue” da humilhação. O certo é que as legislativas são eleições para primeiro-ministro em que a personalidade do candidato conta muito e é em terrenos diferentes e imprevisíveis que as naturezas se revelam. Curioso de ver o Paulo Portas terrivelmente assustado, aquela voz a falhar até nem sei se não seria dos nervos, e a absoluta e assustadora falta de humor de Louçã, que só se dá bem a falar sozinho.

O quer que esteja a motivar ou a ajudar ao interesse demonstrado, o principal é sem dúvida haver interesse e isso chama-se democracia viva.

E, se querem um palpite, as “bolas fora” de Manuela Ferreira Leite, o facto de não estar em causa um Parlamento Europeu que pouco nos afecta directamente e de não estar do outro lado uma figura fraca como Vital Moreira, deve levar a um resultado muito diferente do PSD face às Europeias. Pela parte que me toca enquanto vir por lá o Santana Lopes, continuo desconfiado.

E sobre o caso do Público ainda vou deixar a poeira assentar.

12 setembro 2009

Desde que antes se lavem as mãos...!


O Ayatollah Mesbah Yazdi é uma figura influente em Teerão e conselheiro do presidente Ahmadinejad. Recentemente colocaram-lhe umas questões sobre os limites aceitáveis no interrogatório de infiéis, a que ele respondeu da forma que transcrevo a seguir.

P: Pode-se considerar lícito do ponto de vista islâmico utilizar meios de pressão psicológicos, emocionais ou físicos?
R: Obter a confissão de qualquer um que é contra a Velaya-é-Fagih (regime islâmico de direito divino) é islâmicamente licito, não importa de que maneira.

P: Pode-se drogar ou dar opiáceos ou qualquer outra substância para conseguir as confissões?
R: Respondo de forma igual à da pergunta anterior.

P: Durante um interrogatório, para obter uma confissão, pode-se violar um prisioneiro?
R : Convém que o interrogador faça as abluções rituais antes e que reze enquanto viola o prisioneiro. Se for uma prisioneira pode-se agredir tanto a vagina como o ânus. Convém não ter testemunhas quando for uma prisioneira, mas para um prisioneiro pode haver quem assista.

P: Q violação de homens e jovens é considerado um acto de sodomia?
R: Evidentemente que não, uma vez que não há consentimento. Se o prisioneiro demonstrar prazer enquanto é penetrado, então não se deve recomeçar.

P: E no caso de uma mulher virgem?
R: Há uma tolerância no caso de uma violação em nome do Islão. Se a pena é a morte, então o que interrogou tem uma recompensa equivalente a uma grande peregrinação hadj (como a Meca) mas se não há pena de morte então o autor é considerado como tendo feito uma peregrinação a Karbala.

P: O que acontece se a prisioneira ficar grávida? A criança é ilegítima?
R: Uma criança nascida de qualquer mulher em luta contra o Valayat é Faghih é considerada ilegítima, quer seja consequência de uma violação ou da sua relação com o seu marido, segundo o nosso Santo Corão. Se a criança for criada pelo interrogador então será um muçulmano chiita legitimo.

E o pessoal que se insurge violentamente contra os interrogatórios musculados das prisões de Bagdad e de Guantanamo, que por acaso até parece que darão processo a sério em tribunal, não tem nada a comentar sobre estes propósitos? Assobia para o lado?

08 setembro 2009

O Sr canta brejeiro e até fala inglês

Fuck them!” foi a bonita exclamação proferida pelo Sr Alberto João, dirigida aos jornalistas, quando questionado sobre o facto de a líder do PSD em visita partidária à Madeira ter utilizado o carro oficial do Governo da Região nalgumas deslocações.

O fundo da questão, por muito errado que esteja, até nem é um escândalo dos maiores nem raro. A enxurrada de inaugurações que por todos os lados precede as eleições é obviamente uma utilização abusiva dos bens e dos recursos públicos com objectivos partidários.

Agora, este bobo da corte vai longe demais. Interrogo-me se já alguém se lembrou de fazer um reportório de todos os insultos e calúnias que este senhor distribuiu ao longo destes anos a pessoas e a instituições do país? Se moralmente é muito para lá dos limites, acho que mesmo legalmente é capaz de já dar matéria para mais qualquer coisa.

Porque é que ele se mantém intocável? Por um lado, os jornalistas gostam destes cromos que apimentam os títulos e as primeiras páginas; por outro lado acho que ao PSD (excluindo talvez Marques Mendes) dá jeito ter assim um “Joker” a quem tudo se “desculpa” e que envia impunemente uns torpedos aos “cubanos da oposição”... De facto, é raro haver um acontecimento ou simples hipótese de acontecimento que não tenha direito a um público e bem difundido arroto do Sr, que sabe inglês!

Só que desta vez o torpedo é boomerang. Azar dos azares: Manuela Ferreira Leite um dia acusa o PS de asfixiar a democracia do país, no dia seguinte está na Madeira e diz que lá é tudo exemplar? Ó minha senhora!!! Cadé o seu rigor e seriedade, imagem de marca e seu principal activo? Não entende a senhora que tudo e mesmo tudo de que acusa o PS e Sócrates, na Madeira está amplificado com factor 10? E é exemplar assim ? Se a coisa já tinha ficado tremida com a escolha de Santana para a Câmara de Lisboa, estas palminhas ao brutamontes estragaram o resto.

Foto do site do "Público"

06 setembro 2009

A Massa para a Biomassa

Quando todos os anos se vê a energia libertada pelas chamas dos incêndios florestais, mais milhar de hectare, menos milhar de hectare, sendo uma boa parte dela originada por mata não limpa, pode-se imaginar o quão interessante seria aproveitar controladamente essa energia, em vez de ela se perder assim destrutivamente.

Antigamente esse aproveitamento ocorria porque se “ia à lenha”. Hoje há formas mais complexas e de em grande escala gerar energia com esse material, genericamente designado por biomassa. Dentro do programa de desenvolvimento de energias renováveis e da redução de dependência dos combustíveis fósseis, a biomassa é um eixo importante. Em contas por alto e em fases diversas de realização podem-se contar aí umas vinte centrais em desenvolvimento.

Só que... só que enquanto o fogo chega rapidamente ao mato, os largos milhares de toneladas de mato em questão não chegam assim tão facilmente às caldeiras dessas centrais. Tem custos. Dentro do esforço político de promover as energias renováveis para ajudar a rentabilizar o investimento na central, subsidia-se o valor de venda da energia produzida. Os investidores acham pouco: em Espanha e noutros países europeus é o dobro.

Ora bem, faz todo o sentido “potenciar” esta actividade, mas seria bom que entrasse nas caldeiras unicamente mato e subprodutos florestais e não árvores inteiras de madeira boa. É que ao contrário da solar que não rouba Sol a ninguém, aqui a floresta está por trás de duas importantíssimas actividades económicas em Portugal: a pasta/papel e os painéis de aglomerados. E ambas não têm naturalmente subsidio à venda nos mercados internacionais para poderem acompanhar o aumento do custo da matéria prima inflacionada por uma ajuda excessiva à produção de energia eléctrica a partir da biomassa.

Nem sempre o simples livro de cheques público é a melhor solução. Em vez de subsidiar o preço do Kwh produzido porque não, por exemplo, pôr a população prisional a limpar as matas e a recolher a biomassa dos montes?

04 setembro 2009

O despedimento da cabeleireira

Se o objectivo era limitar e condicionar a difusão de informação comprometedora sobre o Freeport, era e foi naturalmente inconsequente. Se o objectivo era castigar Moura Guedes, a altura é a pior. Se foi mão do PS é o chamado “tiro no pé” – Grande azelhice!
Mas, se o PS pode pedir esse "favor" à Prisa, também poderia pedir a suspensão ou adiamento da acção, não?

Terá o PSD conseguido maquiavelicamente este golpe (in)oportuno? Naaa, se fosse o Paulo Portas ou o Marcelo Rebelo de Sousa, talvez. Enfim, não sei!

Ou terá simplesmente alguém ter achado que a linha editorial da senhora que, como eu digo atrás parece muito mais o de uma sibilina cabeleireira de bairro do que o de uma jornalista não prestava e ter decidido acabar com essa pobreza?
Se a Prisa está em aperto financeiro e quer vender a Media Capital, pode ter pressa em desinfectar a casa (e quem conhece os espanhóis sabe que quando decidem, não são muito de empatar com rodriguinhos).

03 setembro 2009

João Gonçalves Ferreira



Originário de Galegos, Barcelos, como tantos outros incluindo as Ramalho.
Encontrei-o por acaso nas Festas de Viana e gostei da originalidade dos cenários e das expressões dos bonecos.


PS: Sobre o despedimento da "cabalereira" falo amanhã porque me cheira que quem comentou à pressa ainda se vai arrepender.

01 setembro 2009

Eu entendo, mas...

Eu entendo que em campanha eleitoral o pessoal se entusiasme mas enfim....

Francisco Louça diz que é preciso desprivatizar. Que se as Águas de Portugal não devem ser privatizadas porque assim será possível garantir água gratuita aos portugueses.... Gratuita? Porquê ? Virá da chuva directamente para os nossos depósitos? Os custos de captação, tratamento e distribuição serão pagos por quem? Por S. António, S. Pedro ou S. João? Ou pelos ... impostos ... ? Será que o economista está a precisar de formação contínua?

Paulo Portas no mesmo telejornal consegue defender que se devem contratar desempregados com condições especiais.... e deve ser possível fazer horas extra sem carga fiscal...Reduzir as horas extras, não será uma forma de dar trabalho aos desempregados? Não é fácil ser o verso e o reverso ao mesmo tempo...

Enfim.....

30 agosto 2009

O Centrão

À aproximação das eleições lá vêm de novo para as primeiras páginas essa palavrão com conotação depreciativa, que me irrita.

Se quando se fala de centrão, se refere ao centrão do poder, dos dois partidos que entre poder e oposição, entre cargos públicos e para-públicos se vão governando, aceita-se depreciação.

Agora, quando a expressão se aplica ao eleitorado que vota por opção individual e assumida, de forma não clubística, acho essa ironia uma grande falta de respeito pela democracia. Posso entender que os partidos gostariam de ter e de ver o seu eleitorado fiel, em que pudessem fazer uma contabilidade certa e previsível sem surpresas desagradáveis. Entendo que gostassem que não houvesse deserções, mas diminuir ironicamente quem tem opinião e decide por si é negar a essência da democracia.
Nota final: eu pertenço, com orgulho, a esse grupo de pessoas

28 agosto 2009

Mourinho e Ramadão

O Ramadão é um mês lunar em que os muçulmanos praticam uma série de abstinências entre o nascer e o pòr do sol, que incluem não comer nem beber. Como o calendário é lunar, avança cerca de 10 dias por ano e em 2009 será entre 22 de Agosto e 20 de Setembro, coincidindo com longos e quentes dias.

Mourinho referiu-se a um dos seus jogadores muçulmano, substituído após meia hora de jogo, dizendo que jejuar não seria bom para o seu desempenho, especialmente nesta altura do ano. Alguém racionalmente discorda?

A União das Comunidades e Organizações Muçulmanas de Itália reagiu de imediato, para logo de entrada o mandar calar. Só que Mourinho não disse que o jogador não devia ser muçulmano, apenas que não é fácil jogar futebol de alta competição em jejum e desidratado....

Acrescentou essa associação que “Um jogador [muçulmano] praticante não está debilitado. Sabemos, graças ao instituto de medicina desportiva, que a estabilidade mental e psicológica dá uma vantagem”. Não digo que não, mas quererá isso dizer que os desgraçados que não aguentam, como os 300 casos que já requereram assistência hospitalar na Argélia, são apenas consequência de pouca fé?

Por um lado, ainda bem que assim responderam. Seria pior que reconhecessem que fisiologicamente não é adequado o esforço solicitado em jejum e exigissem que, por “respeito”, todas as competições desportivas envolvendo muçulmanos passassem a ser realizadas exclusivamente após o por do sol.

25 agosto 2009

Caminho do Fim da Terra



Dizem que o corpo desembarcou na ria de Arosa, ali para os lados de Padrón, e que voou até se instalar onde agora é Santiago. Afonso II das Astúrias tomou o caminho “primitivo” de Oviedo até ao local miraculado.

Na época da reconquista em que a cruz era bandeira, a relíquia do apóstolo ali ao lado catalisava energias e aguçava vontades. Acabou a guerra há muitos séculos e o “mata-mouros” perdeu esse interesse táctico.

Até li recentemente que uma estátua do dito exposta na catedral, recebeu umas tácticas flores para esconder os sarracenos que jaziam aos pés do lutador, por causa das “sensibilidades e susceptibilidades” (piiiii de auto-censura para não acrescentar palavrões).

Ficou o caminho que, desde várias origens, até aquele Finisterra, fizeram de Compostela um burgo singularmente universal, daqueles em que cada esquina tem cheiro forte.

Para lá das cruzes do caminho, sem dúvida que aquele é um caminho, vários caminhos, como mais nenhum... até ao fim da terra.

17 agosto 2009

Ventos

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Há muitos ventos.

Há o bom velho vento norte. Certinho e inimigo irreconciliável dos que gostam de bacalhoar na areia. De vez em quando lá se irrita um pouco mais e torna-se realmente desagradável, mas é um vento higiénico que nos limpa os ares com eficácia.

Há o vento sul húmido que fecha o céu e traz água. Há o vento do mar que traz tormenta. E sobra um ponto cardial para o vento dos tolos que aquece o verão e arrefece o Inverno. Estes são os ventos que eu conhecia. Mas há mais.

Há o vento que não se entende bem donde vem e para onde vai. Sopra com arrancos e paragens ameaçadores. Não será o vento dos loucos, mas enlouquece.

14 agosto 2009

Eu sei que eles se lavam pouco, mas....

Quando vivi na Bélgica notei que os hábitos higiénicos locais são um pouco abaixo dos nossos padrões. Olhos arregalavam-se ao ouvir contar que há quem tome banho diariamente e num dia, raro, de canícula acima de 30º, alguém comentava: “Não há hipótese! Com este calor tem mesmo que se mudar de camisa todos os dias”. Não questionei qual seria o limite a partir do qual a camisa lavada diária se tornava indispensável. Pode até mesmo existir uma curva com o número de dias em que se aguenta a mesma camisa em função da temperatura. Eventualmente no Inverno durarão a semana inteira.

Vem isto a propósito de um artigo que li no último número da “Jeune Afrique”, uma espécie de crónica, em que o autor se insurge contra a quantidade de calçado usado oferecido pelos Belgas a ONG’s e que vão calçar africanos descalços. Acrescenta que sendo usados em particular e logicamente nos pés, se trata quase de exportação de um produto tóxico, podendo provocar doenças nos pés dos africanos que os recebem: micoses, eczemas e mesmo a peste! Um escândalo!

Oh pá! Eu sei que ele se lavam pouco, mas daí a ser perigoso a esse nível vai uma distanciazinha e um bom bocado de ridículo! É que nisto de doenças, as da “casa” são sempre mais toleráveis. Tudo o que pode acontecer, e pode acontecer muita coisa ,ao andar descalço numa rua africana é normal; o facto de no meio de uns milhões de sapatos poderem vir algumas sandálias “tóxicas” é que é absolutamente inaceitável!

12 agosto 2009

Valeu a pena

Não há muito tempo e por mero acaso vi passar à frente dos meus olhos na televisão uma daquelas cerimónias pretensamente chiques e mundanas de entrega de prémios. Começam a ser tão frequentes que não sei se haverá stock de “glamour” suficiente para abrilhantar tanto evento. Tratava-se da “III Gala Amália” e o Prémio Composição Poesia foi para um tal Sr Moniz Pereira que do alto dos seus 88 anos entrou divertido no palco em passo de corrida.

Se há momentos em que apetece bater palmas e tirar o chapéu no sentido literal ou figurado da palavra, esse foi um deles.

Aquele “Senhor” estava ali para ser homenageado pelo seu contributo para o fado e, mesmo ignorando o autor, toda a gente conhece e sabe trautear o “Valeu a pena, ter vivido o que vivi, ter sofrido o que sofri....” . Mas aquele “Senhor” é também o responsável pelo desenvolvimento do atletismo português que, em Los Angeles, faz hoje 25 anos dava a Portugal a sua primeira medalha de ouro olímpica.

Um outro “Senhor” entra nesta história, Carlos Lopes, que com 37 anos (sim, trinta e sete) e um atropelamento 2 semanas antes enquanto treinava, emocionou o país inteiro nessa célebre madrugada.

Em termos de meios e de condições estávamos a anos-luz do Pequim 2008, onde algumas declarações pareciam mais de gente divertida em passeio de finalistas do que aplicada num desafio de alta competição.

Sem diminuir a importância dos recursos e da existência de cada vez melhores condições, atingir algo que vale a pena passa por esforço humilde, trabalho rigoroso e... acreditar.
Senão, ficamos pela diversão.

10 agosto 2009

Ainda história de histórias

Continuando com a história sobre histórias e que nem era uma história, avanço com uns complementos para a teoria:
  • Quando não há história de suporte e apenas lá está a conceptual, é um poema;
  • Quando a capacidade de síntese é elevada e a história factual é minimizada, fica um conto, uma espécie de poema em roupagem mais macia;
  • Quando uma história tem centenas de páginas que se esgotam ao dobrar cada uma, é um escrito de um jornalista que julga ser romancista.

09 agosto 2009

A Vida Não Se Perdeu


Não consigo alinhar bem as razões objectivas mas Raul Solnado foi único, genuíno e grandioso.

Um crítico irónico tende a criar inimigos, mas olha-se para aquela expressão e fica-se a imaginar como é que alguém se conseguiria alguma vez zangar com ele. E ele “meteu-se” com toda a gente, não poupou nem se poupou.

Tinha um claro entendimento do limite entre o humor provocatório e a vulgaridade grosseira, jamais pisado.

As rábulas que toda a gente conhece passaram do gravador de fita de enrolar do meu pai para o CD sem ganharem o mínimo cheiro a bolor.

07 agosto 2009

Roubo, mas faço!

A célebre frase veio para os títulos e para as primeiras páginas a propósito dos gestores de coisa pública que “fazem obra”, assumindo até com orgulho existirem ilegalidades associadas. Uma forma de dizer que os fins justificam os meios. Há contextos diferentes. Uns são pura e simplesmente ladrões básicos, outros entendem que sendo mal pagos têm direito moral a um complemento de retribuição não oficial, noutros casos vem o argumento de que “a cumprir integralmente a lei nada se consegue fazer”. O último caso é o mais subtil e por isso o mais perigoso.

É típico do sub-desenvolvimento haver uma entidade que pede um carimbo à esquerda e outra que pede um carimbo à direita sendo que dois carimbos, um à esquerda e outro à direita, também não são aceites. Neste caso a opção é entre parar e nada fazer ou avançar de alguma forma, sabendo que o que quer que se faça com o carimbo será sempre ilegal.

Convém então separar bem duas situações diferentes. Uma coisa é o envelope gordo do empreiteiro, outra coisa é um carimbo mal aplicado. Se a legislação ainda tem problemas com “carimbos” que faça o trabalho de casa. Enquanto não for feito esse trabalho de casa, a justiça que se preocupe então prioritariamente com os envelopes. Pode ser mais fácil detectar e condenar carimbos mas não é aí que está o problema sério.

05 agosto 2009

Emissões zero, sim, pois...


O novo Nissan Leaf apresentado estes dias como o primeiro automóvel eléctrico de grande massa, foi anunciado como sendo de “zero emissões”! Ora, isso não é nada de novo. O meu carro nas descidas quando não toco no acelerador também é zero emissões! Não gasta combustível nem polui nada. Obviamente que é uma argumentação falaciosa porque a estrada não é sempre a descer. É necessário avaliar o ciclo completo.

Aqui é um pouco o mesmo. Quando o veículo parte com as baterias carregadas é como o meu automóvel nas descidas. Mas, e como se carregam as baterias? Com energia eléctrica! E como se consegue a energia eléctrica? Bom, um parte hídrica, está bem, um bocadinho eólica e uma grande parte de centrais térmicas a carvão, a petróleo e a gás que são tudo menos “emissão zero”.

E vamos esquecer o impacto ambiental das baterias no fim da vida. Como qualquer utilizador de telemóvel ou de PC portátil sabe, elas até têm por vezes uns caprichos suicidas esquisitos...

No fundo. é o mesmo argumento do hidrogeno. É limpinho depois de carregar o carro com o gás. Para o produzir... é necessária energia eléctrica, a mesma que carrega as baterias como visto acima.

Como a eficiência energética dos motores térmicos de explosão que temos, salvo erro, anda à volta dos 30%, pode ser que no global, apesar do transporte da energia eléctrica, o bicho até seja ecologicamente mais simpático. As centrais especialmente de ciclo combinado têm melhor rendimento e ele recupera energia nas travagens. Agora deveriam era apresentar as contas do ciclo completo. Este “marketing” ecológico simplificado está a tornar-se uma praga díficil de aturar!

02 agosto 2009

Contar uma história

Não é que eu o tenha estudado, é apenas um palpite. Acho que bem contar uma história tem vários níveis e planos.

Há a história de suporte, a factual. A parte narrativa: abriu a porta, disse isto, olhou para acolá. É a parte que gasta tinta e papel.

Há a história de fundo, a conceptual. Não se escreve directamente, é derivada da factual de suporte.

Há as marcas. Referências que vão ancorando a história de suporte e deixando bandeiras para a delineação da história de fundo.

Uma escrita somente com relato factual por mais elegante e clara que seja é apenas uma reportagem. A boa escrita é aquela que vai deixando marcas criteriosamente e cirurgicamente para no final: clique. De um momento para o outro revela-se o conceito de fundo e completa-se o quadro. Pode até nem ser uma grande conclusão filosófica nem uma suprema evidência estética. Tem é que ter algo que sobressai claramente e permanece depois de passada a última página. Como o travo final que fica na boca depois de um bom vinho ter descido pela garganta.

E terá ficado algo no fim desta pequena história?

31 julho 2009

Água não ecológica




Este mundo tem uma capacidade infinita de me surpreender. Num jornal francês que me passa à frente do nariz por acaso leio que algures na Nova Zelândia uma cidade decidiu proibir a água engarrafada. Por motivos ecológicos, para reduzir as emissões de CO2. Porque gasta embalagem, porque o seu transporte tem um impacto ambiental significativo e por aí fora.

A mensagem é: tem sede e é um cidadão ambientalmente correcto? Então vá a torneira! E nem sequer é sensibilização. É proibição! Pelos vistos, muitos ecologistas aplaudem e gostariam de ver a medida alargada ... até ao infinito da idiotice.

Ora bem. Para mim beber água não corresponde apenas a satisfazer uma necessidade elementar. Beber água é muitas vezes um prazer. A água não é toda igual: tem gosto, umas mais ao meu gosto, outras menos.

E, além disso, é bem mais saudável beber água recolhida directamente de uma nascente pura e limpa do que água captada no verdete de uma barragem qualquer e que depois de passar por uns filtros e receber uns aditivos, viaja por uns tubos mais ou menos bons até às nossa torneiras.

Se querem ser fundamentalistas, proíbam antes as porcarias das bebidas doces (in english: soft-drinks). Essas sim, com água da torneira e uns pozinhos conseguiriam ser facilmente produzidas em casa, com menos impacto ecológico e, aposto, muito mais saudáveis!

Se esses toscos não sabem beber água, abstenham-se ao menos de procurar impor essa limitação ao resto do mundo...
Não invejo de quem tem
Carros, parelhas e montes
Só invejo de quem bebe
A água em todas as fontes!

28 julho 2009

As férias e o período de férias...

Alturas houve em que Agosto era o mês das férias. As empresas fechavam e pronto! Toda a gente sabia que em Agosto nada acontecia e tiravam-se férias tranquilas, penso eu, já que não apanhei essa fase. Só apanhei bastante mais tarde alguns clientes que decretavam: os nossos serviços financeiros estão fechados em Agosto e atrasa tudo um mês. Um factura vencida a 30 de Agosto será paga a 30 de Setembro!

Depois, com a pressão e o esticar, o mês reduziu para duas ou três semanas. Aí começou o problema. Não sendo os períodos necessariamente coincidentes lá vieram os protestos e o “direito” a férias a ficar em questão.

O passo seguinte foi “não fechar”. As pessoas desdobram-se e garante-se continuidade e serviços mínimos. Em teoria pode estar certo mas na prática só funciona para estruturas sobredimensionadas e para organizações em que os clientes aceitam esses serviços mínimos, o que é cada vez mais raro. Recordo-me de um cliente que sem pré-aviso encomendou na última semana de Julho um projecto complexo e que queria arrancar a sério, de imediato, porque tínhamos dito que em Agosto “não fechávamos”. Só sossegou quando sem querer, mas meio simbolicamente, dobrei e parti intempestivamente uma régua de duplo decímetro durante uma reunião. Era uma reunião de serviços mínimos em Agosto em que ele queria à viva força que respondêssemos imediatamente a tudo o que era pedido.

Assim, as férias são cada vez menos um tempo de descanso e cada vez mais uma período de enorme pressão em que para lá do habitual, nem sempre pacifico, se soma o ter que fazer o mesmo... em serviços mínimos.

Analiso e concluo que férias, mesmo férias, apenas as tive nas alturas em que mudei de empresa. Aí, efectivamente, entre o sair duma e o começar na seguinte consegui ter férias....

26 julho 2009

Empurrar com a barriga, vazia

Em tempos, ao definir as qualificações requeridas para um posto de trabalho, alguém dizia que bastando saber ler e escrever seria suficiente a “4ª classe”. Na altura acrescentei que estava de acordo, mas desde que fosse uma 4ª classe das antigas! Porque, realmente, antigamente saía-se desse nível a saber ler e escrever. Quer dizer... quase todos saiam. Alguns poucos que não conseguiam mesmo assimilar o programa mínimo lá andavam até ao limite de idade, sendo caridosamente aprovados pelos professores, desde que fosse bem claro que não iriam prosseguir os estudos. Esses professores tinham brio e vergonha de entregar gente mal preparada aos colegas seguintes.

Hoje este problema da 4ª classe multiplicou por três e passou para 12 anos. E encontrou-se uma solução chamada “novas oportunidades” para desencalhar o pessoal. Se é análogo aos que “faziam” a 4ª classe com 14 anos, apenas para poderem tirar a carta de condução, talvez se entenda. No entanto, se o 12ª ano NO é igualzinho ao normal, tirado a sério e com esforço em termos de qualificação profissional e acesso ao ensino superior, é uma enorme injustiça. Já se está a ver a malta toda a aproveitar descaradamente a oportunidade para conseguir o “mesmo” com menos trabalho.

E, por falar em ensino superior, se hoje já há quem por lá ande, simplesmente andando, concluindo uma cadeira em cada ano, como ficará quando lá chegarem os NO’s? Há uma solução: criar licenciaturas NO concluídas em 6 meses e não muito complicadas para “resolver o problema”. No final teremos muitos e muitos licenciados que se criaram e formaram no facilitismo absoluto e que ... esperarão novas facilidades.

Não sou de forma nenhuma contrário à diferenciação de curricula. Tem é que ser clarificado e assumido. A não diferenciação mata o mérito e nem vale a pena pensar sobre um país de gente formada desta forma desenrascada. Por este andar iremos ter muitos “mestres” que na realidade terão qualificações inferiores a uma 4ª classe... das antigas.

24 julho 2009

O centro



Pode estar constantemente pejado de turistas poluidores visuais e sonoros.

Pode não haver pachorra para tanto espanhol a cacarejar altíssimo pelas ruas, japoneses frenéticos e brasileiros deslumbrados.

Pode ser irritante ouvir as tias e os tios no aeroporto a desabafarem “Nem imagina como estava a Louis Vuitton hoje à tarde!!”. “Ah sim? Mas qual delas?” E discutem como grandes connaisseurs as diferenças entre os várias locais de cada marca (não é qualquer um que atinge este nível!).

Podem os parisienses serem em geral uns arrogantes de nariz empertigado.

Pode haver tudo isso e muito mais, mas quer queiramos quer não, aquela agulha representa o centro de um certo mundo.

21 julho 2009

A escrita não se dita

Não é de hoje nem de ontem. É de sempre, desde que o abecedário me chegou às mãos. Consigo ler o que está escrito sem problemas, consigo redigir o que penso com alguma facilidade, mas não consigo “ditar” em detalhe algo para outrem escrever. Nem sequer tendo eu a esferográfica ou o teclado. Sou incapaz de realizar uma redacção colectiva.
É dos momentos mais embaraçosos e deprimentes estar com uma ou várias pessoas face a uma folha de papel em branco e:
  • Então como é que se começa?
  • Humm... . como é!?!
  • Diz lá então...
E depois dos primeiros rabiscos:
  • Não, não está bem assim!
  • O que é que se acrescenta?
  • Assim?
  • É melhor ao contrário!
Um desespero!!
Mesmo pegando na folha de papel e nos comandos e pedindo silêncio, sou incapaz de escrever algo de raiz em colectivo. Se for uma pequeno ajuste ou correcção a texto existente, ainda vai; agora se for na base do rasgar a folha e começar de novo é absolutamente impossível.
A escrita ainda não escrita não se dita. É uma questão pessoal e solitária.

19 julho 2009

Uma sagrada hipocrisia....!

A gente lê e quase nem acredita...
Excerto de uma notícia publicada recentemente no DN:

"Para poder receber o sacramento do matrimónio, no qual os católicos crêem que Deus valida de forma indissolúvel a união do casal, Rita teve de provar que o mesmo gesto que fizera sete anos antes não fora válido. Que o seu primeiro casamento realizado na Igreja, com Daniel, foi nulo, porque não assentou nos ideais base do matrimónio cristão: casar para toda a vida e constituir família. Através de um tribunal eclesiástico, que analisou o caso ao longo de vários meses, ficou demonstrado que o contrato estava, à partida, viciado. Apesar de na altura ter pronunciado as mesmas palavras de amor eterno, interiormente, Rita nunca quisera assumir uma relação para sempre. Nem tão pouco desejara ter filhos
[...]
“Eu disse sempre que não queria ter filhos. Mas ele pensava que eu ia mudar de ideias", recorda Rita, advogada de 31 anos, recuando ao ano em que conheceu Daniel, o rapaz giro e bem-disposto com quem casaria após um ano de namoro. "Nem sei bem porquê. Talvez por ser nova e ter um feeling que aquilo não seria para sempre. E que, se tivesse filhos, se tornaria irreversível. O que me prendia para a vida, eu rejeitava", explica. Tinha 24 anos e uma educação religiosa, mas a vida espiritual ficara para trás, no colégio de freiras.
[...]
Antes que o ex-marido fosse notificado pelo Tribunal de Viseu, onde acabou por vir a correr o caso, Rita contou-lhe a sua intenção. "Não gostou muito da ideia, mas colaborou. No depoimento disse que para ele o casamento era para sempre. E que eu é que não o tinha respeitado", afirma, reconhecendo que as suas palavras duras até lhe foram favoráveis, pois comprovaram que a união estava viciada. Além de Daniel e Rita, foram ouvidas testemunhas que confirmaram o estado de espírito na altura do casamento: a exclusão dos filhos por parte dela e a imaturidade. Outra pessoa testemunhou a mudança radical na forma de encarar o casamento e o desejo de constituir família.

Prova disso foi o nascimento da filha, ainda antes de sair a sentença. E a vida religiosa, praticada agora com devoção. Ansiosos pela confirmação da decisão, Rita e João não casaram a 28 de Dezembro, dia da Sagrada Família, como tanto desejavam. Fizeram-no dois meses e meio depois. Com a igreja cheia e três padres no altar."

Em resumo: a mesma instituição que quase excomunga e recusa a comunhão a divorciados banais, anulou o casamento da menina, a pedido da própria, porque na altura ela era imatura e não tinha pensado a fundo no assunto. E tanto mudou que a filha do segundo casamento até nasceu antes do primeiro ser anulado...!
Questão: O resultado seria idêntico com outros protagonistas: se ela não tivesse sido criada em colégio de freiras; se o segundo marido não fosse um “católico fervoroso” e se não fossem gente de colocar três padres no altar!? Cheira-me que não e, por isso, algo está podre no reino deste crucifixo...

17 julho 2009

No meu tempo...


Testemunho antigo:

"Nascemos com a Lua aos pés, trazida em transmissões directas..."

Nos 40 anos da viagem histórica da Apolo 11, quem imaginaria que poderíamos dizer hoje aos nossos filhos e mais tarde aos nossos netos, com um toque de nostalgia:

“No meu tempo... no meu tempo... no meu tempo o homem caminhava na lua!!”

Valeu a pena? Se a nossa vida actual não seria muito diferente se o homem não tivesse chegado à Lua, a alma, essa sim, estaria mais pequena.

Dizia Gedeão que é o sonho que faz o mundo pular e avançar. Mas não basta. Para mexer mesmo a sério, é preciso mais. Sem a motivação gerada pela Guerra Fria USA/URSS, em cuja contabilidade também contavam as bandeiras científicas tecnológicas, nunca a exploração espacial teria tido o mesmo ritmo, empenho e amplitude.
Por outro lado, e mais concretamente, 8 anos antes de 1969 John Kennedy tinha definido o grande obectivo de colocar um homem na Lua antes do final da década de 60. E, sem esse objectivo claro e a grande pressão associada, a NASA teria feito o melhor possível mas não necessariamente antes do final da década.

Para terminar fica a natureza da motivação. Quando um enorme desafio é lançado, o que motiva e mobiliza vontades para atingir esse “impossível”? O chicote? O cheque? A vergonha da humilhação de falhar? O simples prazer e satisfação de cumprir? A vaidade e o orgulho pessoal ou colectivos? Tanta coisa e tão diversa que nos perdemos. O certo é que é na natureza dessa motivação que se define a qualidade de um individuo, grupo ou nação e o que realmente vale a pena valer a pena.
Foto extraída do site da Nasa

15 julho 2009

A PIC e a PAC

A PAC, política agrícola comum, é muito contestada por vários sectores. Tanto na perspectiva macroeconómica, por ser contrária à liberalização das trocas comerciais a nível mundial, como do ponto de vista macro-social por ser injusta e asfixiar o desenvolvimento dos países pobres. Os seus defensores argumentam que sem agricultura, a Europa cultural, social, económica e até mesmo paisagisticamente deixaria de ser Europa.

Deixando de lado a polémica interna sobre o desequilíbrio entre as ajudas à beterraba do Norte e às oliveiras do Sul, existe alguma base, mesmo que politicamente incorrecta, para essa argumentação. Se não houvesse agricultura e campos cultivados a Europa seria muita diferente da actual e talvez globalmente pior.

Vem isto a propósito duma possível “Política Industrial Comum”. É ainda mais difícil a sua defensa, até porque o argumento paisagístico aqui não funciona. Mas e o social? Será possível à Europa que conhecemos e queremos resistir sem indústria? Não, declaradamente não. O que estamos a ver acontecer com o encerramento de unidades industriais e o definhar desse mercado de trabalho não augura nada de bom.

Se é considerado estratégico existir auto-suficiência alimentar numa série de produtos agrícolas, não poderá haver um raciocínio análogo para alguns produtos industriais? Sim. Para mim é inquestionável que, por exemplo, a indústria automóvel nunca sairá de França, Alemanha ou Itália. De uma forma ou de outra, assumida ou dissimulada, será construída uma “PIC” para as indústrias estratégicas do ponto de vista tecnológico e/ou social.

Só resta desejar que na construção dessa PIC não se repita a história das beterrabas e das oliveiras. Os países do Sul não têm construtores automóveis mas também necessitarão de uma PIC para os seus pilares industriais.

14 julho 2009

Apenas curiosidade...

Todos se devem recordar do vendaval que correu meio mundo após a publicação de umas simples caricaturas, embaixadas assaltadas e tudo o mais. E também da enorme onda de solidariedade com as vítimas da ofensiva Israelita em Gaza.

A agora, na China? Foram esmagadas e assassinadas umas centenas de pessoas de uma minoria... muçulmana. E por muito pouco que se saiba em detalhe, há declaradamente um conflito cultural, sendo que as vitimas são... muçulmanas.

Esta opressão chinesa será “culturalmente” mais tolerável do que as caricaturas dinamarquesas?

10 julho 2009

Quando a mamã voltar...


Aquele coitado, que a luz da tarde avançada mal deixa ver, ficou tresmalhado de uma ninhada que passou clandestina pelo meu jardim. Por falsa manobra dele ou por simples azar, não partiu com o resto dos irmãos. Ficou trancado nos meus arrumos durante 3 dias sem comer nem beber. Quando ouvi o miar ontem à noite e o libertei, desapareceu, ignorando a comida que lhe ofereci.

Durante toda a noite miou chamando pela mãe. Hoje de manhã estava encostado a um canto com aspecto de não se mexer mais. Poucos seres têm tanta dignidade, mesmo e especialmente antes de morrerem, como os gatos.

Agora, à tarde, tinha tomado o leite que lhe deixei e já se mexia, escondendo-se de mim. À entrada da noite apanhei-o no limite da luz. Já quase não tem voz para miar mas insiste e continua fixamente olhando para todo o lado, esperando que a mamã há-de chegar.

09 julho 2009

A fome no mundo

Num apontamento à margem da cimeira do G8, ouvi um representante duma ONG, nem sei qual, ser entrevistado e explicar estar ali para recordar ao mundo desenvolvido que há fome no mundo, muita desgraça e por aí fora...

O que eu digo a seguir, é assunto delicado a manipular com pinças, senão lá vêm os complexos, as susceptibilidades e as acusações de neocolonialismo, mas uma coisa precisa de ser clarificada: Uma grandessíssima e enorme parte da responsabilidade por essa fome não está, meus senhores, no mundo ocidental. Excluindo umas honrosas excepções como, por exemplo, Cabo Verde, o problema está precisamente nos países dos famintos onde uma mistura de incompetência, corrupção, nepotismo e outras carências culturais fazem com que as riquezas próprias e as recebidas não sejam aplicadas como deveriam ser no desenvolvimento económico e social das suas populações, mas sim noutras coisas consideradas prioritárias. Esses governantes estão-se solenemente borrifando para a fome actual e futura dos seus concidadãos. No limite pode simplesmente dar jeito para pedir dinheiro “aos ricos”. E, disso, o mundo ocidental, tem, quando muito, uma responsabilidade secundária.
Como se resolve, não sei. Mudar atitudes culturais é danado. Convencer o Sr Mugabe que a sua faustosa festinha de anos foi escandalosa, e só falando assim de coisas visíveis, não deve ser fácil. No entanto, a grande responsabilidade deve endereçada a quem o é e está na primeira linha.

08 julho 2009

Mais um na choldra

Li numa entrevista recente que o Sr Miguel Sousa Tavares está a pensar seriamente em abandonar este país corrupto, decrépito e resignado para se instalar no jovem e pujante Brasil. Faz-me um pouco lembrar os “vencidos da vida” e a história da “choldra”.

Bom, antes de mais, o paralelo fica por aí porque se este senhor publica livros com muito sucesso não é um escritor ao nível dos “vencidos” do século XIX. De qualquer forma, o objectivo não é discutir méritos literários e muito menos comparar o padrão cívico brasileiro com o nosso.

Eu acho que, no fundo, o sr Miguel Sousa Tavares está é vencido por si próprio. Vejamos. Por muitos defeitos que tenha, Portugal não é um país asfixiante. Se o senhor não se vê como possível exemplar "governador" ou simples presidente de uma câmara, poderia sempre, recursos não lhe faltam, promover algo ele próprio. Escreve-se mal, há falta de formação cívica, há deficiências no jornalismo? Não me parece difícil encontrar um campo em que o senhor pudesse aplicar o seu esforço para fazer evoluir o país. E, em caso de sucesso, seguramente que o seu ego ficaria maior do que o enorme Brasil.

Mas não. É mais fácil invocar a “choldra”, mesmo sem usar a palavra específica, e partir. E neste caso, a partida é fundamentalmente uma desistência.

04 julho 2009

A gente ri-se muito na nossa terra!



Uma antiga rábula do Raul Solnado andava à volta desta frase, ilustrando um sentido de humor boçal e descabido. Lembrei-me dessa frase ao ver excertos da famosa quinta feira passada no parlamento: aquela gente ri-se muito naquela sala! Não, não se pretende que não tenham espírito e que ostentem cara de velório, podiam apenas lembrar-se de que demasiado riso é sinónimo de pouco siso.

As bocas, os apartes e o eclodir das gargalhadas fazem um ambiente mais próximo do de uma tasca de Ranholas City, em que a toda gente é muito engraçada e ri-se muito, e muito afastado dum mínimo de dignidade que uma suprema instituição democrática deveria ostentar. Os “mimos” e as graçolas descambam facilmente em insulto e o famoso e desgraçado gesto de Manuel Pinho foi apenas um passo a mais num contexto que miseravelmente o proporcionava.

Só falta mesmo um destes dias arregaçarem as mangas e desafiarem: “se quer alguma coisa e é homem, vamos lá para fora, para não partir a louça cá dentro”. Pois. Mas não me parece. Não me parece porque lá fora está o mundo que aqueles senhores supostamente representam e, se prestassem atenção ao que se passa cá fora, talvez gracejassem e gargalhassem menos.