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02 setembro 2025

Dust Bowl


O famoso romance de John Steinbeck, “As vinha da Ira”, começa com a partida de Tom Joad e família do Oklahoma pobre e arruinado, para a Califórnia, a suposta terra prometida.

O facto histórico por trás da ruína dos Joad e de muitos agricultores das planícies centrais dos USA, foi uma das maiores catástrofes ecológicas do século XX. A designação inglesa original é “Dust Bowl” e ocorreu nos anos 30 do século passado. Os detalhes do fenómeno podem ser facilmente encontrados na internet (sugiro aqui, donde retirei a ilustração acima).

Resumidamente, a sequencia começou com a instalação de colonos nessas planícies e a sua adaptação a terreno agrícola. Essa alteração arrancou a flora original, de raízes profundas, fundamental para a estabilização dos solos. De seguida vieram longas secas que transformaram o solo fragilizado em pó. Para acabar, ventos fortes arrastaram essa camada de poeira, empobrecendo ainda mais os terrenos e criando nuvens negras que duravam dias e percorriam enormes distâncias, uma catástrofe ecológica, económica e social enorme.

Como é evidente, a causa do problema e respetiva dimensão foi uma intervenção humana desastrada, que a natureza não perdoou… Certo que há 100 anos talvez não se soubesse tanto como hoje e a própria difusão da informação seria mais limitada.

A ocorrer hoje, vai uma aposta 1 x 1 milhão em como a “responsabilidade” seria atribuída às alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa…? Sim, que as há, mas usá-las para desresponsabilizar incompetências e ignorâncias não é bom serviço à causa…

27 dezembro 2011

Direitos de autor

Eu entendo que se comprar um livro ou uma música não tenho o direito de os copiar e distribuir ou vender e acho que a criação tem que ser remunerada com protecção da propriedade intelectual. Entendo que quem produz um medicamento é devedor de uma remuneração que pague o esforço de investigação e desenvolvimento.

Agora, custa-me mais a entender que isso se aplique com a terra e com sementes. Que um agricultor não possa seleccionar livremente grãos da sua própria colheita e semeá-los no ano seguinte! Mas é assim.

No caso concreto de França, 99% de todas as sementes comercializadas estão protegidas por um certificado de origem vegetal que integra o tal conceito de protecção dos direitos de quem desenvolveu a espécie, sendo assim proibida a sua “replantação”. Ainda em França, esta prática era tolerada mas o lóbi dos produtores de sementes conseguiu fazer votar uma lei que clarifica o contexto e obrigará a pagar ao “dono” da semente um certo valor em direitos. Pode fazer algum sentido e ser reconhecível o paralelo com outros processos criativos ou científicos, mas quando se fala de sementes e terra soa a algo bizarro e contra-natura.

15 julho 2009

A PIC e a PAC

A PAC, política agrícola comum, é muito contestada por vários sectores. Tanto na perspectiva macroeconómica, por ser contrária à liberalização das trocas comerciais a nível mundial, como do ponto de vista macro-social por ser injusta e asfixiar o desenvolvimento dos países pobres. Os seus defensores argumentam que sem agricultura, a Europa cultural, social, económica e até mesmo paisagisticamente deixaria de ser Europa.

Deixando de lado a polémica interna sobre o desequilíbrio entre as ajudas à beterraba do Norte e às oliveiras do Sul, existe alguma base, mesmo que politicamente incorrecta, para essa argumentação. Se não houvesse agricultura e campos cultivados a Europa seria muita diferente da actual e talvez globalmente pior.

Vem isto a propósito duma possível “Política Industrial Comum”. É ainda mais difícil a sua defensa, até porque o argumento paisagístico aqui não funciona. Mas e o social? Será possível à Europa que conhecemos e queremos resistir sem indústria? Não, declaradamente não. O que estamos a ver acontecer com o encerramento de unidades industriais e o definhar desse mercado de trabalho não augura nada de bom.

Se é considerado estratégico existir auto-suficiência alimentar numa série de produtos agrícolas, não poderá haver um raciocínio análogo para alguns produtos industriais? Sim. Para mim é inquestionável que, por exemplo, a indústria automóvel nunca sairá de França, Alemanha ou Itália. De uma forma ou de outra, assumida ou dissimulada, será construída uma “PIC” para as indústrias estratégicas do ponto de vista tecnológico e/ou social.

Só resta desejar que na construção dessa PIC não se repita a história das beterrabas e das oliveiras. Os países do Sul não têm construtores automóveis mas também necessitarão de uma PIC para os seus pilares industriais.

28 junho 2008

O tempo das Cerejas



O tempo é dinheiro e também aquela dimensão extra que o Einstein nos trouxe. Apetece dizer mais: o tempo é um tempo. E há alguma dificuldade em arranjar outra palavra para “tempo”.

Uma coisa que tem tempo e tempos é a Natureza e os seus ciclos. Com algumas técnicas modernas de produção e de conservação já perdemos a noção do tempo das florações e dos frutos. Quanta gente sabe colocar na boa sequência natural as laranjas, os morangos e as ameixas? Uma das vantagens de viver um meio menos desenvolvido é reencontrar esses ciclos.

Mas, apesar de tudo, e em qualquer lugar, as cerejas são resistentes. Têm o seu tempo e só esse. “O tempo das cerejas” é uma expressão bonita para título de qualquer coisa. As cerejas vêm quando as laranjas e os morangos já desapareceram e as primeiras maçãs, verdadeiras, se apresentam.

É bonito o tempo das cerejas, dos pêssegos, das ameixas, dos primeiros figos e mais ainda sabendo que é só mesmo aquele tempo (apesar de eu gostar ainda mais de... Setembro!).

21 abril 2006

O choque das maçãs

Em plena crise anunciada, fui comprar maçãs. Crise anunciada porque, até agora, tem existido sempre uma clara relação causa-efeito entre o disparar do preço de petróleo e uma recessão económica posterior. Talvez os mecanismos de controlo actuais estejam mais ajustados e, por isso, uma crise aguda seja menos previsível mas é um facto que a factura está a chegar e irá aumentar.

Como dizia, com o petróleo acima de 70 USD, fui comprar as minhas maçãs, royal gala ou starking, a um supermercado de uma conhecida cadeia aqui na terra. Ora bem, não havia dessas maçãs portuguesas. Em desespero de causa comprei 4 argentinas que viajaram meio mundo para cá chegarem e com o petróleo a estes níveis. Ali para os lados de Armamar há muitas com dificuldade para saírem das árvores.

Ao mesmo tempo, leio que os viticultores de Bordéus, desesperados por não saber o que fazer ao seu vinho em stock, querem queimar 320 mil hectolitros de “Bordeaux – AOC”, 15% da sua produção anual, transformando-os em combustível. A França no total prevê destilar em 2006 4 milhões de hectolitros, o que alguns produtores até acham insuficiente. É certo que estavam muito mal habituados a cobrar demasiado pelas suas “Appellations d’Origine Contrôlées”, mas a situação é, no mínimo, curiosa. Penso que esse combustível não serve para aviões porque senão seria engraçado. Destilar vinho de Bordéus para ser utilizado em aviões que iriam à Argentina buscar maçãs. Este nosso mundo está cheio de oportunidades!

Um pouco menos a brincar, seria interessante averiguar se todos os produtos alimentares que encontramos cá à venda, mais baratos do que os nossos, são mesmo estruturalmente mais baratos somando custos de produção e de logística, ou se vêm para cá a qualquer preço, só para não serem “destilados”. Os lacticínios seriam um bom exemplo para começar.

09 setembro 2005

O Mundo está assim

1. Relatório PNUD, Setembro 2005

As políticas comerciais desiguais conduzidas pelos países ricos impedem o crescimento dos países pobres [...] os subsídios agrícolas [...] permitem-lhes manter uma posição de quase monopólio no mercado mundial de exportações agrícolas. Os países em via de desenvolvimento perdem cerca de 19,7 biliões de euros por ano devido ao proteccionismo agrícola e subsídios praticados pelos países ricos. [...] exemplo do açúcar [...]

Por trás da retórica do mercado livre e das virtudes de uniformizar as regras do jogo, esconde-se a dura realidade de que alguns agricultores dos mais pobres do mundo, vêm-se obrigados a rivalizar, não com os agricultores do Norte mas com os ministros das finanças dos países industrializados.

As barreiras comerciais às quais são confrontados os países em vias de desenvolvimento exportando para os países ricos são, em média, três vezes mais elevadas do que as aplicadas às trocas entre países ricos. Este taxação perversa e as políticas comerciais desiguais continuam a impedir que milhões de habitantes dos países mais pobres do mundo possam sair da pobreza, mantendo-se desigualdades obscenas.
2. O mundo está melhor

O estudo da ONU mostra que globalização rima com progresso apesar dos muitos problemas que subsistem
Repetir muitas vezes uma mentira não faz dela uma verdade - e insistir que o mundo está cada vez pior por causa da globalização é uma dessas mentiras que mais um relatório do PNUD, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, vem claramente desmentir. Ou, para sermos mais rigorosos: que a leitura dos seus quadros desmente, já que no texto os seus autores se dedicam por vezes a contrariar as evidências.

O primeiro texto é uma tradução livre de excertos do relatório original do PNUD publicado e destacado no “Le Monde”. O segundo texto é a leitura do mesmo documento de José Manuel Fernandes, publicada no jornal “Público” de 8 de Setembro último. Sim, é o mesmo assunto!

Sobre a globalização e as suas rimas, recomendo a leitura do livro “Globalização – A grande desilusão” de Joseph E. Stiglitz, que foi prémio Nobel de Economia em 2001, chefe do Conselho de Consultores Económicos de Clinton, e um dos vice-presidentes do Banco Mundial. Já foi aqui referido no Glosa Crua .

Realmente, o mundo poderia estar pior do que está, sem dúvida. Não se pode dizer que “foi tudo mal feito”. Mas, defender a bondade do modelo actual de distribuição de riqueza e de desenvolvimento humano e social, é, pura e simplesmente, inadmissível. Acho eu. E também acho que a informação no mundo poderia ser mais informativa