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22 fevereiro 2025

Acabou o recreio


Uma certa Europa vive o fim de uma era da inocência, quando se entretia a discutir o sexo dos anjos e a procurar novos anjos para defender.

Se Trump e Cia podem ter razão nalguns aspetos, o wokismo é uma praga irracional, uma Gronelândia autónoma à mercê da Rússia é um problema, um canal do Panamá chinês é um risco enorme, tudo disso se desvanece face à arrogância e intimidação brutais do senhor e do indescritível Elon Musk, que, quando se vê em excitados pulos, parece mais um adolescente retardado do que um esboço de estadista. A grande questão é como irão as instituições dos EUA aguentar e resistir a esta “cowboiada”.

Para a Europa, é o fim do recreio. O papá rico cortou a mesada. Terá que viver, especialmente no domínio da segurança, com os seus próprios meios. Não vale a pena chorar. Provavelmente os Trumpusks irão embater no muro, as suas famosas tarifas serão um boomerang  que retornará contra a sua própria economia, mas não é por os regentes europeus irem ajoelhar a Washington, implorar qualquer coisa ou simples bom senso que os excitados execráveis se colocarão em questão.

É o momento da Europa decidir e assumir se é “uma” coisa, se tem princípios e coragem para lutar pelos mesmos. Esqueçam os EUA, pelo menos por agora. Acabou o recreio.

18 agosto 2024

KURSKando

Temos visto recentemente noticias sobre esta cidade e região na Rússia, a propósito da audaz ofensiva ucraniana de fazer sentir a guerra também na casa do outro. Ficamos na expetativa do que vai a seguir fazer Putin, humilhado. Os arrogantes humilhados e impotentes são sempre perigosos imprevisíveis…

Não será a primeira vez que muitos ouviram este nome. Em agosto de 2000 um submarino nuclear russo com o mesmo nome foi vítima de uma expulsão de um torpedo, afundando-se e matando todos os tripulantes. Uma vintena de sobreviventes à explosão inicial acabaram também por morrer, por incapacidade, incompetência, falta de meios e soberba da Rússia que se recusou a ser ajudada a tempo. Na altura Putin, recém-eleito Presidente, foi criticado pela forma arrogante e fria como geriu a catástrofe. Na altura ainda era possível criticar.

E porque é que o submarino se chamava Kursk?  Porque próximo desta cidade travou-se em Agosto de 1943 uma grande batalha, que terminou com a vitória soviética e marcou o fim das iniciativas alemãs na frente leste da 2º Guerra Mundial.

Talvez, para alguns russos, seja uma espécie de repetição da “Grande Guerra Patriótica”. Em volta de Kursk haverá uma batalha entre invasores nazis e patriotas soviéticos. Só que esta suposta repetição é já do domínio da farsa. Para todos os que acreditavam que o fim da guerra 39-45 era um passo irreversível no caminho da liberdade e democracia, para todos os que nos anos 70 viram desaparecer os caudilhos ditadores do sul da Europa, para os que em1989 viram cair o muro que amordaçava metade da Europa, para todos os que acreditavam que mais depressa ou mais devagar o caminho tinha uma direção clara, esta Rússia brutal e desumana veio demonstrar que esse caminho não é assim tão irreversível.

O que está em causa não deveria ser objeto de “nem mas nem meio mas” por parte das gentes de boa vontade, que acredito serem a maioria...

Todos aqueles que se recusam a reconhecê-lo, estão a prestar um péssimo serviço à humanidade e trabalharem para deixarem aos próximos um mundo pior do que o que encontraram quando chegaram.


16 dezembro 2022

O lugar da justiça e os deveres da política


Após a revelação do escândalo do Qatargate assistimos a uma firme e pronta reação da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu. Certo que ainda ninguém foi condenado, que a presunção de inocência continua de aplicação num Estado de Direito, mas o cheiro a esturro é tão forte, que forçou a uma tomada de posição e natural preocupação pela perda de confiança nas instituições europeias que tal situação gera.

Ainda não ouvi ninguém por lá proclamar “à justiça o que é da justiça (e esperemos que transite em julgado)”, como por estes lados se tornou tradicional, por mais escandalosos e inaceitáveis que sejam os fatos tornados públicos.

Certo que formalmente só é ladrão quem for apanhado a roubar, houver provas validadas, não anuladas por um incidente processual qualquer, o julgamento concluído, todos os recursos esgotados, tudo antes da prescrição e e e…

A um responsável político que gere causa pública ou a um eleito que recebeu uma procuração para representar cidadãos, exige-se mais do que simplesmente conseguir inocentar-se (… safar-se!) em tribunal. Ética. Podem perceber e tentar aprender?

27 novembro 2022

Serão mesmo universais?

A polémica com o Mundial do Qatar e o (não) respeito dos direitos humanos é uma boa oportunidade para refletir sobre a respetiva universalidade. No rescaldo da II Guerra Mundial, com a vitória das democracias sobre os totalitarismos, a recém-criada Organização da Nações Unidas proclamava uma Declaração Universal dos Direitos Humanas, que pretendia ser uma referência e um guia para uma nova era, de democracia e de liberdade.

Nesse baralho havia já algumas cartas atravessadas. Entre os vencedores não estavam apenas democracias. A União Soviética e os seus satélites abster-se-iam na votação da referida carta. Dentro da ONU sempre houve membros que formalmente apoiando, ou não, na prática não praticavam. Para lá do bloco de Leste, Portugal de Salazar e a Espanha de Franco são exemplos.

Prevaleceu o pragmatismo de ser preferível integrar membros não perfeitos e assim de alguma forma os condicionar do que os deixar pairando como párias. É também verdade que, só como exemplo, se para os combustíveis fosseis restringíssemos o seu aprovisionamento aos países respeitadores… sobrariam muito poucos. De todas as formas, sempre existiu o reconhecimento de que por princípio havia direitos humanos universais.

Recentemente, com uma certa moda de valorizar diferenças culturais e minorias, associada ao crescimento de regimes autoritários, vemos alguma crítica à suposta colonização cultural ocidental e apelos à necessidade de respeitar especificidades e diferenças…

Ao menos uma coisa seria relevante: questionar livremente os cidadãos desses países sobre se se acham no direito a serem respeitados. Não será tudo, mas um bom princípio, sendo que a pressão migratória para a Europa é já uma forma de votar… com os pés. 

05 maio 2022

Os limites da Europa


De Lisboa a Vladivostok parece-me um pouco exagerado. Havendo poucas dúvidas quanto ao limite Atlântico a oeste, o Pacifico do outro lado é talvez um pouco exagerado.

Na definição da Europa e seus limites, mais importante do que os meridianos geográficos estão os valores sociais e culturais e, citando a chamada Constituição Europeia, “humanismo, igualdade de todos os seres, liberdade, respeito pela razão”. A história da Europa teve fases brilhantes e períodos sinistros, por vezes escassamente separados, como, em França, com a Declaração universal dos direitos do homem e do cidadão em 1789 e o terror de Robespierre quatro anos depois. Mais recentemente vimos barbaridades como a guerra civil espanhola, aqui ao lado, o Nazismo na Alemanha e o Stalinismo na Rússia.

No entanto, nos últimos 70 anos, após o final da II Guerra Mundial, a Europa parece ter-se estabilizado, reencontrado esses valores e citando de novo: “respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito”. O que se está a passar na Ucrânia é uma clara negação dos valores europeus. Para aqueles que se recusam a vê-lo, como não viram o Gulag, cegueira ideológica é uma explicação algo benigna.

Trata-se antes de uma opção ideológica, veladamente assumida. É não se reconhecer nos valores humanísticos europeus, promover a tal “revolução” purificadora e a reversão deste regime que, sem ser ideal, é o melhor que existe. Não é passivamente ignorar, é ativamente lutar por uma causa perigosa.

21 abril 2022

França, Le Pen e UE – Entre divórcio e libertinagem


A primeira vez foi em 2002 quando JM Le Pen chocou o mundo político francês ao passar à segunda volta das eleições presidenciais, contra J. Chirac. A proeza foi repetida pela filha Le Pen contra E. Macron em 2017 e agora de novo em 2022.

Num discurso amaciado face ao passado, ela diz não pretender propor a saída do país da UE, mas promete implementar uma preferência aos nacionais franceses e fazer a legislação francesa prevalecer sobre a europeia. É um pouco como o habilidoso que não quer divorciar-se, aprecia manter o conforto familiar às 2ª, 4ª e 6ªs e estar livre às 3ª, 5ª e sábados.  

Qual a razão para tanto sucesso deste discurso nacionalista? Penso que, entre outras coisas, incluindo uma alteração substancial da paisagem social de muitas cidades e subúrbios, há talvez demasiada “discriminação positiva” de algumas minorias, pelo menos em perceção. Real ou apenas sugerida, de dimensão corretamente avaliada ou pelo discurso populista amplificada, acaba num convite à discriminação positiva da maioria. Discriminações mesmo positivas podem ser remédio perigoso. Igualdade de oportunidades e recompensa objetiva e justa pelo mérito serão caminho mais são. 

No próximo domingo será a segunda volta e veremos. Termos visto JL Mélechon de uma extrema-esquerda utópica com 22% na primeira volta contra 1,7% da candidata do histórico partido socialista, sugere que alguma razoabilidade está a faltar.

27 janeiro 2022

O terror dos ditadores


Por estes dias, Alexei Navalny, um político crítico e opositor a Vladmir Putin foi classificado terrorista, como se dirigisse uma organização daquelas que colocam bombas nos caixotes do lixo das estações de caminho de ferro.

Por estes dias, a Rússia monta um teatro onde ameaça invadir a Ucrânia, ao que parece para inviabilizar a entrada desta na Nato. Provavelmente terá sucesso. A Europa da Nato defende a liberdade e a autodeterminação dos povos, mas será muito impopular assumir a obrigação de enviar os seus cidadãos combater numa guerra por lá, quando os confinamentos da pandemia já são considerados pelas suas juventudes como um dramático e traumatizante enorme problema.

É legitimo esperar que neste mundo onde vivemos e queremos viver, as ambições e as tensões se resolvam por outras formas que não com balas nas carnes. E é também obrigatório chamar os bois pelos nomes. Ditador quando é ditador, terrorista quando é terrorista. Gostava que todos os partidos em campanha fossem claros quanto a estes nomes e estes bois. É o modelo de sociedade que está em causa.

06 janeiro 2022

Não, a Europa não é uma página em branco


O cartaz acima representado, patrocinado pela União Europeia, Conselho Europeu, vem defender e valorizar o uso do véu islâmico, em nome do respeito pela diversidade e invocando a liberdade. Gerou polémica suficiente para a campanha ser suspensa.

De facto, se poderá haver quem o use por gosto, muitas o usarão por pressão social e/ou para não serem assediadas e dificilmente se pode associar este monástico esconder o cabelo e a beleza que o mesmo transmite a… beleza.

A Europa tem tradição, parcialmente justificada, de ser terra de acolhimento. Depois há aquele trauma cristão do “mea culpa”, curiosamente até mais assumido pela esquerda, segundo o qual os pecados do nosso passado e os males feitos por esse mundo fora, devem ser expiados recebendo e ajudando todos os pobres do mundo.

Quem achar que deve haver limites para o que pode chegar e mudar é imediatamente desclassificado e carimbado como xenófobo. A Europa não é uma folha de papel em branco onde tudo pode ser escrito, nem uma Torre de Babel multicultural. Tem a sua cultura e o seu quadro social, no qual os europeus se reconhecem. O véu islâmico e os princípios que impõem a sua utilização não estão conforme com os princípios sociais em que a Europa foi construída e teve sucesso, nomeadamente com o papel da mulher na mesma.

Que uma instituição europeia venha promover e valorizar isto, sobe a capa da tolerância, demonstra até que ponto os poderes em vigor estão divorciados dos sentimentos da população. Na campanha presidencial francesa, assiste-se a uma subida fulgurante de Eric Zemmour e simplesmente apontar a componente xenófoba do que ele diz ou uma vez disse é insuficiente para o desacreditar face aos eleitores chocados com a desfiguração do seu país. Pelo contrário…

11 agosto 2021

Fim (do desenvolvimento?) dos motores de combustão


Há cerca de 4 anos, Carlos Tavares, na altura com as rédeas da PSA, Opel e Vauxhall, surpreendia meio mundo no salão de Frankfurt ao afirmar que evoluir para exclusivamente veículos elétricos, era um sinal de que “o mundo está louco” e que os políticos estavam a tomar decisões sem pensar em todas as consequências e sem equacionar toda a preparação que tal mudança exige.

Recentemente, agora acrescentadas a Fiat e a Chrysler na Stellantis (estes novis grupis têm sempre nomis assim sonantis), veio dizer que o grupo vai mergulhar a fundo nos eletrões, a DS sem motores de combustão em 2024, a Alfa em 2027, a Opel em 2028 e a Fiat a 2030. É certo que a “Europa” decretou o fim dos motores de combustão para 2035 e nestas coisas é inglório tentar ser salmão e nadar contra a corrente.

É também certo que à velocidade a que estas tecnologias evoluem, muito pode acontecer até deixarmos de ver pistões nestas marcas, mas isto parece-me um pouco pôr o carro à frente dos bois. Se na bela Europa ainda não se consegue garantir toda a mobilidade de forma elétrica, que dizer do resto do mundo onde muitas vezes o fornecimento de energia elétrica para necessidades básicas não está assegurado, nem ninguém pode prever se/quando ficará resolvido.

E é ainda certo que, para os pequenos citadinos, o elétrico carregado à noite faz todo o sentido. Mas, por curiosidade, ao consultar a página da Fiat, um grande especialista de pequenos carros dentro do grupo Stellantis, encontrei um Fiat Panda (até com um toquezinho de hibridação), desde 11 470 Eur e o mais barato do outro lado que vi foi o novo 500 Berlina Action… desde 23 800 Eur. Uma certa diferença. Quando não houver mais pistões, o Panda elétrico ou o seu sucessor vai andar porque preço? Em termos de custo total de utilização, pode-se acrescentar que o Panda atual tem um tempo de vida, custo de manutenção e desvalorização bem balizados, enquanto do outro lado, a bateria… traz algumas incógnitas…

Daqui para a frente só dá para especular, mas palpita-me que poderão eventualmente aliviar os apertos progressivos às emissões dos motores de combustão. - Se são para acabar, não nos peçam para continuar a investir em novas gerações de motores Euro X+1 !

E ainda, a Alemanha negocia com a Rússia a construção de uma novíssima conduta de gaz natural… será para “descarbonizar” a mobilidade… ou isso!

E ainda, como reagirá o nosso orçamento de Estado ao fim dos impostos sobre combustíveis? Se já na aflição atual eles não largam nem um cêntimo e preferem legislar sobre as margens … dos outros. Logo se verá, não é?

07 agosto 2021

A maldição da bazuca?


Fala-se em “maldição do petróleo” para descrever situações concretas de países que, supostamente abençoados por largos e fastos recursos naturais, acabam por comprometer o seu desenvolvimento a prazo e a criação de riqueza e conhecimento de forma sustentada, soçobrando no fácil vem/fácil vai (a ausência de dificuldades não aguça o engenho) e com todo um rol de más práticas e de irresponsabilidade, eventualmente criminais, na gestão da riqueza que chega sem esforço.

Felizmente Portugal não tem recursos naturais próprios, mas talvez desde a pimenta da India e do ouro do Brasil que criamos um pouco o hábito de gastar sem ter que nos esforçar muito em criar. A questão neste momento não é, no entanto, atirar as culpas a D. João II. A questão é que a famosa bazuca europeia, que se já pode começar a ir buscar ao banco, mesmo sem kalachnikov, é mais um dinheiro fácil que corre sérios riscos de partir de forma fácil.

Independentemente de alguma utilização racional, séria e geradora de riqueza sustentável, quase apetece dizer… deixemo-nos de viver de donativos e passemos a fazer pela vida com as nossas próprias mãos e cabeça. O histórico da procurada e falhada convergência europeia sugere que a receita não funcionou como se esperava. Fazer o mesmo, esperando resultado diferente, não é inteligente.

09 março 2021

Não falha! E as sobras

Pode o Governo não conseguir comprar a tempo os computadores prometidos para os alunos necessitados aprenderem em casa durante o confinamento; pode não conseguir reforçar a capacidade de resposta do SNS a partir de dentro ou de fora; pode a execução orçamental de 2020 ter ficado abaixo do previsto antes de Covid-19… mas há coisas que não falham.

Relativamente à Presidência Europeia, contratar comes e bebes para festas que não haverá, automóveis e fardas para motoristas que não verão passageiros, prendas para visitas que não nos visitarão e montar um centro de imprensa quando a ordem geral é trabalhar isolado, essas coisas não podem falhar! Acrescentando os casos que passaram por ajustes diretos a empresas recém-nascidas, aparentemente as únicas “capazes”… venham depois chorar e lamentar que o populismo constitui um grave problema.

E palpita-me que no fim tudo isto ainda vai gerar uma sobras simpáticas

11 fevereiro 2021

Importações e contrafações ideológicas


 Os States são um grande país que influencia meio mundo (mais de 3/4?) de várias formas e feitios e não apenas pelos jeans, filmes de cowboys e a coca-cola. Inevitavelmente há inúmeros produtos e ideias que são importados e adaptados, preocupando-se eles muito pouco com o tal crime de apropriação cultural, pelo contrário, até o fomentam.

Uma ideia made in USA que foi importada para o mundo ocidental em geral com tradução deficiente é o mea culpa ad-eternum pela escravatura e tráfico associado e o correspondente crédito infinito que tais crimes atestam à comunidade de cor (mesmo estas expressões têm hoje de ser usadas com pinças). Vamos por partes.

A escravatura não é invenção nem exclusivo ocidental, como os dois livros acima representados, que li recentemente bem documentam. Se a escala do tráfico Atlântico foi enorme, o equivalente no Médio Oriente e no Norte de África, só para falar de realidades mais próximas, não foi quantitativamente irrelevante nem diferente no princípio nem na brutalidade.

A partir do século XIX a Europa e especialmente a Inglaterra desenvolve um esforço enorme para acabar com a escravidão e respetivo tráfico no Mundo. Sim, com a máquina a vapor do lado deles o fim da mão de obra escrava era do seu interesse económico, mas independentemente da motivação, a ação foi essa.

O tráfico de escravos em África só acabou após a colonização europeia em larga escala do continente, durante o século XIX. Sem menorizar todos os males desse processo, neste campo particular foi decisivo. Portanto, por motivações e meios questionáveis, o facto é que a Europa está há dois séculos a lutar contra a escravidão e a erradicá-la dos territórios por ela controlada.

Passemos aos States. Foram os grandes “beneficiários” do tráfico Atlântico, mas também no século XIX o poder central aboliu a escravatura, de forma veemente e decidida, provocando uma séria guerra civil (1861-1865). O que há a acrescentar sobre isto é que os Estados do Sul, perderam a guerra, foram vencidos, mas não convencidos. Após a retirada das forças do Norte, arranjaram forma de contornar a “igualdade” constitucional formal e implementar uma coisa muito feia, que se chama segregação racial, grosso modo o equivalente do apartheid sul-africano. Este processo vergonhoso entrou pelo século XX, muito apoiado pela comunidade branca pobre e rural, que aí via uma oportunidade de promoção automática (a tal supremacia branca). Já não é escravatura, mas há uma continuidade na recusa de conceder plenos direitos aos descendentes de africanos, misturando-se os dois conceitos na mesma acusação.

As lutas dos negros (e de alguns brancos) pela igualdade nos EUA (especialmente no Sul) no século XX têm todo o mérito e razão de ser. Bravo aos corajosos.

Agora, importar esse contexto para o Ocidente em geral e em especial para a Europa que há dois séculos luta eficazmente, erradicando o flagelo de onde pode… é uma contrafação, ou, digamos, um “lost in translation”!

30 outubro 2020

Três tempos e…

Tempo hoje:

Em outubro de 2020, num bonito e cerimonioso cenário, na Sorbonne, entre as figuras de Vitor Hugo e de Louis Pasteur, repousa a urna e é homenageado por toda a França o professor Samuel Paty, assinado por um islamista radical, e cujo crime foi ter mostrado numa aula as famosas caricaturas de Maomé, do Charlie Hebdo, no âmbito de uma discussão sobre a liberdade de expressão. Evocadas generosamente as três palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Tempo antes:

Quantos “Maires”, galhardamente envergando a faixa tricolor, agora inquestionavelmente solidários com o luto, proclamando e repetindo as três palavras mágicas, num tempo antes, não fecharam os olhos e até ajudaram a construção de madraças suspeitas, com financiamentos de origem suspeita, com formações suspeitas, desde que isso os ajudasse a preservar o poder? Democracia a quanto obrigas?

Quantos intelectuais e outros que tais, que aplaudiram o filme de Jean-Luc Godard, o preservativo no nariz de João Paulo II, todas as provocações de bom e mau gosto, do “é proibido proibir”, estão calados, amedrontados ou intelectualmente acorrentados e porquê?

Tempo depois:

Diz o Presidente de lá que a França não renunciará às caricaturas religiosas. Do ponto de vista do princípio é coerente. Na prática, um vendaval se levanta, até maior do que a decapitação original provocara. Apetece questionar até onde irá este vendaval. Até as caricaturas serem aceites, sem causarem mortos, ou até um pouco mais de autocensura e chamemos-lhe respeito virem definitivamente amedrontar e acorrentar a liberdade de expressão? Certamente haverá mais mortos… mas qual será o próximo tempo?

 

01 outubro 2020

Recuperação e Resiliência


 A aplicação da bazuca dos fundos europeus para a recuperação pós-covid recebeu o nome de resiliência. Não me parece feliz. Resiliência é resistência, aguentar, mas nós precisamos muito mais de que a manutenção e a salvaguarda do que existia antes. 

Precisamos de desenvolvimento, a sério, de formação e qualificação, a sério, um Estado de direito a funcionar, de ter a justiça a aplicar a legislação célere e a sério. De novas mentalidades, de uma cultura de inovação, de risco. Basicamente fazer mais coisas e melhor. De preferência coisas que sejam faturadas por empresas, em ambiente competitivo e não em circuitos fechados, controlados. Não deverão existir dúvidas sobre a pertinência deste princípio, não será certamente um tema fraturante. 

Infelizmente, parece que o conceito de resiliência prevaleceu. Resiliência de um sistema que não funcionou, que é o Estado gastar, gastar... Estes anúncios de “investimento” público no SNS, que necessita, e em pontes e estradas, bastante mais discutível, faz-me lembrar tristemente a resposta a uma outra crise e aos “investimentos” no parque escolar e TGV’s… de má memória. Efetivamente, o betão é muito resiliente.

21 setembro 2019

Grande Europa que falha


O grande Airbus A380, o maior avião comercial de passageiros do mundo, doze anos após ter entrado ao serviço, vai deixar de ser fabricado porque não tem encomendas. O conceito comercial não provou. São preferidos aviões mais pequenos para viagens diretas.

Nunca voei em nenhum, apenas visitei a impressionante fábrica do bicho em Toulouse, e é sempre com um certo amargo de boca e tristeza que vemos um esforço brutal como este não ter sucesso. De certa forma análoga, a Europa também já vivera a experiência de um conceito de avião revolucionário que não vingou: o fabuloso Concorde.

Falhar faz parte dos riscos e, deixem-me puxar a brasa para a sardinha deste lado do Atlântico, tem mais mérito arriscar a desenvolver e falhar, do que enxertar de forma mal-amanhada novos motores numa carcaça com mais de 50 anos de conceção, como a Boeing fez com o 737 MAX.

Em 50 anos não encontraram orçamento, nem vontade, nem coragem para refazerem a sério o seu avião mais popular e continuaram a espremer a espremer, até ultrapassar os limites? Sendo relativamente clara a sequência das opções e a ligeireza do caminho tomado (ver aqui), o que mais me interpela agora é: qual o custo que esta poupança da Boeing vai ter? Já nem falo das entregas atrasadas, redução de vendas e de encomendas anuladas. Aqueles aparelhos todos, parados durante meses, sem ainda se saber quando regressam aos céus, geram perdas brutais. Palpita-me que a Boeing irá gastar com advogados muitíssimo mais do que o que poupou com engenheiros (e aqui não há questão de brasas e sardinhas)!

06 setembro 2019

A riqueza da guerra

Para mim e para a maior parte da população europeia, a guerra é uma coisa horrível que vemos nos noticiários, revemos ficcionada em filmes, romances e séries, mas que, sobretudo, apenas imaginamos. Não sabemos o que é mesmo a guerra, o poder morrer estupidamente no segundo seguinte ou ver um próximo cair irreversivelmente ao nosso lado. Podemos tentar imaginar, mas imagino que a imaginação não é suficiente e esperemos que assim continue durante muito tempo.

Os monumentos e as apologias aos bravos que tombaram em combate são uma forma de nos tentar fazer imaginar um sentido, uma glória para algo que não tem nem pode ter glória.

A liderança militar, ou ditatorial, é eficaz. Ninguém imagina um batalhão a realizar um referendo diário para decidir o caminho a seguir. Ou, entre de dois batalhões, um avançar e outro recuar. O seguimento cego e sem contestação das ordens superiores é fundamental para ganhar batalhas. Da não objeção e castração da emancipação de cada um, virá a vitória e o consolo das cerimónias e estátuas.

Há uma economia da guerra. Aquela em que as forças se mobilizam e são dirigidas sem questões nem contestação, maximizando o resultado. A História tem histórias de impérios criados militarmente, eximiamente organizados e extremamente eficazes enquanto na fase da conquista. O problema aparece quando a conquista material deixa de ser suficiente e são necessários outros avanços. Os do conhecimento e os da iniciativa, enraizados em cultura e liberdade.

Tudo isto a propósito de guerra e do declínio da Europa atual? Sim. A ver vamos…

20 março 2019

Anacronismos gritantes

Há quem mate brutalmente (será que existem assassinatos delicados?) em nome de uma guerra santa que começou há 14 séculos. Agora, na Nova Zelândia, alguém matou invocando o outro lado dessa guerra, situando-se uns séculos mais à frente. A guerra é a mesma, mas há um pormenor relevante, o não estarmos na Idade Média e ser claro e assumido pela larga maioria que o “não matarás” é um valor, mais do que religioso, inquestionável na cultura em que vivemos.

Estaremos às portas de uma guerra de civilizações, de um reeditar das conquistas e cruzadas, como alguns gostam de evocar e de com isso excitar espíritos, com motivações diversas? Penso que não. Uma guerra envolve duas partes que falam a mesma linguagem bélica.

O crescimento da xenofobia no mundo ocidental, seja enquadrada em organizações institucionais, seja a partir de movimentos espontâneos, irá desenvolver uma atitude bélica cristã/ocidental e proporcionar a tal guerra? Sinceramente, penso que não. Os espontâneos e os clandestinos, serão sempre e apenas isso, espontâneos e clandestinos, e, por mais execráveis que sejam os movimentos organizados públicos com discursos xenófobos e racistas, não os estou a ver a financiarem a compra de armas e a criarem essa dinâmica bélica em escala que se veja.

Significa isto que não há perigo de escalada e que podemos deixar essa gente à vontade, a odiar e a criar ódios, mesmo que mais do que um processo de endoutrinamento social esteja simplesmente em causa o acesso ao poder? Obviamente que não. Nem todos os crimes são de sangue. No entanto, ingénuo ou otimista, acredito que há partes da história que não se repetem e que a sociedade atual ocidental tem indelével nos seus valores que o sangue não faz parte da linguagem nem do caminho. Não acredito numa guerra de sangue, mas há outras batalhas a travar e muito particularmente para garantir o caráter indelével destes nossos valores.

30 janeiro 2019

Em busca do círculo quadrado


Corria o longínquo mês de junho de 2016 quando ocorreu mais uma inglesice, britanice ou reino unidiotice. Um referendo sobre a permanecia do Reino Unido na UE. À partida seria mais uma “pequena” prova de fogo, tal como os referendos de má memória aos tratados europeus, que tantos sustos causaram. Podia ter sido apenas mais uma ameaça, mas não foi...

No dia seguinte voava nos ares a pergunta incrédula: e agora, o que se segue? Os políticos de sua majestade viram-se na amarga necessidade de limpar uma porcaria, que eles tinham espalhado, uns mais do que outros, e para a qual não possuíam detergente. Se pensarmos na questão irlandesa, que parece ser um dos problemas fundamentais, é óbvio estarmos perante uma quadratura de círculo. Aparentemente ninguém quer fronteira física entre a República e a Irlanda do Norte, permanecendo esta assim, na prática, integrada na Europa em termos de libre circulação. Se bem entendi, a Europa não o pode permitir sem nenhum tipo de controlo ou salvaguarda e o UK não quer aceitar esta interferência europeia…

No fundo, no fundo a culpa imediata desta trapalhada é de quem resolveu referendar uma coisa que não se sabia bem como seria. Podia ter corrido bem se a resposta fosse outra, mas como não o foi, está um imbróglio bem atado. A culpa mais remota foi de quem vendeu uma vaga ideia que incluía um círculo quadrado. Uma vaga ideia e um ser contra, já que os (maus) políticos estão sempre bastante predispostos a “serem contra”.

Um referendo desta natureza e com este impacto nunca poderia ter sido lançado sem um enquadramento mais detalhado do que estava mesmo em causa e respetivas implicações. Simplesmente perguntar: é para sair ou para ficar foi de uma enorme irresponsabilidade e não creio que alguém fique a ganhar com isto, nem em riqueza nem em credibilidade. Ninguém e em primeiro lugar, obviamente, o UK.

12 dezembro 2018

Algo de novo?

Expressões como “aquele tempo era único” ou “hoje vivemos tempos singulares” normalmente traduzem alguma preguiça em procurar semelhanças e paralelismos entre o hoje e o ontem, vistos seja de trás para a frente, seja da frente para trás. Os tempos atuais nunca são, em geral, assim tão singulares. No entanto, fica sempre bem falar em transição…

Temos, por exemplo, a famosa transição energética, que até ficou agarrada a nome de Ministério. E quando se tenta justificar o absurdo de uma taxa de IVA razoável na energia elétrica ser apenas possível para potencias instaladas ridículas… fica bem, pensam eles, dizer que é um incentivo à melhoria da eficiência energética. Em França, quando Emmanuel Macron resolveu aumentar o imposto sobre os combustíveis e justificá-lo como um apoio à transição energética deu no que deu, não apenas por isso, mas foi um bom rastilho.

Temos os nossos caros deputados versão 5.0, para as quais a presença no hemiciclo já passou para o domínio do virtual. Uma transição significativa para a desmaterialização da governação.

Temos a transição de competências técnicas, como a definição do plano nacional de vacinação, para o parlamento, dominado por especialistas, excelentes na capacidade de fazer de conta que estão ou que sabem o que dizem ou que pensam no que fazem e exímios em declarar competências e CV’s para lá dos que a realidade da dura vida político-partidária permite. Fico à espera de ver os deputados definirem e votarem o número de pilares das próximas pontes rodoviárias. A transição para fazerem, desfazerem e refazerem programas de ensino, já foi realizada há bastante tempo e isso parece-me ser potencialmente pior do que o número de pilares nas pontes.

Temos ainda, por esta Europa fora e não só, a transição de votos para partidos de ideologia pouco democrática, basicamente porque o povo é estúpido e imprevisível, já que do lado dos políticos dos partidos tradicionais não houve transição nenhuma. Eles continuam com a falta de seriedade, competência e de frontalidade a que já estamos habituados há muito. Pela lógica, aqui não deveria haver nada de novo… mas há.

21 julho 2018

Habitats e migrações

Sim, existe um animal chamado ser humano, a mesma espécie em vários continentes e latitudes; sim, teoricamente tem direitos universalmente reconhecidos, independentemente da raça, credo, género, etc; sim, ele pode viajar e migrar pelo planeta; sim, mas… também possui uma dimensão cultural e social que não é igual em todo o mundo, nem pode ser ignorada.

Com maior ou menor dependência, com maior ou menor facilidade de adaptação, todos temos um habitat sócio – cultural específico onde estamos integrados. Cada qual e cada um, imagine-se deslocado para as estepes da Ásia Interior e pense se seria feliz a viver aí para o resto da sua vida. Não somos todos iguais, não reagiríamos todos da mesma forma, mas uma larga maioria, certamente, não se sentiria “em casa”.

Migrações. Há que distinguir o contexto temporário, sequência de uma guerra ou catástrofe natural, da situação definitiva. Por muita compaixão que tenhamos por quem vive mal, e devemos tê-la e mobilizarmo-nos para melhorar a vida de todos os seres humanos, um ser humano não pode ser encarado como um infeliz animal abandonado, do qual temos pena e que trazemos para casa. E não pode sê-lo por várias razões. A primeira é existir uma enorme probabilidade de ele não se sentir feliz num habitat, eventualmente materialmente melhor e mais seguro, mas diferente do seu original. Os problemas que se vivem nas “comunidades” por essa Europa fora, têm muito a ver com isto, apesar de todos os esforços de integração realizados. Não pode ser feito em grande escala, porque isso equivale a retirar recursos aos seus locais de origem e empobrece-los adicionalmente. E também porque uma chegada massiva altera o habitat destino, tornando-o estranho para todos, os que chegam e os que lá estavam. Não confundir com xenofobia.

Os nossos habitats evoluem, mas, uma vez mais de forma variável conforme cada qual e cada um, essa mudança tem uma velocidade limite aceitável e integrável. Se for demasiada rápida, será vista como uma rutura de referência. Isto não é xenofobismo.

A missão e obrigação de melhorar sustentavelmente a sorte dos mais desfavorecidos deste planeta não passa por trazê-los todos para nossa casa.