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18 fevereiro 2026

O Ramadão

Por estes dias começa o mês sagrado muçulmano do Ramadão. Um primeiro pensamento e palavra para todos os muçulmanos que conheci, que vivem a sua fé serenamente e votos de que tenham uma celebração feliz, à medida das suas expetativas, junto dos seus próximos e familiares.

Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar. De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII em 1582.

A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia, pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França, houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.

A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.

Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em jejum há uma dúzia de horas?

Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática religiosa. No entanto…

No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento! Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.

Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar, tanto faz…)

09 dezembro 2025

Sim, é antissemitismo

 

Dois livros acima, muito distintos, mas sobre o mesmo tema. O Estado de Israel.

Sim, já estou a imaginar as reações de repulsa e de “lá vem este branquear os genocidas”. Sim, Israel tem ações condenáveis, não tenho grande simpatia por Netanyahu e muitíssimo menos pelos seus parceiros de geringonça Ben-Gvir e Smotrich. Isso, no entanto, não justifica o “interesse” especial que certas forças têm em criticar e condenar Israel de forma desproporcional. Al Assad e Putin bombardearam civis em Aleppo e não só, recorrendo inclusive a armas químicas para combater o Estado Islâmico, com um balanço final de meio milhão de mortos… enfim, vá lá. Saddam Hussein terá morto cerca de um milhão de pessoas? A islamização do Sudão conta 2 milhões mortos? Enfim… coisas que acontecem, não vale a pena protestar muito, nada adianta e mais exemplos se poderiam acrescentar. Nesta guerra em Gaza acredita-se piamente no “Ministério da Saúde do Hamas”, clamando por cada morto civil, numa guerra em que aparentemente nunca há baixas militares palestinianas.

Israel tem um padrão de reação desproporcional. Deste-me um golpe, levas dois; pensa bem para a próxima. Esta aproximação é apreciada e utilizada vantajosamente por Hamas e companhia, gente para quem quantos mais mortes, mais mártires, melhor!

Apesar de tudo o que se pode e deve criticar a Israel, este país, a sua fundação, crescimento e consolidação é um exemplo de tenacidade, de perseverança, de ultrapassar obstáculos, descobrir soluções, gerar de conhecimento e… podíamos muito aprender com eles…

A tensão na região começa com a diplomacia de guerra da Inglaterra na I Grande Guerra, que promete tudo a todos. Um lar para os judeus a troco da sua influência nos EUA para estes entrarem na guerra, uma Grande Síria aos árabes haxemitas para os motivarem a rebelar-se e combaterem os Otomanos (Lawrence da Arábia é o embaixador da causa) e, ao mesmo tempo, combinam com a França a posterior repartição da região entre os dois países. Terminada a guerra, as expetativas de todos são incompatíveis e a tensão dispara. O então Secretário Colonial, Wiston Churchil inventou dois países para os haxemitas, Iraque e Transjordânia (atual Jordania) e deixou a Palestina indefinida. De repente, em vez de se discutir a repartição do bolo inteiro, todo o Médio Oriente, passou a ser disputada apenas a última fatia, a Palestina.

Ao longo das décadas de existência do estado judeu algumas coisas óbvias podem ser apontadas e recordadas:

- Desde a primeira hora todas as guerras foram despoletadas por árabes e fações árabes, que não aceitam menos do que a sua hegemonia na região. Israel reage, defendendo-se… e contra-atacando, mas nunca deu o primeiro passo.

- Em 1948 havia 851 mil judeus nos países árabes, em 2018 estavam reduzidos a pouco mais de 3 mil. Os que saíram e seus descendentes não estão a viver em campos, financiados por uma agência especifica da ONU. Refugiado é temporário. Quando não regressam ou não se integram é por que não querem ou não os deixam e será uma forma de deixar a ferida viva. Os próprios judeus expulsos não o desejariam, mas alguém está a ver os países árabes a receber e dar cidadania plena a todos os seus descendentes?

- Desde o fim da guerra do Yom Kippur de 1973 que tem havido tentativas de estabelecer a paz entre Israel e seus vizinhos, com avanços notórios. O sucesso das mesmas é, no entanto, posteriormente dinamitado por alguém que relança as hostilidades. Hoje é o Hamas, apoiado pelos seus padrinhos Irão e Qatar.

- Institucionalmente Israel está em paz com cada vez mais vizinhos e com processos de colaboração que chegam ao domínio da defesa, concretizado aquando dos últimos ataques do Irão.

. O apoio financeiro e logístico do Qatar (Irmandade Muçulmana) ao Hamas é talvez o maior cancro atual na região. Todos que quiserem saber, sabem que daquele movimento nada de bom se pode esperar, nem sequer para os próprios palestinianos que eles reclamam defender. Qual o objetivo do Qatar em alimentar e promover estes bárbaros?!

- Mesmo que se possa discordar e criticar o que se passou em 1948, Israel é hoje um país consolidado e a História é mesmo assim. Não há marcha atrás a partir de certa fase, A reivindicação do “From the river to the sea…” é uma cantilena irrealista. Alguns até desconhecem o significado concreto da mesma, mas acham giro. Quem a canta está redondamente enganado e de forma nenhuma do lado da solução.

- A ocupação da Cisjordânia e respetivos colonatos são um entrave importante. No entanto, não são irresolúveis no âmbito de um acordo de paz, tal como foram desmantelados os existentes em Gaza, quando Israel abandonou o território.

- Uma certa opinião pública ocidental adora os lenços palestinianos, como no passado gostava das camisas à Mao, das boinas à Che Guevara e de símbolos de outras causas. O fundo da motivação tem muito em comum. O ser contra o “seu mundo”. Da mesma forma como os contestatários passados nunca iriam viver na China maoista, também os ativistas atuais nunca se instalarão no Irão (LGBTs nem se fala). Convinha ganharem a consciência de que não estão a ajudar os palestinianos, mas apenas a branquear manipuladores que os usam para causas e modelos de sociedade que certamente não querem mesmo ver implantados na sua própria casa.

Por hoje, é tudo e espero não estar a pregar no deserto (se bem que no passado alguns tiveram sucesso nesse enquadramento 😊 )


24 outubro 2025

A rua da burca


Portugal legislou algo que implica a proibição da utilização da burca em espaços públicos e “naturalmente” é tema para muita discussão, opinião e polémica. Cruzaram-se várias dimensões. A primeira será a sua “estranheza” face à nossa realidade. Para viver numa dada sociedade é necessário respeitar um certo número de “códigos” e práticas, que fazem a harmonia social e com o qual essa sociedade se identifica.  Não é xenofobia! Cuspir para o chão, arrotar em público, atirar piropos a mulheres que passam na rua, andar em tronco nu ou atravessar a rua fora da passadeira são pequenas coisas naturais e aceites em certos contextos e proibidas ou no mínimo mal vistas noutros. A visão de uma mulher “embrulhada” na rua não pertence certamente à nossa paisagem social.

A outra dimensão é a confessional e eventual conflito com as crenças de cada um. Aqui o Parlamento pode estar a colocar a foice em seara alheia, mas, no fundo, a burca não é uma “necessidade” da prática religiosa. Na origem o Corão impõe a necessidade de a mulher se apresentar publicamente com recato, sendo que a definição de recato evoluiu. Ainda há poucas décadas, por estes lados, uma mulher não devia sair à rua sem cobrir o cabelo… isso evoluiu.

Em resumo, era do interesse do Islão e dos muçulmanos procurar alguma atualização e contextualização dos seus princípios para poderem viver em harmonia nas sociedades ocidentais atuais. A burca é um anacronismo que devia ser banido. Se devem ser os Parlamentos a promover essa evolução é outra questão, mas que está mais do que na hora de fazer algo, está!

09 outubro 2025

Olhando o Islão (XI e final)


11) Quo vadis Islão

Como é óbvio, a larga maioria dos muçulmanos não são violentos e gostariam apenas de viver a sua religião em paz com eles e com o mundo, mas há um contexto problemático:

a)       Na sua génese, a religião, que simultaneamente cria um Estado, é muito regulamentar e algumas regras necessitam de revisão com as evoluções sociais

b)       A ausência de uma figura ou instituição globalmente reconhecida que lidere e contextualize e adapte as regras aos novos tempos

c)       A existência dos salafistas, sempre prontos a assinalar falta, a mobilizar as massas e a desafiar o poder cada vez que há um cheiro de mudança

Alguns exemplos simples

Há 14 séculos, uma mulher fazer-se sozinha à estrada de Meca para Medina corria sérios riscos de acabar mal. Nesse contexto, por essa razão, faria sentido decretar que uma mulher não devia viajar sozinha. Hoje, se essa regra for aplicada sem contextualização, acontece o seguinte. Uma muçulmana quer deslocar-se do Porto a Lisboa para encontrar amigos, visitar uma exposição ou assistir a um espetáculo e

·       Ou vai na mesma sozinha e não cumpre os preceitos da sua religião, problema de consciência

·       Ou é obrigada a arranjar uma companhia masculina, humilhante

·       Ou desiste de viajar, frustrante.

Não há saída digna, além de existirem vários outros pontos do Corão onde é explicitada a inferioridade da mulher face ao homem, o que não é destes tempos atuais.

Há 14 séculos a escravatura era algo de perfeitamente comum naquela sociedade (sim, não nasceu com os europeus no Atlântico, mas isso não é tema aqui). No Corão, há um conjunto de definições e regras relativas a este estatuto, perfeitamente natural e aceite na época. Quando uns séculos mais tarde, alguém diz que a escravatura deve ser abolida, isso vai encontrar resistência. Se no livro sagrado ela é permitida e regulamentada, com que direito vamos mudar isso? Entre os males e os bens da colonização europeia, é ela que irá forçar essa abolição. Na Mauritânia, ali abaixo de Marrocos, ela foi oficialmente abolida apenas em 1981. A prática parece ser outra coisa.

Qual a saída, não sei. Na Europa vivemos um processo de disrupção e da separação da Igreja das estruturas do Estado a partir do século XIX. Envolveu revoluções e algumas ações nem sempre razoáveis e justas, mas funcionou.

O Islão necessita de resolver dois problemas interligados. Um é a revisão/atualização de aspetos regulamentares anacrónicos e ter liderança reconhecida para isso. Uma referência a Marrocos. O rei, que é respeitado e reconhecido, é simultaneamente o “Comandante dos crentes”, o que permite alguma legitimação da legislação que toque aspetos religiosos.

O outro aspeto é o islamismo ou a religião usada como ferramenta política. Não tenhamos dúvidas. A larga maioria dos que buscam o poder, usarão todas as ferramentas disponíveis para alcançar os seus objetivos. Enquanto a alavanca da religião funcionar, não faltará quem a utilizará. Como se resolve isto e se anula… não sei !!

E lamento não poder concluir de forma mais assertiva.

Começou aqui ... e acabou.

03 outubro 2025

Olhando o Islão (X)


10) Os petrodólares

Após o fim do califado, deixou de existir um líder global do mundo muçulmano. Tentativas de ocupar o lugar não faltaram. Gamal Nasser, a partir do Egito, sonhou com um “pan-arabismo” que voltasse a reunir todos aqueles povos. O rei Hussein da Jordânia, invocando que a sua ascendência chegava a Maomé, também com isso sonhou. Penso que terá sido por essa ambição que a Jordânia permaneceu na Cisjordânia, após a guerra da independência de Israel, orgulhosamente controlando o Jerusalém histórico e impedindo a formação na altura do tal Estado Palestiniano, de que tanto se tem falado depois.

No centro da península arábica, entretanto tornada saudita, estão os locais originais da religião. Meca, a Meca, e Medina, a cidade de onde a expansão começou e onde está sepultado Maomé. Os sauditas têm pretensões a exercerem algum tipo de liderança sobre toda a comunidade muçulmana.

Após a guerra do Yom Kippur de 1973 e do choque petrolífero, as receitas do ouro negro disparam. Os sauditas estão ricos e têm os meios de tentar concretizar as suas pretensões. Como habitualmente compram tudo feito, vão imprimir a cartilhas da Irmandade Muçulmana, que não anda muito longe do seu credo rigoroso wahabita, vão construir escolas/madraças e pagar professores/imanes para isso ensinaram.

Portanto... temos um terreno fértil que são as desilusões pós-independências; temos as sementes na ideologia salafista e acrescenta-se a irrigação com os petrodólares. Estão criadas as condições para o desabrochar das radicalizações.

Convém referir que as relações da Irmandade com as monarquias do golfo, não são continuamente estáveis. Há alturas em que o poder sente que ela tem demasiada influência e ambição, os ameaçam e zangam-se. Neste momento com o Qatar está tudo bem e com os sauditas está tudo mal… amanhã, logo se vê.

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01 outubro 2025

Olhando o Islão (IX)


9) O pós-colonialismo

Após o final do império Otomano, a região vai desmembrar-se em vários Estados, mais ou menos homogéneos, mais ou menos patrocinados pelo Ocidente. Já em 1916 o acordo Sykes-Picot (UK – França) definia a futura repartição da herança Otomana entre os dois países. Grosso modo Damasco para os Franceses e Bagdad para os britânicos… mais uns trocos.

A colonização europeia do Médio Oriente será efetiva apenas entre as duas guerras. No final da II, as independências chegam, incluindo para o Norte de África. Este novo estatuto é saudado e gerador de muitas expetativas. Agora que somos nós que mandamos em nós, sem interferenciais culturais e religiosas externas… agora é que vai ser!

Uma geração depois torna-se óbvio que não foi grande o sucesso. Não é aqui o espaço para desenvolver a análise das razões, mas o facto é que os resultados são dececionantes.

Os novos regimes, muitos deles autoritários e com forte dominância de uniformes militares, são muçulmanos, naturalmente, mas “non troppo”. Do ponto de vista social e especialmente do estatuto da mulher são até mais tolerantes do que se verá mais tarde.

À vista do que corre mal, virão os salafistas dizer “isto corre mal porque os nossos dirigentes não são muçulmanos rigorosos, como deveriam ser”. Este desafio vai correr mal para muitos, ver acima Nasser e Qutb.

Esta pressão política religiosa terá como resposta um maior rigor nas práticas, buscando assim os regimes protegerem-se contra as acusações de serem “fracos muçulmanos”. Em sentido contrário, claramente, a todas as tentativas de modernização.

Um pequeno exemplo. Após a independência a Argélia mantém o fim de semana ocidental, sábado e domingo; em 1976 sobre a pressão islâmica passam a quinta-sexta-feira; em 2009, por pressões de competitividade num mundo, apesar de tudo mais globalizado, passaram a um meio termo de sexta-feira e sábado. Um bom exemplo destas evoluções e involuções.

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28 setembro 2025

Olhando o Islão (VIII)


8) Chega o salafismo

Quando os otomanos perceberam que estavam a entrar em decadência, nomeadamente face a uma Europa “Iluminada”, eles vão tentar adotar as modas e as técnicas que os poderão ajudar a não ficar para trás. São ricos, compram os frutos, mas não plantam as árvores. Nas causas, múltiplas, da decadência do império otomano, creio existir fundamentalmente um défice na geração de conhecimento e, também, um esquema de enriquecimento piramidal. Novas conquistas para alimentar as anteriores. Quando o ciclo para…

Nas cinzas da derrota, Mustafa Kamel Atartuk cria um novo Estado, Turquia, muçulmano é certo, mas onde a religião não entra em escola, tribunal ou parlamento…

Do lado oposto da barricada, há quem pense de outra forma. No passado, éramos poderosos e bem-sucedidos; quando nos afastamos dessa pureza original e tentamos copiar os infiéis, pioramos. A solução passa por “ò tempo volta para trás” … voltar a viver como o profeta Maomé vivia… isto é o salafismo, voltar às origens.

Dentro desta movida, vai ser, e é hoje ainda, muito relevante a Irmandade Muçulmana. Criada em 1928 no Egito por Hassan Al Banna. Ela vai desenvolver e concretizar essa doutrina de… O Islão é a solução; é preciso islamizar o individuo e a sociedade, é preciso lutar por isso, se a lutar tiver que ser violenta, que seja, se se morrer nessa luta, está certo.

Al Banna acreditava na pureza do rigor religioso, com uma profunda rejeição da cultura ocidental. No mundo árabe, eles serão durante um século também uma força política de oposição aos regimes pós-coloniais, não suficientemente islâmicos no seu ponto de vista. Essa ameaça leva-os a serem perseguidos e Nasser, no seu Egipto natal, não hesita em condenar e executar Qutb, um dos principais teóricos e ativista do movimento.

Um século depois, é curioso fazer um ponto de situação e dos seus aderentes, presentes.

Sudão - o criminoso Omar Al Bashid de toda a barbaridade no Darfur

Marrocos - o partido PJD, grande vencedor das eleições de 2011 após as “primaveras”

Tunísia – Ennahda no governo após eleições pós “primaveras”

Egito – Mohamed Morsi, eleito presidente após “primaveras”

Turquia – Erdogan, partido AKP ? (não confirmo nem desminto)

Arábia Saudita e Qatar --- tem dias

Palestina - Hamas

França – Muçulmanos de França (ex UOIF)

Se bem que depois das “Primaveras” o movimento tenha tido bastante sucesso democrático, a prática ficou longe das expetativas e a seguir viram o seu poder institucional diminuir.

Sobre a Europa, de notar que as comunidades muçulmanas emigradas tendem a ficar agrupadas (e agarradas) à origem … os marroquinos de um lado, os argelinos de outro, depois os turcos, etc.

Tarik Ramadan, neto do fundador Hassan al Banna, foi uma figura muito popular deste movimento em França por apresentar um discurso diferente, especialmente dirigido aos jovens. Vocês são franceses e, simultaneamente, muçulmanos e devem poder viver plenamente a vossa religião no vosso país. Esta mensagem tem duas leituras. Por um lado, uma mensagem de integração, por outro lado, as instituições francesas devem-se adaptar para vos permitir viver a vossa religião sem limitações. Em todas as polémicas sobre o uso/proibição do véu, presença de presépios de Natal em espaço público, burkinis nas piscinas, etc, há a assinatura e uma intervenção muito ativa deste movimento. De há uns anos para cá, Tarik Ramadan caiu em desgraça e risco judicial, devido a umas relações extraconjugais não consentidas…

Sendo a cartilha fundadora da Irmandade fortemente salafista, mesmo sem descartar a violência, os discursos externos atuais são bastante mais macios, mas há testemunhos de dissidentes que apontam para importantes discrepâncias entre as convicções internas e as mensagens públicas. O tema é tão potencialmente sensível que o ministério do Interior francês se deu ao trabalho de realizar um estudo específico sobre as formas dissimulados como os islamistas tentam subverter valores fundamentais da república. Ver aqui.

Uma curiosidade. Em 2003, N. Sarkosy cria o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), uma associação supostamente representativa do Islão no país, com a qual o poder político pudesse reunir, discutir e tomar decisões relativamente à tal adaptação da sociedade e das instituições à religião. As disputas internas pelo poder foram mais fortes do que as ações concretas desenvolvidas, nunca conseguiu grande peso e hoje existe, mas em estado vegetativo.

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22 setembro 2025

Olhando o Islão (VII)


7) Quando o califado acaba

 Depois das conturbações iniciais, chegou a dinastia dos Omíadas de Damasco em 661, substituídos depois pelos Abássidas de Bagdad em 750. Nesta transição há um omíada refugiado em Córdova que a autonomiza inicialmente em emirato em 756, posteriormente evoluindo para califado em 929

Entre 910 e 1171, aparece no norte de África e no Egito um califado opositor xiita, os fatímidas, conforme o nome da filha de Maomé.

Entre 1261 e 1517, formalmente o califado continua Abássida, mas o poder efetivo está nos sultões Mamelucos do Cairo.

Em Marrocos houve dois califados secundários. O Almorávida entre 1038 e 1147 e os Almóadas entre 1145 e 1269. Ambos vieram dar uma ajuda aos muçulmanos da Península Ibérica, sendo contra estes últimos que decorreu a reconquista final do Algarve e de quase toda a Andaluzia, exceto Granada.

Em 1517, o poder passa para os Otomanos, que serão poderosíssimos, controlando todo o Mediterrâneo oriental e o norte de África, chegando a ameaçar a Europa central, mesmo Viena. A tristemente famosa batalha de Alcácer Quibir tem algo a ver com isto, nomeadamente com a disputa pelo acesso dos Otomanos ao Atlântico.

O califado/império otomano vai entrar em decadência, tema para muitas reflexões e especulações, e extingue-se após a criação do Estado da Turquia após o final da I Grande Guerra.

Durante todos estes séculos, todo o muçulmano teve o seu califa, sucessor de Maomé, mesmo que não coincidente para toda a comunidade. Este período, após a I guerra, é um choque enorme. Os otomanos estiveram do lado dos derrotados, o império colapsa e, para cúmulo, desaparece a figura do califa. Há uma derrocada e uma falência…

Como vai reagir o mundo muçulmano a este descalabro…?

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19 setembro 2025

Olhando o Islão (VI)


 6) O califado, a continuação do Estado Islâmico

Maomé morre em 632, líder religioso e político, sem deixar definida a organização posterior da religião e sua administração. Não quis, não pode, não o deixaram… não se sabe!

Começa uma disputa pela respetiva herança que não é apenas a liderança espiritual. Há duas fações principais. Por um lado, os defensores da primazia da tradição (suna em árabe), apontando Aboubakr, um dos companheiros de primeira hora; por outro lado os defensores de uma linha familiar próxima, neste caso apontando a Ali, seu primo e genro, casado com a sua filha Fátima. São os xiitas, os seguidores de Ali.

A escolha inicial fica com Aboubakr como califa, literalmente o sucessor, o que vem depois, cuja principal tarefa inicial serão as guerras da apostasia. Guerrear para manter convertidas as tribos que se queriam desvincular após a morte de Maomé. Os tempos são conturbados e dos quatro primeiros califas, três morreram assassinados, até entrar em cena a primeira dinastia, os Omíadas de Damasco.

Apesar das descontinuidades dinásticas e dos califados “paralelos”, como os fatímidas no Egito ou aqui em Córdova, o princípio é existir um único sucessor de Maomé que concentra todos os poderes e lidera todos os muçulmanos. Isto traz alguns problemas.

O primeiro é a dificuldade no posterior desmembramento do califado único em vários Estados-Nação que ficam decapitados da liderança religiosa. Outra é a falta de uma estrutura hierárquica religiosa autónoma.

Como comparação e ilustração, a religião cristã tem padres, bispos, cardeais e papa, que ao longo da história tiveram problemas e interferência dos poderes temporais, é certo, mas que se mantiveram como estrutura intrinsecamente independente. Quando foi precisar decidir e atualizar princípios e práticas, houve concílios que o discutiram e decidiram. Quando amanhã se quiser decidir terminar o celibato dos padres ou a ordenação das mulheres, há um sítio para o tratar.

No islão sunita, isso não existe e daí a enorme dificuldade em consensualizar a adaptação da prática religião às novas realidades e resolver questões anacrónicas, como exemplo o estatuto da mulher.

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14 setembro 2025

Olhando o Islão (V)


5) A construção do Estado Islâmico

Esta fase de expansão (e uma boa parte das seguintes) é feita pela espada, diferente de pelo menos os 3 séculos iniciais do cristianismo. Este nasce e expande-se em contrapoder. Cristo não empunha armas, não conduz exército nem administra territórios. É de realçar que o cristianismo encontra um poder, o império Romano, muito forte, sendo assim possível o contrapoder também ser forte.

Na península Arábica não há Estado. Principalmente na zona central da península há uma tradição de tribos autónomas e as cidades são algo recentes. A expansão do Islão é feita simultaneamente com a construção do Estado. Maomé é líder religioso e político (e militar).

No texto aqui, desenvolvo a minha visão das quatro dimensões nas interações da religião com a sociedade. Não o vou repetir na integra, mas sugiro a leitura. Muito resumidamente: a espiritual, original, a relação do ser humano com a transcendência; a comunitária, como característica identitária de um grupo; a regulamentar, com as regras do bem-fazer a irem para lá da dimensão espiritual e da prática religiosa, finalmente, a da manipulação, quando o poder decreta, interpreta ou manipula as regras para seu benefício próprio exclusivo.

A concentração de todos os poderes numa única pessoa é um fator potenciador da manipulação. Hoje na Arábia Saudita e nos Emiratos Árabes, pelo menos nestes, a apostasia, abandonar a religião, é punível com pena de morte. Perdão?? Isto parece mais castigo por deserção, não? A explicação é a seguinte. Aboubakr, o primeiro califa, sucessor de Maomé após a morte deste, tem dificuldades em se impor (detalhes mais à frente). Algumas tribos declaram que com Maomé tinham aliança, mas que ela se extingue com a sua morte… Aboubakr lembra-se que Maomé terá dito: “Muçulmano uma vez, muçulmano para toda a vida; filho de muçulmano, muçulmano será e muçulmano que o deixa de ser, morte”, criminalizando assim a apostasia.

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12 setembro 2025

Olhando o Islão (IV)


4) A hégira e a dimensão bélica

Maomé começa a pregar a “nova” religião e o Deus único em Meca em 613.  Como é natural estes “novos” movimentos criam sempre alguma instabilidade social e em geral não são bem aceites pelos poderes instituídos, que os vêm como um desafio ao seu estatuto.

Durante algum tempo Maomé beneficia de proteção no xadrez tribal de Meca, mas acaba por a perder e ficar exposto e em perigo. Assim em 622 ele e os seus companheiros fogem para a cidade de Medina. É a Hégira (fuga) e marca o início do calendário muçulmano. O nosso 2025 não corresponde, no entanto, a 1403 (2025-622) mas sim a 1447, dado o tempo islâmico ser contado em ciclos lunares, que não dividem perfeitamente o ciclo solar. Todos os anos ficam a faltar cerca de 11 dias. As festas religiosas islâmicas e as datas em geral deslizam ao longo do ano solar.

Numa primeira fase, Maomé alia-se aos habitantes de Medina e instala-se uma guerra aberta entre as duas cidades. Na guerra há mortos, feridos, saques, prisoneiros, covardias, heroísmo e muitas coisas mais. O Corão revelado durante esta fase de Medina tem uma pendente beligerante muito forte. Vai servir de base e inspiração aos jihadistas de todos os tempos.

Os atritos com os judeus de Medina acumulam-se, dada a relutância destes em aceitarem a conversão. Em 624 a tribo judaica de Medina, os Banû Qurayza, é “julgada” e exterminada por se ter recusado a participar na batalha da Trincheira. Na base da condenação, o facto de serem traidores potenciais. Nada fizeram, mas supostamente estariam preparados para fazer. Todos os homens são executados, mulheres e crianças escravizadas.

É no mesmo ano que a direção das preces é mudada de Jerusalém para Meca.

Os capítulos do Corão, suras, revelados nesta fase de Medina incluem uma dimensão bélica e de vingança contra os infiéis de Meca, com apelos diretos à guerra e morte. Alguns exemplos:

Corão 2.191 – E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idolatria é pior do que o morticínio. E não os combateis nas imediações da Mesquita Sagrada, até que eles vos combatam nela…

Corão 9.5 -   Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho.

A guerra corre de feição a Maomé e Meca é conquistada pelos muçulmanos em 630. Em 632 Maomé morre controlando já a totalidade da península arábica.

Todos estes fatos têm que ser analisados face ao local e ao tempo onde ocorreram, mas é inquestionável que o apelo à morte dos infiéis existe bem explícito no Corão.

Quando face a algumas barbaridades atuais ouço dizer que “Isto não tem nada a ver com o Islão, o Islão é uma religião de paz e amor”, fico a pensar. Ou quem o declara não sabe o que diz e devia abster-se de o dizer assim em palco, ou sabe e é mais grave. Enganar infiéis não é “pecado”. Os jihadistas ao ouvirem afirmações destas, por parte de quem sabe o que está a dizer, podem interpretá-lo como uma validação indireta dos seus atos violentos.

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11 setembro 2025

Olhando o Islão (III)


3) Diferenças entre as três religiões do “Livro”

O Islão e o Cristianismo partilham os mesmos alicerces, o Judaísmo, mas o contexto em que se desenvolvem e a personalidade dos seus profetas principais dão origem a dois edifícios muito distintos.  O que é que os distingue, para lá do dia santo judeu ser sábado, dos cristãos domingo e dos muçulmanos sexta-feira?

A Bíblia e a Tora são também livros sagrados para o Islão, mas supostamente incompletos, e os muçulmanos deverão evitar a sua leitura, para não se baralharem.

Na primeira fase, o Islão tem Jerusalém como cidade-farol, como as outras duas religiões. Jerusalém é a “Meca” inicial, para onde são dirigidas as preces. Só mais tarde mudará para Meca, Meca. O carácter sagrado de Jerusalém para os muçulmanos é devido precisamente a estas raízes comuns. Supostamente Maomé foi uma vez teletransportado para lá e daí, de onde é hoje a cúpula do rochedo, onde Abrão terá sacrificado o carneiro, subiu em visita ao Céu…

Para um muçulmano, ser cristão é sofrer de uma espécie de deficiência, atraso… porque ficar numa religião mais antiga, se existe outra, mais recente e mais completa? É mesmo assim?  O Islão engloba todos os princípios do cristianismo e acrescenta algo, espiritualmente falando? Para mim, objetivamente, não.

Convém recordar que apesar da base judaica do Cristianismo, ele vai metamorfosear-se para uma postura de tolerância, perdão e humanismo. “Todo o homem é meu irmão”; “Oferecer a outra face…” e, muito relevante, o “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Nada disto passou para o islamismo, que se mantém no rigor castigador do Deus impiedoso do Antigo Testamento.

Há mesmo uma passagem explicita, no Corão. Numa família judaica de Meca é identificado um caso de adultério. Conforme os códigos em vigor, o castigo será a delapidação da mulher. A família, no entanto, com pouca vontade de o aplicar e sabendo que há uma evolução da sua religião em que a mulher pode ser perdoada, faz questionar Maomé, na esperança de que uma conversão possa salvar a senhora. Infelizmente, para ela, Maomé confirma que no Islão esse código se mantém em vigor.

Quando se tentam mostrar as diferenças entre o Islão e as outras duas religiões do livro, evoca-se principalmente o episódio de Abrão, do sacrifício do filho e a troca pelo carneiro. Nas duas primeiras o filho é Isaque e no Corão é Ismail. Muda algo de fundamental? Entendo que não.

Relativamente às diferenças entre o Islão e o Judaísmo, excluindo a dimensão regulamentar, o que se pode fazer e o que é proibido, aliás com muito em comum, quais as diferenças na dimensão básica, espiritual… é um tema ao qual não sei responder, mas que suponho muito sensível.

Existem vozes, dentro do mundo muçulmano, algo críticas relativamente aos rigores regulamentares, alguns anacrónicos, interrogando e questionando os que querem transformar/transformaram a sua religião num catálogo de proibições. Não será por aí que ela acaba por se diferenciar…?

O que é certo é que apesar do que existe em comum, o Islão posiciona-se num não como uma religião diferente, mas superior às outras duas, que serão versões incompletas. Isto justifica algumas posições de não reciprocidade ainda na atualidade.

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08 setembro 2025

Olhando o Islão (II)

2) O Islão de Moisés e de Abrão

Qual é a religião, qual é ela, que tem um único Deus, omnisciente, omnipotente, criador do Céu e da Terra, descansando ao 7º dia, depois proclamado por Abrão e Moisés, numa história em que houve um Adão e uma Eva, um dilúvio e uma arca de um Noé, um Lot e a destruição da cidade dos pecadores, o sacrifício de um filho, trocado à última hora por um carneiro, uma travessia do mar Vermelho, etc… ?

Se acham que sabem, esperem… Sim, é o Cristianismo que todos conhecemos mais ou menos, é também o Judaísmo que serviu de alicerce ao primeiro e… é o Islão.

O Islão é mais uma religião de Abrão e Moisés. Se pedirem a um Cristão que faça um resumo do Antigo Testamento e o mostrarem a um muçulmano, ele identificará os personagens e a história como islâmicos. Até Cristo aparece no Corão, se bem que apenas como mais um importante profeta, cuja particularidade fica pela gestação milagrosa.

Maomé apresenta-se como o último e mais importante profeta de Deus/Alá. Os cristãos e os judeus não são membros de uma outra religião, mas da mesma, apenas num estádio mais atrasado. Diríamos que com a missa a metade…

Maomé explica, dividindo os homens em três grupos. Os bons muçulmanos que cumprem todos os preceitos, o reconhecem como o profeta mais importante e que no juízo final terão tudo de bom; os pagãos politeístas que verão a coisa mal pintada quando chegar a altura (e não pensem que vão enganar Alá com historinhas, porque este sabe tudo e tem lá a folha toda…) e os cristãos e judeus. Para estes últimos ele diz, vocês estão certos em reconhecer Alá, o Deus único, mas … atualizem-se e reconheçam-me!

Daqui existir um histórico de uma certa tolerância, com um preço, é certo, com que estas duas religiões foram aceites ou toleradas no mundo islâmico. Havia a esperança de que um dia acabassem por realizar a tal atualização.

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05 setembro 2025

Olhando o Islão (I)

1) Introdução

Em setembro de 2006 fui de bagagens (e sem armas) instalar-me na Argélia, por motivos profissionais. Para lá de todas as diferenças culturais e sociais, havia algo marcante e preocupante. O histórico brutal de violência da década anterior, associada ao terrorismo islâmico. Mais tarde, compreendi ser um puzzle com mais peças.

Um risco diferente, menos conhecido, é sempre percepcionado com mais intensidade e inquietação. Naquela altura, os islamistas matavam uma a duas pessoas por mês, sobretudo membros de forças miliares ou de segurança, em zonas remotas, afastadas dos grandes centros urbanos. Na estrada morriam dez por dia, alguns ao nosso lado. Onde estaria o risco mais elevado, avaliando objetivamente?

Acreditando que as religiões têm na sua génese uma certa busca de harmonia e de bom viver e que a violências praticadas sob essas bandeiras eram degenerações e manipulações dos princípios fundamentais, como as nossas pouco cristãs cruzadas, quis crer que a violência islâmica seria também um desvio dos fundamentos daquela religião.

Decidi, portanto, estudar o Islão. Caso tivesse a infelicidade de ver uma faca encostada ao pescoço por ser um infiel, caso tivesse tempo e canal de comunicação, poderia procurar convencer o agressor de que ele não estava a seguir coerentemente os princípios da sua religião… Poderia não existir um simples e direto “Não matarás!”, mas certamente algo análogo haveria de encontrar.

Li inúmeros artigos, ensaios, livros de opinião e históricos e, naturalmente, o Corão. Aprendi muita coisa e para uma delas, fundamental, não deveríamos sequer precisar de muitos livros para a saber: “A realidade nem sempre coincide com o que a ignorância imagina”.

Por vezes, no desconhecimento, avançamos algumas hipóteses e especulações, conforme as nossas ideias pré-concebidas e simpatias e acabamos por nos convencer da alta probabilidade de na realidade ser assim, como imaginamos, mas…

Devo esclarecer que conheci nesses tempos dezenas, para não dizer centenas, de muçulmanos e que nenhum me incomodou, insultou e, muito menos, ameaçou ou agrediu. Ações de proselitismo também foram muito raras. Recordo muito boa gente, por quem tenho todo o respeito e estes textos não os pretendem atingir ou diminuir de nenhuma forma. 

O que “causa um problema” e pretendo de certa forma esclarecer e denunciar são as mentiras e as manipulações, assim com as tentativas de condicionar a sociedade e restringir liberdades. Acredito que muitos muçulmanos estarão certamente de acordo comigo.

Sobre este título, irei publicando alguns factos que aprendi, não imediatamente de rajada. Fica feita a introdução. 

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15 agosto 2025

Barbie apagada na cidade-luz


O filme Barbie, independentemente da qualidade e do apreço que poderemos ter por eles em termos exclusivamente cinéfilos, tem um histórico de polémicas por supostos atentados à moralidade e promoção da homossexualidade, pelo menos na ótica de certas culturas, estando mesmo proibido nalguns países.

Na passada semana foi objeto de uma nova censura. Uma projeção ao ar livre, promovida por uma autarquia foi cancelada porque um grupo de fundamentalistas, que se opunham à exibição, ameaçaram abortar a projeção pela força.

A sessão foi então anulada por preocupações de segurança (medo...). Passou-se na Arábia Saudita, Qatar, Argélia …? Não, foi em França, Noisy-le Sec, a uma escassa dúzia de quilómetros do centro da cidade-luz e da catedral de Notre-Dame.

Se a condenação clara deste facto dispensa qualquer “nuance”, e o mesmo deveria ser objeto de séria preocupação, é extraordinário como o presidente da câmara, comunista, considera que a amplitude das críticas é injustificada e desproporcional, assim como a sua “apropriação” pela extrema-direita racista e islamofóbica (estará a fazer contas para as próximas eleições !?). Se condenar veementemente estas derivas inaceitáveis no nosso modelo social é ser extrema-direita…

Quanto a alianças entre comunistas e islamistas, basta olhar para o Irão e o que aconteceu aos progressistas depois da vitória da revolução “comum”.

Uma pequena provocação: os LGBT+ que arvoram bandeiras da Palestina, têm consciência da inconsistência da sua posição?

29 março 2025

Salafismo no BE


Quando os canhões da I Grande Guerra se calaram, o mundo muçulmano sunita entrou num período de crise e de choque. O Império Otomano, seu bastião, tinha lutado do lado dos vencidos e a outrora poderosa força que dominara todo o Médio Oriente e grande parte do Norte de África, já enfraquecida antes do conflito, desmorona-se e desaparece.

Na sua sede e origem, a atual Turquia, Kemal Atartuk vai criar um novo Estado, muçulmano certo, que o digam os ortodoxos gregos e arménios que por lá andavam, mas laico, com a religião nas mesquitas e fora de escolas, tribunais e parlamento.

Ao mesmo tempo é extinto o califado, desaparecendo o Califa, o líder religioso global e reconhecido sucessor de Maomé. Imaginem que, se na unificação da Itália, em vez de o Papa passar a administrar apenas um bairro de Roma, tivesse desaparecido de vez a função. Um grande choque seria, não?

Neste processo de desagregação do mundo muçulmano, surgem reflexões do tipo: Se no passado, na origem, eramos poderosos e depois enfraquecemos, a solução passa por regressar à “pureza original”. A isto se chamará salafismo, palavra relacionada com origem e raiz, sendo o movimento mais impactante, ainda hoje, a Irmandade Muçulmana, nascida no Egito.

Como é óbvio estas visões retrogradas e anacrónicas não trouxeram muito brilhantismo e sucesso ao Islão.

Contextos e dimensões à parte, a opção do Bloco de Esquerda em ir chamar os seus “fundadores”, parece ser um reflexo com a mesma inspiração. Quanto ao resultado, logo se verá, mas as estratégias de “ó tempo volta para trás”, nunca trouxeram grande progresso.

30 janeiro 2025

Nem tudo é caso de polícia

Se a imigração passou recentemente a ser tema sensível e até “fraturante” não é por acaso, nem por mera moda ideológica. É porque, menos em Portugal do que noutros locais, há transformações sociais em curso que preocupam quem se deve preocupar com a sociedade em que queremos viver.

Venissieux é uma localidade na periferia de Lyon, em França. Em agosto passado, na padaria da praça central, uma empregada enganou-se e em vez de uma quiche de queijo, entregou uma quiche lorena, que inclui toucinho. Os clientes, ultrajados, quando descobriram o engano, voltaram para agredir a empregada e tentar vandalizar o estabelecimento. Felizmente o proprietário estava presente e conseguiu acalmar os ânimos, sendo o incidente encerrado sem consequências de maior.

Na sequência deste acontecimento, o proprietário decidiu banir a carne de porco do estabelecimento e colocar o mesmo à venda. O principal supermercado tradicional do bairro já migrou para uma versão “halal. Os cafés e restaurantes retiram as bebidas alcoólicas da sua oferta. As professoras receiam apresentarem-se nas escolas com saias que possam “provocar”.

Não há aqui necessariamente um problema legal, mas, a densidade e a pressão de uma comunidade que forçam uma mudança no quadro social e cultural tradicional, sendo que essas mudanças constituem um retrocesso nos direitos, especialmente das mulheres, cerceando liberdades e tantas coisas que fizerem o sucesso deste nosso mundo.

Para evitar entrar por esse caminho devíamos definir e balizar hoje a sociedade em que queremos viver. Deixar rolar até haver uma outra maioria que imponha outros valores não será o ideal e não terá final feliz.

06 outubro 2024

(Des)cruzadas


É sempre interessante ver os dois lados, embora, com todo o respeito pelo Amin Maalouf e pelos seus excelentes escritos, do outro lado dos cruzados não estavam árabes, mas sim uma multitude de povos do Médio Oriente e não só. Saladino, o grande herói dos “árabes” que reconquistou Jerusalém aos “francos”, era de origem … curda. Quem diria. Uma etnia hoje não muito acarinhada por quem lhe constrói estátuas e venera como grande herói do Islão.

Árabe era, sem dúvida, o 2º califa, Omar, que conquistara a cidade aos bizantinos em 637, 15 anos apenas após a Hégira e a fundação oficial do Islão.

Hoje em dia associa-se cruzadas a abusos, barbaridades e violentas campanhas de evangelização, mas não é isso que me ficou. A não consolidação da presença latina na zona é capaz de ser precisamente resultado de o seu programa ser muito militar e pouco evangelizador/cultural. As cruzadas procuraram principalmente controlar e aceder à terra santa, nomeadamente Jerusalém. Acessoriamente marcar o poder de alguns papas e dar espaço de conquista a alguns senhores feudais aventureiros, posteriormente mesmo a reis, num caldo de misticismo medieval.

Não deixa de ser algo curioso que na mesma época a reconquista da península ibérica, “arabizada” a partir de 711, tenha sido consolidada a meados do século XIII, enquanto no outro extremo do mediterrâneo tudo acabou no final desse século com a conquista final de Acre pelos mamelucos (já agora, de árabes tinham pouco). Porque é que dois processos com tanto em comum no contexto e no calendário tiveram desfechos tão diferentes?

Falar atualmente em novas cruzadas, a propósito das intermináveis crises no Médio Oriente, é uma expressão sonante, mas oca de significado. Ninguém pega hoje na cruz (ou na metralhadora) para remissão de pecados e garantir acesso ao Paraíso…

Refletir sobre paralelismos e divergências entre processos históricos com o impacto que estes tiveram é um desafio aliciante. Por isso, hoje ficamos sem conclusões.

20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

03 maio 2022

História, Estado e Religião


O Islão é uma religião com génese relativamente recente. 14 séculos constituem uma distância temporal que já permite alguma precisão histórica. Esta religião, também de Abrão e Moisés, com raízes comuns ao judaísmo e ao cristianismo, originou um edifício muito diferente. Ao contrário do Cristianismo que se desenvolve dentro de um organizado e estruturado império Romano e a César o que é de César, o Islão vai-se desenvolver numa Arábia tribal, sem estruturas de Estado.  De certa forma, Maomé será também César, o primeiro, e o crescimento e implantação do Islão vão coincidir com a criação de um Estado.

A morte de Maomé e respetiva sucessão constituíram um momento delicado, até porque ele não deixou definida a forma de transição do poder após a sua morte. Estas obras de Hela Ouardi são uma fascinante viagem por esse tempo, as convulsões no islão pós-Maomé e os sistemas de valores que se disputam. Se a primazia deve ser dada aos companheiros do profeta, independentemente das suas origens sociais, à sua tribo, os quraish, que já antes dele constituam uma elite na paisagem social árabe, ou à sua família próxima, incarnada pelo seu primo e genro, Ali.  

Esta época dos primeiros califas passou por várias fases e com alternância das diferentes correntes. Se pensarmos que desses 4 califas, 3 morreram assassinados, dá para imaginar um pouco as convulsões vividas. Depois de Maomé, a Arábia não voltou a ser a mesma e uma boa parte do mundo também. As razões desta evolução são importantes para entendermos o que se passa hoje.

Para lá da mensagem e das ações em vida do profeta, a sua sucessão é determinante para a expansão e consolidação do novo Estado. A coincidência entre a liderança politica/militar e religiosa, a criação e a expansão do império árabe com a religião como aglutinadora e legitimadora, os pergaminhos e a antiguidade na fé como avalizadoras da autoridade terão sido fundamentais para a federação das tribos e a eficácia militar, mas...

A dificuldade e impossibilidade de separar as duas lideranças são talvez a razão de algum anacronismo e dificuldade de consolidação dos “Estados Nação” nos dias de hoje.