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14 dezembro 2023

Sobre o futuro

Daqui a meia dúzia de meses quem se vai lembrar desta história das gémeas luso-brasileiras? Quem ainda se lembra das trapalhadas de há uns meses no Ministério das Infraestruturas? Daqui a um ano quem se lembrará do caso de Alexandra Reis e do expedito despedimento de Christine Ourmières (para lá daqueles que considerem ser sócios ou assalariados do Estado Português)? Todos estes casos e casinhos de desgoverno, e respetiva cultura subjacente, contribuem certamente para o marcar passo em que nos enterramos, mas talvez não devessem ser o mais importante tema da atualidade.

Durante vários anos, para não dizer para toda a vida, os jovens cuja educação se degrada suportarão um passivo para si e para o país. A recente avaliação PISA veio demonstrar como estamos assustadoramente a andar para trás. Obviamente que se fosse para a frente, o mérito seria todo do Governo; como é para trás o Ministro não sabe e palpita-me que não vai chegar a querer saber. Não vale a pena olhar para tudo o que aconteceu no passado recente e tentar tirar conclusões? Especular sobre redução das exigências, abolição de exames, facilitismo de toda a ordem, falta de meios durante os longos confinamentos, longas greves e falta de docentes, sobre isso podemos especular. Mas, sobre o futuro do país, numa das suas componentes mais fundamentais, a coisa não deveria ficar pelas especulações.

03 fevereiro 2023

E as crianças, senhores?


A greve, no seu conceito geral, é feita por trabalhadores contra o seu empregador, provocando-lhe quebra de rendimentos. As fábricas e as atividades económicas param. Tem lógica esta causa-efeito quando o prejuízo fica em quem tem o poder de atender às revindicações.

Depois, há as greves dos serviços públicos, onde os principais prejudicados não são as entidades patronais, mas sim inocentes cidadãos, tomados como reféns numa disputa que não lhes diz respeito. Podem ter grande impacto mediático, pela desordem causada, mas há aqui alguma perversidade e o bom-senso devia limitar a sua frequência e duração.

Por estes dias assistimos a prolongadas greves no setor do ensino, em que os reféns não são cidadãos que podem perder um dia de trabalho por falta de transporte. São estudantes, com um currículo já fragilizado pelos efeitos da pandemia, e que podem perder algo dificilmente recuperável.

Não me cabe aqui desenvolver considerações sobre justezas e injustiças. Apenas referir que este extremar de posições e a falta de vontade/capacidade de encontrar uma solução razoável ou, pelo menos, decretar tréguas de negociação é uma pesada irresponsabilidade.

A migração, apenas de quem pode, para o sector privado, a fim de garantir formação de qualidade aos seus filhos, é uma consequência natural e uma brutal injustiça. Põe em causa o princípio da igualdade de oportunidades, algo que deveria ser garantido na teoria e na prática.

13 janeiro 2019

Formando ou desperdiçando?

Discutiu-se por cá o ensino superior.

A secretária de Estado questionou a existência de números clausus. Se 20000 estudantes quiserem de repente ser, sei lá, engenheiro de batatas fritas, deveria ser possível? Sem defender uma planificação rigorosa à la soviética, parece-me importante existir algum equilíbrio entre a oferta do ensino superior e o mercado de trabalho do país, inserido nalgum plano de desenvolvimento de conhecimento no país. Está bem que os formados podem depois emigrar, mas não vejo o ensino superior como uma atividade predominantemente exportadora. Um outro problema mais imediato é a infraestrutura dos estabelecimentos de ensino. Uma escola preparada para receber 100 alunos por ano não pode passar de repente para 5000 e a seguir voltar aos 100. Retomando o exemplo anterior, disponibilizar fritadeiras para 20000 alunos não é coisa simples.

Estas vontades de “massificação” voluntariosa lembram-me aquelas teorias da sacrossanta primazia da produção, onde o que importa é produzir muito… e o que se faz ao produzido logo se verá. O resultado deste modelo foi/é a falência.

Também de discutiu a existência de propinas. Ninguém, capaz, deve ser excluído do ensino superior por dificuldades financeiras, mas atender a esse direito com a abolição das propinas é uma abordagem grosseira e/ou desonesta. Seria preferível um outro mecanismo de subsidiação mais direto e seletivo, já que o custo do ensino superior não é apenas propinas e o que faz sentido é ajudar apenas quem necessita. Recorda-me a moda dos manuais escolares gratuitos. A sua generalização não faz sentido.

24 maio 2016

E se não se berrasse apenas ?


Declaração inicial: sempre frequentei o ensino público, os meus filhos também, pelo menos a nível de escolaridade obrigatória. No meu tempo, o “privado”, a este nível, até era considerado como uma espécie de snobismo inconsequente. Não me recordo de na faculdade ter visto génios melhor preparados vindos do “privado”. Entretanto os tempos mudaram e até há algumas dúvidas sobre se as médias fantásticas que se vêm nalgumas escolas privadas são mesmo fruto da excelência do seu ensino.

Se, e insisto neste se inicial, numa dada zona não existe cobertura escolar suficiente, tendo o Estado obrigação de a providenciar, há dois caminhos. Ou constrói a escola e gere e paga diretamente o corpo docente e auxiliar e demais despesas de funcionamento, ou paga a uma entidade privada algo fixo por aluno e estes assumem a gestão e todos os custos envolvidos. Em ambos os casos o financiamento é público, a sua forma de implementação é que muda.

Sobre estas duas opções possíveis, não vejo nenhum impedimento fundamental de princípio. Para ficar tudo bem seria necessário validar alguns pontos concretos e objetivos:

- O valor pago aos privados é justo e equilibrado? O lucro permitido é ajustado ao risco envolvido? Como compara com o custo total equivalente em gestão pública direta?

Como as escolas não se fazem e desfazem ao semestre, estas opções deviam ter um horizonte temporal estável e predefinido, certamente um problema, dado que em Portugal estabilidade rima pouco com ensino. Evidentemente que não faz sentido que o Estado apele aos privados para cobrir as suas carências e a seguir decida construir escolas ao lado (se bem que construir e reconstruir escolas também seja um negócio per si).

Faz sentido existir alguma diversidade de oferta de ensino e até mesmo alguma concorrência (com todos a sensibilidade necessária para abordar este tema sensível e complexo neste contexto). Se há exemplos em que a delegação do investimento e da gestão do Estado nos privados é uma desgraça (até eventualmente caso de polícia), como as PPP rodoviárias, nem todos são assim.

Sobre a questão do princípio do “tudo público”, quantos funcionários públicos estão dispostos a abdicarem da ADSE, uma delegação do sistema de saúde em privados, para ficarem apenas com o SNS?

Este assunto não se resume a um pretenso “direito à escolha” nem a um “vamos acabar com a mama”. Infelizmente estamos num tempo de iluminados em que a moda não é analisar e avaliar, mas sim… berrar! É pena…

12 maio 2016

Quem não tem mais que fazer


Dizem que deita a casa abaixo e torna a erguer, não sendo certamente o ideal do ponto de vista da utilização racional de recursos. Se as várias transições governativas tiveram sempre um pouco desse molho, mais ou menos disfarçado ou justificado, no governo atual isso apresenta-se como uma imagem de marca assumida: as reversões.

O anterior governo negociou um novo contrato de concessão do Metro do Porto, passando por cima da formalidade do concurso público, no que foi, justamente, muito criticado. O novo governo resolveu reverter a nova concessão, abortando a entrada em vigor do novo contrato. Quando se pensava que o Metro do Porto iria assumir diretamente a operação, vimos a reversão da reversão. O governo prolongou por dois anos o contrato de concessão em curso. No mínimo estranho.

O anterior governo subscreveu contratos de associação com colégios particulares para 3 anos. Este governo altera. Independentemente do fundo da questão, nenhum investimento sobrevive a horizontes de 6 meses. Montar e desmontar uma operação destas não é como ligar e desligar um interruptor.

O país está falido a vários níveis. Precisamos de investimento e especialmente de origem externa. Um critério básico e fundamental é a estabilidade. Ninguém arrisca num contexto onde as regras de jogo não são minimamente estáveis durante o horizonte temporal do projeto. Podemos deixar de brincar a meninos embirrentos e irresponsáveis (para não dizer interesseiros e facciosos)?

10 abril 2016

Alguém precisa de um curso…


“Este programa deverá assentar numa maior integração das respostas na perspetiva de quem se dirige ao sistema, tornando, na ótica do formando, coerente e unificada a rede e o portefólio dos percursos formativos, que no percurso individual devem ser passíveis de combinação personalizada”.



Assim é explicado o “Programa Integrado de Educação e Formação de Adultos (PIEFA)” num documento divulgado recentemente pelo Ministério da Educação. Uma coisa é certa. Alguém precisa de um curso: ou quem o escreveu ou eu que tenho alguma dificuldade em o ler… não sei se não será de ter integração a mais e objetividade a menos…

27 janeiro 2016

Exames e (des)igualdades

Vê-se por vezes circular uma imagem como a anexa em jeito de ilustração sobre as injustiças associadas aos sistemas de avaliação genéricos e generalizados. O tema deve ser contextualizado. Se a questão é “todos devem ser capazes de subir à árvore”, será injusto para o pobre elefante. Ele preferiria certamente uma outra prova, como carregar um grosso tronco, para se ficar a rir do macaco.

No entanto, se está em causa aprender a subir a uma árvore, é natural que haja no fim uma verificação de que o objetivo foi alcançado. O erro não está no exame, mas sim na presença do elefante naquela disciplina.

Uma imagem deste tipo não justifica a abolição dos exames, supostamente provocadores da tal “exclusão injusta” e inviabilizadores a escola “inclusiva e integradora”. Apenas evidencia a necessidade da diferenciação dos curricula. Há quem seja naturalmente dotado para trepar às árvores, outros para carregar os troncos. Pretender que toda a gente deve poder trepar e carregar é que cria a exclusão. Pseudo-resolver a questão, anulando a avaliação… não é grande opção.

19 janeiro 2015

Contas certas?

Surpreendeu-me o resultado do estudo do professor da FEP, Óscar Afonso, sobre a economia não registada (paralela), quantificada a 26,81% do PIB.

Mais curioso fiquei ao ouvir declarar terem sido usadas “metodologias científicas, testadas, validadas, certificadas e a primeira versão do índice foi submetida à publicação de um artigo numa revista científica internacional e foi aceite”.

A quantificação da macroeconomia é algo que me intriga e arrisquei tentar ler e entender o trabalho académico… que, até invoca dois métodos! Um diz simplesmente que a economia não registada é a soma de várias parcelas, indicador x ponderação, tão simples quanto isso. De acordo, mas… estarão lá todos os indicadores relevantes, sem omissões nem redundâncias, e qual a ponderação certa para cada um? Como arbitrar as ponderações, fruto de um contexto cultural, naturalmente evolutivo? Ainda, se, por exemplo, o “factor” “factura da sorte” não for incluído na série, pode concluir-se legitimamente que esta iniciativa teve efeito nulo!?

O outro método, monetário, pareceu-me inicialmente ter uma base menos arbitrária. Se eu levantar 100 euros no multibanco, gastar 80 euros a atestar o depósito e 20 num restaurante sem factura, há aqui 20% não registados – bingo! Mas, se com os meus 20 Euros, o dono do restaurante for ao mercado comprar batatas, o lavrador pagar com eles a quem lhe cavou a terra e este depois os entregar ao electricista, já são 4 transações de 20 Euros não registadas e não vejo forma de “ver” e medir quantas vezes isso ocorre …

As curvas obtidas serão provavelmente publicáveis em revistas internacionais, mas, pelo menos, o destaque mediático dado a estes 28,61% parece-me claramente inflacionado.

28 novembro 2014

Paint ball ou Dostoievsky ?

A minha última participação no Roda Pé Cultural do Centro Cultural do Alto Minho, cuja publicação agradeço.

10 novembro 2014

Merkelite e Merkelfobia

Alguns factos: existem muitos cursos superiores em Portugal a formarem pessoas em número largamente acima ao do seu mercado de trabalho potencial; para muitas funções não se encontram quadros com a formação necessária e têm de ser as empresas a assumi-lo, de forma mais ou menos estruturada, mais ou menos eficaz; certas grandes empresas, algumas alemãs, têm centros de formação profissional com um grande sucesso quanto à colocação dos formandos no mercado de trabalho.

Tudo isto é conhecido, dito e repetido cá na terra. Que venha um estrangeiro comentá-lo, e concretamente a maléfica Sra Merkel, isso ninguém aceita, é quase um atentado à soberania nacional. Não tenho nenhuma simpatia especial pela senhora, mas não me parece que a sua intenção fosse decretar que os portugueses não deveriam passar de profissões de baixas qualificações. É óbvio que a economia não necessita apenas de “doutores e engenheiros”, como também é certo que a Alemanha, nesse e noutros campos, tem mais sucesso do que nós.

A reacção exacerbada é típica de terceiro-mundista complexado. Seria mais interessante aproveitar a oportunidade para reflectir com mais profundidade e subtileza. Encerrar o assunto na simples métrica da percentagem da população com formação superior é pouco relevante, como a prática o confirma. Quanto aos malefícios que sofremos do país da maldita senhora, eu gostaria muito, mas mesmo muito, que existisse na Europa outro país idêntico, que tivesse cá outras Autoeuropa, Bosch, Continental e só para citar algumas.

18 março 2010

Vergonha, para alguém ...

É notícia o elevado número de médicos do serviço de nacional de saúde a pedirem reforma antecipada e o impacto que isso terá nos cuidados a prestar. Há falta de médicos no mercado de trabalho! Já cá temos espanhóis e fala-se agora em trazer cubanos e uruguaios. Não tenho nada contra. Apenas não consigo deixar de pensar nos milhares de portugueses que se quiseram formar em Medicina e não puderam.

Evidentemente que o problema de fundo não tenho dois meses nem um ano. Todos aqueles que ao longo destes últimos 20 anos, activa ou passivamente, limitaram o acesso à profissão de médico, criando esses milhares de frustrados e a carência actual deveriam, logicamente, sentir : vergonha !

26 julho 2009

Empurrar com a barriga, vazia

Em tempos, ao definir as qualificações requeridas para um posto de trabalho, alguém dizia que bastando saber ler e escrever seria suficiente a “4ª classe”. Na altura acrescentei que estava de acordo, mas desde que fosse uma 4ª classe das antigas! Porque, realmente, antigamente saía-se desse nível a saber ler e escrever. Quer dizer... quase todos saiam. Alguns poucos que não conseguiam mesmo assimilar o programa mínimo lá andavam até ao limite de idade, sendo caridosamente aprovados pelos professores, desde que fosse bem claro que não iriam prosseguir os estudos. Esses professores tinham brio e vergonha de entregar gente mal preparada aos colegas seguintes.

Hoje este problema da 4ª classe multiplicou por três e passou para 12 anos. E encontrou-se uma solução chamada “novas oportunidades” para desencalhar o pessoal. Se é análogo aos que “faziam” a 4ª classe com 14 anos, apenas para poderem tirar a carta de condução, talvez se entenda. No entanto, se o 12ª ano NO é igualzinho ao normal, tirado a sério e com esforço em termos de qualificação profissional e acesso ao ensino superior, é uma enorme injustiça. Já se está a ver a malta toda a aproveitar descaradamente a oportunidade para conseguir o “mesmo” com menos trabalho.

E, por falar em ensino superior, se hoje já há quem por lá ande, simplesmente andando, concluindo uma cadeira em cada ano, como ficará quando lá chegarem os NO’s? Há uma solução: criar licenciaturas NO concluídas em 6 meses e não muito complicadas para “resolver o problema”. No final teremos muitos e muitos licenciados que se criaram e formaram no facilitismo absoluto e que ... esperarão novas facilidades.

Não sou de forma nenhuma contrário à diferenciação de curricula. Tem é que ser clarificado e assumido. A não diferenciação mata o mérito e nem vale a pena pensar sobre um país de gente formada desta forma desenrascada. Por este andar iremos ter muitos “mestres” que na realidade terão qualificações inferiores a uma 4ª classe... das antigas.

29 dezembro 2008

Vidas Novas

O ano de 2009 irá começar com a palavra crise a ornamentar todas as notícias. Basicamente isto aconteceu porque do outro lado do Atlântico uns espertos acharam que se pode gastar mais do que o que se ganha, bastando encontrar sempre crentes prontos para comprar promessas. Também não ajudou muito que outros grandes espertos tenham gerido empresas pensando exclusivamente nos objectivos do próximo trimestre. Há coisas importantes que pedem mais tempo, e, como exemplo, compare-se a Toyota com a General Motors.

Ao entrar em 2009, gostaria de referir algo que é do futuro, mas não exclusivo de um horizonte de 12 meses: a formação e o ensino. Anda o governo muito contente com os exclusivos Magalhães e a melhoria das estatísticas; andam os sindicatos muito contentes por terem nas mãos uma bela luta mediática e andam os professores muito confusos a ver o seu mundo a mudar e sem perceberem muito bem como e para onde.

E, depois, há os alunos. Que já descobriram que não precisam de se esforçarem para procurar aprender porque tudo será feito para lhes facilitar a vida e evitar traumas psíquicos e estatísticas vergonhosas. Imediatistas da famosa frase: “Para que é que isto serve?!?”, usada e abusada para tudo o que não é de utilidade óbvia dentro das próximas 24 horas. E há alguns pais que acham que a escola está lá para trabalhar e para “resolver” tudo. E há também uns idealistas igualitaristas que consideram igualdade de oportunidades sinónimo de uniformidade de curricula e de exigências, forçosamente nivelados por baixo.

E, um dia, esta geração entrará no mercado do trabalho, não necessariamente em 2009. E será necessário saberem muitas coisas que não pareciam obviamente de utilidade imediata quando as deviam ter aprendido. E pior do que, por exemplo, não terem aprendido a escrever decentemente, será não saberem aprender. Não terem o hábito do esforço e do sacrifício. E quando descobrirem que já não basta escrever o próprio nome correctamente para já ficarem perto dos mínimos; quando descobrirem que o mundo lhes pedirá impiedosamente exigência e rigor, concluirão não estarem preparados. E quando virem os horizontes curtos caindo-lhe em cima dos pés, revoltar-se-ão por lhes terem mudado as regras do jogo. E quando isso acontecer será feio e os responsáveis somos nós hoje.

22 novembro 2008

Ainda a essência da avaliação

Quando aqui atrás referi parecer existir algo de errado na contestação dos professores e que o importante era encontrar-se a humildade necessária, dos dois lados evidentemente, para ultrapassar a questão, o desenvolvimento recente só o confirma.

A ministra deu um passo e recuou nalguns pontos. Para não perder a cara disse que se mantinha o essencial. Obviamente que os sindicatos poderiam ironizar e passar por cima dessa “opinião” paliativa. Que diz o Sr. Mário Nogueira, que está prestes a substituir o Sr. Picanço no topo dos meus sindicalistas mais queridos? Que, como a próprio Ministra reconhece que a essência não mudou, a luta continua. Não vi em lado nenhum nada de concreto e objectivo do tipo: “estamos de acordo com estas alterações mas deve-se acrescentar ainda esta, aquela e a outra!”. Não! É uma questão de essência e começa a cheirar que a essência é mesmo o princípio da avaliação em si.

Ou seja, os professores querem e aceitam serem avaliados, mas apenas pelo modelo que eles próprios definirem. O próximo passo neste processo será os alunos exigirem, e obterem, que eles também apenas sejam avaliados pelo processo que eles próprios definirem… Será isto a essência da democracia?

16 novembro 2008

Já chega, não?

Eu, e muitos outros creio bem, já não tenho pachorra para seguir o “conflito” dos professores. O que está a acontecer é uma tentativa de mudança organizacional de um grupo bastante horizontal, “professores há só uns”, para uma estrutura com alguma hierarquia e de uma fase em que a “evolução na carreira” era feita escolhendo individualmente algumas acções de formação mais ou menos simpáticas para uma gestão de desempenho e de desenvolvimento estruturada. Está em causa sair de uma zona de conforto e a reacção à mudança é típica e previsível, sendo que o rigor na condução desse processo é a única forma de ele não se desfigurar completamente em três tempos.

Não sei dizer o quão perfeito ou deficitário é o modelo contestado. Só me parece que com tanta gente organizada e esclarecida era mais produtivo avançar com sugestões concretas e completas de revisão incremental ou radical do que este negacionismo básico que se vê pelas ruas. Sabendo todos que desde há vários anos o sistema de ensino exige claramente mudanças profundas, alguém se lembra de ver propostas minimamente consistentes e inovadoras apresentadas pela classe ou pelos seus sindicatos nos últimos anos? Não, a luta é sempre para recusar, suspender e anular. E passo ao lado daquela subtil pérola do “professores avaliados, alunos prejudicados”.

Enquanto os professores preocupados com a imperfeição do seu sistema de avaliação e sem a mínima sombra de dúvidas sobre o recebimento do seu salário no final do mês cruzam o país de autocarro e lutam na ruas com cantilenas de “hora” a rimar com “ir embora”, existem empresas que lutam por conseguir encomendas, executá-las e sobreviver com o resultado obtido; existem recém-licenciados que lutam por conseguir realizar riqueza para si e para o país; existe gente em encruzilhadas terríveis para as quais uma das suas últimas preocupações seria o trabalho burocrático ou a imperfeição da ficha de avaliação. Estes não estão em “zona de conforto” e não pretendo concluir que toda a gente deveria ir para uma zona de desconforto e de precariedade para dar valor ao que é fundamental.

O que pretendo dizer é a situação actual dessas empresas e dessas pessoas é, em grande parte, resultado do sistema de ensino. E, o que o sistema de ensino de hoje, determina fortemente o que o país vai ser amanhã. Se estamos todos de acordo sobre isso, haja humildade e acabe-se com a “festa”.

04 agosto 2008

Questão de mercado ?

Sobre a crise que se tem abatido sobre algumas universidades privadas, li recentemente tratar-se apenas de ver o mercado a funcionar, separando as boas das más, não havendo nada de dramático nisso. Eu acredito muito no mercado em certos contextos. Se um restaurante não me agradou, não volto lá, perdi uma boa refeição, e é tudo. Se um automóvel se revela abaixo das minhas expectativas, não volto a comprar da mesma marca e aqui já não é tão pacífico porque não se troca de automóvel todas as semanas.

Muito diferente é o ensino superior. O ensino em geral e o superior em especial são dos principais agentes definidores do que seremos uma geração à frente e, para esta escala de tempo e importância, o mercado simples não regulado não funciona.

Dos investidores que desenvolveram um projecto mau que não sobrevive não tenho pena, até porque a história de muitos desses “investimentos” é tudo menos clara, poupando outros adjectivos que me poderiam fazer correr o risco de acusação por difamação. O outro lado da questão é o dos “clientes” e o refazer um curso não é o mesmo que trocar de restaurante.

Que farão hoje os milhares de jovens que investiram tempo, dinheiro e, sobretudo, “entusiasmo” em cursos desses projectos “maus”, que o mercado de trabalho agora rejeita? O problema é exclusivamente deles e da sua opção pouco esclarecida?

Um exemplo concreto: Portugal poderia ser hoje um destino de “turismo de saúde” onde gente com carteira recheada se viesse tratar na serenidade do país e na tranquilidade do clima. Em vez disso temos carência de médicos para o serviço nacional de saúde. Não tenho nada contra a concorrência internacional no “mercado de trabalho” e a vinda de médicos espanhóis, desde que falem português e haja reciprocidade. Somente acho vergonhoso isso acontecer ao mesmo tempo que milhares de vocações médicas não tiveram acesso à profissão porque o Estado andou distraído e/ou uma corporação controlou com sucesso o seu “mercado”. Vergonha é a palavra certa ou se preferirem em idioma mais “in”: “Shame on you!”

10 abril 2007

Um canudo

Houve tempos em que ter um “canudo”, era suficiente para, como dizem os franceses, apanhar o “elevador social”. A exibição de um diploma no CV, importando pouco de quê ou donde, era suficiente para garantir o acesso a um nível profissional e social elevado.

Depois, com a destruição dos cursos médios e o salutar aumento da procura das licenciaturas, a coisa complicou-se e a universidade pública não conseguiu dar resposta. Em parte inevitavelmente, mas não só. Alguém entende porque demorou tanto tempo a abrir uma faculdade de direito pública no Porto ou porque não há mais vagas em medicina? Surgiram então as oportunidades de negócios. Primeiro nos colégios de “alto rendimento” em que alunos médios e sofríveis nas escolas públicas conseguiam belos resultados, que muito ajudavam a compor a média para saltar as fasquias dos numerus clausulus. Imoral!

Em seguida apareceu o grande negócio das universidades privadas. Os candidatos na busca de “um canudo” aceitavam um título qualquer. Já alguém estudou quantas “engenharias” nasceram nesse período? Um verdadeiro fenómeno a nível de capacidade de inovação! Fazer negócio pouco escrupuloso com as expectativas em geral e com as dos jovens em particular é um crime tremendo.

Os casos da Moderna e da Independente são a parte visível de um problema muito mais extenso. Para lá da facilidade e da ligeireza com que se faz e desfaz, se ganha e se esbanja, estão milhares de jovens com “canudos” que para pouco servem. Pode-se tirar mais do que um curso superior na vida, é certo, mas não é fácil. Uma licenciatura é um enorme investimento de tempo, financeiro, principalmente nas privadas, e é acreditar. Os jovens “enganados” com cursos de títulos fantasiosos e de consistência duvidosa terão perdido uma parte da sua capacidade de acreditar, o que é um dos maiores capitais incorpóreos de um país.

03 fevereiro 2006

Conhecimento e realização

Para repetir o que vem nos livros, basta ter boa memória.
Para entender verdadeiramente o que está escrito, é necessário algo mais.
Para avaliar a sua aplicação a cada caso específico, é necessário algo mais.
Para definir o que fazer concretamente... algo mais.
Para implementar o definido e levá-lo até ao fim.. algo mais.
Para conclui-lo com sucesso… algo mais.

Donde que … quem se limita a repetir o que vem nos livros, está longe, muito longe…