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18 fevereiro 2026

O Ramadão

Por estes dias começa o mês sagrado muçulmano do Ramadão. Um primeiro pensamento e palavra para todos os muçulmanos que conheci, que vivem a sua fé serenamente e votos de que tenham uma celebração feliz, à medida das suas expetativas, junto dos seus próximos e familiares.

Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar. De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII em 1582.

A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia, pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França, houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.

A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.

Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em jejum há uma dúzia de horas?

Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática religiosa. No entanto…

No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento! Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.

Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar, tanto faz…)

01 outubro 2025

Olhando o Islão (IX)


9) O pós-colonialismo

Após o final do império Otomano, a região vai desmembrar-se em vários Estados, mais ou menos homogéneos, mais ou menos patrocinados pelo Ocidente. Já em 1916 o acordo Sykes-Picot (UK – França) definia a futura repartição da herança Otomana entre os dois países. Grosso modo Damasco para os Franceses e Bagdad para os britânicos… mais uns trocos.

A colonização europeia do Médio Oriente será efetiva apenas entre as duas guerras. No final da II, as independências chegam, incluindo para o Norte de África. Este novo estatuto é saudado e gerador de muitas expetativas. Agora que somos nós que mandamos em nós, sem interferenciais culturais e religiosas externas… agora é que vai ser!

Uma geração depois torna-se óbvio que não foi grande o sucesso. Não é aqui o espaço para desenvolver a análise das razões, mas o facto é que os resultados são dececionantes.

Os novos regimes, muitos deles autoritários e com forte dominância de uniformes militares, são muçulmanos, naturalmente, mas “non troppo”. Do ponto de vista social e especialmente do estatuto da mulher são até mais tolerantes do que se verá mais tarde.

À vista do que corre mal, virão os salafistas dizer “isto corre mal porque os nossos dirigentes não são muçulmanos rigorosos, como deveriam ser”. Este desafio vai correr mal para muitos, ver acima Nasser e Qutb.

Esta pressão política religiosa terá como resposta um maior rigor nas práticas, buscando assim os regimes protegerem-se contra as acusações de serem “fracos muçulmanos”. Em sentido contrário, claramente, a todas as tentativas de modernização.

Um pequeno exemplo. Após a independência a Argélia mantém o fim de semana ocidental, sábado e domingo; em 1976 sobre a pressão islâmica passam a quinta-sexta-feira; em 2009, por pressões de competitividade num mundo, apesar de tudo mais globalizado, passaram a um meio termo de sexta-feira e sábado. Um bom exemplo destas evoluções e involuções.

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05 setembro 2025

Olhando o Islão (I)

1) Introdução

Em setembro de 2006 fui de bagagens (e sem armas) instalar-me na Argélia, por motivos profissionais. Para lá de todas as diferenças culturais e sociais, havia algo marcante e preocupante. O histórico brutal de violência da década anterior, associada ao terrorismo islâmico. Mais tarde, compreendi ser um puzzle com mais peças.

Um risco diferente, menos conhecido, é sempre percepcionado com mais intensidade e inquietação. Naquela altura, os islamistas matavam uma a duas pessoas por mês, sobretudo membros de forças miliares ou de segurança, em zonas remotas, afastadas dos grandes centros urbanos. Na estrada morriam dez por dia, alguns ao nosso lado. Onde estaria o risco mais elevado, avaliando objetivamente?

Acreditando que as religiões têm na sua génese uma certa busca de harmonia e de bom viver e que a violências praticadas sob essas bandeiras eram degenerações e manipulações dos princípios fundamentais, como as nossas pouco cristãs cruzadas, quis crer que a violência islâmica seria também um desvio dos fundamentos daquela religião.

Decidi, portanto, estudar o Islão. Caso tivesse a infelicidade de ver uma faca encostada ao pescoço por ser um infiel, caso tivesse tempo e canal de comunicação, poderia procurar convencer o agressor de que ele não estava a seguir coerentemente os princípios da sua religião… Poderia não existir um simples e direto “Não matarás!”, mas certamente algo análogo haveria de encontrar.

Li inúmeros artigos, ensaios, livros de opinião e históricos e, naturalmente, o Corão. Aprendi muita coisa e para uma delas, fundamental, não deveríamos sequer precisar de muitos livros para a saber: “A realidade nem sempre coincide com o que a ignorância imagina”.

Por vezes, no desconhecimento, avançamos algumas hipóteses e especulações, conforme as nossas ideias pré-concebidas e simpatias e acabamos por nos convencer da alta probabilidade de na realidade ser assim, como imaginamos, mas…

Devo esclarecer que conheci nesses tempos dezenas, para não dizer centenas, de muçulmanos e que nenhum me incomodou, insultou e, muito menos, ameaçou ou agrediu. Ações de proselitismo também foram muito raras. Recordo muito boa gente, por quem tenho todo o respeito e estes textos não os pretendem atingir ou diminuir de nenhuma forma. 

O que “causa um problema” e pretendo de certa forma esclarecer e denunciar são as mentiras e as manipulações, assim com as tentativas de condicionar a sociedade e restringir liberdades. Acredito que muitos muçulmanos estarão certamente de acordo comigo.

Sobre este título, irei publicando alguns factos que aprendi, não imediatamente de rajada. Fica feita a introdução. 

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16 outubro 2024

Mudar de dono


Com 15 anos de diferença, 2 países tentam sair de uma guerra que, de uma forma ou de outra nunca conseguirão ganhar. Protagonistas, 2 generais.

Sendo o quadro institucional, reconhecimento e poder de De Gaulle na França de 1960 de nenhuma forma comparável com o de Spínola em Portugal em 1974, há alguns pontos em comum, sobretudo na forma como o processo encerrou.

Os movimentos de “libertação” exigiram e conseguiram o estatuto de interlocutores únicos, em seguida adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso” e nos casos de haver mais do que uma força em jogo, entraram a seguir em guerra civil mais ou menos longa… Democracia, nem vê-la; pluralidade racial ou religiosa, excluídas.

Talvez que se França e Portugal tivessem tido o discernimento de entenderem os ventos da história a tempo e dirigido o processo noutra direção mais cedo, o desfecho poderia ter sido diferente, não sabemos.

O que sabemos é que, como me disseram noutra latitude e noutra língua, a independência foi “Cambiamos de manos”.

Os povos, em nome dos quais foram levantados os movimentos de “autodeterminação” não foram tidos nem achados e não tiveram a mínima palavra no pós-independência. Mudaram de dono, sendo os novos donos de outra raça ou de outra religião. No final não ficaram necessariamente a viver melhor…

13 abril 2021

O perigo e a perceção

Quando há cerca de 15 anos me instalei na Argélia, ainda por lá corria alguma atividade terrorista, embora em escala muito inferior à da década anterior. Ao tentar avaliar objetivamente o perigo em causa, podiam-se fazer as contas seguintes. Os terroristas matavam 2 a 3 pessoas por mês, principalmente militares ou policias e em zonas remotas; na estrada morriam em média 10 a 12  por dia e por todo o lado. Um risco realmente muito mais elevado.

Na mesma altura em Portugal, em 2006, morreram 850 pessoas em acidentes de viação (Pordata) durante o ano. Ou seja, o número de mortos na estrada em Portugal era mais ou menos equivalente ao das vítimas de terrorismo na Argélia, sendo que lá até era mais fácil evitar os locais de risco. A grande diferença, não quantitativa, estava na natureza do risco. O da estrada era-nos conhecido e familiar; o outro era novo e isso desestabiliza.

Isto vem a propósito do folhetim com os riscos da vacina da AstraZeneca. Talvez um dia venhamos a saber até que ponto o Brexit e a empresa ser um novo jogador no mercado das vacinas contou para tanto ruído. A questão é que ninguém olha (ou pouco) para as contraindicações e possíveis efeitos secundários de uma medicação, quando a tem que tomar. Entende-se frequentemente que há um risco, mas pode/deve ser corrido.

O Covid-19 assusta, é novidade e tudo o que a ele diz respeito desestabiliza-nos. Mas, das duas uma, ou corremos o risco da doença ou o da vacina. Não é possível esperar risco nulo e a razoabilidade é validada por procedimentos que não foram feitos ontem e por entidades supostamente informadas e competentes. As decisões políticas de põe e tira, tira e põe, quando objetivamente não há novos elementos relevantes, são uma fonte de desestabilização muito dispensável.


11 abril 2019

E agora Argélia ?


Durante várias semanas o “povo” sai à rua na Argélia para exigir a não recandidatura do presidente vigente, coisa que atendendo ao contexto expetável dessas eleições seria mais uma recondução garantida do que mesmo uma eleição. Desde que sofreu um AVC em 2013, Bouteflika está fortemente debilitado e muito desaparecido da cena pública, levantando sérias dúvidas sobre quem efetivamente mandaria no país. De acrescentar que a Constituição estipulava um limite de dois mandatos consecutivos, entretanto oportunamente alterada, e este seria o quinto … Mesmo o quarto, face à situação clínica do senhor na altura, que praticamente já nem falava foi um abuso.

A contestação, abrangendo largas camadas sociais, várias localidades do país e curiosamente, até agora, madeira toque toque, foi extraordinariamente pacifica. Um exemplo para o que se tem passado no outro lado do Mediterrâneo, onde os coletes amarelos com muito menos capital de queixa vão quebrando e incendiando o que lhes apetece.

Por vezes, diz-se que a história se repete, com diferenças. Há cerca de trinta anos, uma forte contestação popular, fortemente reprimida, com centenas de mortos, fez abalar o regime, forçou o multipartidarismo e a realização de eleições, ganhas pelos islamitas e oportunamente anuladas pelos militares. Na altura, foram buscar um histórico não contaminado, Mohamed Boudiaf, largamente reconhecido e apoiado pela população, que arregaçou as mangas para arrumar a casa. Aguentou 4 meses, até lhe rebentar uma granada aos pés, durante uma sessão pública.

Neste momento, para já há uma diferença. O poder não está a usar a força para contrariar os protestos, como o fez brutalmente na década de 80. De novo os militares mostram querer tomar conta da situação, “recordaram” a necessidade da aplicação do artigo da Consituição que prevê a substituição interina do Presidente, se for considerado incapaz…

Haverá um novo Boudiaf, nomeado ou eleito, que sobreviva mais de 4 meses e realize a transição que desesperadamente o país necessita?

01 julho 2018

Sobre a verdade dos outros


Faço parte daqueles que entendem que a prática passada e atual da instituição igreja católica é muito frequentemente, e infelizmente, afastada dos princípios do cristianismo de Cristo. A promiscuidade com o poder, as perseguições aos “infiéis”, a fortuna ostentada, a beatice mesquinha e a limitação do espírito crítico são exemplos de coisas que não lhes ficam/ficaram bem.

Recentemente li estes dois livros sobre um personagem fascinante: Pierre Claverie, na sua última função bispo de Orão, na Argélia. Um deles é uma coletânea de textos seus, o outro uma biografia. A dimensão espiritual e a riqueza humana do seu discurso são notáveis.

Nascido na “bolha colonial” e ignorando “o outro” nunca disso se esqueceu, assumiu-o e tudo fez para o corrigir. Foi “pied noir”, nome dado aos franceses nascidos na colónia e regressados à metrópole depois da independência. Também foi “pied rouge”, os europeus que se instalaram na Argélia independente para colaborarem na construção do novo país. Aprendeu árabe e manifestou uma vontade e um empenho permanente em entender e respeitar o Islão: “Preciso da verdade dos outros”, dizia ele.

Cruzam-se aqui a ação e os princípios da igreja católica pós concílio Vaticano II, sendo forçoso reconhecer que se todas tivessem feito caminho semelhante, hoje não haveria tantas tensões religiosas na bacia mediterrânea. Podem torcer o nariz e o que mais quiserem, mas racional e objetivamente… essa é que é essa.

Pierre Claverie era um adepto do diálogo e da aproximação entre religiões, mas sabia “existir um abismo que nos separa”, que não se atravessava com grandes especulações teóricas, nem com ingenuidades superficiais. Só posso concordar. É inútil e pueril discutir se o meu Moisés é mais completo do que o teu ou se um profeta teve mais revelações do que o outro. O diálogo e a real aproximação só podem acontecer entre pessoas e é muito mais fácil quanto mais humano for o relacionamento. Daí a sua enorme paixão pelo contacto com todo o tipo de gente.

Na década de 90, durante a época do terrorismo, quando um francês religioso católico era visto como um estrangeiro não isento e, para muitos, pouco desejado, os seus textos, para lá de extremamente ricos de conteúdo, eram de uma objetividade, frontalidade e honestidade irrepreensíveis.

Morreu em 1 de agosto de 1996, despedaçado por uma bomba quando entrava em casa. Alguém achou que ele não merecia viver.

11 junho 2018

Mamã, sou ministro!!



Já vivi num país onde os veículos oficiais prioritários eram mato no meio da selva da circulação local.

Com maior ou menor escolta, não havia dia em que, e por várias vezes, não tivéssemos que ceder a passagem a pessoas importantes. Até proporcionava um desporto curioso: surfar na aspiração da onda gerada. Passados os prioritários, o pessoal atirava-se para o vazio deixado, tentando assim ultrapassar uma meia dúzia de carros ainda parados. Nunca iam muito longe na onda, porque o espaço era bastante concorrido e rapidamente se viam expulsos do túnel, obrigados a dar a vez a outros competidores.

Uma vez apanhei um grande susto. O meu percurso matinal habitual passava em frente a uma “Residência da Presidência”. Para quem possa conhecer, entre Sidi Fredj e Staoueli (La Bridja) a oeste de Argel. Aconteceu então que do portão da tal residência sai à minha frente um carro preto, seguido do mercedolas. Mantive-me no meu percurso e na minha velocidade quando descubro o segundo carro preto, que deveria fechar a escolta e se tinha atrasado, a fazer sinais de luz e uns senhores lá dentro em gestos frenéticos, pedindo-me (?) para eu sair da frente, coisa que prontamente fiz: “Por quem sois !!!”. Esses carros pretos levam senhores de óculos escuros pouco sorridentes e os dois de trás, por norma, sentados de lado, voltados para o exterior do veículo.

Bom, estas invocações vêm-me a propósito de um sentimento. Acho que cada vez há mais “veículos oficiais prioritários” a passarem por mim na A1. É um sentimento, apenas.

Para os escoltados, questiono quem será assim tão importante e potencialmente em perigo que necessite de batedores na A1? Excluo as equipas de futebol, facilmente identificáveis, que jogam num campeonato de outra desgraça. Para os simples apressados, que ligam o pirilampo e sai da frente, enfim… antes de ser gente importante, toda a gente é cidadão e deve, por norma, cumprir normas iguais para todos. Isso não deveria incluir usar a prerrogativa de “importante” para viajar sistematicamente em excesso de velocidade. Tudo isto é um sentimento.

24 fevereiro 2018

World Press Photo


A imagem acima do argelino Hocine Zaourar ganhou o prémio “World Press Photo” em 1997. Ficou conhecida como a Madona de Benthala e a imagem foi captada no dia seguinte ao terrível massacre ocorrido nessa pequena aldeia da periferia de Argel em 22 de setembro desse ano. A imagem é muito forte, apesar de tudo não tão forte quanto ao massacre em si, onde paulatinamente e metodicamente um comando de supostos terroristas islâmicos andou durante largas horas, de casa em casa, degolando, rachando cabeças à machadada e, para as crianças mais pequenas, projetando-as e rebentando-lhes o crânio contra as paredes, sem ser minimamente incomodado pelas forças da ordem posicionadas nas proximidades e, no final, abandonou calmamente o local no final, sem sobressaltos. Ainda hoje há dúvidas por esclarecer quanto aos autores e motivações desses massacres bárbaros, ocorridos nessa altura.

Como detalhe, a foto foi publicada em centenas de jornais no mundo, mas pouco apreciada no país de origem, onde o seu autor foi processado e acabou por ver ser-lhe retirada a acreditação profissional e, assim, impedido de trabalhar.

Esta história ocorre-me ao ver anunciados os finalistas ao WP deste ano e ao constatar a enorme percentagem de fotos de cenários de guerra ou de tragédia humana. Sim, a fotografia, especialmente de reportagem, serve para tornar visível desgraças em curso; não, a fotografia, mesmo de reportagem, não deveria ser apenas de desgraça; não, o entender das desgraças não deve ficar apenas pelas fotografias, por mais espetaculares e eloquentes que sejam. Sobre a história para lá da foto de 1997, recomendo “Qui a tué à Benthala” de Yous Nesroulah… e não o tentar comprar no país de origem.

23 janeiro 2018

A arte de perder

Parabéns Alice Zeniter. O romance “A Arte de Perder” é uma excelente história da História cruzada desses dois países tão próximos e de relacionamento tão complexo.

O que hoje se chama Argélia foi desenhado pela França. Existiam culturas anteriores à colonização francesa, mas nunca tinham estado ligadas. Tizzi Ouzu tinha muito pouco, ou nada, em comum com Tlemcen, nenhuma delas com Tamanrasset, idem entre as anteriores e Argel e poderíamos ainda acrescentar algumas mais, sempre com o mesmo resultado. Todas essas cidades e regiões não se identificavam como pertencentes a uma identidade partilhada. Existia uma religião comum, quase hegemónica, e uma língua dominante, mas esse critério dá uma fronteira mais larga e até ignora a fortíssima identidade dos berberes da montanha com a sua língua e alfabeto próprios.

Passando ao lado do balanço e do detalhe dos benefícios e malefícios da colonização, a Argélia é filha, legítima ou ilegítima, da França e há ali uma coisa freudiana mal resolvida. Uma mãe que desconsidera o filho tresmalhado, mas sem o renegar completamente e um filho revoltado, repudiando o progenitor, mas sem deixar de lhe ter afeto.

No meio ficaram os harkis. Aqueles que por ignorância, interesse, amor ou desprezo escolheram o lado errado da guerra. São os locais (não gosto de lhes chamar árabes) que lutaram ou simplesmente colaboraram com o colonizador. No final quando este entregou o país aos vencedores, os harkis ficaram condenados. Ou a serem executados e das formais mais atrozes e imaginativas possível, incluindo serem cozidos vivos num caldeirão, ou a virem em conta-gotas e a contragosto para França, para estacionarem em campos como refugiados. Sessenta anos depois a Argélia ainda não os tolera, nem sequer aos seus descendentes.

No romance de Alice Zeniter, três gerações erram ao longo desses caminhos cruzados e desacertados. Da perspetiva histórica apenas senti a falta da referência às zonas cinza do terrorismo na década negra. Disse-me a autora que isso representaria outro romance, mas não me convenceu completamente. Bastavam dois ou três parágrafos sobre o assunto. A menos de um fecho um pouco atalhado, é uma história que dá gosto ler e uma viagem bem feita por uma História emaranhada que baste.

(Sei que não estou a fechar bem o texto, mas há temas difíceis de fechar…)

14 janeiro 2018

O que sobra


Sobraram-me formulários de entrada e saída na Argélia, da minha reserva estratégica. Não conto as vezes que os preenchi nos últimos doze anos. Aliás, até pensei em fazer um carimbo, de tantas as vezes ter que escrever o mesmo. Até nas saídas e chegadas dos voos internos. Se tivesse feito o tal carimbo, provavelmente isso seria irritante para os funcionários que, não raras vezes, se entretinham cuidadosamente a colocar os traços dos “ts” horizontais, os pontos no sítio dos “is” e a prolongar convenientemente as pernas dos “ns” e “ms”. Tudo isto entre, atrás, uma fila de três quartos de hora e, à frente, um pórtico de segurança que apitava inconsequentemente para toda a gente que o atravessava. Apesar do rigor na caligrafia, outros detalhes eram pouco relevantes, como prova o facto de alguém ter andado largos meses a indicar para local de estadia no país um hotel clássico...na altura fechado para obras (para quem conhece, o Aurassi).

Foi há uns doze anos que na sequência de uma descontinuidade me questionaram: Angola ou Argélia? Em poucos segundos, respondi Argélia. Ao fim destes anos, não é fácil uma síntese e até nem costumo ter muitas dificuldades com isso. São tantas os sim, mas… claro, mas… País básico e mal definido. Gente terrível e humana. Alguém, experiente no terreno, dizia ser um país exótico, que tornava as pessoas exóticas, proporcionalmente ao tempo de permanência. Sendo-se mau juiz em causa própria, não sei avaliar até que ponto me “exotizei” e em que medida de forma irreversível.

Todos os dias adormecemos diferentes de como acordamos, conforme o que vimos, vivemos, gozamos e sofremos. Talvez uma parte das brancas que me nasceram, tenham génese no desespero que é por ali tentar fazer coisas que por cá nos parecem triviais. Mas também, certamente, a minha dimensão humana, o que quer que isso seja, como quer que isso se meça, tenha ficado brutalmente maior depois de por ali passar. Talvez seja esse o balanço fundamental: pessoas, pessoas e pessoas, para o bem e para o mal, como quer que isso se avalie.

Quanto aos formulários que sobraram… entregam-se a quem provar ter necessidade.

12 dezembro 2017

Três mulheres


Uma marroquina, uma tunisina e uma argelina, estabelecidas na Europa, analisam e refletem sobre o que está a acontecer neste mundo, onde se assiste a uma influência crescente do islão político na sociedade. O guião e o estilo são distintos, mas há uma linha comum: a hipocrisia de quem defende e promove essa islamização, a desonestidade intelectual de muitos “ocidentais” que a toleram e relativizam e a inaceitável condição feminina nesse modelo de sociedade. 

Não são abordagens simplistas, depois de alguém ter ouvido qualquer coisa ontem e vir hoje debitar palpites, esquecendo-se que a realidade raramente coincide com aquilo que a ignorância imagina. São visões e posições de quem aí nasceu, viveu e se libertou.

No final destes testemunhos e reflexões ricas, incluindo alguns argumentos e pontos de vista que não compro, fica a confirmação e a perplexidade sobre como uma parte da Europa cosmopolita, culta e desenvolvida, continua a ver com condescendência e “compreensão” uma teoria e uma prática que, só para dar um bom exemplo, recusa um estatuto de cidadania de pleno direito à mulher.

Senhoras, senhores e correlativos, podem ter os vossos motivos para odiarem a sociedade em que vivem e o seu modelo, que até vos permite manifestar livre e publicamente esse ódio. Lembrem-se, no entanto, que o inimigo do inimigo não é automaticamente amigo. Ainda por cima, a aliança entre os “socialistas do terceiro mundo” e os “ativistas islâmicos” contra o “ocidente colonizador” foi coisa de interesse e circunstância, sol de muito pouco dura.

Para lá dos princípios não deverem ser atropelados pelo tribalismo, muito especialmente quando estão em causa direitos humanos, abram os olhos e vejam que esse casamento “vermelho-verde” acabou há muito. Sim, tenho uma enorme fobia do islão politico, denuncio a sua hipocrisia e assumo-o plenamente, como deve fazer qualquer um para quem direitos humanos são mais do que uma “ideia”.

30 outubro 2017

Revolucionários ou revoltados, mas profissionais


A cara na capa deste livro é de Ilich Ramírez Sánchez, venezuelano apesar do primeiro nome. Ficou mais conhecido por Carlos, o Chacal, e foi o terror público número um, principalmente em França, nas décadas de 70 e de 80. Sim, nessa altura havia terrorismo, com bombas a explodir em locais públicos e, muito na moda da época, desvios de aviões e outros sequestros. Esta história ajuda a compreender o que por cá acontece e tem acontecido. Aqui vão alguns sublinhados meus, após leitura.

Não era proletário nem operário. Pelo contrário, a larga maioria dos terroristas ocidentais da altura eram da alta burguesia. Chega até a referir um caso, por excecional, de uma camarada originária de um nível social mais baixo.

Queria fazer a revolução. Na Venezuela, não deu jeito, em França também não foi possível, em Moscovo já tinha sido e… onde sobrou uma causa para lutar: Palestina. Se não houvesse Palestina, quais seriam as causas a abraçar pelos Chacais? Algum paralelismo com as mais recentes partidas para a Síria?

Começa por aspirar a ser revolucionário e depois passa a mercenário (revolucionário profissional), ou seja, organiza atentados e sequestros para quem lhe paga. No entanto, o auge da sua atividade ocorre quando França prende Magdalena Kopp, sua companheira de armas e ele usa o terrorismo… para exigir a libertação da amada.

Uma referência ao pacto Moro. Itália fechava os olhos ao transito e atividades dos terroristas (pró)palestianos pelo seu território, com a condição de estes irem fazer os estragos para outro lado. Edificante e muito próprio de um regime democrata-cristão. A coisa não acabou bem para Aldo Moro, raptado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas, prova de que isto de tolerar terroristas pode não se saudável.

Dentro do Médio Oriente, estendido até à Argélia, que lhe estende o tapete vermelho durante o sequestro dos ministros da Opep, vemos uma enorme volatilidade nos acordos, desacordos, pactos e traições entre os vários líderes. Não ajuda muito a suposta base comum “árabe”, nem parece ser determinante existir um inimigo claro e comum, Israel. Fico a pensar que, mesmo sem Israel, dificilmente se veria (e se vê) paz e cooperação por aqueles lados, dada a falta de confiança mútua, ausência de compromissos estáveis e outras carências…

10 agosto 2017

Laicidade e laicofobia


Voltando à questão dos abusos, que começou aqui e depois divergiu para um “podemos não estar de acordo” aqui, achei por bem, eventualmente sendo de novo abusivo, transcrever um texto, algo provocador, de Amine Zaoui, jornalista argelino e muçulmano, publicado recentemente no jornal argelino “Liberté”. Certamente não faltará quem o insulte de várias formas e feitios. Não vou dizer que estou de acordo e tudo subscrevo, mas é assunto que vale a pena questionar e um ponto de vista que merece ser analisado/discutido.

O muçulmano, todo o muçulmano em qualquer parte do mundo, é alérgico ao conceito de "laicidade". A palavra "laicidade" assusta-os! Magoa. Angustia. Aos seus olhos, "laico" é equivalente a comunista. Semelhante a "ateu". Igual a "irreligioso". Sinónimo de imoral. Ou ainda, um laico é um judeu. Um judeu é um laico. Um laico é um cristão. Um cristão é um laico. Qualquer laico é um não-muçulmano. E todo muçulmano é um não-laico, um laicofóbico. Um muçulmano não pode imaginar outro muçulmano laico. Na ausência da laicidade como um estilo de vida social, como uma forma de pensar, como cultura política, o mundo muçulmano tornou-se um mundo islâmico. Consumido pelo fundamentalismo. Mesma a laicidade na Turquia é ameaçada pelo islamismo fanático apoiado pelo projeto político da Irmandade Muçulmana. A "laicidade" assusta os muçulmanos desde Meca até Nouakchott, assusta o político muçulmano tanto de direita como de esquerda, assusta os "doutores" das universidades e assusta o cidadão normal.

A laicidade é um monstro! Mas porquê essa "laicofobia" no muçulmano? A escola é a fonte fundamental dessa doença chamada laicofobia. A escola, qualquer escola no Magrebe e no mundo árabe-muçulmano, do jardim de infância à faculdade, ensina aos seus alunos que a laicidade é um perigo para a religião islâmica. Que "laicidade" é o inimigo número um do Islão. Ela é uma armadilha armada pelos judeus aos muçulmanos! Ela é o isco do anzol colonial. Depois, porque o cidadão se afoga num grande vazio intelectual, onde a história das ideias filosóficas universais é banida. Os muçulmanos vivem fora, sem História e fora da História. Ou fazem a História à sua maneira, para se vangloriarem! Porque não existe nenhum pensamento crítico. Porque o fanatismo se impõe nas escolas e nas universidades, o muçulmano é apanhado pela laicofobia. Porque o religioso é um destino comunitário imposto. Porque não há nenhum debate intelectual livre e racional, o muçulmano tem medo de laicidade. Porque não existem partidos políticos reais com programas da sociedade, todos eles são de criados ou alimentados por correntes nacionalistas de tempero islâmico ou pelas ideias da Irmandade Muçulmana.

A fobia islâmica face à laicidade criou uma cultura de ódio em toda a sociedade muçulmana. Esta fobia islâmica generalizada em direção à laicidade reforçou a mentalidade de rebanho, impediu o muçulmano de poder cultivar uma liberdade individual. Esta laicofobia criou um sentimento de medo do outro, de recusa de viver com os outros. Esta laicofobia ergueu barreiras face àquele que não é semelhante, na religião ou na forma de pensar. Esta doença que é a laicofoboa é a consequência de tudo o que o povo do Magrebe e do mundo árabe-muçulmano viveram em deceção política, social e cultural, e isto dura desde as independências desses países. Se um muçulmano não se liberta desta doença psico-intelectual que é laicofobia, ele permanecerá condenado a viver no medo, ódio e violência, contra si mesmo e contra o outro.

Nunca se explicou ao crente muçulmano simples, com clareza e coragem intelectual e política, o significado da laicidade. Nunca se ensinou às crianças das escolas muçulmanas que a laicidade é o único caminho que garante o respeito pelas religiões, por todas as religiões. Que só a laicidade garante o respeito do ser humano, com as suas convicções religiosas, filosóficas e políticas. Que o caminho da laicidade é o garante da possibilidade de convivência, entre o muçulmano e outras pessoas pertencentes a outras religiões ou outras não-religiões. Que a laicidade permitirá o florescimento em todo o respeito das diferentes culturas e línguas que vivem no Magreb ou neste mundo árabe-muçulmano. Todas as guerras declaradas no mundo muçulmano, ou noutro lugar, em nome do Islão contra outras religiões, contra outras culturas, outras línguas são resultado desta laicofobia, desta doença que corrói o muçulmano, onde quer que ele se encontre.

Sem respeito pela laicidade como cultura, pensamento e como modo de vida social e político, a própria existência do Islão permanecerá ameaçada no mundo. E a laicofobia gera a islamofobia.

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.

20 fevereiro 2017

E a Sra Le Pen agradece


Emmanuel Macron, o candidato da esquerda às próximas eleições francesas foi à Argélia, antiga colónia, e achou por bem afirmar que a colonização constituiu um crime contra a humanidade. Não sei se acreditará mesmo no que disse ou não; os políticos têm por hábito dizer o que acham por bem ser dito.

Se a história da humanidade está cheia de crimes e as guerras por si, para mim, serão todas criminosas, independentemente das causas e motivações, essa colagem direta da etiqueta é abusiva. Devo dizer que, como português, agradeço bastante a colonização que os Romanos por cá fizeram.

Se falarmos de África e de tempos mais recentes, poder-se-ia questionar se as lutas foram mesmo pela libertação ou apenas pela mudança da tutela e se, no pós-independência, há mais ou menos crimes contra a humanidade do que antes, mas aí estaríamos a fugir à discussão do princípio.

Citando o que alguém disse no “Le Point”, em outubro passado: ”… que a colonização na Argélia tinha trazido a tortura, mas também o nascimento de um Estado, a criação de riquezas e de uma classe média. Houve elementos de civilização e elementos de barbárie”. Quem afirmou isto, bastante razoável e equilibrado? O Sr Macron, o mesmo!!!

À sombra da falta de razoabilidade, incoerência e oportunismo descarado destes senhores, cresce a Sra Le Pen. Depois, se ela ganhar… podem organizar manifs.


Foto do France24

13 julho 2016

Contra Mersault

Mersault é o protagonista de “O Estrangeiro” de Albert Camus, talvez a obra mais famosa de um dois maiores escritores de língua francesa do século XX e uma referência fundamental na literatura do existencialismo. O enredo desenrola-se na Argélia Francesa onde Mersault mata um árabe numa praia, sem razão e sem saber bem porquê, dentro do tom do “absurdo da existência”, característico daquela corrente filosófica e literária. Na história, Mersault é julgado e condenado. Do árabe, morto gratuitamente nada se sabe, nem sequer o seu nome. Para uns isto é uma forma de racismo, para outros, eu modestamente incluído, faz parte de uma certa perspetiva niilista da história.

Kamel Douad, escritor argelino, publicou recentemente um romance que teve algum sucesso: “Mersault – Contra inquérito”. O seu personagem é o irmão do árabe desaparecido da vida, dos registos e mesmo ausente do cemitério, por supostamente o cadáver se ter volatilizado. Viaja entre a denúncia da indiferença do colonizador e a desgraça e angústia da família indígena. A injustiça é ainda mais gritante porque o tipo que lhe matou o irmão, publicou um livro sobre o assunto e ficou famoso, numa fusão de autor (Camus) e Mersault (personagem). Nos calores dos dias da independência, o novo protagonista mata um francês, também por nada, mas o autor de agora tem o cuidado de lhe dar um nome completo (o próprio e o de família). O protagonista é preso brevemente, não pelo crime, mas apenas por não ter participado na luta independentista. A trama é relatada numa mesa de café, que cheira muito a outro grande romance de Camus, “A Queda”.

O livro incomodou-me um pouco por estar apoiado numa correspondência algo grosseira e nalguns aspetos forçada. Só não sei se Kamel Doaud é mesmo fino a ponto de o paralelo abusivo, ser propositadamente assim. No mínimo, o livro tem duas perspetivas de leitura. Num ponto de vista simples e direto, prima a solidariedade terceiro-mundista com o “outro” ignorado e menosprezado. Em alternativa, podemos ver friamente encenada e destacada uma ironia triste sobre a falta de objetividade e de rigor, e consequente amálgama de razões e suposições, que muitas vezes por ali se vive.

Da desgraça de um mal inicial, um crime gratuito e brutal, partimos para uma cobrança desajeitada, com uma argumentação baralhada e fantasiada, não menos brutal e completamente injustiçada. Este défice de discernimento, acaba por constituir uma desgraça maior do que aquela que pretendia corrigir. Será esta uma mensagem sub-reptícia de Kamel Daoud ou serei eu a fantasiar em excesso? Gostaria de saber como o júri que premiou o romance o leu, sendo certo que um bom livro é aquele que pode ser lido de várias formas.

15 junho 2016

Estes dias de junho…


Estes dias de junho são um pouco particulares para mim. Em tempos idos, marcavam o fim do período letivo e a descompressão do início das férias, com um certo cheiro de festa. Em termos biológicos, os dias alongados e o golpe de calor pesam-me. Tenho sempre alguma dificuldade em habituar-me a aumentos de temperatura bruscos.

Por estes dias viajei de Paris a Constantine, Argélia, na Air Algérie, em período de Ramadão, que, nesta altura do ano, representa cerca de 17 horas de abstinência. A hora prevista de aterragem era às 19h15 e o fim do jejum estava previsto para pouco antes das 20h. Apesar de em circunstâncias normais uma hora de atraso ser norma, desta vez não havia tempo a perder. Chegado o autocarro ao avião antes dos passageiros com necessidade de assistência especial, o comandante anunciou: ou os “doentes” estão cá dentro de 5 minutos, ou já não entram. Felizmente chegaram e entraram. Ainda havia umas 9 pessoas de pé e com sacos no corredor e o avião já mexia e manobrava, para sair do ponto de estacionamento. Felizmente conseguiram sentar-se e arrumar os sacos antes da descolagem. 
Não me apercebi se a contagem de passageiros chegou a ser feita. A minha janela de emergência, a da fotografia, tinha aspeto de já ter sofrido alguma urgência. 

Chegamos a horas a Constantine. Fiquei bem instalado. Apesar de inicialmente de me enviarem para um quarto já ocupado, felizmente a chave não abriu, e depois para um piso supostamente fora de serviço, com os corredores sem iluminação. Felizmente os telemóveis servem de lanterna, No dia seguinte a temperatura andava pelos 40 graus, provocando-me o tal golpe de calor. No final do dia, sentia-me pesado e quebrado, apesar de ter comido e bebido…

01 junho 2016

Num quarto perto do seu


Por norma tenho um sono pesado, principalmente na primeira fase. Por exceção, já tinha sido acordado naquele local há uns meses, quando um tremor de terra pusera a porta do quarto de banho a bater violentamente contra a parede e a cama a deslizar pelo quarto. Um abanão idêntico tinha ocorrido uma semana antes, na minha ausência, sendo a probabilidade de tal voltar a acontecer baixa.

Desta vez acordei com uns gritos e os ruídos de algo pesado a ser pousado e arrastado pelo chão, comentando para mim mesmo: Este pessoal hoje está nervoso… andarem assim aos berros a arrastar a mobília a estas horas! Desde que uma vez acordei com uns técnicos a resolverem um problema de canalizações dentro do meu quarto de banho, sem sequer dizerem boa noite, que me surpreendo pouco com coisas bizarras. Uns minutos depois telefona-me um colega, alojado no mesmo hotel: “Anda por aí um incêndio, desça, desça!”.

O tempo de vestir e calçar algo e lá vou escadas abaixo, cruzando-me com os “gendarmes” que subiam para investigar. Uns minutos depois chegaram os bombeiros, mas o fogo já tinha sido dominado pelos empregados do hotel. Os tais ruídos não eram da mobília, mas sim dos extintores a serem transportados e pousados no chão. O sistema de alarme que funcionou foi o guarda noturno da rua, que viu fumo a sair pela janela. Felizmente a janela dava para a rua.

Arderam as duas camas e parte da mobília do quarto 304, imediatamente por cima do 204, o meu… Dado que o calor sobe, seria pior se eu estivesse no 404. A boa notícia é de que a probabilidade de tal voltar a acontecer é baixa (e o importante é que recarreguem os extintores rapidamente).

27 maio 2016

Um mau enredo


M. nunca conhecera o pai. Este abandonara a família cedo e também cedo a sua mãe caíra em demência. Fora educado com grande esforço por uma irmã mais velha. A namorada, com estudos e tudo, era de boas famílias e nunca aceitariam um casamento de sogro incógnito. M. lançou-se na busca do pai, descobriu-o no outro extremo do país, e este aceitou perfilha-lho, mesmo sem nunca se terem encontrado.

M. arranjara trabalho e tudo se encaminhava para começar uma nova vida e uma nova família. Dois dias depois de entrar em funções, recebeu a notícia de que o pai está muito doente, lá do outro lado do país, e lançou-se à estrada, no veículo da empresa, Pretendia vê-lo pela primeira e pela última vez, após uma viagem de noite inteira. Sensivelmente a meio do percurso uma árvore de grande porte interrompeu a viagem e a vida de M. Simultaneamente a sua irmã-mãe deu à luz uma criança a quem chamará M.

Parece um mau argumento para uma novela de 3ª classe, não é?

Pois parece, mas pelo menos uma boa parte não é ficção. Fui eu quem assinou o contrato de trabalho e lhe desejou boa sorte ao entrar em funções. Dois dias depois da sua morte, fui visitar a família. No átrio de entrada do prédio estava a urna que tinha transportado o corpo ao cemitério. Lá em cima no apartamento, a namorada de boas famílias, uma mãe demente, uma irmã lutadora e uma criança de dois dias chamada M.

(Foto furtiva da zona onde ocorreu o acidente.)