Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Igreja. Mostrar todas as mensagens

04 maio 2026

Arcozelo 1974 : Padre Branco x Fortunas

A minha família nunca foi muito de sacristias. Em 1974 eu ia à missa apenas com a minha mãe, o meu pai passava. Uma boa parte da família alargada costumava assistir à de sábado, ao final da tarde, ficando assim o domingo livre para os picnics na Ria de Aveiro e outras saídas.

Após o 25 de Abril, ocorreu uma sessão de esclarecimento no campo de futebol da freguesia, secretariado pelo meu tio-avô, Adolfo Fortuna, que teve uma breve passagem pelo PS. O pároco da freguesia ouviu numa intervenção algo que não apreciou e pediu a palavra. Aparentemente o meu tio-avô terá registado a solicitação e informou o senhor padre de que iria falar quando chegasse a sua vez, após os anteriormente inscritos. O senhor padre ficou furibundo pela ausência de tratamento prioritário e foi-se embora.

No sábado seguinte, na tal missa do sábado, o pároco aproveitou a homilia para demonstrar a sua ira contra uns certos irmãos, supostamente “fascistas”.  Eu estava lá e recordo-me de, na fila da igreja imediatamente atrás de mim, o meu tio-avô Ilídio Fortuna resmungar a meia voz: Fascista, fascista… fascista é ele!  Na altura, a palavra “fascista” era um depreciativo de largo espetro.

Por canais que ignoro, o assunto chegou a uma rádio, que noticiou a particularidade dessa homilia na paróquia de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, libertando grande polémica.

Na missa da manhã do domingo, o senhor Padre resolveu apresentar um “Agarrem-me, senão eu parto”. Anunciou que iria abandonar a paróquia e que agradecessem “a uma certa família”. Gerou-se imediatamente um enorme movimento beático de apoio, “O Padre é nosso, o Padre é nosso”, transformando a missa numa ruidosa manifestação de apoio ...

Como consequência, a família ficou zangada com o sacerdote e o mais interessante para mim foi termos deixado de ir à missa, nem sábado, nem domingo.

Apenas uma pequena história no meio dos inúmeros episódios curiosos que ocorreram no imediato da revolução. Posteriormente as relações acalmaram, como previsível, mas a história é também feita de pequenas histórias.

12 abril 2026

Nem maçom, nem sacristão


Desde muito cedo tive a certeza de que nunca seria sacristão. Não por ter grandes desalinhamentos de princípio com o Nazareno, descontando, é certo, os seus excessos apocalípticos. Houve e haverá cristãos, pessoas fantásticas, de enorme valor humano e intelectual, mas a instituição Igreja sempre me cheirou demasiado a uma certa hipocrisia bolorenta. Que me perdoem os crentes sinceros e bem-intencionados, mas o perfume que me chega às narinas não é coisa que me entusiasme.

Escalas e contextos à parte, a instituição abriga também alguns pequenos Torquemadas, símbolos de intransigência e obscurantismo, de quem se agradece distância.

Quanto à maçonaria, o paralelo é grande (ó Diabo...!). Efetivamente, é difícil discordar dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mas quanto às práticas da organização, a incoerência é grande. Como o posso saber, quando a sua atividade é secreta (ou discreta, para quem gosta de eufemismos)? Que conheço eu de concreto, que me permita fazer tal afirmação? É simples. Precisamente por não conhecer nada de concreto e público por eles realizado na atualidade. Para quem defende convictamente uns princípios e um projeto, qual a razão de o fazer às escondidas? Diz-se que” Quem não deve, não teme”; eu acrescento que “Quem não teme, não se esconde”.

Existirão ainda por aquelas bandas uns pequenos Robespierres, companhias muito pouco recomendáveis para quem valoriza pluralismo e liberdade e de quem se agradece distância.

Outro ponto comum é existirem nas duas instituições aderentes motivados não pelos princípios e convicções, mas pelo oportunismo de apanharem boleia para locais protegidos, de acesso discretamente privilegiado para membros. Nestes casos passamos da discordância para a repugnância.

A todos aqueles que se eclipsaram ou que o poderão fazer por estas minhas afirmações e opções, apenas posso dizer: Fiquem com as vossas grilhetas, que eu não prescindo da minha liberdade. Nunca mendiguei apadrinhamentos e nunca valorizei ninguém que não fosse pelo mérito e competência. E tenho um estomago delicado…

Infelizmente o prejuízo não acaba aqui, individualmente … o sucesso e a prosperidades “universais” dependem, indiscutivelmente, de outros valores.

29 dezembro 2017

Quando acaba o terrorismo islâmico?


Ao contrário do que alguns ingénuos e outros mal-intencionados possam pensar, o fim do terrorismo Islâmico não depende do Ocidente. Não depende de este assumir a sua história, de integrar melhor os migrantes, de terminar com a tal política intervencionista no Médio Oriente, nem da eficácia da sua polícia. Alguns destes pontos ajudarão a mudar a escala e a dinâmica do problema, mas nunca o erradicarão, porque não é daqui que ele nasce. Mesmo a derrota do autodesignado “Estado Islâmico” na Síria e Iraque é apenas o destruir de uma metástase. Facilmente outra nascerá, ali ou mais ao lado.

O terrorismo islâmico acabará, assim como a instabilidade social provocada pelo salafismo disfarçado ou assumido, quando quem de direito entender e assumir conclusões sobre a decadência e posterior queda do Império Otomano.

Nos séculos XVI e XVII o califado dominava completamente o Mediterrâneo Oriental, estava implantado no norte de África, inclusive na costa atlântica depois de Alcácer Quibir e ameaçava Viena e a Europa Central. No século XX aparece moribundo e cai de podre no fim da Grande Guerra de 14-18. Porquê? É uma grande questão, mas se foi claramente ultrapassado pela Europa das Luzes, não parece que um retorno às origens, a visão salafista, resolva grande coisa, pelo contrário.

Enquanto o “mundo muçulmano” não entender que perdeu por ter ficado para trás, nada resolverá buscando recuar ainda mais. É como beber uns uísques para esquecer uma dor de fígado. Um século depois dessa derrota, insistir em semear o ódio ao vencedor e em amaldiçoar os valores que permitiram esse desfecho, é continuar a afundar-se e a agravar as frustrações, donde nascem as radicalizações. Sem complexos para cima e para baixo, para a esquerda ou para direita, é absolutamente inquestionável que o mundo hoje, cultural, social e cientificamente está moldado pela fantástica evolução acontecida no chamado Ocidente, nos últimos séculos. Em cada pequena coisa que utilizamos, em cada minuto, está um saber nascido nesta civilização. Em nenhuma outra fase da história terá havido uma tamanha predominância global. É de realçar que este domínio não é fundamentalmente “hard”, pela força, apesar de esta existir nalguns cenários. O poder é fruto do conhecimento desenvolvido, do modelo de sociedade criado e da qualidade de vida proporcionada.

Existem imperfeições, certo, mas é indiscutível que o respeito pela liberdade, pela diversidade, a condição da mulher, a aceitação do espírito crítico, a abertura aos novos saberes, a separação entre igreja e estado e outras coisas para nós tão “naturais”, fizerem, fazem e farão a diferença. Se os líderes de lá não querem avançar, não nos peçam para regredir; se a larga maioria da sua população quer viver como no Ocidente, não os enganem quanto ao caminho a seguir. Enquanto a frustração pela derrota continuar na diabolização dos vencedores… é o chamado tiro no pé.

Como esta consciencialização poderá demorar algum tempo, há uma alternativa mais imediata: é a de os pregadores do ódio serem coerentes e declararem proibido e haram (pecaminoso) o recurso a todo o equipamento e tecnologia desenvolvida pelos kuffars (infiéis). Nem era preciso ser mesmo tudo, bastava armamento, meios de comunicação e de transporte. Já faria uma grande diferença!

16 fevereiro 2015

Religiões a quatro tempos


A forma como as religiões são vividas pelos seus crentes inclui, na minha opinião, quatro tempos.

1) O tempo da espiritualidade. O homem face às suas angústias e inquietações. A relação com a transcendência e, muito especialmente, a forma de encarar o desconhecido supremo do “e depois da morte…?!”. É o tempo do “eu creio”. Pode ser individual e pode ser universal.

2) O tempo da comunidade. A agregação faz a força e as comunidades necessitam de compartilhar traços identitários. A religião serve de denominador comum para um grupo. É o tempo do “nós somos”. Muitas vezes o reflexo de proteção faz a comunidade fechar-se e excluir “os outros”. Já não é universal.

3) O tempo do regulamento. A organização social necessita de regras. Regras de partilha, de respeito mútuo e até mesmo sanitárias. A liderança da sociedade coloca uma capa religiosa no manual de procedimentos. Se és dos nossos, és desta religião; se és desta religião deves seguir este código. É a fase do “deves seguir…”, já longe do tempo espiritual original.

4) O tempo da manipulação. Os deveres evoluem do utilitário básico para o serviço do poder. A religião é estandarte atrás do qual se mobilizam e galvanizam vontades. Muito poucas, para não dizer nenhumas, das guerras chamadas religiosas são mesmo motivadas por disputas de credos. O líder apenas evoca e manipula o credo do grupo para atingir os seus objectivos. É o “vamos guerrear em nome de… “.

Ao discutir o papel das religiões no mundo, os seus prós e contras, se se trata de ópio ou de incenso, é necessário identificar bem o tempo a que correspondem as acções a que assistimos. No tempo um, tudo está bem; no tempo quatro, tudo está mal.

Nota: Foto no templo budista Guanyin en Xiamen, China

26 novembro 2010

Oportunismo ?

Ontem, 25 de Novembro, assisti à primeira sessão da segunda série dos “Encontros com a Ciência”, organizados pela Universidade do Porto, sob o tema “Sociedade e Valores”, com dois eminentes convidados, Dom José Policarpo e António Barreto.

O cardeal-patriarca fez uma comunicação brilhante e incisiva, que não quero nem consigo resumir. Um dos pontos referidos foi a relação/interdependência/ identificação do individuo com a comunidade através dos valores, e, por muito que se diga e conteste, a Igreja tem uma marca fortíssima nesse capítulo.

No período das interpelações resolvi questioná-lo sobre a forma como a igreja encarava e assumia a influência dos seus valores, sob a comunidade em geral, não crente. Apontei concretamente o Natal aí a chegar, que constitui uma marca social fortíssima, e como a Igreja via e assumia essa universalidade versus aquelas posturas de restringir o Natal à sua componente religiosa básica e criticar todas visões mais abertas do acontecimento. Como introdução referi que eu próprio me definia simplesmente como agnóstico até ter uma experiência de vida noutra cultura, após a qual me passei a considerar agnóstico de matriz cultural cristã.

O microfone funcionava mal e o cardeal também não estava a ouvir muito bem. Não me pediu para repetir o que tinha perguntado. Apenas pegou no “agnóstico de matriz cultural cristã” para dizer que:
  • Eu era um dos muitos que sem esforço e sem compromisso se aproveitavam do trabalho de poucos
  • Se eu sabia o que era ser agnóstico que, ao contrário do ateu que nega, não se manifesta declaradamente num sentido ou noutro e ...
  • Com o tempo o agnóstico, indeciso, tende a “cair” para um lado ou para outro
De facto, não respondeu directamente à questão colocada, mas acabei por ter a resposta de forma indirecta. Curiosamente surpreendeu-me o seu esforço de considerar um agnóstico um “ser menor”, incompleto, indefinido. Como se um crente aceitasse mais facilmente um “crente negativo” e lidasse mal com quem não ache importante tomar partido. Nunca tive grande simpatia por aquelas posturas anarco-carbonárias-sindicalistas que rosnam às sotainas mas ontem mudei um pouco essa leitura. Creio que Jesus Cristo tal como foi descrito veria as coisas doutra forma.

23 março 2010

A origem do drama

Não sei se haverá proporcionalmente mais padres pedófilos do que na população em geral, mas se o problema nasce apenas nas “hormonas” e na “fraqueza da carne” a provocarem a quebra do voto de castidade, porque é que esse desvio não acontece com um parceiro natural, uma mulher adulta, em vez de rapazes menores, tão condenável e repugnante sob todos os pontos de vista? Simplesmente por estarem mais acessíveis e ser mais facilmente disfarçável ?

Das duas uma: ou a pedofilia é excepção minoritária e a quebra de castidade também ocorre frequentemente com mulheres adultas e nesse caso por simples projecção a proporção de padres não castos será enorme, ou efectivamente a pedofilia é predominante no desvio e, neste caso, coloca-se a questão do porquê dessa preferência. Ambas as situações são embaraçosas para a igreja católica e cabe-lhe fazer o respectivo trabalho de casa de investigação, sem enterrar a cabeça na areia.

A castidade imposta na juventude não representará, em muitos casos, unicamente a simples privação do outro sexo, abrindo derivas para escapes homossexuais, com sequelas para a vida adulta? Um tema também merecedor de investigação séria: quais as práticas reais nos seminários neste capítulo.

Com o espírito e a força de S. Francisco de Assis haverá muito poucos e a igreja não se dignifica exigindo comportamentos que estão para lá da resistência de tantos dos seus membros. E, de novo, das duas uma: ou a igreja mantém as regras e castiga exemplarmente os seus elementos “podres” ou muda as regras. Compreensão e condescendência, e aqui recordo a posição do bispo do Funchal a propósito do padre Frederico, irão corromper a instituição no seu todo.

19 julho 2009

Uma sagrada hipocrisia....!

A gente lê e quase nem acredita...
Excerto de uma notícia publicada recentemente no DN:

"Para poder receber o sacramento do matrimónio, no qual os católicos crêem que Deus valida de forma indissolúvel a união do casal, Rita teve de provar que o mesmo gesto que fizera sete anos antes não fora válido. Que o seu primeiro casamento realizado na Igreja, com Daniel, foi nulo, porque não assentou nos ideais base do matrimónio cristão: casar para toda a vida e constituir família. Através de um tribunal eclesiástico, que analisou o caso ao longo de vários meses, ficou demonstrado que o contrato estava, à partida, viciado. Apesar de na altura ter pronunciado as mesmas palavras de amor eterno, interiormente, Rita nunca quisera assumir uma relação para sempre. Nem tão pouco desejara ter filhos
[...]
“Eu disse sempre que não queria ter filhos. Mas ele pensava que eu ia mudar de ideias", recorda Rita, advogada de 31 anos, recuando ao ano em que conheceu Daniel, o rapaz giro e bem-disposto com quem casaria após um ano de namoro. "Nem sei bem porquê. Talvez por ser nova e ter um feeling que aquilo não seria para sempre. E que, se tivesse filhos, se tornaria irreversível. O que me prendia para a vida, eu rejeitava", explica. Tinha 24 anos e uma educação religiosa, mas a vida espiritual ficara para trás, no colégio de freiras.
[...]
Antes que o ex-marido fosse notificado pelo Tribunal de Viseu, onde acabou por vir a correr o caso, Rita contou-lhe a sua intenção. "Não gostou muito da ideia, mas colaborou. No depoimento disse que para ele o casamento era para sempre. E que eu é que não o tinha respeitado", afirma, reconhecendo que as suas palavras duras até lhe foram favoráveis, pois comprovaram que a união estava viciada. Além de Daniel e Rita, foram ouvidas testemunhas que confirmaram o estado de espírito na altura do casamento: a exclusão dos filhos por parte dela e a imaturidade. Outra pessoa testemunhou a mudança radical na forma de encarar o casamento e o desejo de constituir família.

Prova disso foi o nascimento da filha, ainda antes de sair a sentença. E a vida religiosa, praticada agora com devoção. Ansiosos pela confirmação da decisão, Rita e João não casaram a 28 de Dezembro, dia da Sagrada Família, como tanto desejavam. Fizeram-no dois meses e meio depois. Com a igreja cheia e três padres no altar."

Em resumo: a mesma instituição que quase excomunga e recusa a comunhão a divorciados banais, anulou o casamento da menina, a pedido da própria, porque na altura ela era imatura e não tinha pensado a fundo no assunto. E tanto mudou que a filha do segundo casamento até nasceu antes do primeiro ser anulado...!
Questão: O resultado seria idêntico com outros protagonistas: se ela não tivesse sido criada em colégio de freiras; se o segundo marido não fosse um “católico fervoroso” e se não fossem gente de colocar três padres no altar!? Cheira-me que não e, por isso, algo está podre no reino deste crucifixo...

07 abril 2009

Sssemana Sssanta!

Quando andava com mais frequência pelas terras de Castela e Levante, ouvia nesta altura do ano ser referida com entoação muito convicta e carregada esta coisa da “ssssemana sssanta”. Na expressão junta-se um misto de sabor a pequenas férias e uma veneração e reverência por aquelas manifestações negras e roxas da “paixão”!

Não costumo ter férias nesta altura e as procissões das cruzes parecem-me mais lúgubres e sinistras do que minimamente simbólicas de outra coisa mais elevada. E, mais uma vez, é pena. É pena que num mundo em tamanha convulsão que forçosamente questiona os seus valores, e os procura, mais uma vez a Igreja católica não consiga utilizar o seu riquíssimo património humanístico. Ficamos pela rotina oca das cruzes envoltas em faixas roxas e pelas tenebrosas procissões espectaculares. Não se vê como isso combina com os ovos e os coelhos da fertilidade associados ao equinócio do Primavera, mas com um bocadinho de esforço poderiam lá chegar. É mais fácil, se bem que bastante menos eficaz, fazer um discurso a condenar o hedonismo em Luanda…

29 março 2009

Ainda o preservativo e o papa

Aqui atrás reagi um pouco a quente a este tema, de tal forma o assunto parecia estar a pedir. Depois de ver alguns prós e contras, apetece-me acrescentar algo.

Entendo que o Papa não condenou o preservativo cientificamente mas sim moralmente. Posso compreender que seja essa a sua posição. Para a igreja católica a actividade sexual deve ser exclusivamente dedicada à procriação, não é? Por isso, o preservativo sendo um contraceptivo, não é aceitável. Neste ponto, como com a pílula, só pode acontecer uma de duas coisas: ou Roma revê a sua posição, ou se quiser ser coerente até ao fim, o seu rebanho ficará muito, muito, muito encolhido.

Outro ponto de vista, e por acaso até alinhado com a posição do Vaticano, é defender que se cada um tiver única e apenas um parceiro estável, não há propagação da sida. O preservativo facilitando a promiscuidade vai no sentido contrário. Agora, será por desaparecerem os preservativos que acaba a promiscuidade e especialmente em África? Resposta óbvia: não. Aliás, face ao que sabe e ao que não se sabe, nem sequer é disparate, em muitos casos, sugerir o uso do preservativo mesmo entre pares “teoricamente” estáveis e exclusivos.

O Papa quer condenar o hedonismo e todas as religiões, de alguma forma, tocam esse ponto de recusar dar a primazia ao prazer imediato e individual. Agora tem é que saber como falar e com quem está a falar. Quando em Luanda usou a palavra “hedonismo” em frente daquela multidão, teria ele uma ideia de quantos dos assistentes sabiam do que ele falava?

02 março 2009

Religião e não



Sabemos que os autocarros tendem muitas vezes a serem agressivos. Agora, o que não imaginávamos era que se pudessem tornar protagonistas de uma luta de convicções, daquelas que fazem correr rios de tinta e daqueles rios que nenhum verão jamais secará.

Há os que dizem: “Provavelmente Deus não existe, portanto deixe de se preocupar e goze a vida”; e os que respondem: “Deus, sim, existe, goza a vida em Cristo”. Passo ao lado da nuance entre o a "provável" britânico da negação e a castelhana "rotunda" afirmação do sim (também não é relevante comparar o aspecto profissional e charmoso do "não" inglês com o tosco improvisado do "sim" espanhol e até a diferença de tamanho das fotos é apenas resultado da googleada).

A ideia do autocarro ateu nasceu em Inglaterra mas tinha que ser em Espanha, terreno propício a essas paixões entre cristãos e ateus, sim porque de paixões se trata, que a guerra iria estalar. Li que a campanha inicial inglesa tinha o apoio do Sr Richard Dawkins, um professor de Oxford, autor do best-seller “A desilusão de Deus”; livro que li em parte, mas que não me motivou por misturar a causa com o efeito.

Ou seja, na minha opinião, a religião/espiritualidade é uma consequência da natureza humana, diversamente declinada, conforme a cultura em que se manifesta. A religião/instituição é uma organização consequente. Não é a religião/instituição que gera a religião/espiritualidade mas o contrário. Por isso, um mundo sem religião/instituição não é equivalente a um mundo sem religião.

Agora, pode haver um mundo sem religião? Antes de avançar vamos separar as águas. Dentro do universo dos crentes haverá uma ínfima minoria de gente informada, “pura” e religiosa pelos princípios. No entanto, para a grande maioria, a religião é, desculpem a provocação, apenas aquilo que os impede de serem animais básicos. Para quem anda com a cabeça roçando o chão, a religião é o que os “obriga” a levantá-la de vez em quando e ao mesmo tempo lhes dá uma norma de conduta social de forma a que o mundo não seja metade polícias e metade ladrões.

Um mundo sem religião será um mundo em que todos são capazes de levantar a cabeça por iniciativa própria, sem ser necessária uma corda amarrada ao pescoço que a puxe para cima e em que individualmente cada qual encontra e segue uma norma de conduta sem ser por temor ao fogo eterno do Inferno ou equivalente. Será isto uma religião? Não sei, mas estou certo que para desfrutar e fazer desfrutar a vida não precisamos de questionar e discutir a existência de qualquer Deus…

24 fevereiro 2009

D. Nuno e D. Guilhermina

Quem diria que no dobrar do século XX para o XXI D. Guilhermina viria a ter assim tamanha influência para o registo histórico de D. Nuno, tendo este vivido entre os séculos XIV e XV? É que D. Guilhermina vai ser determinante para a canonização de D. Nuno Álvares Pereira. Uma reza intensa e um beijo na imagem do beato fê-la recuperar de uma lesão no olho esquerdo, atingido por óleo de cozinha a ferver, e permitiu-lhe voltar a ver televisão tranquilamente. E assim tivemos o milagre que faltava.

Sei pouco sobre o Condestável para lá de ter sido uma das grandes figuras da História de Portugal e ter dado uma grande coça aos castelhanos na batalha de Aljubarrota. Se o facto de se ter tornado monge no final da sua vida, o torna merecedor do destaque de ser santo, não consigo avaliar.

O que é seguramente ridículo é que esse mérito não seja avaliado com base nos seus actos e princípios evidenciados em vida, mas sim pela sugestão que exerceu numa Guilhermina, 500 anos depois.

Enfim, não dignifica a igreja e de repente lembro-me de quão certa estava a minha ironia atrás, a propósito dos outros três de Fátima.

16 janeiro 2009

O Cardeal e os Muçulmanos

D. Policarpo tem obviamente razão. Casar com um muçulmano pode ser um monte de sarilhos. E, obviamente, há um monte de “inteligência” que vem à praça num “Ai Jesus!!!”, dizer que isso é uma barbaridade retrógrada.

Penso que D. Policarpo não o teria dito como pastor preocupado com a deserção das suas ovelhas (o casamento obriga à conversão, saberá isso a “inteligência”?), mas mais como pastor “pai de família”, preocupado com o bem-estar dos seus.

Um dos problemas destas análises e comentários de comentários é que o exercício de imaginar calçar os sapatos do outro falha. Pensamos que os muçulmanos nos vêm como nós os vemos a eles, o que é falso. Para eles Maomé é o último profeta, com uma mensagem que integra todos os anteriores, incluindo Jesus Cristo; é a religião mais completa e num plano de superioridade relativamente a tudo o resto. É uma visão muito assimétrica e sem preocupações de reciprocidade.

Por outro lado, o Corão é muito um manual de instruções de comportamento, muito detalhadas, e que resiste mal aos 14 séculos que tem em cima. “A mulher não pode viajar sozinha”. E porquê? Por menoridade de direitos ou por necessidade protecção? No ano 600 a segunda hipótese seria razoável, mas, não estando clarificado, a interpretação linear resulta em limitações enormes e pouco compatíveis com os nossos padrões sociais actuais.

D. Policarpo tem razão e, no mínimo, o assunto tem uma actualidade tremenda e merece uma análise objectiva e informada. A “inteligência”, antes de disparar o politicamente correcto, abafando e colocando uma nuvem de fumo sobre essa discussão, poderia começar por ler o Corão e procurar um contacto real com o outro lado para saber como é em vez de imaginar como deve ser.

25 dezembro 2007

Postal de Natal

Olha, olha, e se fosse verdade ? Se ele tivesse nascido realmente em Belém, num estábulo. Olha, e se fosse verdade? Se os reis magos tivessem realmente vindo de longe, de muito longe, para lhe trazer o ouro, a mirra e o incenso?



Olha, e se fosse verdade? Se fosse verdade tudo o que escreveu Lucas, Mateus e os outros dois? Olha, e se fosse verdade? Se fosse verdade a história das bodas de Canã e a história de Lázaro?


Olha, e se fosse verdade? E se fosse verdade o que eles contam às crianças à noite antes de dormirem, quando eles dizem Pai Nosso, quando eles dizem Nossa Senhora? Se fosse verdade tudo isso? Eu diria sim, seguramente eu diria sim, porque é tão belo tudo isso quando se acredita que é verdadeiro.

Jacques Brel, “Dites, si c’était vrai” em tradução livre. Transpira das palavras que ele próprio não sabe se acredita, um certo distanciamento racional, mas rendendo-se à beleza da história, mesmo em ficção. Dá vontade de dizer: é pena os desvios da instituição que a herdou, a opulência, a arrogância e as outras coisas más que a mancharam ao longo dos séculos. Porque, realmente, é uma bela história!

15 agosto 2005

Narrativa fantástica


[...]Os dias em que se ajuntam e ficam assinalados, são quartas e sextas-feiras, em as quais dando o relógio dez horas da noite, ou antes, as ditas Bruxas se untam com certos unguentos que elas fazem das confecções diabólicas que adiante se dirá, que o Demónio lhes faz crer, que sem ele não podem voar, nem ir a seus ajuntamentos, [...] e untadas, o Demónio as leva pelas janelas ou chaminés ou buraco por onde uma mulher possa caber corporalmente e em breve espaço e momento, levando-as pelos ares, as põem em certos campos. [...]

Estando nos ditos campos, disse que achava lá gente de muitas partes; a saber: Portugueses, de todo este Reino, Mouros, Judeus, Franceses e de outras muitas nações e diversas línguas [...] e tanto quanto que lá chegavam, os demónios, em pouco espaço de tempo, dormiam com elas muitas vezes carnalmente, quantas vezes elas queriam e pelo lugar que elas queriam ou traseira ou pela dianteira, e por sua confiança diz que o gosto que eles dão e causam às mulheres é mui grande, sem comparação com os homens. E que tem as suas naturas mui compridas [...]

depois de folgarem nos campos e ajuntamentos com eles, lhes põem uma mui comprida mesa de umas tábuas negras [...] e lhes trazem em uns pratos de pau-preto e deles nas mãos muita soma de carne de bode [...] a qual comida, disse e confessou, lhe fedia e enxofre e alcatrão; e nas mesas estavam por candeias umas tochas com cabos de cordas alcatroadas que davam um negro, escuro e fedorento lume. [...]

E confessou mais uma, e muitas vezes, que tendo o Demónio parte com ela por muitas vezes, o apalpava e achava corpo e carne, segundo apalpava com as mãos e que se lhe figurava ser carne pelosa com muita soma de cabelos, como de bode, mas o pêlo mais brando e macio.[...]

Pergunta: algum palpite para a origem desta narrativa antiga fantástica, fantástica no sentido literário da palavra? Uma sugestão: nada de brincadeiras porque, garanto, trata-se de coisa muita séria.

10 julho 2005

Querem apagar a luz


Tenho visto com alguma frequência notícias sobre umas investidas preocupantes no sistema de ensino nos USA. Alguns candidatos a herdeiro de Torquemada, acham que Darwin e a evolução são uma treta e que o mundo foi criado por um ente superior todo-poderoso. Aproveitando a onda beata Bushiana actual e a influência que as autarquias, naturalmente politizadas, têm sobre os conselhos de administração das escolas, os manuais de biologia recebem autocolantes avisando os alunos de que a evolução é apenas uma teoria entre várias outras.

Definitivamente a igreja não aprendeu que a sua intervenção na ciência esteve, está e estará sempre condenada ao fracasso. No início, quando o homem via os trovões, não encontrava explicação para os mesmos. Aqueles que tinham dificuldade em conviver com esse desconhecido, atribuíram o fenómeno ao deus do trovão. Quando se descobriu como se formam as cargas electrostáticas nas nuvens e como se descarregam, o deus do trovão ficou desempregado.

Não se sabia porque é que “o Sol girava em volta da Terra”. A igreja explicou que deus todo-poderoso assim o tinha entendido e assim tinha criado o mundo. Quando Galileu ilumina a questão, a descoberta é dramática para a igreja. Reacção: apagar a luz, queimar livros, matar pessoas.

Sempre que a religião for utilizada para “explicar” o desconhecido por quem convive mal com ele, o resultado é só um. Cada avanço da ciência que explica o até então desconhecido é um recuo correspondente da igreja. Por isso a igreja teve na história tantas tentações para manter a escuridão. A luz tira-lhe força e, por isso, é sua inimiga natural.

Estes desenvolvimentos nos USA são declaradamente uma manobra de reduzir a luz e de regredir para a escuridão e no local mais perigoso: nas escolas. Curiosamente, nalguns países, o fanatismo islâmico actual foi plantado nas escolas por professores fundamentalistas.