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05 agosto 2015

Querido mês na terra


É apenas um mês, talvez nem completo, mas é muito e é pouco. Muito em importância. Seja no interior abandonado, seja na grande metrópole; seja gente que trabalha com as mãos, a quem se chama emigrante, seja gente mais formada, e a quem se chama expatriados, o apelo de vir cheirar a terra natal é muito forte. E é pouco, porque o tempo planeado para estar com a família, reencontrar amigos, rever o sol e o mar, a comida cá feita e, tantas vezes, colocar a respirar uma casa hibernada é sempre curto.

Por muito que se maldiga a desdita nacional, que se desdenhe a nossa sorte e se questione o sentido do nosso fado, Portugal é uma terra e um valor querido que emociona os seus. Nem sempre é fácil a chegada. Aquela palavra fora de sítio, eventualmente apenas escapada clandestina, mas que, para quem a ouviu, foi uma picada infeliz e parva. E há a noção de que faltaria um pouco de vontade para fazer um mundo de caminho e o país continuar a ser o mesmo, mas completo. Sem ser necessário voltar a fechar a casa no fim de Agosto, nem esperar pela reforma para a gozar a tempo inteiro.

Se o mundo é cada vez mais global, os mesmos produtos encontram-se em todo o lado, as facilidades de comunicação encurtam (algumas) distâncias, este pedaço de terra continua a ser nosso e único. Podem chamar-lhe nostalgia retrógrada, podem até culpar esse espírito por parte do atraso que sofremos. Eu não concordo. Identidade forte pode e deve ser uma vantagem. Penso também que esse sentimento é muito mais claro para quem já fez a experiencia de ter apenas um querido mês na terra. Sejam bem-vindos.

21 novembro 2012

Europa, querida Europa

Quiseram as circunstâncias que me decorresse uma semana por terras da Europa que já não pisava há uns tempos, entre alguma nostalgia, satisfação e estranheza. Vamos por partes. Madrid, porta do Sol – Um SUV da protecção civil passa lentamente entre o povo que circula. A particularidade é a marca e modelo, BMW X3, e apetece dizer: “Não há necessidade…!”. Ao mesmo tempo há vitimas de acções de despejo que se suicidam atirando-se das janelas dos apartamentos que têm de entregar ao banco. Não há protecção civil que as salve, nem mesmo com um X3, por mais rápido que seja.

Paris – Metz – A A4, o nevoeiro, as referências a Verdun, aquelas vinhas de Champanhe tão a norte que não entendo, e a Lorena terra de ninguém da frente Franco-Prussiana.

Metz – Há catedrais fantásticas como esta. Também uma igreja monumental de planta simétrica, curioso, ah pois!, é dos templários! Le Beaujolais nouveau est arrivé! E pronto lá estão eles a vender aquele vinho de S. Martinho a preço forte, a japoneses e afins. É como o nosso Mateus Rosé – apenas para quem não sabe o que é vinho. E na quinta-feira à noite, gente na rua de forma imprevisível para paragens tão setentrionais. Será que a tradição estudantil da festa nesse dia é generalizada?

Beauvais – Se aquilo é “Paris”, então podemos pôr um aeroporto em Cabeceiras de Bastos e chamar-lhe “Porto – Cabeceiras”. Eu sabia que não devia confiar no GPS. Desde o centro até lá, atravessando a horrível periferia norte de Paris foi mais uma hora a somar à hora e tal previstas. Pensava encontrar um restaurante simpático, acolhedor mas não foi assim. Basicamente sítios, poucos, com gente a beber cerveja, já a sentir-se a proximidade flamenga e um certo olhar frio para quem tem cor de pele diferente. Ou será preconceito e trauma meu? Entrei e saí de dois sítios no centro e acabei por trincar qualquer coisa num daqueles restaurantes plásticos ao largo da estrada, iguais em todo o lado.

Europa, querida Europa…

17 julho 2009

No meu tempo...


Testemunho antigo:

"Nascemos com a Lua aos pés, trazida em transmissões directas..."

Nos 40 anos da viagem histórica da Apolo 11, quem imaginaria que poderíamos dizer hoje aos nossos filhos e mais tarde aos nossos netos, com um toque de nostalgia:

“No meu tempo... no meu tempo... no meu tempo o homem caminhava na lua!!”

Valeu a pena? Se a nossa vida actual não seria muito diferente se o homem não tivesse chegado à Lua, a alma, essa sim, estaria mais pequena.

Dizia Gedeão que é o sonho que faz o mundo pular e avançar. Mas não basta. Para mexer mesmo a sério, é preciso mais. Sem a motivação gerada pela Guerra Fria USA/URSS, em cuja contabilidade também contavam as bandeiras científicas tecnológicas, nunca a exploração espacial teria tido o mesmo ritmo, empenho e amplitude.
Por outro lado, e mais concretamente, 8 anos antes de 1969 John Kennedy tinha definido o grande obectivo de colocar um homem na Lua antes do final da década de 60. E, sem esse objectivo claro e a grande pressão associada, a NASA teria feito o melhor possível mas não necessariamente antes do final da década.

Para terminar fica a natureza da motivação. Quando um enorme desafio é lançado, o que motiva e mobiliza vontades para atingir esse “impossível”? O chicote? O cheque? A vergonha da humilhação de falhar? O simples prazer e satisfação de cumprir? A vaidade e o orgulho pessoal ou colectivos? Tanta coisa e tão diversa que nos perdemos. O certo é que é na natureza dessa motivação que se define a qualidade de um individuo, grupo ou nação e o que realmente vale a pena valer a pena.
Foto extraída do site da Nasa

10 outubro 2007

Causas e Messias



Um dos livros “subversivos” que em tempos idos tive foi o “Diário” de Che Guevara, escrito pelo próprio no último período da sua vida, até poucos dias antes de ser preso e abatido pelo exército boliviano, faz agora 40 anos.

A imagem mais marcante que me ficou desse livro foi a generosidade. Provavelmente que hoje a minha leitura seria diferente, menos inocente. Mas, mais do que essa questão óbvia, talvez valha a pena perguntar o que seria o “Che” hoje e que leitura faria ele, ou um seu “sucessor”, da Cuba actual, ou da Venezuela, ou da Bolívia. Libertadas, é certo, das ditaduras militares da guerra fria mas governadas por “revolucionários” de esquerda, não necessariamente exemplares em termos de respeito pelas liberdades e direitos do homem.

Ter-se-ia tornado o Che um homem do “aparelho”? Penso que não. O seu afastamento de Cuba após a vitória da revolução o indicia.

Seria “Che” um revolucionário em luta contra essas ditaduras populares? E, se o fosse, em nome de quê?

Ou seria puramente um “velhinho” amargurado, vendo a causa pela qual ela tinha estado disposto a dar vida falida?
Ou não teria outra alternativa que não fosse ter morrido como morreu?

Com ingenuidade, claro, nos anos 60 era possível ainda acreditar em causas revolucionárias nobres de alma e ver esta figura quase romântica encarnar como o seu messias.

Qual a causa nobre dos dias de hoje e pela qual haja gente pronta a morrer?
Só estou mesmo a ver o islamismo com Bin Laden como o seu messias ...
Que tempos foleiros estes!

PS: Foto de Alberto Korda

17 setembro 2007

Setembro



Setembro é o meu mês. Gosto de Setembro e do início do Outono, muito mais do que da Primavera das flores em botão, passarinhos e de todas as outras delicadezas que despertam e secam, sacudindo bolores, à saída do Inverno.

Não temos os campos pintalgados de papoilas e infestados de pólens, mas temos o pastel das cores ocres e o cheiro forte das vinhas e das figueiras. É muito mais intenso e muito mais premente.

Se a Primavera é a esperança ingénua, o Outono é o momento dos balanços e da maturidade. Em Abril aguardamos o fruto da floração. Em Setembro os frutos estão maduros e serão colhidos ou perdidos e, oxalá, haverão de retornar. Em frente da Primavera está a simplicidade de um desenvolvimento linear; à frente do Outono está a realidade complexa do como renovar.

A Primavera solicita-me e cansa-me nos seus dias crescentes; o Outono aconselha-me. Anuncia o encerrar de um ciclo que nos confronta com a nossa finitude e com a necessidade de renascer e recomeçar.

Não há fins de tarde mais belos do que os do fim do Verão.
Não há mês mais belo do que o mês de Setembro.

20 dezembro 2006

E se fosse a refazer...

Está quase a cumprir-se um ano, dia por dia, de um acontecimento que me virou a vida. Foi-me colocada uma questão que tinha duas respostas possíveis. Uma de continuidade, materialmente cómoda e intelectualmente insuportável e outra, complementar, de ruptura. Escolhi a segunda...

Após 3 meses de discussão, negociação e transição, iniciei um período de 6 meses, durante os quais não entrou um único euro na minha conta bancária. Controlei cada cêntimo que saía; cada litro de combustível consumido, cada minuto de telemóvel e cada compra de supermercado. Um custo que nunca questionei foi a assinatura ADSL que me permitiu comunicar, ler o mundo e publicar estas Glosas. Aperfeiçoei a culinária. Escrevi, li e aprendi coisas em atraso, mas sem nunca ficar em dia. Um dia por semana viajei a cantos e esquinas, enriquecendo o meu mapa mental de caminhos e a minha biblioteca fotográfica. Tive tempo inesgotável e disciplina para o usar. Semana após semana, mantive o ritmo dos contactos, reforçando os já feitos, acrescentando outro canal ou inventando outra iniciativa. Vivi uma Primavera de floração incerta com uma ponta de ansiedade e alguma insegurança mas sempre provando cada dia.

No último mês e pico, em que já tinha data para a retoma do fluxo dos euros, comprei a Transalp. Uma excentricidade em jeito de compensação das restrições anteriores. Nesse período, entre Minho, Gerês e Douro, foram 3500 km’s de cores, ventos, calores e cheiros. E foram também uns polegares quase abertos de acelerar e travar os 53 cv.

O ano completa-se por 3 meses baseado no outro lado do Mediterrâneo de gentes e costumes tão diferentes e tão próximos. E, claramente, enriquecedor. E, como dizia o poeta, “E se fosse a refazer, eu refaria esse caminho!”.