Mostrar mensagens com a etiqueta Xenofobites. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Xenofobites. Mostrar todas as mensagens

06 julho 2024

Quitte ou double

Enquanto se achar que a razão do crescimento da extrema direita está na extrema direita...

01 julho 2024

Quitou, não dobrou


A estratégia ultra-arriscada de Macron de provocar eleições antecipadas em França foi um tiro de bazuca que saiu pela culatra. Sendo óbvio que a extrema-direita iria repetir o sucesso das europeias, qual era a ideia?

As contas do presidente devem ter tido em consideração o fato de se tratar de umas eleições a duas voltas e, sendo fácil gerar uma larga frente contra esses vencedores inoportunos, haveria grandes hipóteses de os segundos saírem reforçados e acabarem por ficar à frente na segunda volta.

O que baralhou as contas foi a criação de uma larga geringonça francesa onde o líder não parece ser o tradicional PS, mas sim o “insubmisso” Jean Luc Mélenchon, que advoga a saída da França da Nato, eventualmente da EU, tiques de antissemitismo, além de outras particularidades e excentricidades, muitas delas comuns às da cartilha de Le Pen. Acontece que foi essa geringonça quem ficou em segundo e serão os seus candidatos a receberem o voto útil contra a extrema-direita.

Portanto, o partido do presidente vai mingar e os pobres franceses terão de optar entre Le Pen e Mélenchon. Não lhes invejo o dilema!! Se a primeira opção constitui um perigo para a França e para a Europa, a segunda também tem riscos que baste …

Acho curiosas as eloquentes declarações de opção de desistência dos terceiros, para ajudar a combater a extrema-direita. Numas eleições a duas voltas, os terceiros têm direito a opção!?

30 junho 2024

Quitte ou double


França é um país que gosta de ideias, mas também alinha facilmente atrás de líderes fortes, que se impõem mais pelo carisma, do que pelas mesmas. Mesmo sem recuar aos tempos de reis solares ou de imperadores autoritários que confiscaram regimes republicanos, todos com boa aceitação popular, tivemos muito recentemente um tal de “mon general” De Gaulle, que na ressaca da traumática participação francesa na II G Guerra, fundou um partido pessoal e um regime com um nível de poder concentrado no presidente de fazer inveja a muitos reis, mesmo reinantes.

Emmanuel Macron, noutra escala certamente, é também alguém que aparece, funda um partido e que toma o poder, muito mais assente na sua personalidade do que numa ideologia. Não está a correr bem, se bem que não é fácil imaginar quem ali podia fazer melhor. No top 3 das últimas presidenciais, nos alternativos, entre Le Pen e Mélenchon, que veja o diabo e não escolha.

Depois das últimas europeias e respetivo descalabro, Macron resolveu jogar o “quitte ou double”. Efetivamente se quisermos excluir xenófobos, putinistas, anti-semitas e irresponsáveis “iluminados”, só mesmo o partido presidente apresenta alguma razoabilidade e racionalidade. Vamos a ver o que a razão dirá este domingo,

26 janeiro 2021

Falta de comparência

É a expressão que me parece mais adequada para caraterizar as recentes eleições presidenciais. Falta de comparência dos dois principais partidos que não entraram a sério nas mesmas. O PS “principal” queria Marcelo reeleito, mas não o quis assumir, nem apresentar candidato próprio; Marcelo é PSD, mas não quis assumir essa colagem ao seu partido. Não me recordo de ver nenhum senador destes dois partidos a dar a cara ativamente na campanha. É assim tão irrelevante o PR em Portugal? O eleitorado com o qual o PC e o BE contavam para carimbar a presença ritual dos seus candidatos também não comparecerem conforme as previsões. No caso do CDS a falta de comparência é mais funda, é da própria liderança.

O Chega e a IL estão a capitalizar a sua recente visibilidade no Parlamento e a sua “diferença”, nem sempre pelas melhores razões. Aliás, a promoção feita de André Ventura, a partir de iniciativas com objetivo oposto, acabou por se tornar o tema principal da campanha. Evoca-me a imagem de, face a uma pústula, o doente a espreme, espalhando o pus e o mal, em vez de verdadeiramente tratar a causa. Sendo este crescimento o fato mais relevante em termos de evoluções futuras, algumas reflexões.

Os partidos unipessoais não têm muita perenidade e este hoje vive todo do protagonismo exclusivo do seu líder. Não sei como o “mister” se irá aguentar quando/se um dia precisar de mostrar uma equipa em torno dele, em vez de apenas mandar algumas bocas algo assertivas e outras bazófias de mau gosto/princípio. Candidatos excitados pelas cadeiras disponíveis que se pressentem não devem faltar, mas de que perfil e com que efeito na identidade do partido? Lembram-se do PRD?

O Chega não teve (terá?) sucesso pela tal ideologia de extrema-direita. Essa era a do PNR de Mário Machado que nunca entusiasmou gente que se visse. Se o Alentejo “Ainda há-de ser Chega!” é por outros motivos. Ignorá-lo é falta de comparência ao diagnóstico sério.


05 dezembro 2020

O Tino não chegou...


Aproximam-se as presidenciais e, com tanta previsibilidade no resultado, ainda nos arriscamos a ver algumas surpresas, não no principal, mas no acessório.

Surpreende-me a campanha anti-Chega, baseada no caráter condenável da sua ideologia. Eu acho que o problema principal com o Chega não é a ideologia, falta-lhe tanto em ideologia, quanto lhe sobra em incoerência e oportunismo. Se André Ventura julgar que falar contra os ciganos lhe traz votos, ele avança; se entender que uma gravata com riscas amarelas e bolinhas roxas funciona bem, ela vai já comprar uma dúzia. O Chega não tem ideias feitas, nem nenhuma conceção fechada; ele luta pela influência e pelo poder, chutando com o pé mais à mão.

O seu crescimento e aparente sucesso, pelo menos temporários, vêm de preencher um espaço deixado vazio pelos “do costume”. Escalas e estilos à parte, sabemos que os do costume também não se importam se ser ateus ferrenhos de manhã e ir a Fátima à tarde, se isso ajudar.  A diferença é o Chega ultrapassar limites considerados linhas vermelhas, algumas delas pintadas um pouco à força.

Lembram-se do Tino de Rans nas últimas Presidenciais? Não precisou de ideologia nenhuma para ter 152 000 votos, bastou ser radicalmente diferente dos padrões estabelecidos. Viajando um pouco: Pepe Grillo em Itália, Tiririca no Brasil e Trump nos USA têm o seu sucesso baseado exatamente na mesma tática: enviar “aquela parte” os de sempre e esse palavreado encontrar ouvidos recetivos.

Gritar “Aqui d’el Rei!” contra a “ideologia” do Chega, manifestamente não chega!

04 outubro 2020

Apropriação e integração


Fazem-me muita alergia as polémicas com as chamadas apropriações culturais. Alguém de uma cultura utilizar uma referência cultural de outra ser condenável como um roubo. Como se cada manifestação cultural e cada agente pudessem ser catalogados, associados inequivocamente a uma cultura específica e fosse possível construir muros à volta. Isto é inviável e a História da Humanidade e das Artes está cheia de belas realizações mestiças.

Ridicularizando o que o merece: se eu usar uma boina vasca, umas havaianas brasileiras, cozinhar uma pizza ou preparar um sushi… será aceitável? E aquele cabelo louro do Neymar?

Mas o fundo do problema não é esse, de todo. Se um branco se vestir de zulu e dançar conforme, será fortemente recriminado, se um negro se trajar a rigor e dançar o vira, é um bom exemplo de integração. Obviamente que há questões de gosto e mau gosto. Não aprecio de todo as varinas, tricanas e minhotas das marches populares, mas nunca me passou pela cabeça apelar à sua censura. As ditaduras do gosto acabam sempre em coisas feias.

Nos anos 80 a Brigada Vitor Jara pegou em temas tradicionais e interpretou-os com instrumentos populares, mas sem respeitar as suas regiões de origem. Um trabalho excelente, que muito contribuiu para lançar um grande interesse são pela música tradicional portuguesa. Mas … um cavaquinho ir colorir um tema da Beira Baixa ou um adufe vir marcar um do Minho? E as enormes influências africanas em muita boa música popular portuguesa? E o ukulele??


01 dezembro 2017

A democracia em risco


Ouvimos dizer e sabemos que é verdade. Mesmo com eleições formalmente democráticas, há propostas a ganhar peso que, no fundo, não estão alinhadas com os princípios e o modelo de sociedade que é o nosso. Por vezes está em causa um extremismo negativo e inconsequente, sendo mais fácil falar e ser contra do que fazer e construir a favor, outras vezes cresce o caricato. Tentando correr um espectro alargado, Trump nos EUA, os promotores do Brexit, o palhaço italiano, a frente nacional francesa, os nacionalistas flamengos, os radicais catalães e até o nosso Tino de Rans.

O problema resultante é muito analisado e discutido pelas elites nas vésperas das eleições problemáticas, mas o problema, mesmo problema, está em o problema causa não ser endereçado por essas elites, especialmente se no dia a seguinte a cada eleição problemática puderem dizer “Ufa!”.

Aqui pelos nossos lados, que conhecemos melhor, está no poder a equipa de um tal José Socrates, parte ativa e pelo menos politicamente comprometida com aquelas práticas. Está bem que ainda ninguém foi condenado, mas o que se sabe é suficiente para classificar a imoralidade desses tempos. Não há nenhuma (co)responsabilidade politica assumida por quem, por ação ou omissão, foi cúmplice daquilo? Assobia-se para o lado e espera-se pela justiça, insinuando-se que esta até pode ser algo facciosa… depois, admirem-se!

No 2º aniversário do governo, convocam-se e paga-se a “cidadãos” para questionarem o governo num simulacro grosseiro de abertura e de escuta do povo! Não seria melhor abrirem as portas a quem quisesse aparecer e apresentar as suas questões, sem papelinho? Vão dizendo “Ufa!” enquanto puderem, mas, depois, não se admirem!

PS: Ok, ok… há também a Tecnoforma e os sobreiros e os submarinos… e o Freeport. Não invalida nada, apenas reforça. No entanto, estas contas do Sr Sócrates, e apenas considerando a CGD e a PT têm outra escala e a equipa está alegremente lá agora…

19 setembro 2017

De spin a screwed


Não tenho nenhuma simpatia pelas máquinas de propaganda, que agora se chamam de “spin”. É um nome mais chique, mais “in”, usam ferramentas mais sofisticadas, mas os objetivos basicamente são os mesmos: influenciar e moldar a perceção da opinião pública. Podem argumentar tratar-se simplesmente de “realçar” uma perspetiva … mas a prática é muitas vezes pura e simplesmente enganar descaradamente. Enganar é feio e muito principalmente quando os mandantes são entidades públicas e governamentais, com responsabilidades éticas acrescidas face ao comum dos mortais. Por outro lado, em geral, há uma relação entre a necessidade de propaganda e o autoritarismo dos regimes. Quanto mais feios são, de mais maquilhagem necessitam.

Um destes dias a Bell Pottinger, multinacional de “Relações Públicas” e “Gestão da Reputação” baseada em Londres estourou e faliu. Criada em 1987 por Sir Bell, o spin doctor favorito de Margaret Thatcher, eram bons e especiais. Corriam o risco de atender clientes delicados, como a fundação Pinochet, a primeira dama da Síria, o ditador da Bielorrússia, os governos do Egito e do Bahrain, etc. Que fizeram eles, então? Aceitaram e executaram uma encomenda, com origem ligada ao poder na África do Sul, cujo objetivo era provocar agitação social, explorando as questões raciais. Isso mesmo... aumentar a tensão racial, na África do Sul e pago por próximos do poder em exercício. Mesmo isso!

Felizmente, isto passa-se no Reino Unido, onde a diferença entre os princípios e a prática não é tão grande como noutras paragens e a associação de empresas do sector baniu-os, provocando a sua queda, merecida. De tanto fazerem “spin”, acabaram “screwed”. In portuguese: de tanto enrolaram, acabaram enroscados (ou uma palavra mais feia).

Palpita-me que não será assim um caso tão único e dá para ter uma ideia do que (não) vai acontecendo por este mundo, graças à propaganda e à manipulação. A solução? Ser prudente, não acreditar em tudo à primeira e, sobretudo, diversificar as fontes (fica o problema de muitas vezes, sem saber, estarmos a ouvir apenas vários ecos da mesma fonte).

24 abril 2017

Utopias por aí


O resultado da primeira volta das presidenciais, mostra 4 candidatos utópicos, cada qual à sua maneira, e não muito. Estão todos bastante próximos dos 20%, mais coisa, menos coisa.

Macron – Do mal o menos, para já. O futuro o dirá. Recordam-se do entusiamo com a eleição de F. Hollande em 2012? Que abria uma nova via, que marcaria uma diferença, que ia liderar uma Europa mais solidária, humana e patáti-patatá? O resultado foi tão espetacularmente deprimente que, coisa rara, nem se apresentou à reeleição. Hollande tinha o enorme aparelho do PSF por trás, Macron praticamente nem partido tem.

Le Pen – O fato de tratar alguns bois pelos nomes não é suficiente para ignorar algumas dimensões perigosas do seu programa, especialmente nas questões europeias. Como dizem os franceses, não se deve deixar a criança ir junto com a água do banho; questionar o projeto europeu não deveria implicar destrui-lo. Dizem que apela a uma utopia, a do regresso a um passado que na prática nunca existiu. Para muitos é uma utopia simpática.

Fillon – Apelando à utopia de um partido tradicional do poder ser honesto e coerente, ainda por cima ele próprio com telhados de vidro bem escacados (depois, os populistas é que não são sérios).

Mélenchon – Dizem que quer uma Europa mais “solidária”. Os coitadinhos do Sul estenderem a mão aos alemães, ainda vá que não vá… agora a França? Perturbador, e muito, é a admiração do senhor pelas revoluções bolivarianas dos Chavez e companhia. É que essas já está provado não serem utopia – são um pesadelo bem real. Quase 20% dos eleitores entusiasmarem-se com esta patética “França Insubmissa” assusta. Nota: O senhor não deu recomendação de voto para a segunda volta… (ao menos podia ter-se inspirado no Cunhal). Algum paralelismo com Corbyn e o Brexit? Esperemos que só nas aparências.

21 março 2017

Ainda a Holanda e as pontes queimadas

Disse aqui atrás que os resultados das eleições na Holanda, apesar da não vitória dos populistas, não terão sido algo assim tão digno de festejos. Não há recuo do populismo, mas sim avanço, apenas não tão rápido quanto se receava.

No entanto, nestes tempos ocorreu algo mais claramente negativo e veremos se reversível, que é a relação da Turquia com a Europa e a “integração” dos seus imigrantes. A Holanda proibiu os ministros turcos de fazerem campanha no seu território e, independentemente das suas razões ou da falta delas, o que se seguiu tem um certo perfume de pontes queimadas. Erdogan chamou-lhes nazis em vez de se ter queixado de uma forma mais equilibrada e racional (já sem lembrar a sua ordem de prisão par milhares de pessoas no dia seguinte ao golpe falhado). Houve quem lembrasse que na Holanda, o número de imigrantes turcos é superior ao dos efetivos militares. Recomendam-lhes ainda que façam 5 filhos (bastante relevante dado o caráter democrático da Europa; se fosse nazi seria inconsequente).

Alguns imigrantes turcos certamente se terão desolidarizado, mas … os outros que saíram à rua com facas nas laranjas, como querem ser vistos a partir de agora pelos originais do seu país de acolhimento…?

20 março 2017

O populismo perdeu?


Respiraram as elites de alivio, porque o povo na Holanda, não deu a vitória aos populistas. Ouvindo-os, dir-se-ia termos assistido a uma inversão da tendência e, daqui em diante, serão apenas amanhãs cantantes.


Ora bem, o partido do primeiro ministro desceu de 41 para 33 lugares no Parlamento. O partido populista, a besta negra, subiu de 15 para 20. Está certo que não ficou em primeiro lugar, mas, mais importante do que este alívio temporário, é saber se esta tendência se mantém ou se será apenas uma questão de tempo até a besta negra efetivamente vencer.

Enquanto as elites não forem exemplos de liderança e de seriedade e continuarem a serem vistos e a comportarem-se como básicos oportunistas, não estou a ver inversão, pelo contrário. Esta autossatisfação pelo sucesso holandês, que se quer decretar estrutural e consolidado, apenas os ridiculariza e desacredita mais. De vitória em vitória, até…

02 fevereiro 2016

Nasceu um problema para os verdadeiros refugiados

Quando no Verão passado se generalizou a designação de “refugiado” para todos os migrantes em busca do solo europeu, era bastante previsível que algo iria correr mal.

Abertas as comportas, assistimos a uma escalada brutal do caudal de chegada dos migrantes. Nos títulos das notícias chamavam-lhes “refugiados sírios”, mas, na prática, muitos deles eram magrebinos e subsarianos aproveitando um novo canal de entrada. Os acontecimentos da passagem de ano em Colónia, vieram realçar o mundo de diferenças culturais, que não se esbatem por obra e graça de um espírito santificado, de um credo qualquer.

Agora, países como a Alemanha e na Escandinávia vêm-se a braços com centenas de milhares não refugiados, alguns deles até se portam muito mal, e com as estruturas de apoio saturadas. Como o reenvio de um solicitador de asilo político é complexo e demora o seu tempo, a solução encontrada para agilizar o processo foi redefinir como “seguros” alguns dos países de origem/trânsito dos migrantes. Se para a larga maioria dos casos faz sentido este aligeirar do processo, esta reclassificação de alguns países pode colocar um grave problema aos verdadeiros refugiados atuais e futuros.

Como em tudo, baralhar conceitos e chamar as coisas pelo nome errado, nunca é boa tática …

11 janeiro 2016

Um grande favor à extrema-direita



Continuo sem conseguir entender como os graves acontecimentos da passagem de Ano na Alemanha, principalmente em Colónia mas não só, demoraram 4 dias a serem publicados. Pode-se argumentar que a agressão sexual é um crime que não provoca queixa imediata, mas mesmo assim... Foi necessária uma manifestação de rua contra a insegurança para a comunicação social pegar no assunto.

A seguir, as autoridades resolveram também não contar imediatamente tudo o que sabiam sobre a origem e nacionalidade dos agressores já identificados. Se é importante evitar as generalizações abusivas, estas tentativas de branqueamento ridículas têm, naturalmente, perna curta e um efeito boomerang que a extrema-direita muito agradece.

Esqueçamos o contexto específico de serem ou não sírios ou muçulmanos ou refugiados. O que se passou em Colónia é perfeitamente natural, por exemplo, no Cairo. Penso não existirem dúvidas, mesmo para os mais acérrimos defensores do multiculturalismo, de que há comportamentos não admissíveis na Europa, que devemos ser absolutamente intransigentes quanto a isso e que a solução não é as mulheres afastarem-se “mais do que um braço” de desconhecidos, tal como pateticamente sugerido pela Presidente da Câmara de Colónia.

Não sejamos ingénuos. Há um mínimo de integração cultural indispensável, por exemplo no que toca à condição feminina, mas não só. Essa mudança de práticas e mentalidades não ocorre automaticamente ao atravessar a fronteira. Fazer de conta que “não foi nada…” e evitar que a constatação da realidade ponha em causa o discurso “politicamente correto”… é um caminho muito equivocado.

15 dezembro 2015

Medo sim, mas de quê


O último número da “Economist” destacava o aumento da extrema-direita populista, supostamente jogando com o medo e incluindo agora (?) a vertente da segurança. Foto de capa com D. Trump, M. Le Pen e V. Orban, aqui copiada.

De acordo com o artigo, um cenário economicamente recessivo cria insegurança, medos, xenofobia e é campo fértil para um perigoso populismo radical. Propunha a sua receita habitual: abrir fronteiras, globalizar, livre circulação de bens e pessoas. Isso cria riqueza. A prosperidade matará então os medos, secando o populismo xenófobo.

Da Hungria não conheço nada, mas julgo existir por aqueles lados xenofobismo a sério. Dos USA também sei pouco, mas reconheço ser assustador ver um Trump a presidir uma superpotência, especialmente se tiver conselheiros do calibre dos de G.W. Bush.

Sobre França, que conheço bastante melhor, afirmo. Sim, existe xenofobismo puro; sim, durante a II Guerra o colaboracionismo foi muito relevante; sim, as ideias na fundação da FN são preocupantes. No entanto, claramente, não é o xenofobismo primário fruto da falta de prosperidade, que o tal reforço de globalização supostamente resolveria, que levou 30% dos eleitores para a extrema-direita.

Na causa está certamente a incompetência e hipocrisia dos políticos tradicionais, mas não só. Quando, e é apenas um exemplo adequado à época, a população se choca por a autarquia suspender as iluminações de Natal nas ruas, em nome de uma laicidade politicamente correta, isto não é xenofobia, mas pode ser capitalizado nesse sentido.

A vitória da direita tradicional na segunda volta das regionais francesas é uma vitória de Pirro. Atribuir um carácter “pestífero” aos radicais, decretando que devem ser cirurgicamente isolados de qualquer exercício de poder é algo desrespeitoso, sobretudo quando representam 30% dos eleitores e ineficaz a prazo, dado estarem a subir consistentemente, com fundamentos para continuar…

O “Economist” que me desculpe, mas para lá das questões económicas, na Europa, também contam as culturais.

08 dezembro 2015

A França syrizou?

Não, não se pode dizer isso. Syrizar é uma radicalização do eleitorado para a esquerda e em França ele está a ir para a direita. Para muitos, não é comparável. A subida sustentada da FN em França não é uma surpresa, nem recente. Já em 2002 Jean Marie Le Pen disputou a segunda volta das presidenciais. Da mesma forma como o Syriza de hoje é muito diferente, na prática, da sua teoria de há um ano atrás, a FN de hoje também é bastante diferente, na teoria, da de 2002. Quando cheira a poder, há uma certa pragmatização destas organizações.

Segundo a teoria dos jovens turcos do nosso PS, que defendem um “seguimento” do eleitorado, afastando o partido do centro, para não desaparecer, a direita tradicional francesa deveria estar agora a cair para o extremo, indo para “onde a bola bate!”. 

É algo curioso que na suposta terra da liberdade, igualdade e fraternidade, a extrema-direita cresça desta forma e a outra pouco se note. Nos filmes e nas ficções, viam-se mais resistentes à ocupação do que colaboracionistas e, talvez, a realidade não fosse assim.

Julgo ser guerra perdida, a prazo, criar estes cordões sanitários: “todos contra eles”. No polémico e provocador romance “Submissão”, Michel Houllebecq especula que em 2022 essa aliança já não tem mais alternativa do que apoiar para a Presidência da República o candidato da Irmandade Muçulmana.

Em resumo, os partidos tradicionais do poder estão desgastados fundamentalmente pela sua prática. Ou entendem isso e encontram forças internas para realmente mudarem, ou serão mudados. O que serão estes extremistas na prática, uma vez chegados ao poder, não sabemos. Pode não ser bonito nem positivo. Que por este caminho irão lá chegar, não tenho a menor dúvida.

01 setembro 2015

Conforme o dia da semana

Na guerra de Raúl Solnado, havia um único avião, partilhado com o inimigo. Uns bombardeavam às segundas, quartas e sextas e os outros às terças, quintas e sábados. O Médio Oriente é um pouco semelhante, mas em drama, não em comédia. Por exemplo, o Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) uns dias é atacado pelos Ocidente e Monarquias do Golfo, pela ameaça que representa; nos outros dias, a coligação sunita liderada pela Arábia Saudita e com o apoio tácito dos ocidentais bombardeia os houthis xiitas, deixando o AQPA ocupar o terreno completamente desestruturado (libertado?) no Iémen. A Turquia ataca o chamado estado Islâmico (EI) uns dias e, noutros dias ou no mesmo dia até, bombardeia os curdos no Iraque, principais opositores ao EI no terreno…

Como consequência destes jogos há gente que morre e gente que foge. Vemo-los tentar chegar à Europa por centenas de milhares. Toda a gente é sensível aos dramas diários e muitas vozes se levantam pedindo mais solidariedade e acolhimento sem restrições, principalmente enquanto o fenómeno não afetar o seu quintal. Receio bem que essas posições sejam alteradas se virem nascer uma nova Addis-Abeba nas traseiras das suas casas.

A Europa tem uma capacidade limitada de receber refugiados tanto do ponto de vista económico, visível a curto prazo, como cultural, com efeitos a mais longo prazo. Se esta pressão não for limitada à escala tolerada pelas populações, a consequência será o agravamento da xenofobia.

Continuar a permitir/tolerar e a participar direta ou indiretamente em guerras às segundas, quartas e sextas e lamentar a sorte dos refugiados às terças, quintas e sábados é comédia de mau gosto!

27 maio 2014

Até somos civilizados

O resultado das últimas eleições mostrou mais um passo claro para o fim do rotativismo democrático e uma correspondente grande incerteza e preocupação quanto à fase seguinte. Antes era: estavam os azuis no poder e o eleitorado castiga-os votando nos vermelhos; a seguir os papéis invertiam-se. O que se vê cada vez mais, para lá do aumento da abstenção, é o eleitorado saturado e descrente com estes círculos fechados de poder. Curiosamente em França, que vai de choque em choque com o crescimento da Frente Nacional, e até já estará em pânico a pensar nas próximas presidenciais, logo no dia seguinte ao das eleições, rebenta um escândalo com os dinheiros da última campanha de N. Sarkosy. E bem podem continuar chocados com o crescimento da extrema-direita…

Em Portugal, se alguém cresceu, não foram xenófobos, melhor ou pior disfarçados, como em França e na Bélgica, não formam radicais de esquerda como na Grécia, nem um palhaço como há pouco tempo ocorreu em Itália. Foi o Partido da Terra e não foi pelo seu programa. Foi simplesmente por ter recorrido a alguém que não foi jotinha, que fez carreira profissional fora da política e que, bem ou mal, não hesita em dizer frontalmente o que pensa. Não sabemos qual o resultado prático, mas, deriva por deriva, esta é muito mais saudável e civilizada do que a maior parte das outras que vimos acontecer pela Europa fora.

Os partidos tradicionais do poder em vez de chorarem o leite derramado e evidenciarem as fraquezas ideológicas ou estruturais destas alternativas, fariam melhor em entenderem e responderem às expectativas do eleitorado que, no fundo, nem são muito complicadas. É apenas questão de envolveram pessoas competentes, com coluna vertebral e terem contas limpas. Não multiplicarão a votação por 10 como o MPT, mas entrarão no bom caminho. Um regime em que esses partidos se esvaziam pode ser um cenário catastrófico… e a culpa não é das alternativas.

24 março 2014

A ressaca da democracia

O resultado das eleições autárquicas em França e o crescimento espectacular da extrema-direita assusta muita gente. Não tenho nenhuma simpatia pelas ideias da FN (Frente Nacional) mas não podemos deixar de respeitar a opção democrática do eleitorado. De recordar que já nas presidenciais de 2002 Jean Marie le Pen chegou a disputar a segunda volta, para grande surpresa e escândalo. E se é certo que a FN de hoje é diferente da de há 12 anos, o problema de fundo é igual, ou pior.

O simplesmente lamentar este resultado, com cara de enjoo, recordando que os “valores” do FN não se identificam com os da democracia, deixa algo por dizer. É que os “valores” dos partidos tradicionais “valem” apenas na teoria. Na prática os negócios e negociatas e a falta de ética dos seus políticos estão muito longe do que seria expectável e minimamente aceitável.

Quando no final da década de 90 a extrema-direita racista e xenófoba crescia na Bélgica, os partidos “sérios”, para a impediram de aceder ao poder, criaram uma grande coligação a que chamaram “cordão sanitário” e o mesmo deverá ser tentado agora na segunda volta destas eleições m França. O problema é que isso vale pouco se não estiver limpo o interior do dito cordão.

Tenho sérias dúvidas se, a prazo e após a experiência do poder, a prática da FN será diferente da dos outros, mas este fenómeno do eleitorado recusar os partidos tradicionais e embarcar em experiências mais ou menos radicais, como a do palhaço italiano, é um caminho muito perigoso e com uma ressaca imprevisível.

07 junho 2013

Morto pelas ideias ...?

França está em estado de choque esta semana. Um estudante de esquerda, anti-fascista, morreu após uma agressão por um grupo de extrema-direita. A exploração política dispara e há quem diga que ele morreu pelas suas ideias, quase um Martin Luther King.

Ora bem, fui investigar e, ao que parece, foi assim: havia uma venda privada de roupa de marca bastante apreciada tanto pelos jovens da extrema-esquerda como da extrema-direita… Aí, dois grupos ter-se-ão cruzado e “naturalmente” provocado. A provocação teve como consequência uma pancadaria no exterior. Clement, que até era franzino, recebe um murro que o faz cair e bater com a cabeça num poste, o que provocou a sua morte.

Para lá de naturalmente ser a lamentar a morte e uma morte assim, passar este assunto para a esfera da “luta política” e das ideias é patético e pateta.


Foto estraída do "Le Monde"