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16 abril 2026

À antiga…


Numa fase em que é consensual que os partidos habituais do poder precisam de mudar de vida e de hábitos, para limitar o crescimento dos populismos e extremismos perigosos e prejudiciais, vimos duas notícias interessantes.

A indicação pelo PS de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Este senhor aparentemente terá tido um pseudónimo Miguel Abrantes, cuja missão no blogue Câmara Corporativa era defender com unhas e dentes um tal suposto engenheiro, efetivo primeiro-ministro, José Sócrates.

A outra é a indicação pelo PSD de António Preto para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. Este senhor recebeu a alcunha de “homem da mala”. Não foi efetivamente condenado, mas, entre outros episódios, receber 150 mil euros em líquido, seja em malas, seja noutro recipiente, não faz parte das práticas habituais dos cidadãos de boas práticas.

Continuem com nomeações limitadas a fiéis militantes, independentemente do seu currículo e cadastro, continuem a clamar pela defesa dos valores democráticos e depois verão o que a democracia vos irá trazer.

25 março 2026

Pactos entre partidos


Acho muito curioso que na polémica relativamente à nomeação dos juízes para o Tribunal Constitucional, o PS reivindique a existência de um pacto histórico entre eles o PSD, datado de 1982, que deve ser respeitado. Portanto, há 4 décadas os líderes dos dois maiores partidos combinaram umas coisas e isso deve permanecer com “força de lei” ad aeternum. Já agora, ninguém se lembrou de invocar a validade do pacto MFA-partidos de 1975, que até foi muito mais formal? Certamente que não porque, felizmente, o mundo em que vivemos é muito diferente do de 1975.

Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário, muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.

20 fevereiro 2026

Esquerda, direita e o resto

Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.

O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para valores sociais fundamentais e “consensuais”.

No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica demonstração de coerência.

Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande combustível do populismo de extrema-direita.

“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser argumento que o perturbe.

Hoje não podemos falar numa divisão simples direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade. Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do mesmo”.

 

20 janeiro 2026

Quo vadis PSD?


A evocação recorrente nesta campanha da inspiração do brilhante Sá Carneiro, evoca um ponto comum com a de 1981. A de um grosseiro erro de avaliação na escolha do candidato presidencial e de que os partidos não são donos absolutos do seu eleitorado nas Presidenciais. Acharam mesmo que Marques Mendes tinha postura para os portugueses o reconhecerem como Presidente e que nomeá-lo candidato bastava?

O PSD perdeu e não dar indicação de voto para a 2ª volta é curioso. Para Montenegro é indiferente ter Seguro ou Ventura em Belém? Olhe que não, olhe que não… Se podemos começar por falar apenas nas facilidades/dificuldades da governação, passando para o domínio dos princípios, ainda mais clara deveria ser a imagem. Ventura vai continuar a pedir e a defender os três Salazares?

Mais tarde ou mais cedo o PSD terá que decidir e assumir com quem quer preferencialmente estar. Se com o PS expurgado do Costismo (herdeiro e órfão do Pinto de Sousa) ou com o Chega. Decidam e assumam.

14 janeiro 2026

E Marques Mendes desistir?

Dizia Cotrim no início da pré-campanha que tinha sido “convidado” a desistir em favor de Marques Mendes. Não chegou a precisar quem o tinha feito, nem exatamente como e o assunto caiu no esquecimento.

A campanha real provou que Marques Mendes, saído da cadeira de comentador televisivo vale pouco e pouco convence. Nem é apenas a questão da altura e da voz nasalada. A sua linguagem corporal não demonstra de forma nenhuma “pose de estadista”.  Dada a forma arrastada e algo repetitiva (professoral ?!) como comunica, chega-se ao ponto de querer dizer-lhe: deixe de falar para os seus botões e seja conciso. A forma como comprou a polémica levantada por Gouveia e Melo, também foi infantil e pouco valorizadora.

Correu mal e, contra as expetativas oficiais iniciais, Marques Mendes parece estar fora da corrida, quando Cotrim ainda tem algumas hipóteses. Hoje, este fez um apelo ao voto do PSD na sua candidatura. Não sei se está deslumbrado com o sucesso, com vontade de humilhar adicionalmente Marques Mendes ou simplesmente criar um novo “facto” que permita enviar para segundo plano os anteriores, menos favoráveis.

Uma coisa é certa. Para a “direita democrática”, fazia sentido que MM efetivamente desistisse em favor de Cotrim. Não sei se depois alguém o “aturaria” nem como o PSD iria digerir a história do flop. De todas as formas, de um flop já não se safa… estava-se mesmo a ver que MM presidente não seria a primeira escolha de muita gente do próprio partido, não?

 

11 setembro 2025

Recentemente Chegado ?


O senhor acima representado chama-se Eduardo Teixeira e foi durante algumas décadas figura de proa do PSD em Viana do Castelo e no Alto Minho.

Chegou a deputado por esse partido em duas legislaturas (2011 e 2019). Apresentou-se à liderança da Câmara Municipal de Viana por duas vezes, sem conseguir entusiasmar nem convencer o povo.

Em 2024 passou para o Chega, entrando de novo para o Parlamento, para outra bancada, feito que repetiu nas últimas legislativas. Agora vai ser candidato de novo à Câmara de Viana, pelo seu novo partido.

Antes de mais, este e outros apresentarem-se ao eleitorado para 4 anos no Parlamento e escassos meses depois, já estarem de potencial saída para outro “combate” eleitoral, é defraudar os eleitores. Não é caso único, infelizmente…

Depois qual a “mudança” que este senhor se propõe realmente trazer, para lá da cor das bandeiras nas arruadas? Do pouco que o ouvi, não vi nada de novo nem entusiasmante…

20 agosto 2025

Os incêndios não chegaram ao Algarve


Está certo que políticos e governantes têm direito a férias. Está certo que provavelmente estarem num ministério em Lisboa ou nas areias do Algarve, poucos efeitos diretos teria no efetivo combate aos incêndios. Está certo que a Ministra da Administração Interna pode ser ou ter sido muito competente noutras funções, mas, atualmente, quando fala, parece-me mais ouvir um “Tirem-me daqui!”, em vez de um “Eu estou aqui!”.

Evidentemente que as oposições aproveitam para tirar dividendos e fazer comparações com a presença dos anteriores governantes no passado em teatros semelhantes (e que não foram em agosto).

Enfim, para lá das questões objetivas e responsabilidades a apurar, aquelas imagens de “beautiful people” a gozar a praia, intercaladas com o desespero e impotência face aos fogos devastadores vai ficar gravada. Podia o PSD ter feito um “encontro”, mas não uma festa. E, por muitos entusiastas que o desporto automóvel em geral e a F1 tenham no país, não era momento para promover entusiasmos, nem esses nem outros. Insensibilidade e assustador alheamento do resto do país, o “real”.

Atualizado em 21/8 com a publicação no "Público"


09 março 2025

Uma moção para ti, uma comissão para mim


Se a empresa de Montenegro vendia consultadoria e com sucesso, estaria suportada por um especialista que só podia ser ele. Quando ele assume responsabilidades políticas esse conhecimento não se passa, como num restaurante se pode passar a terceiros o avental de quem está a lavar pratos. Seria previsível que os serviços deixassem de ser prestados pela indisponibilidade do prestador. Se a empresa continua a faturar e fortemente, das duas uma: ou Montenegro continua a intervir direta ou indiretamente e está mal; ou não há propriamente prestação e a natureza da faturação é… nublosa.

Duma forma ou de outra, não estou a ver uma saída limpa para o caminho feito por estes euros e a questão está toda aqui.

Os nossos brilhantes líderes políticos? Empenham-se na gritaria e em maximizar o retorno do caso. A minha moção de censura é maior do que a tua; a minha comissão de inquérito durará mais tempo do que a tua moção; ameaças censura, mostra (des)confiança… Um espetáculo triste de tacticismo e palpita-me que não vai encerrar tão cedo. Depois, queixem-se … 

25 fevereiro 2025

O consultório Montenegro


Relativamente à polémica com a empresa familiar de Luis Montenegro, preocupa-me pouco o seu possível conflito de interesses com a famigerada “lei dos solos” ou o facto de ele eventualmente parquear a sua participação junto da sua mulher, um primo ou o motorista.

Tão pouco a primeira questão será conhecer as empresas que recorreram aos seus serviços de consultadoria, mas sim a natureza dos mesmos. Se, por exemplo, a atividade da empresa fosse vender sardinhas, os seus clientes trocavam uns tantos euros por umas tantas sardinhas e era claro o que estava a ser transacionado.

Da mesma forma que não há lojas a venderem simultaneamente sardinhas, raquetes de ténis e impressoras multifunções, um serviço de consultadoria é um trabalho especializado. Alguém tem um conhecimento profundo de um dado contexto e esse conhecimento é o valor que é vendido aos seus clientes. Pelo objeto social da empresa, “planeamento estratégico, organização, controlo, informação e gestão, reorganização de empresas, gestão financeira, gestão de recursos humanos, segurança e higiene no trabalho, objetivos e políticas de marketing, organização de eventos, proteção de dados pessoais”. não se descobre a especialidade que está em causa, nem o que poderão ser exatamente esses serviços que conseguem fazer entrar em casa do primeiro-ministro umas centenas de milhares de euros.

Qual foi a natureza da contrapartida dessas compras? Em função dessa resposta, poderá ser importante conhecer as empresas que a tal recorreram, mas a primeira questão é esclarecer o que se vende por ali…

12 outubro 2024

Oportunidade perdida


As crises, com todos os seus transtornos, privações e perdas, podem constituir oportunidades de aprendizagem, mesmo dramáticas e eventualmente tanto mais proveitosas quanto mais dramáticas.

Em 2011, a crise nacional, a intervenção da “troika” e todo o sofrimento que provocou poderia ter sido um desses momentos de aprendizagem dolorosa, mas não foi.

Poderia ter sido clarificado que a origem da crise fora uma governação corrupta e irresponsável e que a saída da mesma tinha sido o resultado do trabalho, empenho e sacrifício de todo o país, Podia, mas não foi… por causa das narrativas criadas.

Argumentar que o nosso colapso foi consequência da crise de 2008 é desde logo a primeira “narrativa” falsa. A crise foi mundial e não vimos todos os países de joelhos a mendigar junto do FMI. Entrar numa estrada de montanha a 140 km/h e despistar-se na primeira curva não é razão para culpar a curva…

A seguir, a perca final da oportunidade vem de outra narrativa. O sofrimento da crise foi devido à maldade da direita (e do Passos) e o alívio do aperto foi mérito da esquerda virtuosa que virou a página da austeridade. Se saímos do buraco em que o “Eng” Sócrates nos enterrou, não foi pelo esforço e sacrifício coletivo do país, mas pela generosidade e bondade do novo inclino de S. Bento.

Nos tempos que correm, parece que o PSD aprendeu a lição. Manter o poder depende de ter mãos largas e “quem mais chora, mais mama”… Trabalhar para criar riqueza que se possa distribuir não é o fundamental. Iremos pagá-lo de novo um dia, porque quem não aprende com os erros, acaba por os repetir.

05 outubro 2024

IRC e IRS jovem

Parece que finalmente, vamos ter um consenso e ver um ponto final na dramática novela da aprovação do orçamento de Estado. Parece…

Independentemente do desenlace final, que desconheço no momento em que escrevo, acho impressionante que as grandes clivagens, opções estratégicas fundamentais e convicções profundas quanto ao programa orçamental do país se resumam a ponto a mais ou a menos em IRC e idade a mais ou a menos no IRS.

Foi/é um triste espetáculo de quem resolveu fazer disto espetáculo, e ponto capital que poderia até levar o país a novas eleições. Obviamente que não está/estava em causa o conteúdo objetivo, mal estaríamos se as grandes opções programáticas fossem estas.

Foi birra de quem queria ter tema de discórdia e pegou nestes, mas, sinceramente, poderiam ter arranjado assunto mais substancial. No resto estão completamente de acordo em tudo? Quanto às grandes opções nos campos económico, social, educação, saúde, justiça não há divergências nem propostas alternativas? Sinceramente…!

 

08 abril 2024

Os extremos

Eu ainda sou do tempo em que havia dois partidos do chamado arco da governabilidade que, apesar de algumas diferenças nos seus programas, tinham uma visão consensual sobre o modelo de sociedade e do papel do Estado. As opções eram feitas, mais pela competência das equipas e respetivos líderes do que por opções ideológicas.

Os extremos e seus modelos não entravam nas equações de poder. Do lado esquerdo, haveria ainda no PS memória de 1975 e era patente o “não arrependimento” de quem tinha tentado boicotar a liberdade e a democracia; do lado direito a extrema-direita ideológica pura e dura, à la Mário Machado não tinha e continua a não ter expressão.

Isto mudou com uma nova geração no PS, que não viveu 1975, e que descobriu afinidades com quem é contra a Nato, contra o Euro e o projeto europeu e com simpatias por regimes brutais e iliberais. Esta familiaridade, aliada ao oportunismo de A. Costa, em 2015 fez nascer o conceito de uma tal esquerda em “bloco”, como se houvesse enormes afinidades entre um PS europeu social-democrata e apoiantes de Rússias, Venezuelas, Coreias do Norte, etc.

A incompetência em governar e incapacidade de entender como o eleitorado não aceitava alegremente a impunidade dos casos e casinhos, fez nascer e crescer outro “bloco” – o da contestação pura e dura. Se bem que ao catalogar o Chega, ele fica naturalmente do lado direito, o milhão de pessoas que por eles votou não são potenciais camisas negras, prestes a marchar atrás de uma suástica ou sair à rua para espancar estrangeiros em esquinas sombrias.

É claro que dá jeito associá-lo à extrema-direita tóxica, como forma de o desclassificar, mas a toxicidade do partido não é ideológica. É “pratica”, ou, mais concretamente, num populismo irresponsável e inconsequente, se bem que, infelizmente, não são os únicos irresponsáveis no campeonato. Insistir que a origem e o problema, e sucesso, do Chega está na ideologia da extrema-direita, na xenofobia, racismo e afins, é continuar a não entender nada!


04 abril 2024

E aqui CHEGAmos

Boa tarde a todos. Depois de alguma ausência, justifica-se um pouco de informalidade e, já agora, também, de desculpas pelo atraso.

Vivemos, entretanto, uma campanha eleitoral sob o signo do chega para aqui, não chegues para ali. Questiono-me o que ela teria sido, especialmente da parte do PS, caso não existisse essa coisa em forma de partido. Não prometia grande coisa e pequena coisa gerou.

Alguns disseram que a “culpa” do imbróglio resultante é do PR, por ter dissolvido o Parlamento. Se, efetivamente, a composição da nova assembleia fossa idêntica à anterior, poderíamos ter concluído que Marcelo nos tinha feito perder tempo e energias, mas tamanha mudança, significa que ele tinha razão em pedir aos eleitores para se (r)expressarem e a democracia tem destas coisas – não são as elites que as decidem.

Sobre a representatividade e coesão, podemos questionar se será justo Lisboa e Porto elegerem na ordem das 4 dezenas de deputados cada um e Beja e Bragança três. Já agora, os eleitores das grandes metrópoles conhecem mesmo os seus representantes, para lá dos cabeças de lista e um ou dois mais?

Sobre a (não)personificação e identificação dos eleitores com os candidatos, não deixa de ser curioso que, aqui mesmo ao lado, em Viana do Castelo, o partido anti-anti-sistema tenha elegido o seu cabeça de lista, Eduardo Teixeira, crónico candidato derrotado à Câmara Municipal de Viana do Castelo pelo PSD e muito, muitíssimo gente do sistema… encarta um espírito de rutura? É com ele que vamos “Limpar Portugal” ? Ainda sobre os eleitos pelo Chega é também curioso que o da emigração Europa, escreva e publique em idioma híbrido, 90% português, 10% francês. Sem menosprezo pelos méritos específicos que o senhor possa ter, um deputado devia, no mínimo, expressar-se corretamente na língua de Camões.

Enfim, aqui CHEGAmos e dizem alguns que faltou pedagogia democrática. Ah! Este povinho que se recusa a ouvir e a seguir os grandes educadores iluminados! Recordo-me de uma entrevista do PM cessante em que do alto da sua maioria absoluta ele dizia: . “Habituem-se!” e para quem o fedor que exalava da sua proximidade era coisa de casos e casinhos, que interessavam apenas a uma minoria de comentaristas mexeriqueiros e invejosos.

O crescimento do CHEGA não é salutar e nem é principalmente pela ideologia professada. Em primeiro lugar porque não a tem. Não há consistência ideológica: é contra e a favor do que lhe der jeito e votos ser. Depois, e em boa parte por isso, porque os seus 50 deputados estão longe de ser um grupo com um mínimo de coesão. Aquela coisa em forma de partido tem alguma virtude em dizer o que está mal, de uma forma que outros não o dizem, mas um partido é suposto ser mais do que isso. Coerência e realismo programático não existem, daí que, mesmo expurgando os seus tiques pouco civilizados – vade retro satanás –, não me parece viável nenhuma forma de cooperação institucional séria e consistente com o mesmo.

Quanto ao suposto caráter antidemocrático do mesmo, uma coisa é ser pouco civilizado, outra coisa é não respeitar a vontade popular e, se há algo de antidemocracia, ela estará mais do outro lado da barreira, para quem o voto expresso de um milhão de portugueses é coisa de ignorar – votos e votinhos?

Em resumo, e a coisa não acaba aqui, o curioso é que a estratégia do “cuidado, que vem lobo” tenha efetivamente aberto a porta ao mesmo. No Parlamento atual os partidos do 4º para baixo valem pouco ou nada e com o 3ª não se pode contar. Imbróglio é certo, mas a culpa (principal) vai para…

29 dezembro 2023

Vem lobo, vem lobo...


Eu não queria falar disto, mas há quem o esteja a tornar tema obrigatório diário. O Chega é um partido pouco recomendável num sistema politico saudável, pela natureza de algumas propostas, pela inconsistência e irrealismo das mesmas e pela fragilidade de uma estrutura “one man show”… Se uma solução governativa para o país vier a passar por eles não são boas notícias.

Agora, na outra ponta, se é que se pode assumir alguma linearidade neste universo, partidos que têm dúvidas quanto à possibilidade de a Coreia do Norte ser uma democracia, com simpatia para regimes incompetentes e brutais como a Venezuela, condescendentes com o camarada Putin, mesmo quando ele agride brutalmente um vizinho sem um mínimo de justificação ou de humanidade, também não são gente recomendável.

Todos estes podem não ser um problema para a democracia do país no sentido restrito do conceito, mas serão um problema para o modelo de país justo e livre onde queremos viver. Estes alertas constantes do “Vem lobo, vem lobo…” são apelos a que, de um lado ou de outro, ele venha mesmo (e vejam onde anda hoje o partido socialista francês depois de Miterrand ter jogado um xadrez idêntico umas décadas atrás).

06 dezembro 2023

Por outros dias

Por estes dias celebrou-se um aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro. Pondo de lado a vergonhosa incapacidade das instituições em investigarem e apurarem a causa direta e a fundamental do atentado (ver aqui), pode ser um momento de reflexão sobre o legado e personalidade de uma figura ímpar e determinante numa fase critica da história do país. O livro acima representado é uma interessante e instrutiva visita à sua vida e àqueles tempos.

Na altura era atacado como potencial fascista, quando o seu combate era o de retirar a tutela dos militares sobre os partidos, extinguir o Conselho da Revolução, rever a Constituição, e o aí decretado “caminho para o socialismo", e permitir a reversão das nacionalizações brutais de 1975. Visto a esta distância, estava errado? Certamente muito mais anti ditatorial do que aqueles que disso o acusavam.

No ponto de vista pessoal a integridade e frontalidade como assumiu a sua vida pessoal e amorosa são ainda hoje motivo de admiração. O grande progressista Mário Soares não hesitou em lhe dar uma canelada quanto à sua incapacidade de “governar a sua família”. Posteriormente, como primeiro-ministro, recusou-se a fazer passar uma alteração legislativa que lhe resolveria o problema do seu divórcio pendente, para não ser simultaneamente decisor e beneficiário.

Não convém olhar para Sá Carneiro como um imaculado herói cuja morte prematura santifica. No entanto há no seu desprendimento, sinceridade, irreverencia e clareza de princípios um exemplo que é importante realçar sempre e especialmente nos tempos que correm. Recomendo o livro.

 

26 janeiro 2021

Falta de comparência

É a expressão que me parece mais adequada para caraterizar as recentes eleições presidenciais. Falta de comparência dos dois principais partidos que não entraram a sério nas mesmas. O PS “principal” queria Marcelo reeleito, mas não o quis assumir, nem apresentar candidato próprio; Marcelo é PSD, mas não quis assumir essa colagem ao seu partido. Não me recordo de ver nenhum senador destes dois partidos a dar a cara ativamente na campanha. É assim tão irrelevante o PR em Portugal? O eleitorado com o qual o PC e o BE contavam para carimbar a presença ritual dos seus candidatos também não comparecerem conforme as previsões. No caso do CDS a falta de comparência é mais funda, é da própria liderança.

O Chega e a IL estão a capitalizar a sua recente visibilidade no Parlamento e a sua “diferença”, nem sempre pelas melhores razões. Aliás, a promoção feita de André Ventura, a partir de iniciativas com objetivo oposto, acabou por se tornar o tema principal da campanha. Evoca-me a imagem de, face a uma pústula, o doente a espreme, espalhando o pus e o mal, em vez de verdadeiramente tratar a causa. Sendo este crescimento o fato mais relevante em termos de evoluções futuras, algumas reflexões.

Os partidos unipessoais não têm muita perenidade e este hoje vive todo do protagonismo exclusivo do seu líder. Não sei como o “mister” se irá aguentar quando/se um dia precisar de mostrar uma equipa em torno dele, em vez de apenas mandar algumas bocas algo assertivas e outras bazófias de mau gosto/princípio. Candidatos excitados pelas cadeiras disponíveis que se pressentem não devem faltar, mas de que perfil e com que efeito na identidade do partido? Lembram-se do PRD?

O Chega não teve (terá?) sucesso pela tal ideologia de extrema-direita. Essa era a do PNR de Mário Machado que nunca entusiasmou gente que se visse. Se o Alentejo “Ainda há-de ser Chega!” é por outros motivos. Ignorá-lo é falta de comparência ao diagnóstico sério.


09 dezembro 2020

Desclassificar Camarate

 

Recordo-me daquele dia de dezembro em que o país atónito e apreensivo recebia a notícia do acidente de Camarate. Na jovem democracia, nunca algo de semelhante tinha ocorrido. O facto em si e as potenciais consequências assustavam. Recordo-me dos julgamentos sumários populares: - Foi um acidente! – Foi atentado! – Foram os comunistas! – Foi a CIA!

As conclusões oficiais e imediatas foram pelo acidente. Durante anos, associar a palavra atentado a Camarate foi tabu e motivo de indignação e insulto contra qualquer temerário que as evocasse. Dez (10!) comissões parlamentares de inquérito foram apontando para o atentado e evidenciando a falta de vontade e de eficácia da investigação criminal. Falou-se da questão de um eventual tráfico de armas que condenou o Ministro da Defesa e, por arrasto, o Primeiro-ministro.

Podemos imaginar que, na altura, assumir o atentado teria tido consequências devastadoras na ainda frágil democracia. Podíamos? O que não podemos, de todo, é passados 40 anos continuar sem saber o que realmente se passou antes, no dia e depois. Ainda falta vontade?  A revelação de toda a trama ainda fere alguém com poder para a travar? 40 anos depois, é obrigatório saber.


E ainda: 

Recordo-me da longa transmissão televisa das cerimónias fúnebres, em véspera de eleições. Arriscando fazer futurologia no passado: Tudo isto ajudou ou prejudicou o resultado de Soares Carneiro? Eu acho que prejudicou e acabou por confirmar uma derrota já previsível. Estas situações fortalecem os fortes e enfraquecem os fracos.

Soares Carneiro, sem chama nem carisma, “pau de cabeleira” da AD ficou adicionalmente exposto na sua fraca figura. Quem não queria votar nele, não mudou de ideias; quem estava na dúvida, em maior dúvida terá ficado ao vê-lo desamparado, sem tutela.


13 outubro 2020

O dia em que o PS morreu


 

Após o 25 de Abril, o PS tornou-se rápida e claramente o maior partido português. Para lá da empatia e bonomia de Soares, havia um grande desejo de mudança, de progresso e de justiça social, mas em contexto ocidental. Sábia a escolha do povo. Era a vontade de uma coisa assim tipo Suécia, quando o outro partido, que na altura ainda não se chamava social-democrata, para muitos cheirava um pouco à antiga senhora.

Hoje, esse PS está morto e não é questão de lamentar a ausência dos fundadores, não foram santos e limpos como muitos imaginam. E ao executor darei um nome: Sócrates. Se não há virgindade antes do mesmo, a escala deste é outra e a sua herança assusta. Independentemente do resultado do processo que corre na justiça, ele está politicamente acabado, mas tanta trafulhice não é nem pode ter sido obra de um homem só, por mais poderoso que fosse. Houve Sócrates e houve companhia.

E à morte darei um momento. Quando António José Seguro foi saneado pela companhia.

E hoje podemos passar a certidão. As mudanças na Procuradoria Geral da República e no Tribunal de Contas, para lá de coisas de importância formal menor, como Vitor Escaria no gabinete do PM, atestam que a companhia está pujante e bem instalada. Atestam que o se o cancro até pode ter nascido com Sócrates, não morreu com o seu afastamento.

O PS, tal como muitos o viam em 1974, está definitivamente morto e ai, ai os populismos! São uma séria ameaça.

Imagem: versão impressa no Público de hoje.


25 janeiro 2019

Não, não pode

Ainda a CGD…

Sabendo que todos sabemos que o que hoje se sabe não era do interesse dos interesses instalados que se soubesse. Sabendo que todos sabemos que os principais responsáveis pela desgraça são os senhores políticos e respetivos compinchas que por cá andaram e que ainda cá estão.

Vem o nosso querido PM afirmar que o governo quer que a CGD seja ressarcida dos danos que tenha sofrido por má gestão.

Muito concreta e objetivamente: Sr PM, o senhor e os seus companheiros de estrada têm por aí uns 4 mil milhões de euros para ressarcir o contribuinte português? É que se tiverem, é justo que indemnizem. Como obviamente não têm nem sequer querem reconhecer a vossa responsabilidade: porque não se calam?

24 janeiro 2019

Banca do Povo?


Sim, todo o negócio tem risco e registarem-se perdas numa atividade é normal. Convém não ser sempre, nem em escala que ponha em causa a sobrevivência. Sim, quando se fala em salvar os bancos e no tratamento especial de que eles beneficiam quando estão em apuros, a razão principal para essa diferenciação não é proteger os donos dos bancos, mas os bens de quem lá confiou os seus ativos.

No entanto, há bancos e bancos, perdas e perdas. O que se tem sabido recentemente sobre as perdas registadas na CGD vai para lá do normal em negócios e em bancos. A razão principal para o descalabro é a interferência e irresponsabilidade política. Desde a nomeação de personalidades como Armando Vara para a administração até ao financiamento descuidado de projetos “parapúblicos” voluntariosos, como o da Artlant/La Seda, tudo isto é política no seu pior. O envolvimento direto e indireto da CGD na luta pelo controlo do BCP é… nem sei que lhe diga.

Há quem afirme ser importante haver um banco público, “nosso”. Atendendo a que já não existem praticamente bancos portugueses em Portugal, inclino-me a dar-lhes alguma razão. No entanto, se é para ficar às ordens de comissários políticos e a criar buracos de milhares de milhões, mais vale não haver. Convém não esquecer que essa fortuna queimada vem de todos nós e tudo o que ardeu nesses devaneios, poderia ter servido para outras aplicações criadoras de riqueza e bem-estar.