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16 abril 2026

À antiga…


Numa fase em que é consensual que os partidos habituais do poder precisam de mudar de vida e de hábitos, para limitar o crescimento dos populismos e extremismos perigosos e prejudiciais, vimos duas notícias interessantes.

A indicação pelo PS de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Este senhor aparentemente terá tido um pseudónimo Miguel Abrantes, cuja missão no blogue Câmara Corporativa era defender com unhas e dentes um tal suposto engenheiro, efetivo primeiro-ministro, José Sócrates.

A outra é a indicação pelo PSD de António Preto para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. Este senhor recebeu a alcunha de “homem da mala”. Não foi efetivamente condenado, mas, entre outros episódios, receber 150 mil euros em líquido, seja em malas, seja noutro recipiente, não faz parte das práticas habituais dos cidadãos de boas práticas.

Continuem com nomeações limitadas a fiéis militantes, independentemente do seu currículo e cadastro, continuem a clamar pela defesa dos valores democráticos e depois verão o que a democracia vos irá trazer.

25 março 2026

Pactos entre partidos


Acho muito curioso que na polémica relativamente à nomeação dos juízes para o Tribunal Constitucional, o PS reivindique a existência de um pacto histórico entre eles o PSD, datado de 1982, que deve ser respeitado. Portanto, há 4 décadas os líderes dos dois maiores partidos combinaram umas coisas e isso deve permanecer com “força de lei” ad aeternum. Já agora, ninguém se lembrou de invocar a validade do pacto MFA-partidos de 1975, que até foi muito mais formal? Certamente que não porque, felizmente, o mundo em que vivemos é muito diferente do de 1975.

Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário, muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.

01 março 2026

Sócrates não tem culpa…

Na medida em que o seu julgamento não chegou ao fim, o Sr. Pinto de Sousa não pode ser considerado formalmente culpado, mas está a fazer tudo para que o processo não se conclua a tempo e, disso, tem certamente culpa.

É impressionante como há gente, com tempo de antena, com coragem e descaramento para afirmar que este rodízio de advogados não é da responsabilidade do réu. A culpa é de o processo ser desproporcionalmente grande e o senhor não tem culpa dos seus advogados entrarem em desacordo com a juíza (!?) ou ficarem doentes.

Como é evidente, com tantos meios e custos envolvidos na sua defesa, com tanta litigância em tantos foros, o senhor não depende certamente de um único causídico, à mercê de uma qualquer corrente de ar. Sócrates só não apresenta oficialmente em tribunal um advogado conhecedor do processo porque não quer. Porque não quer que o processo se conclua a tempo de evitar as prescrições e quem nos tenta convencer do contrário não é honesto…

 

20 fevereiro 2026

Esquerda, direita e o resto

Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.

O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para valores sociais fundamentais e “consensuais”.

No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica demonstração de coerência.

Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande combustível do populismo de extrema-direita.

“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser argumento que o perturbe.

Hoje não podemos falar numa divisão simples direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade. Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do mesmo”.

 

10 fevereiro 2026

Contados os votos


Contados os votos, indiscutivelmente Seguro ganhou, Ventura perdeu e comparar números de uma eleição binária com os de outras onde existe uma dúzia de alternativas disponíveis é um exercício com muito pouco sentido.

Será desta vez que o PS volta ao seu registo histórico, se deixa de devaneios neomarxistas e faz as exéquias, assumidas, de um tempo sombrio e indigno?

Face à primeira-volta Ventura subiu. Estranhíssimo seria se descesse. Faço parte dos portugueses que consideram que, apesar dos erros e abusos dos habituais inquilinos do poder, com ele teríamos uma emenda pior do que o soneto. É importante mostrar o que está em causa e em perigo, sem rasgar vestes, nem cair na gritaria. Ventura nunca será nenhum Salazar nem por inteiro, nem por um terço, pela simples razão de nunca saberá governar. A sua equipa é genericamente fraca, o seu programa económico absurdo e a sua relação com a verdade algo de muito débil. A tentativa de colagem à herança de Sá Carneiro foi de uma indecência escandalosa.

O triunfo muito claro de Seguro é a vitória de uma abordagem à prática política mais séria e decente, mas nada garante para o futuro. A satisfação deve ser comedida, especialmente se não for seguida por práticas sérias e decentes.


Acrescentada publicação no "Público" em 11/02/2026


09 janeiro 2026

Segurando o PS


A degradação do nosso regime (não só do nosso, mas por hoje focamo-nos aqui) e a erosão dos partidos tradicionais são, a prazo, um retrocesso e um risco para o sistema democrático em que nos habituamos a viver, em liberdade.

Por muito eco que as propostas extremistas possam ter em gente séria, bem-intencionada e com motivos concretos e válidos para estar desiludida com o “sistema”, é evidente que a sua eventual colocação em prática não irá nada resolver, muito pelo contrário.

Os radicais de esquerda podem invocar bons-sentimentos e projetos de uma humanidade mais justa e generosa, mas a sua implementação sempre falhou, tanto na vertente económica, sem geração de riqueza não há milagres, como no próprio campo que lhes é teoricamente caro, o da liberdade. Os de direita, podem apelar à salvaguarda de valores tradicionais e uma certa ordem e segurança, mas também trazem o risco de uma discriminação injusta e até violenta.  Em ambos os casos, a prazo, não haverá tolerância, segurança e sucesso.

Parece-me claro que o modelo que funciona melhor é o atual e o problema não está nos seus princípios, mas sim nos seus intérpretes. Dentro dos protagonistas recentes que se distinguiram pelas piores razões, está obviamente o PS. Falamos de Sócrates e dos seus órfãos e afilhados, assim como dos coitados por ele “enganados”, que nada viram. Também não há anjos, longe disso, mas o PS leva a medalha de ouro (?!) de longe no campeonato da degradação e descredibilização do nosso sistema.

A candidatura de AJ Seguro às Presidenciais não é certamente um toque mágico que tudo pode resolver, mas o seu sucesso, que sinceramente gostaria de ver acontecer, seria um grande passo na regeneração de um dos partidos fundamentais do nosso regime. Sou eu a ser otimista, mas às vezes é preciso.

05 dezembro 2025

O candidato do partido invisível


Em 2014, quando A.J. Seguro estava prestes a ser corrido da liderança do partido por investida de A. Costa e companhia, alertou para a existência de um partido invisível na sociedade portuguesa e de haver uma parte do PS associada aos negócios e interesses. Isto da parte do ainda líder de um partido com a dimensão e importância do PS é mais do que preocupante, é potencialmente muito grave.

A ser mentira seria expetável uma reação do tipo “quem não se sente, não é filho de boa gente”, eventualmente até uma queixa por difamação, mas o assunto foi ignorado e arquivado, como se fosse apenas um episódio de uma disputa acalorada. No entanto, o fundo da questão não se deveria esgotar com o fecho daquelas primárias pela liderança do partido.

É óbvio que o partido invisível não o esqueceu, nem perdoou e agora votarem Seguro não é como os comunistas a porem a cruzinha em Soares na segunda volta das presidenciais de 1986… mas pior!

Vemos assim esgares de muita gente a repudiarem AJ Seguro porque sim ou por argumentos estapafúrdios e assumida ou sub-repticiamente a migrarem para candidaturas menos alérgicas.

O eventual cenário de termos uma segunda volta entre um candidato do partido invisível e A. Ventura é dos piores pesadelos que posso imaginar.

 

25 novembro 2025

Polémica com o 25 de novembro

Confesso que não estava a planear abordar este tema hoje, até tinha outro texto preparado, mas umas declarações que ontem ouvi a João Ferreira fizeram-me sair do sério. Segundo ele, no 25 de novembro saiam vitoriosas forças não democráticas… e que a data foi um revés para o processo “democrático”. A sério?

Portanto, Conselho da Revolução, pactos MFA-partidos que condicionavam os partidos democraticamente sufragados, cercos à Assembleia Constituinte, mandatos de captura em branco e outros tropelias lideradas por quem nas eleições tinha tido (PCP+MDP+ resto) menos de 20%, isso sim era respeitar a democracia! Ou, para os comunistas, democratas com direitos plenos são apenas aqueles que votam em nós? Os restantes são reacionários. fascistas, lacaios de imperialistas, neoliberais e extrema-direita, todos gente a desqualificar e obstáculos no caminho para a “verdadeira democracia, a nossa”?

Se dúvidas houvesse, nas eleições presidenciais seguintes de 1976 os vencedores (não democratas?) do 25 de novembro (Ramalho Eanes + Pinheiro de Azevedo) tiveram 75% dos votos.

Que os comunistas e a esquerda radical não tenham digerido, nem nunca conseguirão digerir o fim do PREC, entende-se. Que uma parte significativa do PS alinhe nestas histórias deve fazer Mário Soares, e outros socialistas da época, dar umas voltas no túmulo. A origem desta revisão está naturalmente na geringonça Costista, que para alcançar o poder, inventou uma frente de esquerda que de coesão, pelo menos em 1976, tinha muito pouca. Se hoje tem, duvido, pelo menos a nível do eleitorado de base do PS. Que se faça polémica e que tente reescrever a história quem nisso está interessado é um pouco natural. Que não haja uma larga reação a dizer “deixem-se de tretas” e de estórias pseudo-democráticas, isso é que me surpreende.

01 novembro 2025

PS inseguro, positivo para Seguro


Assim como as criancinhas que são obrigadas a comer a sopa toda antes de poderem sair da mesa, a cúpula do PS também se viu obrigada a engolir a candidatura de AJ Seguro antes de poder avançar com a sua vida. Há algumas caretas e JL Carneiro até decretou tolerância de voto para quem se sentir especialmente agoniado com a ementa.

Não penso, no entanto, que tais hesitações no palácio do Rato sejam uma desvantagem para o candidato presidencial. No histórico PS haverá muita gente disponível para votar Seguro e que teria alguma rejeição se o visse apoiado entusiasta e convictamente por Augusto Santos Silva e outros mais dessa cepa. Ver essa fação a fazer caretas é fator positivo e credibilizador.

As autárquicas de Lisboa em que 2 + 2 deram 3 em vez de 5 ou sequer 4, provaram que a “Frente de esquerda” juntando PS e extrema-esquerda pré-eleitoralmente não tem coerência nem recolhe entusiasmos numa grande franja do eleitorado. Não é aí que o PS pode ir buscar "a força". Frentismo é uma especialidade dos comunistas, mas mais na base de domesticar e anular “aliados” do que alargar a base popular de apoio.

Em resumo, a candidatura de Seguro e o resultado que daí virá poderá provocar uma redefinição de forças e proporcionar uma regeneração do partido, já que internamente a partir da cúpula não parece viável. A democracia e o regime democrático agradeceriam. A ver vamos…

Atualizado a 5/11 com inclusão de recorte da publicação no Público.


20 outubro 2025

O PS desgeringonçou… ?


Dois fatos recentes poderão eventualmente prenunciar que o PS poderá estar em fase de desgeringonçar…

O primeiro é o resultado das autárquicas em Lisboa. A frente da chamada esquerda somou menos do que a soma das partes. De facto, para as eleições autárquicas não há geringonças pós-eleitorais. Têm que ser assumido antes e a ficção de um alinhamento largo de “esquerda” entre o PS e os radicais à sua esquerda provou, para muitos eleitores, ser isso mesmo, uma ficção. Resta uma curiosidade: se em 2015 a geringonça fosse anunciada antes das eleições, os resultados seriam idênticos?

O segundo facto é o apoio manifestado à candidatura presidencial de António José Seguro. Uma decisão naturalmente lógica, mas o tempo que demorou, as posições de certos cortesões do Rato e a ambiguidade da “flexibilidade” no apoio tolerado deixam muita expetativa. Foi um apoio decidido assim como quem arranca um dente e a ver vamos como o PS no seu fundo vai digerir este dilema. Quem se vai impor? O “partido invisível” dentro do PS que abomina Seguro ou um outro PS mais popular (perto do povo) e genuíno?

A bem do nosso regime democrático e do papel que o PS aí pode e deve desempenar é relevante o resultado. Eu cá tenho a minha preferência…

12 setembro 2025

Um Escárrio


A nomeação de Vítor Escária para diretor do ISG parece noticia de 1 de abril, dia dos enganos. Certo que ele ainda não foi condenado a nada, mas que cidadão integro e transparente esconde milhares de euros no seu local de trabalho, já não referindo a falta de respeito pelo local específico onde isso ocorreu.

Uma instituição de ensino superior deverá ter superiores exigências quanto à sua reputação e credibilidade, coisa que não está aqui evidente, a menos que o objetivo seja transformar a mesma em Instituto Superior de Gestão do Lóbi, com especialidade em gestão de dinheiro vivo. Será que o Pagamento ao novo diretor também circulará transportado em caixas de vinho. Qual o valor de Vítor Escária? O seu silêncio?

Estou a imaginar uma pergunta de um teste elaborado pelo Doutor Escária no seu domínio de especialidade: “Indique e justifique as situações em que é vantajoso manter dinheiro vivo escondido”. Fico muito curioso em conhecer as eventuais respostas.

Tudo isto cheira tão mal, que até dá vómitos.



Atualizado em 14/9 com o recorte da publicação no "Público". Sendo curiosamente retirada a interrogação quanto ao valor de Vitor Escária estar eventualmente no seu silêncio...!

15 julho 2025

O processo que falta


Dentro deste vergonhoso folhetim da operação Marquês, parece-me faltar um processo, que seria o da família de Carlos Santos Silva contra o próprio.

Alguém “emprestar” centenas de milhares de euros e realizar outras “liberalidades”, com tanta informalidade e ausência de seguranças, a um individuo desempregado, sem ativos relevantes, só pode significar que por demência ou outra incapacidade qualquer ele está irresponsavelmente a desbaratar o seu património.

Para isso existe uma figura legal que se chama, salvo erro, inabilitação e que visa proteger os bens de alguém que declaradamente se mostra incapaz de o fazer. Na minha opinião, e de acordo com a “narrativa” apresentada, estariam reunidas todas as condições para Santos Silva ser inabilitado pela sua própria família.

11 julho 2025

Saber ou não saber


Quando em 2017 Pedro Sanchez se lançou á reconquista do PSOE, efetuou um longo périplo pelo país, no seu automóvel, acompanhado por três figuras próximas: José Luis Ábalos, futuro todo-poderoso ministro do “Fomento”, Santos Cédran homem forte da organização do PSOE e Koldo Garcia, o motorista, e posteriormente assessor de Ábalos.

Para lá de partilharem essa volta à Espanha a promover Sanchez, essas três figuras estão a braços com a justiça, gravemente implicadas num enorme escândalo de corrupção e de outras más práticas, relacionadas com o partido e o governo. Pedro Sanchez diz angelicamente que nada sabia e que para o futuro será mais prudente na escolha dos seus colaboradores próximos.

Por cá temos um ex-primeiro ministro em tribunal e esperemos que o processo seja rápido porque de espetáculos asquerosos já estamos cheios. Está bem que ainda não foi jugado, porque o tem tentado impedir de todas as formas, mas quem cabritos vende e cabras não tem… Além de outras práticas pouco habituais a quem gasta transparentemente o que ganhou decentemente.

No caso português, o problema parece ser apenas com o líder, e todos os seus colaboradores próximos nada viram, nada sabiam. Um mundo de diferença, ou talvez não…

28 maio 2025

Mais um engodo




Quando em 2022 foi necessário substituir Marta Temido, muita gente do sector achava que Fernando Araújo daria um excelente ministro da saúde. Tranquilo na sua maioria absoluta, o PS preferiu um apparatchik, na figura de Manuel Piçarro.

Para as últimas legislativas, na necessidade de captar votos e mostrar “capacidade” de fazer algo diferente, Fernando Araújo foi nada menos do que o cabeça de lista pelo Porto, apresentado pelo PS como se tivesse recrutado o Max Verstappen do SNS…

Escassas semanas depois, o ás de trunfo da saúde decide surpreendentemente que será mais útil no S. João, hospital, do que em S. Bento, Parlamento, aparentemente na sequência de uma “reflexão”… Não podia ter refletido antes de se ter entusiasticamente envolvido na campanha eleitoral? Será que ao PS, com a redução do grupo parlamentar, lhe faltam lugares para apparatchicks?

Um deputado poderia e deveria ser mais do que figura de corpo presente e o Parlamento seria valorizado se por lá houvesse gente que sabe mesmo de alguma coisa e fez algo na vida, para lá de lutas e tricas partidárias.

Uma coisa é certa, estas deserções precoces de cabeças de lista prestigiantes, cheiram a básico engodo para pescar eleitorado e não ajudam nada a credibilizar quem as organiza e quem nelas participa.

Atualizado em 30/5 com a publicação entretanto saída no Público

20 maio 2025

Habituem-se…?

 

Nestas eleições vimos uma preocupante subida de um populismo irresponsável, cuja força, no entanto, não é a ideologia. Esta pouco é escrutinada e muitos preferem colocar simplesmente a etiqueta de “extrema-direita” (como antes se “lutava” colando etiquetas de “fascista” ou “neoliberal”…). Seria mais eficaz pôr a nu a sua inconsequência e falta de qualidade dos seus quadros do que infantilizar o eleitorado,

Quanto à queda do PS, não resisti em revisitar uma famosa entrevista de António Costa à revista Visão, regiamente instalado em cima da sua maioria absoluta em dezembro de 2022. Para lá de várias mensagens sobranceiras e arrogantes, Costa proclamava: Habituem-se vamos cá estar assim por quatro anos, independentemente de casos e casinhos que não interessam verdadeiramente ao “país real”. Ainda não passaram 3 anos sobre essa data e o país real mostrou não se habituar.

É evidente que o perfil do Pedro Nuno Santos não ajudou. Se o PS foi importante na fundação da nossa democracia, não o foi com lideranças deste perfil e nunca em irmandade com partidos de vocação totalitária.

O Chega tem/teve um eficiente papel destrutivo, mais por demérito dos outros, que se puseram a jeito, do que por mérito próprio. Papel eventualmente positivo, correspondente à responsabilidade que a sua nova dimensão exigiria, é difícil de o imaginar neste momento.

Estas eleições mostraram que o eleitorado não se habitua a tudo, em parte felizmente. Será o momento de os intervenientes responsáveis refletirem que é preciso mudar algo seriamente, senão serão mudados eles e o resultado, para o país real, pode não ser positivo.


09 março 2025

Uma moção para ti, uma comissão para mim


Se a empresa de Montenegro vendia consultadoria e com sucesso, estaria suportada por um especialista que só podia ser ele. Quando ele assume responsabilidades políticas esse conhecimento não se passa, como num restaurante se pode passar a terceiros o avental de quem está a lavar pratos. Seria previsível que os serviços deixassem de ser prestados pela indisponibilidade do prestador. Se a empresa continua a faturar e fortemente, das duas uma: ou Montenegro continua a intervir direta ou indiretamente e está mal; ou não há propriamente prestação e a natureza da faturação é… nublosa.

Duma forma ou de outra, não estou a ver uma saída limpa para o caminho feito por estes euros e a questão está toda aqui.

Os nossos brilhantes líderes políticos? Empenham-se na gritaria e em maximizar o retorno do caso. A minha moção de censura é maior do que a tua; a minha comissão de inquérito durará mais tempo do que a tua moção; ameaças censura, mostra (des)confiança… Um espetáculo triste de tacticismo e palpita-me que não vai encerrar tão cedo. Depois, queixem-se … 

13 fevereiro 2025

Seguro e o partido invisível


O PS é um partido histórico da nossa democracia, por onde muita gente passou ao longo de todo este tempo, uns mais recomendáveis de que outros. Apesar de alguns posicionamentos recentes a alinhar com a esquerda “dura”, é um partido com largo espetro eleitoral. É de estranhar que nas últimas duas décadas nunca tenha conseguido apresentar um candidato presidencial forte e respeitável, que conseguisse agregar uma parte significativa do seu eleitorado.

Para as próximas, António José Seguro reúne todas as condições e não é Augusto Santos Silva que nos irá convencer do contrário. Dificilmente se encontrará no seu percurso político algo que possa ser objeto de rejeição, pelo contrário. Apontem-lhe um defeito de caráter? Poderia ser o tal grande candidato que tem faltado ao PS.

O problema e o pecado de Seguro foi ter associado o PS a certos interesses e a um partido invisível existente na sociedade portuguesa. A ser falso, hoje ninguém daria importância ao que um derrotado tinha estranhamente argumentado uma vez. A ter um fundo de verdade é incómodo para os eleitores de base, que certamente não apreciarão agendas escondidas. Será também desconfortável para as elites relacionadas, que preferirão perfis mais amenos.

Por isso, para alguns, Seguro não “tem perfil”… eu acho que tem

12 outubro 2024

Oportunidade perdida


As crises, com todos os seus transtornos, privações e perdas, podem constituir oportunidades de aprendizagem, mesmo dramáticas e eventualmente tanto mais proveitosas quanto mais dramáticas.

Em 2011, a crise nacional, a intervenção da “troika” e todo o sofrimento que provocou poderia ter sido um desses momentos de aprendizagem dolorosa, mas não foi.

Poderia ter sido clarificado que a origem da crise fora uma governação corrupta e irresponsável e que a saída da mesma tinha sido o resultado do trabalho, empenho e sacrifício de todo o país, Podia, mas não foi… por causa das narrativas criadas.

Argumentar que o nosso colapso foi consequência da crise de 2008 é desde logo a primeira “narrativa” falsa. A crise foi mundial e não vimos todos os países de joelhos a mendigar junto do FMI. Entrar numa estrada de montanha a 140 km/h e despistar-se na primeira curva não é razão para culpar a curva…

A seguir, a perca final da oportunidade vem de outra narrativa. O sofrimento da crise foi devido à maldade da direita (e do Passos) e o alívio do aperto foi mérito da esquerda virtuosa que virou a página da austeridade. Se saímos do buraco em que o “Eng” Sócrates nos enterrou, não foi pelo esforço e sacrifício coletivo do país, mas pela generosidade e bondade do novo inclino de S. Bento.

Nos tempos que correm, parece que o PSD aprendeu a lição. Manter o poder depende de ter mãos largas e “quem mais chora, mais mama”… Trabalhar para criar riqueza que se possa distribuir não é o fundamental. Iremos pagá-lo de novo um dia, porque quem não aprende com os erros, acaba por os repetir.

05 outubro 2024

IRC e IRS jovem

Parece que finalmente, vamos ter um consenso e ver um ponto final na dramática novela da aprovação do orçamento de Estado. Parece…

Independentemente do desenlace final, que desconheço no momento em que escrevo, acho impressionante que as grandes clivagens, opções estratégicas fundamentais e convicções profundas quanto ao programa orçamental do país se resumam a ponto a mais ou a menos em IRC e idade a mais ou a menos no IRS.

Foi/é um triste espetáculo de quem resolveu fazer disto espetáculo, e ponto capital que poderia até levar o país a novas eleições. Obviamente que não está/estava em causa o conteúdo objetivo, mal estaríamos se as grandes opções programáticas fossem estas.

Foi birra de quem queria ter tema de discórdia e pegou nestes, mas, sinceramente, poderiam ter arranjado assunto mais substancial. No resto estão completamente de acordo em tudo? Quanto às grandes opções nos campos económico, social, educação, saúde, justiça não há divergências nem propostas alternativas? Sinceramente…!

 

08 abril 2024

Os extremos

Eu ainda sou do tempo em que havia dois partidos do chamado arco da governabilidade que, apesar de algumas diferenças nos seus programas, tinham uma visão consensual sobre o modelo de sociedade e do papel do Estado. As opções eram feitas, mais pela competência das equipas e respetivos líderes do que por opções ideológicas.

Os extremos e seus modelos não entravam nas equações de poder. Do lado esquerdo, haveria ainda no PS memória de 1975 e era patente o “não arrependimento” de quem tinha tentado boicotar a liberdade e a democracia; do lado direito a extrema-direita ideológica pura e dura, à la Mário Machado não tinha e continua a não ter expressão.

Isto mudou com uma nova geração no PS, que não viveu 1975, e que descobriu afinidades com quem é contra a Nato, contra o Euro e o projeto europeu e com simpatias por regimes brutais e iliberais. Esta familiaridade, aliada ao oportunismo de A. Costa, em 2015 fez nascer o conceito de uma tal esquerda em “bloco”, como se houvesse enormes afinidades entre um PS europeu social-democrata e apoiantes de Rússias, Venezuelas, Coreias do Norte, etc.

A incompetência em governar e incapacidade de entender como o eleitorado não aceitava alegremente a impunidade dos casos e casinhos, fez nascer e crescer outro “bloco” – o da contestação pura e dura. Se bem que ao catalogar o Chega, ele fica naturalmente do lado direito, o milhão de pessoas que por eles votou não são potenciais camisas negras, prestes a marchar atrás de uma suástica ou sair à rua para espancar estrangeiros em esquinas sombrias.

É claro que dá jeito associá-lo à extrema-direita tóxica, como forma de o desclassificar, mas a toxicidade do partido não é ideológica. É “pratica”, ou, mais concretamente, num populismo irresponsável e inconsequente, se bem que, infelizmente, não são os únicos irresponsáveis no campeonato. Insistir que a origem e o problema, e sucesso, do Chega está na ideologia da extrema-direita, na xenofobia, racismo e afins, é continuar a não entender nada!