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03 novembro 2017

Coitadinho do gato


A sociologia é uma área de conhecimento intrincada e complexa, não conseguindo ter um binómio de Newton (nem uma lei de Ohm). Talvez por isso as suas interpretações e teorias tenham tanto de díspar no conteúdo como de ferocidade na sua defesa. Desculpem lá, mas falar demasiado alto está muitas vezes associado a fragilidade na argumentação.

Nesta vaga de denúncias de situações de assédio sexual, que já saudei aqui, veem-se teorias para tudo e para o contrário. Uma, que achei muito curiosa, argumentava estarmos a assistir a uma consequência da exposição excessiva do corpo (objeto) da mulher e do desaparecimento do travão religioso. Lembrei-me de uma sociedade em que não há de todo exposição pública do corpo feminino e onde existe uma presença quase asfixiante de normas religiosas restritivas na sociedade … e que não é claramente um bom exemplo. Dispensa-se o desenho, certo? Como dizia um sábio dessas paragens, estranhamente até um pouco alinhado com a teoria acima: se o gato come um pedaço de carne deixado em cima da mesa, a culpa é mais de quem deixou a carne à vista do que do bicho. Ou seja, a mulher que deixe de mostrar as pernas, se não quer ser importunada por um pobre animal, que, recorde-se, não é de pau.

Sobre essa coisa da exploração do corpo da mulher (ou do homem, conforme preferências), sinceramente não vejo porque não se pode expor e evidenciar algo belo, excluindo, claro está, o obsceno e o grosseiro. Uma voz bonita, não é também um “atributo físico”? Mostrar um olhar bonito, é exploração? Pobre e triste seria um mundo onde se só vissem imagens de corpos enfiados em sacos de sarapilheira (e nem sequer vou de novo ao paralelismo com os locais onde isso acontece).

Em resumo, eduquem, responsabilizem o gato abusador; se não for a bem, que seja a mal. O caminho é por aí. Esconder não é de forma nenhuma uma solução, e, a propósito, a origem do problema é tudo menos moderna.

Na foto uma escultura de José Rodrigues nos jardins do convento de São Paio, Cerveira.
Propositadamente…

25 outubro 2017

Respeito



Não é meu hábito fazer simples eco do que vai pelas ruas mediáticas, quando não tenho muito a complementar ou a contrapor, face ao coro geral. Abro aqui uma exceção para o tema Harvey Weinstein e outros, relativos às denúncias de assédio e de abuso sexual.


Tenho uma frase registada, da qual já perdi a origem, que diz que pecado só há um, é o de roubar, apropriar-nos de algo que não é nosso. Depois, muda aquilo que é roubado. Dentro do objeto do roubo, uma das coisas mais terríveis que se pode roubar a alguém é a dignidade.

Um pequeno parêntesis para nesta indignação generalizada não misturar os casos provocados e procurados de “promoção horizontal”, nem excluir as situações de género abusador diferente, certamente menos frequentes, mas não menos condenáveis.

Há uma coisa chamada a “lei do mais forte”, alguém poderá especular se tem raízes no processo de seleção natural, mas cuja aplicação em diversos domínios e escalas é a fonte da larga maioria dos males de que sofre o mundo. Para lá das evoluções científicas, tecnológicas e mesmo de hábitos sociais e culturais, estaremos sempre a cair para a bestialidade enquanto não resistirmos a usar a força.

Nos casos concretos em contexto profissional, em que está em causa uma carreira, uma realização pessoal, ou simplesmente a subsistência, acho-os profundamente revoltantes, pela “facilidade”, pela continuidade e pela proximidade penosamente vivida. Tudo o que possa configurar algo próximo sequer, é-me profundamente repugnante, levando mesmo a questões extremas. Considerando que as relações afetivas têm naturalmente altos e baixos e ciclos, começam e acabam, será que o risco de essa instabilidade contaminar a relação profissional é suficiente para regulamentar a ponto de banir completamente relacionamentos dentro das organizações? Não sei, podemos dizer que será questão de bom-senso, sendo que felizmente, ou infelizmente, toda a gente considera tê-lo!

29 junho 2016

Desafio superado

Se esta não é a minha primeira e única selfie, pouco menos. Uma vez sugeri que junto a cada um destes registos se tentasse acrescentar uma reflexão: “Quem sou eu aqui, o que aprendi e o que ficou deste momento?”.

Assim sendo, refletindo e justificando... O alto da Serra de Arga é desafiante. Há cerca de 3 anos, quando comecei a pedalar com mais regularidade, olhei para o alto daquela muralha e pensei: será um bom desafio, questão de preparação. E lá fui pedalando, melhorando a forma e subindo, mas sem passar duma escala 4 vezes inferior à do desafio.

Há cerca de um ano e meio atrás a forma caiu bastante, sem eu saber porquê. O âmbito das pedaladas e a altitude alcançada encolheram bastante. A seguir soube o porquê da limitação, felizmente identificada e tratada. Devagarinho e com cuidadinho retomei o desenvolvimento da forma.

Dia 24/6, feriado no Porto, saí de Viana sem grandes restrições de horário. O objetivo inicial até era rolar kms, mais do que subir metros. O primeiro destino pensado era Cerveira, mas o vento norte soprava tão desconfortável, que em Ancora desviei para o interior. Daí, para fazer distancia, podia ser Lanheses e Ponte de Lima, ou subindo um pouco Dem e Caminha, ou, puxando mais um pouco, Dem, Arga e Covas.

Puxar, por puxar…, vi a majestosa muralha à minha frente, a forma estava boa e o ritmo bem marcado. Tão entretido e animado ia que, quando as coisas começam a complicar em Amonde, um excesso de confiança fez acordar um bichito, sequela de um excesso antigo, que me morde um joelho de vez em quando. Entrei na reta de S. Lourenço com sérias dúvidas sobre se a viagem acabaria ali, mas o bicho acabou por adormecer e sossegar.

Como não tinha preparado a viagem, e há muito tempo não pensava naquilo, nem me recordava se a altitude total eram 500, 600 ou 800m. Também não liguei o mapa do GPS. Fui apenas avançando de curva em curva, acreditando ter sempre uma pedalada mais para dar. Não valia a pena ver os km’s arrastarem-se nem olhar para a miserável velocidade linear. Para lá da FC, apenas lia o altímetro que, esse sim, mexia-se bem. Parei duas ou três vezes, um ou dois minutos. O tempo de verificar a pressão dos pneus, deixar arrefecer a temperatura da água do motor, essas coisas…

Depois de 7 km a moer, cheguei, bem moído, e o altímetro marcava 794 m. Praticamente o dobro do meu topo anterior. Encostei a bicicleta e achei que valia uma selfie. Desafio superado.

24 agosto 2015

Um acto de coragem


Calmamente subiram ao palco do festival de folclore. Não tinham acordeões nem estridências, não dançavam nem rodopiavam. Na voz belíssima da cantadeira ouvíamos que “Quem vai ao Senhor da Pedra, vai ao céu e torna a vir”. Estávamos em Arcozelo e, por acaso, o Senhor da Pedra era mesmo ali ao lado. Nos inícios dos anos 80, apresentarem-se assim naquele contexto era um acto de coragem.

A voz em causa, que não levava ao céu mas pouco menos, pertencia a Isabel Silvestre, integrada no Grupo de Cantares de Manhouce. Quem está minimamente atento ao que se tem passado no campo da música tradicional portuguesa saberá bem de quem se trata.

Soube recentemente estar em curso uma iniciativa pública de obtenção de fundos para a edição decente de um novo trabalho dela. Nestes tempos em que qualquer um sem sair da sua sala, pode ouvir tudo o que quiser a custo nulo, ou quase, editar trabalhos bem produzidos que se querem, que compram, que se guardam e para os quais precisamos de contribuir, é também um acto de coragem. Neste caso concreto, este acto de coragem está ligado a algo de rico que temos, com tanto de rico quanto de frágil, que é a cultura popular, particularmente na sua vertente musical.

Porque sou português e aprecio actos de coragem, muito especialmente quando está em jogo a cultura e o meu país, irei subscrever.


Mais detalhes aqui

30 março 2014

Uma espécie de peregrinação

Antes dos 20 anos eu praticava atletismo e corria 6 dias por semana. Como dizia em “Por um título”:

Aprendi a correr. Não o correr atabalhoado da fuga, não o correr acometido do predador. Apenas o simples correr sustentado do desacompanhado. Aquele em que cada passo é dado com o fim de haver sempre outro passo mais para dar. Em que o cansaço se agrava ao descontinuar e em que se recupera ao não parar.

Antes dos 20 não há mazelas, ou as que há duram pouco. Depois, com os anos, a recuperação dos excessos complica-se. Pelos 30 empenei uma virilha, passei a correr apenas na areia e nem sequer conseguia caminhar mais de 2 km sem ficar a ganir no dia seguinte. Passei a preferir a bicicleta e alguns anos depois acabei por curar essa mazela. No entanto, de cada vez que melhorava a forma e tentava ir mais longe, alguma coisa empenava. A última foi um joelho. E pronto, é assim, o tempo impõe os seus limites.

De há um ano e meio para cá, retomei a bicicleta e correu melhor. Da primeira vez que tentei simplesmente subir a encosta de Sta Luzia, precisei de parar 3 vezes para recuperar. Ontem fui a S. João de Arga lá no meio da Serra. Não é muito mas é algo. Mais importante do que ir e ter regressado (parte mais fácil) foi hoje ter feito de novo uns outros 45 km… e de ter de novo reencontrado o prazer de “o cansaço se cansar”.

31 maio 2011

Lugares em branco

Eu sei que a sugestão não passará. Os que a poderiam aprovar são parte interessada, mas vale sempre a pena referir o assunto. Quem se dá ao trabalho de se deslocar a uma mesa de voto, esperar pela sua vez, receber o boletim e respeitosamente dobrá-lo em branco, não deveria ter uma leitura igual a quem vai lá desenhar uma careta ou escrever um palavrão, nem àquele que fica em casa ou na praia por não estar para se chatear.

Quem vota em branco tem o cuidado de dizer: eu quero votar, não prescindo desse direito e obrigação, mas não me reconheço em nenhuma das propostas apresentadas. Assim, os votos em branco deveriam ser contados para a repartição dos deputados e os lugares proporcionais deixados em branco. Quem respeita o sistema dessa forma, deveria também ser respeitado e não ser ignorado com, no final, as bancadas completas (quando não há faltas), supostamente espelhando a vontade expressa de todo o eleitorado.

Os lugares em branco seriam um sinal permanente aos deputados dizendo: não julguem que têm a representatividade garantida. Estamos aqui em nome de alguém que não vos julga merecedores do seu voto. Se querem o voto deles, tentem fazer melhor.

29 dezembro 2009

Quando eu for grande...


Dentro das redacções típicas que se faziam na primária como o relatório das últimas férias ou do passeio anual, havia aquela do “O que eu quero ser quando for grande”. Podia existir mais ou menos motivação e inspiração para fazer correr a pena sobre a matéria, mas quanto à imaginação essa não tinha dificuldade em divagar sobre o assunto.

Umas décadas passadas continuo com alguma frequência a falar do que quero fazer ou ser “quando for grande”, face ao espanto ou condescendência dos que acham que a utilização dessa expressão por mim terá o prazo de validade já largamente ultrapassado.

À entrada de mais um ano, que em concreto não quer dizer muito mais do que mais um “plim” de contagem de ciclo, que se continue então a divagar sobre o que se há-de ser e fazer quando se for grande, sem deixar, é claro, de realizar algo próprio de quem já é grande. Complicado?

16 dezembro 2009

Carta a quem ainda não vota nem tem sindicato

A todos aqueles que não têm idade para votar nem muito menos para serem sindicalizados quero dizer que quando chegarem a essa altura vocês estarão tramados. Isto porque nós que votamos e temos sindicatos e essas coisas todas andamos alegremente a gastar mais do que ganhamos, pedindo emprestado por conta, conta essa que vos irá chegar um dia mais tarde. É um pouco como a orquestra continuar a tocar enquanto o Titanic se afundava, mas para pior. Se a música não contribuiu para o acidente nem os músicos poderiam ter evitado o naufrágio, aqui está tudo nas nossas mãos.

Dizem por aí que o “défice não é prioritário”. Pode estar bem quando eu me endivido para investir em algo que gera riqueza e essa riqueza reembolsa o empréstimo. Não posso é endividar-me para continuar a ir ao restaurante, quando na carteira não houver dinheiro suficiente. Ou melhor, não devo, porque esse gasto não devolve nada, só atira o problema para frente e somado de juros. Mas a situação actual é ainda pior! Quando alguém se afunda em dívidas, em geral, é o próprio a resolver o problema. Nós somos mais finos. Continuamos a frequentar o restaurante e o problema vai sobrar para vocês!

Por isso, quando ouvirem alguém dizer que não aceita limitações nas promoções nem redução nos direitos adquiridos, quando ouvirem os autarcas queixarem-se das limitações ao seu endividamento, que não os deixa fazer mais rotundas com ou sem a respectiva fonte cibernética, quando ouvirem um ministro dizer que “resolveu um problema” sacando do livro de cheques público, nessas alturas lembrem-se de que isso tem tudo a ver com lutar para não deixar de ir ao restaurante.

Nesta fase nem acrescento o dinheiro mal gasto por incompetência, o gastar a “dar” seguido do gastar a publicitar a “dádiva”, nem as outras coisas de tribunal que também não ajudam nada. Refiro apenas os exemplos do “para já é gastar sem cortar e logo se verá”.

Eu sei que é um fardo demasiado grande pedir-vos para serem assim polícias e críticos de quem tem idade para ter juízo, ainda por cima quando vocês nem sequer têm peso eleitoral, mas não vejo mais a quem recorrer. Desejo-vos boa sorte.

30 agosto 2009

O Centrão

À aproximação das eleições lá vêm de novo para as primeiras páginas essa palavrão com conotação depreciativa, que me irrita.

Se quando se fala de centrão, se refere ao centrão do poder, dos dois partidos que entre poder e oposição, entre cargos públicos e para-públicos se vão governando, aceita-se depreciação.

Agora, quando a expressão se aplica ao eleitorado que vota por opção individual e assumida, de forma não clubística, acho essa ironia uma grande falta de respeito pela democracia. Posso entender que os partidos gostariam de ter e de ver o seu eleitorado fiel, em que pudessem fazer uma contabilidade certa e previsível sem surpresas desagradáveis. Entendo que gostassem que não houvesse deserções, mas diminuir ironicamente quem tem opinião e decide por si é negar a essência da democracia.
Nota final: eu pertenço, com orgulho, a esse grupo de pessoas

11 junho 2009

Chorar em Português


Numa reportagem de Sandra Felgueiras que passou na RTP1 antes da “eleição” das 7 maravilhas de origem portuguesa, falava-se do desaparecimento da língua portuguesa na Índia e da persistência e resistência da cultura portuguesa aí e em Malaca. Se nas praças indianas passaram apenas 50 anos, em Malaca são quase 4 séculos. E, como após este tempo ainda há gente que se identifica com a herança portuguesa, mesmo sem nunca terem posto os pés em Portugal, isso sim, é muito mais relevante do que qualquer ruína de convento ou pano de muralha.

Pessoas que diziam querer saber mais e que gostariam de falar português correctamente. Mas não havia professor. A responsável do Insituto Camões oportunamente entrevistada foge ao cerne da questão e fala dos cursos por internet... para que serve esse instituto, afinal? Qual a sua missão e o espírito de missão de quem lá anda?

O espectáculo seguinte, o da atribuição solene dos prémios, de que só vi a parte final, foi bacoco. Sem brilho, sem profundidade, sem sentido. Aqueles “trajes” variados a evoluir gesticulando no palco ao som de um ritmo qualquer foi absolutamente deprimente. Também o facto de estas coisas serem nomeadas por voto popular só prova que a “democracia” nem sempre é ideal. Por mim Colónia de Sacramento não poderia ter faltado, mas isso é outra história.

Ainda, voltando à reportagem, num momento que me emocionou, alguém dizia que via a RTPi e às vezes, dava aquela coisa “como se diz?” – chorar? – Vontade de chorar. Não fixei literalmente mas o espírito era que lá pelos confins alguém chorava em Português. Face a esta grandeza, o evento social e pretensiosamente cosmopolita foi estupidamente pobre. Não, decididamente estamos mesmo muito longe do tempo de D. João II e de Afonso de Albuquerque. A dimensão e a profundidade da herança portuguesa no mundo mereciam e pediam muito mais e muito melhor!

24 abril 2009

Liberdade não rima com ser pequeno

Pois é. Lá vem o tal dia com as comemorações rotineiras e com as polémicas paroquiais que sempre se arranjam nesta altura. Desta vez trata-se da inauguração da praça Salazar em S. Comba Dão. Mais paroquial não poderia ser. O 25 de Abril é uma data passada e com um valor associado intemporal. Não casa com os nostálgicos dos tempos revolucionários nem com relativização do que representa. E cada vez é mais difícil fazer com que os que não viveram o “antes” consigam olhar para a data como mais do que um simpático feriado em que os chatos do costume lá vêm de novo proclamar a liberdade e coisas que tais, sabendo que quem nunca viveu a guerra nunca dará o real valor à paz.

No actual fundo de crise a sério, porque crise em geral já não me lembro de não existir, há umas reflexões a fazer. O tal dito de S. Comba foi popularmente votado o maior português de todos os tempos. Esta nostalgia corresponde a simpatia pela pobreza? Preferimos ser pobres e estáveis a “ir à luta” do desenvolvimento? E quando falo em desenvolvimento não falo apenas do económico. O Portugal de Salazar além de pobre é tacanho, pequenino e mesquinho!

Nas crises nascem as ditaduras, porquê? Porque as dificuldades exigem uma liderança forte que inviabiliza os largos consensos? Vejamos os franceses que são um bom exemplo nestas coisas. Quando protestam violentamente contra o fecho das fábricas, aqueles que protestam com tanta determinação assumiriam alguma vez uma postura construtiva, pragmática e alternativa? Não, sinceramente penso que não. E quando o protesto é destrutivo e primário, há uma menorização implícita do protestante. Ao pegar no machado para destruir a embarcação em que viajamos, no fundo, no fundo, ninguém quer naufragar. É o: “agarrem-me, senão eu faço!”. E quando a mão que brame o machado não tem mais ouvido para razoavelmente escutar, só restará tirar-lhe o machado pela força. E a essa força quando começa, não se sabe quando nem como acaba. O regime “forte”/ditadura nasce então a partir do protesto demitido.

Quando a resposta à crise é a nostalgia da pobreza, da utopia falida ou a demissão social, tudo isto são variantes do ser pequenino e o que faz falta é ser grande e enfrentar a tormenta em vez de ficar escondido ou simplesmente barricado atirando pedras de protesto.

19 abril 2009

Os gafanhotos e o “burro do inglês”



É uma velha história e nem sei o porquê dessa nacionalidade para o protagonista. Um inglês esperto, para poupar, decidiu habituar o seu burro a não comer. Foi-lhe diminuindo a alimentação gradualmente e quando tinha comprovado o sucesso da sua teoria e o burro já estava desabituado de comer, por azar, este morreu!

Lembrei-me desta história ao ler um artigo num dos últimos da “Economist”, que imagem acima publicada ilustrava, sobre o declínio dos “gafanhotos económicos”. Tentando explicar o contexto rapidamente. Ainda não há muito tempo, acreditava-se que os Estados podiam falir e era necessário ter fundos de pensões privados para “garantia” das reformas!!! (e não foi assim há tanto tempo!). Esses fundos bem nutridos pelas poupanças dos muitos crédulos, pela fortuna pessoal de outros, com enormes facilidades de alavancagem financeira e pilotados por “gestores todo-o-terreno” foram comparados às pragas de gafanhotos.

Entravam onde queriam e, friamente, em três tempos, com tratamentos de choque, limpavam as gorduras das empresas ex-públicas ou familiares esclerosadas. Faziam um belo brilharete e revendiam-na, geralmente ao gafanhoto seguinte, com enormes mais valias para grande satisfação dos clientes dos fundos: eram uns craques! O mundo não é a preto e branco e é perigoso generalizar. Algumas intervenções terão sido esclarecidas e com algum enquadramento estratégico sustentável. Mas na maior parte não. Com o objectivo de fazer números bonitos a curto prazo, muitas vezes com a gordura ia também a fêvera, desde que bem paga. Se depois, sem fêvera, a empresa definhasse, isso era irrelevante desde que o efeito surgisse para lá do horizonte temporal da intervenção dos devastadores insectos.

É relativamente fácil descobrir que uma empresa tem um valor de vendas/empregado baixo. É bastante menos evidente concluir que a solução seja simplesmente reduzir o pessoal para acertar o rácio (e até evitei falar em arrogância). Pode conduzir à síndroma do “burro do inglês”. Para criar valor de forma sustentada é necessário conhecer o negócio e ter uma visão que, sem os ignorar, ultrapasse a frieza dos rácios dos balanços e das contas de exploração. Aliás na tempestade actual é fácil entender quem se aguenta melhor. Por isso, pelas dificuldades no mercado financeiro e, porque não, pela quantidade de “burros” que por aí há em cuidados intensivos, os gafanhotos perdem brilho e músculo. Passaremos a ter empresas de sapatos lideradas, será espantoso, por quem entende de… sapatos. Outros problemas aparecerão, mas é um pouco repor alguma justiça neste mundo.

03 janeiro 2007

Tribos e "tribinhos"

Não sou especialista em sociologia mas parece-me claro que o homem se agrupa para se proteger. Um dos maiores factores de mobilização e agregação é a presença de uma ameaça. Muitas vezes na História as ameaças foram colocadas em evidência e mesmo amplificadas por líderes ameaçados na sua liderança ou somente inseguros (fica o convite para a lista...).

Sendo claro que convivemos quotidianamente com ameaças de todo o tipo, em maior ou menor grau, será normal que no relacionamento social se vão fazendo e desfazendo coligações, agregando ou desagregando grupos, conforme o perfil e a intensidade da ameaça pressentida.

Eu, nesse campo, tenho um sério problema. Acredito que valores como o rigor e a frontalidade, a prazo, acabarão sempre por se sobrepor às ameaças de fundamentação duvidosa. Também sou incapaz de me agregar quando estão em causa questões como a competência ou a honestidade intelectual. Como tal, em ambiente balcanizado, sobrevivo com dificuldade porque não assumo uma filiação tribal. É impossível agradar a gregos e a troianos mas também é difícil não ser nem grego nem troiano quando a guerra se declara.

A excepção será a situação de “guerra justa”, mas quantas guerrinhas traiçoeiras não nascem por aí todos os dias?

Complemento de informação, a pedido: Um tribinho não é um grupo. É uma pessoa daquelas que só sobrevive em tribozinhas.

20 dezembro 2006

E se fosse a refazer...

Está quase a cumprir-se um ano, dia por dia, de um acontecimento que me virou a vida. Foi-me colocada uma questão que tinha duas respostas possíveis. Uma de continuidade, materialmente cómoda e intelectualmente insuportável e outra, complementar, de ruptura. Escolhi a segunda...

Após 3 meses de discussão, negociação e transição, iniciei um período de 6 meses, durante os quais não entrou um único euro na minha conta bancária. Controlei cada cêntimo que saía; cada litro de combustível consumido, cada minuto de telemóvel e cada compra de supermercado. Um custo que nunca questionei foi a assinatura ADSL que me permitiu comunicar, ler o mundo e publicar estas Glosas. Aperfeiçoei a culinária. Escrevi, li e aprendi coisas em atraso, mas sem nunca ficar em dia. Um dia por semana viajei a cantos e esquinas, enriquecendo o meu mapa mental de caminhos e a minha biblioteca fotográfica. Tive tempo inesgotável e disciplina para o usar. Semana após semana, mantive o ritmo dos contactos, reforçando os já feitos, acrescentando outro canal ou inventando outra iniciativa. Vivi uma Primavera de floração incerta com uma ponta de ansiedade e alguma insegurança mas sempre provando cada dia.

No último mês e pico, em que já tinha data para a retoma do fluxo dos euros, comprei a Transalp. Uma excentricidade em jeito de compensação das restrições anteriores. Nesse período, entre Minho, Gerês e Douro, foram 3500 km’s de cores, ventos, calores e cheiros. E foram também uns polegares quase abertos de acelerar e travar os 53 cv.

O ano completa-se por 3 meses baseado no outro lado do Mediterrâneo de gentes e costumes tão diferentes e tão próximos. E, claramente, enriquecedor. E, como dizia o poeta, “E se fosse a refazer, eu refaria esse caminho!”.

18 agosto 2006

Correr...

Desta vez acompanhei um pouco os Campeonatos Europeus de Atletismo. E descobri que acho mais belo ver correr do que ver dançar! Porquê? Talvez porque:

Aprendi a correr. Não o correr atabalhoado da fuga, não o correr acometido do predador. O correr sustentado do desacompanhado. Aquele em que cada passo é dado com o fim de haver sempre um passo seguinte. Em que o cansaço se agrava ao descontinuar e em que se recupera ao não parar.

Amava-me ao ver o mundo deslizar pelos dois lados de mim. Ao sentir a minha velocidade como minha. Criada, mantida e gozada. Sob o calor que me destilava e expurgava; sob o vento que me desafiava, sob a chuva risonha que me fecundava.

Amava-me principalmente quando ressuscitava, quando de uma reserva interna de dimensão desconhecida ia descobrir energia nascida só da vontade e de um ânimo incansável.


Já não consigo bem correr mas gosto muito de ver correr!

17 outubro 2005

Sinistralidade rodoviária. Legislação ou formação?

De acordo com os números divulgados recentemente, o novo código da estrada fez aumentar as multas mas não diminuiu a sinistralidade. Para mim, isto não constitui surpresa. Creio que uma boa parte do problema não está na legislação mas sim na formação e na consciencialização.

Por exemplo, muitos acidentes graves por despiste em IP’s de montanha, são provocados por simples inaptidão e falta de preparação dos condutores. Não sabem conduzir. Não sabem que naqueles declives, em piso molhado, uma travagem fora de sítio ou um golpe de direcção podem ser suficientes para desequilibrar o automóvel, mesmo não estando em excesso de velocidade. E isso não se resolve com legislação.

Outro exemplo sintomático, é a utilização dos coletes reflectores. O pessoal até aderiu bem e acha “catita” envergar o dito cujo, até mesmo nas costas do banco. Mas.... quantas vezes se vê a família à volta do carro; o condutor com o colete obrigatório e os demais sem colete, porque não é obrigatório. Já me ocorreu ver um colete a mudar um pneu quase completamente escondido por pares de pernas em redor. Estranhamente, o pessoal não sabe, nem pensa, que, se o colecte é obrigatório, é porque é extremamente perigoso estar no exterior do automóvel, na estrada, e, se for mesmo necessário estar, o colete ajudará a ficar mais seguro.

Aprender a conduzir, no léxico oficial, equivale a saber de cor pesos, dimensões e outras coisas de utilidade muito questionável relativas a veículos que nunca se conduzirão. A perícia na condução é medida pela capacidade de estacionar e fazer inversão de marcha sem tocar no lancil do passeio. Depois, há os que são melhores ou piores autodidactas; que têm maior ou menor sensibilidade; que têm sorte, ou não.

As revalidações da carta de condução são meras formalidades administrativas. Que tal um pouco de formação contínua obrigatória?

13 maio 2005

Todas as crianças

Ashemehe. Seguramente que o nome não está correcto. Não tomei nota na altura. Apareceu num programa na TV sobre a Etiópia. As raparigas eram prometidas e “casadas” aos 8 anos, após a puberdade consumavam o casamento, abandonavam a escola, seguia-se a gravidez precoce, por vezes com partos fatais e muitas vezes com sequelas. Saídas alternativas muito poucas. Contado assim parece ser só mais uma das vertentes da muita miséria que existe nesse outro mundo, subdesenvolvido e primitivo, que para alguns não se quer desenvolver e que nos parece distante (felizmente ?).

Ashemehe, e insisto em dar-lhe um nome mesmo que deturpado, era uma rapariga de 12/13 anos. Como muitas outras já “casada” e que via com angústia aproximar-se o momento em que abandonaria os pais e a escola para viver com o “marido” de quem não gostava.

Ashemehe, delicada e inteligente, tinha um par de olhos que brilhava como dois faróis. Falava com segurança e determinação dos seus sonhos e das suas expectativas. Da sua ânsia de aprender e de seguir a escola. Da sua vontade de se desenvolver.

Ashemehe filmada na escola, dividia o olhar entre o quadro em frente, que fitava com empenho e avidez enquanto, de soslaio, interrogava a câmara, janela e passagem para o seu “país das maravilhas” das curiosidades mil.

Na última cena, a mãe insiste para ela ir visitar a casa do “marido”. “Visita” que podia não ter retorno. Lutadora, Ashemehe, luta contra um choro nervoso e resiste. Sai a correr, não se sabe para onde.

Naquele meio rude e primitivo Ashemehe brilhante lembrava-nos que como cantava J. Brel “Todas as crianças são como as nossas”!

Por cá, as notícias importantes andam à volta do desenvolvimento dos relvados dos estádios. Por vezes ouvimos falar de um golpe de estado em África, muitas vezes à sombra de barris de petróleo e com patrocínios muito respeitáveis, como parte das complicações desse continente complexo que tem dificuldade em se desenvolver. Por vezes a notícia é sobre um batel que naufraga no estreito de Gibraltar em que pares de olhos mais ou menos brilhantes em busca de desenvolvimento, se fecham.

Mas ...
Filhos de César, filhos de nada
Todas as crianças são como a tua
O mesmo sorriso, as mesmas lágrimas
Os mesmos sustos, os mesmos suspiros
Filho de burguês, filho de nada
Todas as crianças são como a tua

Somente depois, muito depois ....
(J. Brel)