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15 novembro 2025

Podia ter sido diferente


Por estes dias escutei num dos podcasts do Observador a espantosa vida de Jorge Jardim. Dava um filme de fazer inveja a James Bond, ainda por cima tratando-se de realidade e não de ficção. O homem tinha iniciativa, coragem, habilidade, uma capacidade enorme de viajar, sobrevoar e superar desafios, perigos e dificuldades e, se calhar, alguma falta de “bom-senso”. Ter sobrevivido a tantas peripécias foi questão não só de sorte, mas também.

Uma grande curiosidade é a sua proximidade com Salazar, quando ideologias à parte, a distância de carácter devia ser enorme entre quem corria as quatro partidas do mundo, de todas as formas e feitios, e quem voou uma única vez entre Lisboa e Porto em 1966, dois anos antes de cair da cadeira, não gostou, não repetiu e ir além de Badajoz não estaria ao nível de transpor o Adamastor, mas quase.

Já nos anos 70, Jardim, homem do regime radicado em Moçambique, entende que a guerra colonial não é solução e começa a negociar por contra própria em Lusaca um acordo de independência para a colónia, equilibrado, procurando lugar para todos. Quando Lisboa soube, estupidamente não aprovou…

Veio o 25 de Abril e o novo poder entregou à Frelimo tudo de mão beijada sem condições, nem obrigações e deu no que deu, outro erro de Lisboa. Um padrão infelizmente frequente nas descolonizações, quando os movimentos de libertação são reconhecidos como legítimos e únicos representantes do “povo”, sem pedir opinião ao povo, nem nesse momento, nem depois.

Este ano comemoraram-se 50 anos dessas independências e, mais uma vez, lá vieram os discursos sobre a responsabilidade da herança colonial nas “dificuldades” atuais. Se seguirem a escola do Brasil, daqui a 50 anos Portugal ainda continuará a arcar com a culpa pela miséria e subdesenvolvimento. Há uns tempos Lula da Silva referia que o facto de a primeira universidade brasileira ter sido criada apenas em 1920 (facto contestável) era uma consequência da colonização portuguesa. Considerando que o seu país ficou independente em 1822, esta influência nefasta projetada por 100 anos, parece coisa de feitiço ou magia-negra, que desconhecia ser assim tão poderosa nestas latitudes.

Voltando às nossas colónias africanas, seja em 1973, seja em 1975, as ações e o resultado podia ter sido diferente.

Podemos certamente criticar o racismo e as desigualdades sociais no tempo das colónias. Devemos também reconhecer que o resultado das independências está muito longe de ter constituído uma melhoria das condições de vida para as populações. Voltando ao Eng Jardim e a Moçambique, ver imagens do estado atual do seu Grande Hotel da Beira, é representativo da evolução do país nestes últimos 50 anos.

31 agosto 2023

Bricando


Os BRIC(S) posicionaram-se desde o início como uma alternativa ao mundo chamado ocidental. Aqueles que, seja no hemisfério norte ou no ul, julgam que a esfera ocidentalizada é maligna e a causa de muita desgraça no mundo, acham naturalmente salutar ser estruturado este contrapeso.

Dentro dos pesos e contrapesos dos membros atuais, e atendendo à quebra material e moral recente da Rússia, há obviamente a China e os outros. Recentemente o grupo foi enriquecido com seis novos membros a saber: Argentina, Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Há aqui alguma riqueza, de petrodólares (perdão petrobrics!), mas que trazem eles de riqueza básica, em termos de coisas e exemplos que possam ensinar ao resto do mundo?

Mesmo dando de barato e ignorando a barbaridade assassina promovida pela Rússia, que contributos positivos para a humanidade traz esta companhia com estes sócios? Em quantos deles existe liberdade de expressão, tolerância religiosa, democracia a sério, proteção social, direito generalizado à educação, proteção e valorização da mulher e a lista não acaba.

Ok, ok, os maus da fita para muitos são e serão sempres os ianques imperialistas e respetivos lacaios, mas poucos devem ser os que aceitariam deixar o seu atual inferno e irem viver para a maioria destes países.

12 janeiro 2023

Degradação do regime


O que vimos acontecer no passado domingo em Brasília é indiscutivelmente inaceitável num regime democrático. Acho que podemos dizer com segurança que o tempo das revoluções e pronunciamentos é definitivamente passado no Brasil.

Podemos ver semelhanças com o ataque ao Capitólio de 2021, assim como entre Trump e Bolsonaro, apesar de este não ter, pelos menos assumidamente, apelado à sublevação. Também parece haver em comum que as instituições do Brasil foram/serão suficientemente sólidas para controlar a situação e retomar a normalidade.

Há uma diferença importante que, sem desculpar nem relativizar a gravidades dos fatos, convém referir. Lula não é Biden. Biden não chamou genocida a Trump, não tem o passado judiciário do brasileiro, recordando que este, se se “safou”, foi pela forma e não pelo fundo.

Lula foi eleito, democraticamente, dentro da legalidade, tem toda a legitimidade, mas isso não apaga a repulsa que devem sentir muitos brasileiros. Imaginem, num paralelo, que Sócrates se safava judicialmente e voltava ao poder. A reação, e certamente que a solução, não passaria por invadir o Parlamento, mas o respeito pelas instituições não seria o mesmo. Não é tão cedo que o Brasil se irá pacificar, nem a atual responsabilidade é principalmente de Bolsnaro, apesar de todos os seus defeitos. Por muito tempo haverá brasileiros que não reconhecerão Lula como um presidente que merece o cargo. Se isso justifica e desculpa partir assim a louça, é claro que não.

03 dezembro 2020

Alguma coisa acontece


Cantava Caetano Veloso que alguma coisa acontecia no seu coração, que só quando cruzava a Ipiranga e a Avenida São João…

Noutras latitudes, outras músicas, ou mesmo sem música, mas algo acontece no meu coração quando cruzo Passos Manuel e Santa Catarina, mesmo sem rimas e com uma toponímia muito menos sonante. Dispensando considerações arquitetónicas e históricas que não as sei fazer, aquele cruzamento tem algo de especial.

De um lado a Batalha, o meu porto de chegada ao Porto, durante muitos anos de transportes públicos; Santa Catarina, em boa hora pedonal, que rasga a cidade e onde se ancora uma boa parte do comércio tradicional; Passos Manuel que mergulha para o rio da Avenida, sendo que as ruas no Porto vão muitas vezes desaguar a rios e vales. E a subida para os “pobeiros” e para o porto mais profundo e popular, onde não há “spots” turísticos de nota e a cidade pouco mudou. Ali ao lado o Coliseu, onde tantos dias se ouviram coisas como o primeiro dia e a quem a cidade recusou o último dia. E depois, ao dobrar da esquina, o majestoso Majestic, agora a fechar as portas, indefinidamente.

A primeira reação é de um duplo lamento, pelo desaparecimento daquele espaço, de uma riqueza única no género e pelo que significa um café tradicional a menos na vida da cidade. Numa segunda vista, um café que cobra 5 Euros por um café, não é um café social da cidade. É um local a ser visitado por experiência, uma vez, em visita à cidade, que vive da rotação das experiências e da cadencia das aterragens em Francisco Sá Carneiro. Não seria possível “ter dado uma volta”…? Entre o Majestic fechado e o Imperial McDo, nem sei que diga.

10 outubro 2018

Trumpalhou, né?


Parece mais do que certo que o grande país, nosso irmão, irá Trumpalhar. Obviamente que a culpa não é individualmente do personagem Bolsonaro, por muito detestável que possa ser a sua personalidade e os seus princípios. A culpa direta é claramente dos milhões de brasileiros que nele votaram e que muito provavelmente o confirmarão na segunda volta.

Se o crescimento dos populismos é geralmente o resultado de uma saturação e descrença relativamente às propostas mais tradicionais e consensuais, esta evolução no Brasil não deixa nenhuma dúvida a esse respeito. Como pôde o PT não se distanciar dos escândalos de corrupção e tentar posicionar-se em busca de uma limpeza, pelo menos no discurso? Talvez não pudesse mesmo visceralmente de todo fazê-lo, mas entre corruptos consagrados e condenados e um polémico autoritário não serão de estranhar os milhões de votos neste último e a sua provável eleição.

Resultou muito patético, além de obviamente ineficaz, ver gente que da parte da tarde apela ao repúdio de Bolsonaro, cheia de boas intenções, é certo, quando da parte da manhã defende Lula da Silva e o seu sistema, considerando-o um “preso político”.

Portanto, trumpalhou, sim, mas por mais detestável que ele seja, a culpa não é do Bolsonaro, obviamente.

05 setembro 2018

Não era futebol


A degradação e o descuido que levaram ao brutal e devastador incêndio que destrui uma boa parte do Museu Nacional no Rio de Janeiro não foi consequência do governo dos últimos dois anos, como alguns tribalistas se apressaram a dizer.

É uma história de longos anos. Consequência de cortes/austeridade e desinvestimento, certamente, mas também de desinteresse geral. Não haver água disponível para combater as chamas quando era necessária será mesmo e apenas questão de orçamento?

Sobre orçamento e cortes, convém recordar que este país organizou um campeonato do mundo de futebol há quatro anos, com tudo o que de enorme investimento perdido estes eventos implicam.

Portanto, se estivesse em causa o futebol e não 200 anos de história e de memória do país e até património único da humanidade, talvez o edifício tivesse tido mais atenção. Apenas por lá ?


Foto: Globo.com

20 julho 2018

Figuras tristes

Vinte e dois deputados desta nação, e invocando expressamente esse estatuto, escreveram ao Supremo Tribunal Federal do Brasil apelando à libertação de Lula da Silva. Para começar, do ponto de vista formal e institucional, não faz nenhum sentido deputados enviarem recados destes a magistrados. Com o Atlântico pelo meio, pior ainda.

Segundo estes nossos representantes eleitos, “Lula de Silva é hoje reconhecido mundialmente como um preso político” (!?). Isto é um enorme insulto ao sistema judicial brasileiro, ignorando oportunisticamente que neste processo foram julgados e condenados figurões de diversos quadrantes políticos e de grandes grupos económicos.

É irónico recordarem o contributo de Lula para retirar da pobreza milhões de brasileiros. Independentemente do mérito que possa ter ido nessa realidade, num país decente isto é absolutamente irrelevante para o processo judicial, a menos que se queira valorizar o “Roubou, mas fez!”.

Consultei recentemente uma publicação da “Transparency International” com uma ordenação da corrupção percecionada no setor público, em 180 países do mundo. Como em todos os exercícios deste tipo, serão certamente discutíveis os critérios de avaliação e a ponderação. No entanto, é claríssimo existir uma correlação muito forte entre corrupção e subdesenvolvimento. Ou seja, nos países em que o setor público mais rouba é onde as populações pior vivem.

Na teoria toda a gente está de acordo e condena a corrupção. No entanto, na prática, quando o problema atinge a “tribo”, muito facilmente se assobia para o lado ou pior, como neste caso e noutros cá do burgo, tenta-se branquear responsabilidades, conjeturando histórias da carochinha. Meus senhores, enquanto continuarmos a colocar o filtro da simpatia à frente destes factos, a corrupção não irá diminuir e continuaremos subdesenvolvidos. Alguém tem dúvidas??

08 abril 2018

Clubes da política


Futebol – foi ou não fora de jogo? Pois… qual a cor da camisola do jogador? Se é a nossa, não foi; se é dos outros, não há a mínima dúvida!

Política – foi preso um tipo importante! Se é o presidente de uma grande construtora, já lá devia estar há mais tempo; se é um político dos nossos, esta justiça é vergonhosa!(mesmo que a construtora e o político joguem no mesmo campeonato). Pois…

Há mais criminosos que não foram condenados? Sim, então enquanto houver um ladrão à solta, é injusto prender outro? Assim, não seria fácil…

03 setembro 2016

O “golpe”

Dilma Roussef foi destituída por votação num Congresso legítimo. Os argumentos formais eram frágeis? Há quem tenha pior registo? A solução transitória atual carece de legitimidade? Talvez tudo isso seja verdade, mas a que propósito uma votação deste tipo é um golpe? Golpe seria uma destituição decretada por um juiz à porta fechada sem escrutínio nem recurso ou por um general de arma em punho.

Quando o último governo de Passos Coelho foi derrubado no nosso Parlamento alguns também invocaram a palavra “golpe”, não os mesmos que a usam agora para o Brasil. Esses, na altura, invocaram a absoluta soberania do órgão legitimamente eleito.

Se o árbitro marca um penalti duvidoso podemos encolher os ombros caso seja a favor da nossa equipa e gritar “bandido” (ou pior) ser for contra. A isso chama-se facciosismo e no futebol é relativamente inócuo, para lá da poluição provocada nos órgãos de comunicação que a isso se dedicam.

Em assuntos mais sérios, o facciosismo é muito perigoso porque provoca uma destruição de valores. Uma sociedade sã precisa de estar alicerçada em princípios imunes a simpatias e alinhamentos tribais. Se isso falha, abre-se a porta ao discricionário e ao injusto.

Citando um grande: “A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.”, Albert Camus.

Tirania é tirania e independentemente da cor das suas bandeiras.

21 abril 2016

Cadé os outros!?


Foi uma expressão celebrizada num programa de televisão humorístico brasileiro. Havia um personagem que assim exclamava, ao ser acusado de ter feito algo errado, surpreendido por ser apenas ele o apontado, quando inúmeros outros em seu redor fariam igual ou pior.

É uma situação que traduz um sistema pouco são. A justiça, formal ou informal, não deverá ser tendenciosa. No entanto, se há 20 condutores em excesso de velocidade e apenas eu sou apanhado, não me servirá de nada invocar o “Cadé os outros?”. Muito mal andaríamos se isso fosse motivo de absolvição.

Surpreende-me no caso do processo de destituição de Dilma Roussef ver esse tipo de argumentação ser usado em sua defesa. Não está correto (?) porque os que a irão substituir têm tantos ou mais telhados de vidro do que ela (para não usar palavras mais feias). Provavelmente hoje na classe política brasileira poucos existirão realmente limpos, mas será isso motivo de “absolvição” ou de relativização, ainda por cima estando em causa a Presidente da República?

No Brasil ou em qualquer lugar, os países só evoluem se houver leis e justiça, iguais para todos na teoria e na prática, de preferência deixando a invocação de Deus, assim como as graçolas e os insultos fora das instituições.

18 março 2016

Entre a legalidade e a moralidade

A recente nomeação ministerial de Lula da Silva é absurda e vergonhosa. Mesmo estando ele inocente e a motivação do ato fosse genuinamente política, este passo, neste momento, é um descrédito brutal para o governo/sistema politico brasileiro.

A divulgação das escutas comprovativas do espírito real da manobra é provavelmente ilegal e, como princípio, dificilmente aceitável. As fugas de informação seletivas são uma ferramenta de manipulação terrível e não deveriam ser permitidas num Estado de Direito.

Na prática sabemos que a luta pela conquista da opinião pública passa muito pela divulgação dirigida de informação, muitas vezes supostamente confidencial. Neste caso, a publicação das escutas foi fundamental para clarificar, no momento devido, o verdadeiro objetivo da nomeação de Lula. Apetece dizer que o interesse público justificou o atrevimento. Pode-se?

Com alguma analogia, a divulgação das escutas a José Sócrates, do seu padrão de vida em Paris, dos seus reabastecimentos em espécie, foram também muito importantes para o público entender (quem quiser entender) que há ali algo a “cheirar mal”, independentemente do resultado jurídico final (nunca se sabe quando uma vírgula a mais ou a menos anula provas fundamentais).

Os cidadãos precisam de conhecer quem os governa, implicando isso um escrutínio elevado das práticas dos políticos. A divulgação das “imoralidades” relacionadas com o bem público é de interesse público. Respeitando todas as presunções de inocência e a proteção de privacidade deveria ser possível atender legalmente a essa necessidade.

29 junho 2014

A Simone cabeluda

Não, não é a Simone da “Desfolhada” que escandalizou uma certa parte do país paroquial da altura, ao cantar o grande Ary, ao dizer simplesmente que “quem faz um filho, fá-lo por gosto”!!!

Falo da Simone brasileira cabeluda. No início dos 80 muita gente a ouviu em Portugal na banda sonora de “Malu Mulher”, que muito abanou a consciência social feminina. Na sua voz, uma divorciada diria “Começar de novo e contar comigo, Vai valer a pena ter amanhecido, Ter me rebelado, ter me debatido...” Aqui

Mas vou mais atrás. Em 1968, em plena ditadura, Geraldo Vandré escreve e canta um hino arrasador com um refrão assim “Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer…” A interpretação da Simone … é belíssima. (na minha opinião, é claro). Aqui !   Simples...

14 outubro 2009

Amem-se ou deixem-se!

A relação entre Portugal e Brasil é um caso típico de um divórcio afectivamente ainda não consumado. Dois séculos após a separação ainda não conseguem olhar e falar um do outro de forma fria e racional e continuam naquela coisa bipolar do amor entrelaçado com o ódio.

Há um livro de Chico Buarque em que uma figura ridícula tem antepassados portugueses? Lá estão eles de novo a culpar Portugal pelo seu subdesenvolvimento! Por acaso não é essa a mensagem do livro e o autor até é grande demais para cair nessas tricas.

Agora há uma pretensa reportagem já com 2 anos de Maitê Proença, pretensamente humorística mas basicamente parvinha e é um “Ai Jesus!”. E lá vêm as patéticas exigências de pedidos de desculpa. Ora... Estas coisas tristes e infelizes ficam e classificam quem as profere e é tudo. Mal estaria o mundo se por cada parvoíce declarada os visados saíssem sistematicamente em cruzada de pedidos desculpas. Aliás, ironizar com a escolha de Salazar como o maior português de todos os tempos, nós podemos fazê-lo; que outros o façam é que não toleramos! Isto chama-se menoridade. Curiosamente o cuspir na fonte é bastante simbólico e outra menoridade, para não dizer criancice: a fonte tem história e o acto é de quem a quer renegar/provocar sem a conseguir ignorar. Parece o puto reguila a desprezar ostensivamente a história da família e a quebrar propositadamente uma peça de louça do serviço antigo dos avós. Se Maitê Proença se identifica com essa postura, não lhe fica bem mas é um problema seu.

Em resumo: amam-se ou deixem-se, ou, pelo menos, deixem-se destas susceptibilidades e arrogâncias gratuitas. É evidente que Portugal e Brasil têm muito em comum e a ganhar em conjunto. O primeiro passo é acabar com os estereótipos e as generalizações abusivas de que os “outros” são todos “assim”. O que está certo e justo aproveite-se e construa-se em cima; o que está errado e estúpido ignore-se.

02 junho 2009

E ainda os descobridores...

Como dizia atrás, parece que os australianos têm grande orgulho em o seu continente ter sido descoberto pelo civilizado Cook e não pelos pobres tristes tugas. Lembra-me o Brasil onde muita gente continua a achar que a culpa do seu deficit de desenvolvimento é do Cabral. Se em vez dele tivesse sido um Smith qualquer, hoje eles seriam os USSA – United States of South América, a par e par com os USA, que se veriam aliás obrigados a adoptar uma designação mais específica de USNA!

Se calhar, não é bem assim. Acho que o Brasil se compara melhor com a Austrália. Os EUA estão numa latitude geográfica muito diferente e nestas coisas de desenvolvimento, a temperatura, a fertilidade das terras e o esforço de sobrevivência necessário tem uma grande influência nas mentalidades (e vou estrategicamente esquecer que o Porto tem exactamente a latitude de Nova Iorque… ).

Reconheço que nunca estive na Austrália e conheço muito pouco dela para grandes conclusões mas talvez isso já seja uma pista. O que resultou da construção anglo-saxónica da Austrália, onde uma elite relegou a população indígena ao estatuto de quase “gado”? Será globalmente mais limpinho e organizado do que o Brasil, mas qual a marca cultural que a Austrália tem no mundo (para lá da Nicole, claro!) ? Perguntas que ficam.

O que resultou do Brasil mestiço? Sendo certo que a nossa proximidade nos dá uma posição de espectador privilegiada, não parece haver dúvidas de que o Brasil é muito mais definido, aberto e culturalmente imensamente mais rico do que a Austrália. Eu não sei bem o que preferira mas estou convencido que se pensarem nisto a sério os brasileiros não ficarão assim tanto entusiasmados com o cenário da hipotética troca do Cabral pelo Cook.

24 julho 2007

Tartaristão

Já ouviram falar na república russa do Tartaristão? Eu, até há bem pouco tempo, nem sequer tinha a mínima ideia de que isso podia ser nome de terra. Ouvi-o numa curta conversa, mas não o consegui fixar na altura. É a terra donde vinham os olhos brilhantes, curiosos e muito jovens da Elsa. Só lá cheguei porque no último momento o referiu como país de origem dos “camiões do Dakar” e fui daí para trás até encontrar o nome. Animava temporariamente rebanhos de turistas na Turquia, a vários milhares quilómetros de casa. Experiência e desafio. Daquelas coisas de que se têm muitas dúvidas de como irá acabar.

E lembrei-me de há quase dois anos, algures no meio do Paraná, num jantar de recepção de um congresso, da Bianca. Tinha apenas 19 anos mas cantava como gente grande. Interpretou o “Como os nossos pais” da Elis Regina de forma verdadeiramente magistral. Terminado o jantar, ficaram todas as mesas vazias, excepto a minha em que sozinho tive direito a uma espécie de discos pedidos de Música Popular Brasileira. No final conversámos um pouco, quis saber de Portugal, se era fácil fazer carreira, tinha amigas que para lá tinham ido e não sabia mais nada delas...(?!) Tinha capacidade e ambição mas parecia asfixiada no Sul do Brasil, onde tentar ser artista não é bem visto. O país do samba não rima todo por igual.

Ignoro se a Bianca saiu do Paraná ou se a Elsa regressará ao Tartaristão. Isto de subir a um palco no grande palco do mundo não é fácil.

23 outubro 2005

Claques e torcidas


Notícia de primeira página na “Folha de S. Paulo” de 19.10.2005.

São Paulo e Ponte Preta jogam hoje em Campinas sob o temor da onda de violência que matou três torcedores desde domingo. Em um dos casos, são-paulinos espancaram até à morte um torcedor da Ponte.
O jogo é um dos remarcados devido às fraudes no Brasileiro. A partida anulada fora vencida pelo Ponte (1 a 0). [...]
Os torcedores mortos foram enterrados ontem, em clima de revolta. As torcidas organizadas podem ser proibidas de usar suas camisas (trad. camisolas).

Isto pode ser visto como uma boa notícia para nós: as nossas claques não chegam a este ponto!

Ou como uma má: aonde isto pode chegar...!

22 julho 2005

O carácter das línguas

Em recente viagem de trabalho na Tunísia surpreendi-me com a quantidade de termos franceses misturados nos diálogos em árabe. Alguns de neologismos/ conceitos importados, tipo “boîte de vitesse” e outros aparentemente só por simpatia e derivados de uma conversação anterior em francês. Achei que tal permissividade não era nada elevada nem sinónimo de carácter da língua.

Ironicamente, dou por mim, em seguida, a falar em Português ao telefone, face aos árabes, e a dizer, repetidamente, “transhipment” em vez de transbordo. Concluí que o efeito não seria muito diferente nem, pior ainda, tão raro.

Que pensará um inglês, quando no meio de um discurso em Português, ouvir “coffee break”, “after shave”, “teenager”, “low profile” ou “drink”?

Algumas destas importações têm a ver com neologismos. O “basketball”, pode ser adoptado foneticamente como basquetebol ou ser traduzido para um “balón cesto” como fizeram os espanhóis. Este fenómeno toca todas as línguas. Ao fruto castanha chama-se em flamengo “kastanje”, cujo som nos é muito familiar.

Há outro grupo mais grave. É o imigrante que fala da casa tipo “maison” com janelas tipo “fenêtres”. É também o gestor moderno que acha que a aplicação dos conceitos será mais pura se usar vocabulário de origem. Assim, fala de “assessment” em vez de avaliação e de” training” em vez de formação. Evidentemente um problema de distracção e/ou presunção e/ou ignorância.

Curiosamente os franceses, que tiveram a coragem de inventar o “octets” para fugir ao aparentemente incontornável “byte”, resolveram trocar o “fin de semaine” pelo “week end”,

Sintomático é o caso da informática. No primeiro embate, nem se consegue discernir que “file” é ficheiro e “folder” pasta. Li uma vez que “a competência dum especialista é inversamente proporcional ao número de “palavrões” que utiliza e desconhecidos pelos leigos”. Quem sabe, traduz e clarifica, quem não sabe debita chavões para impressionar. A posterior introdução de versões portuguesas de software tem “nacionalizado” muitos termos. Horrível e lastimável é, pelo contrário, a adopção do Brasileiro, por exemplo, no SAP (planejamento, estoques, faturamento, etc).

Recuando um pouco mais, a influência cultural francesa, no final do século XIX, inundou o Português da altura de inúmeras palavras francesas porque era chique. Como um motorista francês é mais fino do que um português, um motorista fino português chamar-se-ia então chauffeur.

Indo ainda mais atrás, porque é que um médico de crianças se chama pediatra (Grego: “paidós”/criança + “iatros”/médico)? Porque é que uma cidade do mundo se chama cosmopolita (Grego; “Kosmos”/mundo + “polis”/cidade). Foi presunção de, numa dada altura, o grego ter sido considerado elevado e assim ter invadido toda a linguagem erudita? Não sei. O que é um facto é que hoje está na língua e, enquanto um chauffer talvez esteja de saída, o pediatra não. Nota à parte: na minha opinião, para bem entender Português, é mais importante estudar grego do que latim. É impressionante a quantidade de étimos gregos que temos e cujo conhecimento muito ajudaria a bem a dominar a nossa língua.

Não é raro coexistir mais do que uma palavra, de diferentes origens, para o mesmo conceito, sem clarificação rigorosa das diferenças de aplicação como o cavalo do latim vulgar, o equestre do latim erudito e o hípico do grego. Obviamente as línguas evoluem mas que valor acrescentado terá ficarem consagrados no Português o “drinque” e o “trainingue” e todos os outros “ings” que por aí andam?