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19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

01 dezembro 2025

Porto, Porto, Porto


Ir ao Porto, tirar umas fotografias. Certo, não faltarão na Invicta temas para dar o gosto ao dedo, mas…

Tantos turistas, não é? E como fotografar a cidade sem aparecer a ponte D Luís, a torre dos Clérigos ou serra do Pilar? E como colocar esta santíssima trindade iconográfica da cidade em fotos que não sejam iguais aos milhares de milhões já realizadas…?  

Parti com duas ideias alternativas e complementares. Procurar um registo a evidenciar a “overdose” turística e, antes ou depois, entrar pelos becos e quelhos supostamente menos expostos às incursões e longe do tal trio omnipresente.

Só que isto de fotografar é como caçar, ou talvez seja, dado que nunca saí a caçar. Vai-se por aí fora e logo se vê o que salta à nossa frente, a pedir o disparo.

E, pronto, lá saíram as fotos, das quais uma seleção está aqui. Se a santíssima trindade do bom Porto lá aparece, será por mero acaso.

06 setembro 2025

Onde a eletrónica não chega


Há umas boas dúzias de anos, alguém me explicava como tirar uma fotografia “a sério”. Vais com o fotómetro à cena e medes a luz. Arbitras a focal e considerando a sensibilidade do filme, consultas uma tabela para ver qual a abertura correspondente, para uma exposição correta e ajustas a máquina para esses valores. Olhas pelo visor e rodas o anel de focagem até teres a máxima nitidez onde a queres ter. Enquadras e disparas! Ufa..

Desde esses tempos, muita coisa evoluiu e se automatizou, tanto que para uma larga maioria das fotografias, basta a última frase: Enquadrar e disparar… Certo que em circunstâncias especificas dá jeito “ajudar” a máquina a entender o que pretendemos em termos de exposição ou focagem, mas elas estão cada vez mais inteligentes e até tentam adivinhar se queremos modo paisagem ou retrato, por exemplo.

Hoje, é bastante difícil não ter uma foto tecnicamente perfeita, dentro dos limites do equipamento, naturalmente. Focagem automática, equilíbrio de brancos (tirar a cor da iluminação, caso não branca, da cor das coisas) e gama dinâmica (quando uma imagem é demasiada contrastada para ter simultaneamente detalhe nos escuros e claros não queimados), são tudo coisas que deixaram de ter história e necessidade de intervenção manual

Até a redução de ruído, quando temos “grão” na imagem, porque o fraco sinal não é visto de forma homogénea por todo o sensor, e que começou por ser grosseiras pinceladas um pouco borratadas quando vistas de perto, passou a ser muito mais fino e eficaz. Dizem que com a ajuda da IA.

Há, no entanto, uma coisa física em que a eletrónica não resolve. A filtragem da polarização. A luz é uma onda que se propaga. Quando, analogamente, sacudimos uma corda, podemos gerar ondas horizontais ou verticais. Isso serão diferentes polarizações. Se fizermos essa corda passar por uma grelha vertical, por exemplo, as ondas verticais passam e as horizontais são bloqueadas e vêm para trás… entendido até aqui? (senão google 😊)

A luz do sol, que não tem polarização preferencial, em certas circunstâncias, ao ser refletida, a reflexão é polarizada (só com uma única direção de “oscilação”). Se fizemos passar essa luz por uma “grade ótica”, que corta uma dada direção, e rodarmos a grade até chegar à direção especifica em causa, essa luz não passa.

Um exemplo dessa reflexão é na água. Se colocar um “filtro polarizador circular” em frente da minha objetiva e o rodar corretamente, posso fotografar os peixinhos no fundo de uma poça de água, mesmo que os meus olhos ao olhar diretamente apenas vejam a luz espelhada à superfície. A imagem acima é um exemplo de duas fotos no mesmo local, com a polarização aberta e fechada.

Outro caso, muito interessante, tem a ver com o céu. O azul que vemos, não é a cor do mesmo, é o resultado da sua iluminação pela luz do Sol. Ao final do dia, noutras condições, até vai para os vermelhos. Há uma componente refletida, resultando num céu mais esbranquiçado … e que é polarizada! Se bloquearmos essa componente através do tal filtro, vamos ver um céu de um azul muito mais escuro e bonito…

Acho que os algoritmos ainda não conseguem fazer isto!


 

09 setembro 2018

Sigam o líder

Em 2013 a Sony lançou uma coisa nova e revolucionária, uma família de máquinas a sério, de sensor “full frame”, sem espelho: as famosas A7, declinadas em três versões e hoje na terceira geração.

Os Canikon, que já tinham dada pouca importância ao “sem espelho” para sensor intermédio APS-C (a Nikon ignorando-o mesmo de todo), continuaram a promover as vantagens do espelhinho, uma peça móvel, que ocupa espaço, que coloca problemas de calibração de focagem, mas que permite ver o cenário ao vivo, como muito gente não dispensa.

Respeitando gostos e opiniões, com os visores eletrónicos atuais e ultrapassadas algumas questões tecnológicas iniciais, preferir hoje o visor ótico, muito menos flexível e informativo, pela “sensação” de ver, para mim é como defender arrancar o motor de um automóvel com manivela em vez de motor de arranque, porque assim se sente melhor quando ele pega…

Estes dias, com um intervalo apenas de duas semanas, os Canikon apresentaram finalmente as suas famílias “espelholess”, apenas 5 anos depois do líder. Obviamente que as famílias anteriores, com manivela, não desaparecem, até porque é aí que eles têm o seu mercado consolidado e também ainda não se sabe quanto vale mesmo na prática o desempenho das recém-nascidas.

Após tantos a menosprezar e a ignorar a inovação finalmente reconheceram e assumiram que os automóveis já não usam manivela.

04 setembro 2018

Passos passados

Este era um bom texto para o aniversário do blogue, mas como maio ainda vem hoje e as efemérides são como o Natal, quando um homem quiser, e eu gosto de ter a liberdade de invocar o que me apetece quando me apetece, sai hoje.

O sítio onde estamos é fruto do caminho que fizemos. Cada passo dado, certeiro ou desajustado, foi uma parte desse percurso. Podem ser de louvar ou de lamentar, mas nunca de apagar ou esquecer. Especialmente os passos dados públicos e publicados, porque até por definição, o que é colocado a público não pode ser revertido.

Ao longo de uma dúzia e meia de anos de publicação, acontece-me por vezes cair numa coisa antiga e achá-la atual e bem-feita ou fraca, equivocada e imperfeita. Vejo hoje fotos publicadas há uma dúzia de anos que estão mesmo a precisar de um toquezinho aqui ou acolá… ou de um caixote do lixo. Mas deixo-os estar, por fazerem parte do meu caminho, porque apagá-las ou alterá-las seria apagar ou “retificar” o que eu fui. Dramático? Não, mas importante.

Daí a necessidade de bem refletir antes de tornar algo público. Por definição, não é reversível.

25 julho 2018

O tamanho conta?


Quando se fala em categorias de máquinas fotográficas, para lá das simpatias clubísticas pela marca do coração, para lá de mais ou menos versatilidade, transportabilidade e sofisticação tecnológica, existe um parâmetro fundamental para a qualidade do resultado final, que é o tamanho do sensor.

Simplificadamente, há os de 35mm, do tamanho da antiga película, usado por profissionais e amadores endinheirados (se excluirmos uma invenção da Sony que puxou o nível de entrada mais para baixo), os mais populares APS-C, do nome de um antigo filme, linearmente cerca de 1,5 mais pequenos do que os anteriores, e os “minorcas”, fração de polegada, das compactas, superzooms e telemóveis. Estes últimos não têm tamanho standard, mas linearmente são cerca de 4 vezes ainda mais pequenos do que os APS-C. Para resoluções próximas é óbvio que o sensor minorca será construído com elementos mais pequenos e que isso tem um preço na qualidade da imagem. Ou seja, o tamanho conta.

No entanto, os telemóveis começam a tirar fotografias “agradáveis” de ver, especialmente se forem visualizadas num pequeno écran…. de telemóvel. Recentemente li um artigo (até num sítio sério) que questionava o tal dogma de “o tamanho conta”. A parafernália de softwares de otimização, realce, correções e o diabo ao pixel, fazem os sensores minorcas parecerem gente grande. Tenho que concordar que o meu telemóvel me apresenta muitas vezes imagens bastante crocantes, muito para lá da minha expetativa.

Uma das caraterísticas que se perde com os sensores pequenos é a possibilidade de desfocagem do fundo e o destaque do elemento principal nos retratos. Mais uma vez, há software para “resolver”. Devo dizer que acho bastante artificiais algumas imagens assim tratadas, apresentando um “bokeh liquido”… questão de gosto e não gosto.

Softwares, softwares… imagens à parte.

13 março 2018

Quando menos é mais


Por estes dias, tenho-me entretido a editar fortemente algumas fotos, com resultados como o do exemplo aqui publicado. De forma simplificada, retirei a cor, contraste e detalhe e puxei a exposição ao que achei ser o máximo possível antes de estourar, eliminando zonas escuras.

Objetivamente, a fotografia fica com menos conteúdo, perdeu cor, perdeu nitidez e a amplitude de tons ficou esmagada. Mais pobre, por isso? Não necessariamente, mesmo com a devida ressalva do “gostos não se discutem”, ficou mais bonita, sendo que um mérito fundamental está na origem, neste caso na Jennifer.

Quando pensei neste texto, inicialmente apareceu-me a palavra “desconstrução”, mas recusei-a. Tenho-lhe alguma alergia. Evoca-me quem nunca construiu, não imagina bem o que isso seja, acha que está mal e tem muito gozo em desconstruir, sem ter grandes ideias de como depois fazer algo de novo. Valorizo mais o (re)construir e o evoluir.

Ficou então a frase que dá o título lá em cima: “Quando menos é mais”. Noutro campo, no das palavras, rever e melhorar é para mim sinónimo de reduzir e simplificar; cortar e apurar. No caso desta e das outras fotografias revisitadas, diria, de forma grosseira, que uma máquina com metade da resolução e com uma lente mais básica conseguiriam o mesmo resultado. Coisas a tomar em consideração antes de dar prioridade a ligar complicómetros e achar que tudo se resolve complexificando e sosfisticando.

24 fevereiro 2018

World Press Photo


A imagem acima do argelino Hocine Zaourar ganhou o prémio “World Press Photo” em 1997. Ficou conhecida como a Madona de Benthala e a imagem foi captada no dia seguinte ao terrível massacre ocorrido nessa pequena aldeia da periferia de Argel em 22 de setembro desse ano. A imagem é muito forte, apesar de tudo não tão forte quanto ao massacre em si, onde paulatinamente e metodicamente um comando de supostos terroristas islâmicos andou durante largas horas, de casa em casa, degolando, rachando cabeças à machadada e, para as crianças mais pequenas, projetando-as e rebentando-lhes o crânio contra as paredes, sem ser minimamente incomodado pelas forças da ordem posicionadas nas proximidades e, no final, abandonou calmamente o local no final, sem sobressaltos. Ainda hoje há dúvidas por esclarecer quanto aos autores e motivações desses massacres bárbaros, ocorridos nessa altura.

Como detalhe, a foto foi publicada em centenas de jornais no mundo, mas pouco apreciada no país de origem, onde o seu autor foi processado e acabou por ver ser-lhe retirada a acreditação profissional e, assim, impedido de trabalhar.

Esta história ocorre-me ao ver anunciados os finalistas ao WP deste ano e ao constatar a enorme percentagem de fotos de cenários de guerra ou de tragédia humana. Sim, a fotografia, especialmente de reportagem, serve para tornar visível desgraças em curso; não, a fotografia, mesmo de reportagem, não deveria ser apenas de desgraça; não, o entender das desgraças não deve ficar apenas pelas fotografias, por mais espetaculares e eloquentes que sejam. Sobre a história para lá da foto de 1997, recomendo “Qui a tué à Benthala” de Yous Nesroulah… e não o tentar comprar no país de origem.

23 abril 2017

Festival de Folclore Internacional do Alto Minho


Foi em 2011 que para mim começou, embora já existisse há muitos anos. Apareci lá com a 50mm quase a estrear e foi talvez a primeira vez que puxei por ela a sério e muito inseguro. O espetáculo foi interrompido pela chuva e quando retomou, com o palco encharcado, foi para exibições atípicas e sossegadas.

No final, a organização pediu-me para partilhar algumas fotografias, coisa que, quando se começa, nunca se sabe bem onde acaba, :) . A partir daí, nunca falhei nenhuma das edições seguintes e a minha aprendizagem fotográfica deve muito ao FFIAM.

Sei agora que o Festival deixará ser o que era, afogado na pequena política que grassa na politiquice em geral. Se é verdade que tudo tem um fim, é de realçar ser por estas tacanhezas, por estes patéticos pequenos poderes que somos e seremos pequenos, não é pelas piadas parvas de um holandês.

Fica-me a satisfação e o gosto de ter dado a foto para a cartaz da última edição e agradecer a quem o fez durante todos estes anos e … a quem me ajudou a fotografar melhor. A vida continua, mais assim ou mais assado.

26 julho 2016

FFIAM




Se fotografar a sério é com uma focal fixa, foi no Festival de Folclore Internacional do Alto Minho de 2011 que eu usei a minha primeira fixa, 50mm f/1.8, a sério.

O FFIAM é uma parte significativa do meu percurso de aprendizagem. Para este ano escolheram uma foto minha da edição do ano passado para o cartaz do evento.

29 junho 2016

Desafio superado

Se esta não é a minha primeira e única selfie, pouco menos. Uma vez sugeri que junto a cada um destes registos se tentasse acrescentar uma reflexão: “Quem sou eu aqui, o que aprendi e o que ficou deste momento?”.

Assim sendo, refletindo e justificando... O alto da Serra de Arga é desafiante. Há cerca de 3 anos, quando comecei a pedalar com mais regularidade, olhei para o alto daquela muralha e pensei: será um bom desafio, questão de preparação. E lá fui pedalando, melhorando a forma e subindo, mas sem passar duma escala 4 vezes inferior à do desafio.

Há cerca de um ano e meio atrás a forma caiu bastante, sem eu saber porquê. O âmbito das pedaladas e a altitude alcançada encolheram bastante. A seguir soube o porquê da limitação, felizmente identificada e tratada. Devagarinho e com cuidadinho retomei o desenvolvimento da forma.

Dia 24/6, feriado no Porto, saí de Viana sem grandes restrições de horário. O objetivo inicial até era rolar kms, mais do que subir metros. O primeiro destino pensado era Cerveira, mas o vento norte soprava tão desconfortável, que em Ancora desviei para o interior. Daí, para fazer distancia, podia ser Lanheses e Ponte de Lima, ou subindo um pouco Dem e Caminha, ou, puxando mais um pouco, Dem, Arga e Covas.

Puxar, por puxar…, vi a majestosa muralha à minha frente, a forma estava boa e o ritmo bem marcado. Tão entretido e animado ia que, quando as coisas começam a complicar em Amonde, um excesso de confiança fez acordar um bichito, sequela de um excesso antigo, que me morde um joelho de vez em quando. Entrei na reta de S. Lourenço com sérias dúvidas sobre se a viagem acabaria ali, mas o bicho acabou por adormecer e sossegar.

Como não tinha preparado a viagem, e há muito tempo não pensava naquilo, nem me recordava se a altitude total eram 500, 600 ou 800m. Também não liguei o mapa do GPS. Fui apenas avançando de curva em curva, acreditando ter sempre uma pedalada mais para dar. Não valia a pena ver os km’s arrastarem-se nem olhar para a miserável velocidade linear. Para lá da FC, apenas lia o altímetro que, esse sim, mexia-se bem. Parei duas ou três vezes, um ou dois minutos. O tempo de verificar a pressão dos pneus, deixar arrefecer a temperatura da água do motor, essas coisas…

Depois de 7 km a moer, cheguei, bem moído, e o altímetro marcava 794 m. Praticamente o dobro do meu topo anterior. Encostei a bicicleta e achei que valia uma selfie. Desafio superado.

08 maio 2016

Uma novidade


No (excelente) programa “Visita Guiada” que foi para o ar na RTP2 na passada semana, o tema foi o barroco da igreja da Misericórdia de Viana do Castelo. No final do programa foi explorada a eventual relação entre aquele barroco específico Vianense os trajes tradicionais da região.

As fotos foram minhas, escolhidas da página do Grupo Etnográfico de Areosa. Um momento alto da minha atividade fotográfica e penso que dificilmente superável!

12 abril 2016

Que é isto?


Na recentemente lançada Nikon D5 era apresentado um valor para a sensibilidade máxima de 3 280 000 ISO. Considerando que há uns dez de anos atrás um valor limite decente andaria pelos 800 e o máximo pelos 3200, passando estes valores para 1600 e 12800 meia dúzia de anos depois, parece incrível realmente já estarmos na casa dos milhões! Deu uns títulos cheios de pontos exclamação!!!

Bom… num teste recente da “Imaging Resource” era apresentada uma imagem tirada com a tal sensibilidade máxima, para a cena acima, o resultado é este:


Uns brincalhões!!!

19 fevereiro 2016

Mais um neo clássico


A Renault anunciou um novo modelo (até mesmo uma nova marca) inspirado nos míticos Alpine Renault dos anos 60, como a fotografia acima evidencia. Desconhecendo-se ainda o sucesso que encontrará, até por se dirigir a um público relativamente restrito, este revisitar do clássico francês recorda os casos de sucesso anteriores do Mini inglês, do Carocha alemão e do Fiat 500 italiano.

Estas iniciativas não se restringem aos automóveis. Na área da fotografia, por exemplo, a Fuji e a Olympus tiveram um enorme sucesso com novos (bons) modelos de “look” retro.

Será que as marcas possuem um património afetivo que com a evolução negligenciaram e numa dada altura descobrem existir ali um valor a recuperar? E o desenvolvimento e rentabilização dessa riqueza passa obrigatoriamente por uma descontinuidade, que permita posteriormente identificar e caraterizar o “antigo”?

Será que isto acontece por a moda ser tipicamente cíclica? Penso que não, pelo menos no caso dos automóveis. Há demasiada emoção e paixão para ser apenas questão de “hoje diferente de ontem”. O caráter cíclico manifesta-se mais na alternância entre linhas redondas/vincadas, cintura alta/baixa...

Será que as linhas “antigas” tinham uma linguagem muito mais expressiva e uma identidade mais forte do que atualmente? A otimização dos espaços e da performance deixou pouco espaço à criatividade…? Será que isto é um caso de nostalgia pura, do “antigamente é que era bom”? Talvez, mas, por exemplo, entre os atuais utilizadores do Fiat 500 quantos nem sequer tinham antes ouvido falar do original?

Pondo o assunto noutra perspetiva. Quando daqui a 40 anos um construtor automóvel pensar em fazer uma versão “retro” de um modelo marcante, que poderá escolher dentro do parque atual? Excluindo o mítico (fica sempre bem este adjetivo…) Fiat Múltipla, muito pouco consensual, quais são os modelos hoje na estrada, que acenderão uma luzinha e um sorriso nostálgico quando forem revistos dentro de umas décadas? Assim de repente, apontaria o Honda Civic, tipo pequena nave espacial… E os modelos que se destacarão serão simplesmente os que correspondam a um “look” que entretanto desapareceu, questão de alternância simples, ou serão os que despertam, e despertarão, paixões, questão de linguagem forte?

É de realçar que o parque de veículos dos anos 60 e 70 apaixonantes (míticos?), passíveis de serem revisitados, está muito longe de esgotado. Assim, no imediato, e para colocar ao lado deste neo Alpine, que tal um neo Stratos? Uau!!! Por falar em Alpine e Stratos, de uma coisa estou certo: dos carros que atualmente vemos a ganhar ralis, não ficará nenhum para a história da paixão.


Foto da promoção oficial da Renault

01 novembro 2015

Arcozelo à lupa

O processo começa em 1985, quando no âmbito do FACA se realizou e expôs um levantamento fotográfico da freguesia. Findo o evento, as fotografias foram colocadas dentro de um grande e sólido saco plástico e aí hibernaram.

Reencontradas mais tarde, pediam o desafio de comparar o Arcozelo de 1985 com o de hoje. O primeiro objetivo era repassar os mesmos locais, 30 anos depois. A leitura das fotos de 85, nessa perspetiva, levantou algumas questões. Para locais que mudaram de função, manter o local ou a função; para quem já não está, recordar a obra ou procurar novos saberes?

O passo seguinte foi ler as fotos e agrega-las por temas. O mar, a terra (agricultura), a fé, os ambientes, o emprego, as coletividades, as infraestruturas e os saberes. A partir daqui, tornou-se mais fácil definir a nova leitura desses temas.

A freguesia foi dividida em 14 zonas e, durante 41 horas, palmilhei ruas, esquinas, becos e campos. Todo o tipo de caminhos e até mesmo onde não os havia. Fui registando o planeado e acrescentando o que me ia falando, durante essas andanças. Ou porque estava igual ao que a minha memória sempre recordara, ou pela precaridade pressentida, ou, claramente, pela transformação, por vezes brutal, constatada. Outros olhares certamente destacariam outras coisas, diferentes.

A fase dos exteriores está concluída. Do que está feito falta analisar, classificar, retocar e repetir o que for necessário. O capítulo dos “saberes” ainda tem um bom bocado para andar...

31 maio 2015

Sobre o próprio

Num tempo não muito longínquo, uma autofotografia (fugindo, para já, à “inglesite”) praticamente só existia num contexto de grupo. Usava-se o temporizador da máquina, pousada em local improvisado, e corria-se para o lugar vazio à nossa espera, no meio de mais uns tantos.

Hoje é muito mais fácil e barato tirar fotografias, há quase sempre uma máquina à mão no telemóvel, mas penso que não é apenas isso que justifica a quase obsessão pelas “selfies”. É como se houvesse uma necessidade imperiosa de registar a cada passo onde se esteve, com quem e o que se fez. O princípio em si não é grave, o problema está na proporção. Pode ser mais importante investir o tempo face a uma paisagem ou a uma obra de arte em aprecia-las do que em fazer um registo precipitado para a galeria dos “esteve…”.

O que somos depende, certamente, donde estivemos, com quem e do que fizemos. Essas imagens podem ser um registo importante na construção da identidade de cada um. Mas não chegam! Uma sugestão e um desafio: junto a cada “selfie”, tentar acrescentar uma reflexão: “Quem sou eu aqui, o que aprendi e o que ficou deste momento?”.

11 março 2015

A não fotografia do ano


Ainda não são 8 horas da manhã e rolo há mais de uma hora na estrada Rabat – Beni Mellal, quase sempre sob nevoeiro, daqueles que tornam difícil qualquer ultrapassagem, por mais longas que sejam as rectas. Alguns quilómetros antes de Romani, anuncia-se uma mudança. O Sol quer romper e ainda bastante horizontal.

À minha frente ilumina-se um pano de fundo branco e brilhante. Como se se tivesse aberto uma janela a toda a altura e largura do cenário, jorrando uma luz intensa, dando um aspecto fantasmagórico ao contraluz das arvores na berma da estrada.

O mais impressionante está para vir a seguir. Um grupo de gente a trabalhar no campo, curvados, de frente para a parede de luz. Parece uma celebração. Atónito, abrando, apreciando aquela visão incrível, para desespero do “grand táxi” colado atrás de mim, já antes irritado pela minha velocidade no nevoeiro. Saboreio a imagem e penso: que fotografia fantástica isto dava…!

Rolo mais umas centenas de metros, pressionado pelo “grand táxi”, pensando se volto mesmo para trás ou não, para o registo precioso. Não voltei e ganhei o lamento de ter perdido a fotografia do ano… Fiquei com a imagem gravada e acrescentei-lhe uma mensagem: nem tudo na vida necessita de ser fisicamente registado. A beleza indiscutível dispensa registos obsessivos: basta a sua recordação na nossa memória.