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28 abril 2026

Os que comem tudo!


Em 1963, José Afonso gravava “Os vampiros”, invetivando aqueles que “Comem tudo e não deixam nada”. Nessa data era óbvio a quem a metáfora se dirigia. Aqueles que o viveram, o sentiram ou hoje pensam sentir, continuam a vibrar com a denúncia dos “Senhores à força, mandadores sem lei”…

Agora, agora, hoje, esses vampiros de 1963 estão bem mortos e enterrados. Haverá o risco do bando voltar, procurando “chupar o sangue fresco da manada”? O risco naturalmente existe sempre, mas, sinceramente, a sua probabilidade de sucesso é bastante limitada para justificar uma dramática mobilização contra esses específicos “pés de veludo”.

Agora, agora, hoje, não haverá por acaso outros tipos de vampiragem que por aí andam a comer tudo …? Mais do que romanticamente vituperar os vampiros de 1963, protagonistas de um contexto que já não existe há décadas, não será mais útil denunciar os parasitas que em 2026 por cá vagueiam impunes e vistosos …?

Atualizado a 06 05 2026 com a publicação no Público



17 abril 2026

José Luís Tinoco


Alguém se recorda da canção que venceu o Festival da Canção há 5 anos? Ou o de há 10…?

No entanto, todos ou quase todos se recordarão daquela que ficou em terceiro lugar há 50 anos, em 1976. Termina assim:

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda me escapa

E um verso em branco à espera do futuro

E a primeira voz pela qual a ouvimos era a de Carlos do Carmo

Sim, era de uma época em que as canções tinham letras, melodias e interpretações que venciam o tempo.

Esta semana deixou-nos o seu autor, José Luís Tinoco, mas também nos deixou belas obras, que jamais esqueceremos!

(No teu Poema)

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte

21 dezembro 2025

Parabéns, Pink Floyd

O álbum “Wish You Here” dos Pink Floyd lançado em 1975, teve uma reedição que agora, 50 anos depois, voltou a alcançar o primeiro lugar no top das vendas do UK. É obra.

Já há 20 anos, eu dizia aqui que por anos e anos, eles est(ar)ão aqui. Não me enganei, mas a suposição era também de baixo risco.

Adicionalmente curioso é esta obra nem ser das mais “fáceis” de ouvir, pelo menos dentro dos padrões “populares” habituais. Logo o primeiro tema “Shine on you crazy Diamond” dura mais de 13 minutos e é necessário esperar 8 minutos até ouvir uma voz, depois da guitarra de David Gilmour cantar antes.

Alguém me consegue identificar uma obra criada recentemente que dentro de meio século consiga voltar ao topo das vendas? Não sei, mas, pode ser da idade, não estou a ver (nem a ouvir…) 

 

20 dezembro 2025

Nuno Rodrigues


Há poucos dias deixou-nos Nuno Rodrigues. Talvez os mais novos apenas o associem à polémica e processo com o plagiador Tony Carreira. Tudo terá começado quando a vedeta proibiu a editora de Nuno Rodrigues de vender “covers” das suas músicas, apesar de tudo ter sido tratado conforme as normas dos direitos de autor. Daí azedou e foram para tribunal pelos 11 “sucessos” que o Tony pouco inspirado copiou…

Não é por isso que o devemos recordar hoje. Para lá de um enorme trabalho de criação, edição e produção de muito da boa música que foi feita em Portugal, acho relevante assinalar a originalidade da “Banda do Casaco”, que ele criou e alimentou com António Avelar Pinho. O grupo foi (e é) um verdadeiro caso sério de música feita em Portugal, ultrapassando estilos e viajando por uma enorme diversidade de mundos musicais, excelentemente acompanhados de músicos, técnicos e interpretes.

Em 2013 a CNM, editora de Nuno Rodrigues, reeditou a discografia remasterizada. Um verdadeiro tesouro, do qual sou um dos felizes proprietários. Vale a pena revisitar, apreciar e valorizar.

“A loucura cura
Quando é tão pura.
E dura toda a vida,
Que só é pouca
Se pouca louca”

Amo Tracinho-te
Contos da Barbearia

27 agosto 2024

Foi ontem


Já disse aí para trás e agora repito que o Glosa Crua não vai muita nessas coisas das efemérides. Mas há sempre exceções e, como a data até foi ontem, fica justificado.

Ontem, a 26 de agosto, fez 36 anos que faleceu Carlos Paião, com apenas 30 anos de vida. Certo que este escritor de canções nunca teve o reconhecimento de outros “monstros sagrados”, mas, passado mais tempo da sua morte do que o tempo da sua vida, não restam dúvidas de que há algo a reconhecer.

Certo que as suas canções não tiveram pretensões de intervenção social ou complexidade formal de outros autores, mas … tão pouco se podem aproximar da básica e grosseira banalidade das canções de outras “variedades”.

Há uma simplicidade e elegância nas suas criações que não aparecem por acaso. No caso particular das letras, que sei avaliar melhor, há apuro e o trabalho de algo que não foi feito em cima do joelho.

Por isso há festa não há gente como esta
Quando a vida nos empresta uns foguetes de ilusão
Vem a fanfarra e os miúdos, a algazarra
Vai-se o povo que se agarra pra passar a procissão
E são atletas, corredores de bicicletas
E palavras indiscretas na boca de algum rapaz
E as barracas mais os cortes nas casacas
Os conjuntos, as ressacas e outro brinde que se faz

Obrigado Carlos pela festa que quiseste fazer e por teres decidido deixado de ser médico para dares alegrias ao mundo.

E vai à nossa
À nossa beira mar
À beira Porto
À vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o desconforto
Para o que anda torto
Neste navegar

07 julho 2024

A Memória dos Dias

 

Correste a dizer que o dia vinha às portas da saudade

E cobriste de mil flores as varandas da cidade

Ao cantar enrouqueceste mil canções feitas à toa

Dançaste todas as ruas embriagadas de Lisboa

Leste os clássicos do tempo como toda a novidade

E a sonhar adormeceste no prazer da liberdade

Inventando mil amigos

Esquecendo velhos perigos


Não foi ontem que Fausto nos deixou fisicamente, mas as suas canções ficarão para sempre nas nossas memórias e nos nossos dias. Vi-o 3 ou 4 vezes em concertos, o último dos quais o “Três Cantos”, mas, mais do que ver, há ouvir e continuaremos a ouvi-lo.

Bastam uns poucos primeiros compassos para identificar o cantante autor em cada canção. Se “Por este rio acima” é a obra completa, não faz esquecer a magia do “Despertar dos Alquimistas” ou a delicadeza do “Para além das cordilheiras”.

 Pela beleza das melodias, pela doçura da voz, pelo brilho das orquestrações, pela riqueza das palavras, Fausto ficará na nossa memória para todos os dias e no património cultural de Portugal para sempre.

Vêm do fundo da paz da terra os sonhadores…

05 março 2024

Valores mais altos


Esqueçam se a Anita é ou não é bonita, dispensem as favas com chouriço e despeçam-se dos addio, adieu, aufwiedersehen e outros que tais.

Ponham noutra prateleira as melodias bonitinhas e algo melosas das rosas que se dão, das cabanas junto às praias e os convites a vir viver a vida.

Do alto dos seus enérgicos 82 anos, José Cid, parece mais determinado a promover e a recordar um trabalho dos anos 70, discreto, mas que é talvez uma das melhores obras musicais jamais produzidas em Portugal.

Este sábado passado apresentou em Guimarães um espetáculo absolutamente soberbo pela beleza e genialidade dos temas, assim como pela qualidade da execução. Felizmente a RTP esteve lá com uma enorme mobilização de meios e será possível ver no futuro um registo deste memorável serão.

Estou a falar do álbum de rock progressivo (sinfónico?) “10 000 Anos depois entre Vénus e Marte”. É estranho como este trabalho genial não teve um mínimo da projeção merecida. Eu próprio que não sou especialista, mas também não completamente distraído, só o descobri umas boas décadas depois da sua publicação original em 1978.

Acredito que uma boa parte das pessoas que encheram o Multiusos de Guimarães esperaria talvez outro reportório, mas pela reação no final, parecem ter gostado e ainda bem que se enchem grandes salas e se aplaude para lá do pimba … e outras simplicidades em curso.

Tem alguma lógica que nesta fase da vida José Cid se concentre neste legado, tendo também apresentando temas do seu recente álbum “Vozes do Além”, no mesmo registo. Faz sentido que partilhe e nos faça recordar as coisas que fez com um nível de esforço e de qualidade largamente acima do mediano. Obrigado !

E quem quiser ter uma ideia do trabalho original pode espreitar aqui

03 dezembro 2020

Alguma coisa acontece


Cantava Caetano Veloso que alguma coisa acontecia no seu coração, que só quando cruzava a Ipiranga e a Avenida São João…

Noutras latitudes, outras músicas, ou mesmo sem música, mas algo acontece no meu coração quando cruzo Passos Manuel e Santa Catarina, mesmo sem rimas e com uma toponímia muito menos sonante. Dispensando considerações arquitetónicas e históricas que não as sei fazer, aquele cruzamento tem algo de especial.

De um lado a Batalha, o meu porto de chegada ao Porto, durante muitos anos de transportes públicos; Santa Catarina, em boa hora pedonal, que rasga a cidade e onde se ancora uma boa parte do comércio tradicional; Passos Manuel que mergulha para o rio da Avenida, sendo que as ruas no Porto vão muitas vezes desaguar a rios e vales. E a subida para os “pobeiros” e para o porto mais profundo e popular, onde não há “spots” turísticos de nota e a cidade pouco mudou. Ali ao lado o Coliseu, onde tantos dias se ouviram coisas como o primeiro dia e a quem a cidade recusou o último dia. E depois, ao dobrar da esquina, o majestoso Majestic, agora a fechar as portas, indefinidamente.

A primeira reação é de um duplo lamento, pelo desaparecimento daquele espaço, de uma riqueza única no género e pelo que significa um café tradicional a menos na vida da cidade. Numa segunda vista, um café que cobra 5 Euros por um café, não é um café social da cidade. É um local a ser visitado por experiência, uma vez, em visita à cidade, que vive da rotação das experiências e da cadencia das aterragens em Francisco Sá Carneiro. Não seria possível “ter dado uma volta”…? Entre o Majestic fechado e o Imperial McDo, nem sei que diga.

01 dezembro 2020

De charanga y pandereta


Este título faz parte de um poema irónico e corrosivo sobre uma certa Espanha caricatural e retrógrada, escrito pelo andaluz António Machado (1875-1936). Encontrei-o num CD de Joan Manuel Serrat, de músicas feitas sobre textos do poeta, sendo a mais famosa a do “Caminante no hay camino, se hace camino al andar” e revi-o mais recentemente citado num livro sobre a Andaluzia, antes, durante e depois do domínio muçulmano: Andalousie, Vérités et Legendes, por Joseph Perez.

Lá como cá, esse período da história tende a ser visto de forma redutora, seja como um desvio pontual e rapidamente normalizado, seja como um período culturalmente rico que as armas castraram. Uma realidade que ultrapassa 5 séculos é naturalmente muito mais complexa e este livro veio-me parar às mãos no processo de mais aprender sobre o tema, mas esse não é o tema de hoje.

Sobre a imagem “típica” do flamengo, ciganos e touradas, da “charanga y pandereta”, diz J. Perez que sua popularidade cresce numa certa franja da população espanhola e muito fortemente na Andaluzia, como reação à tentativa de modernizar e de trazer ao país as luzes europeias, um efeito colateral das invasões napoleónicas do início de século XIX. Enquanto o pé direito carrega no acelerador, promovendo uma certa (a sua) ideia de evolução e modernidade, o esquerdo trava, reforçando a ligação ao passado e à especificidade local, contrariando o importado (para a imagem ser mais feliz, talvez os lados dos pedais devessem ser permutados).

É um processo relativamente comum de reação à mudança, especialmente presente em muitas comunidades expatriadas, que tanto se podem integrar, como amplificar o seu arreigo à identidade e cultura originais. Quanto mais me querem impingir hambúrgueres, mais aprecio a posta mirandesa. Menos ironicamente, podemos recordar como o Estado Novo utilizou e promoveu uma certa imagem da “cultura popular”, para bloquear o interesse e incentivar a falta do mesmo por coisas mais “modernas”…

As tradições tanto podem ser fonte de riqueza e raiz fecunda, como um lastro que atrasa a evolução. O empurrar a modernidade tanto pode ter como consequência um efetivo e positivo progresso como o enquistamento e um retrocesso nocivo. Nem o povo se educa e se desenvolve por decreto, por muitos iluminados que sejam/se julguem ser os legisladores, nem o congelamento em referências antigas tem futuro. Obviamente… ! E em nada ajuda a religião do fraturar, que tantos gostam de praticar…  quase um século depois, continuando a citar Machado, lá continuam e dificilmente reconciliáveis “las dos Españas”.


04 outubro 2020

Apropriação e integração


Fazem-me muita alergia as polémicas com as chamadas apropriações culturais. Alguém de uma cultura utilizar uma referência cultural de outra ser condenável como um roubo. Como se cada manifestação cultural e cada agente pudessem ser catalogados, associados inequivocamente a uma cultura específica e fosse possível construir muros à volta. Isto é inviável e a História da Humanidade e das Artes está cheia de belas realizações mestiças.

Ridicularizando o que o merece: se eu usar uma boina vasca, umas havaianas brasileiras, cozinhar uma pizza ou preparar um sushi… será aceitável? E aquele cabelo louro do Neymar?

Mas o fundo do problema não é esse, de todo. Se um branco se vestir de zulu e dançar conforme, será fortemente recriminado, se um negro se trajar a rigor e dançar o vira, é um bom exemplo de integração. Obviamente que há questões de gosto e mau gosto. Não aprecio de todo as varinas, tricanas e minhotas das marches populares, mas nunca me passou pela cabeça apelar à sua censura. As ditaduras do gosto acabam sempre em coisas feias.

Nos anos 80 a Brigada Vitor Jara pegou em temas tradicionais e interpretou-os com instrumentos populares, mas sem respeitar as suas regiões de origem. Um trabalho excelente, que muito contribuiu para lançar um grande interesse são pela música tradicional portuguesa. Mas … um cavaquinho ir colorir um tema da Beira Baixa ou um adufe vir marcar um do Minho? E as enormes influências africanas em muita boa música popular portuguesa? E o ukulele??


05 abril 2020

Viva quem canta


Na monotonia dramática do tema que tem monopolizado as notícias, há e haverá outras coisas que vale a pena evocar, não relacionadas com o dito cujo drama. É importante fazer um esforço e procurar mais mundo, mais gente e mais coisas a destacar. Sendo que mais vale tarde do que nunca, apetece-me evocar Pedro Barroso, recentemente falecido.

Um cantante autor popular, num dos sentidos mais puros e ricos do tema. A sua música entra por todos os ouvidos, simples de ouvir, mas não pobre. A difícil qualidade do não complicado. E aqui fica uma bela memória porque não vale a pena mais conversa inventar.

Menina em teu peito sinto o Tejo
E vontades marinheiras de aproar
Menina em teus lábios sinto fontes
De água doce que corre sem parar

Menina em teus olhos vejo espelhos
E em teus cabelos nuvens de encantar
E em teu corpo inteiro sinto feno
Rijo e tenro que nem sei explicar

Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar

Aprendi nos 'esteiros' com Soeiro
E aprendi na 'fanga' com Redol
Tenho no rio grande o mundo inteiro
E sinto o mundo inteiro no teu colo

Aprendi a amar a madrugada
Que desponta em mim quando sorris
És um rio cheio de água lavada
E dás rumo à fragata que escolhi

Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar

19 novembro 2019

Ser Cultura



Talvez, para alguns, seja maior referência o “Mudam-se os tempos…”, ou o “Cantigas de Maio”, ou “Os Sobreviventes”. Para mim é o “Ser Solidário” e um concerto no Coliseu a acabar mais tarde do que o do último comboio “decente”. E a primeira vez em que vi uma ponte para um fado, decente. E, mais tarde, o reencontro nos “Três Cantos”.

Hoje, certamente, o “FMI” teria uma escuta diferente, não por simpatia pela dita cuja instituição, mas porque … ainda bem que o mês de novembro aconteceu, pela liberdade.

Mas a altura não é para essas considerações. É para recordar e homenagear uma grande figura da cultura portuguesa. E essa coisa da cultura é maior do que o resto.

25 setembro 2018

Andamos para trás?


O senhor reproduzido nesta fotografia, créditos abaixo, é considerado pelos especialistas ter possuído uma das mais fantásticas vozes de sempre. Pela sua imagem e prática foi assumidamente homossexual, com as minhas desculpas para a eventualidade desta expressão não ser atualmente a mais politicamente correta.

Na avaliação e discussão do valor de Freddy Mercury como artista, sinceramente, não me lembro de ver recorrentemente apontada, pela positiva ou pela negativa, a sua homossexualidade. Nos tempos atuais, supostamente mais modernos, isso já não seria possível. Uma crítica seria imediatamente classificada como homofóbica pelos guardiões das minorias, mesmo daquelas que dispensam esse tipo de guardas, e um elogio obviamente imputado ao lóbi dos gays.

Dificilmente será possível vermos hoje uma discussão natural e objetiva sobre os méritos e deméritos de um Fredy Mercury sem uma contaminação inevitável das, chamemos-lhe, suas preferências sexuais. À força de tanta pressão pela “modernidade” e pelo politicamente correto e na sequência das reações que todos fundamentalismos e radicalismos provocam, acabamos por viver muito mais condicionados por preconceitos do que no passado.  

Foto: Redferns, Bob King


03 abril 2018

Viagens do Júlio


Quando nos seus concertos Júlio Pereira apresenta o belíssimo tema “Museu do Fado”, costuma fazer uma introdução ressalvando a fraca ou nula herança recebida por ele desse género musical. Penso que para muitos de uma franja etária onde também me incluo, o fado começa por andar muito longe. Para mim, até nem sequer era muito credível, entre um pitoresco acanhado do “ceguinho, esgraçadinho“ e um registo marialva, bafiento e bolorento. Depois, com o tempo, lá fui entendendo haver mais qualquer coisa…

Àquele que é indiscutivelmente um dos mais brilhantes músicos deste país, o fado não atacou apenas nesse tema. O excelente “Geografias” abre com “Fado Luso” e o não menos excelente (para não variar…) “Acústico” inclui um fantástico tema chamado… “Fado”, fácil de definir: não é alegre nem triste e carrega todas as cores do mundo.

Júlio Pereira fez uma longa e rica viagem desde o histórico “Cavaquinho” de 1981 e será bastante injusto ainda associar o seu trabalho principalmente a esse longínquo sucesso, por mais impressionante que este tenha sido. As suas composições viajam originalmente pelo mundo inteiro, mas bem caraterizadas e identificadas com a cultura de onde saíram. Poucos como ele o conseguiram fazê-lo assim brilhantemente, sem simplificações grosseiras, nem sofisticações estéreis. Parece-me inevitável que nessa estrada o músico se cruzasse com o fado.

Portanto, isto do fado será parte obrigatória dessa coisa do sentir português e que, mais tarde ou mais cedo, ataca os mais insuspeitos, a ponto de até pôr o Amazonas a correr em Trás-os-Montes? Não sei, porque começo e acabo por não saber onde começa e acaba o fado. Seja o que seja, goste-se ou não, apreciemos a sua música em geral e o “Praça do Comércio” em particular, recentemente galardoado com o prémio “Pedro Osório” da Sociedade Portuguesa de Autores.

27 janeiro 2018

Coisas lá para casa


Quando fiz a minha prospeção de prendas natalícias gastei algum tempo na página da Tradisom, do amigo José Moças. Entre picando o que já sabia querer e cheirando o que talvez valesse a pena comprar, encontrei e encomendei um CD de um grupo chamado At Tambur, de quem nunca tinha ouvido falar, pecado meu.

De música não entendo muito e jeito para ela, bastante pouco. Simplesmente gosto ou não gosto do que ouço e há coisas de que gosto muito. E gostei muito desse álbum, achei-o uma coisa bastante bem feita e original. O CD é de 2003, tanto quanto soube o projeto não teve continuidade e o grupo já não existe.

Portanto, há uma dúzia de anos, alguém fez uma coisa muito interessante, aparentemente pouco divulgada, pelo menos para o meu nível de atenção, e desapareceu. Se agora o comprei e ouço, foi por ter decidido um dia escavar no catálogo da muito meritosa editora e divulgadora.

Onde quero chegar? Quantas coisas estarão a ser feitas hoje, fruto de muito esforço, com grande qualidade e a passar-nos ao lado? Hoje, numa altura em que as facilidades de divulgação são incomparavelmente maiores do que há uma dúzia de anos. Quando, com tanta facilidade, nos aparece à frente dos olhos um filme de um gatinho a trepar por um cortinado algures no outro lado do mundo...

Depois, há ainda os projetos que o pessoal até conhece, até estima, até põe uns gostos aqui e acolá, mas vai a correr sacar o mp3, porque a crise, coisa e tal. A guita não chega para tudo, certo, mas gastar mais facilmente os euros nuns drinks sociais, face a remunerar uma produção cultural que nos faz bem, apreciamos, sabendo que quem a fez também tem contas a pagar... pois...prioridades?

09 novembro 2017

Assim, tipo Pai Natal


O senhor na fotografia é o José Moças da editora Tradisom. Para quem não a conhece, se eu referir, como exemplo, a edição dos últimos trabalhos do Júlio Pereira, do “Povo que Ainda Canta” e da Brigada Vitor Jara, ajuda…?

O José Moças é um entusiasta e entusiasma quem com ele fala, sobre projetos atuais e futuros. A esse entusiamo fica devedora a cultura portuguesa, pelo muito de bom que ele tem feito e certamente ainda fará. É um lugar comum dizermos que a música popular é um campo onde somos muito ricos, mas convém não esquecer que a riqueza precisa de ser permanentemente investida, construída, tratada e divulgada e esta também.

Assim a modos de publicidade, e não ganho nada como isto, exceto a satisfação de, à minha escala, contribuir para coisas que valem a pena, fica uma sugestão. Quem tem prendas para comprar, para a quadra que aí vem, e anda a coçar a cabeça sem saber o quê, ou ainda está na fase do “não sei que faça, logo se verá”, visitem a página da Tradisom. É capaz de valer a pena a viagem!

21 outubro 2017

Novo cavaquinho, outra vez!


Em 1981, Júlio Pereira fez o país redescobrir o cavaquinho, para muitos apenas um instrumento de aspeto engraçado e em termos de potencial mal conhecido, dado o estado vegetativo em que aparecia nas tocatas folclóricas, dominadas pelo infestante acordeão.

Seguiu-se a viagem pela braguesa, pelo bandolim e o arriscando uma passagem pela mistura com a eletrónica no memorável “Cádoi”. Depois de várias outras viagens, o cavaquinho.pt em 2014, volta a marcar. Poucos como Júlio Pereira souberam ir buscar o tradicional, fazê-lo viajar e tratá-lo sem simplificações grosseiras nem sofisticações extravagantes. É autêntico, elaborado e com respeito pela identidade da música portuguesa genuína.

Por estes dias saiu à rua um novo marco: “Praça do Comércio”. Mais uma corrida, mais uma viagem e parabéns. Se há 36 anos atrás, Júlio Pereira nos fez redescobrir um instrumento, acho que ele agora inventou um novo, construtivamente igual, mas tratado de forma diferente e sempre cavaquinho, outra vez.

22 junho 2017

A Festa do Cavaquinho


Muitas das habituais manifestações/espetáculos de música/cultura tradicional, infelizmente, não são festa. Independentemente do maior ou menor rigor colocado nas representações, independentemente da qualidade intrínseca e da técnica das execuções, muitas vezes é até difícil sequer segui-las com interesse.

No dia 10 de junho passado, realizou-se em Cernache mais um encontro de “Cavaquinhos para o Guiness”. O objetivo era chegar ao milhar, ficaram a faltar uma cinquentena, mas parece que ninguém se preocupou demasiado com esse detalhe, no meio daquele ambiente genuíno de festa. E sublinho a palavra “genuíno”. Vieram novos e velhos, vieram de escolas e de universidades sénior, vieram rurais e urbanos, participaram e divertiram-se.

Os sorrisos, os dedos a correr com prazer nas cordas e os plenos pulmões de quem canta com todo o gosto do mundo, criaram incontáveis cenários de beleza e alegre autenticidade. Obrigado à organização e aos participantes. Foi muito bonita a festa, pá!

Mais fotos aqui e aqui.

14 janeiro 2017

Encruzilhadas


Ouvi falar de gente com eu, mas nunca relacionei. Fizeram um caminho para serem livres, mas descobrirem terem tomado a direção errada. Mas não vale a pena voltar para trás, porque todos os caminhos vêm ter onde estou e acredito que os percorri a todos, não importa o que planeei.

Crossroads, Don Mclean

28 dezembro 2016

O Presidente, o George e o Arlindo

“Ó que lindo chapéu preto, naquela cabeça vai….” Esta frase diz algo a alguém? E esta: “Muito boa noite senhoras e senhores, lá na minha terra há bons cantadores”. Provavelmente serão familiares para muitos e tão familiares, de tal forma popularmente adotadas, que já se diluem na chamada tradição. Um nome comum por trás delas: Arlindo de Carvalho. Um senhor que faleceu em 26 de Novembro passado, com uma história de vida merecedora do maior respeito.

Ora bem, o nosso PR, que ainda não se esqueceu dos tempos em que tinha a obrigação profissional de tudo comentar, publicou na página da Presidência um lamento pela morte de George Michael. Não me parece muito bem para a dignidade dessa página que concorra com uma “janela da saudade” mundana qualquer, independentemente dos méritos e deméritos do cantor em causa, nem que adote o estilo do “eu @aqui e @ali”, tipo simples página pessoal, registando inclusive a ginginha que se tomou algures em boa companhia.

Neste dilúvio de “apontamentos”, essa mesma página passou em branco o desaparecimento de Arlindo de Carvalho. Com o que ele significa para a cultura portuguesa isso parece-me uma falta de respeito e das grandes.

Senhor Presidente: acalme-se um pouco, coloque um mínimo de distância entre a sua ação e a espuma dos dias; enfim, ocupe o seu lugar, por favor.