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20 fevereiro 2026

Esquerda, direita e o resto

Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.

O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para valores sociais fundamentais e “consensuais”.

No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica demonstração de coerência.

Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande combustível do populismo de extrema-direita.

“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser argumento que o perturbe.

Hoje não podemos falar numa divisão simples direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade. Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do mesmo”.

 

04 outubro 2025

O comércio das boas causas

Há uma coisa que me repugna fortemente. É ver evocada uma boa causa, justa e solidária, quando a agenda e os objetivos reais são outros. É o caso desta famosa flotilha e da sua suposta missão humanitária. É evidente que se o objetivo fosse mesmo humanitário, as ações teriam sido outras. Qual o sentido de enviar uns barquitos ao longo de toooodo o Mediterrâneo, sabendo obviamente que nunca lá iriam chegar?  Também ainda estamos para ver qual a natureza e dimensão dessa ajuda embarcada.

O objetivo era chegar onde chegaram. Publicitar e sensibilizar a opinião pública para a guerra de Gaza. Têm todo o direito de o fazer, mas chamem os bois pelos nomes. Já agora, atirar os telefones para o mar… porquê? Que segredos continham? O caricato de mandar borda-fora as facas da manteiga também não se entende, mas não serão tão nocivas para o ambiente.

Fico na expetativa de ver uma nova flotilha organizada na direção da Crimeia, ilegalmente ocupada, para protestar contras as atrocidades cometidas pelos russos na Ucrânia… mas não a iremos ver. Não estaria alinhada com a agenda políticas destes ativistas e, se de lá se aproximassem, a abordagem e o tratamento recebido seria certamente bastante mais violento do que o agora aplicado pelos malvados israelitas.

21 junho 2025

E se Adérito Lopes fosse trolha?

Toda violência é condenável e um ato concreto pode ter atenuantes ou agravantes conforme o contexto e as motivações em causa. Todo o cidadão tem o dever de ser protegido e de obter justiça, independentemente da sua situação social ou outra. Não há castas.

Quanto à recente agressão ao ator Adérito Lopes, parece-me haver claramente uma diferenciação difícil de justificar. Foi um ato condenável, sem a mínima dúvida, mas entre todas as agressões e crimes que infelizmente ocorrem diariamente, porque este teve direito a tanta ressonância? Se Adérito Lopes fosse um trolha a entrar num estaleiro e agredido no mesmo contexto, as reações seriam as mesmas?

Podemos dizer que sendo um ator, ligado à cultura, há um simbolismo especial. Então a agressão a Filipe Araújo, vice-presidente da CM do Porto, foi um ataque ao poder local, a merecer a mobilização solidária de todos os autarcas…?

Outra diferenciação tem a ver com a identificação do agressor. Quando se trata de um membro de uma comunidade eventualmente polémica, como africano, cigano ou imigrante, há um cuidado cirúrgico da comunicação social em omitir esse detalhe, para evitar “generalizações”. Quando se trata da extrema-direita, chega a ser noticiada a simples especulação de “com suspeitas de ligação à…”.

Que fique claro que abomino todo o tipo de iniciativas “musculadas”, independentemente da cor dos atores, mas quando há esta desproporção no tratamento dos casos, estamos perante uma diferenciação da justiça conforme as castas em jogo e, a prazo, acabamos a “beneficiar o infrator”.

29 março 2025

Salafismo no BE


Quando os canhões da I Grande Guerra se calaram, o mundo muçulmano sunita entrou num período de crise e de choque. O Império Otomano, seu bastião, tinha lutado do lado dos vencidos e a outrora poderosa força que dominara todo o Médio Oriente e grande parte do Norte de África, já enfraquecida antes do conflito, desmorona-se e desaparece.

Na sua sede e origem, a atual Turquia, Kemal Atartuk vai criar um novo Estado, muçulmano certo, que o digam os ortodoxos gregos e arménios que por lá andavam, mas laico, com a religião nas mesquitas e fora de escolas, tribunais e parlamento.

Ao mesmo tempo é extinto o califado, desaparecendo o Califa, o líder religioso global e reconhecido sucessor de Maomé. Imaginem que, se na unificação da Itália, em vez de o Papa passar a administrar apenas um bairro de Roma, tivesse desaparecido de vez a função. Um grande choque seria, não?

Neste processo de desagregação do mundo muçulmano, surgem reflexões do tipo: Se no passado, na origem, eramos poderosos e depois enfraquecemos, a solução passa por regressar à “pureza original”. A isto se chamará salafismo, palavra relacionada com origem e raiz, sendo o movimento mais impactante, ainda hoje, a Irmandade Muçulmana, nascida no Egito.

Como é óbvio estas visões retrogradas e anacrónicas não trouxeram muito brilhantismo e sucesso ao Islão.

Contextos e dimensões à parte, a opção do Bloco de Esquerda em ir chamar os seus “fundadores”, parece ser um reflexo com a mesma inspiração. Quanto ao resultado, logo se verá, mas as estratégias de “ó tempo volta para trás”, nunca trouxeram grande progresso.

25 janeiro 2025

As malas e as mães


A atualidade nacional tem andado entretida estes dias com as malas do Chega e as mães do Bloco, desenvolvendo-se algum paralelismo. Se quisermos ir ao fundo e ao sério, o que está em causa, em termos políticos, é completamente diferente.

O deputado do Chega rouba malas no aeroporto por ele, para ele. Não tem instruções do partido, nem este beneficia e até se desmarca rapidamente. A culpa do Chega será não ter escrutinado a pessoa e ter elegido um cleptómano.

No caso do Bloco, o cenário é muito diferente, porque está em causa a direção do partido. É um assunto de foro institucional, onde a primeira reação do partido é gritar por “cabala política” e apresentar queixa à ERC. Para lá dos detalhes (i)legais da dispensa das funcionárias, há um pragmatismo, frieza e desumanidade, daqueles que o BE acusa o grande capital, mas que não se coibiu de fazer igual e de tentar esconder, atacando o mensageiro. Muito mau.

O Chega estará a sofrer as consequências de ter um grupo parlamentar precipitadamente escolhido e díspar em muitas dimensões. O BE descobriu que, na prática, o radicalismo combina mal com a necessidade de pagar contas no fim do mês, mas que há capitalistas mais humanos, há…

08 abril 2024

Os extremos

Eu ainda sou do tempo em que havia dois partidos do chamado arco da governabilidade que, apesar de algumas diferenças nos seus programas, tinham uma visão consensual sobre o modelo de sociedade e do papel do Estado. As opções eram feitas, mais pela competência das equipas e respetivos líderes do que por opções ideológicas.

Os extremos e seus modelos não entravam nas equações de poder. Do lado esquerdo, haveria ainda no PS memória de 1975 e era patente o “não arrependimento” de quem tinha tentado boicotar a liberdade e a democracia; do lado direito a extrema-direita ideológica pura e dura, à la Mário Machado não tinha e continua a não ter expressão.

Isto mudou com uma nova geração no PS, que não viveu 1975, e que descobriu afinidades com quem é contra a Nato, contra o Euro e o projeto europeu e com simpatias por regimes brutais e iliberais. Esta familiaridade, aliada ao oportunismo de A. Costa, em 2015 fez nascer o conceito de uma tal esquerda em “bloco”, como se houvesse enormes afinidades entre um PS europeu social-democrata e apoiantes de Rússias, Venezuelas, Coreias do Norte, etc.

A incompetência em governar e incapacidade de entender como o eleitorado não aceitava alegremente a impunidade dos casos e casinhos, fez nascer e crescer outro “bloco” – o da contestação pura e dura. Se bem que ao catalogar o Chega, ele fica naturalmente do lado direito, o milhão de pessoas que por eles votou não são potenciais camisas negras, prestes a marchar atrás de uma suástica ou sair à rua para espancar estrangeiros em esquinas sombrias.

É claro que dá jeito associá-lo à extrema-direita tóxica, como forma de o desclassificar, mas a toxicidade do partido não é ideológica. É “pratica”, ou, mais concretamente, num populismo irresponsável e inconsequente, se bem que, infelizmente, não são os únicos irresponsáveis no campeonato. Insistir que a origem e o problema, e sucesso, do Chega está na ideologia da extrema-direita, na xenofobia, racismo e afins, é continuar a não entender nada!


17 março 2022

Bem-vindos ao real


Imaginemos uma empresa que, por redução de atividade e correspondentes receitas, se vê obrigada a reduzir estruturas e inevitavelmente o número de pessoas a que pode pagar. É a vida real que infelizmente muitos conhecem.

Não faltará quem clame pelos direitos dos trabalhadores, pela necessidade da proteção do emprego, acrescentando uns mimos aos patrões insensíveis e exploradores.

Por estes dias, há uma entidade chamada Bloco de Esquerda que, na sequência da redução dos votos recebidos nas últimas eleições e correspondentes receitas, se vê obrigada a encolher e a dispensar pessoas. É a vida. Bem-vindos ao real.

Atualizado em 23/03/2022 com a inserção da imagem da publicação no Público.

13 março 2022

Falta de propriedade intelectual


Anda viva a polémica sobre uma deputada que, enquadrada no Parlamento em regime de exclusividade, teria auferido de uma remuneração pela participação num programa de televisão, incompatível com o respetivo estatuto.

Deixando de lado as excitações com este caso concreto, a cor do pecado e a admissibilidade da inocência por ignorância da lei, há algo de muito curioso aqui. Dar palpites escritos em jornal é compatível, mas verbais na televisão não. Tem lógica? Não!

Aparentemente, a remuneração pela escrita enquadra-se nas remunerações provenientes de propriedade intelectual, objeto de exceção no tal estatuto da exclusividade. Pode-se entender e aceitar que um criador com obra registada e que passe a deputado não tem porque deixar a receber os direitos respetivos, especialmente se essa criação tiver origem no passado. Agora, a remuneração por uma coluna de opinião política, feita e paga no momento, está muito longe desse contexto.

Nós exigimos aos deputados que pensem e quem pensar um mínimo não consegue justificar essa validação, se não e apenas pelo forçar de um buraco na regulamentação, oportunamente cavado em benefício próprio.

Tenham respeito pelo nosso discernimento e, por favor, dêem-se ao respeito. É melhor do que depois chorar o crescimento dos populismos.


23 janeiro 2022

Teremos sempre geringonça?


Parece dizer A. Costa que “Geringonça nunca mais”. Este afastamento tem alguma lógica tática nesta fase. Ao fim e ao cabo há muito eleitorado do PS que não se revê nessa constelação. Agora, se contados os votos, forem necessários os deputados do BE e/ou do PC para ancorar o PS ao poder, acham que este irá hesitar mais do que 30 minutos?

Diz também que se fizerem a injustiça de não lhe dar a vitória se vai embora. Haverá por acaso um lugar livre a curto prazo pelo Conselho Europeu? Bom, isto de apanhar um avião, Ryanair ou outro, e deixar na paróquia um delfim, tem um precedente, que não acabou bem para ninguém. Neste caso, até me tremem as pernas só de pensar nisso.

15 janeiro 2022

Muito mais é o que os une…?


“Fechem os olhos e ponham lá a cruzinha”. Consta que esta terá sido a expressão usada por Álvaro Cunhal para instruir aos seus camaradas o voto útil em Soares na segunda volta das Presidenciais de 1986. Certo que os comunistas preferiam este último a Freitas do Amaral e quem nunca votou contrariado num mal menor, que atire a primeira pedra. Foi um sapo que tiveram que engolir e não se viu Soares e Cunhal de mãos dadas em devaneios românticos de um “muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”: - Olhe que não, olhe que não…!

Compreende-se que o PC e o BE tenham preferido recentemente um governo do PS a um do PSD. O que não se entende é o sapo ser apresentado transfigurado em delicioso leitão. O modelo de sociedade historicamente defendido pelo PS não tem nada em comum com o dos regimes comunistas totalitários cujas aplicações ao longo de um século apenas provocaram decadência e ruínas de várias naturezas. Apresentar esses projetos e o PS irmanados num manto de uma esquerda virtuosa é um embuste, ou então o PS mudou muito e com ele não vamos longe.

Não sabemos o que sairá das próximas eleições. Esperemos não acabar em novo casamento ambíguo com dote excessivamente elevado. Para lá da improvável repetição de algo na escala dos 3200 milhões da nacionalização da TAP, o atraso e o marcar passo do país com cedências a conceções económicas e sociais que já demonstraram cabalmente a sua falência tem um custo muito alto.

08 janeiro 2022

Carta a um eleitor desiludido


 Sim, é natural haver por aí muitos eleitores desiludidos, desencantados e mesmo revoltados com a falta de competência, rigor e de honestidade de quem tem assumido a responsabilidade de nos representar e dirigir este belo jardim à beira-mar plantado.

Sim, não deve faltar quem não tenha mais paciência para ouvir discursos excitados sobre virtudes e máculas, da direita e da esquerda, do centralismo e de regionalismo, de todos os ismos e doutrinas e de tantas causas menores que são detalhes no meio dos sérios problemas que tantos encaram no dia a dia. A saturação e a frustração têm por consequência a vontade de mudar, de correr riscos e aceitar experiências.

Sim, mudar sim, mas se as atitudes radicais podem dar belas dissertações, nunca deram boas governações.

17 janeiro 2021

Juventudes acaloradas

Não é raro mesmo os filhos bem de famílias bem burguesas serem na juventude fervorosos adeptos e ativos promotores de amanhãs diferentes. Se a prática desses amanhãs foi, é e continuará a ser pouco harmoniosa, nos calores da mocidade desculpam-se alguns ímpetos pouco refletidos. Por norma a realidade dos fatos acaba por se impor e não faltam por aí ex-trotskistas, ex-maoístas, ex-marxistas-leninistas e até ex-maduristas.

Um problema que me parece novo é quando esses entusiasmados sobem nos aparelhos partidários e chegam a ministros. Veja-se o caso de Pedro Nuno Santos que descobriu que excitações e palavras tesas não pagam faturas nem salários e passou a PNS 2.0, mas somente depois de nos fazer enterrar uns milhares de milhões na TAP. Uma aprendizagem cara.

Ao atual líder da JS, um sucessor de PNS, só peço que não chegue a ministro. O país não aguenta. E quanto a Xi Jinping ser preferível a Trump, basta-lhe passar um mês em cada um dos dois regimes para descobrir onde se está melhor. E quanto à JS ir fazer campanha por toda a “esquerda”, sugiro que comecem por praticar na Coreia do Norte e na Venezuela. Estamos sempre a tempo de aprender, mas tentem aprender rápido!

12 outubro 2019

O problema do populismo


Não faltam demonstrações de desalento e de preocupação pela entrada do “Chega” no Parlamento, um pouco como alguém se lamentar de ter encontrado um rastro de bicho de madeira em casa, potencialmente ameaçador para a saúde de toda a mobília.

O Chega e outros populistas podem efetivamente minar o regime democrático, para lá do que ele já foi minado pelos menos populistas. Se populismo é apresentar aos eleitores receitas falsificadas, todos são maus. Quanto ao extremismo, não encontro nocividade acrescida no ser de direita. Nunca entendi porque se tolera mais Staline, Mao e Fidel do que Hitler, Mussolini e Franco.

O problema da implantação e do crescimento dos populistas não está, no entanto, nas mentiras que dizem; está precisamente nas (algumas) verdades. Os partidos tradicionais demitiram-se de ser sérios. Pelo politicamente correto divorciado da realidade, pelas desonestidades de todo o tipo, pela negação das evidencias e dificuldade em assumir e corrigir as falhas… demasiadas coisas cheiram mal nos habituais inquilinos do poder.

Não é, portanto, difícil apontar meia dúzia de verdades incómodas, para as quais os eleitores estarão recetivos. É fácil, a seguir, enxertar nesse discurso uma dúzia de meias verdades e duas dúzias de mentiras descaradas.

O bicho da madeira aparece porque não se arejou suficientemente a casa. Não se tendo tido o cuidado de manter um ambiente são, não vale a pena agora chorar pelo apodrecimento adicional. Não reconhecer e não tratar a causa fundamental apenas agrava.

27 junho 2019

Memórias e Liberdade


Aljube, em Lisboa, uma antiga prisão de má memória. Entre outros espíritos livres aí esteve preso Miguel Torga, pelo gravíssimo crime… de ter escrito um livro! Em 2015 foi transformada em espaço de memória da resistência e liberdade. É importante ter memórias claras e entender o nascer e o porquê da liberdade e da sua falta… de forma honesta.

Infelizmente, naquele local, o revisitar da história nacional do século XX, não é séria, não ajudando assim à causa da liberdade. Começa pela sequência dos malefícios da Monarquia, das boas vontades da Primeira República, sendo o maio de 1926 obra de uns malandros que apanharam o povo distraído, ignorando a ajuda dos erros dos primeiros anos republicanos no aparecimento e implantação do Estado Novo.

Depois, e pior, é 1975. A palavra usada para caraterizar o resultado das eleições para a Constituinte é “desilusão”!

Conta ter ocorrido um confronto entre forças “avançadas” e outras que defendiam uma “democracia mais moderada”, saldado por uma “derrota”. Gostava que me explicassem em que consistia exatamente esse “avanço” e como se distinguem e classificam as democracias quanto ao seu nível de “moderação”.

Pelos verdadeiros lutadores da verdadeira liberdade, esta narrativa faciosa e sem vergonha é insultuosa. Se não queremos entender e enfrentar porque a liberdade aparece e desaparece, estarmos sempre à mercê de novos aljubes.



Ariane


Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades…

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Miguel Torga
(aquando da sua passagem pelo Aljube)

22 fevereiro 2019

A ADSE é politicamente correta ?


Passando ao lado da atual crise com a denúncia dos acordos por partes de vários operadores privados, sendo que pelo menos o ajuste retroativo de preços me parece algo sem muito sentido numa relação económica sã. Dizem os bons princípios que as discussões deverão ser feitas antes e não depois.

Numa perspetiva liberal, faz todo o sentido existir uma ADSE. Um grupo de cidadãos, neste caso funcionários públicos, cotiza-se para ter acesso a cuidados de saúde, onde bem lhe apetecer. Numa perspetiva estatizante, será um pecado. Está-se a permitir um negócio com a saúde a privados, evitando o SNS, supostamente abrangente e único.

Ambas as perspetivas podem ser discutidas, argumentos avançados e, principalmente, contas feitas, económicas e não só. O que não faz sentido é a falta de coerência de quando se trata, por exemplo, de na educação se proclamar a bondade exclusiva da escola pública e, para a saúde, já parece muito conveniente haver um mecanismo que permita escolher entre a oferta de gestão pública e a privada.

Não faz sentido um funcionário público de manhã ser contra a prestação de serviços geridos por privados num sector e à tarde ir a uma consulta numa clinica privada, onde, por acaso, até será melhor atendido do que no centro de saúde da zona.

Como não estou a ver os funcionários públicos a prescindirem da ADSE como princípio, mais décima menos décima, como quem paga e utiliza está satisfeito, dificilmente uma doutrina poderá afirmar estar errado. Certo?


PS: Prometo que a próxima publicação mudará de tom

06 fevereiro 2019

Não ser Jamaica


Irrita-me um pouco a moda de por tudo e por nada sermos todos qualquer coisa. É que para sermos mesmo todos assim uma coisa, essa coisa teria que ser muito pequena ou muito grande.

Até um ministro disse “Jamaica somos todos nós”, pelo tal bairro problemático no Seixal onde os amanhãs não cantam e onde só lá falta ir o Papa e o arcanjo S. Gabriel em pessoa, já que o celestial não se deve poder apresentar. Não, senhor ministro, é uma tonteria pretendermos sermos todos Jamaica, porque julgo que quem lá está gostaria que o seu número diminuísse e não aumentasse. E também acredito que muitos portugueses que lutam afincadamente por cada fim de mês, pagando os seus impostos e as suas habitações não se sentirão muito Jamaica.

O Jamaica é uma situação excecional que nunca deveria ter acontecido e, a acontecer, nunca deveria ter tomado a dimensão e a duração que tomou. Independentemente da avaliação humanitária que ver seres humanos a viver naquelas condições obriga, a solução não vem de palmadinhas nas costas nem de sorrisos solidários, devidamente mediatizados. Também não faz sentido reduzir isto a um filme de policias contra ladrões ou, mais moda, polícias maus contra clandestinos bons.

No cortejo de figuras que por lá desfilaram, surfando a onda mediática, são todos… políticos.


Foto: Diogo Ventura / Observador

03 fevereiro 2019

Não, não é questão de esquerda


Há questões que não se deveriam colocar sequer. Que mérito pode ser atribuído ao regime venezuelano atual? Na perspetiva de alguns, é relevante ser antiamericano e anticapitalista? E isso é suficiente para menorizar ou ignorar a gritante miséria humana, em termos de liberdades, direitos e acesso a necessidades básicas com a saúde e alimentação? É suficiente para ignorar os presos de consciência, o Estado de não direito, a fome, os doentes sem tratamento digno e os que morrem até e apenas por uma falha de energia elétrica num hospital?

A resposta é: Não! Claro que não!!

Mas, aparentemente, não será assim tão evidente para todos. Ainda há quem tenha o descaramento de apoiar e aplaudir este regime criminoso e há também aqueles que o apoiaram e agora, discretamente, assobiam para o lado…

O que estamos a assistir é à concretização de um descalabro anunciado. Apesar disso, entre os que se recusam a constatar um desastre final claro e visível e os que não assumem a relação causa-efeito entre as opções políticas assumidas e esta desgraça, a diferença é teórica. Na prática são ambos gente perigosa.

E não me venham com tretas de direita-esquerda. O respeito pela dignidade humana está muito à frente dessas apreciações.


Imagem apanhada por aí, mas não consegui identificar a origem

29 julho 2018

A propriedade e a partilha

O Huguinho nasceu em família favorecida e juntou uma enorme coleção de automóveis miniatura. O Sr. Padre disse-lhe que ele devia partilhar alguns com os meninos cujos pais tinham menos posses. O Huguinho aceitou o conselho e foi oferecendo algumas miniaturas, enfim, as mais estragadas e as de que gostava menos, aos colegas mais desfavorecidos. O Huguinho tornou-se muito solidário.

O Zezinho não nasceu nem rico, nem perto, mas empenhou-se muito em estudar, aprender e trabalhou seriamente. Hoje tem uma vida desafogada, paga os seus impostos e cumpre todas as obrigações sociais. O Huguinho continua a achar que se deve sempre dividir a propriedade com quem tem menos, mas o Zezinho não concorda completamente, muito especialmente quando está em causa o que se conseguiu por mérito e esforço próprio. O Huguinho continua a ver a riqueza como algo que herdou e vai herdando, culpabilizando-se por ser um favorecido. O Zezinho não sente culpa nenhuma por ter o que tem.

Um destes dias o Huguinho vai participar nuns trabalhos políticos que incluem temas como “A propriedade é o roubo: debate sobre a socialização dos meios de produção”. Ao Zezinho isto parece um grande disparate, mas existir no mesmo programa um outro painel - “Direito à boémia: necessidade da vida noturna para produção e radicalização cultural”, ajuda a entender melhor o contexto.

Obviamente que o universo não se resume a Huguinhos e Zezinhos, mas que há muitos Huguinhos por aí, há…. (e só enfia o barrete quem quiser)

19 dezembro 2017

Uma quadratura do círculo

O rating da dívida pública portuguesa subir é uma boa notícia. Tendencialmente pagaremos menos juros pela pipa de massa que devemos e que precisamos ciclicamente de renovar. Independentemente do de quem é o mérito, se podia ser ainda melhor ou, pelo contrário, pior, é positivo!

Convém recordar que esta classificação não é um prémio de mérito genérico e abstrato. É uma leitura da capacidade do país para honrar os seus compromissos financeiros a prazo. Ou seja, entendem estes senhores, que para alguns estão “desautorizados”, mas, para quem interessa, para quem tem o cacau para aplicar, são muito credíveis, que se alguém emprestar dinheiro a Portugal, pode estar relativamente seguro que o irá receber depois, certinho, com os respetivos juros. Entre outras coisas, acham muito improvável que o país tente impor uma renegociação da dívida, que não honre os compromissos assumidos ou que possa sair da moeda única.

Como ficarão então os apoiantes deste governo, acérrimos defensores da saída do euro e da renegociação da dívida, quando veem o “seu governo” ser reconhecido por não pensar nem sonhar em fazê-lo? Este circulo quadrado é uma das particularidades desta mistura de água com azeite, também chamada geringonça.

01 dezembro 2017

A democracia em risco


Ouvimos dizer e sabemos que é verdade. Mesmo com eleições formalmente democráticas, há propostas a ganhar peso que, no fundo, não estão alinhadas com os princípios e o modelo de sociedade que é o nosso. Por vezes está em causa um extremismo negativo e inconsequente, sendo mais fácil falar e ser contra do que fazer e construir a favor, outras vezes cresce o caricato. Tentando correr um espectro alargado, Trump nos EUA, os promotores do Brexit, o palhaço italiano, a frente nacional francesa, os nacionalistas flamengos, os radicais catalães e até o nosso Tino de Rans.

O problema resultante é muito analisado e discutido pelas elites nas vésperas das eleições problemáticas, mas o problema, mesmo problema, está em o problema causa não ser endereçado por essas elites, especialmente se no dia a seguinte a cada eleição problemática puderem dizer “Ufa!”.

Aqui pelos nossos lados, que conhecemos melhor, está no poder a equipa de um tal José Socrates, parte ativa e pelo menos politicamente comprometida com aquelas práticas. Está bem que ainda ninguém foi condenado, mas o que se sabe é suficiente para classificar a imoralidade desses tempos. Não há nenhuma (co)responsabilidade politica assumida por quem, por ação ou omissão, foi cúmplice daquilo? Assobia-se para o lado e espera-se pela justiça, insinuando-se que esta até pode ser algo facciosa… depois, admirem-se!

No 2º aniversário do governo, convocam-se e paga-se a “cidadãos” para questionarem o governo num simulacro grosseiro de abertura e de escuta do povo! Não seria melhor abrirem as portas a quem quisesse aparecer e apresentar as suas questões, sem papelinho? Vão dizendo “Ufa!” enquanto puderem, mas, depois, não se admirem!

PS: Ok, ok… há também a Tecnoforma e os sobreiros e os submarinos… e o Freeport. Não invalida nada, apenas reforça. No entanto, estas contas do Sr Sócrates, e apenas considerando a CGD e a PT têm outra escala e a equipa está alegremente lá agora…