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18 janeiro 2018

Fazer um rio


Os rios só estão completos na sua foz, quando acabam. Até lá, vão sempre recebendo contributos, com maior ou menor relevância, mas transformando-os continuamente. Nomear o local de nascimento de um rio, como se uma parte significativa da água que chega à foz tivesse cumprido o percurso completo, é uma imagem engraçada, mas pouco precisa.

O Douro não nasce na serra do Urbião como se aprende na escola. Uma parte muito significativa dele é filha de toda a drenagem sul da cordilheira cantábrica. Como dizem em Vallodolid, o Douro tem a fama, mas o Pisuerga tem a água.

Um rio faz-se e refaz-se ao longo do caminho e o Douro com a sua forte personalidade não é aqui chamado de forma inocente. Recordo-me de num voo acordar e espreitar pela janela, para tentar entender onde estava. Em dois segundos identifiquei o Douro na Valeira, por não conhecer nenhum outro local com aquela assinatura.

O Douro, quando entra em Portugal, nasce de forma muita dura, não nasce?

24 janeiro 2017

E um Almaraz blues?

Estávamos nos inícios da década de 80 e correu a notícia de que Espanha planeava construir um cemitério nuclear em Sayago, lá em cima, junto ao nosso Nordeste. É uma prática habitual os projetos nucleares serem realizados junto às fronteiras; em caso de acidente, metade do problema é imediatamente exportado.

Ainda não tinha ocorrido Chernobyl, muito menos Fukushima, mas, independentemente da razão e do risco real, a mobilização foi enorme. Ninguém queria um Douro sob risco reativo. O protesto até ficou registado no “Sayago Blues”, da dupla Rui Veloso/Carlos Té.

Por estes dias, já depois de Chernobyl e Fukushima, Espanha tem uma central nas nossas portas a funcionar em extensão do tempo de vida e anuncia querer aproveitá-la para depósito de resíduos e… está bem, … o governo português vai protestando…, e a sociedade civil?

Nesta época em que é tão fácil manifestar indignação, em que meio mundo se levanta e solidariza com a imagem de um cão sujeito a maltratos ou abatido por mau comportamento, Almaraz, é uma palavra que deixa a malta indiferente? O pessoal anda preocupado e indignado com a eleição e a investidura do Trump; entretido a praticar o tiro ao Coelho e a quem o apoiar, a comentar, apoiar ou criticar as selfies do Presidente; a decretar juízos e valores sobre taxistas e Ubers, enfim…

Reconheçamos que riscos nucleares não são um problema do “Now!”.

04 outubro 2016

O encanto da segunda linha


O que têm em comum Mértola no Guadiana, Silves no Arade, Alcácer do Sal no Sado, Montemor-o-Velho no Mondego e até mesmo Santarém no Tejo? São as cidades de segunda linha nos respetivos rios e todas elas, mais tarde ou mais cedo, foram perdendo importância, ou por alteração dos circuitos comerciais, ou por consolidação e garantia de segurança contra a pirataria nas suas correspondentes, mais expostas na costa.

As cidades de segunda linha têm o encanto do que já foi. De uma certa forma pararam no tempo ou o tempo principal passou a correr desviado delas. Nas suas ruas, hoje menos do que já foram, correm cheiros de outros tempos. As ruas antigas fluem e cruzam-se sem pressas, irremediavelmente ultrapassadas. Os cais já não se vêm, ou se se existir algo mais do que a sua memória não terão barcos ou, se os houver, não estarão atarefados a carregar e a descarregar mercadorias.

Eu gosto de cidades de segunda linha, desamparadas. A sua despromoção ensina-nos. A evolução é complexa e muitas vezes imprevisível; a riqueza é construída e também tributária de circunstâncias não dominadas; o decair pode não significa acabar, mas recomeçar de outra forma.

Curiosamente, para o Douro não existe nenhuma cidade de segunda linha nas suas margens agrestes. Foi o rio que não deixou ou o Porto que não precisou? A primeira urbe interior intrinsecamente ligada ao rio surge apenas no Peso da Régua, mas o seu desenvolvimento é relativamente recente e num contexto muito específico. As cidades da bacia do Douro, Penafiel, Amarante, Lamego e Vila Real, não estão nele mas nos afluentes e não puseram (julgo eu) barcos na água. Um rio diferente.

28 fevereiro 2016

Perímetro mágico (Sul)


Continuando...

Do lado Sul do rio mágico (poupando repetir o nome), a estrada foge descaradamente para sul. É um abuso! Rapidamente estamos fora do Douro e já a cheirar a Beiras.

Ao regressar para o norte, logo que possível, ir a correr rever e cumprimentar o rio. Ali para os lados de Almendra, há um desvio obrigatório: a estação, desativada, de CF do mesmo nome. Um anfiteatro abandonado, uma praia fluvial de barcos perdidos, o edifício cai em ruinas e os carris vão desaparecendo levados por outras ações, menos da natureza. Apenas lá chegar e parar para respirar o local vale a pena. Se possível acrescentar uma caminhada pela antiga linha.

Segue-se o arranjadinho Castelo Melhor, local de uma das saídas para as visitas das tais gravuras. Na descida, a vista sobre Erva Moira, do outro lado do rio, é de ficar calado. Antes de Foz Coa, subir à capela de S Gabriel e já começo a ficar sem adjetivos para caraterizar os locais. Se depois de ver o Museu de Foz Coa, que vale tanto o edifício/local como o recheio, mergulhar em ziguezague apertado até… ao rio. Que mais poderia ser… !

26 fevereiro 2016

Perímetro mágico (norte)


Grosso modo, saindo de Torre de Moncorvo até Freixo de Espada à Cinta, pelo largo, correndo a seguir o Douro internacional até Barca de Alva, avançando até Foz Coa, pelo largo, e regressando ao ponto de partida, fica definido um perímetro muito especial. É por lá que serpenteia o meu percurso das amendoeiras nesta altura do ano, mas também vale a pena na primavera, no verão, ou em qualquer altura. Como é habitual, quanto pior a estrada, mais interessante a paisagem.

Começando pelo lado norte do Douro, tanto estamos a beijar o rio junto ao cavalinho de Mazouco, como logo a seguir respiramos devagarinho no alto do assombroso Penedo Durão, guardado pelos seus grifos e demais passarada. É o limite leste dum acidente geológico que vai acabar a oeste na ribeira do Mosteiro. Se no penedo a coisa é simples, apenas uma parede vertical com cerca de 300 m de altura, na outra extremidade é mesmo um acidente. Precisava de lá ir com um geólogo para me traduzir o significado de tanta rocha subida, descida, curvada, aflorada, dificilmente entendida como resultado de um fenómeno natural. De um lado da ribeira corre uma estrada com uma vista única no país (que eu conheço). Não me lembro de ver em mais nenhum local uma garganta quadrada assim … do outro lado, a calçada de alpajares que, não sendo um fim do mundo, é do que mais parecido se pode encontrar.

Para acabar, sair de Barca de Alva na margem norte do rio, sim há lá uma estrada, subindo e respeitosamente abrindo a vista sobre o rio e as suas colinas a sul até terras de Castelo Rodrigo. A estrada e os viajantes podem perder-se pela serra de Moncorvo ou vir depois encostar ao rio e acompanhar carinhosamente a albufeira do pocinho até à barragem do mesmo nome.

Continua...


23 abril 2015

O futuro da mais bela


A estrada N222 entre a Régua e o Pinhão foi considerada “a mais bela estrada do mundo”, aparentemente até com base num critério científico. Não conheço mundo suficiente para poder comentar essa avaliação, mas sei uma coisa: como num bom livro em que não apetece chegar ao fim, é uma estrada donde não apetece sair (seja de carro, moto ou bicicleta… :) ).

De realçar que ela não é completamente desenhada pelo rio original, pela natureza. Como tudo no Alto Douro, foi fortemente moldada pela intervenção humana. Dos 23 km totais, cerca de metade foram refeitos para fugir à albufeira da barragem de Bagúste, construída no início dos anos 70. É precisamente essa secção, a mais recta e aberta, que faz a alternância com as partes sinuosas à saída da Régua e entre a foz do Távora e o Pinhão, que a valorizou.

Vamos encontrar, portanto, nessa estrada uma réplica do modelo da região. Umas condições naturais únicas, fantásticas, que são trabalhadas e reviradas pelo homem, valorizando-as. Este virar e revirar da natureza no Douro, não foi feita para agradar à vista, mas por razões práticas. No ponto de vista das necessidades práticas, as estradas foram durante muito tempo um grande problema. A bem da beleza da região, que tem um valor, também prático e útil, gostaria de pedir que as intervenções nas novas vias de comunicação mantenham esse cariz particular no Douro: o homem mexe mas não estraga. Poupem-no de mais longos viadutos e pilares semeados pelas encostas. E, já que estamos em maré de pedir, um pouco mais de cuidado com a arquitectura das construções pode não ser uma batalha perdida.

Foto da dita cuja, tirada da outra margem.

11 setembro 2014

O dia do vinho fino

O dia 10 de Setembro marca a data da delimitação geográfica da região de produção do chamado vinho do Porto, iniciativa notável e pioneira no mundo, promovida pelo Marquês do Pombal em 1756. Os franceses adorariam certamente que essa primazia tivesse ocorrido em Bordéus ou em Champanhe, mas não foi e o Alto Douro merece sem dúvida esta honra. Não conheço nenhum cenário tão espectacular e imponente, recordando que não é natural, mas sim construído e inicialmente até à força de braços. Os enólogos poderão acrescentar algo sobre as características únicas das suas vinhas.

Este ano, pela primeira vez, celebrou-se nessa data o “Dia do Vinho do Porto”. Ao ouvir um responsável ser entrevistado sobre o assunto, ele referia que mesmo em Portugal a bebida não era suficientemente consumida e divulgada. Fez-me lembrar um comentário que fiz a uns europeus do norte quando me falaram de uma famosa bebida portuguesa de cor rosada e adocicada, muito popular na terra deles. Eu disse-lhes que isso era uma espécie vinho para quem não sabia o que era realmente vinho e que os portugueses praticamente nem a bebiam. Uma boa parte do vinho do porto comercializado é um xarope para quem não sabe o que é o vinho fino ou tratado, designações durienses na origem.

É certo que os seus mercados principais gostam de bebidas docinhas, mas para o vinho do Porto ganhar o respeito pleno dos portugueses e dos povos do vinho, devia haver uma separação mais clara e uma promoção diferenciada entre, dum lado, os xaropes afinados de origem misturada e pouco esclarecida e, do outro, os vinhos sérios, com personalidade e identificação clara geográfica e temporal.


05 abril 2014

27 março 2014

Deuses na sombra

Há alguns dias assisti a uma sessão de apresentação do livro de Valter Hugo Mãe, “Desumanização”, que não li, e que tem por cenário a Islândia. Uma boa parte do tempo foi dedicado a falar da Islândia em si, das suas especificidades e idiossincrasias. Naturalmente que um país, que é uma ilha, encostada ao círculo polar Árctico e com um inverno em que há 20 horas de sol… por mês, há-de ter muitas especificidades.

Acreditar que debaixo das pedras vivem uns elfos que se devem respeitar, pode ser positivo em termos atitude de protecção do ambiente, mas não deixa de ser viver uma espécie de narrativa fantástica colectiva. Quando uma vez me perguntaram na Bélgica se em Portugal não havia histórias de anõezinhos a viver nas florestas eu respondi: O meu país tem muito sol e a sua luz não deixa espaço para essas fantasias; essas coisas só existem em países sem luz, condenados ao nevoeiro! E também recordo que quando vivi na Bélgica, o que me fazia mais falta era, efectivamente, a luz.

É a noite quem cria os fantasmas, assim como são as limitações que abrem os horizontes do sonho e da imaginação. Talvez seja natural que num país tão fechado como a Islândia seja criado um colorido com o que não se vê. Sob um sol mediterrânico intenso e impiedoso, uma pedra será apenas uma pedra, como diria Caeiro, e a beleza de um céu brilhante reverberando as oliveiras, não dá espaço nem necessidade de se imaginar algo mais escondido debaixo da terra ou entre a sombra das árvores.

No penedo da Lapa, o meu santuário no Alto Douro, a visão é inspiradora e a inspiração e espiritualidade são buscadas olhando do alto para os horizontes abertos e rasgados. Nem de perto nem de longe se pensa nas entranhas de onde sai o majestoso maciço granítico. Não consigo imaginar nenhuma mística num poço, nem sequer no da Quinta da Regaleira. O país está repleto de capelinhas nos mirantes, e tantas delas, senão todas, herdeiras de alguma outra veneração mais antiga. Aliás, o meu penedo tem num cantinho uma covinha escavada com um rasgo para gotejar que me cheira a coisa bem pagã.

Não faz sentido discutir prós e contras de cada um dos cenários, nem é minimamente justo sequer tentar aplicar uma escala de valores a um contexto destes. Aliás, de fantástico colectivo todas as sociedades têm algo, só que à nossa chamamos-lhe “fé”. Parece-me claro que nunca uma terra do sol poder ser idêntica a uma terra do gelo. Por muito que o ambiente artificialmente criado aqueça, arrefeça ou ilumine, a luz materna molda-nos para o bem e para o mal. Tentemos aproveitar a parte do bem.

19 maio 2013

As duas Europas


Neste processo em curso de clivagem entre a Europa do norte, pretensamente rica, e a do Sul, perdulária e falida, já se chegou ao ponto de identificar a linha de separação com a fronteira religiosa: de um lado o austero calvinista, do outro o católico faustoso. Nesta lógica confirma-se que a ortodoxa Grécia, ortodoxa apenas no significado religioso da palavra, é certamente um caso à parte e que a França, neste como em muitos outros campos, será uma coisa central indecisa e imprecisa. Seria interessante analisar até que ponto é a influência religiosa que determina o comportamento ou se existe algo de outra natureza que se reflecte na religião dominante; por outras palavras, qual a causa e qual o efeito.

Devo acrescentar ainda que tenho algumas dúvidas sobre essa suposta superioridade moral do norte. O sistema é menos tolerante e um sancionador mais severo, mas não me parece que ter um “ADN” moral assim tão distinto. Alemães e italianos a fazerem negócios por esse mundo fora (sejam submarinos ou sejam helicópteros) não são muito diferentes.

Para lá dessa questão espiritual e/ou moral, o que é certo e certíssimo que é há duas Europas gastronómicas: a que cozinha com azeite e bebe vinho e a outra que cozinha com manteiga e bebe cerveja. E, quem fala em gastronomia, fala em saber viver. Há uns anos quando sob um céu de chumbo eu atravessava o deprimente vale do Ruhr, com aquelas escórias das minas e tenebrosos restos de indústria pesada, eu dizia a mim próprio que preferia atravessar o Alto Douro de Fiat, do que estar ali, nem que fosse de Mercedes. Desculpando a referência explícita às marcas, o problema é por cá termos trocado os Fiats por Mercedes e não os conseguirmos pagar. Resumindo e tentando concluir com um pouquinho de exagero: deixemo-los lá então com as suas cervejas e carros de luxo em ambientes deprimentes e reaprendamos a viver conforme podemos pagar, mas com o saber que temos, e veremos no fim quem é o invejoso.

27 junho 2010

Seixo dos Corvos




Eu pensava que já tinha passado por todos os cantos do Alto Douro, margem Norte e margem Sul. Todos, mesmo todos, não, sobraria um canto aqui e outro acolá, mas nada de dimensão significativa.

Errado. A sul de Carrzeda de Ansiães, numa estrada sem saída, sem sinalização de por onde se entra e, pior, onde se deve parar está o Seixo dos Corvos. E... que coisa!

Sendo as comparações nestes capítulos traiçoeiras, sinto-me tentado a dizer que é a mais bela panorâmica do Alto Douro que já vi. Tem uma amplitude fantástica em ângulo e em profundidade, sem deixar de se sentir uma grande proximidade ao rio. E senti também a falta daqueles máquinas fotográficas novas, catitas, em que se carrega no botão, se roda a máquina e esta faz automaticamente a panorâmica.

Esta mísera montagem dá uma vaga ideia apenas. Até porque isto é das coisas que só vendo e vivendo no local mesmo. Lá em baixo à direita no cantinho está a ponte da Ferradosa, onde a linha de caminho de ferro atravessa o rio. Aqui não se vê bem, mas lá é diferente.

23 fevereiro 2007

A linha do Tua



Terão passado já cerca de 30 anos mas permanece-me na memória como uma das mais marcantes viagens de comboio que jamais realizei. Apanhamos o comboio normal da linha do Douro até ao Tua e daí até Mirandela mudamos para um com carruagens históricas de madeira. Os compartimentos da primeira classe, luxuosos no seu estilo, estavam forrados a veludo verde. Nos topos das carruagens havia plataformas abertas unicamente com uma pequena protecção baixa. Acredito que hoje essas plataformas seriam absolutamente interditas mas, atravessar aquela paisagem assombrosa com umas pequenas incursões à plataforma, ficou-me gravado para sempre.

O regresso foi feito muito mais rapidamente numa banal automotora em que o “troque-troque” das carruagens da véspera era substituído por uma balançar alucinante. Interrogavamo-nos mesmo se os túneis teriam largura suficiente para tolerar tamanha oscilação.

Confesso que estava erradamente convencido que a Linha do Tua tinha sofrido o mesmo destino de tantas outras linhas menores. Esta evocação vem a propósito do recente acidente. Espero que este trágico acontecimento não sirva de ponto final na utilização do troço mas que venha antes chamar a atenção para o potencial duma das zonas mais espectaculares do país e onde só uma agreste linha de comboio consegue penetrar por entre aqueles imponentes penhascos.

Foto extraída de www.transportes-xxi.net