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05 maio 2026

A linguagem de estar e ficar no poder


Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força.  Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.

A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações “pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação pretendida.

Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.

Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante simples e eficaz.  A curiosidade é que em situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.

Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.

Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o Estado Novo era predominantemente desta classe.

Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.

31 março 2026

A China e eu - Terceiro ato


Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.

De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras impurezas.

Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.

Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era fácil…

As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora) Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai. Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses vestígios.

Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas, como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.   

Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…

Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan) foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.

Pode-se entender que persista um registo traumático desses tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…

O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?

Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...



23 março 2026

A China e eu - Segundo ato


Corria o ano de 2013 e eu estava responsável por um projeto de irrigação em Marrocos, onde algumas válvulas hidráulicas tinham sido compradas na China, com o contrato a obrigar a realização de testes de receção das mesmas em fábrica.

Fui com uma comitiva do cliente até Xiamen, a cidade mesmo em frente da ilha de Taiwan. Uns quilómetros para o interior encontrava-se a respetiva ZEE, “Zona Económica Exclusiva”, uma das que constituíram os embriões da fábrica do mundo.

Zonas industriais com largas avenidas, aparentemente tudo muito bem estruturado e com impressionante dimensão. Uma curiosidade, em cada fábrica existia um edifício residencial onde se instalavam os respetivos operários, muitos deles com origens rurais longínquas. Podiam ir a “casa” uma vez por ano e lá permanecer por uma dúzia de dias, após comboios, autocarros e até outros meios de transporte. Obviamente que nada mais havendo a fazer, trabalhavam nos fins de semana, sempre dava mais uns trocos. Entendi que uma boa parte deles nunca poderia instalar-se familiarmente na zona do seu trabalho. É melhor para eles e para a família do que passarem por grandes privações, mas a prazo, o que aconteceria? A “fábrica do mundo” iria funcionar com imigrantes internos permanentemente afastados das famílias?

Durante os testes, ficamos alojados num enorme hotel, frio, na margem de uma estrada, sem mais nada. Eramos lá despejados pelos chineses ao final dia, cerca das 17h, íamos para uma sala para jantar, eles encomendavam os diferentes pratos e partiam. Lá ficávamos a trincar as coisas colocadas sobre a mesa, os marroquinos mais limitados pelas suas dúvidas quanto à compatibilidade religiosa das “iguarias” apresentadas …

Sobre o contacto com o local, uma visita ao templo budista Hongshan, já na cidade de Xiamen, antes de regressar, e à interessante e belíssima ilha de Gulangyu, uma sobrevivente da mistura de culturas e arquiteturas. Dois bons exemplos de uma China historicamente rica.



20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

07 fevereiro 2026

Depois de Mao


Diz-se que da calúnia algo sempre ficará. Ou seja, mesmo com posterior esclarecimento de que todas as acusações lançadas eram falsas, haverá sempre quem continue a “achar” que algo de verdadeiro existiria, sobretudo se tiver “vontade” de em tal acreditar. No final, a imagem do caluniado guardará para sempre alguma mancha, indelével.

O mesmo, noutro sentido, ocorre para as personalidades objetos de culto da personalidade. Mesmo que a história e respetivos factos comprovem que as qualidades incensadas eram fabricadas de ponta a ponta, é impossível anular e apagar das memórias coletivas a imagem e os méritos criados para essas figuras.

A “memória” e a visão de Mao Tsé-Tung na China entram neste segundo caso. É inútil (e perigoso) procurar evidenciar a realidade efetiva das suas ações, já que isso implicaria demolir os alicerces do regime e destruir a respetiva narrativa. Numa primeira fase, logo após a sua morte, foi julgado o “Bando dos Quatro”, incluindo a sua última mulher, Jiang Qing. Era necessário reconhecer terem ocorrido erros e culpar alguém pelos mesmos, desde que não fosse o Grande Timoneiro.

Ela terá afirmado que “Eu era o cão de guarda do presidente Mao. Eu mordia qualquer um que ele mandasse morder”. Certo que há cães que mordem por disciplina e obrigação, enquanto outros o fazem com bastante prazer.

No período seguinte, de Deng Xiaoping, ficou a figura de Mao nas paredes, sem grandes loas nem questões. A China não passou pela fase Kruschev, quando este pôs em causa as ações do “Pai dos Povos”, Estaline. O partido comunista chinês foi criado e inicialmente amamentado pelo soviético, na fase estalinista. Embora a partir de uma certa altura Mao tenha tido a vontade de “matar o pai”, sem o conseguir, sempre houve muito interesse na China em acompanhar o que se passava no vizinho do Norte.

A queda da URSS foi um aviso importante para o regime chinês, que se virou do avesso para procurar entender como as grandes potencias caíram e o que fazer para o evitarem. O novo grande timoneiro, Xi Jiping, tomou o assunto em mãos e de forma eficaz, reconheça-se.

Em primeiro lugar foi reabilitar Confúcio e a cultura ancestral. Os “comunistas” 2.0, como Putin, entenderam ser mais fácil apropriarem-se do património cultural passado, como ferramenta de poder, em vez de se darem à trabalheira de criarem “homens novos”. Se a religião (e as crenças antigas) são o ópio do povo, fiquemos donos dos cachimbos. Nada de especialmente inovador, convenhamos. Ao contrário dos comunistas que deploravam e atacavam a cultura antiga, Xi utiliza-a.

Mao, respetivo pensamento e ações, também se tornam inquestionáveis e pôr em causa o heroísmo dos fundadores da China moderna, torna-se crime. Um historiador honesto pode acabar no tribunal, ou de alguma forma desgraçado, mesmo sem ver um juiz.

A China continua a ser “comunista” (o nosso PC que o diga, detalhes aqui nesta pérola). Se as práticas maoístas foram uma aproximação muito grosseira às teorias marxistas, a abertura de Deng Xiaoping é no sentido liberal e capitalista e a China moderna de comunista terá … não sei o quê.

O regime atual, o “comunismo específico chinês” está alicerçado na sabedoria confuciana, nas teorias marxistas, nas práticas insanas e criminosas Maoístas, no liberalismo de Deng e no controlo absoluto da sociedade por Xi. Grande salgalhada!

Como esta pressão e opressão conseguirão manter o país a funcionar com eficácia é uma questão complexa. Que forças podem nascer que provoquem uma mudança de regime, quando há câmaras de vigilância em todas as esquinas e repressão brutal para cada pensamento critico tornado público? Para as gerações chinesas mais jovens, as imagens das manifestações de 1989 na praça de Tiananmen (se a elas conseguirem acesso), serão certamente do domínio da ficção científica.

Teoricamente não há desenvolvimento sustentável e riqueza sem inovação e esta não rima com proibição. A China é diferente, para sempre?

28 janeiro 2026

Difícil de qualificar


Os regimes totalitários e respetivos líderes têm formas especificas de assegurar a sua permanência no poder. Carecendo de legitimidade democrática por eleições ou de bênção divina de serem reis “por vontade de Deus”, outros argumentos são necessários. Por vezes, quando acederam ao poder por revolução, eventualmente alimentada de supostas boas causas, invocam a legitimidade revolucionária. Em linguagem mais direta será um “ganhamos, (o país) é nosso!”.

A repressão torna-se naturalmente uma ferramenta indispensável, contudo há variantes. Pode haver repressão seletiva, dirigida unicamente àqueles que dalguma forma questionam e ameaçam o poder e o “Estado Novo” português foi um desses casos. Há também a repressão preventiva. Por exemplo, quando a Argélia quis travar o crescimento dos islamistas em 1992, apanhou à pazada todos os que eram ativistas reais, potenciais ou imaginários.

Há um momento em que a repressão não seletiva se torna uma ferramenta fundamental nalguns regimes. É o alicerçar do poder pelo terror, quando qualquer cidadão lambda pode sofrer, sem mesmo saber porquê.  O Estalinismo cai neste caso. Entre os milhões de presos e deportados (e muitos deles mortos de forma atroz) no Gulag, haveria alguns efetivos opositores e críticos do sistema, mas a grande maioria foram apanhados “apenas” para exemplo.

Depois de ter lido “Voai Cisnes Selvagens” de Jung Chang, incluindo o processo da elaboração da biografia de Mao Tse Tung, a leitura desta tornou-se obrigatória.

Mao é mais um adepto e franco praticante da governação pelo terror. Comparado com Estaline, não sei qual dos dois sairá vencedor neste macabro campeonato. Há exemplos relativamente bem conhecidos. Mao é incompetentemente louco e/ou maquiavelicamente assassino. A campanha de extinção dos pardais por comerem grãos, que acaba numa praga de insetos. A cata na rua de pregos e outras peças metálicas, destruição de caçarolas e de outros indispensáveis utensílios de cozinha para, juntamente com o abate indiscriminado de árvores, construir siderurgias domésticas, proporcionando um “Grande Salto em Frente” na produção de aço no país (parece que a qualidade não era grande) …

A manifesta incapacidade de aumentar a produção real agrícola, associada à necessidade de exportá-la para comprar armas e construir uma indústria de armamento vai provocar a morte de dezenas de milhões de pessoas. Segue-se a chamada “Revolução cultural”, que destruirá arte, cultura, património, estruturas de ensino e relações sociais, criando um verdadeiro deserto cultural e traumas enormes na sociedade.

Para lá destes pontos, já relativamente conhecidos, há outros aspetos da vida de Mao que me surpreenderam. A seguir:

Desde a primeira hora que Mao não age movido por ideais, apenas pela busca do poder. Todos os golpes são possíveis e permitidos para esse fim. Não há nada heroico nem especialmente relevante, com um mínimo de princípios na sua “luta”. Unicamente ambição pessoal, que passa por cima de tudo.

Uma vida humana vale apenas na medida do que pode contribuir para o seu projeto de poder. Lançar milhões de pessoas na miséria é um preço aceitável e mesmo irrisório para as suas intenções. Fazer delas carne para canhão na Coreia ou noutros cenários é irrelevante. O custo é insignificante e há um enorme stock disponível. O povo, supostamente tão querido das ideologistas marxistas, é apenas uma matéria prima, para utilizar à sua bela discrição.

A desumanidade não tem limites. Para lá das dezenas de milhões de cadáveres anónimos que jazem no seu percurso, mesmo a Chu En-lai, fiel seguidor e na fase final seu número dois, é-lhe negado tratamento de um cancro, porque Mao não queria que ele lhe sobrevivesse. Pequenas coisas…

Algumas purgas não são definidas e dirigidas por princípios e ações das vítimas. É decretado existirem  x% de “inimigos” a purgar e tratem de cumprir a quota, senão serão purgados vocês.

Estimativas apontam para 70 milhões de chineses mortos na insanidade e voracidade de poder de Mao. Difícil de qualificar, mas se isto não é um dos maiores monstros da história da humanidade…

23 janeiro 2026

Cisnes Selvagens

O livro de Jung Chang, com o nome aqui em título, foi editado em 1991, contando a história de 3 gerações de mulheres na China, ao longo do século XX. Para muitos terá sido o primeiro contacto pormenorizado e bem documentado com o “Grande Salto em Frente” e a “Revolução Cultural” maoístas, todos os seus absurdos, abusos, brutalidades e chacinas.

Não é aqui espaço para o detalhar. Para quem se interessa pela história do século XX, é um livro obrigatório. Como curiosidade apenas gostaria de ouvir o comentário dos “progressistas maoístas” europeus dos anos 60 e 70 sobre as barbaridades reais do seu ídolo asiático.

Um destes dias encontrei numa livraria o “Voai, Cisnes Selvagens”, da mesma autora, 34 anos depois. Embora revisitando algumas passagens do primeiro, é mais autobiográfico, com a história da vida de Jung Chang, como decidiu escrever o primeiro livro, o que depois escreveu e como o regime foi reagindo às suas publicações. Vale a pena. É, novamente, histórico.

Quanto a outras obras da mesma autora, há a assinalar uma biografia de Mao que deve ser uma das melhores obras sobre o tema e da Imperatriz (viúva) Cixi. Encomendadas, já me foram ambas entregues e aguardo com muita expetativa o tempo da sua leitura. Conhecer a China é importante para conhecer o mundo.

Irei dando notícias… 

04 janeiro 2026

E agora mundo…?

O regime de Nicolás Maduro era criminoso, não tinha legitimidade e é possível (sejamos otimistas) que o povo venezuelano passe a viver melhor no futuro, após esta operação militar. Depois do descalabro social e económico provocado pelo chavismo, não é muito difícil.

No entanto, e por muito que possa eventualmente melhorar a vida no país, é impossível apoiar a operação dos EUA, simplesmente porque o argumento de ter o direito de aniquilar um regime narco, serve também para atacar os “nazis” da Ucrânia pela Rússia e os “amotinados” de Taiwan pela China. Nestes dois últimos casos não há nenhuma “desculpa” minimamente séria e razoável nem nada de bom a esperar para os países atacados.

Não faltam países no mundo com regimes criminosos cujas populações têm a vontade e o direito a viverem melhor, no entanto, ao avançar com intervenções militares, sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba.

No pano de fundo temos uma ONU completamente ultrapassada e esvaziada. Quando a diplomacia colapsa, entram as armas. O mundo em que queremos viver tem que saber como conviver com essas armas, recordando que nem sempre estarão em “boas” mãos.

10 dezembro 2025

Até onde se liga


O alarme disparou na Noruega, quando descobriram que os seus autocarros de transportes públicos de um fabricante chinês estavam “conectados” sem eles saberem… A marca em causa, Yutong, tentou tranquilizar os ânimos dizendo que os dados recolhidos não iam para a China, ficavam armazenados na Alemanha. Grande consolo!

O problema não será apenas com autocarros, nem com China, nem apenas com veículos. Cada vez mais usamos equipamentos que por facilidade de manutenção e não só, de alguma forma conversam com um mestre algures. Até os pneus Pirelli estão sob escrutínio por existirem versões conectadas e terem parte do capital em mãos chinesas… penus !!!

Há diferente dimensões. Os códigos e políticas de uma empresa estatal chinesa são diferentes (quando conhecidos) dos de um fabricante ocidental, eventualmente cotado em bolsa. Considerando que essa ligação pode servir para recolher informação, como também para passar ordens, esta última opção à mercê de uma grande potencia mundial é um risco brutal. Se eles se zangarem com um país podem-lhes parar os autocarros, metros, veículos particulares e sabe-se lá que mais… Neste momento uma situação destas é bastante improvável, até porque seria comercialmente suicida, mas isto ser possível não é nada confortável.

Quando falamos apenas na recolha de informação, de recordar que esta é hoje um ativo enorme. A fantástica IA vive de sofisticados algoritmos que correm em poderosos equipamentos informáticos, mas o seu combustível é informação/dados. Sem isso seria inútil. A recolha de dados valiosos sem o consentimento/conhecimento de quem os gera é uma espécie de roubo… que aliás já acontece cada vez que abrimos uma página na internet.

Há ainda outra preocupação sobre o acesso a esses dados. Podem as entidades que os recolhem terem todos os protocolos e procedimentos para a sua proteção, mas há sempre alguém que pode furar e lá chegar e, às vezes, nem precisa de ser um grande hacker. Um amigo meu cuja mulher trabalhava no seu banco, contava-me que por vezes ela lhe ligava depois de ele pagar à saída de uma loja, dizendo-lhe: “já que estás aí, compra-me isto”.

Em resumo, entre o espiar, e eventualmente controlar, a frota de transportes públicos de uma grande cidade e ver os movimentos bancários do marido, a diferença é enorme, mas o mundo é o mesmo.

29 agosto 2025

Ser comunista (IV)

4)   Ser do contra

Há sempre quem queira um mundo diferente daquele em que vive. É natural e até muito frequente em camadas sociais e intelectuais elevadas. Pode até ser salutar, no sentido de nos fazer questionarmo-nos.

Daí que os modelos “alternativos” ao vigente despertem tanto interesse e simpatia, muitas vezes pelo simples facto de serem diferentes e até antagónicos. Veja-se a moda do “maoismo” nos círculos universitários há umas décadas. Não era mais do que óbvio que, objetivamente, as políticas de “Grande Salto em Frente” e “Revolução cultural Chinesa” eram absurdos criminosos a merecer denuncia, repudio e condenação veementes?

Uma palavra também para a “inteligência” europeia que continuou durante muito tempo a ignorar e a relativizar goulags e repressões brutais na Europa de Leste em nome de uma solidariedade com… ou antagonismo face a ….? Racionalmente, não se explica.

Um pequeno exemplo, o intelectualmente brilhante Jean Paul Sartre e “supremo papa” do existencialismo, uma das mais importantes correntes filosóficas do século XX, visitou várias vezes a URSS nos anos 50 e 60, concluindo que “A liberdade de crítica é total na URSS”. Os críticos deportados nos Goulags devem lhe ter ficado reconhecidos, já sem referir os caídos frente à parede de execução, cuja não existência prática não parecia relevante para o existencialista teórico.

Podemos fazer uma campanha contra os malefícios do vinho, mas propondo, em alternativa, aguardente (ou vodka) ?! Enfim…

Começou aqui

Continua para aqui

31 janeiro 2025

Deep "Sick"


Esta semana passou um furacão nos meios e empresas tecnológicas com a chegada da ferramenta de inteligência artificial chinesa, Deep Seek, mais barata e tão ou mais eficaz do que as congéneres americanas estabelecidas.

Quanto a eficácia, ela será um pouco questionável quanto a temas como “Tiananmen”, devendo-nos isto fazer refletir sobre os créditos que devemos dar à isenção destas máquinas sabichonas em geral.

Quanto a custos, sabemos que tudo o que vem da China é barato, nem se sabendo por vezes as razões de fundo da competitividade. De recordar que a Europa, ferida na indústria automóvel, quer travar o que nesse campo de lá chega, por supostas ajudas públicas ao setor.

Por último, mas não menos importante, estas ferramentas precisam de enormes infraestruturas tecnológicas e bons algoritmos, mas, sobretudo, de informação em quantidade brutal. Como uma simples “start-up” caída das nuvens conseguiu criar e ter acesso a essa biblioteca de dados colossal? Sabendo que ela depois se autoalimenta com os dados que lhes são colocados para analisar e rever, terão consciência os utilizadores que estão a engordar uma enorme base de dados chinesa?

Recordando as dúvidas e entraves colocados à utilização de equipamentos de telecomunicação chineses nas nossas redes, será que embarcar nesta IA “barata” não será potencialmente muito mais grave?

19 agosto 2024

Desvendando labirintos


Já algumas vezes aí para trás tive a oportunidade e o prazer de referir o quanto aprecio a obra deste escritor libanês (ok, quando ele lá nasceu a zona tinha administração francesa).

Para lá dos seus romances históricos ricos e “humanos”, estamos perante alguém que pensa e com uma latitude de análise que alarga a nossa, caso nisso estejamos interessados. Este “Labirinto dos Perdidos”, sua última publicação, não é romance nem está centrado no seu Levante (Mashrek).

É a história dos sucessos e fracassos de quatro nações cujas transformações mais marcaram o século XX: Japão, Rússia, China e Estados Unidos. O que houve de novo em cada processo, o que fez o a diferença e o sucesso, onde os caminhos se perderam, como os erros chegaram.

É um livro obrigatório para quem tiver curiosidade em entender o que por este mundo está a acontecer… e pode vir a acontecer. Muito bom!

22 julho 2022

E quem paga?


O Sri Lanka, antigo Ceilão, vive dias de grande tormenta. Populares invadiram o palácio presidencial e a residência do primeiro-ministro, o presidente fugiu, o poder não está na rua, mas as portas estão escancaradas e as incertezas são muitas.

Para trás fica um período de má governação, incompetente e corrupta, a quem o travão do Covid-19 no turismo deu o golpe de graça. O país não consegue refinanciar a sua dívida nem garantir o mínimo de serviços do Estado. Bancarrota, assim se chama.

Não é situação rara e o passo seguinte habitual é financiamento sob tutela, tipicamente do FMI, forçando uma grande disciplina orçamental e controlo das finanças públicas. A particularidade aqui é que uma boa parte da dívida do país ser com a China, conhecida por financiar projetos de desenvolvimento (e outros) na sua esfera de influência, sem olhar demasiado para a qualidade da governação associada.

Assim sendo, o FMI terá alguma relutância em participar no reembolso desta dívida. A China também não deve estar muito interessada em aceitar algum tipo de restruturação; seria um precedente terrível, dada a sua enorme exposição a situações potencialmente análogas. Irá nascer um “FMI Chinês”?

E, no fim, quem paga? Para já, paga o povo e especialmente os mais desfavorecidos. Nós, por cá, andamos mais preocupados com a legitimidade dos penteados…

30 maio 2019

Enquanto eram parafusos…


Tempos houve em que o antigo império do meio, começou a fazer parafusos. Eram baratos, o controlo de qualidade um desafio, mas quando os senhores que sabiam bem de parafusos lá se instalaram, as coisas ficaram melhor organizadas e evoluíram. Hoje é muito mais do que parafusos e já se dispensam senhores de fora para muitas competências.

Nenhum equipamento conectado é uma ilha, havendo cada vez mais coisas que se conectam e sendo cada vez mais fácil fazê-lo. Uma “coisa conectada”, seja um telemóvel, um automóvel, um frigorifico ou uma casa, tem uma ponte e uma porta de entrada para o mundo exterior. E aqui não tenho dúvidas… garantias de inviolabilidade não há. É apenas questão de esforço e habilidade.

Sempre, e hoje ainda mais, a informação é fundamental, a informação é poder. E aqui também não tenho dúvidas … poucos ou pouquíssimos resistirão à tentação de aspirar toda a informação a que tenham acesso, caso isso lhes traga alguma vantagem. Sabemos que cada passo nosso de cada dia é aspirado por quem saber o que somos, para depois vender essa informação a quem quiser comprar, servindo tanto para nos impingir bugigangas como propaganda política.

Na atual crise EUA – China, a separação entre a Google e a Huwaei é a crónica de um divórcio anunciado. Quem viaja à China, já sabe que Google, e outros, lá não existem por questões de segurança nacional. As diferentes ambições e projetos de sociedade tornam inevitáveis o estalar desta desconfiança, que, recorde-se, é recíproca.

Assim, está em curso a construção uma nova cortina de ferro, que não sendo física, não é menos significativa. Hoje o ecossistema da internet na China é já substancialmente diferente do ocidental. A continuar por este caminho, atingindo as bases de hw e sistemas operativos, o mundo dos sistemas de informação vai mesmo partir-se em dois e anuncia-se uma batalha feroz pelo controlo de territórios, da mesma forma como durante a guerra fria, as superpotências disputavam o controlo de países terceiros.

Para lá dos estragos imediatos que a perda da concorrência e redução de escala provocarão, fica uma questão especulativa. Até que ponto o ocidente será competitivo sem poder contar com as bases de produção e o mercado na China e como esta reagirá a não poder aceder à evolução e a inovação tecnológica ocidental e respetivo mercado. Não necessariamente quem ganha, mas quem perderá menos?

11 abril 2018

Triste

Na última dezena de livros encomendada sobre este “meu” tema estava incluida esta obra, muito interessante. Uma citação, para dar o mote:

“Para acabar com a nossa negação! As minhas críticas dirigem-se à minha “família”, aquela dos intelectuais de esquerda, campeões em todas categorias no que respeita a negação: com medo de “fazer o jogo da reação”, negamos a existência dos campos soviéticos, a barbaridade do maoismo, a tirania dos regimes do terceiro-mundo, desde que estes se proclamassem de esquerda. Hoje, face ao fanatismo islamista, com medo de sermos etiquetados de islamofóbicos, voltamos a mergulhar na negação.”

Para lá dos aspetos retrógrados e hegemónicos do Islamismo, que todos conhecem, ou podem facilmente conhecer se quiserem, o livro descreve principalmente a tolerância e a negação dessa realidade, que uma comunidade europeia, supostamente progressista, revela face ao fenómeno.

De uma forma muito detalhada e documentada, ele faz a ponte com processos anteriores, onde tantos “progressistas” se recusarem a admitir o óbvio, até as evidências não permitirem de todo continuar a ignorar a brutalidade desses regimes. Dentro da enorme lista de episódios embaraçantes não resisto a referir um exemplo: em 1953 o Partido Comunista Francês, aceita e defende a possibilidade da condenação à morte de uma criança de 12 anos, porque na URSS, a formação dos cidadãos é tão avançada e eficaz que, com essa idade, já atingiram a maturidade completa. Isto será ser progressista?

Receando uma etiqueta feia e consequente ameaça de exclusão da “comunidade”, um largo número de intelectuais ignorou as vítimas que sofreram e, tantas delas, morreram, pela liberdade e pela dignidade! Deixaram ser roubado o futuro a populações inteiras em regimes despóticos pós-coloniais, porque criticar era equivalente a defender a colonização. Estas visões e omissões absurdas e cruéis são propostas e defendidas por gente de nível intelectual elevado. Não teriam obrigação de, além de serem inteligentes, serem racionais e humanos?

O Islamismo como sistema de organização social é incompatível com os princípios fundamentais dos direitos humanos. Ignorar ou tentar branqueá-lo não é apenas desonestidade intelectual. É ser cúmplice de um crime. Não estamos simplesmente a discutir princípios filosóficos, estão em causa vidas e direitos humanos.

Da parte que me toca, é-me muito fácil. Não devo obediência a nenhuma família e consigo ver rostos, com nome próprio, de quem sofreu/sofre limitações aos seus plenos direitos. É claro que entre correr o risco de ser etiquetado com um nome feio ou ignorar quem não consegue viver dignamente, a escolha é-me muito, muito fácil.

Na mesma colheita veio o livro abaixo ilustrado, com o testemunho de Henda Ayari e do seu calvário pelo mundo salafista. Não é caso único, mas chega para confirmar que a interpretação literal e retrógrada do islão devia ser simplesmente proibida neste nosso mundo.




13 agosto 2016

Mais rápido, mais alto, mais forte?


Nunca assisti a uns jogos olímpicos. Atualmente parecem-me até estar um pouco afastados do espírito do Barão de Coubertin. É um grande espetáculo que movimento muito dinheiro e uma competição exacerbada onde, quase, vale tudo. A exclusão inédita dos atletas russos por evidência de dopagem apoio “institucional” é impressionante, embora também faça pensar se foram só eles e só agora. Não me surpreenderia nada que outros países, ciosos de reconhecimento internacional a todo o custo como, por exemplo, a China, fossem apanhados em idêntica malha.

Ao ler algo sobre o caso russo, encontrei esta foto da única atleta russa, Klishina, a quem foi permitido participar (os créditos da foto estão na própria imagem). É impressionante pela expressão muscular. Dir-se-ia que não existe um único músculo do corpo da atleta que não esteja mobilizado no objetivo. Fantástico de linguagem corporal.

E, claramente, as modalidades desportivas que mais admiro são estas, técnicas, como os saltos no atletismo, o voleibol, a ginástica e muito pouco as de força bruta e de técnica pouca.

20 agosto 2014

Apple e/em China

Num curto espaço de tempo vi passarem à minha frente duas noticias relevantes sobre a Apple e a China.

- A China excluiu Ipad’s e Macbooks da lista de produtos que as entidades públicas do país podem comprar, por questões de segurança. Foi divulgado a 6/8, salvo erro.

- Cerca de uma semana depois, a 15/8, sabe-se que a Apple começou a utilizar servidores instalados na China para guardar a informação de utilizadores locais. Realçam que tomam muito a sério a segurança e a privacidade dos seus utilizadores

Fico a pensar se será mera coincidência …


Imagem googleada sem referencia original

07 fevereiro 2014

As fronteiras da Justiça

Um juiz espanhol lançou um mandato de captura internacional contra uma série de altos dirigentes chineses do início da década de 90, incluindo o presidente e o primeiro-ministro da época, pelos acontecimentos no Tibete. A China não gostou, certamente, e, por coincidência ou não, o Parlamento espanhol vai a correr votar uma lei que limitará a jurisdição internacional do seu sistema de justiça.

Isto faz lembrar um pouco a história recente de Portugal-Angola, com a investigação a alguns altos dirigentes africanos. Foi um pouco diferente por os supostos crimes terem ocorrido mesmo em Portugal e não haver polémica sobre a tal abrangência internacional. Diferente também foi termos visto um ministro a comunicar e a antecipar publicamente as conclusões do processo e a decisão judicial estar plena de considerações políticas e diplomáticas…

Recordo ainda o caso da venda de equipamento militar do Reino Unido à Arábia Saudita em que uma investigação em curso teve que ser abandonada, dado os potenciais danos que a ira dos árabes poderia provocar. As razões invocadas foram “interesse público” e “segurança nacional”.

O que há de comum nestes três casos, é termos um país com um sistema de justiça supostamente independente que investiga algo relacionado com poderosos de um país terceiro, que este não aceita e em que as ameaças de retaliação fazem a justiça supostamente independente encontrar um caminho de recuo.

Pragmaticamente sempre foi assim, e provavelmente sempre assim será. Será que faz sentido ir até ao fim com estes processos, isolando um mundo da justiça cega para todos de outro mundo de valores relativizados. E o mundo da justiça cega, certamente empobrecido, conseguirá sobreviver ou acabará, de um forma ou de outra, comprado? Vale a pena pensar na expressão “pobres mas honrados”?

16 maio 2013

Questão de segurança

Para quem não saiba ....

Tomar um duche pode molhar o chão da banheira

a menos que já haja lavagem a seco.