09 agosto 2018

Insensível ou pior

Terei sido um dos muitos que ficou de boca aberta quando o nosso PM, no contexto de uma análise ao incêndio de Monchique, utilizou a palavra “sucesso”. É um pouco como, face aos destroços de um acidente aéreo, dizer aos familiares das vítimas que as melhorias na segurança aérea são um caso de sucesso.

Por um lado, há a questão objetiva de se faz sentido falar agora em sucesso. O que sabemos é que o clima tem sido muito favorável, mas bastaram uns dias de calor para vermos já um enorme incêndio descontrolado. Seria prudente esperar pelo final do verão, antes de tirar conclusões.

Depois, há o contexto. Na situação catastrófica e dramática que se vive por aqueles lados, e drama não é apenas a perda de vidas humanas, usar a palavra sucesso é de uma enorme insensibilidade ou pior.

Ainda, sobre o que está a acontecer, para lá das imagens da facilidade de apagar velinhas de aniversário, dos grandes planos dos desesperos e da inflação no número de especialistas que nesta altura brotam, gostava de ver informação objetiva. Onde começou, onde se atacou, por onde circulam os meios, onde se reacendeu, por onde evoluiu, tudo isto documentado com números concretos. Ou seja, ter informação objetiva sobre o que se está mesmo a passar. Não sendo assim, ficamos reduzidos aos shows: o dos media e das suas entrevistas emotivas no meio da fumarada e o das comunicações oficiais sempre iguais, proporcionando especulações, muitas dúvidas e fáceis manipulações.

Se, quando se estiver já na fase da cinza, se concluir terem existido falhas graves na coordenação, haja sensibilidade para tirar conclusões e assumir responsabilidades.

07 agosto 2018

Bulas académicas


“Segundo relatou o próprio “X”, quando rebentou o escândalo, teria acordado pessoalmente com o responsável do curso umas condições vantajosas para obter o diploma. Não precisava de ir às aulas. Não precisaria de apresentar tese final. Teria equivalência inicial a 18 das 22 cadeiras do curso, correspondente a mais de 80% de toda a matéria e 2/3 dos créditos exigidos. As restantes 4 seriam aprovadas apresentando uns trabalhos que somaram apenas 95 folhas no total.”

Quem será este “X”? Um Relvas ou algum jotinha que se desenrascou para ter um canudo expresso? Não. Trata-se de Pablo Casado, recentemente eleito líder do PP espanhol. Não começa com o pé direito… “Contigo cresce Espanha”, está escrito no púlpito.

O relato do contexto deste percurso académico no Instituto de Direito Público da Universidade Rey Juan Carlos inclui outras anedotas deliciosas, como gente que teve direito a diploma, desconhecendo até estar inscrito no curso.

Pode-se traficar saber, esforço e mérito por estes arranjinhos, remunerados em numerário ou em espécie, a pronto ou a prazo? Pelo princípio, obviamente que não. Descredibiliza e desautoriza quem devia ter um comportamento eticamente exemplar.

Se numa empresa normal alguém for contratado apresentando habilitações falsificadas, o mais certo é ir para a rua no dia seguinte a isso ser descoberto. Os políticos são, de certa forma, contratados por nós e, como tal, passíveis de escrutínio e merecedores de intolerância face à falta de seriedade. Lá como cá, à esquerda, à direita … e vice-versa.


Fotografia EFE

06 agosto 2018

Tecnologias de proteção


A nossa Proteção Civil, a quem convinha fazer algo de excelente para limpar um pouco a imagem da vergonha do ano passado, resolveu ser moderna. Decidiu enviar SMSs a avisar quando há risco de incêndio, a dar um número de contacto e a pedir para as pessoas ficarem atentas. Dá uns títulos engraçados e quantificados como convém: Proteção Civil envia 7 milhões de SMS… grande trabalho, sim senhor. Convém apenas melhorar um pouco as 12 horas que o processo demora.

Sábado passado, seis jovens ameaçados por um incêndio na zona de Estremoz ligaram para o 112 e, na impossibilidade de explicarem onde estavam exatamente, ficaram a saber que não era possível enviarem a sua localização GPS para nenhum recetor. Ou seja, a Google certamente saberia onde eles estavam, mas para a Proteção Civil isso era impossível. Ficaram os seis feridos e dois com gravidade.

É mais fácil despejar SMSs de pertinência discutível do que poder receber a localização GPS de quem liga para o 112? Aparentemente seria, mas não foi o caso, dado que o primeiro SMS saiu com o número errado. Lapsos ...

03 agosto 2018

Eu e a política

Em conversa recente com alguém sobre os textos que por aqui vou publicando, alguns também na imprensa, surgiu a expressão de “intervenção política”. Fiquei a refletir se realmente o que faço há 17 anos, expressar publicamente a minha opinião e visão, muito frequentemente crítica, sobre a atividade política do país, se pode chamar “intervenção política”.

Dentro duma definição ampla da palavra, sim, será intervenção política. No entanto, prefiro a expressão intervenção cívica, dado que a minha motivação fundamental não é a promoção de uma “política”, muito menos de qualquer forma de politiquice ou de partidarite, mas sim, como cidadão, pedir contas a quem as tem que dar. Naturalmente que quando está no poder o A, irá ser provável achar que estou a defender a política do B… e vice-versa. É a vida de quem não se identifica num mundo de gregos e troianos.

O que ganho com isto? Certamente a antipatia de adeptos clubísticos e militantes, para quem os erros, as incompetências e incoerências são coisa relevante apenas em casa alheia. Prejuízo objetivo não o noto. No entanto, apesar de vivermos num país relativamente livre, acredito existirem funções e contextos onde o respeitinho é muito bonito e este exercício público de cidadania seja incompatível com uma vida minimamente tranquila e justa. Será uma razão para, livremente, eu continuar.

31 julho 2018

E agora, Bloco?

Considero o Bloco de Esquerda um projeto político atípico e um pouco difícil de caraterizar ideologicamente. Tem origens heterogéneas e, mais do que isso, com uma grande carga de anacronismo nos alicerces herdados. Se na década de 70 um jovem urbano se podia facilmente reclamar de trotskista, maoista, maxista-leninista e por aí fora, estes fundamentos, hoje, para um partido que se aproxima do poder, estão naturalmente falidos. Já ninguém, ou quase ninguém, se reclama “trotskista”, certo? Ou, pelo menos, ninguém sabe o que isso poderia ser como prática, mesmo prática.

O BE é claramente contra uma séria de coisas e difusamente a favor de umas ideias. Temos as causas “fraturantes”, e como esta palavra soa bem naquele contexto, mas o exercício do poder não se pode limitar ao “quebrar”.

Diz-se correntemente que em política só estão puros os virgens. Ou seja, só não fez asneiras, quem nunca teve oportunidade de as fazer. Com todo o perigo destas visões generalizadoras, é certo que um partido “do contra” corre grandes riscos quando se aproxima do exercício do poder.

O caso de Ricardo Robles marcará um antes e um depois, penso. Primeiro, na perspetiva individual do comportamento de alguém que tem algum relevo na organização. Ele pode não ter feito nada de ilegal, dando já de barato a promiscuidade entre as suas funções na Câmara e o investimento imobiliário, mas comportou-se como um padre que de manhã, do alto do seu altar, prega a moralidade e condena impiedosamente os pecadores… e à noite participa em orgias.

Depois, pior, é absolutamente deplorável a defesa que a cúpula do partido fez, porque aí deixou de ser um caso individual e passou a ser o partido, institucionalmente, a caucionar uma hipocrisia descarada. Para quem faz bilhete de identidade da defesa intransigente dos (seus) princípios, não vai ser fácil recuperar desta ferida.

29 julho 2018

A propriedade e a partilha

O Huguinho nasceu em família favorecida e juntou uma enorme coleção de automóveis miniatura. O Sr. Padre disse-lhe que ele devia partilhar alguns com os meninos cujos pais tinham menos posses. O Huguinho aceitou o conselho e foi oferecendo algumas miniaturas, enfim, as mais estragadas e as de que gostava menos, aos colegas mais desfavorecidos. O Huguinho tornou-se muito solidário.

O Zezinho não nasceu nem rico, nem perto, mas empenhou-se muito em estudar, aprender e trabalhou seriamente. Hoje tem uma vida desafogada, paga os seus impostos e cumpre todas as obrigações sociais. O Huguinho continua a achar que se deve sempre dividir a propriedade com quem tem menos, mas o Zezinho não concorda completamente, muito especialmente quando está em causa o que se conseguiu por mérito e esforço próprio. O Huguinho continua a ver a riqueza como algo que herdou e vai herdando, culpabilizando-se por ser um favorecido. O Zezinho não sente culpa nenhuma por ter o que tem.

Um destes dias o Huguinho vai participar nuns trabalhos políticos que incluem temas como “A propriedade é o roubo: debate sobre a socialização dos meios de produção”. Ao Zezinho isto parece um grande disparate, mas existir no mesmo programa um outro painel - “Direito à boémia: necessidade da vida noturna para produção e radicalização cultural”, ajuda a entender melhor o contexto.

Obviamente que o universo não se resume a Huguinhos e Zezinhos, mas que há muitos Huguinhos por aí, há…. (e só enfia o barrete quem quiser)

25 julho 2018

O tamanho conta?


Quando se fala em categorias de máquinas fotográficas, para lá das simpatias clubísticas pela marca do coração, para lá de mais ou menos versatilidade, transportabilidade e sofisticação tecnológica, existe um parâmetro fundamental para a qualidade do resultado final, que é o tamanho do sensor.

Simplificadamente, há os de 35mm, do tamanho da antiga película, usado por profissionais e amadores endinheirados (se excluirmos uma invenção da Sony que puxou o nível de entrada mais para baixo), os mais populares APS-C, do nome de um antigo filme, linearmente cerca de 1,5 mais pequenos do que os anteriores, e os “minorcas”, fração de polegada, das compactas, superzooms e telemóveis. Estes últimos não têm tamanho standard, mas linearmente são cerca de 4 vezes ainda mais pequenos do que os APS-C. Para resoluções próximas é óbvio que o sensor minorca será construído com elementos mais pequenos e que isso tem um preço na qualidade da imagem. Ou seja, o tamanho conta.

No entanto, os telemóveis começam a tirar fotografias “agradáveis” de ver, especialmente se forem visualizadas num pequeno écran…. de telemóvel. Recentemente li um artigo (até num sítio sério) que questionava o tal dogma de “o tamanho conta”. A parafernália de softwares de otimização, realce, correções e o diabo ao pixel, fazem os sensores minorcas parecerem gente grande. Tenho que concordar que o meu telemóvel me apresenta muitas vezes imagens bastante crocantes, muito para lá da minha expetativa.

Uma das caraterísticas que se perde com os sensores pequenos é a possibilidade de desfocagem do fundo e o destaque do elemento principal nos retratos. Mais uma vez, há software para “resolver”. Devo dizer que acho bastante artificiais algumas imagens assim tratadas, apresentando um “bokeh liquido”… questão de gosto e não gosto.

Softwares, softwares… imagens à parte.

21 julho 2018

Habitats e migrações

Sim, existe um animal chamado ser humano, a mesma espécie em vários continentes e latitudes; sim, teoricamente tem direitos universalmente reconhecidos, independentemente da raça, credo, género, etc; sim, ele pode viajar e migrar pelo planeta; sim, mas… também possui uma dimensão cultural e social que não é igual em todo o mundo, nem pode ser ignorada.

Com maior ou menor dependência, com maior ou menor facilidade de adaptação, todos temos um habitat sócio – cultural específico onde estamos integrados. Cada qual e cada um, imagine-se deslocado para as estepes da Ásia Interior e pense se seria feliz a viver aí para o resto da sua vida. Não somos todos iguais, não reagiríamos todos da mesma forma, mas uma larga maioria, certamente, não se sentiria “em casa”.

Migrações. Há que distinguir o contexto temporário, sequência de uma guerra ou catástrofe natural, da situação definitiva. Por muita compaixão que tenhamos por quem vive mal, e devemos tê-la e mobilizarmo-nos para melhorar a vida de todos os seres humanos, um ser humano não pode ser encarado como um infeliz animal abandonado, do qual temos pena e que trazemos para casa. E não pode sê-lo por várias razões. A primeira é existir uma enorme probabilidade de ele não se sentir feliz num habitat, eventualmente materialmente melhor e mais seguro, mas diferente do seu original. Os problemas que se vivem nas “comunidades” por essa Europa fora, têm muito a ver com isto, apesar de todos os esforços de integração realizados. Não pode ser feito em grande escala, porque isso equivale a retirar recursos aos seus locais de origem e empobrece-los adicionalmente. E também porque uma chegada massiva altera o habitat destino, tornando-o estranho para todos, os que chegam e os que lá estavam. Não confundir com xenofobia.

Os nossos habitats evoluem, mas, uma vez mais de forma variável conforme cada qual e cada um, essa mudança tem uma velocidade limite aceitável e integrável. Se for demasiada rápida, será vista como uma rutura de referência. Isto não é xenofobismo.

A missão e obrigação de melhorar sustentavelmente a sorte dos mais desfavorecidos deste planeta não passa por trazê-los todos para nossa casa.

20 julho 2018

Figuras tristes

Vinte e dois deputados desta nação, e invocando expressamente esse estatuto, escreveram ao Supremo Tribunal Federal do Brasil apelando à libertação de Lula da Silva. Para começar, do ponto de vista formal e institucional, não faz nenhum sentido deputados enviarem recados destes a magistrados. Com o Atlântico pelo meio, pior ainda.

Segundo estes nossos representantes eleitos, “Lula de Silva é hoje reconhecido mundialmente como um preso político” (!?). Isto é um enorme insulto ao sistema judicial brasileiro, ignorando oportunisticamente que neste processo foram julgados e condenados figurões de diversos quadrantes políticos e de grandes grupos económicos.

É irónico recordarem o contributo de Lula para retirar da pobreza milhões de brasileiros. Independentemente do mérito que possa ter ido nessa realidade, num país decente isto é absolutamente irrelevante para o processo judicial, a menos que se queira valorizar o “Roubou, mas fez!”.

Consultei recentemente uma publicação da “Transparency International” com uma ordenação da corrupção percecionada no setor público, em 180 países do mundo. Como em todos os exercícios deste tipo, serão certamente discutíveis os critérios de avaliação e a ponderação. No entanto, é claríssimo existir uma correlação muito forte entre corrupção e subdesenvolvimento. Ou seja, nos países em que o setor público mais rouba é onde as populações pior vivem.

Na teoria toda a gente está de acordo e condena a corrupção. No entanto, na prática, quando o problema atinge a “tribo”, muito facilmente se assobia para o lado ou pior, como neste caso e noutros cá do burgo, tenta-se branquear responsabilidades, conjeturando histórias da carochinha. Meus senhores, enquanto continuarmos a colocar o filtro da simpatia à frente destes factos, a corrupção não irá diminuir e continuaremos subdesenvolvidos. Alguém tem dúvidas??

01 julho 2018

Sobre a verdade dos outros


Faço parte daqueles que entendem que a prática passada e atual da instituição igreja católica é muito frequentemente, e infelizmente, afastada dos princípios do cristianismo de Cristo. A promiscuidade com o poder, as perseguições aos “infiéis”, a fortuna ostentada, a beatice mesquinha e a limitação do espírito crítico são exemplos de coisas que não lhes ficam/ficaram bem.

Recentemente li estes dois livros sobre um personagem fascinante: Pierre Claverie, na sua última função bispo de Orão, na Argélia. Um deles é uma coletânea de textos seus, o outro uma biografia. A dimensão espiritual e a riqueza humana do seu discurso são notáveis.

Nascido na “bolha colonial” e ignorando “o outro” nunca disso se esqueceu, assumiu-o e tudo fez para o corrigir. Foi “pied noir”, nome dado aos franceses nascidos na colónia e regressados à metrópole depois da independência. Também foi “pied rouge”, os europeus que se instalaram na Argélia independente para colaborarem na construção do novo país. Aprendeu árabe e manifestou uma vontade e um empenho permanente em entender e respeitar o Islão: “Preciso da verdade dos outros”, dizia ele.

Cruzam-se aqui a ação e os princípios da igreja católica pós concílio Vaticano II, sendo forçoso reconhecer que se todas tivessem feito caminho semelhante, hoje não haveria tantas tensões religiosas na bacia mediterrânea. Podem torcer o nariz e o que mais quiserem, mas racional e objetivamente… essa é que é essa.

Pierre Claverie era um adepto do diálogo e da aproximação entre religiões, mas sabia “existir um abismo que nos separa”, que não se atravessava com grandes especulações teóricas, nem com ingenuidades superficiais. Só posso concordar. É inútil e pueril discutir se o meu Moisés é mais completo do que o teu ou se um profeta teve mais revelações do que o outro. O diálogo e a real aproximação só podem acontecer entre pessoas e é muito mais fácil quanto mais humano for o relacionamento. Daí a sua enorme paixão pelo contacto com todo o tipo de gente.

Na década de 90, durante a época do terrorismo, quando um francês religioso católico era visto como um estrangeiro não isento e, para muitos, pouco desejado, os seus textos, para lá de extremamente ricos de conteúdo, eram de uma objetividade, frontalidade e honestidade irrepreensíveis.

Morreu em 1 de agosto de 1996, despedaçado por uma bomba quando entrava em casa. Alguém achou que ele não merecia viver.

30 junho 2018

Ajudando o populismo

Quando se fala em migrantes e na crise associada é fundamental fazer a análise em distintos níveis. No imediato, se estão vidas em risco no mar, é desumano deixá-los morrer à fome ou naufragar. Sobre este ponto não há/não deveria haver dúvidas. Ponto final.

Uma outra dimensão é admitir estruturalmente que a Europa tem obrigação de acolher todos aqueles que para cá queiram vir. Ignorando considerações interesseiras sobre a “necessidade” de importar matéria humana, como quem importa petróleo ou óleo de soja, a resposta é não e por três razões simples.

1 – Não é justo esvaziar o terceiro mundo de uma parte significativa dos seus recursos humanos, sob pena de comprometer ainda mais o seu desenvolvimento.

2- Muitos desses migrantes terão dificuldade em se integrarem num meio diferente do seu e serão infelizes longe de “casa”. Prefeririam viver dignamente aí.

3. A Europa não tem capacidade de integração ilimitada.

A postura de querer recolher “todos”, como quem leva para casa um gatinho encontrado perdido na rua, é infantil! Estas e outras boas intenções servem para potenciar o tráfego, alimentar as máfias associadas e amplificar expetativas nos países de origem.

Uma boa parte da população europeia, que consegue ver para lá desse irrealismo ingénuo, a escolher entre os que dizem “venham todos” e os populistas que dizem “nem mais um”, face a essas duas únicas opções… escolhe o populismo.

A solução não passa por derrubar os muros, passa por não haver necessidade deles.

29 junho 2018

Jogos sem fronteiras


Cantava Peter Gabriel que os “Jogos sem Fronteiras” eram uma guerra sem lágrimas. De facto, nas competições onde há uma bandeira nacional à frente das equipas gera-se uma motivação especial, que se for sucedâneo de guerra, enfim, tanto melhor. Quantas pessoas não ligam nada ou muito pouco ao futebol e se tornam incondicionais e entusiastas adeptos da seleção, quando está em causa a bandeira?

Penso que este Mundial na Rússia, teve uma importância fundamental para o povo iraniano. Sem conhecer a fundo a contexto, mas … sinto que a campanha da sua equipa nacional marcou fundo.

Ao falar em Irão, é necessário separar a elite dirigente que vemos na televisão das outras pessoas que aí vivem, claramente do nosso mundo e a querer viver como no nosso tempo, no nosso mundo. Apesar do divórcio existente entre elas e os seus dirigentes, não existe, naturalmente, divórcio entre elas e o seu país, ainda por cima um país com a personalidade e a história da Pérsia.

Pela (re)pressão interna e pelas sanções externas, a vida não é fácil e existe um sentimento de fragilidade e uma busca de dignidade que podem atingir um nível dramático. Começou por a Nike se recusar a fornecer sapatilhas, estupidamente invocando um estúpido embargo. Uma campanha humilhante iria doer muito.

Assim não foi e terem estado até ao último segundo do último jogo a tentarem e a acreditarem na qualificação foi uma catarse coletiva, um exorcizar de complexos e medos, que certamente ficará na memória do país. Os jogadores deixaram tudo o que tinham e o que não tinham naquele relvado. Os(As) iranianos(as) sentiram-se parte de pleno direito da primeira divisão das nações do planeta. … e melhores tempos chegarão.

PS: Na imagem, a laranja é Portugal, como em muitas línguas do Médio Oriente, mas, ok, não nos vamos zangar … :)

26 junho 2018

Local de sabedoria


Quiseram a sorte e o azar de uma desprogramação de última hora que eu pudesse visitar longamente a basílica de Santa Sofia em Istambul. Na prática não foi bem visitar, foi tentar vivê-la.

Já lá tinha passado há uns anos, mas apenas entrando num pé e saindo no outro. Agora foi diferente. Atravessei-a lentamente, explorando todos os cantos e esquinas acessíveis, com a sensação e a emoção de estar a pisar um lugar histórico único. Em mais de quatorze séculos por ali passaram imperadores romanos, papas, patriarcas ortodoxos, sultões e califas. Num local ímpar da bacia deste mar nosso a quem batizaram de centro da Terra. Ali, no promontório do “Serralho”, condensam-se e cruzam-se tantos caminhos, guerras, impérios, riquezas, artes, saberes e desgraças, que é impossível não sentir um peso enorme nos ombros, por maior que seja a leveza com que se procura colocar os pés naquelas pedras desgastadas pelos séculos.

A basílica é maciça, maciça no aspeto exterior, maciça no espaço interior e na sua história de sobrevivência. Os quatro minaretes que em tempos a mesquitizaram, fazem uma espécie de cerco, circunscrevendo-lhe o espaço e, se é certo que ela não cresce para lá daquele perímetro, em nada perde de dimensão e pujança. Gostaria apenas que lhe retirassem os escudos verdes arabizantes descaracterizadores, da mesma forma como apreciaria que a antiga mesquita de Córdova fosse libertada dos adicionais cristãos lá colocados.

As figuras, temporariamente escondidas durante os séculos em que foi local de culto do Islão, resistiram mais ou menos e vamos vendo-as assim, enquanto pudermos, já que não faltam tentações e intenções de fazer o edifício retomar essas funções.

Sofia significa sabedoria, certo…? Oxalá!

21 junho 2018

Impreciso


Imagem imprecisa. Depois de voltas e reviravoltas, eis-me de novo visitante regular das margens do Marmara. Um momento preciso, num intervalo estreito. Entre o fim do Ramadão, celebração secular, cujo cumprimento estrito pode levantar algumas questões de interpretação no mundo atual, e as próximas eleições, dentro de dias, as primeiras num novo modelo, com desfecho inesperado.

Haverá continuação do modelo recente, bem-visto pragmaticamente por alguns, ao menos sabe-se o que é, insustentável para outros, pelos fundamentos do sistema social ou pela questionabilidade económica? Haverá mudança e sabe-se lá para quê? Seguir-se-á um impasse?

Mantenho a foto, imprecisa do mar de Marmara, ao fundo as suas ilhas, refúgio histórico das minorias. Destaco a imprecisa pequena chama, numa mesa de esplanada de um terraço, no lado asiático da cidade. Istambul asiático, cada vez mais pujante e cosmopolita e em oposição ao “outro lado”, o europeu, mais estático e conservador. Irónico?

Perto de concluir um século sobre a sua (re)fundação, o país está suspenso e inquieto. Uma coisa, no entanto, sente-se e marca: a enorme vitalidade e energia encerradas nas suas vontades. A ver vamos. Boa sorte turcos e turcas de boa vontade.

18 junho 2018

Essa coisa do árabe


Por um lado, a utilização da palavra “árabe” é frequentemente imprecisa e, por outro lado, a evocação da “presença árabe” na Ibéria é muito fantasiada.

Arábia é a península entre o mar vermelho e o golfo pérsico. Tendo o Islão e o seu profeta aí nascido e a religião daí se expandido, generalizou-se uma equivalência forçada entre muçulmano e árabe. Os povos conquistados e colonizados sofreram uma enorme influência, mas isso não significou assimilação completa com anulação de especificidades e culturas, havendo também, evidentemente, diferenciações nas evoluções posteriores. Por esse princípio nós, e muitos mais, seriamos hoje simplesmente “romanos”.

A generalização é ajudada pelo facto de que para um muçulmano ser “árabe” é partilhar a etnia do seu profeta principal. Esta tendência é reforçada ainda pelo conceito da nação global e única, seja a histórica Umma (comunidade de todos os crentes), sejam os mais recentes projetos pan-arabizantes como o de Nasser, a partir do Egito. Por falar neste país, como explicar que um egípcio se assuma principalmente como “árabe”, quando a cultura e a história do seu país dão vinte a zero à das tribos nómadas vizinhas? O mesmo se pode dizer dos naturais do Mashrek (Levante) berço da civilização e até da escrita e do Magreb (Poente) muito mais próximos culturalmente da Europa do Sul do que dos nómadas do Hejaz (interior da tal península).

Do lado de cá, até os mais preocupados com o “outro”, apelando ao respeito pela sua identidade e cultura, não hesitam em correr toda a gente com a etiqueta de “árabe”, desde Casablanca até Damasco. Errado, muito errado. Uma generalização pouco esclarecida e desrespeitadora da diversidade cultural existente.

Sobre a presença na Ibéria dos “árabes”, cruzam-se dois romantismos. Há o dos invasores, usurpadores, que entraram por aqui à má-fila, sem terem direito para tal, obrigando a malta séria a refugiar-se num sótão, lá nas Astúrias, para depois heroicamente repor a normalidade.

O outro romantismo é o da nostalgia da herança perdida. Como se com a conquista dos castelos, todo o conhecimento que chegou e se criou naquele tempo tivesse sido embalado e viajado para fora da península, perdendo-se irremediavelmente essa herança exótica. A sério…?!

Duas visões grosseiramente simplificadas. Não foi assim tão simples, nem tão compartimentado, nem tão rápido. Tarik atravessou o estreito em 711 e a reconquista definitiva das principais cidades ocorreu nos 1240s, excluindo Granada que aguentou mais dois séculos. Fazendo as contas, são cerca de 530 anos. Recuando esse intervalo de tempo a partir de hoje, Vasco da Gama ainda não teria chegado à Índia. Esses séculos não foram sequer um período homogéneo, mas uma sequência de vários distintos: dependência dos Omíadas de Damasco, califado autónomo, taifas, califado Almorávida, de novo taifas e, por fim, o califado Almóada.

E se se falasse e estudasse isto, colocando no devido lugar a Arábia e os seus camelos?