10 outubro 2018

Trumpalhou, né?


Parece mais do que certo que o grande país, nosso irmão, irá Trumpalhar. Obviamente que a culpa não é individualmente do personagem Bolsonaro, por muito detestável que possa ser a sua personalidade e os seus princípios. A culpa direta é claramente dos milhões de brasileiros que nele votaram e que muito provavelmente o confirmarão na segunda volta.

Se o crescimento dos populismos é geralmente o resultado de uma saturação e descrença relativamente às propostas mais tradicionais e consensuais, esta evolução no Brasil não deixa nenhuma dúvida a esse respeito. Como pôde o PT não se distanciar dos escândalos de corrupção e tentar posicionar-se em busca de uma limpeza, pelo menos no discurso? Talvez não pudesse mesmo visceralmente de todo fazê-lo, mas entre corruptos consagrados e condenados e um polémico autoritário não serão de estranhar os milhões de votos neste último e a sua provável eleição.

Resultou muito patético, além de obviamente ineficaz, ver gente que da parte da tarde apela ao repúdio de Bolsonaro, cheia de boas intenções, é certo, quando da parte da manhã defende Lula da Silva e o seu sistema, considerando-o um “preso político”.

Portanto, trumpalhou, sim, mas por mais detestável que ele seja, a culpa não é do Bolsonaro, obviamente.

08 outubro 2018

E se fosso pelo outro lado?


O Presidente da Camara de Lisboa lembrou-se de reduzir o preço dos passes sociais à custa dos impostos de todo o país. Como era descaramento a mais, acrescentou-se o Porto à ideia e parece que a coisa vai mesmo passar para o próximo orçamento de Estado. Estou a tentar imaginar o entusiasmo de um transmontano a pedir faturas oficiais com IVA, para assim financiar a mobilidade dos habitantes das grandes metrópoles do litoral.

Ficou por discutir o que poderia ser uma alternativa mais interessante e sustentável: reduzir o custo para os utilizadores a partir da redução e otimização dos custos operacionais. Como se consegue? Com uma gestão competente e séria. Os “gestores” nomeados pelos políticos têm essas qualidades? Pois… não sei.

Um contrato de concessão pode perfeitamente enquadrar as exigências de um serviço público como uma gestão profissional e eficiente… desde que seja bem feito. Para redigir e colocar em vigor um bom contrato é necessário competência e seriedade. Evidentemente que discutir estas questões nesta perspetiva não está na agenda. Os tempos são mais para “papas e bolos”.

03 outubro 2018

Os evangelhos, os sagrados e os satânicos

Cumpriram-se por estes dias trinta anos sobre a data da publicação de um dos livros mais polémicos das últimas décadas. Não, não estou a falar de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” cá do burgo, um pouco mais recente e que apenas provocou a não atribuição de um prémio literário e o exílio voluntário do seu autor. Também não foi censurado nem, tanto quanto me recordo, queimado. O livro em causa, incomparavelmente menos provocador, li os dois, deu origem a sentenças de morte, algumas executadas.

Vamos deixar de lado o facto de a larga maioria dos que falam (ou agem) excitadamente contra livros, filmes e o que quer que seja declarado satânico, não os conhece, não os leram e nem sabem bem o que está mesmo em causa. Apenas alguém terá ditado sentença e o povo acata.

Hoje, a publicação de um livro “religiosamente provocador”, que provoque pela narrativa heterodoxa, sem apelo direto ou indireto ao ódio ou à violência, seria mais tolerada? Infelizmente, penso que não. Curiosa e infelizmente alguma dessa intolerância é justificada e defendida por insignes figuras de uma sociedade, a nossa, que deve o seu sucesso aos seus valores de tolerância, liberdade e respeito pelas diferenças. Há aqui um passo perigoso: quando a abertura é utilizada para fechar, quando o respeito pelos outros é utilizado e manipulado para proteger projetos hegemónicos e intolerantes.

Sem prejuízo do tal respeito, insignes e menos insignes deveriam firmemente refutar e intransigentemente condenar as intolerâncias e as violências contra simples heterodoxias, por mais escandalosas que possam parecer. Caso contrário, serão os alicerces da nossa sociedade que se questionam e abalam. E se ela não é perfeita, não conheço outra melhor. É importante não regredirmos.

02 outubro 2018

Um banco em segunda mão

Quando se vende um bem como, por exemplo, um automóvel usado, é habitual seguir-se o princípio de ele ser vendido no estado em que está, analisar-se previamente tudo o que houver para analisar, ficando fora de questão eventuais compensações, ajustes ou acertos futuros. Exceção, e legalmente suportada, poderá existir quando existe algo intencionalmente escondido. O princípio salutar é que a partir de altura em que já não sou eu quem o conduz e mantém, também não quero ser responsabilizado por eventuais avarias.

O processo de venda da Novobanco parece ser um caso pouco saudável do género: o banco agora é vosso, vocês passam a geri-lo, mas se alguma coisa correr mal, suposta herança do período anterior, mandem-nos a conta que nós pagamos. Este “nós” acaba por não ser bem o “nós” que assina. É o fundo de resolução e no fundo o contribuinte que evidentemente não tem mais opção do que pagar o que lhe mandam.

Leio que o NB anuncia precisar de mais 726 milhões, sendo que a conta ainda não está fechada. Parece-me ser uma história do tipo: olha, naquele automóvel que me vendeste há uns meses, a embraiagem foi à vida. Vou substitui-la por uma nova e mando-te a conta.

Não será tão simples avaliar o balanço de um banco como a saúde do motor de um automóvel, mas todos sabemos que a embraiagem pode ir à vida mais depressa ou mais devagar conforme o tipo de condução.

25 setembro 2018

Andamos para trás?


O senhor reproduzido nesta fotografia, créditos abaixo, é considerado pelos especialistas como ter possuído uma das fantásticas vozes de sempre. Pela sua imagem e prática foi assumidamente homossexual, com as minhas desculpas para a eventualidade desta expressão não ser atualmente a mais politicamente correta.

Na avaliação e discussão do valor de Freddy Mercury como artista, sinceramente, não me lembro de ver recorrentemente apontada, pela positiva ou pela negativa, a sua homossexualidade. Nos tempos atuais, supostamente mais modernos, isso já não seria possível. Uma crítica seria imediatamente classificada como homofóbica pelos guardiões das minorias, mesmo daquelas que dispensam esse tipo de guardas, e um elogio obviamente imputado ao lóbi dos gays.

Dificilmente será possível vermos hoje uma discussão natural e objetiva sobre os méritos e deméritos de um Fredy Mercury sem uma contaminação inevitável das, chamemos-lhe, suas preferências sexuais. À força de tanta pressão pela “modernidade” e pelo politicamente correto e na sequência das reações que todos fundamentalismos e radicalismos provocam, acabamos por viver muito mais condicionados por preconceitos do que no passado.  

Foto: Redferns, Bob King


22 setembro 2018

Quando não basta ser

A não recondução de Joana Marques Vidal como PGR pode ter muita lógica e muitas justificações. A apresentada pela PR da “homenagem à vitalidade da democracia” é algo patética.

Sem questão de fundo formal a impedir a recondução e sem nenhuma razão objetiva decorrente do desempenho de Joana Marques Vidal, esta decisão do governo foi tomada porque lhes apeteceu.

Pode até estar tudo muito certo e o desempenho da nova PGR continuar na linha da atual, mas no momento em que escaldam tantos processos com gente importante e muito próxima dos atuais inquilinos do poder, este apetite pela mudança parece muito, muito mau.

14 setembro 2018

(Im)Possible restrictions

Eram 3h18 da madrugada quando caiu um sms da companhia aérea nacional, escrito “in English”, avisando-me que devido a “possible restrictions at Lisbon Airport” eu tinha interesse em me despachar, se não queria perder o voo da manhã. É o que se chama começar bem o dia.

É habitual as coisas complicarem-se nos aeroportos no período de férias. Há mais voos, mais gente e uma parte dessa gente menos habituada a circular por aqueles canais. Será também lógico que um aeroporto sature por aquilo que não se incrementa com facilidade, nomeadamente pistas e portas de embarque.

Nessa famosa manhã, em que tomei as recomendadas precauções, o controlo de passaporte tinha as linhas automáticas fechadas e, quando passei, apenas um guichet estava aberto. Quem se apresentou esperando um tempo de passagem “normal” bem stressou… ou seja, as “restrictions” não tinham a ver com coisas físicas, espaço até nem falta naquela zona, mas com o número de inspetores do SEF em serviço. Do outro lado, para quem chegava, a fila de espera era coisa de terceiro mundo.

Se isto faz parte de algum programa para reduzir o número de turistas que nos visitam, está bem, estão no bom caminho. Que seja usado para justificar a saturação do aeroporto, é que já é outra conversa.

12 setembro 2018

O fulano quer


Sei de experiência própria que muito dificilmente há sucesso numa realização feita a partir de ideias avulsas, nascidas em frente ao espelho durante a higiene da manhã. Especialmente se houver dimensão e complexidade é necessário definir e planear um conjunto de ações coordenadas e coerentes e implementá-las com disciplina e organização.

Assim, irritam-me profundamente os títulos, mais frequentes agora com o aproximar das eleições, de “fulano quer…”, sendo o fulano um fulano do poder ou da oposição e irrelevante o quadrante político onde se insere. Já vivi num país onde era possível um ministro visitar uma obra em curso e ali, a quente, dar instruções e decretar alterações. Poupo-me caraterizar o absurdo que tal representa. Não estamos nesse nível, felizmente, mas este concurso de “ideias” tresmalhadas e pontuais que os fulanos se lembram de querer não me é nada querida.

09 setembro 2018

Sigam o líder

Em 2013 a Sony lançou uma coisa nova e revolucionária, uma família de máquinas a sério, de sensor “full frame”, sem espelho: as famosas A7, declinadas em três versões e hoje na terceira geração.

Os Canikon, que já tinham dada pouca importância ao “sem espelho” para sensor intermédio APS-C (a Nikon ignorando-o mesmo de todo), continuaram a promover as vantagens do espelhinho, uma peça móvel, que ocupa espaço, que coloca problemas de calibração de focagem, mas que permite ver o cenário ao vivo, como muito gente não dispensa.

Respeitando gostos e opiniões, com os visores eletrónicos atuais e ultrapassadas algumas questões tecnológicas iniciais, preferir hoje o visor ótico, muito menos flexível e informativo, pela “sensação” de ver, para mim é como defender arrancar o motor de um automóvel com manivela em vez de motor de arranque, porque assim se sente melhor quando ele pega…

Estes dias, com um intervalo apenas de duas semanas, os Canikon apresentaram finalmente as suas famílias “espelholess”, apenas 5 anos depois do líder. Obviamente que as famílias anteriores, com manivela, não desaparecem, até porque é aí que eles têm o seu mercado consolidado e também ainda não se sabe quanto vale mesmo na prática o desempenho das recém-nascidas.

Após tantos a menosprezar e a ignorar a inovação finalmente reconheceram e assumiram que os automóveis já não usam manivela.

05 setembro 2018

Não era futebol


A degradação e o descuido que levaram ao brutal e devastador incêndio que destrui uma boa parte do Museu Nacional no Rio de Janeiro não foi consequência do governo dos últimos dois anos, como alguns tribalistas se apressaram a dizer.

É uma história de longos anos. Consequência de cortes/austeridade e desinvestimento, certamente, mas também de desinteresse geral. Não haver água disponível para combater as chamas quando era necessária será mesmo e apenas questão de orçamento?

Sobre orçamento e cortes, convém recordar que este país organizou um campeonato do mundo de futebol há quatro anos, com tudo o que de enorme investimento perdido estes eventos implicam.

Portanto, se estivesse em causa o futebol e não 200 anos de história e de memória do país e até património único da humanidade, talvez o edifício tivesse tido mais atenção. Apenas por lá ?


Foto: Globo.com

04 setembro 2018

Passos passados

Este era um bom texto para o aniversário do blogue, mas como maio ainda vem hoje e as efemérides são como o Natal, quando um homem quiser, e eu gosto de ter a liberdade de invocar o que me apetece quando me apetece, sai hoje.

O sítio onde estamos é fruto do caminho que fizemos. Cada passo dado, certeiro ou desajustado, foi uma parte desse percurso. Podem ser de louvar ou de lamentar, mas nunca de apagar ou esquecer. Especialmente os passos dados públicos e publicados, porque até por definição, o que é colocado a público não pode ser revertido.

Ao longo de uma dúzia e meia de anos de publicação, acontece-me por vezes cair numa coisa antiga e achá-la atual e bem-feita ou fraca, equivocada e imperfeita. Vejo hoje fotos publicadas há uma dúzia de anos que estão mesmo a precisar de um toquezinho aqui ou acolá… ou de um caixote do lixo. Mas deixo-os estar, por fazerem parte do meu caminho, porque apagá-las ou alterá-las seria apagar ou “retificar” o que eu fui. Dramático? Não, mas importante.

Daí a necessidade de bem refletir antes de tornar algo público. Por definição, não é reversível.

02 setembro 2018

Ai Portugal

As denúncias dos desvios e abusos na utilização das verbas disponibilizadas para as reconstruções de Pedrogão Grande não devem ser tribalizadas. É pouco relevante a cor política dos intervenientes. Creio que, infelizmente, a “chico espertice” do vale tudo para deitar a mão ao que está ali a mão, seja simples dinheiro público de todos nós, seja uma coleta solidária em favor de quem foi vítima de uma desgraça, não tem cor dominante. É caraterística de uma falta de princípios e de vergonha, transversal na horizontal e na vertical. Podem até dizer os beirãos: se os excelentíssimos senhores deputados aldrabam a sua declaração de residência para receberem mais umas massas, porque não o posso fazer eu também para ver o meu palheiro transformado em casa?

Efetivamente, a doença é a mesma e o pior que podemos fazer é relativizá-la pela família política dos protagonistas. Enquanto assim fizermos, continuaremos bons a “discutir futebol”, mas não é por aí que sairemos da cepa torta.

28 agosto 2018

Prerrogativas

Em plena crise de disponibilidade e fiabilidade do transporte ferroviário, leio que o operador deu prioridade a um comboio fretado pelo partido do governo, atrasando outros serviços, os do povo.

Certamente que, na imensidão dos problemas que enfrentam diariamente os utilizadores daquele meio de transporte, os distúrbios provocados por aquele “deixem passar quem é mais importante” foram uma pequena gota de água. No entanto, dizem muito da (má) forma como os governantes em geral deste país se situam relativamente aos serviços públicos do mesmo.

Gostaria muito que na outra grande embrulhada em curso neste nosso jardim que é a degradação do nosso Serviço Nacional de Saúde, bastante mais grave pelo que está em causa, gostaria que ministros e restantes apoderados o utilizassem mesmo como um cidadão lambda, já que o direito à saúde é indiscutivelmente universal. Gostaria que quem de direito e de poder se apresentasse nas urgências do hospital mais próximo, tentasse marcar uma consulta ou uma cirurgia. Gostaria que sentisse na pele e na saúde, na dor e na ansiedade o que sente o vulgar cidadão “não prioritário”, para quem eles também governam e a quem devem respeito e outras obrigações.

Obviamente que isso nunca sucederá. Da mesma forma que o seu comboio tem a prerrogativa de passar à frente dos demais, nunca eles sentirão esses problemas, que não são os deles. Enquanto isso não sentirem, não governam, governam-se.

23 agosto 2018

Deem palco aos charlatões


O Websumit tem uma enorme cobertura mediática. Desconheço quantos frutos concretos trará, mas palpita-me serem bastante inferiores ao seu impacto nos média. Enfim, cada qual faz como quer e gasta o seu tempo e dinheiro como entender, a menos que haja por lá dinheiro público/meu. De todas as formas, face a todo o mau emprego que fazem com os meus impostos, não será também tema para eu me preocupar em demasia.

Como não sei bem para que serve a tal conferência, não consigo avaliar se um personagem político como Marine le Pen tem lá enquadramento. No entanto, parece-me claro que não ganhamos nada em ostracizar quem teve 34% nas últimas eleições presidenciais de um dos maiores países europeus.

As suas ideias são perigosas e demagógicas? Sim, mas não é por lhe tirar o microfone que ela não as divulga. Acho mesmo que, pelo contrário, deve dar-se palco aos charlatões para os confrontar e desmascarar. A postura paternalista de que o “povo” sofre de menoridade intelectual, é de fraco discernimento e, por isso, devem existir uns tutores ideológicos que os protejam de influências nefastas é o primeiro passo para uma coisa muito feia.

Assim, deem palco a Le Pen, Maduro, Lula, Orbin e a todos os órfãos de Estaline. Desde que seja um palco livre e inteligente, não manipulado, temos todos a ganhar… menos os charlatões.

09 agosto 2018

Insensível ou pior

Terei sido um dos muitos que ficou de boca aberta quando o nosso PM, no contexto de uma análise ao incêndio de Monchique, utilizou a palavra “sucesso”. É um pouco como, face aos destroços de um acidente aéreo, dizer aos familiares das vítimas que as melhorias na segurança aérea são um caso de sucesso.

Por um lado, há a questão objetiva de se faz sentido falar agora em sucesso. O que sabemos é que o clima tem sido muito favorável, mas bastaram uns dias de calor para vermos já um enorme incêndio descontrolado. Seria prudente esperar pelo final do verão, antes de tirar conclusões.

Depois, há o contexto. Na situação catastrófica e dramática que se vive por aqueles lados, e drama não é apenas a perda de vidas humanas, usar a palavra sucesso é de uma enorme insensibilidade ou pior.

Ainda, sobre o que está a acontecer, para lá das imagens da facilidade de apagar velinhas de aniversário, dos grandes planos dos desesperos e da inflação no número de especialistas que nesta altura brotam, gostava de ver informação objetiva. Onde começou, onde se atacou, por onde circulam os meios, onde se reacendeu, por onde evoluiu, tudo isto documentado com números concretos. Ou seja, ter informação objetiva sobre o que se está mesmo a passar. Não sendo assim, ficamos reduzidos aos shows: o dos media e das suas entrevistas emotivas no meio da fumarada e o das comunicações oficiais sempre iguais, proporcionando especulações, muitas dúvidas e fáceis manipulações.

Se, quando se estiver já na fase da cinza, se concluir terem existido falhas graves na coordenação, haja sensibilidade para tirar conclusões e assumir responsabilidades.