20 fevereiro 2017

E a Sra Le Pen agradece


Emmanuel Macron, o candidato da esquerda às próximas eleições francesas foi à Argélia, antiga colónia, e achou por bem afirmar que a colonização constituiu um crime contra a humanidade. Não sei se acreditará mesmo no que disse ou não; os políticos têm por hábito dizer o que acham por bem ser dito.

Se a história da humanidade está cheia de crimes e as guerras por si, para mim, serão todas criminosas, independentemente das causas e motivações, essa colagem direta da etiqueta é abusiva. Devo dizer que, como português, agradeço bastante a colonização que os Romanos por cá fizeram.

Se falarmos de África e de tempos mais recentes, poder-se-ia questionar se as lutas foram mesmo pela libertação ou apenas pela mudança da tutela e se, no pós-independência, há mais ou menos crimes contra a humanidade do que antes, mas aí estaríamos a fugir à discussão do princípio.

Citando o que alguém disse no “Le Point”, em outubro passado: ”… que a colonização na Argélia tinha trazido a tortura, mas também o nascimento de um Estado, a criação de riquezas e de uma classe média. Houve elementos de civilização e elementos de barbárie”. Quem afirmou isto, bastante razoável e equilibrado? O Sr Macron, o mesmo!!!

À sombra da falta de razoabilidade, incoerência e oportunismo descarado destes senhores, cresce a Sra Le Pen. Depois, se ela ganhar… podem organizar manifs.


Foto do France24

14 fevereiro 2017

Dia perigoso

Hoje é um dia perigoso… para ir a um restaurante. Há um sério risco de ser confrontado com uma ementa de S. Valentim; pior do que isso, numa sala decorada à S. Valentim ou, mesmo muito pior ainda, viver uma situação muito deprimente, caso coincida com um jantar junto com um colega de trabalho. Acho que desta última, pelo menos, estou safo.

Saindo um pouco deste merchandising da data (e uso o english mesmo de propósito), se houver um sorriso de alguma forma que gere outro sorriso, já chega.

E para esquecer, ou recordar, que não há nada de mais maravilhoso do que um olhar que tenta conquistar outro e nada mais, mais menos, do que um olhar que considera o outro conquistado.

13 fevereiro 2017

Nada de novo

Realmente não parece acontecer nada de novo por aqui, nesta grande paróquia. As coisas vão e vêm assim como as ondas na praia; limpam a areia de umas coisas, trazem outras, algum lixo, bastante, mas no fim fica tudo mais ou menos igual.

Alguém sabe como ficou ou como vai ficar aquela coisa do salário mínimo com TSU bonificada? Pois é, não tinha nem tem jeito nenhum. O salário mínimo devia ser um limite e não uma norma. De tanto batalhar essa causa, acordaram em subi-lo, mas com subsidio. Bendito país que mãos tão largas tem para satisfazer todos os chorões. A discussão ficou pela gincana tática e, nisso, nada de novo.

A Caixa Geral de Depósitos precisa de ganhar a vida como banco bem gerido, pelo menos deixar de a perder como instrumento do partido do poder. A trapalhada que viveu (ainda vive?), durante meses e que agora fatalmente se decanta, prova o seguinte. O estatuto de gestor público não permitia (permite?) contratar os profissionais necessários e os políticos mentem, para cima, para baixo e para o lado, o que for preciso para flutuarem na porcaria que fazem. Nada de novo e muito menos o facto de o PM vir garantir a pés juntinhos que ninguém mentiu. A novidade é o Presidente querer ver uma evidência assinada (com registo notarial?) e até lá ninguém tem culpa.

Os juros da dívida pública estão a subir. É uma novidade. O que não é novidade é não parecer ser preocupante para ninguém. Ah! Há outra novidade, é o Presidente garantir que, globalmente, a coisa está bem e a melhorar.

Os transportes públicos, de privatização suspensa ou revertida, continuam em degradação, mas isso é ainda culpa da troika. Até à próxima, a culpa será sempre da anterior. Nada de novo.

De resto, reformas e políticas de fundo, coisas feitas e pensadas um bocadito para lá dos títulos da imprensa de amanhã… não vejo. Infelizmente, nada de novo e nós, neste campo, precisávamos mesmo de algumas novidades.

Novidade talvez seja um Presidente que ainda não descobriu que quem muito fala, pouca acerta… ou talvez nem isso seja novidade.

31 janeiro 2017

A infância por Brel


O Senhor Jacques Brel, que eu aprecio há muito tempo, de quem tenho a obra completa há vários anos, continua, de vez em quando, a aparecer e a conseguir surpreender-me.
Para falar assim da infância, é preciso ser-se um grande adulto ! 

A infância, quem nos pode dizer quando acaba, quem nos pode dizer quando começa, não tem nada a ver com a imprudência, é tudo o que ainda não está escrito.

A infância que nos impede de a viver, de a reviver infinitamente, de viver a retornar no tempo, de arrancar o fim do livro.

A infância que pousa nas nossas rugas, para fazer de nós velhas crianças. Eis-nos jovens amantes, o coração cheio, a cabeça vazia. A infância, a infância.

A infância é ainda o direito de sonhar e o direito de voltar a sonhar. O meu pai era pesquisador de ouro; o problema é que o encontrou.

A infância, é meio-dia cada quarto de hora e quinta-feira cada manhã. Os adultos são desertores, todos os burgueses são índios.

Se os pais conhecessem a infância, se os mais pequenos amantes soubessem, se por acaso eles conhecessem a infância, nunca mais haveria crianças, nunca

25 janeiro 2017

O que há


Este texto sai descaradamente fora da linha editorial do blogue, mas é por uma boa causa. Considero fazer sentido o esforço e a heresia, se ajudar alguém na doença do “à” e do “há”:


1) O “à”

Eu vou a + o monte = eu vou ao monte
Eu vou a + a praia = eu vou à praia


2) O “há”

Forma do verbo haver, equivalente de existir. Na dúvida substituir pela conjugação equivalente de existir e ver se faz sentido
Hoje há festa = hoje existe festa – correto
Vamos há (?) praia = vamos existe praia - incorreto


3) O plural

Nas suas conjugações “simples” o verbo haver não tem plural (pelo menos por enquanto):
Não “haverão” razões – há razões
Não “hão” coisas – há coisas
Como auxiliar pode estar no plural
“Havemos de ver as razões; hão de ser feitas coisas”

24 janeiro 2017

E um Almaraz blues?

Estávamos nos inícios da década de 80 e correu a notícia de que Espanha planeava construir um cemitério nuclear em Sayago, lá em cima, junto ao nosso Nordeste. É uma prática habitual os projetos nucleares serem realizados junto às fronteiras; em caso de acidente, metade do problema é imediatamente exportado.

Ainda não tinha ocorrido Chernobyl, muito menos Fukushima, mas, independentemente da razão e do risco real, a mobilização foi enorme. Ninguém queria um Douro sob risco reativo. O protesto até ficou registado no “Sayago Blues”, da dupla Rui Veloso/Carlos Té.

Por estes dias, já depois de Chernobyl e Fukushima, Espanha tem uma central nas nossas portas a funcionar em extensão do tempo de vida e anuncia querer aproveitá-la para depósito de resíduos e… está bem, … o governo português vai protestando…, e a sociedade civil?

Nesta época em que é tão fácil manifestar indignação, em que meio mundo se levanta e solidariza com a imagem de um cão sujeito a maltratos ou abatido por mau comportamento, Almaraz, é uma palavra que deixa a malta indiferente? O pessoal anda preocupado e indignado com a eleição e a investidura do Trump; entretido a praticar o tiro ao Coelho e a quem o apoiar, a comentar, apoiar ou criticar as selfies do Presidente; a decretar juízos e valores sobre taxistas e Ubers, enfim…

Reconheçamos que riscos nucleares não são um problema do “Now!”.

14 janeiro 2017

Encruzilhadas


Ouvi falar de gente com eu, mas nunca relacionei. Fizeram um caminho para serem livres, mas descobrirem terem tomado a direção errada. Mas não vale a pena voltar para trás, porque todos os caminhos vêm ter onde estou e acredito que os percorri a todos, não importa o que planeei.

Crossroads, Don Mclean

12 janeiro 2017

É este o futuro?

Quem já assistiu a apresentações sobre o admirável mundo novo que está aí a chegar, do qual alguns totós ainda não tomaram consciência e devidas ações, que, por isso, necessitam de ir a correr contratar uns consultores para a digitalização do seu negócio e etc e etc, certamente já ouviu falar em unicórnios. Empresas inovadoras, que valem uma pipa de massa e muitas delas por supostamente terem criado um novo modelo de negócio, disruptivo.


Uma delas, bastante sexy, que o pessoal gosta muito de apontar como exemplo é a Uber. Efetivamente, a Uber tornou-se num nome omnipresente e sinónimo de uma mudança radical na mobilidade urbana.

Ora bem, vamos a factos. A Uber está valorizada em muitos milhões, conseguiu convencer muitos investidores a colocar lá fundos, mas (ainda?) perde dinheiro. Eu fico a pensar como uma empresa cujo principal ativo é uma aplicação de telemóvel, por muito sofisticada que seja, que não parece ter quadros, nem ativos de nenhuma forma proporcionais ao seu volume de negócio; uma empresa onde os clientes pagam a pronto, sem calotes, que praticamente nem precisa de investir em promoção da imagem… como é que uma empresa assim precisa de tanto dinheiro e como tem tantos e contínuos prejuízos…

Depois, aqueles que trabalham mesmo, os condutores, também não ficam ricos, muito pelo contrário. Praticam horários alargados, desregulamentados para ganharem o que calha e parece ser uma vida bem dura. Portanto, é este o admirável mundo novo: de um lado uma capitalização de milhões a perder dinheiro e do outro lado uns biscateiros esforçados que se chama pelo telemóvel…? Não faltará nada aqui?

07 janeiro 2017

Mais do que Soares, o Povo

Não é por Mário Soares ter falecido que muda a minha opinião sobre ele. Se posso marcar uma mudança, essa terá ocorrido após a leitura dos “Contos Proibidos” de Rui Mateus, um livro muito incómodo para o PS. Certamente que da sua intervenção na vida política nacional ficará como mais marcante a sua intervenção no verão de 1975 e o travar da “ditadura do proletariado”. Soares teve o sentido de oportunidade para ocupar e liderar o espaço existente por todos os aspirantes a uma democracia em liberdade, identificados com a esquerda, mas frontalmente opostos e desconfiados dos que comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Entendo que ele teve a capacidade de identificar esse movimento e de o liderar, mas a vontade de viver em liberdade estava no povo, não foi ele quem a criou. A isso juntou-se um enorme e brutal carisma e capacidade de criar empatia com o povo.

Tecnicamente, Mário Soares foi um mau primeiro-ministro; muitas vezes arrogante mais do que bastaria e, principalmente, rodeado de amigos com negócios muito suspeitos. Donde que, vejo Mário Soares como um homem de poder e não de princípios. Mas, enfim, o povo precisa de reisinhos e a comunicação social aproveita e vende.

30 dezembro 2016

Melhor será sempre acreditar


Usei recentemente esta fotografia, tirada na casa museu Júlio Verne em Amiens, para ilustrar o texto abaixo copiado, de Fernando Pessoa.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão.

Invocar estes temas associando-lhes um barco na casa do grande sonhador das “viagens extraordinárias”, não é coisa vã. No entanto, o barco da imagem não é a representação de nenhuma criação fantástica do escritor. Trata-se do real transatlântico “Great Eastern”, um enorme navio da altura, no qual J. Vernes viajou até aos EUA e lhe inspirou o romance “Uma Cidade Flutuante”. Onde pretendo chegar, e a ambiguidade da imagem quanto à natureza da viagem evocada para isso contribui, é à reflexão de que o limite entre os sonhos possíveis e os impossíveis, pode não ser tão clara como o entre ter sido um imperador romano ou falar com a rapariga com quem nos cruzamos todos os dias na rua.

Aliás, uma vez que Álvaro de Campos declarava “tenho em mim todos os sonhos de mundo”, seria interessante assistir a uma discussão entre ele e o seu “companheiro de quarto”, Bernardo Soares, quanto à classificação, binária, de cada um desses sonhos. Mesmo que não tem todos, todos, os sonhos do mundo e simplesmente sonha alguma coisa nova para cada novo ano, terá problema idêntico.

E desistir da Lua, por a achar inalcançável quando, mais tarde, ela poder passar bem próxima à nossa frente? Na dúvida é sempre preferível em tudo acreditar, mesmo correndo o risco de nada entender… do que o inverso.

28 dezembro 2016

O Presidente, o George e o Arlindo

“Ó que lindo chapéu preto, naquela cabeça vai….” Esta frase diz algo a alguém? E esta: “Muito boa noite senhoras e senhores, lá na minha terra há bons cantadores”. Provavelmente serão familiares para muitos e tão familiares, de tal forma popularmente adotadas, que já se diluem na chamada tradição. Um nome comum por trás delas: Arlindo de Carvalho. Um senhor que faleceu em 26 de Novembro passado, com uma história de vida merecedora do maior respeito.

Ora bem, o nosso PR, que ainda não se esqueceu dos tempos em que tinha a obrigação profissional de tudo comentar, publicou na página da Presidência um lamento pela morte de George Michael. Não me parece muito bem para a dignidade dessa página que concorra com uma “janela da saudade” mundana qualquer, independentemente dos méritos e deméritos do cantor em causa, nem que adote o estilo do “eu @aqui e @ali”, tipo simples página pessoal, registando inclusive a ginginha que se tomou algures em boa companhia.

Neste dilúvio de “apontamentos”, essa mesma página passou em branco o desaparecimento de Arlindo de Carvalho. Com o que ele significa para a cultura portuguesa isso parece-me uma falta de respeito e das grandes.

Senhor Presidente: acalme-se um pouco, coloque um mínimo de distância entre a sua ação e a espuma dos dias; enfim, ocupe o seu lugar, por favor.

26 dezembro 2016

De líder para capataz

Quem manda nas empresas serão, obviamente, os seus donos (à exceção das empresas públicas onde os donos somos todos nós e mandam os políticos). Quem são os donos das empresas será teoricamente relativamente fácil de identificar, pelo menos formalmente. Há, no entanto, diferenças enormes entre o tipo de donos e o perfil de quem manda.

Há empresas com dono claro e próximo, com personificação da liderança, onde o líder faz parte da equipa que com ela se confunde, se necessário for. Ganhará certamente mais do que os demais, mas não será frequente esse fator chegar às centenas de vezes. Essas são as empresas familiares, seja no sentido da propriedade propriamente dita, seja pelo sentimento de todos pertencerem a uma família. Velhos tempos…

Depois há outras com dono volátil, eventualmente anónimo e/ou coletivo, onde cada um pode nem saber bem o que tem em cada momento. Os donos entram e saem individualmente ou em bloco. No fundo, muitos apenas entregaram as suas poupanças a uns profissionais que se encarregam de as rentabilizar, de fundo em fundo.

Os capatazes, nomeados pelos “financeiros”, não fazem parte da equipa, estão lá a cumprir uma missão, de “criar valor para o acionista” (e em caso de sucesso ficam com uma parte substancial desse valor no seu bolso). É de bom-tom dourar a receita com uma série de declarações de intenções e de princípios, evocar pomposamente teorias e princípios de gestão, devidamente decoradas com chavões e palavrões (in english please…), quando, no fundo, se está simplesmente a cortar a direito para os resultados do próximo trimestre. Se isso envolver comprar um pomar e for vantajoso cortar as árvores e vender a madeira, siga…! Os recursos humanos da empresa são apenas um dos ativos, a rentabilizar da melhor forma. Novos tempos?

Faz sentido? Se calhar fará, porque a tendência do mundo está mais neste sentido do que no outro e, reconheça-se, sem “valor criado para o acionista”, não há acionistas e as empresas não sobrevivem. No entanto, uma empresa sem líder efetivo, é um pomar que não sabe se amanhã produzirá cerejas ou se será vendido para uma serração e, com contas ao trimestre, dificilmente se plantará alguma vez um pomar.

23 dezembro 2016

Natal plural


É nesta mesma lareira, e aquecido ao mesmo lume, que confesso a minha inveja de mortal sem remissão por esse dom natural, ou divina condição, de renascer cada ano, nu, inocente e humano como a fé te imaginou, Menino Jesus igual ao do Natal que passou.
(Miguel Torga).

Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada.
(David Mourão Ferreira).

Natal... Na província neva. Nos lares aconchegados, um sentimento conserva os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, como a família é verdade! Meu pensamento é profundo, estou só e sonho saudade. E como é branca de graça a paisagem que não sei, vista de trás da vidraça do lar que nunca terei!
(Fernando Pessoa).

Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher
(Ary dos Santos)

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

16 dezembro 2016

A culpa das intervenções imperialistas


É argumento habitual de alguns regimes tristes como os castristas, os chavistas e outros paralelos ou sucessores dizer que as coisas não correm bem fundamentalmente devido a intervenções e perturbações provocadas por inimigos imperialistas. A sua incapacidade, incompetência e até mesmo desonestidade supostamente não pesam nos destinos azarados do seu país. A culpa é sempre dos boicotes externos.

O que eu nunca imaginaria era um dia assistir a uma narrativa destas da parte do Partido Democrático americano. Pelos vistos, a eleição de Donald Trump foi devida/influenciada pela intervenção dos russos! É evidente que os russos tentam intervir nos EUA, estes na China e em todo o lado e a China só onde não puder. Não há aqui espaço para virgens ofendidas, dado que as mesmas não existem nestes círculos.

A ser verdade, a ter existido uma manipulação ou influencia decisiva da Rússia, pobre democracia americana que afinal, mais do que contaminada pelos milionários donativos, estará condicionada pelos imperialistas soviéticos. O ego do Putin deve ter crescido para o dobro com a notícia. De recordar que, supostamente, matéria-prima para manipulação mediática existiria dez vezes mais do lado de Trump, do que do Clinton, da qual apenas ouvimos falar de uma utilização imprudente e indevida de uma conta de email pessoal.

Seria melhor que os Democratas americanos e outros paralelos olhassem um pouco para dentro antes de embarcarem nestas argumentações terceiro-mundistas.