21 junho 2018

Impreciso


Imagem imprecisa. Depois de voltas e reviravoltas, eis-me de novo visitante regular das margens do Marmara. Um momento preciso, num intervalo estreito. Entre o fim do Ramadão, celebração secular, cujo cumprimento estrito pode levantar algumas questões de interpretação no mundo atual, e as próximas eleições, dentro de dias, as primeiras num novo modelo, com desfecho inesperado.

Haverá continuação do modelo recente, bem-visto pragmaticamente por alguns, ao menos sabe-se o que é, insustentável para outros, pelos fundamentos do sistema social ou pela questionabilidade económica? Haverá mudança e sabe-se lá para quê? Seguir-se-á um impasse?

Mantenho a foto, imprecisa do mar de Marmara, ao fundo as suas ilhas, refúgio histórico das minorias. Destaco a imprecisa a pequena chama, numa mesa de esplanada de um terraço, no lado asiático da cidade. Istambul asiático, cada vez mais pujante e cosmopolita e em oposição ao “outro lado”, o europeu, mais estático e conservador. Irónico?

Perto de concluir um século sobre a sua (re)fundação, o país está suspenso e inquieto. Uma coisa, no entanto, sente-se e marca: a enorme vitalidade e energia encerradas nas suas vontades. A ver vamos. Boa sorte turcos e turcas de boa vontade.

18 junho 2018

Essa coisa do árabe


Por um lado, a utilização da palavra “árabe” é frequentemente imprecisa e, por outro lado, a evocação da “presença árabe” na Ibéria é muito fantasiada.

Arábia é a península entre o mar vermelho e o golfo pérsico. Tendo o Islão e o seu profeta aí nascido e a religião daí se expandido, generalizou-se uma equivalência forçada entre muçulmano e árabe. Os povos conquistados e colonizados sofreram uma enorme influência, mas isso não significou assimilação completa com anulação de especificidades e culturas, havendo também, evidentemente, diferenciações nas evoluções posteriores. Por esse princípio nós, e muitos mais, seriamos hoje simplesmente “romanos”.

A generalização é ajudada pelo facto de que para um muçulmano ser “árabe” é partilhar a etnia do seu profeta principal. Esta tendência é reforçada ainda pelo conceito da nação global e única, seja a histórica Umma (comunidade de todos os crentes), sejam os mais recentes projetos pan-arabizantes como o de Nasser, a partir do Egito. Por falar neste país, como explicar que um egípcio se assuma principalmente como “árabe”, quando a cultura e a história do seu país dão vinte a zero à das tribos nómadas vizinhas? O mesmo se pode dizer dos naturais do Mashrek (Levante) berço da civilização e até da escrita e do Magreb (Poente) muito mais próximos culturalmente da Europa do Sul do que dos nómadas do Hejaz (interior da tal península).

Do lado de cá, até os mais preocupados com o “outro”, apelando ao respeito pela sua identidade e cultura, não hesitam em correr toda a gente com a etiqueta de “árabe”, desde Casablanca até Damasco. Errado, muito errado. Uma generalização pouco esclarecida e desrespeitadora da diversidade cultural existente.

Sobre a presença na Ibéria dos “árabes”, cruzam-se dois romantismos. Há o dos invasores, usurpadores, que entraram por aqui à má-fila, sem terem direito para tal, obrigando a malta séria a refugiar-se num sótão, lá nas Astúrias, para depois heroicamente repor a normalidade.

O outro romantismo é o da nostalgia da herança perdida. Como se com a conquista dos castelos, todo o conhecimento que chegou e se criou naquele tempo tivesse sido embalado e viajado para fora da península, perdendo-se irremediavelmente essa herança exótica. A sério…?!

Duas visões grosseiramente simplificadas. Não foi assim tão simples, nem tão compartimentado, nem tão rápido. Tarik atravessou o estreito em 711 e a reconquista definitiva das principais cidades ocorreu nos 1240s, excluindo Granada que aguentou mais dois séculos. Fazendo as contas, são cerca de 530 anos. Recuando esse intervalo de tempo a partir de hoje, Vasco da Gama ainda não teria chegado à Índia. Esses séculos não foram sequer um período homogéneo, mas uma sequência de vários distintos: dependência dos Omíadas de Damasco, califado autónomo, taifas, califado Almorávida, de novo taifas e, por fim, o califado Almóada.

E se se falasse e estudasse isto, colocando no devido lugar a Arábia e os seus camelos?

13 junho 2018

Sim e não


13 de novembro de 2015. Na sala de espetáculos parisiense “Bataclan”, 90 pessoas são covarde e brutalmente assassinadas.

Outubro de 2018. Para a mesma sala estão programados dois espetáculos do rapper Médine, que usa a palavra jihad e que não se poupa a usar símbolos associados à mesma. Numa das suas letras, explicitamente contra a laicidade, diz “crucifiquemos os laicos como no Calvário”.

Sim, que grande país de liberdade é este em que, aparentemente, é possível e legal isto acontecer.

Não, isto acontecer é imoral e escandaloso, especialmente naquela sala.

Pode ser que a coisa do “crucificar os laicos” seja um sentido figurado, como quando alguns excitados dizem “morte aos capitalistas”, não estando propriamente a pedir a morte física dos mesmos (pelo menos a maioria…).

Não, a laicidade não pode ser posta em causa ou relativizada no nosso mundo, que prezamos. A negação da mesma, a não separação das instituições é um Estado teocrático, inaceitável, independentemente do deus em funções e dos seus putativos delegados.

Já agora, aqueles anjinhos assumidos ou dissimulados que candidamente defendem o rapper, na perspetiva da “liberdade de expressão”, manterão coerentemente a mesma posição para o caso de um outro usar uma figura de estilo do tipo: “Decapitemos os muçulmanos em Meca” ?

NÃO.

12 junho 2018

Depois do Maio


Cinquenta anos depois do Maio 1968, vivemos o Maio de 2018. Eu já era nascido no tempo do primeiro, mas não o suficiente para ter uma memória e um sentimento direto. Fica-me a ideia de que ficou na história mais pelo simbolismo do que pelos factos e pelo fundo.

Desculpem-me a dissonância, mas não consigo ver a necessidade de fazer voar paralelepípedos pela cidade para, entre outros, reivindicar o direito de os rapazes poderem entrar nas residências universitárias femininas. Dos testemunhos da época, também me parece que o famoso “É proibido proibir” seria uma forma formalmente simplificada do “Nós proibimos que nos proíbam”, fazendo o “nós” e o “nos” aqui acrescentados uma diferença grande.

França tem uma grande tradição e especialidade em romantizar (perdoem-me os romancistas) as suas revoluções. Mesmo a outra, a grande, a de 1789, por trás de uns princípios genericamente bonitos e meritórios teve uma prática miserável, para não dizer criminosa, detalhe habitualmente ignorado no boca cheia da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

50 anos depois do 68, voltaram a existir distúrbios nas universidades francesas. Ao que parece por o governo tentar impor curricula específicos para acesso aos cursos. Numa equivalência local, alguém que fez o 12º ano em humanísticas, pode exigir a liberdade de entrar num curso de engenharia, mas certamente que não lhe será fácil avançar se ignora toda a matemática do secundário. Havendo taxas de abandono elevadas e recursos cada vez mais limitados…

A fotografia acima (Gonzalo Fuentes, Reuters), um simples exemplo e há mais no mesmo registo, é do estado em que ficou uma das faculdades em Paris após a sua ocupação dos defensores da “liberdade” contra a “seletividade”. Pelos vistos já não há paralelos para retirar da calçada (talvez já não haja mesmo de todo calçadas) e não se pode romanticamente abrir a cabeça aos polícias, mas não consigo entender nem aceitar esta ligeireza e desrespeito pelos bens públicos de um local que eles pretendiam simbolicamente proteger. Apetece dizer que com defensores assim, dispensam-se atacantes. Sobre as razões para a ignição destes rastilhos em meio estudantil, isso é tema para outra conversa.

11 junho 2018

Mamã, sou ministro!!



Já vivi num país onde os veículos oficiais prioritários eram mato no meio da selva da circulação local.

Com maior ou menor escolta, não havia dia em que, e por várias vezes, não tivéssemos que ceder a passagem a pessoas importantes. Até proporcionava um desporto curioso: surfar na aspiração da onda gerada. Passados os prioritários, o pessoal atirava-se para o vazio deixado, tentando assim ultrapassar uma meia dúzia de carros ainda parados. Nunca iam muito longe na onda, porque o espaço era bastante concorrido e rapidamente se viam expulsos do túnel, obrigados a dar a vez a outros competidores.

Uma vez apanhei um grande susto. O meu percurso matinal habitual passava em frente a uma “Residência da Presidência”. Para quem possa conhecer, entre Sidi Fredj e Staoueli (La Bridja) a oeste de Argel. Aconteceu então que do portão da tal residência sai à minha frente um carro preto, seguido do mercedolas. Mantive-me no meu percurso e na minha velocidade quando descubro o segundo carro preto, que deveria fechar a escolta e se tinha atrasado, a fazer sinais de luz e uns senhores lá dentro em gestos frenéticos, pedindo-me (?) para eu sair da frente, coisa que prontamente fiz: “Por quem sois !!!”. Esses carros pretos levam senhores de óculos escuros pouco sorridentes e os dois de trás, por norma, sentados de lado, voltados para o exterior do veículo.

Bom, estas invocações vêm-me a propósito de um sentimento. Acho que cada vez há mais “veículos oficiais prioritários” a passarem por mim na A1. É um sentimento, apenas.

Para os escoltados, questiono quem será assim tão importante e potencialmente em perigo que necessite de batedores na A1? Excluo as equipas de futebol, facilmente identificáveis, que jogam num campeonato de outra desgraça. Para os simples apressados, que ligam o pirilampo e sai da frente, enfim… antes de ser gente importante, toda a gente é cidadão e deve, por norma, cumprir normas iguais para todos. Isso não deveria incluir usar a prerrogativa de “importante” para viajar sistematicamente em excesso de velocidade. Tudo isto é um sentimento.

09 junho 2018

O dia do dia


Tanto quanto sei, e não sabendo eu tudo, hoje não é dia da mãe, nem do pai, nem de filhos, irmãos, primos, independentemente do grau, nem de genros, sogras, nem do Espírito Santo.

Tão pouco de Buda, nem de Alá, Ganesha, Yemanjá, Jeová, Nossa Senhora, nem de Abrão, nem de Ali, nem de Páscoa, nem Natal, nem Achoura, nem de Aid, nem de uma batalha qualquer.

Também não será dia de independência, nem restauração, revolução, reversão, massacre, martirização, nem dos pastéis de nata.

Passamos ao lado do bacalhau à Gomes de Sá, do pudim abade de Priscos, da posta mirandesa, de migas ou açordas, da cerveja artesanal e da batata frita ou por fritar.

Ignorados os pinheiros, carvalhos, medronheiros, oliveiras, sobreiros e as palmeiras sobreviventes ao escaravelho vermelho.

Não contem com protagonismo em homenagens ou barragens a vespa asiática, o lince da serra da Malcata, os touros torturados nas touradas, as raposas esfoladas nem os peixes afogados em mares de plásticos.

Com esta aridez de causas ou motivações para enfrentar o dia, que fazer então, que se pode publicamente declarar? Pode não ser fácil e é de recordar que o não fácil é muitas vezes sinónimo de meritório.

Tentar que um simples dia do dia, seja melhor do que o dia de ontem?

30 maio 2018

Trumpalhar


Mais do que os “princípios” e o estilo provocatório, Donald Trump está a demonstrar uma enorme impreparação e quem o aconselha ou não sabe ou não consegue corrigir.

Irão – Ao denunciar o acordo assinado por Obama, não irá conseguir nada de bom. Sendo “nada” uma palavra traiçoeira, não se percebe muito bem onde ele quer chegar e em beneficio de quem. Sendo inquestionável que para o mundo, o Médio Oriente e o povo iraniano em particular a normalização das relações internacionais do país é fundamental e positivo, que quer mesmo Trump? Aplicar sanções adicionais e assim conseguir amolecer o regime, forçando a negociações mais favoráveis, como, acreditava ele, com a Coreia do Norte? Depois de tantos anos de sanções à antiga Pérsia, é possível ainda acreditar que esse caminho terá sucesso? Sobre a Coreia do Norte, falamos já a seguir.

Coreia do Norte - Entendendo muito pouco de diplomacias e afins, acredito que quando alguém da dimensão do Presidente dos EUA anuncia e assume ir participar numa cimeira, há algumas regras. Em primeiro lugar, alguma proporcionalidade: por muito que um beligerante presidente de um microestado insulte e ameace os EUA, não terá naturalmente direito a “cimeira privada”. Depois, imagino que as agendas e as conclusões das cimeiras sensíveis, são preparadas e acordadas previamente, eventualmente antes de serem anunciadas sequer. Assumir publicamente a participação numa reunião dessas com tudo ou quase tudo em aberto, parece-me ser de uma infantilidade atroz e expondo potencialmente o senhor e o país que ele representa a uma enorme humilhação.

Em conclusão. Quanto ao Irão não sabe para onde vai, quanto à Coreia do Norte, não sabia onde estava.

29 maio 2018

Não perfeito, mas indispensável

Sim, muito do que se passa atualmente no Médio Oriente e vizinhanças é ainda efeito da queda do império Otomano e da extinção do último Califado. Sim, para entender o mundo de hoje é importante conhecer este declínio e desfecho. Sim, é um tema complexo que não se esgota em dois chavões nem num simples ponto de vista.

A obra de Bernard Lewis “What Went Wrong”, não sendo perfeita, é um excelente contributo para esta questão. Alguns apontarão umas passagens imprecisas ou fatos mal interpretados, outros invocarão a ausência de referência a algumas questões relevantes. Não será perfeita, não há livros sagrados neste campeonato, mas é, na minha modesta opinião, obrigatória.


B. Lewis faleceu no passado dia 19 de maio.

Lapsos e retificações


Sobre a importância relativa do lapso e o valor fundamental da retificação, uma teoria que os nossos governantes têm defendido recentemente.

1)
- Sr Guarda, é certo que, por lapso, passei no radar em excesso de velocidade, mas retifiquei logo a seguir!

2)
 - Sr Dr Juiz, devido a um lapso durante o jantar, o balão acusou, mas três horas depois já estava completamente retificado!

27 maio 2018

Feijões ambientalmente desastrosos


Sem grandes precisões da ciência económica, que não domino, uma moeda é um valor intermédio entre uma coisa que fiz ou entreguei e outra que posso obter. Terá um universo onde é reconhecida e aceite. Os feijões e as notas do monopólio têm valor apenas dentro do contexto de um jogo. Um dólar será reconhecido e aceite praticamente em todo o mundo, uma moeda não convertível pouco valerá fora do seu país emissor. Nalguns recantos, mesmo na Europa, inventaram-se moedas complementares/comunitárias que são relativamente bem aceites para pequenas transações.

Criar uma nova moeda não será difícil per si, o desafio é vê-la reconhecida num universo que se veja e isso vai depender muito da forma como é emitida e controlada.

Estou a chegar a essa coisa das “criptomoedas” e à mais famosa, o bitcoin, que me levanta algumas reflexões. A primeira, do ponto de vista tecnológico, é a robustez que a sua gestão tem demonstrado. Neste mundo onde nada parece estar a salvo das piratarias informáticas, tanto quanto se sabe e ouve a sua base tem-se mostrado bastante sólida.

 A segunda reflexão é na vertente sociológica. Como há tanta gente a reconhece-la, a acreditar e a investir nela é um mistério para mim. Simples espírito de jogo? Facilidades para pirataria fiscal e financeira?

A terceira, e aqui a coisa é mesmo grave, é a sua dimensão energética e consequentemente ecológica. A emissão de novos bitcoins (mineração??) é um processo competitivo entre computadores. O consumo energético anual de todas as máquinas que lutam pelos novos bitcoins é da escala de um país inteiro como a República Checa!!(fonte ttps://digiconomist.net/bitcoin-energy-consumption ). Este número é cerca de 1,5 vezes superior ao consumo total de energia em Portugal, tendo dobrado desde janeiro de 2018 até agora.

Falta ainda somar o consumo energético associado às restantes moedas análogas. Num tempo em que se contam para tudo, por muito e por pouco, as toneladas de CO2 emitidas, os impactos ambientais de tudo e mais alguma coisa… isto é uma BARBARIDADE!


25 maio 2018

Tenham medo


- Isto é uma chatice. Receber emails de divulgação por tudo e por nada, alguns até de entidades que mal conhecemos. Não deveria ser permitido enviar assim, sem minha autorização.

- Isto é uma chatice. Receber assim emails a pedir-me autorização para utilizarem os meus dados e poderem enviar-me emails de divulgação.

- Então…? Então lá com os algoritmos e o caraças eles deviam já saber distinguir automaticamente o que quero receber e o que não quero! Isso é que era, sem chatices.

A questão não está no algoritmo. Está em que se/quando eles souberem tanto sobre cada um para poderem fazer essa distinção, sem chatices, tenham medo, muito medo…

24 maio 2018

Tudo legal

Pode um ministro ter uma participação numa empresa? Legalmente, sim. Pode ser gestor de uma empresa privada? Legalmente, não. Portanto, se Pedro Siza Vieira tem uma quota numa empresa e, atualmente, não é gestor da mesma, está legal, certo?

Vamos desvalorizar a (i)legalidade de durante algum tempo ter sido simultaneamente ministro e gestor. Algum tribunal se pronunciará sobre o assunto.

Constituir uma empresa com a mulher na véspera de tomar posse é algo estranho. Posteriormente deixar de a gerir pode significar ficar de acordo com a formalidade, mas é ignorar a moralidade. Passou a gestão a ser assegurada pela senhora, ele nada tem a ver com esses negócios, grandes ou pequenos, e está “tudo bem”? Não, não está tudo bem, atendendo até ao objeto social da empresa.

Ao mesmo tempo um primeiro ministro fala contra a pressão imobiliária e a expulsão dos idosos dos centros históricos da cidade, numa base do “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Pode estar tudo legal, mas depois não estranhem quando a coisa começar a Trumpalhar.

23 maio 2018

Olha o robot


Começo com uma declaração de interesse e de contextualização. Sou engenheiro eletrotécnico e trabalhei durante 14 anos numa empresa, praticamente desde o início da sua atividade, que tinha a palavra “Robótica” no nome e fazia coisas programáveis, capazes de realizar sequencias de operações complexas, autonomamente. A minha área técnica foi a da programação e os sistemas dessa empresa estão instalados e a funcionar um pouco por todo o mundo.

Passando ao concreto. Tenho pouca pachorra para ouvir especular sobre robots e o admirável mundo novo que geringonças e gingarelhos, tecno-sexies, anunciam. Se uma coisa chamada robot não precisa de ter aspeto humano (veja-se o de cozinha !?), o seu impacto mediático e sociológico aumenta exponencialmente quando ele se nos assemelha. Aquele pulso imita o meu… e se lhe puserem uma simples esfera a fazer de cabeça com dois círculos a imitar uns olhos, dá logo outro dramatismo.

Substituir o trabalho de um ser humano é pressentido como uma ameaça? Sim, mas…quantas pessoas seriam necessárias num banco para fazerem a manutenção das contas se não houvesse computadores? Está bem, mas estas máquinas não têm pulsos nem cotovelos e não mexem sequer coisa que se veja. E quantas pessoas e enxadas são substituídas por um trator com um arado? Está bem, mas ele não é antropomórfico, não emula o homem. Uma dúzia de maquinetas com 2 pernas, 2 braços e uma esfera na cabeça, a levantar e a espetar uma enxada na terra, teria muito mais impacto, mesmo sendo bastante mais caro e ineficiente do que o simples e clássico trator.

A substituição do trabalho humano por maquinas terá começado com a invenção da roda, ou perto, essa evolução dá-nos qualidade de vida de que disfrutamos e ninguém imagina banir os sistemas informáticos dos bancos para reduzir o desemprego. A evolução tecnológica, contínua, tem consequências sociais e culturais que podem ser dolorosas transitória ou estruturalmente. Não acredito, no entanto, que sejam os brinquedos que nos podem, eventualmente um dia, trazer um café ao sofá que farão a diferença. Isso dá apenas excitação e uns “papers” … sexies.


Fotos de uma espécie de robots na Tabaqueira, Sintra e Banco da China, Hong Kong realizados pela Efacec.

21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…