27 junho 2017

Ainda o SIRESP


Eu julguei que não ia falar mais do SIRESP tão cedo, mas tornou-se impossível. Deem-me um desconto, já que sou engenheiro de formação e os meus primeiros trabalhos técnicos até tiveram bastante a ver com sistemas onde as comunicações eram críticas.

Este texto começou a germinar hoje de manhã, num tom de ironia. Então, não é que na a cláusula 17 do contrato com o dito é especificado que o SIRESP não tem responsabilidade por falhas em casos de “Força Maior”: tais como: “actos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que directamente afectem as actividades objecto do contrato”. Portanto, um sistema que custou uma pipa de massa, que tem por missão garantir as comunicações em caso de emergência, não tem responsabilidade contratual de funcionar nessas situações?? É um pouco como comprar um guarda-chuva, que não é garantido funcionar em dias de chuva. Isto, no mínimo, é de uma incompetência atroz. No mínimo…

O texto termina agora, ao fim do dia, num tom de absoluta repugnância, face ao comunicado da empresa, publicado no site do governo. Têm o desplante de afirmar que o sistema esteve à altura e não teve interrupções. Provavelmente a altura pedida contratualmente foi alcançada, provavelmente não se plantou a 100% para se poder dizer que falhou… a 100%, mas este comunicado é chamar idiota a uns milhões de portugueses.

Refiro outra vez: “A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.”, Albert Camus.

23 junho 2017

As falhas na informação sobre o SIRESP


Para lá dos contornos particulares da adjudicação e “readjudicação” do SIRESP, envolvendo os “suspeitos do costume”; para lá das fragilidades intrínsecas de conceção ou de manutenção, que não deviam constar num sistema de comunicações qualquer e muito menos desta natureza, estes dias evidenciaram uma nova falha.

Refiro-me à falha na informação oficial sobre o desempenho do sistema durante o incêndio de Pedrogão Grande. Face ao que aconteceu e particularmente às mortes na 236-1, a possibilidade de isso ter sido influenciado por uma deficiente comunicação entre comando, bombeiros e GNR, exigia, no mínimo, uma pronta informação objetiva e precisa sobre o desempenho e disponibilidade do sistema naquelas horas.

Minuto a minuto, o que esteve em cima e o que esteve em baixo, que módulos, que zonas, que funcionalidades, tudo com transparência total. As explicações, justificações e os remédios poderiam vir depois, mas os factos, o que realmente se passou deveria ter sido imediatamente tornado público.

Hoje, quase uma semana depois, continuamos com declarações subjetivas dos responsáveis, do tipo “acho que não falhou” ou “falhou só um bocadinho” e outros eufemismos e vemos serem os jornalistas a fazerem o trabalho de investigação, como se tratasse de um tema “classificado”. Acredito que um dia lá aparecerá um relatório, bem cozinhado, mas a responsabilidade dos responsáveis deveria tê-los obrigado a abrirem o livro imediatamente, no dia seguinte! Infelizmente, não parece fazer parte da cultura da classe…

22 junho 2017

A Festa do Cavaquinho


Muitas das habituais manifestações/espetáculos de música/cultura tradicional, infelizmente, não são festa. Independentemente do maior ou menor rigor colocado nas representações, independentemente da qualidade intrínseca e da técnica das execuções, muitas vezes é até difícil sequer segui-las com interesse.

No dia 10 de junho passado, realizou-se em Cernache mais um encontro de “Cavaquinhos para o Guiness”. O objetivo era chegar ao milhar, ficaram a faltar uma cinquentena, mas parece que ninguém se preocupou demasiado com esse detalhe, no meio daquele ambiente genuíno de festa. E sublinho a palavra “genuíno”. Vieram novos e velhos, vieram de escolas e de universidades sénior, vieram rurais e urbanos, participaram e divertiram-se.

Os sorrisos, os dedos a correr com prazer nas cordas e os plenos pulmões de quem canta com todo o gosto do mundo, criaram incontáveis cenários de beleza e alegre autenticidade. Obrigado à organização e aos participantes. Foi muito bonita a festa, pá!

Mais fotos aqui e aqui.

21 junho 2017

SIRESP


SIRESP é a sigla para “Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal” e, desde há uns bons anos para cá, que, quando vejo noticias sobre o mesmo, há um alarme que me dispara, do género, vamos lá ver o que foi desta…

De facto, o longo tipo de decisão, envolvendo diferentes “maiorias”, o para trás e para a frente, complica e simplifica, adjudica e anula, parecia configurar uma disputa de dentinhos afiados por um saboroso manjar. Um sistema com este nível tecnológico, ter sido contratado a uma tal de “Sociedade Lusa de Negócios”, faz questionar qual o valor acrescentado (retirado?) da mesma e a natureza dos critérios de adjudicação.

Infelizmente, não se trata apenas de uma extravagante fonte cibernética nem de uma autoestrada redundante. Trata-se de um sistema que “TEM” que funcionar com níveis de disponibilidade e fiabilidade elevados, já que disso dependem vidas.

Agora, no caso da tragédia de Pedrogão Grande, ele volta de novo. As pessoas apanhadas na estrada, foram-no 4 horas depois do fogo começar e não estavam numa florestal qualquer. Estava numa das principais estradas nacionais da zona. Aparentemente, nessa altura, as comunicações entre os bombeiros e a GNR não estariam a funcionar, porque o SISREP estava em baixo. As suas antenas tinham ardido…

Ora bem, um sistema de “emergência”, e uma das nossas maiores emergências é desta natureza, incêndios, baseado em antenas no terreno, sem meios/canais alternativos imediatamente operacionais, e onde é preciso esperar que chegue e seja colocada em serviço uma estação móvel, não me parece muito adequado a este tipo de emergências. Eventualmente, mesmo com todas as comunicações operacionais, o resultado na EN236-1 poderia ter sido o mesmo, dada a especificidade das condições climatéricas, mas que a ausência de comunicação não ajudou, pelo contrário, disso não há dúvidas.

Conforme a respetiva simpatia clubística, alguns irão realçar a natureza PSD da SLN e outros o facto de Costa ter sido o ministro que o adjudicou. No entanto, a doença, infelizmente, não tem cor partidária exclusiva.

20 junho 2017

Eucaliptos, vale tudo?

Antes de começar: trabalho numa empresa da área da pasta e papel desde janeiro deste ano e trabalhei noutra análoga entre 2001 e 2006. Entre 1987 e 2001 trabalhei num fabricante de bens de equipamento que fornecia setores diversos, incluindo o do papel. Atendendo à importância da indústria da pasta e papel na economia do país, não será uma coisa assim tão rara. O eucalipto é fundamental e indispensável para esta atividade? Sim. Não é autóctone? Não, como também não o são, entre outros, os pés de videira onde estão enxertadas a quase totalidade das vinhas do Alto Douro, pós filoxera. Uma restrição genética absoluta ao “autóctone” seria uma espécie de xenofobia redutora que levaria a que hoje não houvesse, por exemplo, vinho do Porto.

É comum associar ao eucalipto a expressão de crime ecológico. No entanto, a plantação industrial do eucalipto em Portugal tem mais de 20 anos e não conheço nenhum local onde tenham ocorrido catástrofes ambientais devidas especificamente ao eucalipto. Ardem? Ardem sim, como também arde o pinheiro e o mato e, com maior ou menor facilidade, toda a vegetação. Em climas idênticos ao nosso também ocorrem fogos florestais, mesmo sem eucaliptos, dependendo muito da forma e da conservação das florestas e zonas rurais; dependendo mais do contexto do que a espécie em particular. Um local onde não há certamente incêndios é o deserto do Saara, mas esse não é o nosso modelo, creio…

Há árvores que resistem melhor ao fogo e até são autóctones e mais bonitas? Há, mas a lógica da gestão da floresta precisa de mais do que boas intenções e paisagens bonitas. Se não houver retorno, há abandono e terrenos abandonados já/ainda temos bastantes, sendo estes os que ardem melhor. Há um problema sério de desertificação do interior? Sim, e muito grande, no entanto, a fixação de alguém em Vila de Rei não é certamente função da quantidade de eucaliptos nas redondezas, mas antes da atividade económica nas proximidades. A limpeza natural das matas pelas populações diminuía o risco de incêndio? Sim, mas também não estou a ver muita gente a dispensar a botija de gás e a ir ao monte apanhar galhos para cozinhar o jantar. O tempo e as escalas são diferentes.

A indústria da pasta e papel é das poucas em que estamos na primeira divisão a nível mundial e deveríamos ser um pouco mais prudentes e esclarecidos antes de a bombardear por preconceito, guerrilha politica ou pela nacional típica inveja do sucesso. Apontar o eucalipto como responsável pelas desgraças e tragédias florestais é um abuso, um desrespeito pelas vítimas e uma forma grosseira de simplificar um problema grave do país, que tem raízes múltiplas. Para acabar: deve a plantação de eucaliptos ser completamente desregulamentada? Não, não vale tudo, nem para um lado nem para o outro.
 

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.

10 junho 2017

10 de Junho, 70 anos


Dia de Portugal, mas há mais mundo para lá de Portugal, como qualquer verdadeiro português saberá. Este dia, este ano, marca os 70 anos do lançamento do romance “A Peste” de Albert Camus. O meu exemplar na imagem deve estar mais ou menos a meio do caminho.

As grandes estórias, bem escritas e bem contadas, são intemporais. As grandezas e as misérias da condição humana não mudam e saber lê-las não tem tempos nem modas. No entanto, há alturas em que certas coisas nos parecem mais atuais e reler este livro, nesta fase da Europa e do mundo, assusta. Sentimos as ratazanas a crescerem e, ironicamente, há quem pense que o problema fundamental está na cor das mesmas. É necessário travar as ratazanas amarelas, nem que para isso se tolerem “um pouco” ou se chamem mesmo as “verdes”, as “boas”. Não, certamente que não deverá ser assim. Mais grave do que ignorar o perigo da “peste” é proporcionar ao seu crescimento, eventualmente com todas as boas intenções. Não, não é com piadas parvas nem com excitações inflamadas que a febre desce. É com humanidade…

Citando o mestre, em jeito de aviso à navegação, e sem mais palavras:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”

07 junho 2017

As contas da EDP


As contas públicas publicadas da EDP têm algumas particularidades. De uma forma geral, os resultados são apresentados da margem bruta “para baixo”. A forma como se chega à margem, receitas menos custos de produção, apenas aparece lá para a frente do documento, não da forma sistemática e habitual duma demonstração de resultados. Porquê?

O rácio Ebit/receitas apresenta algumas variações curiosas. Por exemplo, para 2016:

 16% a nível geral do grupo ; 

 42% na produção contratada de longo prazo ;
  4% nas atividades liberalizadas;
 12% nas “redes reguladas” e
 38% na Edp renováveis .

Palavras para quê… quando há números.

Detalhe aqui

06 junho 2017

Tomar, é uma questão religiosa


Sendo indiscutível o papel importantíssimo dos Templários na construção do nosso país, veja-se desde as velas das caravelas até às asas dos aviões da Força Aérea; sendo Tomar a sua referência fundamental no país, Tomar é um local sagrado da religião de “Ser Português”.

É impossível passar na charola e não sentir algo de diferente; é impossível olhar para a janela da sala do capítulo e não sofrer uma imensidade de interrogações e admirações; é impossível olhar para a colina e não pensar no tesouro material ou simplesmente de conhecimento que por ali terá circulado.

Imaginar que uma equipa de filmagens andou naquele local tipo finalistas em viagem de fim de curso no sul de Espanha, soa-me como uma grave profanação. Fico a imaginar o paralelo de um arraial minhoto na Abadia de Westminster ou uma Casa dos Segredos no palácio do Louvre.

Se as árvores e os arbustos podem crescer de novo, as pedras quebradas já não se recuperam e parece terem sido demasiadas para apenas consequência de um acidente isolado e imprevisto. Inadmissível e inacreditável é ter sido feita uma fogueira de 20 m de altura naquele local. Ou não foi comunicada e previamente autorizada e é grave; ou foi-o e ainda é pior. É completamente inconcebível que esta javardice possa ter ocorrido naquele monumento único, local sagrado da nacionalidade.

05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

04 junho 2017

Outra vez, outra vez


Nota de abertura: este texto é capaz de ser aceite e concordado por alguns amigos meus muçulmanos e contestado por alguns conterrâneos, que imaginam as coisas de outra forma, mas a realidade nem sempre coincide com o que a ignorância supõe.

Outra vez e em Londres. E a culpa não é da polícia por não ter controlado todos os potenciais radicalizáveis. E a culpa também não é da chamada civilização ocidental, nem pelas remotas cruzadas, nem pela mais recente guerra na Síria (ou no Iraque). Se quisermos procurar uma génese, podemos começar com a frustração pela derrota e queda do Império Otomano há um século e acabar com a frustração por as independências não terem cumprido minimamente as expectativas criadas, coisas sobre as quais a nossa responsabilidade é algo limitada. Lamento, mas não vou pedir desculpa por os Otomanos não terem conquistado Viena e o resto da Europa

E não venham dizer que isto não tem nada a ver com o Islão. Isto é aplicação literal da fase de Medina de Maomé.

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (Corão 8:5).

"E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idoltatria é pior do que o morticinio" (Corão 1:191)

Há um Islão que é assim e os líderes do “outro” Islão podem fazer o favor de clarificar e sair a público e condenar claramente os pregadores do ódio?

02 junho 2017

A pequena ilusão


Prémios Nobel, não serão tão abundantes quanto os chapéus, mas há alguns. Da economia sai, pelo menos, um por ano. O senhor Joseph Stiglitz foi Nobel da economia há 16 anos, em 2001, e tem um livro de referência publicado chamado, em português: Globalização, a grande desilusão.

Eu li (do princípio ao fim) esse livro e, na minha modesta opinião de um ignorante nas teorias, mas algo atento à realidade e, por isso, com direito a ter uma opinião, digo sobre o livro: algumas considerações interessantes, mas atalha muito em certos caminhos; não fazenda de forma nenhuma jus ao título. Se a “globalização” podia sem dúvida ter corrido melhor, mais controlada e mais gradual, como já o referi aí para trás, que se possa carimbá-la redondamente de “errada” é uma … conclusão precipitada.

Ora bem, como o Sr Stiglitz tem expressado umas opiniões favoráveis e simpáticas a uma certa corrente “contra”, tornando-se num deus, uma sumidade única, para alguns revoltados. Ainda por cima, é um “prémio Nobel”, como se esse título de há 16 anos fosse uma chancela de infalibilidade; como se o facto de poderem existir 20 ou mais “Nobeis” discordantes seja irrelevante para quem apenas ouve o que quer ouvir… e assim ficando com as vistas encurtadas.

Citando o meu “amigo” J. Brel, que sem ter sido Nobel era muito assertivo e sensato no que dizia: “O futuro depende dos revolucionários, mas dispensa bem pequenos revoltados”.

30 maio 2017

A tática resultou


A cartilha inicial do atual governo era repor rendimentos, com isso gerar mais procura interna e esta induzir crescimento económico. Uma receita largamente questionável. Na prática, ele retirou a todos, por impostos, indiretos, para entregar a alguns e, no global, não houve mais dinheiro livre no bolso do português “médio”.

O crescimento económico que se celebra agora tem a ver fundamentalmente com exportações e o turismo e pouco ou nada, com a tal procura interna. No entanto, o governo acha que isso prova a bondade e justeza das suas políticas.

Imaginemos um treinador que manda jogar ao ataque, na prática a equipa joga à defesa e ganha o jogo. O treinador anuncia que a sua tática resultou… e a claque aplaude!

Se os resultados são importantes, saber como lá se chega não é menos. Só assim se podem tirar conclusões e encarar o futuro com seriedade e eficácia.

24 maio 2017

Pela Paz


Ao ver anunciadas as iniciativas “Contra a Nato”; perdão, “Pela Paz”, recordei-me da única manifestação em que participei na minha vida. Bem, participei aproximadamente em metade dela e passo a contar.

Nos anos 80, os USA quiseram instalar mísseis nucleares na Europa. Este projecto provocou uma grande reação pública, com motivações variadas. Desde a transmissão direta do canal URSS, até à de muita gente que, genuinamente, gostaria de ver um desanuviamento da ameaça nuclear.

Neste contexto foram organizadas umas “Marchas da Paz”, sob o signo de uma pomba singela com um bonito ramo de oliveira no bico. Eu e um grupo de amigos decidimos participar na marcha do Porto, porque entendíamos valer a pena demonstrar publicamente a nossa vontade de ver o mundo menos ameaçado. Na Praça da Liberdade recebemos um papel com as palavras de ordem oficiais, curiosamente todas elas reivindicando uma paz unilateral. Esvoaçavam bandeiras da Intersindical e comentámos: Então a Inter também é “pela paz...!”. E pensámos: vem cá a RTP, filma estas bandeiras, apresenta-as no telejornal e insinua que isto é uma manifestação só de “comunas”.

Lá arrancámos e, no grupo em que estávamos, improvisámos umas palavras de ordem: “Nem a Leste, nem a Oeste; nem Pershing, nem SS20”. Pershing era um dos modelos dos mísseis americanos em questão e SS20 era um míssil soviético. Rapidamente fomos instados a “utilizar somente palavras de ordens oficiais!” e um grupo diligente apareceu ao nosso lado com o “Milhões e milhões contra a bomba de neutrões”. Conseguimos mobilizar os vizinhos para insistir no “Nem a Leste nem a Oeste”.

Foi assim durante a descida de Mouzinho da Silveira. No largo de S. Domingos juntou-se-nos um automóvel com megafone, abafando as nossas vozes com os milhões e a bomba de neutrões. Demos uns passos rápidos à frente para fugir ao veículo, mas ele conseguiu furar até junto de nós. Depois de uma corrida adicional mais longa, passamos a ver e a sentir, não uns milhões, mas uns bons pares de sólidos cotovelos, tentando-nos separar e gritando contra a bomba de neutrões.

A manifestação para nós acabou ali, em frente à Bolsa, antes de se tornar conflituosa. Aparentemente, não era pacífico dizer “nem a Leste, nem a Oeste”.