19 fevereiro 2018

No país das centrais nucleares fumegantes


Se o leitor acredita que a indústria de celulose é algo de pestilento e criminoso, provavelmente viverá num país de centrais nucleares fumegantes e é melhor ficar por aqui. A indústria de celulose na Europa é liderada tecnológica e normativamente pelos países nórdicos, especialmente a Finlândia e a Suécia, e aí efetivamente não existem centrais nucleares fumegantes. Bom, não é bem assim, a Alemanha e Áustria têm também uma importância relevante, até existem fábricas inseridas em meio urbanizado, mas, enfim, tudo isso são países que dão pouco importância às questões ambientais.

As normas quanto aos impactos ambientais da indústria são definidas, e cumpridas, a nível europeu, com força de lei, segundo as melhores práticas do sector. Em certas circunstâncias podem ser mais restritivas, mas, no mínimo, com algum planeamento razoável. O Estado dizer a uma indústria, o teu limite é “x” e, dois anos mais tarde, depois de a empresa investir fortemente para o cumprir, dizer: Desculpa, enganei-me… paciência… Não é o ideal.

Estou a chegar efetivamente ao Tejo que tem um problema de caudal e de qualidade da água. É importante diagnosticar, a começar por qual a parte importada de Espanha, onde frequentemente há notícias idênticas, especialmente depois de ele receber os efluentes de Madrid. O convénio acordado está a ser cumprido? O que está acordado defende suficientemente os nossos interesses? Qual a influência das cinzas dos incêndios, das várias indústrias e das Etars de efluente doméstico? Para um habitante do país das centrais nucleares fumegantes, isso é não interessa, porque a culpa só pode ser das celuloses.

Não sei quantas empresas irão fechar neste processo, mas duma coisa estou certo: dificilmente alguém fará um investimento a sério no vale do Tejo, num cenário de tanta instabilidade normativa. Para os habitantes desse tal país, não faz mal nenhum. As chaminés até estragam a paisagem, quando por lá se passeia. Só que o interior do país não deveria servir apenas para passear ao fim de semana. Devia ter residentes e, para isso, convém haver emprego e, gostem ou não de chaminés, é a indústria que proporciona emprego em quantidade e qualidade. Nos outros países acima referidos, não faltam chaminés, mas esses são uns tristes.

Esta citação recorrente vem de uma intervenção de um expert na televisão, em horário nobre, declarando que ao passar próximo de uma celulose “pelo fumo até parecia uma central nuclear!”. Dois em um, duas asneiras grossas na mesma curta frase. O que ele vê não é fumo, é vapor de água, e as centrais nucleares nem chaminés têm. Estes detalhes e imprecisões são irrelevantes para os habitantes dos países das centrais nucleares fumegantes. A culpa será de quem eles querem que seja e é malhar a eito

15 fevereiro 2018

Assim, tipo Porsche


Dizem que muitas pessoas, chegando a uma certa idade, têm uma espécie de mania, enfim… digamos que de procurar regredir uns anos, buscar uma segunda juventude… sei lá, coisas que por aí se dizem. Nessa fase, alguns compram um Porsche. De realçar que, estatisticamente falando, deve ser mais provável ter dinheiro para um Porsche aos 50 do que aos 20.

No entanto, talvez não seja mesmo preciso arranjar um Porsche, ou um Maserati conforme as preferências, para encontrar algum gosto de rejuvenescimento, liberdade e aventura. Uma simples, ou não tão simples, bicicleta também serve? Se calhar, sim…

O que é que leva tanta gente a sair para a estrada e para o monte e a galgar quilómetros e calhaus? Sim, há gente de todas as idades, eu próprio comecei a pedalar com alguma regularidade ainda na adolescência, mas … acho não errar muito se disser que há ali uma franja de idades assim mais para cima, dos que já não passam a noite nos copos, nem se distraem tanto em casa pela manhã.

Num artigo que li recentemente sobre a febre das bicicletas, que nalguns casos atinge temperaturas elevadas, até apresentavam um acrónimo inventado para o fenómeno – MAMIL (Middle Age Men In Lycra…). Sem comentários! Não, não sou um MAMIL!! Quando muito serei um JMIMELQEF (Jovem de Meia Idade Metade Em Lycra Quando Está Frio).

Há uma oração boa para caraterizar o contexto MAMIL – “Senhor, se eu morrer não deixes a minha mulher vender a minha bicicleta pelo preço que eu disse que ela custou!”. Enfim, mais uma vez, não será o meu caso, até porque a minha bicicleta de estrada ainda é a mesma da adolescência.

O indiscutível é existir uma enorme sensação de liberdade e de autossuperação ao ver deslizar quilómetros em cima de uma das máquinas mais simples e geniais que existem.

11 fevereiro 2018

Not famous, not blue, not raincoat

Ao contrário doutras peças de vestuário, das quais há muitas, dizem que chapéus, mas na realidade mais as camisas, sobretudos e gabardines costumamos ter poucos e, muitas vezes, principalmente um, o favorito.

Questão não precisar de ir para lavar tão frequentemente, questão de economia na carteira e até de espaço nos roupeiros e até de identificação mútua ou de relação afetiva com o tal. Tanto assim, que no inverno acabamos por nos identificar e ser identificados com o agasalho oficial da estação, atravessando este facilmente vários anos. Fica a dúvida de até que ponto essa identificação é toda definida de nós para ele na escolha que fazemos ao comprar, ou se não há uma parte dele para nós quando posteriormente nos moldamos ao dito cujo.

Um trovador, o tal que merecia o Nobel da Literatura mais do que o outro, tem uma belíssima canção sobre uma famosa gabardina azul, mesmo rasgada num ombro. Aquela minha coisa aqui representada, ainda não rasgou, mas começa a ter um desgaste de anos acumulados já a chegar ao limite da decência. Um grave problema. Reformar um sobretudo é arquivar uma parte da nossa história, coisa que nem sempre apetece, e quando mudamos de agasalho, mudamos até da forma de andar, acho…

Divago em excesso? Seja! Não há vida sem divagação e, falando em vida e balanços de vida, vou buscar uma das mais belas frases do tal trovador, uma que poucos rejeitariam para epitáfio:

“Like a bird on the wire, like a drank in a midnight choir, I’ve tried in my way to be free.”

Obrigado L. Cohen

08 fevereiro 2018

Memórias do muro


Esta semana cumpriu-se uma data curiosa relativamente ao muro de Berlim. Igualou-se o tempo que esteve construído com o tempo decorrido após a sua demolição. Quem diria…

Olhando hoje para essa memória, apetece-me evocar duas coisas. Em primeiro lugar a sua natureza direcional. O seu objetivo não era evitar a entrada de pessoas (ou de latas de coca cola). Era evitar as saídas. Em segundo lugar, a indiscutível melhoria das condições de vida, pelo menos, para não complicar, na ex Alemanha de Leste, decentemente governada. É possível hoje, racionalmente, defender a bondade desses regimes que, conforme disse Camus, tinham tanto de socialista como a Inquisição de cristã? Racionalmente, obviamente que não.

Há, no entanto, e haverá, nostálgicos desses tempos, enquadrados em dois tipos. Uns são os religiosos. Aqueles que acreditam dogmaticamente num modelo, apesar de após cem anos e ensaios em vários continentes e culturas, ter sido sistematicamente incapaz de proporcionar bem-estar material e intelectual de forma sustentável aos seus povos. Face as estas evidências, continuar a crer, é coisa do domínio religioso.

Outros são os que valorizam um certo paternalismo tranquilo do regime. Não é assim tão raro nos pós-ditaduras. Também por cá temos nostálgicos dos tempos respeitosos da “outra senhora”. Como se face a ter um caminho livre a descobrir, a arriscar, haja quem prefira ser levado pela mão. Pensa-se menos…

E, por favor, não me evoquem a pretensa superioridade moral, da solidariedade, da defesa dos desfavorecidos e etc. Na prática, a prática passou por uma oligarquia de privilegiados, muito pouco escrutinados, que, apesar das argumentações bonitas, foram incapazes de proporcionar vidas decentes aos seus povos.

Enquanto não lermos seriamente o passado, corremos sempre o risco de um futuro sombrio.


Foto de um Trabant no Memento Park, em Budapeste, onde arrumaram estátuas e outros monumentos "socialistas", anteriormente distribuídos pela cidade.

07 fevereiro 2018

Vendendo Coisas


Elon Musk tem mérito. É um empreendedor incrível, merecendo admiração por ter lançado projetos ambiciosos e realizado façanhas ao alcance de muito poucos. Implantar uma nova marca e um novo conceito automóvel, num sector económico e industrial tão exigente e consolidado, capaz de, pelo menos, fazer refletir os monstros instalados, é obra.

Só que, o reconhecimento desse mérito, não deveria implicar miopia. A Tesla não consegue aumentar o ritmo de produção do famoso modelo 3, o tal que iria definitivamente dar a escala necessária à empresa. Quem alguma vez na vida já fez alguma coisa nova de raiz, sabe que prazos nestes processos são sempre coisa difícil de dominar. No entanto, investimento feito sem produção correspondente é um problema muito grande. Apesar de toda a excitação, a viabilidade económica da Testa está tudo menos garantida.

Assim, Elon Musk, precisa regularmente de arranjar mais massa. Necessita convencer a malta de que “amanhã é que a coisa vai ser”, investindo muitíssimo em marketing de imagem e na alimentação/renovação de expetativas. Aquela coisa de querer colonizar Marte, a mim, parece-me mais coisa de imagem, de autopromoção do que coisa real e com significado “per si”. Se o gajo diz que quer (vai?) pôr pessoal em Marte, construir carripanas de quatro rodas deve ser coisa trivial para ele – infelizmente, não está a ser.

O recente lançamento do Falcon Heavy, para lá do sucesso técnico objetivo, é, em muito, um golpe publicitário. Com tanta sucata que já existe no espaço, não arranjavam coisa mais útil para enviar do que mais sucata, neste caso vermelha? Claro que o povo adora e vamos lá comprar um carro, ou umas ações, da tal empresa, supersexy, a única que manda carros apodrecer no espaço? Chique…!

05 fevereiro 2018

Indignados e escandalizados

Tanta gente indignada e escandalizada com o caso PGR x Centeno...

Tentando ser objetivo, o Sr Luis Filipe Vieira não é flor que se cheire, assim como uma boa parte dos seus pares no sector, e as evidências estão a aparecer aí, ao dobrar da esquina. Têm também, ele e família, questões relevantes com o fisco. Seria prudente, para quem tem uma imagem de credibilidade a defender, cultivar alguma distância a estes meios e ser seletivo com a quem se dá ou de quem recebe palmadinhas nas costas.

Quanto ao argumento de, por questões de segurança, o ministro precisar de “ser convidado” para aquele local, já chegamos ao terceiro mundo? Recordo-me de ver um congénere em funções, sozinho, muito singelamente à espera de voo num aeroporto e até disponível para responder calmamente a quem o ia questionar. Estávamos nos tempos duros da troika e a pessoa em causa era Vitor Gaspar, provavelmente muito mais exposto a animosidades do que o atual.

Desconheço o que a PGR sabia ou suspeitava para ir cheirar de perto as ligações de Centeno com o Benfica, até posso acreditar que tenha ocorrido algum exagero, mas o que me escandaliza não é este processo e o seu arquivamento. O que me escandaliza é o arquivamento do Freeport e dos submarinos, dando um exemplo de cada lado para ninguém ficar a rir. Esses sim, provocam-me muito indignação.

Prefiro de longe esta PGR que “cheira” por excesso do que a anterior que apagava por defeito.

03 fevereiro 2018

Eles também escrevem

Entre as pessoas que fazem os livros que efetivamente lemos, os tradutores não costumam ter a visibilidade e o reconhecimento merecido. A tarefa não é tão simples como se pode imaginar à partida, sendo a sua influencia sobre a qualidade do trabalho final enorme.

Que o diga eu, escala a respeitar, quando me entretenho a traduzir umas linhas do Camus ou do Brel. Há sempre ali uma palavra ou outra a dar luta e a música de cada a frase que precisa de funcionar. Tratando-se de um romance completo, a precisar de “música” no mesmo tom do princípio ao fim, é obra!

Reli há pouco um romance traduzido de um autor que ultimamente ataco pelo original... e que deceção. Uma coisa penosa, de tão mau soar. Uma tradução destrutiva. Mais recentemente reli o Dostoivesky aqui ilustrado, traduzido pelos Guerra. O texto conquista-nos desde a primeira linha. A trabalho deles é notável.

Como um executante musical que interpreta uma peça criada e escrita por outro, o tradutor interpreta e de certa forma personaliza uma obra. Deveriam ter mais destaque e reconhecimento.

31 janeiro 2018

Bola preta


Parece que metade do país entrou em estado de choque porque a maldosa justiça entrou, e ao que parece a ferir, no futebol profissional, aquele negócio espetáculo a que se chama desporto, com bastante distorção.

Alguém minimamente atento ao que se passa neste mundo, estranha existir por ali jogo sujo e dinheiros com caminhos enviesados, não me estando a referir exclusivamente a Portugal? Será assim tão surpreendente que um dia apareça alguma porcaria à superfície, deste meio tão pouco recomendável? Só para quem andar ou quiser andar distraído.

Por essas e por outras, recomendaria a prudência que quem tem uma imagem pública a defender, guardasse alguma distancia destes ambientes. Por outro lado, não há crimes ridículos. Há leis genéricas, tão claras quanto possível, que enquadram e tipificam crimes e penas, com pesos previamente definidos. A justiça limita-se a aplicar essas leis, sendo terceiro mundismo vê-las em geometria variável, conforme os protagonistas ou o impacto internacional do caso.

Nesta borrasca, andam chocados, para lá dos distraídos genuínos, os tribalistas que não se conformam com verem afetados os da sua simpatia. É muito perigoso argumentar por aí, levaria à impunidade global. Enquanto o último ladrão estiver impune, é imoral condenar os que são apanhados??

29 janeiro 2018

Querer cabras e o que as cabras querem


Acho muito curiosas algumas notícias com títulos que são meras declaração de intenções, do tipo: “O ministro quer…” Sim, é importante o que eles querem, querer é um pouco poder, mas a omnipotência não está ao alcance de um comum mortal, mesmo sendo ministro.

Uma dessas notícias giras que vi recentemente era a de o governo querer apostar em cabras sapadoras, para prevenir os fogos florestais. A partir daqui, vou especular, mas a culpa não é minha, já que não encontrei em lado nenhum os detalhes necessários e relevantes.
Imaginando que tenho um hectare de terreno, grosso modo um campo de futebol, talvez 2 ou 3 cabras façam a monda necessária. Só que uma coisa é esta escala, outra coisa é coisa que se veja, com algum impacto no problema em causa. Em média têm ardido em Portugal 100 mil hectares por ano e foram bastante mais em 2017. Como nunca se sabe bem onde vai ser o fogo, a área a necessitar de proteção será certamente superior a essa. Para simplificar, pensemos nesta ordem de grandeza, para não colocar excessivas responsabilidades nos pobres animais. Assim, dentro do rácio especulativo acima, necessitaríamos de lançar na natureza umas 200 a 300 mil cabras!

Imaginando que até se arranjam os animais, mas considerando que as zonas a proteger não são vedadas e que não vão ficar amarradas, coitadas… que garantias há de efetivamente permanecerem bem distribuídas, ainda por cima um animal com bastante espírito de iniciativa e excelente mobilidade? Não preferirão saborear outras culturas mais tenrinhas e apetitosas? Não se deslocarão para zonas urbanas, com todas a perturbações fáceis de imaginar? Como se iria controlar a sua população? Como se realizaria um controlo sanitário mínimo dos animais? Qual o impacto nos ecossistemas desta sobrecarga caprina? Não iriamos ter a algum prazo algures uma praga?

Obviamente que tudo isto são detalhes que não cabem no título daquilo que “o governo quer”. Para poder não basta querer, é também necessário pensar.

27 janeiro 2018

Coisas lá para casa


Quando fiz a minha prospeção de prendas natalícias gastei algum tempo na página da Tradisom, do amigo José Moças. Entre picando o que já sabia querer e cheirando o que talvez valesse a pena comprar, encontrei e encomendei um CD de um grupo chamado At Tambur, de quem nunca tinha ouvido falar, pecado meu.

De música não entendo muito e jeito para ela, bastante pouco. Simplesmente gosto ou não gosto do que ouço e há coisas de que gosto muito. E gostei muito desse álbum, achei-o uma coisa bastante bem feita e original. O CD é de 2003, tanto quanto soube o projeto não teve continuidade e o grupo já não existe.

Portanto, há uma dúzia de anos, alguém fez uma coisa muito interessante, aparentemente pouco divulgada, pelo menos para o meu nível de atenção, e desapareceu. Se agora o comprei e ouço, foi por ter decidido um dia escavar no catálogo da muito meritosa editora e divulgadora.

Onde quero chegar? Quantas coisas estarão a ser feitas hoje, fruto de muito esforço, com grande qualidade e a passar-nos ao lado? Hoje, numa altura em que as facilidades de divulgação são incomparavelmente maiores do que há uma dúzia de anos. Quando, com tanta facilidade, nos aparece à frente dos olhos um filme de um gatinho a trepar por um cortinado algures no outro lado do mundo...

Depois, há ainda os projetos que o pessoal até conhece, até estima, até põe uns gostos aqui e acolá, mas vai a correr sacar o mp3, porque a crise, coisa e tal. A guita não chega para tudo, certo, mas gastar mais facilmente os euros nuns drinks sociais, face a remunerar uma produção cultural que nos faz bem, apreciamos, sabendo que quem a fez também tem contas a pagar... pois...prioridades?

23 janeiro 2018

A arte de perder

Parabéns Alice Zeniter. O romance “A Arte de Perder” é uma excelente história da História cruzada desses dois países tão próximos e de relacionamento tão complexo.

O que hoje se chama Argélia foi desenhado pela França. Existiam culturas anteriores à colonização francesa, mas nunca tinham estado ligadas. Tizzi Ouzu tinha muito pouco, ou nada, em comum com Tlemcen, nenhuma delas com Tamanrasset, idem entre as anteriores e Argel e poderíamos ainda acrescentar algumas mais, sempre com o mesmo resultado. Todas essas cidades e regiões não se identificavam como pertencentes a uma identidade partilhada. Existia uma religião comum, quase hegemónica, e uma língua dominante, mas esse critério dá uma fronteira mais larga e até ignora a fortíssima identidade dos berberes da montanha com a sua língua e alfabeto próprios.

Passando ao lado do balanço e do detalhe dos benefícios e malefícios da colonização, a Argélia é filha, legítima ou ilegítima, da França e há ali uma coisa freudiana mal resolvida. Uma mãe que desconsidera o filho tresmalhado, mas sem o renegar completamente e um filho revoltado, repudiando o progenitor, mas sem deixar de lhe ter afeto.

No meio ficaram os harkis. Aqueles que por ignorância, interesse, amor ou desprezo escolheram o lado errado da guerra. São os locais (não gosto de lhes chamar árabes) que lutaram ou simplesmente colaboraram com o colonizador. No final quando este entregou o país aos vencedores, os harkis ficaram condenados. Ou a serem executados e das formais mais atrozes e imaginativas possível, incluindo serem cozidos vivos num caldeirão, ou a virem em conta-gotas e a contragosto para França, para estacionarem em campos como refugiados. Sessenta anos depois a Argélia ainda não os tolera, nem sequer aos seus descendentes.

No romance de Alice Zeniter, três gerações erram ao longo desses caminhos cruzados e desacertados. Da perspetiva histórica apenas senti a falta da referência às zonas cinza do terrorismo na década negra. Disse-me a autora que isso representaria outro romance, mas não me convenceu completamente. Bastavam dois ou três parágrafos sobre o assunto. A menos de um fecho um pouco atalhado, é uma história que dá gosto ler e uma viagem bem feita por uma História emaranhada que baste.

(Sei que não estou a fechar bem o texto, mas há temas difíceis de fechar…)

19 janeiro 2018

Aos cidadãos dos países de merda


Mister Trump, um kind of não sabe muito bem o que faz, não pensa suficientemente no que diz, referiu-se a alguns países do terceiro mundo como países de merda. Pela forma, não pode falar assim e pelo conteúdo falhou redondamente ao estender o atributo aos cidadãos desses países. De facto, há aí gente muito boa, como também não falta gente de merda no primeiro mundo. Agora, é bem verdade haver países que são mesmo países de merda, believe me

Os países de merda, na sua grande maioria, não o são por desfavorecimento geográfico ou herança histórica. São-no fundamentalmente por terem uns dirigentes de merda, que se estão altamente cagando para os seus cidadãos – believe me

Quando este mundo que fala e se faz ouvir, vem severamente criticar, com razão, o Mister Trump, fica assim kind of halfway. Deviam aproveitar para criticar também sem pejo nem complexos esses dirigentes de merda, que bem se governam, transformando os seus países num inferno para os restantes cidadãos, humanos como nós, que têm a merda do azar de terem nascido num país de merda. E, que os há, há… believe me

 (Entretanto, julgo ter esgotado a minha quota de palavrões para o que resta do ano…)

18 janeiro 2018

Fazer um rio


Os rios só estão completos na sua foz, quando acabam. Até lá, vão sempre recebendo contributos, com maior ou menor relevância, mas transformando-os continuamente. Nomear o local de nascimento de um rio, como se uma parte significativa da água que chega à foz tivesse cumprido o percurso completo, é uma imagem engraçada, mas pouco precisa.

O Douro não nasce na serra do Urbião como se aprende na escola. Uma parte muito significativa dele é filha de toda a drenagem sul da cordilheira cantábrica. Como dizem em Vallodolid, o Douro tem a fama, mas o Pisuerga tem a água.

Um rio faz-se e refaz-se ao longo do caminho e o Douro com a sua forte personalidade não é aqui chamado de forma inocente. Recordo-me de num voo acordar e espreitar pela janela, para tentar entender onde estava. Em dois segundos identifiquei o Douro na Valeira, por não conhecer nenhum outro local com aquela assinatura.

O Douro, quando entra em Portugal, nasce de forma muita dura, não nasce?

17 janeiro 2018

Coisas de engenheiro


Começo com uma declaração de contexto e eventual interesse: sou engenheiro, de formação e acho que de vocação. Talvez não seja um exemplar puro, puro, mas também não me enquadro numa das raras exceções enunciadas pelo Dilbert. Concretizando e citando de memória: não sou do tipo genuíno que ao pegar num comando remoto se interroga sobre o que será necessário fazer para o transformar numa pistola de choque; nem serei daqueles raros que não se interessam pelo principio de funcionamento de uma máquina ou utensílio, desde que a coisa funcione. Quando tenho algo na mão, ou à vista, preciso obrigatoriamente de entender minimamente como a coisa é e o que se passa lá dentro. O mesmo se aplica a números ou teorias que me apresentem. Tendo sempre a procurar descascar a coisa…

Vem isto a propósito da falta de rigor na promoção das vantagens ambientais dos carros elétricos. É moda, é cool, é zero emissões, é fantástico! Até a Tesla anuncia ir fazer camiões elétricos para motivar uns investidores a meter mais uns cobres na empresa, que para já só gasta, sempre a perder. Até os políticos descobriram ser fixe legislar a favor dos elétricos.

O veículo elétrico será “zero emissões” se a energia elétrica vier exclusivamente de fontes renováveis. Como não é o caso atual, nem o será a curto/médio prazo, mais necessidade de energia elétrica implica mais consumo de petróleo, gás, carvão e afins, já sem falar em nuclear. Assim, as contas deveriam ser entre ter um combustível, ele ser processado, transportado e utilizado num veículo tradicional ou, em alternativa, começar por queimá-lo para produzir eletricidade, transportá-la, carregar baterias, tudo isto tem perdas, e finalmente ter energia mecânica no veículo. Qual o impacto global do caminho completo em ambos os casos?

Não haverá uma forma única de fazer estes cálculos e o segundo caminho até pode ser mais vantajoso em termos ambientais, mas zero emissões não o será, nunca. Enquanto não saírem contas deste tipo, abrangentes… é marketing, coisa de pessoal irresponsável e de utilidade duvidosa, na perspetiva dos engenheiros genuínos, que, muito pragmaticamente, não reconhecem grande mérito ao parecer. Quem discordar, faça o favor de imaginar um automóvel cujos travões parece que travam…

16 janeiro 2018

Onde estarias num dia BES?


Já foi costume perguntar “Onde estavas no 25 de Abril?”, para localizar o interlocutor nalgumas dimensões. Com o avançar dos anos, chamar essa data já começa a ser pouco relevante, dado haver cada vez mais gente posteriormente chegada.

A eleição de Rui Rio para líder do PSD, face a Santana Lopes, é uma boa notícia, independentemente de todas as incertezas. O partido não se escapa, no entanto, à vergonha de ter tido quase metade dos votantes a pedir o regresso do menino guerreiro, que já provou, reprovou e que não vale a pena provar de novo.

Sai Passos Coelho, por quem não tenho grande simpatia, acho até algo limitado, mas há uma teoria segundo a qual um líder eficaz não pode ser muito inteligente. Deixando em aberto o seu posicionamento neste enquadramento, a fustigação a que foi sujeito desde as últimas eleições foi desproporcionada e teorizo duas razões para tanta aversão.

A primeira razão tem a ver com o ter ganho as legislativas e não ter governado. Como se a legitimidade parlamentar da geringonça não chegasse e fosse necessário derrotar de alguma forma, à posteriori, o vencedor. A colagem da troika e das suas restrições a Passos Coelho, quando até Tsipras faria/fez o mesmo, provoca um despiste de razões e responsabilizações, que não ajuda nada a evitar nova receita.

A segunda razão será o famoso "não" a Ricardo Salgado. Teoriza-se hoje se os estragos teriam sido maiores ou menores com mais uma mãozinha. É daqueles palpites difíceis mesmo no fim do jogo, mas quando se anuncia que estão dados como perdidos os quatro mil e novecentos (4900) milhões que o Fundo de Resolução injetou no “banco bom” (dos buracos do “mau”, nem falar…), se calhar a necessidade não seria uma mãozinha, mas uma boa sucessão delas. Certo é que a recusa da mãozinha ao BES não foi, nem nunca lhe será perdoada, mesmo por gente da sua família política.

Apetece-me agora perguntar a Rui Rio: onde estará num dia BES? Pergunta sem sentido, dado já não existir BES? Não! Sucessores e sucedâneos não faltam nem nunca faltarão!


Imagem RTP