19 novembro 2017

Pronada ou supinada?


Depois de quase duas décadas de retiro, as velhas sapatilhas voltaram às lides, mas não resistiram. Entregaram, não a alma ao criador, mas o revestimento de uma das solas à Natureza, ficando assim eu com uma sapatilha careca. Penso que não dá multa, mas não é bom. Aliás, multa mesmo, deveria ser aplicada a quem por aí anda em passada patuda.

Na loja, o vendedor quis saber como era a minha passada. Quando me preparava para responder, dizendo que não era patuda, precisou ser importante saber se era pronada, supinada ou neutra. Resisti a preguntar se ele tinha coragem para chamar supinador a algum familiar, mas apenas comentei que no meu tempo não havia nada disso. Respondeu, e bem, que este ainda era o meu tempo. Melhor do que o outro que, quando comprei uns patins em linha, me avisou de que aqueles rolamentos seriam rápidos demais para a minha idade…

Explicação feita, aquilo era simplesmente coisa de o pé cambar para dentro ou para fora. Como me considero uma pessoa equilibrada, declarei-me neutro, que o importante era terem amortecimento máximo e recebi as correspondentes para experimentar. Aquilo era mesmo fofo, mas parecia que ao pisar o chão estava a esborrachar algo em todas as direções, sem sentir o solo nem reenvio. Pedi algo mais firme e a coisa melhorou. Face à minha abertura, o rapaz ainda propôs mais duas alternativas. Uma declaradamente fora e outra… mais leves, mais ajustadas, mais ligadas ao solo e… claro, mais firmes. A opção racional seria pela do pé direito, mais amortecida; mas a outra, do pé esquerdo, daria mais gosto a correr, mas também mais risco. Razão ou coração?

A sapatilha nova que está na foto é de um pé esquerdo.

17 novembro 2017

É também racismo

E se, em vez de andarmos por aí a discutir a responsabilidade pelo que aconteceu há 500 anos ou há 50, nos mobilizássemos e denunciássemos as desgraças que acontecem hoje e continuarão amanhã?

Leio na imprensa que o único hospital público de Brazzaville, capital do Congo, fechou por falta de meios. Quem precisar e puder que se trate numa clínica privada. Isto não parece escandalizar muita gente, nem apelar a responsabilizar quem quer que seja.

No enanto, quando uns criminosos embarcam nas costas da Líbia uns migrantes, congoleses ou outros, sem as mínimas condições de segurança, com alta probabilidade de naufrágio e a desgraça acontece, a Europa acha-se culpada ...

Este aceitar a miséria e o crime, por omissão e negligencia, relativizar o nepotismo e a corrupção que tantos governos praticam contra os seus é uma forma de racismo. Chamemos-lhe neo-racismo, usando um prefixo bem na moda. O racismo clássico incluía uma visão de superioridade dominadora: já que vocês são limitados e incapazes, mandamos nós.

O neorracismo atual presume uma natural incapacidade de bom governo. Eles têm essa limitação e não há nada a fazer, nem a exigir. Os cidadãos que sofrem e morrem são vítimas “inevitáveis” da incapacidade e limitações da raça dos seus líderes. É uma fatalidade, vista com alguma superioridade natural e correspondente condescendência.

Haverá quem diga que uma boa parte da culpa não é dos líderes incompetentes e corrompidos, mas sim das influências externas que os manipulam e corrompem. Mais do mesmo… A culpa não é assim tanto deles, já que a sua “raça” isso proporciona.

Pensemos, só para exemplo, no Freeport e nos submarinos. A culpa maior não é dos nossos governantes, ao que parece, corrompidos. A culpa principal será então dos ingleses e dos alemães que os corromperam… certo?

13 novembro 2017

Ele saberá o que faz?


“As sauditas autorizadas a conduzir” – “Não entendo como não o consegui ver!”, do jornal Argelino “El Watan”. Esta caricatura às incoerências de algumas modernizações pode servir de alegoria para as mudanças promovidas pelo princípio herdeiro, dito MBS, na Arábia Saudita. Ele está a mudar coisas, mas saberá o que faz? O príncipe quer mandar, no país e na região. No país, prendendo, recentemente invocando luta contra a corrupção, opositores reais ou potenciais e contestatários. Pretende e decreta que o ambiente de negócios não se altera com estas arbitrariedades. O futuro o dirá.

Na região, não há forma de o acalmar. Há dois anos e meios que o Iémen é pilhado por uma guerra brutal e sem mais consequência ou objetivo do que destruir. Não há nada previsto ou em curso para (r)estruturar o dia seguinte. São deixadas zonas destruídas sem lei, ótimos viveiros e escola para formação e desenvolvimento de grupos terroristas. Provavelmente não haverá país mais martirizado neste momento com fome, carências de todo o tipo e a sofrer uma grave epidemia de cólera. Supostamente, o novo poder é apoiado pelo Irão, coisa inaceitável para os sauditas. Depois de tanto bombardeamento indiscriminado, receberam um míssil de volta, coisa considerada inaceitável?!

O Qatar não é flor que se cheire, mas o bloqueio inventado não faz sentido nenhum, que não seja uma birra de quem (quer) manda(r) aqui sou eu.

Na Síria, a batalha regional entre o eixo vertical sunita sul-norte e o eixo horizontal xiita este-oeste parece estar a resolver-se, com a ajuda da Rússia, para o lado xiita. Vamos então tentar quebrá-lo mais abaixo, pelo Líbano. Um fantástico país, com uma história riquíssima, onde se terá desenvolvido provavelmente a mais brilhante civilização do Levante Mediterrâneo, de gente educada e culta, que há uns tempos era considerado a Suíça do Oriente… As suas desgraças começaram quando os palestinianos foram expulsos da Jordânia por mau comportamento. A partir daí, entre palestinianos, israelitas e pró-iranianos, nunca mais teve sossego.

O seu primeiro-ministro, aparentemente de consensos, foi a Riad, demitiu-se de lá e nem regressou ao seu país. Especula-se que terá sido a isso forçado pelos sauditas e que se encontra retido, contra a sua vontade. Entretanto, estes sobem o tom e as ameaças contra os pró-iranianos do Líbano.

Em conclusão, MBS está a pôr a região toda a ferro e fogo e adivinhem quem lhe dá palmadinhas nas costas de pleno apoio? O Mister Trump! Neste momento, o não eclodir de mais violência na religião depende de … Israel.

11 novembro 2017

As redes sociais ameaçam a democracia?


Este era o título da capa de um “The Economist” recente, de onde extraí a imagem. Ao confirmar-se a influência pró-ativa da Rússia nas últimas eleições americanas, parece ter ficado muita gente histérica e indignada, numa de “não pode ser!”, “É preciso fazer alguma coisa!!”.

A propaganda e a manipulação da informação não são ciências novas nem específicas da Rússia. Sempre existiram. Um país tentar condicionar a opinião pública em terceiros, de forma direta ou camuflada, não é nenhuma novidade e não deveria espantar ninguém.

A internet e as redes sociais trazem uma diferença na forma. Constituem enormes amplificadores de “opiniões” e de noticias falsas e verdadeiras. Facilitam a difusão e a camuflagem. Mas tanto o fazem para o “mal” como para o “bem”, neste último caso na denúncia de situações e na mobilização para causas que a comunicação social tradicional ignora, especialmente em regimes controlados.

Assim, a simplificar, a internet está para a informação como a globalização está para a economia. Curiosamente, o próprio “Economist”, quando aborda questões e polémicas relacionadas com os aspetos negativos da globalização, reais ou percecionados, costuma acabar sempre no mesmo acorde: a globalização permite criar mais riqueza globalmente e, a prazo, é isso que conta. Até lá, são apenas alguns sobressaltos.

Embora eu não tenha uma posição tão liberal, do quanto mais aberto melhor, acho que neste caso da informação, quanto mais melhor. Acredito mesmo que a brutal diversidade de fontes de informação só pode, a prazo, melhorar o conhecimento da sociedade sobre si própria e sobre a humanidade. Todos sabemos que há mentirosos e manipuladores neste mundo. Antes estávamos expostos a meia dúzia, agora estamos expostos a umas centenas ou milhares, pelo tal efeito de amplificação. Teremos que nos habituar a isso. O controlo efetivo do que se publica na internet nunca, mas nunca pode ser efetivo nem eficaz, sobretudo num quadro de Estado de Direito onde estamos enquadrados. Vejam os Estados de Não Direito que bem a tentam controlar de todas as formas e feitios, cega ou seletivamente, à bruta ou à fina… e nem eles conseguem.

Significa que tudo é/deve ser permitido? Não. Haverá sempre um enquadramento legal a respeitar, mas, dada a dimensão deste universo,
é impossível ser completamente abrangente. É ainda de recordar que os “beneficiados” não são sempre os “Trumps”.

10 novembro 2017

O King Maker


Nos anos 70, houve no Parlamento um famoso e (a)típico deputado da UDP, de nome Acácio Barreiros. Para muita gente era considerado importante existir um ou dois naquele registo, vá lá, no máximo três, mas estava completamente fora de questão que pudessem mandar mesmo… O atual Bloco de Esquerda é um herdeiro direto do partido original de Acácio Barreiros. Mais polido e bem-apresentado, mas as raízes vêm de lá.

Abrindo uma exceção à não utilização de estrangeirismos, os Acácios Barreiros sucessores estão a tornar-se os “king makers” dos regimes e não exclusivamente em Portugal. A degradação e descrédito dos partidos tradicionais do poder faz subir os extremos, que acabam por se tornar os “viabilizadores” das soluções governativas. É uma situação perfeitamente normal, do ponto de vista da representatividade democrática, mas...

Dada a sua “sistemática marginalidade anti-sistema”, a participação ou apoio a uma solução de “poder tradicional” pode ter elevados custos eleitorais. Assim, eles precisam de vender a pele bastante cara e deixar uma assinatura clara nos programas governativos, resultando desproporcional à sua base eleitoral e, sobretudo, desalinhado com a larga maioria adepta de um modelo “tradicional”, com ligeiras nuances para a direita ou para a esquerda. Esses programas acabam por parecer mais uma lista de mercearia de exigências avulsas atendidas, do que algo com orientação e sentido estratégico, entrando-se assim numa navegação à vista, quando os tempos pedem outra coisa.

Saindo de Portugal, o que vemos na Catalunha é muito isso. Os anarquistas/radicais minoritários impuseram uma agenda e criaram a dinâmica que deu nesta triste figura. Como pode alguém falar/defender uma legitimidade democrática saída da “trapalhaçada” do 1/10? Como pode alguém de “esquerda” defender a separação de uma região rica que não quer ser solidária com as mais pobres?

Saindo da esquerda para a direita, noutras paragens, xenófobos e racistas vão chegando à primeira fila. São tão perigosos quanto os radicais de esquerda, dado que, como toda gente sabe, os extremos tocam-se.

09 novembro 2017

Assim, tipo Pai Natal


O senhor na fotografia é o José Moças da editora Tradisom. Para quem não a conhece, se eu referir, como exemplo, a edição dos últimos trabalhos do Júlio Pereira, do “Povo que Ainda Canta” e da Brigada Vitor Jara, ajuda…?

O José Moças é um entusiasta e entusiasma quem com ele fala, sobre projetos atuais e futuros. A esse entusiamo fica devedora a cultura portuguesa, pelo muito de bom que ele tem feito e certamente ainda fará. É um lugar comum dizermos que a música popular é um campo onde somos muito ricos, mas convém não esquecer que a riqueza precisa de ser permanentemente investida, construída, tratada e divulgada e esta também.

Assim a modos de publicidade, e não ganho nada como isto, exceto a satisfação de, à minha escala, contribuir para coisas que valem a pena, fica uma sugestão. Quem tem prendas para comprar, para a quadra que aí vem, e anda a coçar a cabeça sem saber o quê, ou ainda está na fase do “não sei que faça, logo se verá”, visitem a página da Tradisom. É capaz de valer a pena a viagem!

08 novembro 2017

À flor da imagem


Uma viagem longa com um écran nas costas do banco da frente, fez-me pensar em cinema. Fui à galeria dos premiados e escolhi Gravity para lá e The Revenant para cá. As condições de visionamento não permitiram certamente usufruir de um dos atributos fundamentais de ambos: a imagem.

Em contextos físicos radicalmente diferentes, não deixam de ter semelhanças: uma odisseia solitária, em condições limites, com um filho perdido nas costas. No entanto, ficou-me o sabor de serem excessivamente imagem e de consistência muito superficial.

Se o objetivo era o realce da sobrevivência solitária, dispensava-se o rocambolesco de tantas situações limite, passando até ao lado da potencial inverosimilhança de algumas. Demasiado espetáculo visual e demasiada intensidade acidental para poder sobreviver um enredo minimalista, de alguém apenas com o próprio. Empobrecido o enredo, fica tudo, ou quase tudo, à flor da imagem e não é bem este o cinema de que gosto.

Recordei outro filme visto anteriormente em circunstâncias idênticas, Budapest Hotel, e dei por mim a pensar como o humor e a ironia podem tornar as coisas muito mais sérias e profundas.

07 novembro 2017

No limite, não é altamente cómico


No limite podia não ter havido roubo, mas não o teremos atingido.

Algumas munições estavam para lá do limite da validade, donde que, pouco perigo ou nenhum. Era vê-las explodir, fora do prazo, próximo destes (ir)responsáveis, sem danos pessoais, só para assustar.

No limite 2 + 2 pode ser 3 ou 5. É apenas um a mais ou a menos, segundo o CEME. Uma forma aproximativa de controlar o inventário de munições, como bolinhas do paint-ball distribuídas no início do jogo e ser normal no fim sobrarem algumas, não disparadas… é mais do que limite.

Foi a maior recuperação de material militar roubado em democracia. Acho deliciosa esta definição temporal. Terá sido também o maior roubo “em democracia”? Vale o que vale.... No limite, deixem fugir uns F16, que, quando os apanharem, fica logo o recorde batido.

A segunda figura do Estado acha que este caso teve momentos altamente cómicos. Ria-se quem puder … e que ainda não esteja no limite de chorar.

06 novembro 2017

As coisas que (não) funcionam


Com António Costa Presidente da Camara de Lisboa, Joaquim Leitão foi Comandante dos Sapadores Bombeiros da cidade. Depois de A. Costa passar a PM, J. Leitão passou a Presidente da Autoridade Nacional da Proteção Civil. Num cenário improvável, eventualmente envolvendo vacas voadoras, de A. Costa vir a ser Secretário Geral da ONU, J. Leitão será o chefe (ou lá como se chama…) dos capacetes azuis?

Talvez não, dado que, onde funcionam, as coisas não funcionam assim.


Foto da CML

05 novembro 2017

Outra vez


Umas décadas depois. Arma os braços, encosta os cotovelos ao tronco, levanta um pé, pica o chão, eleva e transfere, pica com o outro, e outra vez, e outra…
Revisitando um excerto de “Por um título”. Com uns "Re"s a acrescentar…

Aprendi a correr. Não o correr atabalhoado da fuga, não o correr acometido do predador. Apenas o simples correr sustentado do desacompanhado. Aquele em que cada passo é dado com o fim de haver sempre outro passo mais para dar. Em que o cansaço se agrava ao descontinuar e em que se recupera ao não parar.

Ver o mundo deslizar pelos dois lados de mim. Ao sentir a minha velocidade como minha. Criada, mantida e gozada. Sob o calor que me destilava e expurgava, sob o vento que me desafiava, sob a chuva risonha que me fecundava.

03 novembro 2017

Coitadinho do gato


A sociologia é uma área de conhecimento intrincada e complexa, não conseguindo ter um binómio de Newton (nem uma lei de Ohm). Talvez por isso as suas interpretações e teorias tenham tanto de díspar no conteúdo como de ferocidade na sua defesa. Desculpem lá, mas falar demasiado alto está muitas vezes associado a fragilidade na argumentação.

Nesta vaga de denúncias de situações de assédio sexual, que já saudei aqui, veem-se teorias para tudo e para o contrário. Uma, que achei muito curiosa, argumentava estarmos a assistir a uma consequência da exposição excessiva do corpo (objeto) da mulher e do desaparecimento do travão religioso. Lembrei-me de uma sociedade em que não há de todo exposição pública do corpo feminino e onde existe uma presença quase asfixiante de normas religiosas restritivas na sociedade … e que não é claramente um bom exemplo. Dispensa-se o desenho, certo? Como dizia um sábio dessas paragens, estranhamente até um pouco alinhado com a teoria acima: se o gato come um pedaço de carne deixado em cima da mesa, a culpa é mais de quem deixou a carne à vista do que do bicho. Ou seja, a mulher que deixe de mostrar as pernas, se não quer ser importunada por um pobre animal, que, recorde-se, não é de pau.

Sobre essa coisa da exploração do corpo da mulher (ou do homem, conforme preferências), sinceramente não vejo porque não se pode expor e evidenciar algo belo, excluindo, claro está, o obsceno e o grosseiro. Uma voz bonita, não é também um “atributo físico”? Mostrar um olhar bonito, é exploração? Pobre e triste seria um mundo onde se só vissem imagens de corpos enfiados em sacos de sarapilheira (e nem sequer vou de novo ao paralelismo com os locais onde isso acontece).

Em resumo, eduquem, responsabilizem o gato abusador; se não for a bem, que seja a mal. O caminho é por aí. Esconder não é de forma nenhuma uma solução, e, a propósito, a origem do problema é tudo menos moderna.

Na foto uma escultura de José Rodrigues nos jardins do convento de São Paio, Cerveira.
Propositadamente…

02 novembro 2017

Aos amigos ausentes


Seja na exuberância dos cemitérios jardim do litoral, seja na austera secura dos do interior, amigos ausentes, amigos presentes.

Junto palavras, em tradução livre, de um grande amigo da humanidade, sempre, sempre presente: Jacques Brel. Jojo, seu grande amigo, tinha morrido de cancro de pulmão, a mesma doença que o iria vitimar.

Jojo
Aqui tens alguns risos, alguns vinhos, algumas belas
Tenho o prazer de te dizer que a noite será longa a tornar-se manhã
Jojo
Ouço-te rugir canções do mar, onde os bretões adivinham que S. Cast deve dormir ao fundo do nevoeiro.

Sete palmos de terra, Jojo ainda cantas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Esta noite como sempre, refazemos as nossas guerras
Tu retomas Saint-Nazaire, eu refaço o Olympia, ao fundo do cemitério
Falamos em silencio de uma juventude velha
Sabemos os dois que o mundo boceja por falta de imprudência

Sete palmos de terra, Jojo ainda esperas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Dás-me rindo notícias daí
Eu digo “morte aos idiotas”, bem mais idiotas do que tu
Mas que se aguentam melhor
Jojo
Tu conheces os nomes das flores, vê que minhas mãos tremem
Sei que sabes quem chora, para afogar de pudor
Os meus pobres lugares comuns

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra não estás morto

Jojo.
Deixo-te pela manhã, para vagas tarefas
Entre alguns bêbados, amputados do coração
Que abriram demasiado as mãos
Jojo
Eu não vou a mais lado nenhum
Visto-me dos nossos sonhos
Órfão até aos lábios, mas feliz por saber
Que estou a chegar

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra, ainda te amo

Foto: Cemitério de Numão

30 outubro 2017

Revolucionários ou revoltados, mas profissionais


A cara na capa deste livro é de Ilich Ramírez Sánchez, venezuelano apesar do primeiro nome. Ficou mais conhecido por Carlos, o Chacal, e foi o terror público número um, principalmente em França, nas décadas de 70 e de 80. Sim, nessa altura havia terrorismo, com bombas a explodir em locais públicos e, muito na moda da época, desvios de aviões e outros sequestros. Esta história ajuda a compreender o que por cá acontece e tem acontecido. Aqui vão alguns sublinhados meus, após leitura.

Não era proletário nem operário. Pelo contrário, a larga maioria dos terroristas ocidentais da altura eram da alta burguesia. Chega até a referir um caso, por excecional, de uma camarada originária de um nível social mais baixo.

Queria fazer a revolução. Na Venezuela, não deu jeito, em França também não foi possível, em Moscovo já tinha sido e… onde sobrou uma causa para lutar: Palestina. Se não houvesse Palestina, quais seriam as causas a abraçar pelos Chacais? Algum paralelismo com as mais recentes partidas para a Síria?

Começa por aspirar a ser revolucionário e depois passa a mercenário (revolucionário profissional), ou seja, organiza atentados e sequestros para quem lhe paga. No entanto, o auge da sua atividade ocorre quando França prende Magdalena Kopp, sua companheira de armas e ele usa o terrorismo… para exigir a libertação da amada.

Uma referência ao pacto Moro. Itália fechava os olhos ao transito e atividades dos terroristas (pró)palestianos pelo seu território, com a condição de estes irem fazer os estragos para outro lado. Edificante e muito próprio de um regime democrata-cristão. A coisa não acabou bem para Aldo Moro, raptado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas, prova de que isto de tolerar terroristas pode não se saudável.

Dentro do Médio Oriente, estendido até à Argélia, que lhe estende o tapete vermelho durante o sequestro dos ministros da Opep, vemos uma enorme volatilidade nos acordos, desacordos, pactos e traições entre os vários líderes. Não ajuda muito a suposta base comum “árabe”, nem parece ser determinante existir um inimigo claro e comum, Israel. Fico a pensar que, mesmo sem Israel, dificilmente se veria (e se vê) paz e cooperação por aqueles lados, dada a falta de confiança mútua, ausência de compromissos estáveis e outras carências…

28 outubro 2017

O que foi diferente?


Existem incêndios florestais significativos em Portugal há décadas. Com mais ou menos área florestal ardida, fatalidades costumavam ser muito pontuais e prejuízos materiais para lá da vegetação eram geralmente limitados a construções isoladas. Este ano foi diferente, pelo número de vítimas e, sobretudo no dia 15/10, pela extensão e natureza dos estragos, abrangendo zonas que não se imaginava expostas.

O que houve de diferente este ano? Diria que fundamentalmente as condições climatéricas de fundo, um inverno muito seco, e uma meteorologia atípica nos dias das catástrofes. Se isto foi efetivamente diferente, por si só não justifica toda a desgraça. Deficiências que poderiam passar desapercebidas em situações menos exigentes, ficaram expostas e agravaram as consequências. Incompetência dos “boys”, planeamento burocrático (as grandes catástrofes de junho e outubro não respeitaram o calendário oficial), as falhas nas comunicações, incluindo a vergonhosa história do Siresp e a falta de profissionalização e de organização no combate aos incêndios.

Não será certamente por falta de leis. Após Pedrogão foi aprovada nova legislação, a tal do D. Dinis bis, e dois meses depois, com o relatório da comissão independente e a segunda catástrofe, novo pacote é lançado. Considerando que uma árvore precisa de décadas para ficar adulta, imaginemos quantas reformas elas verão durante o seu crescimento, caso aguentem. Há bastantes semelhanças entre este pacote de outubro e o pós-2003. Até no anunciar de novas centrais de biomassa e, já agora, onde andam as lançadas em 2006?

Vemos muitas medidas bondosas, mas esquecem uma coisa fundamental: a economia! Enquanto não houver uma perspetiva económica que viabilize a exploração das florestas, estas ficarão abandonadas a gerar biomassa. Podem somar os bombeiros, militares e aviões que quiserem: elas irão arder, será apenas uma questão de tempo.

Entretanto, uma das poucas utilizações economicamente viáveis que é a plantação do eucalipto é diabolizada, como se fundamentalmente só ardessem zonas de eucalipto e o resto, como o pinhal de Leiria, fossem simples exceções, a confirmar a regra. Para lá de outras consequências económicas, se arrancarmos os eucaliptos, reduzindo a atividade económica existente, o abandono não irá agravar? Dizem alguns que não, que vamos plantar carvalhos, são melhores e mais bonitos. São sim, mas nem toda a gente tem o carro melhor e mais bonito que gostaria de ter, pois não? É a economia...

27 outubro 2017

Essas palavras que aparecem


Tenho um hábito ou um problema. Numa sessão pública onde haja período de perguntas do público e em que participe, é quase obrigatório arranjar uma ou duas coisas para questionar. Se não o fizer é por alguma doença momentânea ou profundíssimo desinteresse ou, chamemos-lhe até, feio desdém.

Uma vez, assistia a uma conferência de um escritor, mediamente famoso, mas do qual eu desconhecia completamente a obra e comentei para quem estava comigo: “- Tenho que arranjar uma pergunta, não sei como.”. A resposta se não foi “– Não sejas maluco!”, pouco menos.

Resolvi perguntar-lhe se, quando escrevia, a definição e a dinâmica dos personagens era uma coisa bem planeada e controlada por ele, ou se havia momentos em que estes ganhavam autonomia e se emancipavam, surpreendo-o. Infelizmente havia na sala alguém com outra mania, a de acrescentar reflexões e comentários a qualquer momento, e o senhor despistou-se, ficando eu sem resposta.

Na minha modestíssima escala, estou convencido de que as histórias não nascem completas. Estou convencido que a folha em branco não é escrava de um plano pré-definido. Há coisas redemoinhando cá dentro que são atiradas para lá, com direção mais um menos definida, e depois mexem-se por elas. Nem sempre como se pensava. Por vezes surpreendem, abrindo novas vistas, outras vezes despistam-se e é-se obrigado a puxa-las para o sitio. No fim, inevitavelmente, fazer a monda, já que as palavras que brotam são sempre mais do que a boa conta.

Há um momento especial em que, a postos para o que vier, está uma página em branco à frente. Pode começar a correr e a brotar, divertindo-nos até, assim tipo “onde é que isto vai parar”; pode nada sair e não ajuda arrancar cabelos; pode sair lixo e aí fica angustiante; podemos descobrir coisas sobre nós que não imaginávamos…

Enfim, é a vida das coisas, que também são palavras.