25 abril 2018

E depois do Abril

Sim, o dia precisa e merece ser marcado. O que falta hoje, fundamentalmente, das expetativas de abril? Fundamentalmente, falta sermos governados por gente séria. Séria materialmente, no sentido de não meter no bolso o que não é deles, e é nosso… e séria intelectualmente, de não prometer a Lua para amanhã e a Via Láctea para a semana. Se isto estiver garantido, sermos governados por gente séria, já não seria mau para irnmos por um bom caminho.

Como acredito que eles não passarão a ser sérios por iniciativa própria, o que faz falta é escrutiná-los e pressioná-los para o passarem a ser. Infelizmente não costuma assim ser. A malta continua a avaliá-los na perspetiva tribal e faciosa, como no (mau) futebol.

Assim sendo, pode a malta continuar a erguer o cravo vermelho uma vez por ano, que no resto nada irá mudar de relevante.

18 abril 2018

Duplamente açoriano


Quando sai uma notícia sobre um alegado abuso dos nossos caros políticos, é habitual seguir-se imediatamente larga condenação pública, mesmo por quem apenas leu as letras gordas. Acontece pelo histórico a que estamos habituados, pouco dignificante para os mesmos e parecer óbvio ser “mais uma…”.

Não deveria ser assim. Deveríamos tentar entender o fundo e as razões, até porque, a malhar, convém ser com rigor, senão temos logo uma legião de virgens ofendidas apregoando injustiças.

Neste caso das viagens dos deputados insulares, duplamente participadas, não sei avaliar o enquadramento legal, mas posso analisar o principio. Um dos principais visados, Carlos César, argumenta que recebe uma comparticipação por ser deputado, como todos os deputados, e outra como açoriano, como todos os açorianos e por ser uma coisa não deixa de ser a outra, com todos os direitos inerentes.

Discordo. Quando se recebe algo, nunca é simplesmente pelo direito de receber, sem mais. Há sempre uma contrapartida subjacente e a avaliação do certo ou errado tem que olhar para aí, muito especialmente se a origem dos fundos for o erário público.

Imaginemos um aluno que tem direito a uma bolsa de estudo para comprar livros escolares, oferecida pela autarquia. Faz sentido beneficiar de outra bolsa para o mesmo fim, oferecida por exemplo, pela entidade patronal do encarregado de educação? Faz sentido receber a dobrar para a mesma coisa? Penso que não e nem coloco o cenário de ele receber o dinheiro e nem sequer comprar os livros.

Por outro lado, o subsídio atribuído aos deputados insulares já é positivamente diferenciado face aos do continente. Portanto a ser confirmada a situação, Carlos César e os demais, são duplamente beneficiados por serem açorianos, para o mesmo fim. E ele só é açoriano uma vez.

Quanto ao argumento do está bem porque “sempre foi assim”, nem vale a pena comentar.


Foto João Porfírio/Observador

16 abril 2018

Sem vencedores


Por muitos intervenientes que existam num conflito, o habitual é, mais tarde ou mais cedo, agruparem-se em dois blocos, que se defrontam até um deles vencer. Muitas vezes os alinhamentos são apenas de conveniência, podendo-se desfazer rapidamente logo a seguir ao fim da guerra e surgir uma nova confrontação entre antigos aliados. EUA e URSS durante e depois da II Guerra são um bom exemplo.

No caso da Síria, isso não está a acontecer, mesmo depois de 7 anos de guerra. É certo existirem duas linhas principais, motoras do conflito, que são o eixo vertical sunita, do Golfo à Turquia, contra o eixo horizontal xiita, do Irão ao Mediterrâneo. No entanto, o conjunto de intervenientes é tão diversificado que não se conseguem arrumar em dois blocos – ver exercício de identificar o (des)alinhamento atual na imagem acima. Por outro lado, uma vitória clara de uma potência regional, Golfo/Turquia ou Irão, seria dificilmente aceite pela outra parte.

Numa zona sensível como esta, os “big boys” nunca ficarão alheados, num jogo onde obviamente não há inocentes. Se numa primeira fase “toda a gente” era contra o Estado Islâmico, esse alinhamento inicial nunca passou por uma intervenção global e assumida no terreno. Provavelmente pela memória das desventuras iraquianas, das quais a situação atual acaba também por ser consequência, os EUA em especial mantiveram-se sempre a alguma distância. Esse vazio foi aproveitado pela Rússia, cuja intervenção musculada foi fundamental para o progresso do “regime”, enquanto a Turquia aproveita para ajustar contas com os curdos.

A ação desencadeada pelos EUA e aliados em 14/4 é uma bofetada contra um excesso do regime e um sinal amarelo à Rússia e ao Irão. Foi um aviso, pontual, não o início de uma operação de grande escala, visando derrubar o regime. Estando Trump muito mais próximo dos sunitas do que Obama, não é previsível que Macron alinhe em “cantigas” como o Sarkosy fez na Líbia, motivado pelo Qatar.

E, se não parece fácil vermos claros vencedores, irá esta guerra tornar-se crónica?

11 abril 2018

Triste

Na última dezena de livros encomendada sobre este “meu” tema estava incluida esta obra, muito interessante. Uma citação, para dar o mote:

“Para acabar com a nossa negação! As minhas críticas dirigem-se à minha “família”, aquela dos intelectuais de esquerda, campeões em todas categorias no que respeita a negação: com medo de “fazer o jogo da reação”, negamos a existência dos campos soviéticos, a barbaridade do maoismo, a tirania dos regimes do terceiro-mundo, desde que estes se proclamassem de esquerda. Hoje, face ao fanatismo islamista, com medo de sermos etiquetados de islamofóbicos, voltamos a mergulhar na negação.”

Para lá dos aspetos retrógrados e hegemónicos do Islamismo, que todos conhecem, ou podem facilmente conhecer se quiserem, o livro descreve principalmente a tolerância e a negação dessa realidade, que uma comunidade europeia, supostamente progressista, revela face ao fenómeno.

De uma forma muito detalhada e documentada, ele faz a ponte com processos anteriores, onde tantos “progressistas” se recusarem a admitir o óbvio, até as evidências não permitirem de todo continuar a ignorar a brutalidade desses regimes. Dentro da enorme lista de episódios embaraçantes não resisto a referir um exemplo: em 1953 o Partido Comunista Francês, aceita e defende a possibilidade da condenação à morte de uma criança de 12 anos, porque na URSS, a formação dos cidadãos é tão avançada e eficaz que, com essa idade, já atingiram a maturidade completa. Isto será ser progressista?

Receando uma etiqueta feia e consequente ameaça de exclusão da “comunidade”, um largo número de intelectuais ignorou as vítimas que sofreram e, tantas delas, morreram, pela liberdade e pela dignidade! Deixaram ser roubado o futuro a populações inteiras em regimes despóticos pós-coloniais, porque criticar era equivalente a defender a colonização. Estas visões e omissões absurdas e cruéis são propostas e defendidas por gente de nível intelectual elevado. Não teriam obrigação de, além de serem inteligentes, serem racionais e humanos?

O Islamismo como sistema de organização social é incompatível com os princípios fundamentais dos direitos humanos. Ignorar ou tentar branqueá-lo não é apenas desonestidade intelectual. É ser cúmplice de um crime. Não estamos simplesmente a discutir princípios filosóficos, estão em causa vidas e direitos humanos.

Da parte que me toca, é-me muito fácil. Não devo obediência a nenhuma família e consigo ver rostos, com nome próprio, de quem sofreu/sofre limitações aos seus plenos direitos. É claro que entre correr o risco de ser etiquetado com um nome feio ou ignorar quem não consegue viver dignamente, a escolha é-me muito, muito fácil.

Na mesma colheita veio o livro abaixo ilustrado, com o testemunho de Henda Ayari e do seu calvário pelo mundo salafista. Não é caso único, mas chega para confirmar que a interpretação literal e retrógrada do islão devia ser simplesmente proibida neste nosso mundo.




09 abril 2018

O Povo é sereno…?


Estávamos no ano quente de 1975 e durante uma manifestação no Terreiro do Paço, de temperatura diferente da então dominante nas ruas, ouviram-se umas explosões, sem se entender de onde nem como. Na tribuna, Pinheiro de Azevedo ia tentando controlar a situação dizendo “O povo é sereno, o povo é sereno!”. Era um daqueles momentos quando umas palavras noutro sentido facilmente lançariam uma vaga de estragos e violência. Costuma-se dizer que a multidão é acéfala, que quando está na rua e minimamente excitada, umas palavras de ordem incendiárias encontram sempre recetores que a amplificam, desencadeando uma reação em cadeia, descontrolada. As palavras de Pinheiro de Azevedo naquele momento buscavam precisamente desarmar essa carga na multidão e evitar os estragos.

Nos tempos que correm, as concentrações já não são apenas, nem principalmente, físicas e presenciais. Nos fóruns, nas caixas de comentários das páginas de informação ou de opinião e nas redes sociais encontra-se muita gente e, não raro, assistimos a um comportamento que lembra essa acefalia da turba. Seja pelas maldosas (criminosas?) notícias falsas, pelos discursos faciosos, pelas visões rancorosas, pela falta de educação ou pela arrogância da ignorância, não falta combustível a excitar a multidão e esta responde. Está bem que nesse mundo virtual não se sai em magote pelas ruas e praças a quebrar e a incendiar, mas há fraturas e terra queimada que, não sendo físicas, não deixam de ser reais e seriamente prejudiciais ao bem viver em respeito pela pluralidade.

Aqueles que vêm a realidade filtrada pela simpatia, acharão cada fenómeno positivo ou negativo conforme afetar a sua causa ou a do inimigo… e não esquecerão de amplificar, coisa de garantir que funciona para o lado que interessa.

Sendo que a base do fenómeno, o meio em que ocorre, é uma realidade irreversível, como iremos ficar? Haverá um aumento de maturidade e um esmorecer dessa excitação agressiva ou passaremos definitivamente a viver num mundo mais intolerante e irrespirável? O futuro o dirá, sendo que é construído por nós todos. Poderemos sempre dar uma ajudinha… para o mal ou para o bem.

08 abril 2018

Clubes da política


Futebol – foi ou não fora de jogo? Pois… qual a cor da camisola do jogador? Se é a nossa, não foi; se é dos outros, não há a mínima dúvida!

Política – foi preso um tipo importante! Se é o presidente de uma grande construtora, já lá devia estar há mais tempo; se é um político dos nossos, esta justiça é vergonhosa!(mesmo que a construtora e o político joguem no mesmo campeonato). Pois…

Há mais criminosos que não foram condenados? Sim, então enquanto houver um ladrão à solta, é injusto prender outro? Assim, não seria fácil…

03 abril 2018

Viagens do Júlio


Quando nos seus concertos Júlio Pereira apresenta o belíssimo tema “Museu do Fado”, costuma fazer uma introdução ressalvando a fraca ou nula herança recebida por ele desse género musical. Penso que para muitos de uma franja etária onde também me incluo, o fado começa por andar muito longe. Para mim, até nem sequer era muito credível, entre um pitoresco acanhado do “ceguinho, esgraçadinho“ e um registo marialva, bafiento e bolorento. Depois, com o tempo, lá fui entendendo haver mais qualquer coisa…

Àquele que é indiscutivelmente um dos mais brilhantes músicos deste país, o fado não atacou apenas nesse tema. O excelente “Geografias” abre com “Fado Luso” e o não menos excelente (para não variar…) “Acústico” inclui um fantástico tema chamado… “Fado”, fácil de definir: não é alegre nem triste e carrega todas as cores do mundo.

Júlio Pereira fez uma longa e rica viagem desde o histórico “Cavaquinho” de 1981 e será bastante injusto ainda associar o seu trabalho principalmente a esse longínquo sucesso, por mais impressionante que este tenha sido. As suas composições viajam originalmente pelo mundo inteiro, mas bem caraterizadas e identificadas com a cultura de onde saíram. Poucos como ele o conseguiram fazê-lo assim brilhantemente, sem simplificações grosseiras, nem sofisticações estéreis. Parece-me inevitável que nessa estrada o músico se cruzasse com o fado.

Portanto, isto do fado será parte obrigatória dessa coisa do sentir português e que, mais tarde ou mais cedo, ataca os mais insuspeitos, a ponto de até pôr o Amazonas a correr em Trás-os-Montes? Não sei, porque começo e acabo por não saber onde começa e acaba o fado. Seja o que seja, goste-se ou não, apreciemos a sua música em geral e o “Praça do Comércio” em particular, recentemente galardoado com o prémio “Pedro Osório” da Sociedade Portuguesa de Autores.

31 março 2018

Viver de pé


E eis que nos escondemos, quando o vento se levanta, por medo que nos empurre para batalhas duras
E eis que nos escondemos em cada amor nascente, que nos diz depois do outro, eu sou a certeza
E eis que nos escondemos, que a nossa sombra, por um momento, para melhor fugir da inquietação, seja a sombra de uma criança, a sombra dos hábitos que plantamos em nós, quando tínhamos vinte anos
Será impossível viver de pé?

E eis que nos ajoelhamos de estar meio tombados sob o incrível peso das nossas cruzes ilusórias
E eis que nos ajoelhamos e já recaídos por ter sido grande o espaço de um espelho
E eis que nos ajoelhamos enquanto a nossa esperança se limita a rezar, quando é demasiado tarde e já não podemos ganhar todos os encontros falhados
Será impossível viver de pé?

E eis que nos deitamos pelo mais pequeno amor, pela mais pequena flor a quem dizemos sempre.
E eis que nos deitamos para melhor perder a cabeça, para melhor matar o tédio dos reflexos de amor
E eis que nos deitamos do desejo parado, de prolongar o dia, para melhor cortejar a morte que se prepara para ser até o fim a nossa própria derrota
Será impossível viver de pé?

Tradução livre de “Vivre Debut” de Jacques Brel.

29 março 2018

O BES que era bom


Quando em agosto de 2014 o BES de então foi “resolvido”, o a seguir denominado “Novo Banco” seria supostamente a parte boa e enxuta da instituição. Os buracos e as desgraças teriam ficado na parte má. Evidentemente que não era expetável um mar de rosas para os primeiros tempos de um banco novo, a começar naqueles auspícios, por muito sãozinnho que fosse suposto ser o seu balanço inicial. 


Três anos e sete meses depois do “dia D” estar ainda a registar mais dois mil milhões de buraco, imparidades, malparado, em Portugal ou nas Arábias, custa-me muito a entender. 



A recapitalização pelo fundo de resolução de 4,3 mil milhões, está dada como perdida. Com este novo buraco vão ser necessários mais 800 milhões dos quais 450 empresta(da)dos pelo Estado. Certamente que esperamos que o Estado recupere estes e o empréstimo inicial. Ao fim e ao cabo, a “coisa” foi apresentada como “sem custos para o contribuinte”. 



Presumo que o fundamental destes dois mil milhões condenados já lá estaria em 2014, não creio terem sido fruto da nova gestão, destes últimos anos. Se lá estavam, como demorou tanto tempo a serem identificados e assumidos? Estavam assim tão bem escondidos? Ou, até agora, assumia-se algum otimismo na avaliação e o novo dono resolveu ser especialmente pessimista? 



Será coincidência este enorme buraco ser revelado neste momento, quando ainda pode ser imputado e assumido pelo passado? E, já agora, são mesmos os últimos “miles” milhões…?

27 março 2018

Tão longe e tão perto


Vi recentemente dois filmes que partilham o mesmo tema e o mesmo tempo, exatamente ao dia: “Dunquerque” e “A Hora Mais Negra”. Ambos sobre o resgate de França das tropas inglesas em maio/junho de 1940, após a estrondosa derrota relâmpago sofrida na fase inicial da II Guerra.

“Dunquerque” pode ser “mais um” filme de guerra, mas é mais um filme de gente desesperada a morrer e a ver morrer, do que de heróis gloriosos. Não foi há muito tempo que na Europa se matava assim cruelmente, nem sei se é possível falar em mortes não cruéis numa guerra, e se aquele contexto hoje nos parece longínquo e inverosímil para os tempos que correm, nunca facilitando. Será que esta Europa entendeu definitivamente que uma barbaridade assim nunca mais…? Diremos que sim, mas continuam a fabricar-se e a posicionar-se armas e a Ucrânia é ali ao lado. Podemos ver um filme assim e imaginar que é mesmo a sério, connosco e com os nossos próximos?

Voltando a 1940, enquanto nas praias e nos mares decorre a chacina, no outro lado do canal, em Westminster há jogadas e conspirações de poder. Tão perto e tão longe. Neville Chambarlain, o demitido “primeiro ministro da paz”, continua a defender uma estratégia de “apaziguamento em apaziguamento, até a derrota final”, depois de a tolerância por ele oferecida Hitler em Munique, em 1938 ter apenas garantido um início de guerra mais favorável à Alemanha.

Com razão ou sem razão, essa postura frouxa não deixa de me fazer lembrar o uma vez mais sinuoso Mr Corbyn, relativamente ao caso do envenenamento do ex-espião russo. Não quero com isto dizer que o oposto do frouxo é a guerra; o oposto da fraqueza é a firmeza. Parece estarmos agora a assistir a alguma firmeza na Europa, apesar dos protestos de alguns sempiternos “bem-intencionados”. Gostei particularmente de ouvir o nosso Ministro dizer esperar por explicações cabais das autoridades russas. Esperemos que a cadeira seja confortável.

A propósito de falta de firmeza, lembrei-me ainda da questão da pressão do islão político e social na Europa. Não estou a falar na dimensão espiritual dessa religião nem dos atentados. Estou a falar na tentativa de islamização da sociedade, mesmo… Tudo isto são coisas demasiadas díspares e afastadas? Talvez não, talvez não…!

26 março 2018

Mortes (in)evitáveis


A morte é inevitável. É aquela certeza que resiste a todas as modas, escola ou escolhas. O momento pode não o ser. Quando alguém é morto, antes do tempo, por acidente ou crime, para lá de culpar a falta de sorte ou condenar o assassino, há uma certa resignação à fatalidade. Na maior parte das vezes o morto é elemento passivo na história, naquele momento.

Sente-se algo de diferente com a morte do polícia francês na tomada de reféns recente em Trèbes, Arnaud Beltrme. Ele morreu por ter intervindo ativa e voluntariamente. Certo que ser polícia implica correr riscos e muitas vezes de vida, mas ninguém é pago para morrer.

A sua morte, depois de se ter oferecido para substituir uma das reféns, foi consequência de uma opção sua, profissional, mas altruísta, de uma enorme grandeza. Ter sido estupidamente assassinado por um alucinado, um de vários milhares que por aí existem, impressiona. Impressiona pelas circunstâncias da perda e pela dimensão potencial de replicação do fenómeno.

Entretanto, imagino que, pelo menos desta vez, não haverá uns “idiotas úteis/perigosos inúteis” que virão relativizar e tecer considerações sobre responsabilidades compartidas!


Foto AFP

24 março 2018

Caminhar, muito


Coisa bonita um sorriso e, muito mais do que bonita, preciosa. Preciosa para guardar e bem cuidar. A resguardar e acarinhar muito, muito, o maior, o herdado da infância, dos dias das mil e uma expetativas, de quando o tempo tinha tudo por estrear.

Sim, são bonitos os sorrisos, mesmo quando são tristes. Não é incompatível. Muito pior será um sorriso banal, de quem lhe perdeu a força ou ignora o jeito. Um sorriso triste é uma promessa, um saber, um acreditar.

Não é mau estar triste. Melhor triste por faltar algo, e isso encarar, do que satisfeito com algum tão pouco. Tão pouco deve incomodar um tão pouco à nossa volta. Nada trava, nada afeta. Caminhar muito, sempre muito. Nalguma esquina estará uma mão pronta a num corpo desaguar.

Um dia, por um dia, por um mês, um ano ou um resto de vida, haverá uma mão na outra. Restaurado o sorriso guardado, cuidadosamente, não estragado, não banalizado. Até lá, não desistir, caminhar, muito, o que for preciso caminhar. De vez em quando, fugazmente, arriscar. Tentar, praticar, cuidar.

Até esse dia, ser feliz, mesmo estando triste. Feliz por caminhar, muito, sempre muito, de mão aberta e peito disposto a abraçar. Pelo caminho, não pedir contas ao mar. E crer, num dia, num sorriso par.

22 março 2018

Não há almoços grátis


O pessoal habituou-se a que, quando se senta em frente a um computador, tudo é gratuito, excetuando, eventualmente, a mensalidade da ligação à net. Corrigindo, já não é apenas sentando, será também caminhando com o telefone na mão e com a proliferação das redes wifi gratuitas já nem sequer a assinatura é indispensável.

Como o que está por trás da nossa navegação, redes, servidores, infraestruturas em geral, produção de conteúdos, etc. tem custos e a filantropia tem limites, fica uma conta por pagar. Não sendo eu especialista do tema, nem dispondo de dados detalhados, parece óbvio ser a publicidade quem gera as receitas que alimentam a nossa gratuitidade.

O problema começa quando o vendedor de frigoríficos não quer gastar dinheiro a promove-los junto de esquimós e o do verniz para as unhas não ganha nada em mostrar-me os seus produtos. Entramos no campo da publicidade dirigida e seletiva. Para isso é necessário conhecer as pessoas, os seus hábitos, preferências e sensibilidades.

Neste campo trava-se uma batalha feroz entre a proteção dos dados pessoais e o querer saber “tudo” sobre cada um. Cada vez mais, em cada página que visitamos, em cada notícia que lemos e até em cada local físico por onde passamos, em cada nosso passo soft ou hard, há um registo desse passo, que vai desenhando o nosso perfil e permitir sermos alvejados de forma mais eficaz por quem paga a conta da nossa navegação e gera os lucros correspondentes. Cada vez que nos propõe partilhar ou aceder a informação para “melhorar a nossa experiência”, não se iludam…

Por estes dias, o Facebook está numa tormenta porque “disponibilizou” dados de alguém, muitos alguéns, supostamente para “estudos”, mas que serviram para vender um candidato numas eleições. Não se iludam… O problema não é exclusivo Facebook. Por muita configuração que façamos nas nossas contas, querendo, eles saberão sempre tudo. E depois de vender a informação dificilmente se garante que ela não seja “reutilizada” para outros fins. Não importa se serviu para vender verniz das unhas ou um presidente, nem a cor política do mesmo.

Curiosamente, por um lado, a proteção da privacidade entrava e limita a colocação de câmaras de segurança no espaço público e, por outro lado, sem o sabermos claramente, há um brutal “big brother” a anotar o que fazemos e a comercializar essa informação. Será assim tão diferente a gravação da imagem dos sítios por onde passei fisicamente do registo informático dos sites por onde andei? Não, não é, e a instalação de camaras de segurança tem até uma motivação social, não comercial.

Entretanto, o pessoal continuará a preferir almoços grátis.

21 março 2018

E depois…


O que está a acontecer com N. Sarkosy, ex-Presidente francês, detido para interrogatório, já se estava a desenhar no horizonte há uns tempos. Como dizem por lá “On le voyait venir…” Tem aspetos positivos, porque, pior do que existir crime, é existirem intocáveis. Em muitos países com responsabilidades importantes no concerto das nações, isto nunca aconteceria. Até poderia ser bastante pouco saudável para jornalistas ou magistrados avançarem com investigações nestes campos.

Apesar da presunção de inocência e de o que se poderá formalmente provar ou não, a Justiça Francesa não terá chegado aqui com muitas dúvidas. Este prostituído … empochou (até com um toque de francês na origem da palavra) uns 50 milhões do Khadafi para a sua campanha eleitoral. É grave e especialmente chocante, se pensarmos no perfil do patrocinador, mesmo não sendo tão diabólico como na altura nos foi vendido.

Depois disso, Sarkosy foi “convencido” pelo Qatar a desencadear uma guerra para depor o seu antigo patrocinador. Que motivação terá existido? Será que, eventualmente, algum dia, um juiz lá chegará? Para lá de procurar impor um regime islâmico mais próximo da sua influência, terá sido relevante o facto de o país do Golfo possuir uns bons depósitos líbios nos seus bancos, que, entretanto, ficaram sem dono para os reclamar…?

A Líbia, depois de ser salva do seu ditador, por estes altamente motivados intervenientes, tornou-se o caos que todos conhecemos e não sabemos como ou quando um dia normalizará.

E, depois, o populismo é um problema.


Foto: Patrick Kovarik/AFP