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17 abril 2026

José Luís Tinoco


Alguém se recorda da canção que venceu o Festival da Canção há 5 anos? Ou o de há 10…?

No entanto, todos ou quase todos se recordarão daquela que ficou em terceiro lugar há 50 anos, em 1976. Termina assim:

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda me escapa

E um verso em branco à espera do futuro

E a primeira voz pela qual a ouvimos era a de Carlos do Carmo

Sim, era de uma época em que as canções tinham letras, melodias e interpretações que venciam o tempo.

Esta semana deixou-nos o seu autor, José Luís Tinoco, mas também nos deixou belas obras, que jamais esqueceremos!

(No teu Poema)

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte

21 dezembro 2025

Parabéns, Pink Floyd

O álbum “Wish You Here” dos Pink Floyd lançado em 1975, teve uma reedição que agora, 50 anos depois, voltou a alcançar o primeiro lugar no top das vendas do UK. É obra.

Já há 20 anos, eu dizia aqui que por anos e anos, eles est(ar)ão aqui. Não me enganei, mas a suposição era também de baixo risco.

Adicionalmente curioso é esta obra nem ser das mais “fáceis” de ouvir, pelo menos dentro dos padrões “populares” habituais. Logo o primeiro tema “Shine on you crazy Diamond” dura mais de 13 minutos e é necessário esperar 8 minutos até ouvir uma voz, depois da guitarra de David Gilmour cantar antes.

Alguém me consegue identificar uma obra criada recentemente que dentro de meio século consiga voltar ao topo das vendas? Não sei, mas, pode ser da idade, não estou a ver (nem a ouvir…) 

 

20 dezembro 2025

Nuno Rodrigues


Há poucos dias deixou-nos Nuno Rodrigues. Talvez os mais novos apenas o associem à polémica e processo com o plagiador Tony Carreira. Tudo terá começado quando a vedeta proibiu a editora de Nuno Rodrigues de vender “covers” das suas músicas, apesar de tudo ter sido tratado conforme as normas dos direitos de autor. Daí azedou e foram para tribunal pelos 11 “sucessos” que o Tony pouco inspirado copiou…

Não é por isso que o devemos recordar hoje. Para lá de um enorme trabalho de criação, edição e produção de muito da boa música que foi feita em Portugal, acho relevante assinalar a originalidade da “Banda do Casaco”, que ele criou e alimentou com António Avelar Pinho. O grupo foi (e é) um verdadeiro caso sério de música feita em Portugal, ultrapassando estilos e viajando por uma enorme diversidade de mundos musicais, excelentemente acompanhados de músicos, técnicos e interpretes.

Em 2013 a CNM, editora de Nuno Rodrigues, reeditou a discografia remasterizada. Um verdadeiro tesouro, do qual sou um dos felizes proprietários. Vale a pena revisitar, apreciar e valorizar.

“A loucura cura
Quando é tão pura.
E dura toda a vida,
Que só é pouca
Se pouca louca”

Amo Tracinho-te
Contos da Barbearia

27 julho 2025

Luís Guimarães


Para mim e para outros companheiros de estrada, Bastos Viegas foi sinónimo do primeiro grande desafio profissional enfrentado, horas de sono perdidas e inúmeras “peregrinações” a Guilhufe, Penafiel, a todas as horas e muitas vezes fora de horas.

Para a recém-nascida “Automação e Robótica” da Efacec, esse projeto foi a porta de entrada numa maioridade tecnológica, que depois por outras paragens e continentes singrou. A oportunidade foi proporcionada pelo senhor Luís Guimarães, dono e gestor da empresa, que com uma coragem e frontalidade no limite do desconcertante acreditou e nos fez acreditar.

Nas longas horas e semanas que tivemos de teste e afinação do “bebé”, ele muitas vezes se sentou ao meu lado, interessando-se, sugerindo e avançando hipóteses para a razão das arestas que iam surgindo (entre algumas nuvens de fumo dos seus cigarros 😊).

Visitei de novo a empresa umas décadas depois, diferente, mas sempre vibrante.

Num mundo tantas vezes comandado por frias e distantes formalidades, o senhor Luís Guimarães foi um Senhor. Fazem falta Pessoas destas…

05 março 2024

Valores mais altos


Esqueçam se a Anita é ou não é bonita, dispensem as favas com chouriço e despeçam-se dos addio, adieu, aufwiedersehen e outros que tais.

Ponham noutra prateleira as melodias bonitinhas e algo melosas das rosas que se dão, das cabanas junto às praias e os convites a vir viver a vida.

Do alto dos seus enérgicos 82 anos, José Cid, parece mais determinado a promover e a recordar um trabalho dos anos 70, discreto, mas que é talvez uma das melhores obras musicais jamais produzidas em Portugal.

Este sábado passado apresentou em Guimarães um espetáculo absolutamente soberbo pela beleza e genialidade dos temas, assim como pela qualidade da execução. Felizmente a RTP esteve lá com uma enorme mobilização de meios e será possível ver no futuro um registo deste memorável serão.

Estou a falar do álbum de rock progressivo (sinfónico?) “10 000 Anos depois entre Vénus e Marte”. É estranho como este trabalho genial não teve um mínimo da projeção merecida. Eu próprio que não sou especialista, mas também não completamente distraído, só o descobri umas boas décadas depois da sua publicação original em 1978.

Acredito que uma boa parte das pessoas que encheram o Multiusos de Guimarães esperaria talvez outro reportório, mas pela reação no final, parecem ter gostado e ainda bem que se enchem grandes salas e se aplaude para lá do pimba … e outras simplicidades em curso.

Tem alguma lógica que nesta fase da vida José Cid se concentre neste legado, tendo também apresentando temas do seu recente álbum “Vozes do Além”, no mesmo registo. Faz sentido que partilhe e nos faça recordar as coisas que fez com um nível de esforço e de qualidade largamente acima do mediano. Obrigado !

E quem quiser ter uma ideia do trabalho original pode espreitar aqui

31 dezembro 2023

Um Bom Espinosa Ano


 Buscando acrescentar eliv fugir um pouco aos votos clássicos…

Ouvi um destes dias uma entrevista a J Rodrigues dos Santos, de promoção do seu novo livro sobre este filósofo neerlandês de origem portuguesa. O nome sonava-me, mas a dimensão menos. Devo dizer que li 3 livros de JRS, para testar…. Lêem-se bem, são didáticos, mas falta-lhes aquela coisinha que separa um relato descritivo de um romance literário. De todas as formas, tem muito mérito por escrever, ter sucesso e pôr muita gente a folhear páginas escritas.

Resolvi, portanto, ir visitar o personagem, começando de forma um pouco mais séria e menos romanceada, através da obra acima representada. Neste momento, longe de mim a pretensão de ter absorvido o seu pensamento nalgumas centenas de páginas, lidas uma vez, e muito menos de o vir aqui tentar resumir em meia dúzia de frases, mas algumas reflexões apetece-me desenvolver.

Espinosa é extraordinariamente inteligente, corajoso e clarividente. Deduzir e avançar com as suas ideias e formulações, especialmente naquela época, foi um exercício de liberdade e de promoção da dignidade humana fantástica. Pensar sem barreiras, deduzir sem preconceitos, assumir sem condicionalismos, ser livre e criativo de espírito, sem razões a castrar as emoções e sem limitações a travar a razão… que mais se pode desejar?

08 dezembro 2023

Há livros diferentes

Há autores para os quais um ou dois livros lidos implicam a vontade de outros dois e de tudo o que deles apareça. Por vezes o que aparece, já depois dos títulos sonantes terem sido digeridos, não é necessariamente a primeira água, mas tem que ser bebido.

John Steinbeck é um desses autores para mim. Mais “A Leste do Paraíso”, e outros humanamente mais densos, do que “As Vinhas da Ira”, mas se me aparecer à frente um título desconhecido, lá ma rendo a este autor sem Deus conhecido.

Recentemente apareceu-me este “Um Dia Diferente” e lá foi comigo até à caixa. Confesso que não tinha expetativas muito elevadas, mas enganei-me. Lá estava de novo aquela densidade e simples complexidade de personagens, tão distantes e tão próximos. Há muito tempo que não dava por mim ansioso a ler e saborear, expectante sobre onde tudo aquilo ia terminar. Como acabaria a história daquela trupe tão marginal, tão tresmalhada e tão humana.

Não digo aqui como acabou, mas ainda bem que graças a um Deus qualquer que existe quem consegue ver e contar o mundo como Steinbeck.

 

09 novembro 2022

Quando eu vim para esse mundo…


Uma certa franja de idades saberá completar facilmente a frase em título acima: … eu não atinava em nada. Gabriela, a telenovela que foi “a telenovela”, tinha a beleza e a exuberância da atriz, Sónia Braga, e tinha também o calor e a beleza da voz de Gal Costa.

A sua carreira não fica por aí. Na minha modesta opinião, Gal Costa tinha uma voz e uma interpretação das mais marcantes e expressivas daquela geração de ouro da MPB. Um exemplo

Obrigado por ter passado por este mundo e por cá ficar!

30 agosto 2022

Paulo de Oliveira


Corria o ano de 1989, mais coisa menos coisa, e eu, por acaso, passei na Covilhã. Para quem vivia no concelho de VN Gaia e trabalhava no de Matosinhos, era um acaso um pouco forçado passar por aqueles lados, mas o argumento do acaso foi desculpa boa para forçar uma reunião com o Sr. Paulo de Oliveira.

Ele estava prestes a decidir um investimento industrial e nós não estávamos bem colocados, donde que fui lá, “por acaso”, tentar salvar a dama. Recebeu-me com cortesia e frontalidade. Impressionou-me a sua omnipresença na empresa. Discutiu comigo detalhes do projeto, expressou a sua opinião quanto à marca dos componentes de automação, enquanto era interrompido por uma encarregada da fábrica que lhe reportava um problema algures na tinturaria e queria a sua opinião sobre a opção a tomar para a solução. Dinâmica e capacidade de decisão não lhe faltavam.

A missão teve sucesso e foi o nosso primeiro projeto na área têxtil, que tinha, com ou sem razão, o hábito de comprar equipamentos fora do país. Dizia-me que o seu carro era um BMW e não um Fiat e tinha as suas razões para isso. Eu, que por acaso até lá tinha ido de Fiat, expliquei que ele tinha razão nesse campo, pelas diferenças constatáveis, mas não era o caso entre o equipamento alemão e o nosso.

Depois dessa fase, acompanhei a evolução da empresa, de longe. Foi um lutador e um resistente. Se ainda existe indústria de lanifícios e especialmente naquele interior do país, em boa parte, se não em toda, deve-se a Paulo de Oliveira, que hoje partiu. O país é devedor a personalidades como esta.

Imagem do jornal "O Interior"

21 setembro 2021

Sobre Homens e Humanidade


É relativamente fácil elogiar os mortos. São previsíveis e não há ricochete possível. Sobre os elogios póstumos a Jorge Sampaio, julgo, no entanto, que muitos não teriam tido dificuldade em o ter dito em vida do mesmo, sem receio de surpresas ou de golpes baixos. O Presidente da República, dentro dos seus defeitos e qualidades, incluía elevação e respeito por todos.

Jorge Sampaio não teria sido provavelmente um bom Primeiro-Ministro. Àquela do “Há vida para além do déficit” faltava “Sim, há, e chama-se falência e troika”. Como qualquer humilde contabilista doméstico sabe, gastar mais do que se ganha, acaba mal.

Apesar disso, há um nível de respeito por todos e de todos para ele, que não encontramos na geração seguinte dos, chamemos-lhe, líderes partidários, que nem dentro do mesmo partido se respeitam. Será que um ambiente de repressão, censura e de luta pela liberdade gera personalidades mais ricas e humanas do que a luta pela liderança na juventude partidária? Pois… E a solução passará por um novo período de ausência de liberdade?

Apesar de todos os sinais em contrário e de toda a pobreza intelectual e humana, carência de dignidade e princípios que vemos nas estrelas (?) ascendentes que nos anunciam, quero acreditar que não. Quero acreditar que o respeito por todas as opiniões e posições é e deverá continuar a ser um alicerce e pilar deste edifício em que vivemos. Falta sempre juntar a capacidade de gerar riqueza e de sustentabilidade económica, social e ambiental. Ter que passar por novo período de trevas para tal (re)afirmação seria triste.

10 junho 2021

Verdes são os campos


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gado que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis,

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

 

Para sempre grande Luiz Vaz, de quem pouco se sabe do acessório, mas que excelsas no fundamental.

22 novembro 2020

Unamuno



Foi a este e ao Cervantes que Adolfo Correia da Rocha foi buscar o nome próprio para juntar à planta brava da montanha, Torga, e criar o seu pseudónimo literário.

Passando ao lado da polémica dos seus apoios e desapoios, posições tresmalhadas ou coerentes e se o franquismo o matou e depois solenemente enterrou, ou não… e concentrando-nos no que fica de fundamental, a obra.

Num destes dias longos de fim de semana caseiro reencontrei a "Névoa” entre os meus livros. É um daqueles em que quase com pena vemos aproximar-se o final da obra e do prazer de uma leitura que não se quer ver terminada.

Magistral. Muito bem escrito e sendo relativamente curto, tem uma profundidade e abrangência enormes. Dentro da simplicidade de muito discurso direto, são 200 páginas sem palavras complicadas. Mas que de imagem em imagem, quase linearmente, sem saltos nem surpresas de arrebatar, nos despe e mostra a simplicidade da complexa condição humana.

Bravo, senhor Miguel.

17 abril 2020

Histórias para voar


Há aqueles livros de que gostamos e há aqueles autores que devoramos. Que, quando começamos uma nova leitura, temos a certeza quase certa de que iremos gostar. E assim passamos ao longo da sua obra editada, uma a uma, apenas com pena de não haver sempre mais.

Luís Sepúlveda foi, para mim, um desses. Grato pelas belas histórias.

05 abril 2020

Viva quem canta


Na monotonia dramática do tema que tem monopolizado as notícias, há e haverá outras coisas que vale a pena evocar, não relacionadas com o dito cujo drama. É importante fazer um esforço e procurar mais mundo, mais gente e mais coisas a destacar. Sendo que mais vale tarde do que nunca, apetece-me evocar Pedro Barroso, recentemente falecido.

Um cantante autor popular, num dos sentidos mais puros e ricos do tema. A sua música entra por todos os ouvidos, simples de ouvir, mas não pobre. A difícil qualidade do não complicado. E aqui fica uma bela memória porque não vale a pena mais conversa inventar.

Menina em teu peito sinto o Tejo
E vontades marinheiras de aproar
Menina em teus lábios sinto fontes
De água doce que corre sem parar

Menina em teus olhos vejo espelhos
E em teus cabelos nuvens de encantar
E em teu corpo inteiro sinto feno
Rijo e tenro que nem sei explicar

Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar

Aprendi nos 'esteiros' com Soeiro
E aprendi na 'fanga' com Redol
Tenho no rio grande o mundo inteiro
E sinto o mundo inteiro no teu colo

Aprendi a amar a madrugada
Que desponta em mim quando sorris
És um rio cheio de água lavada
E dás rumo à fragata que escolhi

Se houver alguém que não goste
Não gaste, deixe ficar
Que eu só por mim quero te tanto
Que não vai haver menina para sobrar

04 junho 2019

O silêncio

O silêncio de uma manhã pode não ser de morte. Depois do silêncio nasce o novo, vem a notícia. 30 anos. Depois do silêncio não pode ficar outro silêncio. Pelos silenciados definitivamente no momento, pelos silenciados continuamente no tempo e pelos silenciados na ignorância dos fatos apagados da história que lhes ensinam.

Um momento de não silêncio pelo que vale a pena noticiar, uma homenagem possível aos silenciados. Há 30 anos.

08 maio 2018

Gilles


8 de maio de 1982, faz hoje exatamente 36 anos. A sessão de treinos do GP de F1 da Bélgica está a terminar, mas há um piloto que quer absolutamente superar o tempo do seu colega de equipa. Os pneus de qualificação já estão gastos, mas para ele, desde que o motor trabalhe e o carro tenha rodas, os braços não baixam.

Esse piloto de combatividade inesgotável, que nunca desiste, é Gilles Villeneuve. Na corrida anterior, quando os dois Ferrari rodavam tranquilamente na frente e vieram ordens da box para abrandar, Didier Pironi ultrapassou-o inesperadamente na última volta, roubando-lhe a vitória. Uma traição inaceitável e imperdoável dentro dos princípios puros de Gilles. Agora, ele quer provar que é o mais rápido e lança-se para a pista, para tudo. Um acidente estúpido, como a maioria, com Jochen Mass em marcha lenta, faz o Ferrari levantar voo, partir-se ao tocar no solo, projetando o corpo do pequeno canadiano, que terminou ali a sua vida e a sua carreira de piloto de F1. Tinha começado no grande prémio de Inglaterra de 1977, 5 anos antes.

Gilles foi vice-campeão em 1979, disciplinadamente atrás de Jody Scheckter, piloto principal da equipa e venceu 6 grandes prémios, apenas. Numa ordenação objetiva de pilotos por resultados, Gilles não estaria no top 10 e provavelmente nem sequer no top 20. Porque deixou então tantos órfãos afetivos, porquê na Galeria Ferrari em Maranello tem mais destaque do que outros que foram mesmo campeões com os carros vermelhos? Talvez porque para lá de um piloto muito rápido, Gilles nunca desistia, nunca, e como ser humano era duma frontalidade, integridade e lealdade irrepreensíveis.

Porque, mais do que das 6 vitórias, nos recordamos de 6 outras coisas

1- De na estreia em Inglaterra 1977, a pilotar pela primeira vez um F1, modelo obsoleto do ano anterior, se ter qualificado à frente de um dos pilotos oficiais da equipa, com carro novo, top e tudo.
2- Por numa sessão de treinos à chuva nos USA em 1979, ter dado 9 segundos ao seguinte.
3- Por no Canadá 1981 ter feito a maior parte da corrida com a asa dianteira obstruindo a visão e depois desaparecida, sem reduzir tempos, como se esse apêndice aerodinâmico fosse dispensável
4- Por na Holanda 1979 ter regressado à box em 3 rodas, para nada, mas sem deixar de lutar até ao fim
5- Por em Espanha 1981, com um carro nitidamente inferior à concorrência, ter vencido, controlado um engarrafamento de 4 perseguidores, que cortaram a meta todos a menos de segundo e meio.
6- Pelo GP de França 1979 e o seu duelo épico pelo segundo lugar com R. Arnoux, coisa sem paralelo.

E também porque os grandes condutores posteriores se revelaram de mau caráter, não hesitando em provocar intencionalmente um acidente nas últimas corridas, para sujamente tentar garantir o seu título. A saber: Prost contra Senna no Japão 1989; Senna contra Prost no Japão 1990, Schumacher contra J. Villeneube (o filho…) no GP Europa de 1997.

Grande piloto, grande homem, para sempre grande Gilles!

17 março 2018

Um caso de amor


Tenho uma pequena dúzia de autores com quem criei um relacionamento forte. Na prática, depois de ler um ou dois livros, dá-me vontade de ir atrás de tudo o que escreveram. John Steinbeck é um deles. Mais o do “A Leste do Paraíso”, “A um Deus Desconhecido”, “Pastagens do Céu” e menos o de “As Vinhas da Ira” ou “O Milagre de S Francisco”.

Depois de uma dúzia e meia de títulos do mestre alinhados na estante, aparece-me recentemente, por acaso, este desconhecido, aqui na imagem. É uma história simples, uma sinopse da mesma pouco diria, mas, muitas vezes, são as melhores.

A força da caraterização dos personagens, a riqueza com que pequenos detalhes deliciosamente os pintam, fazem a magia de um quadro da natureza humana. Porque a riqueza e complexidade da mesma não existe apenas nas situações ultradramáticas ou heroicas. A beleza e a subtileza da condição humana estão muitas vezes apenas no quotidiano e no banal. Nem toda a gente passa por episódios extremos, a maior parte certamente não, e não é por isso que deixam de ser interessantes e emocionalmente ricas.

Considero que as melhores histórias são precisamente estas. Onde não existe uma saga, uns doze trabalhos de Hércules ou uma desgraça de fazer chorar as pedras do caminho. São apenas aquelas em que simplesmente há gente, gente variada, sem heroísmo nem maquiavelismo, simplesmente olhando para a sua vida e a dos outros e … andando.

Estas são também as mais difíceis de escrever, não estão ao alcance de qualquer um. Precisamente por isso, não há muitos “Steinbecks”.

11 fevereiro 2018

Not famous, not blue, not raincoat

Ao contrário doutras peças de vestuário, das quais há muitas, dizem que chapéus, mas na realidade mais as camisas, sobretudos e gabardines costumamos ter poucos e, muitas vezes, principalmente um, o favorito.

Questão não precisar de ir para lavar tão frequentemente, questão de economia na carteira e até de espaço nos roupeiros e até de identificação mútua ou de relação afetiva com o tal. Tanto assim, que no inverno acabamos por nos identificar e ser identificados com o agasalho oficial da estação, atravessando este facilmente vários anos. Fica a dúvida de até que ponto essa identificação é toda definida de nós para ele na escolha que fazemos ao comprar, ou se não há uma parte dele para nós quando posteriormente nos moldamos ao dito cujo.

Um trovador, o tal que merecia o Nobel da Literatura mais do que o outro, tem uma belíssima canção sobre uma famosa gabardina azul, mesmo rasgada num ombro. Aquela minha coisa aqui representada, ainda não rasgou, mas começa a ter um desgaste de anos acumulados já a chegar ao limite da decência. Um grave problema. Reformar um sobretudo é arquivar uma parte da nossa história, coisa que nem sempre apetece, e quando mudamos de agasalho, mudamos até da forma de andar, acho…

Divago em excesso? Seja! Não há vida sem divagação e, falando em vida e balanços de vida, vou buscar uma das mais belas frases do tal trovador, uma que poucos rejeitariam para epitáfio:

“Like a bird on the wire, like a drank in a midnight choir, I’ve tried in my way to be free.”

Obrigado L. Cohen

03 fevereiro 2018

Eles também escrevem

Entre as pessoas que fazem os livros que efetivamente lemos, os tradutores não costumam ter a visibilidade e o reconhecimento merecido. A tarefa não é tão simples como se pode imaginar à partida, sendo a sua influencia sobre a qualidade do trabalho final enorme.

Que o diga eu, escala a respeitar, quando me entretenho a traduzir umas linhas do Camus ou do Brel. Há sempre ali uma palavra ou outra a dar luta e a música de cada a frase que precisa de funcionar. Tratando-se de um romance completo, a precisar de “música” no mesmo tom do princípio ao fim, é obra!

Reli há pouco um romance traduzido de um autor que ultimamente ataco pelo original... e que deceção. Uma coisa penosa, de tão mau soar. Uma tradução destrutiva. Mais recentemente reli o Dostoivesky aqui ilustrado, traduzido pelos Guerra. O texto conquista-nos desde a primeira linha. A trabalho deles é notável.

Como um executante musical que interpreta uma peça criada e escrita por outro, o tradutor interpreta e de certa forma personaliza uma obra. Deveriam ter mais destaque e reconhecimento.

03 dezembro 2017

Entre ser e não parecer


Vai apenas a citação, em tradução livre. Com uma última frase, que é daquelas enormes, brutais, à Camus, de reverenciar e gravar na pedra.

A exigência de felicidade e a sua busca paciente. Não é preciso exilar uma melancolia, mas sim destruir em nós esse gosto do difícil e do fatal. Ser feliz com os seus amigos, de acordo com o mundo, e ganhar a felicidade seguindo uma linha que, no entanto, leva à morte.
“Tremereis face à morte.”
“Sim, mas nada terei falhado do que é a minha única missão e que é viver”. Não se resignar ao convencionado e às horas de expediente. Nunca renunciar – exigir sempre mais. Mas ser lúcido, mesmo durante as horas de expediente. Aspirar à nudez onde nos rejeita o mundo, brevemente estaremos sós face a ele. Mas sobretudo, para ser, não procurar parecer.


Albert Camus, em Carnets I

(e onde quer que este enormíssimo mestre esteja, feliz, morto e realizado, que me desculpe, se li e traduzi mal.)


foto googleada sem referência à origem