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27 maio 2022

Os judeus não reconhecem a nação? (II)


Continuação de Acusar

Quando se fala em antissemitismo e perseguição aos judeus na Europa é impossível não referir a Alemanha nazi. Este “nazi” vem de nacional + socialista. Sendo óbvio que de socialista o partido de Hitler teve pouco, a associação das duas palavras é algo incoerente. Apesar do aspeto comum da prevalência do poder do Estado, o socialismo é internacionalista e Hitler nunca pretendeu ser um pai de todos os povos; a ideia era mais “Alemanha acima de tudo e todos”. 

Penso que o caráter “menos nacionalista” e até um pouco “supra nacionalista” dos judeus é uma das razões que os tornam inimigos de estimação, especialmente para poderes autoritários que buscam uma homogeneidade cultural e religiosa entre os seus súbditos. Uma das acusações recorrentes contra os judeus é precisamente a de fazerem parte de uma conspiração internacional... estando implícita a insinuação de não reconhecerem completamente as autoridades nacionais.

Há alguns séculos os judeus foram expulsos de Espanha quase em simultâneo com o processo de unificação de Castela e Aragão, pelos oportunamente designados Reis católicos. Curiosamente em Portugal, nação mais consolidada, o processo equivalente surgiu como uma imposição dos vizinhos ibéricos e não por uma necessidade sentida internamente.

Continua para Religião ópio ou ?

26 maio 2022

Acusar… (I)


Em setembro de 1894 é encontrado um documento revelador de uma ação de espionagem militar em França a favor da Alemanha. A sua caligrafia é semelhante à de um oficial, até aí de carreira exemplar, de seu nome Alfred Defruys. Isso é suficiente para o julgar sumariamente, condenar grosseiramente, ser publica e humilhantemente destituído e deportado para a “Ilha do Diabo”.

Na prática havia mais do que a semelhança da caligrafia. Defruys era judeu e o antissemitismo básico foi suficiente suportar a “convicção” quanto à sua culpa. Posteriormente o verdadeiro culpado Estherhasy é identificado, julgado e… ilibado.

Para lá do absurdo de as instituições militares terem ignorado a busca da verdadeira origem de um grave problema, transmitir informações sensíveis ao inimigo, o caso vai  provocar uma polémica enorme, entre aqueles absolutamente “convencidos” da culpa do judeu e os defensores do direito à justiça. Entre estes últimos, Émile Zola, faz publicar um texto de acusação, uma carta aberta ao presidente do país, acima reproduzido, o que lhe vale um processo e respetiva condenação por difamação.   

Com toda a pressão na opinião pública, Defruys é repatriado do seu degredo na Guiana e julgado de novo… e de novo condenado.

O objetivo aqui não é relatar todo o caso, apenas evidenciar como é possível tanta cegueira e injustiça popular e institucional contra os judeus. Por serem responsáveis pela morte de Cristo…? Por inveja pelo seu elitismo e relativo sucesso económico?

Pela prática religiosa e os fundamentos do seu credo em si não o será certamente.

Continua para Os judeus não reconhecem a nação?

27 março 2018

Tão longe e tão perto


Vi recentemente dois filmes que partilham o mesmo tema e o mesmo tempo, exatamente ao dia: “Dunquerque” e “A Hora Mais Negra”. Ambos sobre o resgate de França das tropas inglesas em maio/junho de 1940, após a estrondosa derrota relâmpago sofrida na fase inicial da II Guerra.

“Dunquerque” pode ser “mais um” filme de guerra, mas é mais um filme de gente desesperada a morrer e a ver morrer, do que de heróis gloriosos. Não foi há muito tempo que na Europa se matava assim cruelmente, nem sei se é possível falar em mortes não cruéis numa guerra, e se aquele contexto hoje nos parece longínquo e inverosímil para os tempos que correm, nunca facilitando. Será que esta Europa entendeu definitivamente que uma barbaridade assim nunca mais…? Diremos que sim, mas continuam a fabricar-se e a posicionar-se armas e a Ucrânia é ali ao lado. Podemos ver um filme assim e imaginar que é mesmo a sério, connosco e com os nossos próximos?

Voltando a 1940, enquanto nas praias e nos mares decorre a chacina, no outro lado do canal, em Westminster há jogadas e conspirações de poder. Tão perto e tão longe. Neville Chambarlain, o demitido “primeiro ministro da paz”, continua a defender uma estratégia de “apaziguamento em apaziguamento, até a derrota final”, depois de a tolerância por ele oferecida Hitler em Munique, em 1938 ter apenas garantido um início de guerra mais favorável à Alemanha.

Com razão ou sem razão, essa postura frouxa não deixa de me fazer lembrar o uma vez mais sinuoso Mr Corbyn, relativamente ao caso do envenenamento do ex-espião russo. Não quero com isto dizer que o oposto do frouxo é a guerra; o oposto da fraqueza é a firmeza. Parece estarmos agora a assistir a alguma firmeza na Europa, apesar dos protestos de alguns sempiternos “bem-intencionados”. Gostei particularmente de ouvir o nosso Ministro dizer esperar por explicações cabais das autoridades russas. Esperemos que a cadeira seja confortável.

A propósito de falta de firmeza, lembrei-me ainda da questão da pressão do islão político e social na Europa. Não estou a falar na dimensão espiritual dessa religião nem dos atentados. Estou a falar na tentativa de islamização da sociedade, mesmo… Tudo isto são coisas demasiadas díspares e afastadas? Talvez não, talvez não…!

08 fevereiro 2018

Memórias do muro


Esta semana cumpriu-se uma data curiosa relativamente ao muro de Berlim. Igualou-se o tempo que esteve construído com o tempo decorrido após a sua demolição. Quem diria…

Olhando hoje para essa memória, apetece-me evocar duas coisas. Em primeiro lugar a sua natureza direcional. O seu objetivo não era evitar a entrada de pessoas (ou de latas de coca cola). Era evitar as saídas. Em segundo lugar, a indiscutível melhoria das condições de vida, pelo menos, para não complicar, na ex Alemanha de Leste, decentemente governada. É possível hoje, racionalmente, defender a bondade desses regimes que, conforme disse Camus, tinham tanto de socialista como a Inquisição de cristã? Racionalmente, obviamente que não.

Há, no entanto, e haverá, nostálgicos desses tempos, enquadrados em dois tipos. Uns são os religiosos. Aqueles que acreditam dogmaticamente num modelo, apesar de após cem anos e ensaios em vários continentes e culturas, ter sido sistematicamente incapaz de proporcionar bem-estar material e intelectual de forma sustentável aos seus povos. Face as estas evidências, continuar a crer, é coisa do domínio religioso.

Outros são os que valorizam um certo paternalismo tranquilo do regime. Não é assim tão raro nos pós-ditaduras. Também por cá temos nostálgicos dos tempos respeitosos da “outra senhora”. Como se face a ter um caminho livre a descobrir, a arriscar, haja quem prefira ser levado pela mão. Pensa-se menos…

E, por favor, não me evoquem a pretensa superioridade moral, da solidariedade, da defesa dos desfavorecidos e etc. Na prática, a prática passou por uma oligarquia de privilegiados, muito pouco escrutinados, que, apesar das argumentações bonitas, foram incapazes de proporcionar vidas decentes aos seus povos.

Enquanto não lermos seriamente o passado, corremos sempre o risco de um futuro sombrio.


Foto de um Trabant no Memento Park, em Budapeste, onde arrumaram estátuas e outros monumentos "socialistas", anteriormente distribuídos pela cidade.

15 dezembro 2017

A Autoeuropa não fecha?


Não tenho acompanhado o detalhe dos desacordos na Autoeuropa, mas não posso deixar de comentar aquelas posturas de “A Autoeuropa não fecha!!”, como se isso fosse um dado adquirido e o esticar a corda nunca pudesse conduzir a tal desfecho.

Recordo uma situação que conheci bem. No início da década de 90, a Bélgica tinha cinco (5) grandes fábricas de automóveis. Dessa altura até agora:

1997 – Fechou Renault, Vilvoorde – cerca de 3000 empregos diretos.
2010 – Fechou Opel, Antuérpia - cerca de 2500 empregos diretos.
2014 – Fechou Ford, Genk – cerca de 4000 empregos diretos.
Sobrevivem apenas duas fábricas: Audi em Bruxelas e Volvo em Gent.

Esta sequência serve para ilustrar não ser assim tão raro e improvável uma fábrica desta dimensão fechar. No nosso caso, temos a agravante de um eventual fecho da Autoeuropa representar praticamente o fim da indústria automóvel em Portugal, dada a dimensão reduzida da PSA Mangualde, como também reduzida era a Opel Azambuja. Neste ponto, não é demais realçar o quanto esta indústria, para lá dos números objetivos, é uma escola e um exemplo estruturante no tecido empresarial do país.

Pela sua dimensão a Autoeuropa não morrerá de um dia para o outro, mas, sem paz social, definhará. Independentemente das responsabilidades concretas, é irresponsável presumir que estes conflitos são inconsequentes. Podem não matar no imediato, mas moem.

Inquestionável é que mesmo sobrevivendo esta à pancada, fica altamente improvável vermos a instalação de outra Autoeuropa em Portugal. E que dava muito jeito, dava…

14 abril 2017

Diferenças


Gostamos muito de dizer mal dos alemães, daqui a 50 séculos ainda os estaremos a estigmatizar pelo nazismo, apesar de eles terem resolvido essa sua herança de uma forma quase exemplar, e invocaremos muitas outras coisas, mais do campo da inveja do que do campo do racional e dos princípios.

Ficamos escandalizados por um holandês, daqueles piorzinhos, que gostaria de ser alemão, mas não o é, vir lembrar que receber ajuda também implica obrigações. O dinheiro que recebemos não foi para mulheres e copos, principalmente. Mas algum foi para os copos lá no sul de Espanha onde muitos dos nossos bravos chavalos não viram nada de especial em termos de estragos, apenas paredes riscadas… o que, aparentemente, é uma coisa perfeitamente normal.

Voltando aos alemães, temos nas notícias destes dias a solidariedade dos adeptos do Mónaco com o ataque ao Borússia e os alemães a abrirem as casas e a oferecerem hospitalidade aos monegascos. Foi bonito e uma bofetada de luva branca aos energúmenos que acham que conseguem mudar o nosso mundo. Neste caso, mudaram para melhor.

Por cá, vimos os adeptos de um clube da minha cidade, com o qual (clube) não me identifico, cantarem qualquer coisa como “Ai quem me dera que o avião da Chapacoense fosse do Benfica”. Coisa pontual e não significativa? Não! Vejam o Canelas, do meu concelho (bolas!) e o seu registo de incivilidade de há largos meses e que só se “descobriu” agora, depois de enviarem um árbitro para o hospital.

Continuemos, portanto, a fazer piadinhas com a Sra Merkel e a insultar o Sr Schauble, os culpados disto tudo, que vamos bem…

07 março 2017

A Europa auto


Enquanto uns curiosos se entretêm com o desenvolvimento de veículos autónomos, que por um motivo obscuro qualquer costumam ter um design evocativo da ficção científica dos anos 70, o grupo francês PSA (e também um bocadinho chinês), comprou as operações da General Motors na Europa, mais conhecidas pelas suas marcas Opel e Vauxhall (no UK).

Penso que esta notícia merece ser destacada e alguma reflexão. A General Motors foi durante muito tempo o líder mundial da produção automóvel, atualmente é terceiro, ultrapassado por um japonês, Toyota, e um europeu, VW, e a sua presença na Europa tinha 88 anos. O grupo PSA, atualmente Peugeot e Citroen, esteve muito débil ainda há poucos anos e foi salvo com uma polémica injeção de capitais chineses. Os seus últimos anos de sucesso foram liderados por um português, Carlos Tavares, mas vamos esquecer os nacionalismos bacocos e pensar em termos europeus.

A GM vendeu porque perdia sistematicamente dinheiro com a operação há vários anos e, certamente, não acreditava ser possível inverter a situação. Conseguirão os europeus ter sucesso onde os americanos falharam? E se também falharem, significa que a Europa como plataforma industrial e mercado perdeu importância e a GM fez bem em sair desta zona decadente. E se a PSA tiver sucesso significa que a Europa tem qualquer coisa, um saber fazer, superior ao dos americanos?

O impacto deste resultado é muito mais do que simbólico. Sem indústria não há emprego nem estabilidade social e a indústria automóvel é um barómetro fundamental. Por falar em social, os sindicatos já estão nervosos. Enquanto se manteve o status quo e as perdas contínuas estavam calmos; agora que se perspetivam mudanças, já “são contra” ou, no mínimo, estão desconfiados. Não, não sou a favor do vale tudo, mas uma empresa que não ganha dinheiro não mantém empregos, fatalmente acabam todos. A menos que os contribuintes contribuam e, aí, o problema fica apenas mais largo…


Foto retirada do Le Monde

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

11 novembro 2016

Nos campos das papoilas


Nos campos de papoilas, onde outrora se acharam as trincheiras, há campos que permanecem minados por projeteis não explodidos, ainda não achados. Há demasiadas lápides fúnebres e tantas delas tão simples como “A Soldier of the Great War – Known unto God”. No memorial de Thiepval estão os nomes de 72000 soldados desaparecidos na batalha do Somme de 1916, de destino desconhecido. 


Uma coisa é ler uma descrição de algo onde, somente no primeiro dia, houve mais de 20000 mortos. Outra coisa é ver o filme no museu de Albert onde desfilam as imagens dos locais: La Boisselle, Poizières, Thiepval, Beaumont-Hamel. Muito mais do que isso é atravessar a região e ver como tudo é tão perto, como logo a sair ao inferno dos australianos, foi um dos ingleses, depois o dos irlandeses e do outro lado do riacho está os da Terranova. Os cemitérios militares são a imagem de uma colheita sinistra. De uma colheita que não se renovou, morreram definitivamente, e que não queremos ver renovada. 

Todas as guerras são estúpidas e insensatas. A Grande Guerra talvez mais um pouco, por uma certa ligeireza nas suas causas diretas e pela brutalidade e insensibilidade da imagem dos soldados a saírem em massa das trincheiras, tantos deles para caírem escassos metros à frente. No mesmo museu acima referido, a estatística diz-nos: 8 milhões, 538 mil, 315 mortos em toda a guerra.

11 de Novembro, dia do armistício, dia da papoila ao peito. Um armistício que não evitou uma nova grande guerra, apenas 20 anos depois. Entretanto, já passaram mais de 70 anos sobre o final da última grande guerra na Europa. Foi a última? Acredito que sim, mas nunca facilitando.




03 outubro 2016

Posso revelar?


Nem todos possuem fontes que permitam um espaço semanal de revelações em horário nobre, mas, desta vez, eu trago uma boa. O meu amigo Hans, funcionário numa chancelaria de Além Reno, contou-me a razão das reviravoltas de última hora no processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU. E passo a ficcionar:

Diz ele que há umas semanas a Frau Angie apareceu extremamente nervosa depois de um sonho, pior, de um pesadelo que teve. Viu ela a Fraulein Todwasser numa conferência de imprensa a apresentar em primeira mão as linhas orientadoras futuras da ONU. Considerando a proximidade entre o partido do candidato favorito e as Todwasser, ela achou aquilo uma espécie de aviso e de premonição.

Bem lhe tentaram explicar que o candidato favorito não era daqueles socialistas neo-marxistas, era dos antigos, melhor, dos intermédios, parece que até ia à missa, não sendo e forma nenhuma previsível que ele precisasse ou utilizasse o apoio das Todwasser. A Frau Angie continuava desconfiada. Depois de o líder deles ter andado tão excitado a tsiprar, ela já não confiava muito naquela gente e pediu a opinião a uns amigos, que conheciam um pouco o país. Estes conheciam basicamente as praias do sul, mas lá lhe contaram que o geringoncismo pós-eleitoral do partido tinha surpreendido muita gente, mesmo uma parte do seu eleitorado.

É certo e sabido que se há coisas que os alemães não suportam são imprevistos. A Frau Angie disse então: Não pode ser. Que avance a Cristalina, se não conseguir passamos à Depuralina. Não podemos, de forma nenhuma, correr o risco de ver a ONU geringonçar.

30 setembro 2016

Segredo desvendado

O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU estava a correr bem e muito sério. O nosso sério e boa pessoa António Guterres parecia estar bem lançado e com um favoritismo indiscutível.

Mas, eis que de repente, tudo se baralha. Para evitar a nomeação de A Guterres vai aparecer uma búlgara apoiada em força pela direita europeia, parece que também pela Rússia, e subvertendo todo o processo e descredibilizando o mesmo e até colocando sérias questões de legitimidade ao eventual futuro mandato da senhora. Porquê?

Ora bem, eu estou em condições de revelar (o Marques Mendes que se cuide com a concorrência) qual a razão para tanta agitação e excitação. Ao que parece, Angela Merkel teve um grande pesadelo. Sonhou ouvir a Mariana Mortágua a anunciar as linhas diretrizes do orçamento da Onu e, ao acordar, disse: Isto não pode acontecer!

02 fevereiro 2016

Nasceu um problema para os verdadeiros refugiados

Quando no Verão passado se generalizou a designação de “refugiado” para todos os migrantes em busca do solo europeu, era bastante previsível que algo iria correr mal.

Abertas as comportas, assistimos a uma escalada brutal do caudal de chegada dos migrantes. Nos títulos das notícias chamavam-lhes “refugiados sírios”, mas, na prática, muitos deles eram magrebinos e subsarianos aproveitando um novo canal de entrada. Os acontecimentos da passagem de ano em Colónia, vieram realçar o mundo de diferenças culturais, que não se esbatem por obra e graça de um espírito santificado, de um credo qualquer.

Agora, países como a Alemanha e na Escandinávia vêm-se a braços com centenas de milhares não refugiados, alguns deles até se portam muito mal, e com as estruturas de apoio saturadas. Como o reenvio de um solicitador de asilo político é complexo e demora o seu tempo, a solução encontrada para agilizar o processo foi redefinir como “seguros” alguns dos países de origem/trânsito dos migrantes. Se para a larga maioria dos casos faz sentido este aligeirar do processo, esta reclassificação de alguns países pode colocar um grave problema aos verdadeiros refugiados atuais e futuros.

Como em tudo, baralhar conceitos e chamar as coisas pelo nome errado, nunca é boa tática …

11 janeiro 2016

Um grande favor à extrema-direita



Continuo sem conseguir entender como os graves acontecimentos da passagem de Ano na Alemanha, principalmente em Colónia mas não só, demoraram 4 dias a serem publicados. Pode-se argumentar que a agressão sexual é um crime que não provoca queixa imediata, mas mesmo assim... Foi necessária uma manifestação de rua contra a insegurança para a comunicação social pegar no assunto.

A seguir, as autoridades resolveram também não contar imediatamente tudo o que sabiam sobre a origem e nacionalidade dos agressores já identificados. Se é importante evitar as generalizações abusivas, estas tentativas de branqueamento ridículas têm, naturalmente, perna curta e um efeito boomerang que a extrema-direita muito agradece.

Esqueçamos o contexto específico de serem ou não sírios ou muçulmanos ou refugiados. O que se passou em Colónia é perfeitamente natural, por exemplo, no Cairo. Penso não existirem dúvidas, mesmo para os mais acérrimos defensores do multiculturalismo, de que há comportamentos não admissíveis na Europa, que devemos ser absolutamente intransigentes quanto a isso e que a solução não é as mulheres afastarem-se “mais do que um braço” de desconhecidos, tal como pateticamente sugerido pela Presidente da Câmara de Colónia.

Não sejamos ingénuos. Há um mínimo de integração cultural indispensável, por exemplo no que toca à condição feminina, mas não só. Essa mudança de práticas e mentalidades não ocorre automaticamente ao atravessar a fronteira. Fazer de conta que “não foi nada…” e evitar que a constatação da realidade ponha em causa o discurso “politicamente correto”… é um caminho muito equivocado.

19 novembro 2015

Empresas, donos e histórias

Passou há pouco tempo na RTP2 uma série sobre a família Krupp, fundadora da empresa alemã com o mesmo nome, um dos maiores impérios industriais do século XX. A ação decorre fundamentalmente nos palácios da família, em torno dos seus conflitos, dramas e estoicidades, sem abordar as dificílimas condições de trabalho nas fábricas e referindo apenas muito ao de leve os registos esclavagistas e criminosos da fase do III Reich.

Manter uma dinastia viva e pujante não é tarefa fácil e uma boa parte do enredo estava construído precisamente em torno da forma(ta)ção muito exigente e tensa do herdeiro designado.

No final, há um acontecimento assinalável. A propriedade da empresa é transferida da família para uma fundação, um processo que merece alguma reflexão. Se tudo nasce, cresce e morre ou se transforma, a transformação de um grande património familiar numa fundação (falamos, obviamente, de fundações a sério) é admirável em significado e em potencial. Para lá do prescindir da propriedade de um bem, está em causa abandonar o objetivo básico de criar riqueza para si e colocar o património numa instituição sem fins lucrativos, incorporando uma função social relevante. Isto possibilita um campo de intervenção infinitamente mais amplo e potencialmente gerador de outras riquezas, noutros campos, que uma lógica de gestão de acionista/investidor dificilmente permitiria.

Voltando à série e aos Krupp, há uma conclusão muito clara. Uma empresa de corpo inteiro é uma entidade viva, gerida, liderada e sentida, não um simples título que voa de mão em mão, conforme o vento. Há donos das empresas que as vêm como algo criado, construído e com um valor para lá do contabilístico; há outros, para quem elas são apenas um ativo transacionável, que pode entrar ou sair a qualquer momento dos seus livros, conforme a oportunidade.

As primeiras fazem a história, as segundas vagueiam de estória em estória.

23 setembro 2015

Ambiente de negócios

Quando em 1976 o Concorde iniciou os seus voos comerciais, foi proibido de aterrar nos EUA por questões ambientais. Curiosa a sensibilidade para o tema neste país, que, por coincidência, não tinha conseguido pôr a operar o Boeing SST, o seu avião comercial supersónico.

Na Europa, bastante sensível ao custo dos combustíveis, cerca de metade dos automóveis são “diesel”, um tipo de motorização praticamente ignorado pelos construtores americanos. Por coincidência, os limites de emissões permitidas para estes motores são muito mais apertadas nos EUA do que na Europa.

Se alguns construtores europeus conseguiram cumprir essa norma, a VW resolveu aldrabar. Instalou um sistema que detetava a situação de laboratório para alterar a gestão do motor e reduzir as emissões, apenas nessa fase. Enganar mais de 400 000 consumidores e uma agência governamental, e logo nos EUA, foi uma temeridade que vai custar muito, muito caro.

Os condutores que acham que o seu veículo consome mais do que o anunciado pelas marcas, podem também registar que não são casos únicos e que a tendência é piorar. É curiosa a evolução desse desvio no estudo “From Laboraty to Road” do ICCT de Setembro 2014: de 8% em 2001 para 38% em 2013. Considerando que os hábitos de condução não mudaram significativamente, os valores anunciados estarão cada vez mais otimistas… e irrealistas.

O impacto ambiental do automóvel é demasiado relevante para ficar à mercê de manipulações. Este escândalo da VW é demasiado grave para morrer no castigo de meia dúzia de engenheiros. Será suficiente para abalar e modificar a cultura desonesta que o permitiu…?

22 setembro 2015

Duas quedas

A imagem aqui ao lado mostra o Sr Harald Krueger, CEO da BMW desde há pouco, quando teve um clique e caiu redondo no chão, na semana passada, ao fazer uma apresentação na feira automóvel de Frankfurt. Não tinha razões para cair, para lá do eventual nervosismo e stress. A BMW está muito bem e a melhorar. Ele parece ser uma pessoa cordial e respeitada, não um líder autoritário promovendo o culto da personalidade. Caiu por ser humano. Apesar de toda a tecnologia ali à volta, e da qual a marca depende, ela depende também de pessoas que não são máquinas.

No final da semana houve outra queda na indústria automóvel alemã e muito mais grave. Descobriu-se, e a marca reconheceu, que a VW aldrabava os testes de emissões dos seus diesel nos EUA. O veículo detetava quando estava a ser testado em laboratório, automaticamente reduzia performance e emissões e depois, em utilização normal, as emissões disparavam. Isto é muito feito. Fazê-lo a mais de 400 000 clientes e enganando uma agência governamental nos EUA vai sair muito caro. Como poderia ser previsível os motores “kitados” não foram apenas os destinados aos EUA. Diz agora a marca serem 11 milhões… ! Para lá do custo direto há um enorme rombo na imagem. A imagem da indústria automóvel alemã e da VW em particular, baseada no rigor e com muita enfâse nas preocupações ambientais leva um arranhão que a há-de enferrujar por uns bons tempos.

Que raio de cultura é esta? Se têm a coragem e o desplante de fazer isto mesmo aos poderosos, que se pode esperar do resto?

21 setembro 2015

É um rio e não um lago

Parece-me assustadoramente ligeira e mal refletida a forma como a comunicação social e os políticos estão a tratar a questão dos migrantes. Até há bem pouco tempo, todos eram emigrantes ilegais a repelir, agora parece que são todos refugiados (e sírios) a acolher. Ambas as visões não estão corretas. Quando se fala em abrir as fronteiras está-se a cometer um erro de leitura e de escala tremendo. Não está em causa receber um número mais ou menos fechado de 100 ou 200 000 pessoas; está em causa um fluxo contínuo que pode chegar a 10 000 pessoas/dia e que não esgota tão cedo. Não estamos a esvaziar um lago; estamos a receber um rio.

A decisão da Alemanha de fechar as fronteiras era perfeitamente previsível, apenas uma questão de tempo. Pretender redistribuir o fluxo pelo resto da Europa é outra questão de tempo. Enquanto se falar de quotas com valores fechados, está-se a persistir no equívoco.

Na origem dos problemas estão as guerras. Apontar individualmente imperialistas americanos, agressores israelitas, arrogantes monarquias do golfo, fundamentalistas iranianos, oportunistas franceses ou intervencionistas russos, etc., conforme a simpatia política ou cultural, é outro erro grosseiro.

Contribui também, e muito, o desgoverno em tantos países. Aqui o problema é bastante mais complexo, porque se cruza a direito à autodeterminação com a manifesta incapacidade de criar uma sociedade minimamente justa, próspera e digna. Existem desgraçados, certamente. Para lá de não poderem vir todos para a Europa, ficar simplesmente emocionado com as imagens da desgraça, é muito pouco.

02 julho 2015

Amplitude democrática

Continuam a surpreender-me a amplitude de alguns comentários sobre a legitimidade democrática das reivindicações gregas. Se um partido em Portugal propuser 2000 Euros de salário mínimo e reforma aos 55 anos, ganha as eleições. A seguir, podemos ir legitimamente pedir aos alemães que nos paguem?

Se a Alemanha convocar um referendo para saber se os seus contribuintes aceitam contribuir para um novo resgate à Grécia, que dirão os que estão hoje entusiasmados com a coragem de se convocar um referendo na Grécia? Já agora, convém recordar que segundo relatórios oficiais recentes, haverá cerca de 12.5 milhões de alemães a viver abaixo do limiar da pobreza, o número mais elevado após a reunificação.

A vida não é fácil e não se resolve berrando pelo dinheiro dos outros.

03 março 2015

Numa origem do mal

Andava meio mundo entretido a comentar o cachecol do Sr Varoufakis e outro meio a inventar anedotas envolvendo as rodas da cadeira do Sr Schauble, que quase nem se prestou atenção às revelações do “Swissleaks”. Hoje o assunto tem menos visibilidade, já perdeu o efeito de novidade, mas vale a pena voltar ao tema.

Trata-se da revelação de uma fraude fiscal de 180 mil milhões de euros que a filial suíça do banco inglês HSBC proporcionou a 100 mil clientes. A lista divulgada reporta-se a 2006/2007, altura em que os dados foram “roubados” por um informático. Desde 2010 que ela circula reservadamente por polícias, responsáveis políticos e inspectores fiscais de vários países, sem, no entanto, suscitar muito entusiasmo ou ações concretas. Apenas agora, devido a um trabalho de investigação jornalística, vieram a público detalhes e nomes de envolvidos. Gente que fugiu aos impostos, muitos deles de países com contas públicas deficitárias e a precisarem de reduzir pensões e outras prestações socialmente sensíveis. Não deixa de ser curioso que quando se contam os tostões dos orçamentos de estado e se escrutinam as contribuições de cada país para os “resgates”, estes milhões fiscalmente tresmalhados pareçam ser um detalhe de somenos importância.

Preocupante ainda é o HSBC assumir não colocar publicidade em meios de comunicação “hostis”. No “Daily Telegraph” um jornalista de referência já se demitiu em protesto contra o facto de o jornal ter minimizado a cobertura do caso, para não perder receitas de publicidade. Não consigo entender como todos os protestos da opinião pública se concentram no senhor Schauble. Se são mesmo contra os “mercados” e o “capital malvado”, sejam coerentes e ataquem uma das principais origens do mal.

25 fevereiro 2015

E eu devo ser cubano

Como já referi atrás, o novo primeiro-ministro grego começou por pedir que “os alemães pagassem a crise”. Uma postura próxima da de Alberto João Jardim, mais identificada com reivindicação oportunista, a roçar a chantagem, do que com uma ideologia. João Jardim fez a contabilidade dos recursos naturais que os “cubanos do continente” roubaram da ilha ao longo da história; a Grécia pede um cheque à Alemanha pela guerra de há 70 anos. Qualquer razão é boa para “sacar” dinheiro.

Por outro lado, não entendo as críticas ao alinhamento supostamente pecaminoso de Portugal com a Alemanha. Eu prefiro ver Portugal a funcionar como a Alemanha do que como a Grécia. Ironia à parte, nestes exercícios imaginativos de “deves e haveres”, não se fala muito das “pipas de massa” que nestes últimos 30 anos entraram aqui e na Grécia, em boa parte com origem na Alemanha. Poderão estes pedir a devolução da parte que foi mal empregue e/ou desviada?

Uma coisa é certa, tal como está, não dá! Ou vai cada qual para o seu lado, com as suas contas separadas e a sua soberania, ou, ao pedir cheque atrás de cheque, quem os assina terá uma palavra a dizer na sua utilização: seja a Alemanha ou a “Europa”. Alguma coisa precisa de mudar, mas não será com o descarado e hipócrita Sr Junckers que a tal Europa se afirmará.