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19 abril 2026

O exemplo vem de cima


Ouvimos e reouvimos apelos e anúncios do Governo, clamando pela redução da sinistralidade rodoviária, incluindo agravamento das penalidades para os infratores. Não podemos deixar de recordar a imagem do Primeiro-Ministro, apresentando-se em filme publicitário sem cinto de segurança. Um pequeno detalhe, mas que vale bastante.

O à-vontade demonstrado evidencia ser um hábito. Quem tem o costume consolidado de colocar o cinto, estranha instintivamente a sensação de se deslocar sem aquela amarra. Especialmente ao produzir um filme que será publicado, é sintomático esse reflexo não ter atuado. Temos, assim, um PM para quem as leis da estrada são dispensáveis? Já o tínhamos sabido relativamente aos (não) limites de velocidade que se costumam aplicar à casta governante.

Se o ridículo era grande, Miguel Guimarães conseguiu ainda aumentá-lo, ao tentar explicar e desculpar, argumentando que o veículo estaria meio parado. Recomendo-lhe fortemente uma consulta urgente a um seu colega oftalmologista. A menos que o conceito de “meio parado” fosse que a parte esquerda do veículo, onde estava Montenegro e o motorista, estivesse em movimento e a parte direita eventualmente parada. Algo um pouco irrealista e inviável, é certo, mas como já estamos habituados a “histórias da carochinha”…

21 março 2026

Haja festa


 

Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo, os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam. Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?

O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem frequentemente fugas nos circuitos.

Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas” elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

06 fevereiro 2026

Fazer de conta (uma vez mais...)

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última. Face a uma situação não rotineira, o aparelho do Estado entra em modo barata tonta, sem rumo nem determinação, como se tivesse aterrado num mundo alienígena, que é preciso “aprender”. Enquanto pessoas desesperadas e desalojadas caem dos telhados ao tentarem proteger o que lhes resta das suas casas semidestruídas, enquanto isso… um ministro produz vídeos de autopromoção, outro levanta uma barraca e leva uma dúzia de militares com motosserras a um beco, uma ministra penosamente luta por conseguir nos dizer algo com sentido e uma caravana ministerial de veículos negros vai lá ver…

Ao fim de vários dias, anunciam-se uns apoios… é tudo o que sabem fazer: oferecer dinheiro. Capacidade e estruturas efetivas e competentes de liderança e de realização não existem. Nem existirão. Quando a matéria-prima é fraca o resultado será sempre sofrível. 

No final, face ao mundo real, os alienígenas são os “responsáveis” políticos.

A imagem dos F16 danificados no hangar é também um bom exemplo de como, mesmo nas Forças Armadas, prevenção e antecipação não parecem ser conceitos familiares.

05 novembro 2025

O que segura Ana Paula Martins?


Pessoas são em muitas circunstâncias a variável fundamental que faz a eficácia e o sucesso das organizações. Especialmente na saúde a dimensão humana é, e em muito, o que faz a diferença, entre o resultado de profissionais competentes, dedicados e humanos e os outros…

Certamente que não é fácil organizar um sistema público de saúde pela sua dimensão e natureza, mas da base ao topo, do operacional à gestão de topo, a chave está nas pessoas, sua atitude e competências… e se fossemos decapitar estruturas por cada erro cometido, não teríamos substituições todas as semanas, mas quase…

Vem tudo isto a propósito da atual ministra da saúde, Ana Paula Martins. Sabemos que os problemas do SNS não se resolvem num mês ou dois e sabemos também que não será mudando de ministro todos os meses que teremos solução, mas… o facto é que do que se vê das suas ações é mudar pessoas, ainda agora mais uma no INEM, que até muda de nome para ANEM.

Não se esperariam milagres da ação da ministra, mas, no mínimo, humildade e alguma solidariedade institucional para com as estruturas de que é responsável. Do que se vê é que, aparentemente, os problemas nunca são da sua responsabilidade direta. Já só falta dizer que a culpa é das pessoas que adoecem quando não devem e das grávidas que vão ao hospital quando não é oportuno. O seu discurso chega a tocar a sobranceria e arrogância, atitude inaceitável para quem é o máximo responsável por um serviço fundamental que o Estado deve prestar à população e que está a falhar demasiadas vezes.

Ana Paula Martins avança não entre os pingos da chuva, mas no meio de uma borrasca sem se molhar e sem se preocupar demasiado com o escrutínio do seu desempenho. Aparentemente terá um sólido guarda-chuva que a protege! Qual será o segredo dessa proteção? Não sei e aqui também não é local para avançar palpites.


Atualizado em 7/11 com publicação no Público, curiosamente suprimindo o parágrafo final, com o detalhe da questão colocada... curioso.



14 dezembro 2023

Sobre o futuro

Daqui a meia dúzia de meses quem se vai lembrar desta história das gémeas luso-brasileiras? Quem ainda se lembra das trapalhadas de há uns meses no Ministério das Infraestruturas? Daqui a um ano quem se lembrará do caso de Alexandra Reis e do expedito despedimento de Christine Ourmières (para lá daqueles que considerem ser sócios ou assalariados do Estado Português)? Todos estes casos e casinhos de desgoverno, e respetiva cultura subjacente, contribuem certamente para o marcar passo em que nos enterramos, mas talvez não devessem ser o mais importante tema da atualidade.

Durante vários anos, para não dizer para toda a vida, os jovens cuja educação se degrada suportarão um passivo para si e para o país. A recente avaliação PISA veio demonstrar como estamos assustadoramente a andar para trás. Obviamente que se fosse para a frente, o mérito seria todo do Governo; como é para trás o Ministro não sabe e palpita-me que não vai chegar a querer saber. Não vale a pena olhar para tudo o que aconteceu no passado recente e tentar tirar conclusões? Especular sobre redução das exigências, abolição de exames, facilitismo de toda a ordem, falta de meios durante os longos confinamentos, longas greves e falta de docentes, sobre isso podemos especular. Mas, sobre o futuro do país, numa das suas componentes mais fundamentais, a coisa não deveria ficar pelas especulações.

28 setembro 2023

Prateleiras vazias


Já todos vimos imagens de supermercados onde os produtos básicos têm preços tablados e acessíveis, mas as prateleiras estão sistematicamente vazias. Isto acontece em países onde, na incapacidade de permitir uma normal criação de riqueza e uma atividade económica sã, os governos centralizadores, incompetentes e hiper-legisladores, entendem que decretando preços baixos e outras limitações, o problema se resolve.

O resultado dessas abordagens são as prateleiras vazias. Encontro algumas semelhanças com o que se passa atualmente no mercado da habitação. Há falta de casas, para vender, especialmente para arrendar e as soluções governativas passam por travar rendas e outras diretivas restritivas. Se estas “prateleiras” já não estavam muito recheadas, não é assim que se vão compor, pelo contrário. É difícil de entender?

25 agosto 2023

Habitação é construção

Para muita boa gente está difícil arrendar casa, os preços estão excessivamente elevados. Pelas regras básicas do mercado o motivo será haver mais procura do que oferta. Para corrigir é necessário aumentar a oferta, quer por novas construções quer por colocação no mercado de arrendamento das que existem. Quem pode fazer isso com dimensão que se veja, são promotores/proprietários que sintam segurança para investir e ter retorno.  

Ao Estado compete-lhe criar condições que motivem e deem confiança aos investidores. Não parece, no entanto, ser esse o caminho escolhido. Atacar o alojamento local e os proprietários de edifícios devolutos é atuar e assustar mexendo em trocos existente em vez de proporcionar a promoção do muito que falta. Das tentativas de regulamentação administrativa deste tipo de mercado como limitações ao valor e atualização das rendas também já conhecemos os resultados…

Não são decretos coercivos que potenciam o investimento, pelo contrário, assustam-no.

 

21 agosto 2023

Boa vontade e escrutínio

É indiscutível o enorme esforço e dedicação que abnegada e voluntariamente muitos bombeiros dedicam a causas humanitárias e solidárias. Merecem, sem dúvida, o nosso respeito, reconhecimento e agradecimento.

No entanto, os bombeiros e respetivas associações não são certamente um corpo único e homogéneo. Como em todos os setores haverá pessoas com diferentes valores e princípios. Os elementos e corporações sãos terão todo o interesse em ver separado o trigo do eventual joio. Por isso custa a entender as reações generalizadoras de “virgem ofendida”, cada vez que é evocado algo que potencialmente pode não estar correto no meio.

O seu mérito não invalida o poder/dever questionar a forma como são financiados e como gerem os seus fundos. O fato de serem dedicados e voluntários não deve constituir blindagem ao escrutínio.

O problema recorrente que temos com os incêndios florestais, deve fazer questionarmos se estamos a fazer tudo corretamente em termos de formação, utilização de meios, estratégias de prevenção, etc

Quem não deve, não teme; quem tem espírito aberto ouve e aprende… e de virgens ofendidas está o inferno cheio.

     

02 agosto 2023

O que há de novo

Depois de uma longa interrupção no blog, se não inédita pouco menos, o recomeço é sempre mais difícil. Sobretudo quando atrás está o Camões.

Nestes quase dois meses passaram-se muitas coisas e certamente teria tido tema para as duas a três publicações semanais da praxe, infelizmente sempre e sempre mais do mesmo. Nada de relevante consigo identificar e isso é um problema.

Vamos falar da (des)qualificação da nossa governação? Das caricatas conclusões da CPI da TAP, do ridículo (não) debate do estado da nação e de outros casos de irresponsabilidade e desrespeito pelo país e pela nossa inteligência, a que gostam de chamar casinhos? No fundo, nada de novo e o mais preocupante é o pouco sobressalto cívico que tudo isto provoca.

A democracia só funciona, mesmo, a qualidade do governo e consequente bem-estar de quem por cá vive com escrutínio e, fatalmente, alternância. Novos rostos, novas ideias, novas atitudes são fundamentais. Tudo coisas que faltam a este governo ressequido. Depois de vermos ministros chegarem diretamente da Camara de Lisboa, irão agora buscá-los às juntas de freguesia da capital? Ou virá alguma jovem estrela brilhante, tipo Miguel Costa Matos? Quem de decente e competente este (des)governo consegue motivar e recrutar?

Neste contexto, o PS deveria estar a ser fortemente penalizado pelo eleitorado. Mesmo que o líder do PSD não seja uma força da natureza, é necessário arejar a casa. O cheiro a podre torna-se insuportável, para quem tenha nariz, e a seguirmos por aqui vai um dia ser bem-vindo um autoritário (como em 1928, há quase 100 anos).

Parece que já não estamos no tempo em que os partidos do arco da governação não tinham (nem assumiam) diferenças fundamentais e o eleitorado flutuante forçava a alternância pelo mérito, por estar farto do inquilino de S Bento e muito pouco pela “ideologia”. Depois de 2015 inventou-se uma clubite, particularmente à esquerda, onde para evitar um governo “inimigo”, fatalmente malvado, se juntam em frente virtuosa socialistas (sociais-democratas) europeus, órfãos de Estaline, admiradores de Maduro, tolerantes de Kim Jong, e tudo o mais que for preciso.

Não é só cá. Veja-se a Espanha aqui ao lado, onde Pedro Sanchez, para reivindicar o direito a governar, se assume líder de um suposto bloco vencedor, indo muito para lá do equivalente da nossa “geringonça”. Acrescenta o Bildu, herdeiros do terrorismo da ETA, pouco arrependidos, e fundamentalistas e racistas catalães (sim, porque o racismo não é apenas o da cor da pele).

Em resumo, o que há de novo é que, pelo menos na Península, democracia já não rima com meritocracia e racionalidade. Instaurou-se uma atitude tribal onde se “é de um lado”, como se “é” do Sporting, Benfica ou FC Porto. Certo que entre os nossos irmãos sempre houve duas Espanhas, com um nível de intolerância mútua elevado e uma brutal guerra civil não há muito tempo. Por cá, a guerra civil foi há mais tempo, na afirmação do liberalismo, mas entre 1910 e 1928 também não faltou intolerância e visões “religiosas” das virtudes “ideológicas”, que demasiados excessos justificaram.

Sim, há algo de novo, face às décadas recentes, mas relativamente à Primeira República o odor é semelhante. Já terá nascido algures numa Santa Comba?

06 maio 2023

Mergulhar no pântano


Em 2001 António Guterres atirava a toalha ao chão, demitindo-se para evitar “um pântano político, que minaria as relações de confiança entre governantes e governados”.

Nos tempos atuais vivemos também uma quebra nas relações de confiança e uma incapacidade de o PS efetivamente governar, mas para pior. Já passamos de uma sucessão de casos e casinhos para um contínuo de tricas, truques e rasteiras palacianos, sem ética nem princípios, sem seriedade nem integridade.

À incapacidade de dotar o governo de gente capaz, com um mínimo de experiência de vida, visão e dedicação à causa pública, o PM resolveu mergulhar no pântano, esperando que o PR o tirasse de lá, podendo sempre fingir que para ele estava tudo bem e que se de lá foi içado, terá sido até contra a sua vontade.

Não foi essa a opção do PR, que resolveu deixar o Governo continuar a enterrar-se no pântano. Se este já tinha dificuldade em se coordenar e atuar, a partir de agora vai ser pior. Pode ser uma espécie de “merecido castigo”, mas no final o maior prejuízo será para todo o país.

Ao embuste inicial do consulado Costa, com o “virar da página da austeridade” e a “culpa pela troika ser do Passos”, está agora a tentar vender-nos uma “normalidade formal”, absolutamente “anormal nos princípios” e trágica para a futura cultura política e práticas governativas. Que na próxima consulta popular haja discernimento.

26 fevereiro 2023

A realidade dos direitos fundamentais


Na recente discussão quanto à necessidade de agir na questão do problema da habitação, foi referido que esta constitui um direito constitucional, assim como a saúde e outros. Agora, discute-se incluir a garantia da erradicação da pobreza no chamado texto fundamental.

Está tudo muito justo e certo, mas não é certamente a simples existência do artigo 58, estipulando que todos têm direito ao trabalho, que vai acabar com o desemprego (ou ilegalizá-lo!). Não se pode tão-pouco inventar ocupações de faz de conta, que não geram valor, apenas para cumprir o dito cujo.

Já que não vivemos sobre poços de petróleo, somos obrigados a criar riqueza para permitir condições de vida dignas a toda a população. Abordar essas questões decretando ou simplesmente invocando antigos ou novos direitos é começar a casa pelo telhado.

O papel fundamental do Governo é proporcionar condições para a criação de riqueza, garantido desde logo que não esbanja a que existe. A partir daí, poderemos lá chegar, mas se não a houver, bem podem decretar tudo e mais alguma coisa, que ela não nasce com este tipo de editais.

O programa chamado “Mais habitação” é um bom exemplo no sentido inverso. Limitar, reverter, proibir, coagir são verbos que não rimam com enriquecer e, para os direitos fundamentais serem efetivamente garantidos, o enriquecimento não pode ser pecado.

22 fevereiro 2023

Não as medem


O programa “Mais habitação” recentemente apresentado é vasto, mas há um ponto que julgo importante relevar pelo que tem de significativo quanto à forma equivocada como este Governo imagina soluções. Trata-se da recuperação dos imóveis devolutos assumida pelo Estado. Antes de mais, seria um bom sinal este dar o exemplo e recuperar os seus, antes de meter a foice em seara alheia.

Quem já precisou de recuperar ou modernizar o seu próprio imóvel, sabe como o processo pode ser longo, imprevisível e variável em tempo e custos. As opções possíveis para os materiais e equipamentos, a coordenação dos diversos trabalhos e a (falta de) fiabilidade de muitos empreiteiros e instaladores pode tornar o processo num pesadelo difícil de controlar.

Imaginar que o Estado, que neste momento nem consegue completar um cabaz alimentar para distribuir a quem necessita, possa levar a cabo com um mínimo de eficácia e dimensão estas intervenções em casa alheia, é de um irrealismo atroz.

Este tique de o Estado se substituir aos intervenientes adequados e voluntariosamente assumir tudo e mais alguma coisa é uma atitude que não resolve nada a prazo e, pelo contrário, não dá confiança a quem dela precisa. Quem realmente sabe e pode investir.

14 fevereiro 2023

O que falha


31 meses depois da nacionalização da Efacec, que era suposto ser transitória, termina nova tentativa de reprivatização, sem se saber o que vai dar. Para uma empresa de acionista ausente e a navegar sem velas, 31 meses é uma eternidade que pode ser fatal.

O cabaz alimentar para pessoas necessitadas, que deveria incluir 25 produtos, está a ser distribuído apenas com 8, por incapacidade da máquina burocrática do Estado em realizar as necessárias compras.

Dos fundos europeus, da famosa bazuca, destinados à habitação, apenas cerca de 50 de milhões de euros, cerca de 3% foram executados e a lista continua.

Já sabíamos que o Estado tinha dificuldade em gerir e gastar bem; a novidade agora é que este Governo já nem sequer consegue agir, de todo. Será?

Não, há exceções! Aa equipa coordenadora nomeada pelo governo para as JMJ, liderada por José Sá Fernandes, a qual Carlos Moedas classifica de pretensos coordenadores que não fazem nada e que não ajudam a resolver nada, custa 530 mil euros por ano. Incluindo um coordenador, três adjuntos, três técnicos especialistas, uma secretária pessoal e um motorista. Aqui nada pode faltar e, na dúvida, fica em funções até um ano e meio após o evento terminar. Será o tempo necessário para desmontar as instalações sanitárias?

Depois, queixem-se dos populismos e divaguem com teorias quanto à medicação!

30 janeiro 2023

Quem não tem dinheiro…


… não tem vícios, sendo também verdade que quem tem vícios facilmente fica sem dinheiro. Aqui, na paróquia nacional, temos um vicio. Quando se trata de obra para “inglês ver”, no quadro de algum evento com projeção internacional, não se olha a custos nem à forma de gastar, o importante é deslumbrar os visitantes.

Foi assim com o CCB em 92, foi assim com a EXPO 98, com o Euro 2004 e é agora com as JMJ, alguns exemplos de que me recordo no imediato. Um evento importante é justificação para gastar sem contar e sem ser importante muito controlar. O fundamental é embasbacar. Não vamos arriscar fazer má figura para poupar uns tostões (ou milhões). Quando são questionados os milhões, vemos manifestações de surpresa da parte de (i)responsáveis, como que intempestivamente acordados de um sono tranquilo.

Acho curioso o argumento da valorização do “retorno”. Se ele existe, maior será com custos reduzidos, bem fiscalizados e tudo preparado a tempo e horas. Não é por se torrar dinheiro que as receitas aumentam.

Enfim, um vicio que não enriquece.

Adicional: tendo sabido que o famoso palco vai requerer grandes fundações onde antes estava um aterro sanitário, entre biogás e lixiviados, mais complicação promete...

25 janeiro 2023

Valha-nos um outro deus, qualquer


Há quanto tempo sabemos que a capital do império vai receber a Jornada Mundial da Juventude? Também sabe, quem quiser saber, que o evento foi adiado um ano por causa da pandemia.

Portanto, conclusão provisória, tempo atempado para tudo preparar em conformidade com as regras não terá faltado, certo? Não, errado! Há uma urgência em ter tudo pronto a tempo e daí os famosos ajustes diretos, que já vão em 13 milhões de euros e ainda procissão vai no adro. Os tais diretos que frequentemente dão direito, diretamente, a intervenção do Ministério Público. A rotina, pois!

Dentro desses ajustes diretos está o famoso palco, ajustado diretamente por 4,2 milhões de euros, arredondados com mais outro milhão para as fundações. Mas, enfim, alegremo-nos porque a coisa ainda pode servir para outras coisas. Quais, logo se verá! Obviamente que era impossível fazer a coisa por menos…

Encerro, já que agora só me saem palavrões. Não, não somos ricos, porque, mesmo que o fossemos, a riqueza não aguentaria muito tempo com tamanha irresponsabilidade e ligeireza. Ao fim e ao cabo, o que é milhão a mais ou a menos para quem nunca se preocupou em criar riqueza, nem um cêntimo.

18 janeiro 2023

Perguntar não ofende


É sempre bom existir uma abordagem sistemática e estruturada a questões complexas e delicadas. Daí que o famoso questionário de 36 perguntas aos potenciais (candidatos?!) ministros e secretários de Estado é, por princípio, positivo. Indo aos detalhes. Antes deste questionário não havia escrutínio a nenhuma destas questões, começamos assim do zero? Por exemplo:” Tem a situação fiscal regularizada junto da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT)?”

A seguir, faltam certamente muitas questões para validar a idoneidade do individuo, esta não se esgota em questionário e mesmo a pergunta genérica final, 36, é simplesmente respondida pelo próprio na sua melhor boa intenção e critério. Sobre o escrutínio das respostas, a tentativa, negada, de envolver a PGR e o TC é bem representativa da tática. Chutar a bola para o lado e corresponsabilizar terceiros. Triste e covarde.

Ao mesmo tempo em que este questionário era cozinhado, ouvimos Ana Catarina Mendes, figura de proa do partido e do governo, dizer sobre uma das figuras que o provocou: "Gratidão por todo o trabalho que ao longo dos anos o Miguel Alves fez nesta federação. Ser socialista é isto mesmo: é sermos solidários, é não nos esquecermos daquilo que cada um de nós consegue dar, de si, à causa pública. O Miguel deu muito de si à causa pública". Enfim, tudo muitíssimo credível!

Posso sugerir a questão 37? “Esteve envolvido ou tem conhecimento de alguma ação de financiamento ilegal de partido político?” … Perguntar não ofende!

15 janeiro 2023

Ética sem mais


Da mesma forma como alguns se apresentam em cerimónias públicas com as lapelas pejadas de medalhas que de objetivo dizem pouco, mas que darão uma suposta imagem de honorabilidade, também há quem adjetive expressões para aumentar o impacto percecionado, quando na prática…

Uma delas é a da ética dita republicana. De que serve, nos dias de hoje, acrescentar este qualificativo? Serve para dizer que há uma ética “boa” e “nossa”, que “nós”, os tais “republicanos”, superiormente conhecemos e definimos? Portanto, o Reino Unido, coitado, tem uma séria e inultrapassável carência nesse campo.

Por vezes ainda se invoca o “laico” a seguir ao “republicano”. No contexto em que vivemos presumir que uma conceção laica da sociedade e da política é uma especificidade, nem ao Menino Jesus lembraria!

Recuando um século, aos tempos da primeira República, aí podemos efetivamente reconhecer que “republicano e laico” era um “santo e senha” com um significado muito claro e concreto, distintivo, exclusivo… e abusivo. Esses tempos tiveram aspetos positivos, mas a instabilidade, sectarismo e violência foram demasiados para se poder sentir nostalgia e alguma simpatia romântica por um período revolucionário, incompetente e brutal, muito especialmente se se acrescentar a palavra “ética” à invocação.

Portanto, preocupem-se e assumam a ética, aquela que toda a gente sabe o que é, sem particularização nem senhorios. Já, agora, estamos prestes a ver um século da instauração do Estado Novo, que não foi simplesmente uns malvados terem-se aproveitado de um povo distraído, foram também ajudados por muito povo estar farto dessas “éticas” diferenciadas. Seria bom que a história não se repetisse…

08 janeiro 2023

Finalmente uma boa notícia


Dentro do negativo dos casos com as recentes nomeações governamentais, a demissão relâmpago de Carla Alves é uma boa notícia. É boa porque primou o princípio de que a um governante não basta ter (ainda) o registo criminal virgem. Não vingou o famoso “À justiça o que é da justiça”, como no caso de Miguel Alves, que se arrastou penosamente durante quase dois meses, quando era claro que ele não era sério e/ou competente.

Pode ser que constitua um bom precedente e que os princípios éticos de quem nos representa e gere o que é de nós todos, independentemente das cores e das ideologias, passem a ser uma exigência prática e não citações vãs.

No dia em que para as autarquias se aplicar um escrutínio semelhante (não vale rir…), muita coisa mudaria e o país melhoraria. Infelizmente não será amanhã, mas sejamos otimistas… e exigentes.

06 janeiro 2023

A importância de passar a secretário de Estado


A nova secretária de Estado da Agricultura, Carla Alves, tem contas bancárias conjuntas dela e do marido arrestadas por, ao longo de vários anos, declararam receber menos euros do que os que entraram no banco. No seu CV também há “colaborações” com a câmara de Vinhais, presidida pelo marido, de enquadramento no mínimo duvidoso. Assim, já lá vão três casos muito recentes de figuras que promovidas a secretários de Estado vêm um escrutínio acrescido e a coisa acaba mal. Quase apetece dizer: criem mais secretarias para conhecermos melhor quem por maus caminhos anda….

O fato de Carla Alves ser nomeada com essas manchas na reputação, na ressaca dos casos ainda frescos de Miguel Alves e Alexandra Reis, quando os cuidados deviam ser máximos, representa uma de duas coisas: ou não se fez averiguação prévia e isso é de uma displicência inconcebível, ou sabia-se e achou-se aceitável. Em ambos os casos, desgoverno completo e desrespeito pelo Estado, que somos todos nós.

Aparentemente estará cada vez mais difícil encontrar governantes que não sejam família de quem já lá está, que não tenham embolsado ou queimado uns milhares dos contribuintes, que não sejam ou estejam para ser arguidos … Ao fim e ao cabo quem de decente estará disposto a aparecer no meio de tão bizarras companhias!