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12 abril 2026

Nem maçom, nem sacristão


Desde muito cedo tive a certeza de que nunca seria sacristão. Não por ter grandes desalinhamentos de princípio com o Nazareno, descontando, é certo, os seus excessos apocalípticos. Houve e haverá cristãos, pessoas fantásticas, de enorme valor humano e intelectual, mas a instituição Igreja sempre me cheirou demasiado a uma certa hipocrisia bolorenta. Que me perdoem os crentes sinceros e bem-intencionados, mas o perfume que me chega às narinas não é coisa que me entusiasme.

Escalas e contextos à parte, a instituição abriga também alguns pequenos Torquemadas, símbolos de intransigência e obscurantismo, de quem se agradece distância.

Quanto à maçonaria, o paralelo é grande (ó Diabo...!). Efetivamente, é difícil discordar dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mas quanto às práticas da organização, a incoerência é grande. Como o posso saber, quando a sua atividade é secreta (ou discreta, para quem gosta de eufemismos)? Que conheço eu de concreto, que me permita fazer tal afirmação? É simples. Precisamente por não conhecer nada de concreto e público por eles realizado na atualidade. Para quem defende convictamente uns princípios e um projeto, qual a razão de o fazer às escondidas? Diz-se que” Quem não deve, não teme”; eu acrescento que “Quem não teme, não se esconde”.

Existirão ainda por aquelas bandas uns pequenos Robespierres, companhias muito pouco recomendáveis para quem valoriza pluralismo e liberdade e de quem se agradece distância.

Outro ponto comum é existirem nas duas instituições aderentes motivados não pelos princípios e convicções, mas pelo oportunismo de apanharem boleia para locais protegidos, de acesso discretamente privilegiado para membros. Nestes casos passamos da discordância para a repugnância.

A todos aqueles que se eclipsaram ou que o poderão fazer por estas minhas afirmações e opções, apenas posso dizer: Fiquem com as vossas grilhetas, que eu não prescindo da minha liberdade. Nunca mendiguei apadrinhamentos e nunca valorizei ninguém que não fosse pelo mérito e competência. E tenho um estomago delicado…

Infelizmente o prejuízo não acaba aqui, individualmente … o sucesso e a prosperidades “universais” dependem, indiscutivelmente, de outros valores.

10 novembro 2025

A angústia da página em branco


A angústia da página em branco é provocada pelo fato de se pegar numa página (ou abrir um documento) precisamente em branco…. O problema é mesmo esse.

É inútil abrir uma página em branco antes de ter algo já alinhavado internamente, com mais ou menos detalhe, mas com força suficiente para encontrar o fio condutor e a ponta por onde pegar e fazer desfilar as palavras (ou o que for) para a página.

Pode depois até ser um pouco como as cerejas… umas puxam as outras.

Ficar a olhar para o branco esperando pela inspiração não adianta muito (pelo menos na minha perspetiva). Olhar para o branco reflete vazio. É como ficar parado no meio de um entroncamento esperando que a espera resolva a questão.

Se é necessário esperar e dar tempo a que coisa amadureça, tem que ser antes,  sem forçar, sem pressa e sem ficar parado no meio da estrada, em frente à página branca.

17 agosto 2025

Atualidades de há 80 anos


Verão de 1944 e tempos seguintes. Depois de uma humilhante derrota e ocupação de quatro anos, França busca um rumo e uma nova normalidade. Os tempos imediatamente após os armistícios nem sempre são tranquilos. Há ajustes de contas e várias fações que se precipitam para o “vazio”, procurando tirar partido da transição para ganharem predominância e se imporem.

Este livro compila um conjunto de editoriais e de respostas públicas de Albert Camus. Clarividente, humano, objetivo, preciso e elegante, ele defende que deve haver justiça, mas resistindo a cair no ódio; que é preciso mudanças, mas não com uma nova guerra e que totalitarismos e campos de concentração são a condenar veemente, independentemente da cor e da bandeira dos mesmos. Convém recordar que na altura uma boa parte da “intelligentsia” ainda acredita na “necessidade” de lutar por todos os meios pelo “homem novo”.

Recortei algumas passagens que passo a seguir. Os que tiverem muito interesse, podem procurar o livro; os que tiverem pouco, que fiquem por aqui. Ninguém é obrigado a ler até ao fim, mas, são sempre atualidades.

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Não há vida sem diálogo. Mas o diálogo foi hoje, na maior parte do mundo, substituído pela polémica. O século XX é o século da polémica e do insulto. Eles ocupam, entre as nações e os indivíduos, e mesmo ao nível das disciplinas outrora desinteressadas, o lugar que tradicionalmente cabia ao diálogo refletido. Dia e noite, milhares de vozes, empenhadas, cada uma por seu lado, num tumultuoso monólogo,

Vivemos no terror, porque a persuasão já não é possível, porque homem se entregou totalmente à História e já não é capaz de se virar para a outra parte de si, tão verdadeira como a parte histórica, que pressente na beleza do mundo e no rosto dos outros; porque vivemos no mundo da abstração, no mundo dos gabinetes e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem cambiantes. Vivemos asfixiados no meio de pessoas que creem ter absoluta razão, seja nas máquinas, seja nas ideias que têm. E para todos os que não podem viver privados de diálogo e de amizade humana, um tal silêncio é o fim do mundo.

Sou pela pluralidade das posições.  Será que se pode fazer o partido dos que não têm a certeza de ter razão? Seria o meu. De qualquer modo, não insulto os que não estão comigo. É a minha única originalidade.

 E não se trata aqui de defender um sentimentalismo ridículo que englobasse todas as raças na mesma terna confusão. Os homens são todos diferentes, é verdade, e eu sei das profundas tradições que me separam de um africano ou de um muçulmano. Mas sei também o que nos une, sei que há, em cada um deles, algo que não posso desdenhar sem me destruir mim mesmo. É por isso que é preciso dizer claramente que tais sintomas, espetaculares o não, de racismo revelam o que há de mais abjeto e de mais insensato no coração do homem

Nos anos vindouros, através dos cinco continentes, irá prosseguir uma luta interminável entre a violência e a prédica. É evidente que a primeira tem mil vezes mais possibilidades de vencer do que a segunda. Mas eu sempre pensei que se o homem que tem esperança na condição humana é um louco, o que desespera dos factos é um covarde. E. doravante, a única honra está em sustentar teimosamente esta formidável aposta que irá decidir se as palavras são ou não são, afinal, mais fortes do que as balas.

Se tivesse tempo, diria também que esses homens deveriam tentar preservar na sua vida pessoal aquela parcela de alegria que não pertence à história. Querem fazer-nos crer que o mundo de hoje tem necessidade de homens totalmente identificados com a sua doutrina e almejando fins definitivos, numa submissão total às próprias convicções. Acho que, no estado em que se encontra o mundo, esse género de homens fará mais mal do que bem. Mas admitindo, o que não creio, que eles acabem por conseguir fazer triunfar o bem até ao final dos tempos, parece-me a mim necessário haver outro género de homens interessados em preservar alguns leves cambiantes, o estilo de vida, a possível felicidade, o amor e, enfim, o difícil equilíbrio, de que os filhos desses homens também irão afinal necessitar, mesmo que a sociedade perfeita seja já uma realidade

Sabemos que a nossa sociedade assenta na mentira. Mas a tragédia da nossa geração foi ter visto, sob as falsas cores da esperança, uma nova mentira sobrepor-se à antiga. Nada, pelo menos, nos obriga a chamar salvadores aos tiranos e a justificar, com a salvação do homem, o assassínio da criança. E assim, recusamo-nos a crer que a justiça porventura exija, mesmo provisoriamente, a supressão da liberdade. A dar-se-lhes ouvidos, sempre as tiranias são provisórias. Explicam-nos que há uma grande diferença entre a tirania reacionária e a tirania progressista. Haveria assim campos de concentração que vão no sentido da história e um sistema de trabalho forçado que pressupõe a esperança. Admitindo que tal fosse verdade, podíamos pelo menos interrogar-nos sobre a duração dessa esperança. Se a tirania, embora progressista, durar mais de uma geração, isso significará, para milhões de homens, uma vida de escravidão, e nada mais. Quando o provisório abarca a vida inteira dum homem, torna-se, para esse homem, definitivo.

 

Quando a morte se torna negócio de estatísticas e de administração é que de facto as coisas do mundo não vão lá muito bem. Mas se a morte se torna abstrata é porque a vida também o é. E a vida de cada um mais não será do que uma abstração, a partir do momento em que alguém se lembre de a submeter a uma ideologia. A desgraça é que nós estamos no tempo das ideologias e das ideologias totalitárias, isto é, suficientemente seguras de si, de sua razão imbecil ou da sua tacanha verdade, para só considerarem a salvação do mundo debaixo do seu próprio domínio. E querer dominar alguém ou alguma coisa é desejar a esterilidade, o silêncio ou a morte dessa mesma coisa ou pessoa.

Tenho horror à violência confortável. Tenho horror aqueles cujas palavras vão mais longe do que os actos. E aí que me afasto de alguns dos nossos grandes espíritos, cujos apelos ao crime deixarei de desprezar, quando forem eles a empunhar as armas da execução.

O longo diálogo dos homens acaba de se interromper. E não há dúvida de que um homem que não se pode persuadir é um homem que mete medo. E é assim que, a par das pessoas que não falavam por considerá-lo inútil, ia alastrando e alastra ainda uma imensa conspiração de silêncio, aceite pelos que tremem e que encontram bons motivos para a si próprios ocultarem esse temor, e criado pelos que nele têm interesse. «Não se deve falar da depuração dos artistas na Rússia, porque isso aproveita à reação.» «Não se deve falar no apoio dos Anglo-saxões a Franco, porque isso só aproveita ao comunismo.» Bem dizia eu que o medo é uma técnica.

29 julho 2025

O negativo na discriminação positiva

Havendo um histórico de discriminação negativa, imerecida, relativamente a um dado grupo, faz sentido que se tente compensar e procurar repor alguma justiça através de uma discriminação positiva posterior.

Isso pode ser conseguido dando prioridade a esse grupo num processo de seleção e, no limite, até exclusividade em situações pontuais. Nada contra. Agora, parece-me que relativamente ao desempenho posterior, a palavra-chave deverá ser igualdade. Função igual, exigência igual, avaliação igual, retribuição igual.

O risco e o desvio aparecem quando se insiste em continuar a considerar alguma discriminação posteriormente. Quando o selecionado, em vez de assumir o desafio e ir a jogo de igual para igual, aprendendo e evoluindo, assume uma postura de vitimização cada vez que é questionado… Quando a hierarquia vê com condescendência e tolerância q.b. os erros e deficiências, numa atitude paternalista que tende a perpetuar um estatuto de inferioridade, não sendo certamente esse o objetivo último do processo.

Este contexto pode ainda degenerar para uma arrogância de quem se sente especialmente protegido e criar uma tribo de “eternas vítimas”, hostilizando os demais. Quando chegamos aqui, a discriminação positiva falhou completamente o seu propósito.

17 julho 2025

As comichões da ética

Empresa que se preze e preocupada em passar uma bela imagem a acionistas, decisores e público em geral tem uma lista de itens a garantir na sua imagem pública.

Preocupações com diversidade e equidade, ambiente e sustentabilidade em geral, altos padrões de ética e de integridade, preocupações de responsabilidade social e outras coisas mais que tal.

Mais do que mostrar preocupação é necessária apresentar iniciativas e estruturas, comissões e portais, objetivos e métricas, tudo sem mancha de pecado.

O problema real pode aparecer com a efetiva realidade. A título de exemplo, tive conhecimento de uma situação concreta e recente. Tendo sido enviada a uma dessas comissões uma exposição com uma dezena de pontos relevando e documentado atos ocorridos não conformes com o que se espera de quem anuncia altos padrões éticos, mesmo contrários à legislação em vigor e sendo solicitado um posicionamento da mesma, a resposta foi curiosa.

Depois de um mês de reflexão, ponderação, averiguação e eventual comichão, a tal comissão respondeu que o “assunto tinha sido reencaminhado internamente, que nada mais iriam fazer e passe bem”. Pelos vistos entendendo não ser necessário posicionar-se como solicitado nem tomar ações para evitar eventuais repetições.

Impressionante como um bom “Photoshop” consegue transformar em modernaças imagens e arrogâncias de realidades dignas do período do Estado Novo.

16 maio 2025

Refletindo


Enquanto se pode…

 

Este texto corre o risco de ser um dos mais efémeros do blogue, uma vez que pelas 20h e picos do próximo domingo, a realidade real então conhecida poderá destruir todas as bases sobre as quais estas reflexões se desenvolveram.

Pelo que parece, o próximo Parlamento não deverá será muito diferente do que está de saída e isso não deixa de ser surpreendente…

Para começar, o mistério da manutenção da dimensão do Chega. Por muito que o discurso de André Ventura possa cativar descontentes, desta sessão legislativa que termina fica a irrelevância dos outros 49 outros deputados, a heterogeneidade, falta de qualidade e até de honestidade de alguns e de construtivo pouco ou nada. O Chega está a atingir uma fase em que ou consolida ou esvazia. Se se conseguir consolidar apesar de todos estes vazios, é preocupante.

Por outro lado, o PS de Pedro Nuno Santos não descola, pelo contrário, e enquanto tiver este líder deve ficar reduzido ao eleitorado enquistado. Quando o ouvimos falar, por muito que tente disfarçar, está lá o menino do Porsche e do papá rico, o “enfant terrible” que resolve o problema da divida pondo as pernas dos banqueiros alemães em tremeliques, o dos 3,2 mil milhões da TAP e do despedimento por whatsapp e aquele que decide mandar fazer aeroportos como quem manda vir uma sobremesa... Tudo isto não se lhe descola e até faz esquecer a polémica herança socrática-costista do partido. Protesta e avisa para os perigos dos outros, mas de um candidato a líder exige-se mais. 

Luís Montenegro deveria estar a pagar as trapalhadas com a sua empresa, especialmente a forma como (não) comunicou o que devia e como devia. Não é isto que acontece, talvez na perspectiva do mal menor, mas não é certamente o contexto ideal para liderar efetivamente o país.

Por último, os comunistas, tanto os ortodoxos como os burgueses, continuarão a cair, o que faz sentido. Por muitas bondosas e humanas que sejam as suas intenções teóricas, “toda a gente” sabe ou pode saber que as práticas propostas não funcionaram e nunca funcionarão.

A IL corresponde a uma proposta efetivamente diferente das correntes habituais, mas num país de funcionários e pensionistas, dificilmente subirá muito alto.

A ver o que o domingo nos conta… mas dava jeito que mudasse alguma coisa

12 abril 2025

Controlar submarinos e aviões


Há algumas décadas atrás discutia-se e negociava-se a compra de submarinos para a Marinha Portuguesa (o tal negócio que depois ficou famoso…) Faziam parte do pacote negocial as chamadas contrapartidas, ou seja, a parte do negócio a ser feito por empresas locais e outras repercussões económicas para o país comprador.

Um dos consórcios concorrentes, o francês e, por acaso, o que não ganhou, sugeriu que construíssemos na Efacec Automação e Robótica parte do simulador de pilotagem do submarino, utilizado para a formação dos tripulantes. Assim, fui visitar a escola de submarinos francesa em Toulon, onde pude ver vários simuladores, reproduzindo o posto de pilotagem de diversas gerações de submarinos (desculpem-me os submarinistas se o vocabulário não está a ser rigoroso).

Havia nitidamente três gerações e ambientes. A primeira, aí dos anos 60, muito analógica, com mostradores de ponteiros e tudo muito espartano. A segunda que situaria a partir dos 70, já com alguma eletrónica e sobretudo enormes painéis de interruptores retro-iluminados que, quando ocorria um problema, pareciam uma árvore de Natal (monocromática, a vermelho…) de tantas coisas a piscar em simultâneo. Finalmente a última geração, já informatizada, onde a informação era tratada e o fundamental corria bem visível num monitor, percebendo-se mais facilmente o que estava a ocorrer.

Lembrei-me disto recentemente ao “pilotar” um enorme Boeing 777. Apesar de ser um simulador estático, conseguia-se sentir um efeito de imersão e a sensação de que dirigir algo tão complexo pode ser tão simples… quando a rota está lançada e nada de imprevisto acontece. O problema estará sempre nos imprevistos e o grande desafio é, de facto, prever os imprevistos…   

15 janeiro 2025

Influenciar no palco ou nos bastidores


Elon Musk tem-se evidenciado por uma série de intervenções e expressão políticas, que não agradam a todos. com Podemos concordar ou discordar, mas não é por ser a pessoa em causa em vez de um simples José Silva que terá maior ou menor direito a dizer o que pensa.

Muitos políticos eleitos e com responsabilidades importantes manifestaram-se e manifestam-se com regularidade sobre outros políticos, outros países, sem serem acusados de ingerência, no sentido nocivo da palavra. Será certamente muito mais pesado alguém eleito com poder executivo dar palpites em casa alheia do que um cidadão, rico ou pobre.

A liberdade de expressar publicamente opiniões é um direito fundamental da sociedade em que vivemos. Como alguém dizia: “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”

Confesso que me preocupam muitíssimo mais as ingerências de bastidores. Se Elon Muslk utilizar o X para veicular prioritariamente uma certa ideologia, aí será muito grave. É isso o que deve ser escrutinado. O que é dito no palco é ouvido claramente por todos e pode ser contestado ou contra-argumentado.

07 janeiro 2025

Sobre o Novo Ano


Aqui estamos, com mais um aninho novinho para estrear. Não acrescenta muito dizer que este vai ser diferente de todos os anteriores, mesmo sendo verdade, porque isso é o que sempre se diz, com maior ou menor rigor…

É certo que não somos nós quem vai resolver todos os males do mundo, os antigos e os novos, mas isso não será também desculpa para ficarmos pela fatalidade passiva.

É certo que cada qual no seu âmbito e no seu espaço pode sempre fazer um esforço para que, no que deles depende, tornar as coisas amanhã melhores do que estavam ontem e todos esses pequenos passos somados, serão um bom salto no bom sentido.

Fica a questão da definição do bom. Há tanta gente absolutamente convencida de ter a bondade inequivocamente do seu lado, que, por ela, assumem a necessidade de avançar com maldades, sempre em prol da sua bondade.

Será talvez uma boa ideia começar por aí. Tentar entender a bondade dos outros

05 dezembro 2024

App 112


Tem sido notícia os atrasos no atendimento às chamadas de emergência e parece que um dos fatores que faz demorar a gestão das mesmas é a indicação do local da ocorrência.

Felizmente não tenho muita experiência direta nestes casos, mas, até numa chamada para a assistência em viagem, sabemos que pode não ser muito imediata e rigorosa a passagem dessa informação, especialmente quando não se está em local urbano.

Curiosamente, enquanto se pode estar a perder um tempo precioso a explicar a localização, o Mister Google e outros que tais estão “carecas” de saber rigorosamente onde estamos e mesmo mais…

Seria difícil ter uma aplicação para as comunicações de emergência que diretamente passasse a localização? Certo, não funcionaria para chamadas da rede fixa e para quem quisesse manter alguma privacidade. Mas, certamente, para uma grande percentagem de casos seria uma grande ajuda em termos de rapidez e eficácia e precisamente nos momentos em que cada segundo conta.

26 agosto 2024

Em V ou em O


Há organizações estruturadas em "V". Com liderança e hierarquia claras, estruturas alinhadas, perseguindo objetivos bem definidos, unidas com relações de confiança transparentes e sãs. Cultivam exigências a 360º, de cima para baixo, de baixo para cima e também para os lados. Movem-se como um todo, com a agilidade e a eficácia de uma águia.

Há outras organizações em "O", onde o fundamental é o círculo estar fechado e as “retaguardas” protegidas, sendo fundamentais as fidelidades tribais acríticas. A dinâmica é secundária, o fundamental é garantir que não haja brechas por onde algo imprevisto possa entrar e ameaçar as ditas retaguardas.  O importante é conseguirem resistir ao cerco que a meritocracia lhes pode colocar. Movem-se de forma pouco definida, a lembrar um caranguejo desconfiado.

Como é lógico, as águias chamarão um figo aos caranguejos. Sempre? Não necessariamente. Quando a cultura dominante e a preferência pelo abrigo em zonas de conforto levam à proliferação das estruturas caranguejo e à rarefação das águias. Aliás, frequentemente, as carências de liderança fazem aparecer vários caranguejos na mesma organização. Será certamente um meio rasteiro onde a vista pouco alcança e que não viaja muito longe, mas… há quem se sinta melhor assim.

30 maio 2024

E/Imigrantes


Por estes dias, o nosso governo aprovou um conjunto de medidas em favor dos jovens, nomeadamente para procurar reter os qualificados cá no país e evitar o nosso empobrecimento em recursos humanos.

Ao mesmo tempo, há quem clame que devemos receber na Europa todos os que quiserem para cá vir, pela necessidade de termos mais gente a trabalhar e a criar riqueza, independentemente do que isso possa implicar de empobrecimento nos seus países de origem. Falta de coerência ou simples egoísmo/oportunismo?

Migrações sempre houve e haverá na história da humanidade e o respetivo enquadramento não se resume a uma palavra, ou duas: integração e asilo. Uma jovem afegã a quem foi vedado o acesso aos estudos não pode ser tratada da mesma forma que um quadro superior magrebino que procura melhores condições económicas. E muito menos do que um originário não importa de onde que queira simplesmente usufruir do guarda-chuva social europeu.

Não podemos fechar a porta a toda a gente, nem abrir de par em par. Devíamos estar de acordo que a prioridade das prioridades é proporcionar condições de vida digna para todos, no local onde nasceram e isso não passa obviamente por esvaziá-los dos seus recursos humanos valiosos. A Europa cometeu certamente erros no seu passado, mas que esteja condenada a uma expiação coletiva de todos dever receber como penitência, não. O erro maior está principalmente nas carências nos governos dos países de onde os emigrantes querem sair, mas pôr isso em causa pode ser classificado de ingerência e “neo-colonialismo”.

E não falei dos choques culturais de (des)integração que não são um problema menor, nem se resolvem com ignorância e ingenuidade.

11 maio 2024

O risco das milícias eficazes


Há cerca de 30 anos atrás conheci de perto a situação em Francelos, Gaia. Ao lado da estrada principal havia um acampamento cigano que funcionava como centro comercial de estupefacientes. A frequentação nas redondezas de clientes e vendedores proporcionava um ambiente de enorme desconforto e insegurança e perante a passividade de “quem de direito”.

É aí que aparecem as milícias populares para “resolverem” a situação. A sua ação ilegal e brutal foi, é e será sempre inaceitável, mas o fato é que depois desses acontecimentos, as forças de segurança reagiram e a zona voltou a viver em clima de segurança. Ou seja, houve uma clara relação de causa-efeito entre a inadmissível investida popular e a solução do problema. Muito preocupante, não será?

Esta evocação vem a propósito dos recentes acontecimentos no Porto, cuja discussão é desde logo contaminada com o direita/esquerda, como se isso fosse o fundamental. Imigrante não é um conceito singular nem homogéneo. Haverá imigrantes inocentes vítimas de xenofobia e imigrantes violentos e marginais. Quem conhece a realidade urbana no norte de África, sabe que lá existem “códigos” e comportamentos que não queremos ver aqui transpostos.

Se não olharmos para isto com rigor, objetividade e tomando as consequentes ações, se ficarmos entretidos em considerações ideológicas, estaremos a ir de olhos fechados contra o muro.

14 fevereiro 2022

#Lítio acima/abaixo


Dizem que a sustentabilidade do planeta passa pela mobilidade elétrica, exclusivamente, que na tecnologia atual necessita de muito lítio para as baterias. Independentemente da origem da energia que carrega as baterias, que é outro tema – #lítio_acima!

Esse lítio necessário vem da extração mineira. De uma forma geral as minas e demais escavações não são vistas como boa vizinhança. No caso particular do lítio, talvez pela maior exposição mediática, a repulsa é larga - #lítio_abaixo!

A fileira do lítio terá certamente algum valor acrescentado e um contributo positivo para a economia do país. #lítio_acima!

A sustentabilidade do planeta passa pela economia circular onde se utilizam recursos renováveis, ao contrário da linear que segue uma sequência extrair-produzir-descartar. Portanto, sem estar clara a gestão do fim de vida das baterias, para já não renováveis - #litio_abaixo!

O melhor é ficar mesmo pelas bicicletas… e não elétricas!

10 fevereiro 2022

O bem sem o mal?


Não é a primeira vez que o senhor acima representado é por aqui citado. Admiro a sua produção literária, o seu humanismo (nem sempre de moda) e o seu discernimento.

Um destes estes dias passou pelas minhas mãos este livro, coleção de discursos e palestras por ele realizadas. Uma boa parte tem lugar nos anos seguintes ao fim da II Guerra Mundial e há um aspeto nessa ressaca da barbaridade que me interrogou.

Camus questiona o mundo em que vive, nomeadamente a sua desumanização. Não vou aqui transcrever o detalhe, mas há um sentimento de perda de referências e de dúvidas sobre o caminho e os valores do novo mundo. À partida, com a chegada da tão ansiada paz, depois de tantas atrocidades militares, do holocausto e do drama da ocupação e da resistência, em que o próprio se tinha envolvido ativamente, deveria ser uma altura mesmo de paz, de reencontro com a serenidade e a normalidade, num mundo em que não se massacram pessoas na mais absoluta banalização.

Na altura da guerra e da ocupação, havia o mal e havia a luta pela paz e pela liberdade, o bem. Este era um objetivo duro, mas claro e simples. Desaparecendo o mal, ficou o bem desorientado?

O bem só se consegue definir e estabilizar face a um mal? A mensagem de um Deus sem o contraponto de um Diabo, tem dificuldade em se afirmar e ser entendida, como a tese que sem a antítese não se aguenta? Não sei… talvez que se Camus pudesse ouvir isto diria, este tipo não entendeu nada, talvez… mas tentei!   

 

29 janeiro 2022

Política, razão ou emoção

A opção que cada eleitor irá tomar este fim de semana deveria ser fundamentalmente racional. Estamos a falar de governar o país, administrar bens comuns, criar riqueza e bem-estar.

Para muitos, porém, é impossível subordinar a emoção à razão. Muitas vezes prima um histórico emotivo associado a uma experiência, um velho sonho ou (des)ilusão, que pela positiva ou pela negativa se impõe às evidencias objetivas. É certo ser impossível e, digamos mesmo, desumano que todas as nossas opções sejam conduzidas sempre e apenas pela mais pura e fria racionalidade. A própria ciência o diz.

Mas, uma coisa é uma opção, um impulso, que apenas impacta o próprio, outra coisa é um voto que determina a forma como a sociedade vai evoluir ou regredir; a responsabilidade é maior e exige um esforço acrescido de racionalismo e maturidade.

01 janeiro 2022

Novo ano


Porque é que marcamos um novo ano, cada ano? Face à linearidade do tempo, necessitamos de marcar ciclos, fazer balanços e projetar objetivos? Talvez.

Um momento de nos miramos num espelho, imperfeito, e avançarmos em direção à luz? Mesmo com passos são frágeis e o terreno não muito claro.

Entre refletir, considerar e valorizar, avançar.

É só mais um ano, mas sendo apenas um, é suficientemente grande. Deixando os balanços, venham os objetivos.

Bom Ano 2022

13 julho 2021

Florentino Ariza


Quis o azar ou a sorte que um destes dias me tenha passado à frente dos olhos uma versão cinematográfica do “Amor nos tempos de cólera” do imortal Garcia Marquez, um dos destaques da minha biblioteca, um daqueles autores que cabe nos dedos de uma mão do topo das minhas preferências.

O filme, entendo que bem feito e agradável de ver, não transmite a intensidade, a exuberância e o génio narrativo de Gabo, mas isso seria provavelmente missão impossível. O enredo está lá e no final reencontramos algo de único e de todos na figura de Florentino Ariza, que espera determinado mais de 50 anos para atingir o seu sonho, neste caso o amor de Fermina.

Acho que um bom livro se pode ler de trás para a frente e também, por vezes, para o lado. E esta determinação em atingir algo, custe o que custar, demore o que tive que demorar é um desígnio que pode não ser exclusivo do amor. Recordo-me, por exemplo, do Quixotesco “sonhar o sonho impossível” de Jacques Brel, não desconsiderando obviamente o original cavaleiro da triste figura.

Será patético e absurdo passar a vida na esperança de um improvável que apenas parece viável ao próprio? Será um desperdício? Talvez sim, talvez não. A ânsia e a busca da beleza, da verdade, da perfeição são uma excelente melodia para o despertador matinal.

Se para a persistência resultar e se atingir o supremo desígnio, é necessário declarar uma situação de cólera e colocar um pequeno mundo em quarentena é outra questão. Há doenças e doenças.

22 abril 2021

Vacinação e opção


Penso que se fossem suspensos todos os fármacos que apresentem riscos de efeitos secundários ao nível dos das vacinas da Astrazeneca e da Janssen, as farmácias ficariam mais de metade vazias e a saúde pública iria ressentir-se fortemente.

Podemos entender que o governo não deva ter a arrogância de impor “Ou aceitas esta, apesar dos riscos, ou vais para o fim da fila”. O que é mais difícil de aceitar é que não se dê a opção a cidadãos adultos, conscientes e não vacinados de decidirem: entre correr esse risco ínfimo ou esperar vários meses pela minha vez, prefiro e aceito correr o risco.

Não faz sentido rejeitar vacinas disponíveis, até baratas (coincidência) e de logística facilitada, quando, eventualmente, há interessados nas mesmas. Não somos todos criancinhas, sob a tutela de um Governo paternalista e autoritário, que nem sequer se dá ao trabalho de ouvir os interessados.

 

16 abril 2021

Mobilidade elétrica

Está feita voz corrente que o futuro dos automóveis passa pela eletricidade, com alguns construtores a anunciarem mesmo o fim dos motores de combustão. Para já, vamos pôr de lado a questão da origem dessa energia elétrica. Em Portugal, atualmente, cerca de 60% é de origem renovável e veremos até que ponto o aumento do consumo será superado pelo crescimento da produção renovável, de forma a a mobilidade elétrica ser efetiva e globalmente zero emissões (e nuclear free).

A questão aqui é do ponto de vista do utilizador “normal”, não aquele que se interessa por monstros “amigos” do ambiente com algumas centenas de cavalos. Vamos imaginar um automóvel elétrico simples com autonomia de 200 a 300 km. Carregar em casa numa tomada standard, poderão ser cerca de 6 km de autonomia por hora de carga; numa noite de 8 horas, ficará pelos 50 km… utilizando uma tomada especifica reforçada (Wall box), depende da potência contratada e do carregador no veículo. Para 7 a 8 KW, serão 20 a 30 km por hora de carga e atingirá os tais 200 km de autonomia no dia seguinte pela manhã.

Se a rotina de utilização for compatível com a carga diária noturna, perfeito. Se pontualmente ultrapassar, mas em contexto conhecido, onde se possa identificar com alguma segurança onde recarregar durante o dia, eventualmente num carregador rápido, também passa. O problema é pensar em aventuras:  “Vou passar um fim de semana ao Alentejo”; “Vou até Madrid”. Aí, será necessário planear muito bem por onde passar, onde dormir e esperar que os carregadores com que se conta estejam operacionais e disponíveis. E não se poderá mudar facilmente de ideias ou de itinerário sem reavaliar a viabilidade.

Pode o futuro mudar com a evolução das baterias. Veja-se o caso dos camiões que para longas distâncias transportariam quase tanto peso de carga útil como de baterias. Pessoalmente tenho dúvidas quanto a assistirmos a um desenvolvimento espetacular na área tecnológica, neste campo. Talvez fosse mais interessante atingir alguma estandardização e, por exemplo, trocar de bateria de vazia para carregada, como se troca uma botija de gás. Talvez mais promissor possa ser o hidrogénio, mas ainda é cedo.

Neste contexto tecnológico e com o balanço do consumo de energia elétrica/produção de renováveis longe de estar garantido, parece-me pouco fundamentada esta vaga radical de decretar a morte dos motores de combustão.