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27 maio 2016

Um mau enredo


M. nunca conhecera o pai. Este abandonara a família cedo e também cedo a sua mãe caíra em demência. Fora educado com grande esforço por uma irmã mais velha. A namorada, com estudos e tudo, era de boas famílias e nunca aceitariam um casamento de sogro incógnito. M. lançou-se na busca do pai, descobriu-o no outro extremo do país, e este aceitou perfilha-lho, mesmo sem nunca se terem encontrado.

M. arranjara trabalho e tudo se encaminhava para começar uma nova vida e uma nova família. Dois dias depois de entrar em funções, recebeu a notícia de que o pai está muito doente, lá do outro lado do país, e lançou-se à estrada, no veículo da empresa, Pretendia vê-lo pela primeira e pela última vez, após uma viagem de noite inteira. Sensivelmente a meio do percurso uma árvore de grande porte interrompeu a viagem e a vida de M. Simultaneamente a sua irmã-mãe deu à luz uma criança a quem chamará M.

Parece um mau argumento para uma novela de 3ª classe, não é?

Pois parece, mas pelo menos uma boa parte não é ficção. Fui eu quem assinou o contrato de trabalho e lhe desejou boa sorte ao entrar em funções. Dois dias depois da sua morte, fui visitar a família. No átrio de entrada do prédio estava a urna que tinha transportado o corpo ao cemitério. Lá em cima no apartamento, a namorada de boas famílias, uma mãe demente, uma irmã lutadora e uma criança de dois dias chamada M.

(Foto furtiva da zona onde ocorreu o acidente.)

02 fevereiro 2016

Princesa, Perdão e Vida 2016


Numa altura em que um estúpido politicamente correto leva o feminismo europeu a fazer vista grossa ao que não devia, fui rever e retocar um texto antigo.
A minha singela homenagem a tantas legítimas vontades silenciadas.

16 novembro 2014

A Força da Razão


Última publicação aqui.

Colecção aqui.

Nota; Há um ponto de contacto entre uma parte da narrativa e alguns acontecimentos recentes, Ela já estava estruturada e parcialmente escrita antes de esses acontecimentos serem notícia. Tentei desligar um pouco o contexto, mas enfim.. fica assim

18 agosto 2012

Escrita em sicronização lenta

Na sequência da publicação anterior, lembrei-me de um belo texto de uma grande autor: “Ne me quittes pas” de Jacques Brel. Para lá da beleza, delicadeza, emoção e força tremendas, que fazem a obra de Brel uma espécie de património cultural da humanidade, pode-se discutir se faz sentido um homem (ou uma mulher) reduzir-se assim por amor, para não perder um amor, a ser uma sombra da sombra, sombra da mão, sombra do cão. Mas essa leitura na qual há um interlocutor concreto, de quem só falta referir o nome próprio, é a simples e imediata, a da fase do flash.

Se deixarmos o obturador aberto um pouco mais, pode-se ver outra coisa, na minha opinião. Jacques Brel pode não estar a falar a um amor mas sim ao amor. A quem ele pede para não o abandonar não será uma Mathilde, Marieke ou Isabelle concretas. Pode estar a referir-se à capacidade de se emocionar, de se apaixonar, de se recriar e de, amanhã, encontrar uma Mathilde, Marieke ou Isabelle. De umas entrevistas suas que vi, com a visão dele sobre o amor e amantes, não me parece nada improvável que isso estivesse presente quando o escreveu. Como leitor tenho toda a liberdade de o ler desta forma e é também isso que distingue as boas histórias dos relatos. E, sendo assim, aceita-se melhor aquela história de fazer tudo, mesmo tudo, até passar a ser sombra da sombra, não será?

15 agosto 2012

A dinâmica da escrita



Complemento:

Não, o trocadilho dos livros e dinâmica não fica por aquela imagem. Antes de mais, ela foi feita com flash em sincronização lenta, o que quer dizer durante o tempo de exposição há um momento em que o flash dispara, apanhado o que está ali ao seu alcance, e depois mais um tempinho em que se regista algo mais, já sem flash. A aplicação típica é fotografar algo em primeiro plano pouco iluminado e juntar um fundo. Neste caso aqui, desloquei propositadamente a câmara após o flash disparar e, portanto, há uma imagem mais ou menos clara da fase flash e um correr difuso da segunda fase.

O que tem isto a ver com escrita? Muito. O bem contar uma história tem a parte factual, com iluminação franca e directa e depois o que se descobre e se advinha subtilmente….

01 abril 2012

26 janeiro 2010

Compulsos (1)

Bem-vindos! Bem-vindos a este círculo dos compulsivos. Todos temos pulsões e compulsões, apenas a sua natureza e ponderação muda. Se as misturarmos e as distribuímos na boa medida, seremos todos normais.
- Eu, eu tenho a compulsão de olhar para a televisão em qualquer lugar. Na cozinha, na sala, no quarto de dormir, no de banho. Já instalei uma, é ilegal eu sei, no carro e agora tenho uma portátil na bolsa que vai zumbindo enquanto caminho e, de vez em quando, paro e pego nela para ver o que está a dar.

-Eu – desta vez um homem – tenho a compulsão de... de... como dizer assim em público – e ruborizava – como dizer... Acho demasiadas mulheres demasiado atraentes e penso .. penso.. penso...

- Eu – dizia uma coquete com um toque de desprezo apelativo dirigido ao anterior interveniente – eu não passo um dia sem comprar uma coisa de que gosto. Uma loja, uma montra... ai, ai, ai!...lá me apaixono sempre.

- Eu – novamente no masculino – eu, eu não consigo ver um automóvel à minha frente sem ter o impulso de o ultrapassar!

Sonolento ele via passar um desfile de pancadas banais e menores, desligando detalhes. Não é que quisesse mesmo ser normal, normal. Apenas um pouco menos compulsivo. Ia divagando e imaginando coisas normais até o moderador o acusar de estar a quebrar o círculo. Foi nessa altura que ela falou. Aliás, era das pessoas que para muita coisa nem necessitava de falar. Um simples olhar colocado e tudo parava à sua volta.

- Eu – dizia ela – não consigo ver um papel sem desenhar. Guardanapo, jornal, livro, embalagem. Em todos eles me debruço e me despejo.

A senhora das compras perguntou se ela também riscava catálogos de lojas e a da televisão reconhecia que também gostava de pôr estrelas no guia da TV, conforme a sua avaliação dos programas que via.

Ela não respondeu e olhou para ele passando-lhe, inapelável, a palavra.
Continua para

10 agosto 2009

Ainda história de histórias

Continuando com a história sobre histórias e que nem era uma história, avanço com uns complementos para a teoria:
  • Quando não há história de suporte e apenas lá está a conceptual, é um poema;
  • Quando a capacidade de síntese é elevada e a história factual é minimizada, fica um conto, uma espécie de poema em roupagem mais macia;
  • Quando uma história tem centenas de páginas que se esgotam ao dobrar cada uma, é um escrito de um jornalista que julga ser romancista.

02 agosto 2009

Contar uma história

Não é que eu o tenha estudado, é apenas um palpite. Acho que bem contar uma história tem vários níveis e planos.

Há a história de suporte, a factual. A parte narrativa: abriu a porta, disse isto, olhou para acolá. É a parte que gasta tinta e papel.

Há a história de fundo, a conceptual. Não se escreve directamente, é derivada da factual de suporte.

Há as marcas. Referências que vão ancorando a história de suporte e deixando bandeiras para a delineação da história de fundo.

Uma escrita somente com relato factual por mais elegante e clara que seja é apenas uma reportagem. A boa escrita é aquela que vai deixando marcas criteriosamente e cirurgicamente para no final: clique. De um momento para o outro revela-se o conceito de fundo e completa-se o quadro. Pode até nem ser uma grande conclusão filosófica nem uma suprema evidência estética. Tem é que ter algo que sobressai claramente e permanece depois de passada a última página. Como o travo final que fica na boca depois de um bom vinho ter descido pela garganta.

E terá ficado algo no fim desta pequena história?