21 outubro 2017

Novo cavaquinho, outra vez!


Em 1981, Júlio Pereira fez o país redescobrir o cavaquinho, para muitos apenas um instrumento de aspeto engraçado e em termos de potencial mal conhecido, dado o estado vegetativo em que aparecia nas tocatas folclóricas, dominadas pelo infestante acordeão.

Seguiu-se a viagem pela braguesa, pelo bandolim e o arriscando uma passagem pela mistura com a eletrónica no memorável “Cádoi”. Depois de várias outras viagens, o cavaquinho.pt em 2014, volta a marcar. Poucos como Júlio Pereira souberam ir buscar o tradicional, fazê-lo viajar e tratá-lo sem simplificações grosseiras nem sofisticações extravagantes. É autêntico, elaborado e com respeito pela identidade da música portuguesa genuína.

Por estes dias saiu à rua um novo marco: “Praça do Comércio”. Mais uma corrida, mais uma viagem e parabéns. Se há 36 anos atrás, Júlio Pereira nos fez redescobrir um instrumento, acho que ele agora inventou um novo, construtivamente igual, mas tratado de forma diferente e sempre cavaquinho, outra vez.

17 outubro 2017

Sobre as naus que não haverá


Se houvesse a escolher cinco locais naturais do país a proteger a “qualquer custo”, certamente que o pinhal de Leiria estaria nessa lista. Não apenas pela dimensão, pela função de estabilização do terreno numa parte daquela longa faixa litoral arenosa, que sem vegetação pareceria um deserto, mas, obviamente e também, por “a plantação de naus a haver” ser simbolicamente cadinho e berço de sonhos e aspirações.

O pinhal não estava dividido, com um canto do Manuel em Lisboa, uma tira do António no Luxemburgo e uma leira de uns herdeiros desentendidos quanto a partilhas (também não tinha eucaliptos…). Estava todinho à disposição do Estado.

Se há sítio onde podia e devia haver uma gestão e um ordenamento florestal irrepreensíveis seria ali. Avisos tinham saído de que a falta de limpeza e tratamento podiam proporcionar uma calamidade. Agora, resta-nos esperar serenamente pelas conclusões de um mui provável inquérito “post-mortem”. As notícias de que “faltava verba” para gasóleo, a ser confirmada, é assustadora, mas, realmente, não se pode ter tudo. O cumprimento do défice implica sempre prioridades. E pode-se reverter esta calamidade, senhores?

Será certamente replantado, não sendo necessário um D. Dinis bis para isso, mas a imagem acima de Hélio Medeiros do pinhal a arder, ficará na nossa memória associada à mediocridade e incompetência do desgoverno neste país, cada vez mais incapaz de sonhar com naus a haver. Tristeza.

16 outubro 2017

Continua a falhar


Há exatamente uma semana, eu questionava aqui o que é que falhou nesta época de incêndios de 2017, que “ficará para a história como um ano de recordes e já só pedimos que demore muito tempo até serem batidos”.

Infelizmente o recorde não estava fechado, nem em área ardida, nem em prejuízos materiais, nem em número de vítimas mortais. Sim, uma boa parte dos incêndios terá origem criminosa (como sempre tiveram), sim, o domingo foi um dia meteorologicamente excecional… sim, mas, entretanto, também ficamos a conhecer o relatório independente sobre a tragédia de Pedrogão.

É claro que não foi feito “todo o possível”. É impressionante como funcionou quase tudo mal. Até mesmo os políticos não entenderam que não atrapalhar, já pode ser uma ajuda. Não estamos à espera de soluções milagrosas, que o PM recorda serem impossíveis; não aceitamos que coisas desta natureza fiquem à mercê das populações isoladas, como sugeriu o secretário de Estado e quanto às férias que a ministra não teve, talvez a diferença não seja grande.

Organização, seriedade e competência, pode-se pedir? Ou isso releva já do domínio do milagroso, nos tempos que correm? E fico por aqui, dado que a seguir só conseguiria acrescentar palavrões feios.

PS1: Desde Pedrogão até hoje, alguém viu uma campanha de informação estruturada sobre o que fazer e o que não fazer em casa, no carro ou na praia quando houver um incêndio por perto? Eu não vi, mas posso ser eu que ando distraído.

PS2: Se ainda não choveu e as temperaturas continuam elevadas, à medida que o tempo passa a vegetação estará mais seca e o risco de incêndio será maior, certo? Então porque se reduzem os meios disponíveis? Somente porque mudou o nome do mês no calendário?

15 outubro 2017

Antes e depois ?


Sócrates e companhia ainda não foram julgados e condenados ou absolvidos, total ou parcialmente, mas a lista e o detalhe do divulgado torna difícil acreditar na candura e inocência do individuo e cia. Aliás, o padrão de vida demonstrado pelo ex-PM era claramente incompatível com os rendimentos visíveis e, como se diz, quem cabritos vende e cabras não tem… O simples facto de um ex-PM viver de largos empréstimos informais, vindos de uma empresa privilegiada pelo Estado quando este era governante, já chega para moralmente caraterizar a situação.

O caráter pornográfico do que lemos, ainda por cima vindo de uma “esquerda” supostamente solidária e pouco amiga do “capital”, é avassalador. Obviamente que a “direita” também terá os seus milhões tresmalhados e, muito provavelmente, se Ricardo Salgado resolver contar tudo o que sabe, poucos se salvarão.

De todas as formas, está aqui em causa algo de concreto que foi investigado e acusado. Obviamente que esta escala não se esgota ao nível individual de Sócrates. Com maior ou menor cumplicidade os restantes responsáveis políticos desse período dificilmente serão estranhos, por ação ou omissão, ao que se passou. Muita gente deve estar, como se diz, que não lhe cabe um feijão…

Ignorando quando e como o processo acaba, fica a esperança. Que, a partir de agora, tenham mais medo e menos descaramento na hora de me/nos roubarem.

PS1: Eu também achava que os anos troika teriam um efeito didático quanto ao Estado gastar, gastar e depois logo se ver, mas enganei-me.

PS2: Eu também achava que toda a gente reconhecia Santana Lopes como mais incompetente e mal preparado PM que tivemos, mas enganei-me.

14 outubro 2017

Soluções


Foram notícia esta semana as complicações com a redução da frota operacional da Soflusa e a empresa pediu aos utentes (clientes?) para viajarem à hora que serve a empresa e não os próprios. Quem costuma utilizar o Metro de Lisboa, também já está perfeitamente habituado à rotina das “perturbações na circulação”. Não vou dizer que se estas situações ocorressem com os serviços concessionados, já alguém estaria a ser vergastado em praça pública, mas… se calhar.

A solução proposta pela Soflusa não serve, dado que se, realmente, há muita malta com flexibilidade de horário formal ou informal, não é suficiente. Normalmente, o pessoal precisa de cumprir horários, minimamente.

Abraçando este espírito de que tudo se resolve facilmente, avanço uma sugestão: fazer um rodízio! Já que se reduziu o horário da função pública para as 35 horas, teoricamente sem impacto nenhum, era só mais um bocadinho. Como nas cidades poluídas e/ou excessivamente congestionados, onde há matrículas bloqueadas conforme o dia da semana; era fazer o mesmo com os funcionários públicos. Aqueles, cujo número de cartão de cidadão terminasse em 0 ou 1, não trabalhavam à segunda-feira; em 2 e 3 à terça-feira e por aí fora!

Há o risco de isto ser considerado uma forma de assédio, tal como há quem ache que a PT mandar para casa (continuando a pagar) quem não tem lá que fazer, não é correto. Enfim, o mundo não é perfeito.

12 outubro 2017

O que os espanhóis adoram


O El País publicou um artigo sobre “o autarca corrupto que os portugueses adoram” e enganou-se, não na primeira parte da frase, mas na segunda. Quem adora, ou pelo menos confia, em Isaltino são os finórios de Oeiras. Não são os portugueses na generalidade, mas o título “funciona” melhor assim! Seria interessante, e diria que jornalisticamente quase obrigatório, se também fossem referidos os casos paralelos de Valentim e Narciso, a quem os respetivos eleitores, aparentemente, não adoraram.

Dentro da imprensa internacional que consulto com regularidade estão o “El Mundo” e o “El País”, de sensibilidades diferentes, como convém. Notícias sobre Portugal, para lá das obrigatórias, como no dia depois de umas eleições, fundamentalmente só de desgraças e vergonhas. Não vou dizer que os espanhóis apenas se interessam pelo que se passa em Portugal quando é negativo ou caricato… mas quase. Pues, hermanos seremos. E que passem bem.

11 outubro 2017

A Catalunha e os donos da razão



Independentemente da contabilidade de razões e erros de parte a parte, tomar decisões com o impacto das que foram tomadas recentemente na Catalunha, com base no que se passou a 1/10 é coisa de "donos da razão". São uma espécie para quem os “errados” têm apenas o ténue direito a existir e a calar, já que serão inimigos mal-intencionados ou, no melhor dos casos, mal-esclarecidos. Mesmo que exista uma maioria de “errados”, de opinião diferente, primará a visão de que estão “errados”.

Para os donos da razão, só há um caminho possível, o deles, o “certo”. O que se pise e destrua para lá chegar, é irrelevante, face ao grande desígnio final. Democracia e respeito pelas instituições valem enquanto servirem os objetivos; se se tornarem um obstáculo, será necessário tirá-los do caminho, como se faz a qualquer coisa que se atravesse na nossa frente.

Os donos da razão tornam-se muito perigosos quando chegam ao poder. Nesta Europa, com a subida dos extremismos, os partidos tradicionais começam a sucumbir à tentação de vender uma parte da alma ao diabo. Mesmo sendo parcial, essa transação envenena espíritos e destrói a cultura democrática e de respeito pelas minorias (já sem falar das maiorias). Que impere o bom senso e se guardem os valores de tolerância e os princípios garantes da liberdade que tanto prezamos. Senão, entraremos em tempos sombrios.

09 outubro 2017

O que é que falhou?


9/10/2017, A23, 8h da manhã. Já ficou para trás a zona calcinada do incêndio de Pedrogão, encostada à margem leste desta autoestrada. Por alturas de Ferreira do Zêzere o Sol levanta-se, mas não brilha. Está filtrado por uma neblina de fumo e mostra-se laranja.

Estamos quase a meio de outubro e ainda temos incêndios a travar o Sol. Sim, serão criminosos, uma boa parte, como sempre foram; sim o ano foi excecionalmente seco, como pode constatar quem pisa caminhos florestais; sim… mas estar-se-á mesmo a fazer “todo o possível”?

Uma coisa é certa. No que diz respeito a incêndios florestais e respetivas consequências, 2017 ficará para a história como um ano de recordes e já só pedimos que demore muito tempo a serem batidos, como também achávamos que em outubro a estatística estaria já fechada.

Sim, que os 64 mortos foram devidos a um conjunto de circunstâncias excecionais, mas … quando o mar está calmo, qualquer um sabe navegar; quando as coisas se complicam é que as organizações e as competências são postas à prova e se distingue o capaz do incapaz.

Será possível haver uma avaliação séria do que realmente não correu bem, sem se desatar na gritaria e nas etiquetas do pafioso para cima e chuchialista para baixo? Tudo o que de terrível aconteceu nas nossas matas em 2017 merecia mais respeito e, no mínimo, esclarecimento. Provavelmente não acontecerá, porque o esclarecimento pode trazer responsabilização, algo que não combina muito bem com quem tem o poder (e o dever) de esclarecer.

Outra coisa é certa. Enquanto a nossa floresta continuar a ser um potencial barril de pólvora que arde por fatalidade, ao contrário do que acontece noutros países de clima idêntico, dificilmente haverá confiança para por lá se lançarem projetos de investimento e ingénuas boas intenções são manifestamente insuficientes.

07 outubro 2017

Independência para…?


Sim, o referendo não foi constitucional; sim, não era necessária tanta violência para o impedir, esta até ajudou a causa separatista; sim, assumir como válido o resultado de tal palhaçada, onde cada qual votava onde lhe apetecesse e quantas vezes quisesse, é digno de uma república das bananas… Sim, mas passando ao lado destes aspetos relevantes e indo ao fundo da questão.

O que é que a Catalunha ganha objetivamente, talvez, com a independência …? Considerando que não reduz a criação de riqueza local, deixará de a repartir com as regiões mais desfavorecidas de Espanha. Parece-me uma causa digna dos defensores de uma supremacia racial, um egoísmo a roçar a xenofobia, donde que não entendo como a extrema-esquerda apoia isto quando, em princípio, eles terão a solidariedade no seu ADN. Ganhará a pureza de fugir à corrupção que grassa em Madrid? Deixa-me rir…!

O que é a Catalunha perde com a independência? Muitíssimo. A integração em Espanha e na Europa, e, sobretudo, a confiança para o investimento numa região conduzida pelo “povo na rua”, secundarizando as normas escritas. Ou acharão eles que a suposta supremacia laboral, moral, etc e tal da nação catalã é tanta que a visão exterior não sairá afetada por estas trapalhadas? Uma pequena curiosidade, apenas ilustrativa: o excitado FC Barcelona que campeonato e troféus iria disputar? Um pequeno detalhe, enorme: o que custará a uma Catalunha isolada construir acordos comerciais com o resto do mundo, presumindo que não pretenderão viver “orgulhosamente sós”?

Pedir/exigir independência unilateralmente, porque queremos e logo se verá, sem uma avaliação e um enquadramento mínimo para a fase transitória e a seguinte, é digno de anarquistas. Alguns acham giro e excitante isto do anarquismo, mas não dá de comer a ninguém, pelo contrário, costuma trazer fome. Então, uma das regiões mais ricas de Espanha e da Europa, está a ser pilotada por anarquistas? Assim parece.

03 outubro 2017

Ufa, acabou? Não, começou!


Ufa, acabou! Acabaram os contactos “atentos” com a população, a escuta das forças vivas e dos seus anseios, as inaugurações em maratona, as jantaradas de apoio e de homenagem, o campeonato dos afetos e tudo o mais. Acabou também o desinfetar diário das bochechas de tanta beijoca lambuzada, as ameaças de tendinite da entrega das esferográficas e o aumento alucinante das contas da lavandaria, de tanta nódoa carimbada por abraços efusivos. Acabou, mas principalmente começou, porque agora: “O Prasidente, sou eu!“.

Isto passa-se numa vila ou numa cidade, no interior ou no litoral, à esquerda ou à direita. Durante os próximos 3 anos e 9 meses, o “Prasidente” vai mandar. Podem chiar, podem rosnar e barafustar tudo o que quiserem. A partir de agora, não há despesinha da autarquia sem a bênção do “Prasidente”. Isto tem que ter regras e, está claro, muito respeito. Livrem-se de faltar ao respeito a um eleito, democraticamente eleito, pelo povo.

Podem chiar, podem rosnar e barafustar tudo o que quiserem. Durante três anos e nove meses o “Prasidente” vai mandar e quem não gostar, paciência. Convém não criticar, sobretudo se tiverem umas contazitas a receber da autarquia. As esferográficas, tão abundantes na campanha, podem tornar-se raras e complicar-se a assinatura do chequezito.

Os experientes no assunto sabem bem como isto funciona. Os ressentimentos limpam-se e tudo se recupera, tudo se resolve na devida altura com umas festas, inaugurações, jantaradas, porcos no espeto, camisolas e esferográficas. Basta três meses antes das próximas eleições, não é preciso mais. Até lá, as forças vivas que sobrevivam, cada qual que faça pela sua vida. Isto passa-se numa vila ou numa cidade, no interior ou no litoral, à esquerda ou à direita.

02 outubro 2017

Grande Porto, pobre Oeiras


Rui Moreira ganhou com maioria, confirmando que a sondagem onde aparecia empatado com Pizarro era mesmo assaz enviesada. Para esta vitória ajudou a espécie de desistência do PSD, mas se pensarmos na forma despudorada como certa comunicação social passou a atacar o candidato depois do divórcio com o PS e nas maquinações da máquina deste partido, só se pode dizer que, mais uma vez, a cidade do Porto mostrou que não vai em futebóis.

Oeiras foi pragmática. Aparentemente, rendou-se ao “roubo, mas faço”. Neste caso das autarquias, este (esta falta de) princípio tem uma particularidade. Os fundos vêm do país e o beneficiário é o concelho. Rouba-se a todos e faz-se para os nossos. De realçar que Oeiras não é uma terreola perdida, tosca e atrasada, submetida ao poder de um cacique local ou onde possa funcionar uma cumplicidade tribal, muito pelo contrário! Vergonha para vocês, eleitores de Oeiras.

27 setembro 2017

Não havia necessidade…


Faz-me bastante impressão essa coisa da teoria do género, assim como que se masculino ou feminino, ou ambos ou nenhum, fossem uma coisa mais do sentimento do que natureza. De ciência, já ouviram falar? De genética, de cromossomas e afins, que demonstram claramente que o masculino/feminino tem diferenças para lá da dimensão emocional ou cultural!? É que não me consta ter ocorrido uma mutação genética da nossa espécie, de forma a não haver mais XX e XY e agora ser toda a gente “tipo ZZ”.

Há partes do mundo em que a homossexualidade é crime castigado com pena de morte, noutros simplesmente dá direito a umas chicotadas ou vergastadas. Pelas nossas paragens, é certo que ainda é encarada com menosprezo e ironia por muitos, e assim será durante alguns tempos, mas tenho sérias dúvidas de que isso se resolva com (mais) legislação, até porque em termos de enquadramento jurídico, efetivamente, já não há muito mais a fazer.

Como me parece que a evolução que falta é mais de mentalidade do que de polícia, é mais de falar e convencer (eventualmente de envergonhar) do que de decretar, tenho dificuldade em entender como não param as iniciativas legislativas e este constante inventar, inovar e estar à frente nos chamados temas fraturantes. Temas “solidarizantes”, não, não estão “in”. O que está “in” é fraturar, assim tipo puto rico e reguila, a quem dá gozo partir os vidros do carro do papá.

A proposta de lei apresentada de qualquer um, aos 16 anos, poder escolher, por si próprio sem mais, o género que quiser, como quem escolhe a cor do cabelo, parece-me de uma irresponsabilidade e de uma ligeireza atrozes, isto para não usar palavras mais fortes. Andamos a brincar com o quê, pessoal?!

26 setembro 2017

Como é que isto vai acabar?


Desde que o parlamento catalão votou a realização de um referendo pela independência e o poder central o julgou ilegal, em sede de Tribunal Constitucional, que muitas cosas estranhas se passam por ali.

As autoridades de Madrid, querem fazer aplicar a lei, doa a quem doer. Os independentistas parecem estar borrifando-se para isso e acham que a vontade do povo (pelo menos duma parte, da deles…) é soberana. Vimos assim saírem ordens de prisão para todos os que organizarem, promoverem ou divulgarem o referendo e vemos autarcas, membros do governo local e até mesmo forças da ordem (os “Mossos”) a ignorarem determinações de juízes!

Estamos num ponto onde uma discussão e um debate razoável e civilizado já não parecem possível. Não sei julgar onde está a “culpa” maioritária ou minoritária, se na arrogância centralizadora, se no menosprezo pela lei dos separatistas. É certo que a História passa por vezes por saltar as leis, mas duvido muito que isso seja válido/necessário no enquadramento atual.

Vale tudo, até dizer que os governantes catalães interrogados, são presos políticos! É curioso ver alguém outorgar-se o direito de ignorar uma deliberação do poder judicial e a seguir queixar-se de sofrer uma suposta violação do Estado de Direito (que formalmente até não existe). O achar que as leis são para cumprir apenas quando no nosso interesse, é o princípio de uma coisa muita feia.

Em Portugal não temos uma Catalunha (parcialmente) assanhada, mas esta lógica (e esta lata) de alavancar poder com argumentação falaciosa que não resiste a duas simples perguntas, parece ser moda e, pior, eficaz, já que a tática é não responder objetivamente a perguntas, mas apedrejar argumentos. A ligeireza irresponsável, a arrogância intelectualmente desonesta e o faciosismo tribal, não auguram nada de bom para a futuro da liberdade e da democracia, nem na Catalunha nem aqui.

24 setembro 2017

Coração verde de Arcozelo


Quem olhar para uma imagem satélite da freguesia de Arcozelo, encontra apenas três manchas verdes com alguma dimensão. São o campo de golfe de Miramar, a zona da quinta de Enxomil, já no limite com Gulpilhares e, muito centralmente, o que resta daquela área fechada à circulação e à urbanização, entre os restos da quinta do Terreirinho e o rio Espírito Santo. É evidente que, a dar uma zona verde ao público, esta última será melhor localizada e viável. Digamos até que está mesmo a pedir.

Em tempos, na sua zona superior, existiu um circuito de manutenção, do qual, ao longo dos anos, curiosamente só sobreviveu a sinalética na rua principal. Do mesmo, tudo desapareceu e até as infraestruturas de apoio têm o estado constatado na foto acima. Não é mau de todo. Pior seria se em vez dos cogumelos que por lá crescem, tivessem nascido T2 e T3s.

Entre a A29 até à N1-15, mas muito especialmente da igreja para cima, o Rio Espirito Santo é um corredor escondido, que já percorri, e que pode ser um eixo estruturante de um “Arcozelo Verde”, desfrutável, logicamente não urbanizado e escapando ao abandono a que foi votado durante todos estes anos, cujo único mérito foi não ter estragado. Imagens abaixo.






19 setembro 2017

De spin a screwed


Não tenho nenhuma simpatia pelas máquinas de propaganda, que agora se chamam de “spin”. É um nome mais chique, mais “in”, usam ferramentas mais sofisticadas, mas os objetivos basicamente são os mesmos: influenciar e moldar a perceção da opinião pública. Podem argumentar tratar-se simplesmente de “realçar” uma perspetiva … mas a prática é muitas vezes pura e simplesmente enganar descaradamente. Enganar é feio e muito principalmente quando os mandantes são entidades públicas e governamentais, com responsabilidades éticas acrescidas face ao comum dos mortais. Por outro lado, em geral, há uma relação entre a necessidade de propaganda e o autoritarismo dos regimes. Quanto mais feios são, de mais maquilhagem necessitam.

Um destes dias a Bell Pottinger, multinacional de “Relações Públicas” e “Gestão da Reputação” baseada em Londres estourou e faliu. Criada em 1987 por Sir Bell, o spin doctor favorito de Margaret Thatcher, eram bons e especiais. Corriam o risco de atender clientes delicados, como a fundação Pinochet, a primeira dama da Síria, o ditador da Bielorrússia, os governos do Egito e do Bahrain, etc. Que fizeram eles, então? Aceitaram e executaram uma encomenda, com origem ligada ao poder na África do Sul, cujo objetivo era provocar agitação social, explorando as questões raciais. Isso mesmo... aumentar a tensão racial, na África do Sul e pago por próximos do poder em exercício. Mesmo isso!

Felizmente, isto passa-se no Reino Unido, onde a diferença entre os princípios e a prática não é tão grande como noutras paragens e a associação de empresas do sector baniu-os, provocando a sua queda, merecida. De tanto fazerem “spin”, acabaram “screwed”. In portuguese: de tanto enrolaram, acabaram enroscados (ou uma palavra mais feia).

Palpita-me que não será assim um caso tão único e dá para ter uma ideia do que (não) vai acontecendo por este mundo, graças à propaganda e à manipulação. A solução? Ser prudente, não acreditar em tudo à primeira e, sobretudo, diversificar as fontes (fica o problema de muitas vezes, sem saber, estarmos a ouvir apenas vários ecos da mesma fonte).

18 setembro 2017

Pafiosos serão!


Ainda não percebi bem o contexto da contestação dos enfermeiros, mas já me apercebi que alguns, que percebem tanto quanto eu, já decretaram que são todos uns pafiosos, o que tem toda a lógica, já que essa designação engloba qualquer um que conteste ou questione a bondade do nosso atual governo, independentemente dos motivos ou da (in)justeza do desacordo.

Não que devam ser cancelados os direitos cívicos dos membros de tal corja, mas não se perdia nada. Penso que ainda não foi aventado o possível envolvimento da CIA, como no caso da exotérica sublimação das armas de Tancos, nem a cumplicidade da Justiça que, cada vez que investiga alguém da tribo sagrada, é porque pafiosa será.

E, já agora, este problema com os enfermeiros não tem nada a ver, em grande parte, com aquela garantia de que repor as 35 horas para a função pública não teria custos acrescidos para o Orçamento?

17 setembro 2017

Andores de Santa Tecla

Fica na margem esquerda do rio Neiva, já relativamente próximo da foz. Uma simples capelinha num pequeno sobressalto de terreno verdejante e arborizado, com o bucólico rio ali a seus pés e uma presa e respetiva azenha logo acima. As minhas primeiras aventuras remadoras, muito incipientes, foram ali.

Um destes dias, depois de alguns quilómetros a pedalar e quando serpenteava às escondidas com o Neiva desde Forjães passei lá, vi uns andores cá fora, à sombra das árvores, generosamente floridos e marquei regresso para a tarde, devidamente equipado.

Lá estava uma banda de respeito, curiosamente com alguns músicos que já vi a tocar em orquestra sinfónica, as criancinhas representando as várias Nossas Senhoras e as autoridades, esperando para participarem e abrilhantarem a procissão. Uma festa como deve ser. Curiosamente, cruzei-me com e encarei o presidente da câmara, que conheço dos cartazes. Fez um cumprimento de quem me conhecia, apesar de eu não aparecer em cartazes, e, educadamente, respondi. Aparentemente, isto andar com duas câmaras aos ombros inspira respeito aos políticos!

Bonita a festa… Mais detalhes dos andores aqui.

16 setembro 2017

Entre amigos, tudo se resolve

Veio a público recentemente mais um caso de um licenciado “expresso”, também lhe poderíamos chamar licenciado “low effort”, fenómeno não específico de uma cor partidária. Antes que me chamem pafioso, podem procurar por Miguel Relvas neste blogue, se quiserem, é claro. Para lá da situação concreta, destas licenciaturas de favor, leio aqui um problema muito mais vasto do que as dezenas ou dúzias destas habilidades. Diz-se que quem tem amigos não morre na cadeia e, sem chegar a tanto dramatismo, pode dizer-se que para quem tem bons amigos, tudo se resolve.

Se tudo se resolve com esta facilidade e facilitismo quando está em causa uma formação superior, onde ainda existe bastante formalidade, imaginem a quantidade de coisas resolvidas entre amigos, quando as supostas exigências não têm este nível de formalismo.

Aqui, concretamente, estamos a falar da Proteção Civil, que, apesar de usar uns coletes catitas, teve uma prestação péssima nos incêndios de verão, com um inédito número de vitimas mortais, uma brutal área ardida e muita descoordenação evidente. Teria acontecido o mesmo se em vez de dirigentes amigos frescamente nomeados, fosse liderada por gente escolhida por outro critério como a competência, mesmo não sendo amiga?

Pois, não sabemos, mas o mais assustador é não estar em causa apenas a Proteção Civil. Receio estarem em causa todos ou praticamente todos os organismos públicos. E, assim, obviamente, não vamos lá (e a culpa disto não é de Berlim nem de Bruxelas).

14 setembro 2017

E a Esquerda em regressão de princípios

Supostamente, a esquerda está associada a uma perspetiva mais humana da governação, mais amiga dos desfavorecidos, mais crítica do grande capital e socialmente mais generosa. Esta visão dá-lhe uma certa aura de ser mais justa, mais bondosa e daí aquela postura de superioridade moral. Somos amigos e defendemos os desprotegidos; somos inimigos e denunciamos os abusadores que enriquecem à custa do seu semelhante. Obviamente que os eleitores não entendem nada disto, ou então votam conforme as instruções do senhor Abade, já que a repartição dos seus votos não parece estar minimamente alinhada com a percentagem real de explorados x exploradores.

A direita, que só não foi declarada inconstitucional em Portugal em 1975, mas pouco menos, supostamente é impiedosa, socialmente insensível e focada fundamentalmente na criação da riqueza, pouco preocupada com a sua distribuição justa.  No entanto, distribuir é sempre fácil, qualquer um pode fazê-lo, basta assinar os cheques. Criar é um pouco mais difícil, sobretudo atualmente quando já não chegam riquezas das colónias e temos a concorrência de países mais pobres.

A esquerda continua a arvorar a sua suposta superioridade moral de princípios e a apelar às almas bem-intencionadas, mas tem um grave problema na prática. É ser tão corrupta, autoritária e arrogante como outra qualquer. Estas imoralidades, configurando uma exploração despudorada dos cidadãos contribuintes indefesos destrói completamente a tal imagem de marca, diferenciadora.

Numa fase em que já não vivemos nos tempos das minas miseráveis e quando a esquerda “original” marxista pura e dura provou e reprovou amplamente em vários continentes, que tem a esquerda a propor de sério? Apenas uma alternativa de poder pelo poder? Está bem, mas então não se proclamem moralmente superiores aos demais e … sejam democráticos, que quer dizer respeitar a diversidade. 

13 setembro 2017

A Esquerda em regressão democrática

É um título que certamente dará direito a etiquetarem-me de pafioso e outros mimos, mas adiante…

Desde há vários anos que os partidos do poder em Portugal (e não apenas) se tornaram bastante próximos nas suas práticas (incluindo nas más). Em parte, por acomodação, mas, na minha opinião, fundamentalmente por o modelo social em que vivemos estar estabilizado e poucos estarem verdadeiramente interessados em aventuras extremas. Há quem vote em extremistas, mas, muitas vezes, apenas como protesto e com a convicção e a esperança de que estes nunca chegarão mesmo ao poder. 

Depois das eleições de outubro de 2015 algo mudou. Temos um governo de “esquerda” que, supostamente, estará a implementar politicas significativamente diferentes das do consulado de “direita” anterior. Ora bem, isto é um embuste. O governo sob a troika foi o que foi e seria o que foi, independentemente de quem governasse – vejam o exemplo do bravo Tsipras. Os tempos estão substancialmente melhores do que em 2011, permitindo algumas flores, algumas faturas das reversões chegarão, mas estamos na fase do folgar as costas. 

O que me choca neste momento é que no frenesim de “afirmar uma diferença”, muito mais de contexto do que de “política” (ou a bancarrota de 2011 foi devida à conjuntura internacional e as melhorias de 2017 fruto desta governação?), não há um mínimo de serenidade e de seriedade na discussão pública. Vai tudo a pontapé. Passos Coelho, por quem não tenho apreço especial, é depenado todos os dias (se está politicamente morto, podiam deixá-lo jazer em paz), Francisco Assis é delapidado cada vez que abre a boca, Cavaco Silva falou uma vez e foi um “Ai Jesus” (Mário Soares, esse sim, tinha estatuto para dizer o que lhe apetecesse, todas as semanas). 

Ou seja, uma voz que apresente uma visão diferente e crítica, não é analisada e contestada pelo conteúdo dos seus argumentos. É etiquetada, insultada e “está tudo dito”. Chama-se a isto intolerância e é bastante antidemocrático. 

Os que agora me estão a insultar e a catalogar de pafioso, podem recuar e ler o que fui escrevendo entre 2011 e 2015. Se quiserem, é claro.

12 setembro 2017

Entre bairrismo e identidade


No mundo sou pelo meu país, no meu país pela minha região, na minha região pela minha terra, na minha terra pelo meu bairro… e onde acaba isto? No meu bairro pela minha rua, na minha rua pela minha casa, na minha casa pelo meu quarto e no meu quarto, eventualmente, se aplicável, pelo meu lado da cama!?!

Certamente que há identidade e valores que servem de âncora ao estar e ao andar neste mundo, mas o bairrismo exacerbado, mesmo sem chegar ao nível do lado da cama, é uma forma de pobreza. Porque ao desvalorizar o diverso, ao menosprezar o diferente, resulta numa consanguinidade cultural e social, com a correspondente degradação. Então, quanto mais mistura melhor? Sim e não. Diversas influências são riquezas, mal lidas ou não interpretadas são despiste. Ao invés? Sou por tudo o que é antagónico: se o meu meio é verde, abraço o amarelo? Não, a (des)construção de uma identidade pela negativa, é mais uma forma, pouco inteligente, de acabar pobre e perdido.

No mundo, sou pelas pessoas sérias, francas e bem-intencionadas. Vê-lo-ei com uma ótica condicionada, é certo, pelo que vi até hoje. Mas continuarei de olhos abertos.

09 setembro 2017

Depois dos equipamentos


Circulando hoje pelo país, é inquestionável o enorme aumento de infraestruturas e de equipamentos culturais, sociais e desportivos realizados nos últimos 15 - 20 anos, alguns até em redundância e sem a mínima e necessária coordenação e cooperação entre vizinhos. Para estas próximas eleições autárquicas dificilmente se poderá dizer que a prioridade seja “construir equipamentos”. Exceção notória em Coimbra onde se quer lá quer construir … um aeroporto. Como já há o de Beja parado, no Alentejo, o Centro também tem todo o direito a ter o seu e, depois, talvez seja a vez de Vila Real ou Mirandela.

A prioridade parece-me estar agora mais na utilização efetiva dos equipamentos construídos, só que isso não se faz apenas com dinheiros, venham eles de Lisboa, Berlim ou Bruxelas. Há algo de fundamental para fazer acontecer no desporto, na cultura e na intervenção social em geral, que são as vontades. A prioridade deveria ser a mobilização de vontades num projeto de desenvolvimento sustentado, realmente valorizador, mais do que pensar onde pôr a trabalhar a próxima betoneira ou pagar um “one-night-show” a uma (pseudo)celebridade qualquer.

Essa mobilização precisa de algo mais valioso do que o dinheiro. Uma liderança credível e motivadora, com sérias qualidades humanas, vindas de gente que circule numa órbitra diferente da dos jotinhas recém-promovidos e dos caciques arrogantes. Veremos qual será o resultado final da coragem dos partidos em dar lugar a tais perfis, da capacidade de mobilização da sociedade civil para avançar com alternativas quando a partidocracia não deixou espaço… e do discernimento dos eleitores no dia D.

07 setembro 2017

Gente do mar


Nasci perto do mar e raramente me afastei dele. Não tão próximo a ponto de lhe sentir o cheiro, mas o suficiente para ouvi-lo durante a noite. Na prática para o não ouvir, dado que só o ouve efetivamente quem a esse ruído de fundo não está habituado. No verão, durante um mês, passava umas dez horas por dia na praia da Aguda. Na altura ainda não havia restrições com os UV’s. Conheci e batizei os seus rochedos, hoje afogados em areia por uma daquelas obras que parecem projetadas por quem ignora o mar.

Apesar desta proximidade, há a gente da terra e a gente do mar. Numa estatística caseira e improvisada recordo muito poucas famílias mistas. Os pescadores e as vareiras eram uma comunidade à parte, vivendo numa linha estreita, donde eles saiam para o mar, para pescar, e elas para a terra, para vender o peixe. Não me recordo de tensões nem de nenhum sentimento de hostilidade, nem sequer de antipatia. À parte umas considerações sobre hábitos higiénicos (sem mais precisão), as pessoas respeitavam-se, mas pertencendo claramente a mundos diferentes.

Lembrei-me de tudo isto ao fotografar a procissão ao mar nas festas de Viana deste ano, donde extraí a foto acima, está um pequeno álbum nesta ligação, dizendo a mim próprio: Gente do mar! :)  

05 setembro 2017

Aos meus amigos da construção


Há umas semanas, a Economist publicou um interessante artigo, evidenciando as ineficiências e a estagnação da produtividade da indústria de construção, comparada com outros sectores. O artigo original pode ser encontrado aqui.

Quanto às causas possíveis para esse facto, refere pouco investimento em meios, devido à incerteza da atividade, rede de subcontratados agressivamente orientados, sem grande empenho na eficácia global e variações normativas. Será verdade, mas se compararmos com a indústria automóvel (talvez ainda “A Indústria”), evoluções tecnológicas e normativas não lhes faltam, têm uma rede complexa  e muito esmagada de subcontratação e, apesar de tudo isso, há um permanente investimento em novos modelos e tecnologias, sempre com uma grande incerteza quanto ao seu sucesso.

Eu arriscaria (provocaria…) que a construção evolui pouco, porque não precisa! A chave do sucesso, nomeadamente nas grandes obras públicas, não está no nível de novidades tecnológicas, nem, muitas vezes, no valor económico das propostas. Está bastante mais no relacionamento e na segurança que o construtor oferece ao decisor público. Aliás, o próprio modelo da maior parte dos concursos públicos não valoriza e, frequentemente, nem sequer permite fazer diferente (e fazer melhor passa muito por fazer diferente).

Com os automóveis, é outra história. Cada qual escolhe com o seu dinheiro, valorizando o produto oferecido em si. A indústria automóvel ou evolui e convence o consumidor, ou morre. No fundo, isto é mais um corolário da minha teoria de existirem dois tipos de empresas, com culturas distintas: as que no fim da cadeia têm um consumidor e as outras que têm um contribuinte.

Quer isto dizer que se fosse uma entidade pública a selecionar os nossos veículos, andaríamos hoje em magníficos Ladas 1200, como o da foto?

03 setembro 2017

Um arrepio



Há uma estrada especial (religiosa?) para mim, que vai do Mezio até Lamas de Mouro, atravessando a serra do Soajo e da Peneda. Já a conheço desde há alguns 30 anos, quando ainda era uma “florestal”, das antigas. Tem partes íntimas e fechadas, outras majestosas, outras agrestes, tanto se está submergido num bosque cerrado, como enfrentado fragas de cortar a respiração, passa por encostas, vales, altos e baixos.

Quando se trata de tirar as teias de aranha a uma coisa de duas rodas com motor que tenho em casa, esta estrada é sempre uma boa opção, apesar daqueles bovinos de larga armação no meio da estrada merecerem muito respeito. Foi o caso um destes dias e arrepiei-me. A parte inicial, próximo do Mezio, a que era especialmente íntima, foi dizimada por um incêndio, julgo que o ano passado. Não tinha eucaliptos e creio que nem sequer pinheiros. Era mesmo aquela floresta bonita, variada e húmida que baste. Algumas áreas resistiram, mas perdeu completamente a imagem do “fechado”, tantas são as clareiras à esquerda e à direita. A olho, diria que a serra do Soajo levou uma coça muito, muito valente.

Não vou receitar nada, apenas recordar que não há arvores bombeiras e que estaria muito mais tranquilo que se os “técnicos” que coordenam isto não fossem boys, nomeados e substituídos ao saber das cores das modas em Lisboa.

02 setembro 2017

Assim estamos


Não tenho nenhuma simpatia por Cavaco Silva. Acho-o culturalmente mal preparado e com grandeza curta. O episódio das escutas foi das coisas mais grotescas dos últimos anos da nossa vida política e o seu discurso de vitória na reeleição foi assustadoramente abusivo. Tem amigos com casos de polícia, sim, mas nem sequer é campeão nesse campo, dentro dos ex-Presidentes da República.

Há uns dias saiu do retiro para fazer umas declarações públicas, à Cavaco, que não deveriam surpreender muita gente. Podia ter falado de outras coisas, noutro registo, mas foi coerente com o que nos habituou. Ora bem, se é verdade que o conteúdo das suas afirmações é razoavelmente assertivo e merecedor de atenção e discussão, são muito curiosas as criticas que ignoram o fundo, centrando-se no argumento de que “um ex-PR não pode/deve falar assim” e vindas daqueles que toleravam e até aplaudiam todas as diatribes de Mário Soares. Ou seja, clubite acrítica, uma vez mais.

Assim estamos e assim não andamos.


Foto: Lusa

30 agosto 2017

Para ninguém morrer mártir


O filme de Nabyl Ayouch, “Os Cavaleiros de Deus”, com o subtítulo “Ninguém nasce mártir”, de que já falei aqui atrás, ficciona a radicalização de um grupo de adolescentes, em Sidi Moumen, um subúrbio pobre de Casablanca, situando-os, no final, nos atentados suicida ocorridos nessa cidade em 2003. É um contexto facilmente “justificável”: um meio muito desfavorecido, sem perspetivas, e onde este desfecho pode ser apresentado como um efeito colateral e inevitável (?) da miséria.

Nos recentes atentados da Catalunha identifico algum paralelismo no processo de radicalização de um grupo de jovens, mas há uma diferença fundamental. Os jovens de Barcelona não viviam num bairro da lata; estavam suficientemente integrados, a ponto de as suas ações muito surpreenderam quem os conheceu. Lança-se o argumento de que não estariam suficientemente integrados, que sofreriam alguma frustração, do não ser dali nem da origem e receita-se mais esforço de integração. Com o devido respeito, discordo.

Todos os adolescentes, e não só, passam por fases de frustração e de ansiedade, não sendo necessariamente a radicalização violenta uma consequência inevitável. Um imigrado/deslocado tem sempre problemas de não ser completamente de um sítio, nem do outro. Podem confirmá-lo os nossos emigrantes, que, no entanto, não desatam a matar cidadãos do país anfitrião por esse motivo. A propósito, este efeito do desenraizamento cultural e da crise de identidade, talvez seja um ponto a não ignorar por aqueles que acham que a solução para os problemas no terceiro mundo é trazer toda a gente para a Europa.

Se as fases de frustração são inevitáveis, com mais ou menos desenraizamento a ajudar, onde está o caminho para evitar o problema? Estará na criminalização dos promotores, daqueles que exploram essas frustrações em proveito de um projeto de poder obscuro, ou consequência de um simples ressentimento mal resolvido. Todos os ímanes e afins que pregam um islão hegemónico e a islamização da sociedade devem ser criminalizados. A eficácia do policiamento desse crime pode ter as suas brechas, naturalmente, mas, para mim, não restam dúvidas de que essa gente promove o ódio e o crime. A tolerância deveria ser zero.

28 agosto 2017

O limite leste da Europa?


Dizem que Portugal é o limite ocidental da Europa (continental), no cabo da Roca até se recebe um certificado, e há quem defenda uma Europa do Atlântico aos Urais. Segundo os antigos, o meridiano de Alexandria dividiria o nosso continente da Ásia e também há quem ache que a Europa, mesmo Europa, só começa para lá dos Pirinéus.

Por estes dias, fiquei com a ideia de que a Hungria é o limite oriental de uma certa Europa. Em tempos associada ao Reino do Leste (Oesterreich = Áustria), a Hungria foi o leste do leste. Vindos dos Urais, os húngaros aqui instalados foram durante algum tempo um tampão às investidas contra o ocidente (ainda hoje…?). Foi também terra de fronteira, não entre o cristão e o mouro, mas entre o cristão e o turco.

A monumentalidade de Budapeste transmite sensações diversas. Por um lado, parece uma subsidiária da imperial Viena, algo feito num dia ou numa noite, muito demasiado neo qualquer coisa e com pouca patine do tempo para os parâmetros europeus. Por outro lado, há no ar algo de único que desafia e atrai… e aquele idioma...

Em geral, os húngaros não parecem imediatamente simpáticos nem acolhedores. Inolvidável a zanga e a agressividade gestual de um funcionário a quem interrompemos o saborear de umas batatas fritas para comprar um bilhete de entrada num monumento.

Na estação de comboios de Budapeste há comboios catitas a saírem para Viena e Munique e também decrépitos para Belgrado. Há o metro “Millenium”, o primeiro construído na Europa continental, ainda no século XIX, e onde descendo um simples lanço de escadas a partir do passeio, já se está no caís; há os novos modernos e janotas e os do tempo soviéticos, que ameaçam qualquer falange que se ouse interpor entre as portas a fechar.

Entre a Áustria e a Hungria, historicamente ligadas, passou a cortina de ferro. Também foi aqui que abriu a primeira brecha da mesma em agosto de 1989. Também foi na Hungria, em 1956, que ocorreu um dos primeiros desafios públicos à dominação soviética e o sair para a rua e morrer, exigindo liberdade. Albert Camus fez uma vibrante e sentida homenagem a esses heróis, que pode ser vista integralmente aqui e cito uma passagem.

“Não sou daqueles que pensam poder haver um conformar, mesmo resignado, mesmo provisório com um regime de terror que tem tanto direito de se chamar socialista como os verdugos da inquisição tinham em se chamarem cristãos.” (politicamente incorreto e ignorado pelos seus companheiros de estrada, que em 1957 ainda acreditavam em amanhãs cantantes).

Há uma certa Europa que termina aqui na Hungria e há qualquer coisa de mágico no estar num limite e numa encruzilhada.

21 agosto 2017

Je suis Altice

Não sou cliente da PT, nem pretendo ser, e não tenho nenhuma simpatia ou admiração especial pela Altice. No entanto, como cidadão, sinto vergonha pela triste figura que o nosso governo está a fazer, no assédio à empresa francesa, protagonizado pelo próprio Primeiro-Ministro.

A PT enquanto pública, ou “para pública”, foi um rio de dinheiro, aproveitado e abusado por muitos famosos da praça. No meio desse saque, o negócio ruinoso com o Brasil destruiu o valor da empresa, sempre sob o alto patrocínio, interesse e influência de quem governava. Sobre as responsabilidades neste saque aparentemente não se interessam os políticos, apenas os juízes.

Subitamente, a Altice e a PT, passaram a ser coisa pestilenta. Nos dias seguintes à tragédia de Pedrogão, o PM assume e repete cegamente o comunicado desresponsabilizador do SIRESP, que, supostamente, não tinha falhado; agora decretou que o colapso do sistema foi devido aos cabos aéreos da PT, pelos vistos subcontratado do consórcio (e gostava de saber se nesta cadeia alguém exigiu contratualmente cabos enterrados). Amanhã, se a Altice desistir de comprar a TVI, voltamos à primeira forma? É claro como água que foi esta aquisição que irritou o PS, a ponto de vermos um PM fazer figuras terceiro-mundistas. Em que continente vivemos?

Sobre o Siresp, só fica bem quem não esteve perto. Hoje temos um sistema caro, obsoleto e frágil. Já que o PM tem um amigo bom a renegociar coisas, e até conhecedor deste dossier, a solução é resiliar e contratar uma prestação de serviços a profissionais, deixando de brincar a infraestruturas de comunicações dedicadas que falham ao primeiro aperto (não apenas quando os cabos aéreos ardem).

16 agosto 2017

Maniqueísmo e Jardins da Luz



Quando hoje falamos em “maniqueísmo”, como uma visão redutora e simplicista, não sabemos (eu, pelo menos são sabia) a origem da palavra, de Mani, um Parta que viveu no século III, ali pela Mesopotâmia, na altura sob influência persa, a quem os chineses chamaram “o Buda da luz” e os egípcios “o apóstolo de Jesus”.

O seu “maniqueísmo” era entre as luzes e as trevas, mas, mais do que forçar uma opção, ao que a palavra atualmente se associa, ele defendia uma universalidade da espiritualidade, tolerante e humanista, e uma laicidade do poder temporal, a todos os títulos muito moderna. Acabou perseguido, odiado e condenado, naturalmente…


- Se dizes o mesmo que o Messias ou Buda, porque procuras construir uma nova religião?
- Àquele que nasceu no Ocidente, a sua esperança nunca floriu no Oriente, daquele que nasceu no Oriente, a sua voz nunca atingiu o Ocidente. É necessário que cada verdade carregue os trajes o a pronúncia dos que a receberam?
- Mestre, admito que certas crenças merecem ser respeitadas. Mas os idolatras, os adoradores do Sol?
- Acreditas que um rei terá inveja se alguém beijar a orla da sua capa? O Sol não é mais do que uma lantejoula da capa do Altíssimo, mas é através dessa lantejoula cintilante que os homens podem melhor contemplar a Sua Luz.
“Os homens acreditam adorar a divindade, quando apenas conheceram as suas representações, representações em madeira, em ouro, em alabastro, em pinturas, em palavras, em ideias”.
-E aqueles que não reconhecem nenhum Deus?
- Aquele que recusa ver Deus nas imagens que se lhes apresentam, estará por vezes, mais próximo do que qualquer outro da verdadeira imagem de Deus.

Excerto recolhido do romance sobre a vida de Mani – Les Jardins de Lumière – de Amin Maalouf.

14 agosto 2017

PCP – prova de vida?


Já sabemos que nos tempos que correm ser comunista puro e duro é uma coisa meia religiosa, de fé e de dogmas. Após cem anos de ensaios não faltam evidências da falência do modelo e a realidade sócio-económico atual é também excessivamente diferente da do tempo de Karl Marx. Num contexto religioso é normal, e fundamental, existirem coisas do domínio do misterioso…

Um dos mistérios destes dias, para mim, é o apoio do PCP aos “déspotas boliverianos”. Se no passado, quando não havia internet nem satélites, ainda se podiam imaginar coisas bonitas sobre Cuba e ignorar, querendo ou não querendo, a ausência de liberdade, sem entrarmos noutras carências, sobre a Venezuela de hoje, não há desculpa.

É-me extraordinariamente difícil entender como alguém com o mínimo discernimento ainda consegue ser solidário com esta “tragédia boliveriana”. Para ajudar, ainda vejo posições de apoio à Coreia do Norte, contra o imperialismo americano. Não, não tenho grande simpatia pelos EUA, muito menos pelo Sr. Trump. Apesar de tudo, admiro um país onde as instituições funcionam e a separação de poderes é robusta, como o próprio sr Bush está a constatar. Mas, criticar os EUA, fazendo vista grossa das deficiências, para não entrar em pormenores, do regime norte coreano, é muito caricato.

Tenho uma teoria especulativa para desvendar estes mistérios. O PCP encontra-se apertado dentro da geringonça. Depois das reversões efusivamente saudadas, já ninguém sabe bem o que fazer para a ceia e, na prática, aquelas bandeiras históricas do sair da Nato, sair do Euro, desrespeitar o tratado orçamental da UE e etc, começam a ganhar bolor.

Gritar o apoio aos revolucionários do mundo, acaba por ser uma forma de marcar diferença, de apego às raízes, uma prova de vida. Perigosa, no entanto, por ser intelectualmente muito desonesta.


10 agosto 2017

Laicidade e laicofobia


Voltando à questão dos abusos, que começou aqui e depois divergiu para um “podemos não estar de acordo” aqui, achei por bem, eventualmente sendo de novo abusivo, transcrever um texto, algo provocador, de Amine Zaoui, jornalista argelino e muçulmano, publicado recentemente no jornal argelino “Liberté”. Certamente não faltará quem o insulte de várias formas e feitios. Não vou dizer que estou de acordo e tudo subscrevo, mas é assunto que vale a pena questionar e um ponto de vista que merece ser analisado/discutido.

O muçulmano, todo o muçulmano em qualquer parte do mundo, é alérgico ao conceito de "laicidade". A palavra "laicidade" assusta-os! Magoa. Angustia. Aos seus olhos, "laico" é equivalente a comunista. Semelhante a "ateu". Igual a "irreligioso". Sinónimo de imoral. Ou ainda, um laico é um judeu. Um judeu é um laico. Um laico é um cristão. Um cristão é um laico. Qualquer laico é um não-muçulmano. E todo muçulmano é um não-laico, um laicofóbico. Um muçulmano não pode imaginar outro muçulmano laico. Na ausência da laicidade como um estilo de vida social, como uma forma de pensar, como cultura política, o mundo muçulmano tornou-se um mundo islâmico. Consumido pelo fundamentalismo. Mesma a laicidade na Turquia é ameaçada pelo islamismo fanático apoiado pelo projeto político da Irmandade Muçulmana. A "laicidade" assusta os muçulmanos desde Meca até Nouakchott, assusta o político muçulmano tanto de direita como de esquerda, assusta os "doutores" das universidades e assusta o cidadão normal.

A laicidade é um monstro! Mas porquê essa "laicofobia" no muçulmano? A escola é a fonte fundamental dessa doença chamada laicofobia. A escola, qualquer escola no Magrebe e no mundo árabe-muçulmano, do jardim de infância à faculdade, ensina aos seus alunos que a laicidade é um perigo para a religião islâmica. Que "laicidade" é o inimigo número um do Islão. Ela é uma armadilha armada pelos judeus aos muçulmanos! Ela é o isco do anzol colonial. Depois, porque o cidadão se afoga num grande vazio intelectual, onde a história das ideias filosóficas universais é banida. Os muçulmanos vivem fora, sem História e fora da História. Ou fazem a História à sua maneira, para se vangloriarem! Porque não existe nenhum pensamento crítico. Porque o fanatismo se impõe nas escolas e nas universidades, o muçulmano é apanhado pela laicofobia. Porque o religioso é um destino comunitário imposto. Porque não há nenhum debate intelectual livre e racional, o muçulmano tem medo de laicidade. Porque não existem partidos políticos reais com programas da sociedade, todos eles são de criados ou alimentados por correntes nacionalistas de tempero islâmico ou pelas ideias da Irmandade Muçulmana.

A fobia islâmica face à laicidade criou uma cultura de ódio em toda a sociedade muçulmana. Esta fobia islâmica generalizada em direção à laicidade reforçou a mentalidade de rebanho, impediu o muçulmano de poder cultivar uma liberdade individual. Esta laicofobia criou um sentimento de medo do outro, de recusa de viver com os outros. Esta laicofobia ergueu barreiras face àquele que não é semelhante, na religião ou na forma de pensar. Esta doença que é a laicofoboa é a consequência de tudo o que o povo do Magrebe e do mundo árabe-muçulmano viveram em deceção política, social e cultural, e isto dura desde as independências desses países. Se um muçulmano não se liberta desta doença psico-intelectual que é laicofobia, ele permanecerá condenado a viver no medo, ódio e violência, contra si mesmo e contra o outro.

Nunca se explicou ao crente muçulmano simples, com clareza e coragem intelectual e política, o significado da laicidade. Nunca se ensinou às crianças das escolas muçulmanas que a laicidade é o único caminho que garante o respeito pelas religiões, por todas as religiões. Que só a laicidade garante o respeito do ser humano, com as suas convicções religiosas, filosóficas e políticas. Que o caminho da laicidade é o garante da possibilidade de convivência, entre o muçulmano e outras pessoas pertencentes a outras religiões ou outras não-religiões. Que a laicidade permitirá o florescimento em todo o respeito das diferentes culturas e línguas que vivem no Magreb ou neste mundo árabe-muçulmano. Todas as guerras declaradas no mundo muçulmano, ou noutro lugar, em nome do Islão contra outras religiões, contra outras culturas, outras línguas são resultado desta laicofobia, desta doença que corrói o muçulmano, onde quer que ele se encontre.

Sem respeito pela laicidade como cultura, pensamento e como modo de vida social e político, a própria existência do Islão permanecerá ameaçada no mundo. E a laicofobia gera a islamofobia.

08 agosto 2017

O Qatar é fixe?


Antes da polémica com a atribuição do Mundial de futebol de 2022 e com as condições desumanas nos estaleiros, muita gente teria dificuldade em distinguir o Qatar do Bharein ou até poderia presumir tratar-se de mais um emirato dos associados/reunidos.

Quem acompanhou o processo das primaveras árabes pela rama, terá ficado surpreendido por esse país ter participado ativamente e militarmente no derrube de Khadafi. Parecia estranho, num contexto supostamente meio fraterno. Quem viu de mais perto, identificou que o Qatar e o seu braço mediático, a Al-jazira, simplesmente cavalgaram a onda de contestação inicial, para ajudarem a derrubar os regimes “laicos” da região. Aqueles onde o Islão político, fundamentalmente inspirado e patrocinado pela Irmandade Muçulmana, estava severamente condicionado. Não foram os únicos, mas tomaram bastante protagonismo, muito graças à “compreensão” e aos “favores” de França, na altura liderada pelo Sr Sarkosy. As bombas caíam na Líbia e os petrodólares em França.

A influência do Qatar foi crescendo e isso, naturalmente, incomodou os Sauditas, guardiões dos lugares santos de Meca e Medina e putativos e pretensos líderes da comunidade muçulmana mundial. O boicote recentemente decretado por estes e pelos seus acólitos é inesperado e brutal. A propósito de brutalidade, podemos referir que a destruição inconsequente em curso no Iémen é também brutal e, neste caso, sobre a vida e a condição humana, bastante mais grave do que a diplomática e económica.

Neste mundo, onde tantos gostam de se posicionar entre amigos e inimigos, o facto de os Sauditas estarem nas boas graças do Mr Trump, traz alguma simpatia ao Qatar… e um certo crédito de modernidade, para já não falar do glamour de dar 200 milhões de euros por um miúdo famoso, para o pôr nuns retratos.

A acusação de suporte ao terrorismo, ou mais suavemente, de proximidade e apoio a fundamentalistas, cheira um pouco a de roto para rasgado. Incluir o fecho da Al-jazira no pacote das exigências, tem uma leitura clara: é um foco de influencia do Qatar no mundo, muçulmano e não só, que faz uma sombra incómoda para os Sauditas.

Desenganem-se os românticos, anti-trumps ou fans de qualquer coisa glamorosa. O Qatar faz sombra, sim, mas, no fundo e na copa, as árvores são muito parecidas, para não dizer iguais …


Foto da Reuters

06 agosto 2017

Podemos não estar de acordo…

Na sequência do texto anterior sobre abusos, não será certamente abusivo copiar para aqui um excerto da parte final do livro “Pourquoi j’ai cessé d’être islamiste”, de Farid Abdelkrim, muçulmano e ex-islamista francês.

Debater tem um sentido. Significa ouvir. Ouvir e entender que alguns dos meus concidadãos possam estar angustiados. Que eles possam sentir medo, por causa da visibilidade islâmica incarnada, defendida e/ou revindicada por alguns muçulmanos. Neste mundo, aprendi que Deus não se esconde sob um hidjab. Que a grandeza do Islão não se resume ao tamanho de uma barba ou à escuridão de um niaqb. Neste mundo, não dou o mínimo crédito à existência e à pertinência da “islamofobia”. Neste mundo, os muçulmanos – que eu acompanhei durante cerca de 30 anos e continuo a acompanhar – são todos diferentes. Há pessoas boas. Muito boas. E há igualmente malfeitores. Há de tudo. Há vitimas. Mas há também culpados. E inocentes. E idiotas. E santos. Verdadeiros. Há homens. E mulheres. E cidadãos. E mentirosos. E ladrões. E gulosos. E obcecados. E marialvas. E virtuosos. E integristas. E psicopatas. E doentes.

Neste meu mundo, eu não estou só. Há muçulmanos. E há todos os outros… neste mundo. Que contam igualmente.

Neste mundo, alguns creem em Deus… outros não…e há mesmo alguns que se tomam por Deus.

Neste mundo, enfim, debater é vital. Tem sentido. Isso significa alimentar. Mas significa também alimentar-se. As duas coisas ao mesmo tempo, falar e ouvir. É o direito de discordar, sem esquecer o direito de respeitar o desacordo daquele que me fala. É admitir a possibilidade que eu possa estar errado e que ele possa estar certo.

Este é, portanto, o mundo onde estou e onde vivo. Esta é a minha França. A minha concepção do debate também. A minha concepção do homem. E do muçulmano… Mas podemos não estar de acordo.

04 agosto 2017

Incidentes, relatórios e instituições


Entre o sábado 29/7 e a terça-feira 1/8, a estação de comboios de Montparnasse em Paris, viveu dias caóticos, ainda por cima num fim de semana especialmente movimentado. Tudo por causa de uma avaria difícil de encontrar, mas, para lá do problema original, a gestão da contingência agravou o caos. Descoordenação, informação incoerente entre os vários canais da empresa de caminhos de ferro, etc. Não morreu ninguém, mas houve um serviço público que falhou para lá do razoável (não esquecendo que somente nunca falha aquilo que nunca trabalha).

No dia 3/8, dois dias depois de resolvido o problema, o relatório da incidência é publicado pelo Ministério dos Transportes, evidenciando alguma desorganização estrutural com tomadas de decisão tardias, ausência de base de dados única e centralizada para a gestão da informação e tecnologias existentes obsoletas. Segue-se a definição de um conjunto de ações concretas para endereçar os problemas encontrados.

Já chega de detalhes, porque o que se passa nos caminhos de ferro franceses não é assim tão relevante para nós. De realçar apenas a rapidez com que o Estado diagnostica, informa, assume e reage. Lembrei-me dos nossos tempos recentes e, só a título de exemplo, do Siresp. Inicialmente falhava apenas um pouquechinho; depois do desplante de a Altice comprar a TVI, sem pedir licença, passou a estar debaixo de fogo. Muito do que se sabe é devido à investigação jornalística (maldita para alguns) e não à livre iniciativa (e obrigação) dos organismos oficiais. Resultados claros e objetivos do(s) inquérito(s) aparecerão, eventualmente, um dia, sabe-se lá...

Subdesenvolvimento é/nasce disto, por muito que os vendedores da banha da cobra argumentem e convençam algum povo de que a culpa é de Berlim, Bruxelas ou do diabo a sete.


Imagem do "Le Parisien"

02 agosto 2017

Um gosto

Já contei aí para trás como conheci a escrita de Amin Maalouf e o prazer que ela me dá. Desta vez foi o “Rochedo de Tanios”, que estava numa lista de espera com mais dois do mesmo autor.

De novo no Levante (Mashrek), apenas com um pequeno desvio por Chipre, não é um livro de grandes viagens como “O Leão Africano” e muitos outros do escritor. Situado na primeira metade do século XIX, está focado na terra de Maalouf, nas montanhas do Líbano, disputado entre Otomanos e Egípcios, com as potencias europeias numa “espreita” ativa. E com homens e mulheres, ricos de fraquezas, perdidos nas suas grandezas e suficientemente imprevisíveis para serem humanos.

Uma terra, ontem e sempre, charneira entre o Norte e o Sul do Médio Oriente, demasiado fraca para se impor e demasiado forte para sucumbir.

Por estes lados, ao olhar por binóculos para lá, é comum generalizar aqueles outros como árabes e muçulmanos, mas a realidade é muito mais rica. Os livros de Amin Mallouf ajudam bastante a entender essa riqueza, para lá da religião e dessa suposta monto-etnia derivada da pretensa superioridade e obrigatoriedade de se ser descendente do profeta.

Cá para mim, acho que um dia tenho que ir ao Líbano. Não que por lá exista um rochedo de Tanios, de onde se possa ver uma apelativa nesga de mar, mas porque ir conhecendo uma nesga da cultura daquele Levante, é apelo que chegue e:

“O destino passa e repassa por nós, como a agulha do sapateiro passa através do couro que ele trabalha”.

Derivando um pouco: há sempre (temos que ter sempre) lugares especiais onde se “decanta a alma”. Os rochedos (penedos) prestam-se bem a essa função. Por acaso, há umas dúzias anos que “tenho” um, nas montanhas, o da Lapa.

31 julho 2017

Se tal faltasse provar


É-me um pouco difícil abordar este assunto sem insultar ninguém, mas vou tentar, mesmo correndo o risco de ser eu o insultado. Já referi várias vezes a tristeza de constatar a acefalia faciosa que grassa por este mundo e, que provavelmente, dará mau resultado. O curioso é que, em geral, o pessoal até reconhece existir o problema…, mas apenas nos outros (no inimigo!). E se, nalguns casos, até se pode encontrar campo para um pouco de “contextualização” e “relativização”, a situação atual da Venezuela é daquelas em que basta ter meio dedo de testa e um pingo de seriedade para entender e reconhecer o absurdo indesculpável e intolerável da ação dos “déspotas boliverianos”.

Infelizmente, há bastante gente a quem lhes falta o tal meio dedo e/ou pingo de honestidade. E não estou a falar de qualquer um dos que hoje em dia sai pelas redes sociais de megafone em punho a insultar os “inimigos”. Cito dois nomes, relevantes, que conseguem usar palavras como liberdade, progresso e democracia associadas à Venezuela atual, sem corarem de vergonha. Boaventura Sousa Santos, uma suprema sumidade duma certa sociologia intolerante, tão bem vista por tantas inteligências cá do burgo e Ilda Figueiredo, figura de relevo de um partido político, por princípio democrático, e suporte parlamentar do governo atual. Desculpem lá, mas isso é falta de inteligência e/ou de seriedade?

PS: A propósito, a culpa é, realmente, em grande parte, dos americanos, mas pelo desenvolvimento do gás de xisto que atirou o preço do petróleo para baixo. Na “festa boliveriana” o “desenvolvimento” foi simplesmente comprado com petrodólares, enquanto houve.

30 julho 2017

Este homem é de esquerda!


A extensão típica destes textos é largamente insuficiente para elencar todas as coisas esquisitas por onde o mundo de Ricardo Salgado viajou. A maior parte das pessoas informadas já terá uma ideia e, se não tiver, uma simples pesquisa permite encontrar matéria mais do que suficiente para passar a ter. Poucas operações polémicas no país foram estranhas ao Sr PDT (Patrão Deles Todos).

Recentemente veio dizer, muito aristocraticamente, como convém a alguém de tal estirpe, que não é por culpa dele que há lesados do G/BES. Ele tinha intenção de pagar… só que a provisão acabou por ir parar a outro buraco. Também teria tido intenção de pagar aqueles 900 milhões extorquidas à PT e que desvalorizaram a empresa, agora tão na mira da classe política, mas por outros motivos, politicamente mais relevantes? Sim, porque para os nossos políticos uns milhares de milhões a mais ou a menos é irrelevante, alguém acabará por pagar; agora a propriedade dos meios de comunicação social é assunto muito mais sensível.

O mais curioso, sem dúvida, é o Sr PDT afirmar (crítica ou elogio?) que nenhum outro governo lhe teria tirado o tapete como fez Pedro Passos Coelho. Se outro governo tivesse aceite lá colocar mais uns mil milhares, seriam mais uns mil milhares evaporados. À luz do maniqueísmo vigente, entre pafiosos e geringonceiros, só posso concluir que Ricardo Espírito Santo, afinal, é um homem de esquerda!

27 julho 2017

A vitória dos 64 mortos


Levantaram-se dúvidas sobre o número de mortos em Pedrogão Grande. O PM respondeu ser assunto encerrado, estando, historicamente, esta afirmação dele mais associada a um desejo do que a uma realidade. Na mesma altura, ficamos a saber que um helicóptero destruído em Alijó, oficialmente teria feito apenas uma aterragem de emergência controlada. A seguir, o PM muda de discurso e lança o desafio do quem souber de mais, que avise. A lista está fechada num segredo de justiça que não se consegue racionalmente entender. É natural subsistirem dúvidas. A lista é divulgada e, tanto quanto se sabe, as diferenças para os 64 não são da escala especulada.

Acontece, porém, que este governo não governa para um país onde, além lá dos políticos e politiqueiros, há cidadãos com deveres e direitos, sendo um desses direitos o exigir transparência e verdade. Não. O Governo está em guerra. De um lado estão os seus correligionários que acreditam cegamente e apoiam, do outro os inimigos que contestam e duvidam. Um português que questione o governo não é um cidadão a exercer um direito; é um inimigo que ataca.

Não se ter verificado o especulado, constitui uma vitória contra os inimigos, celebrada efusivamente. A confirmação de uma obrigação básica do Governo, não ter encoberto e manipulado o número de vitimas de uma catástrofe, é transformada, dentro desta dinâmica maniqueísta e redutora, num sucesso. O nível a que chegamos!

25 julho 2017

Tristes tempos


Infelizmente, não me recordo de termos vivido tempos sérios, no que diz respeito à prática e ao discurso de quem nos governa. Correndo os doze anos destas minhas publicações, encontrar-se-ão muito mais pontos de crítica ao governo em funções em cada momento, do que aplausos. Estes tempos atuais, no entanto, parecem-me diferentes, para pior e o faciosismo acéfalo alastrou. Se quiserem parar de ler, podem fazê-lo, se quiserem contestar o meu raciocínio e contrapor algo, estão à vontade. Tudo exceto chamarem-me de falso, dissimulado ou desonesto. Aí, teremos o caldo mesmo entornado!

Para muitos, concordar ou discordar, dar importância ou ignorar um problema depende apenas da cor do mesmo. À falta de argumentos ou à preguiça para os procurar, cola-se uma etiqueta e “está tudo dito”. Ou é coisa da direita estúpida, ou da esquerda arrogante. O PS atual tem muita responsabilidade nisto. Se por um lado excita o pessoal com a bandeira da “esquerda”, do “outro caminho”, que merece ser bem escrutinado para saber onde vamos parar, e assim enfraquece potenciais “Podemos” e “Syrizas”, por outro lado, é de uma irresponsabilidade enorme.

Os tempos de má memória que vivemos entre 2011 e 2015 foram consequência de uma consistente má governação, ao longo de muitos anos. Por acaso, até era este PS quem estava ao leme quando afundamos. No período da troika, o fundamental da governação teria sido igual, qualquer que fosse o partido no poder. A mensagem atual de que a troika foi uma opção dos “pafiosos” e que com o PS teria sido diferente, é perigosamente muito desonesta.

Acreditei que o susto e o choque sofridos pudessem ter tido um efeito profilático e nos tornássemos mais sérios e mais exigentes. Infelizmente, não. Mente-se, insulta-se e reescreve-se a história mais do que nunca.

“A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.” Albert Camus.

Receio estarmos efetivamente a caminho de uma espécie de tirania. Como quem nos conduz são os donos da única fábrica habilitada a produzir bandeiras dizendo “liberdade”, o caminho só pode estar certo e nem se admitem discussões. As fábricas dos carimbos grosseiros funcionam a pleno regime. A nossa memória e inteligência são insultadas, com sorrisinhos sarcásticos que muito, muito, muito me incomodam.


Foto googleada, já não sei donde...