23 junho 2017

As falhas na informação sobre o SIRESP


Para lá dos contornos particulares da adjudicação e “readjudicação” do SIRESP, envolvendo os “suspeitos do costume”; para lá das fragilidades intrínsecas de conceção ou de manutenção, que não deviam constar num sistema de comunicações qualquer e muito menos desta natureza, estes dias evidenciaram uma nova falha.

Refiro-me à falha na informação oficial sobre o desempenho do sistema durante o incêndio de Pedrogão Grande. Face ao que aconteceu e particularmente às mortes na 236-1, a possibilidade de isso ter sido influenciado por uma deficiente comunicação entre comando, bombeiros e GNR, exigia, no mínimo, uma pronta informação objetiva e precisa sobre o desempenho e disponibilidade do sistema naquelas horas.

Minuto a minuto, o que esteve em cima e o que esteve em baixo, que módulos, que zonas, que funcionalidades, tudo com transparência total. As explicações, justificações e os remédios poderiam vir depois, mas os factos, o que realmente se passou deveria ter sido imediatamente tornado público.

Hoje, quase uma semana depois, continuamos com declarações subjetivas dos responsáveis, do tipo “acho que não falhou” ou “falhou só um bocadinho” e outros eufemismos e vemos serem os jornalistas a fazerem o trabalho de investigação, como se tratasse de um tema “classificado”. Acredito que um dia lá aparecerá um relatório, bem cozinhado, mas a responsabilidade dos responsáveis deveria tê-los obrigado a abrirem o livro imediatamente, no dia seguinte! Infelizmente, não parece fazer parte da cultura da classe…

22 junho 2017

A Festa do Cavaquinho


Muitas das habituais manifestações/espetáculos de música/cultura tradicional, infelizmente, não são festa. Independentemente do maior ou menor rigor colocado nas representações, independentemente da qualidade intrínseca e da técnica das execuções, muitas vezes é até difícil sequer segui-las com interesse.

No dia 10 de junho passado, realizou-se em Cernache mais um encontro de “Cavaquinhos para o Guiness”. O objetivo era chegar ao milhar, ficaram a faltar uma cinquentena, mas parece que ninguém se preocupou demasiado com esse detalhe, no meio daquele ambiente genuíno de festa. E sublinho a palavra “genuíno”. Vieram novos e velhos, vieram de escolas e de universidades sénior, vieram rurais e urbanos, participaram e divertiram-se.

Os sorrisos, os dedos a correr com prazer nas cordas e os plenos pulmões de quem canta com todo o gosto do mundo, criaram incontáveis cenários de beleza e alegre autenticidade. Obrigado à organização e aos participantes. Foi muito bonita a festa, pá!

Mais fotos aqui e aqui.

21 junho 2017

SIRESP


SIRESP é a sigla para “Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal” e, desde há uns bons anos para cá, que, quando vejo noticias sobre o mesmo, há um alarme que me dispara, do género, vamos lá ver o que foi desta…

De facto, o longo tipo de decisão, envolvendo diferentes “maiorias”, o para trás e para a frente, complica e simplifica, adjudica e anula, parecia configurar uma disputa de dentinhos afiados por um saboroso manjar. Um sistema com este nível tecnológico, ter sido contratado a uma tal de “Sociedade Lusa de Negócios”, faz questionar qual o valor acrescentado (retirado?) da mesma e a natureza dos critérios de adjudicação.

Infelizmente, não se trata apenas de uma extravagante fonte cibernética nem de uma autoestrada redundante. Trata-se de um sistema que “TEM” que funcionar com níveis de disponibilidade e fiabilidade elevados, já que disso dependem vidas.

Agora, no caso da tragédia de Pedrogão Grande, ele volta de novo. As pessoas apanhadas na estrada, foram-no 4 horas depois do fogo começar e não estavam numa florestal qualquer. Estava numa das principais estradas nacionais da zona. Aparentemente, nessa altura, as comunicações entre os bombeiros e a GNR não estariam a funcionar, porque o SISREP estava em baixo. As suas antenas tinham ardido…

Ora bem, um sistema de “emergência”, e uma das nossas maiores emergências é desta natureza, incêndios, baseado em antenas no terreno, sem meios/canais alternativos imediatamente operacionais, e onde é preciso esperar que chegue e seja colocada em serviço uma estação móvel, não me parece muito adequado a este tipo de emergências. Eventualmente, mesmo com todas as comunicações operacionais, o resultado na EN236-1 poderia ter sido o mesmo, dada a especificidade das condições climatéricas, mas que a ausência de comunicação não ajudou, pelo contrário, disso não há dúvidas.

Conforme a respetiva simpatia clubística, alguns irão realçar a natureza PSD da SLN e outros o facto de Costa ter sido o ministro que o adjudicou. No entanto, a doença, infelizmente, não tem cor partidária exclusiva.

20 junho 2017

Eucaliptos, vale tudo?

Antes de começar: trabalho numa empresa da área da pasta e papel desde janeiro deste ano e trabalhei noutra análoga entre 2001 e 2006. Entre 1987 e 2001 trabalhei num fabricante de bens de equipamento que fornecia setores diversos, incluindo o do papel. Atendendo à importância da indústria da pasta e papel na economia do país, não será uma coisa assim tão rara. O eucalipto é fundamental e indispensável para esta atividade? Sim. Não é autóctone? Não, como também não o são, entre outros, os pés de videira onde estão enxertadas a quase totalidade das vinhas do Alto Douro, pós filoxera. Uma restrição genética absoluta ao “autóctone” seria uma espécie de xenofobia redutora que levaria a que hoje não houvesse, por exemplo, vinho do Porto.

É comum associar ao eucalipto a expressão de crime ecológico. No entanto, a plantação industrial do eucalipto em Portugal tem mais de 20 anos e não conheço nenhum local onde tenham ocorrido catástrofes ambientais devidas especificamente ao eucalipto. Ardem? Ardem sim, como também arde o pinheiro e o mato e, com maior ou menor facilidade, toda a vegetação. Em climas idênticos ao nosso também ocorrem fogos florestais, mesmo sem eucaliptos, dependendo muito da forma e da conservação das florestas e zonas rurais; dependendo mais do contexto do que a espécie em particular. Um local onde não há certamente incêndios é o deserto do Saara, mas esse não é o nosso modelo, creio…

Há árvores que resistem melhor ao fogo e até são autóctones e mais bonitas? Há, mas a lógica da gestão da floresta precisa de mais do que boas intenções e paisagens bonitas. Se não houver retorno, há abandono e terrenos abandonados já/ainda temos bastantes, sendo estes os que ardem melhor. Há um problema sério de desertificação do interior? Sim, e muito grande, no entanto, a fixação de alguém em Vila de Rei não é certamente função da quantidade de eucaliptos nas redondezas, mas antes da atividade económica nas proximidades. A limpeza natural das matas pelas populações diminuía o risco de incêndio? Sim, mas também não estou a ver muita gente a dispensar a botija de gás e a ir ao monte apanhar galhos para cozinhar o jantar. O tempo e as escalas são diferentes.

A indústria da pasta e papel é das poucas em que estamos na primeira divisão a nível mundial e deveríamos ser um pouco mais prudentes e esclarecidos antes de a bombardear por preconceito, guerrilha politica ou pela nacional típica inveja do sucesso. Apontar o eucalipto como responsável pelas desgraças e tragédias florestais é um abuso, um desrespeito pelas vítimas e uma forma grosseira de simplificar um problema grave do país, que tem raízes múltiplas. Para acabar: deve a plantação de eucaliptos ser completamente desregulamentada? Não, não vale tudo, nem para um lado nem para o outro.
 

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.

10 junho 2017

10 de Junho, 70 anos


Dia de Portugal, mas há mais mundo para lá de Portugal, como qualquer verdadeiro português saberá. Este dia, este ano, marca os 70 anos do lançamento do romance “A Peste” de Albert Camus. O meu exemplar na imagem deve estar mais ou menos a meio do caminho.

As grandes estórias, bem escritas e bem contadas, são intemporais. As grandezas e as misérias da condição humana não mudam e saber lê-las não tem tempos nem modas. No entanto, há alturas em que certas coisas nos parecem mais atuais e reler este livro, nesta fase da Europa e do mundo, assusta. Sentimos as ratazanas a crescerem e, ironicamente, há quem pense que o problema fundamental está na cor das mesmas. É necessário travar as ratazanas amarelas, nem que para isso se tolerem “um pouco” ou se chamem mesmo as “verdes”, as “boas”. Não, certamente que não deverá ser assim. Mais grave do que ignorar o perigo da “peste” é proporcionar ao seu crescimento, eventualmente com todas as boas intenções. Não, não é com piadas parvas nem com excitações inflamadas que a febre desce. É com humanidade…

Citando o mestre, em jeito de aviso à navegação, e sem mais palavras:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”

07 junho 2017

As contas da EDP


As contas públicas publicadas da EDP têm algumas particularidades. De uma forma geral, os resultados são apresentados da margem bruta “para baixo”. A forma como se chega à margem, receitas menos custos de produção, apenas aparece lá para a frente do documento, não da forma sistemática e habitual duma demonstração de resultados. Porquê?

O rácio Ebit/receitas apresenta algumas variações curiosas. Por exemplo, para 2016:

 16% a nível geral do grupo ; 

 42% na produção contratada de longo prazo ;
  4% nas atividades liberalizadas;
 12% nas “redes reguladas” e
 38% na Edp renováveis .

Palavras para quê… quando há números.

Detalhe aqui

06 junho 2017

Tomar, é uma questão religiosa


Sendo indiscutível o papel importantíssimo dos Templários na construção do nosso país, veja-se desde as velas das caravelas até às asas dos aviões da Força Aérea; sendo Tomar a sua referência fundamental no país, Tomar é um local sagrado da religião de “Ser Português”.

É impossível passar na charola e não sentir algo de diferente; é impossível olhar para a janela da sala do capítulo e não sofrer uma imensidade de interrogações e admirações; é impossível olhar para a colina e não pensar no tesouro material ou simplesmente de conhecimento que por ali terá circulado.

Imaginar que uma equipa de filmagens andou naquele local tipo finalistas em viagem de fim de curso no sul de Espanha, soa-me como uma grave profanação. Fico a imaginar o paralelo de um arraial minhoto na Abadia de Westminster ou uma Casa dos Segredos no palácio do Louvre.

Se as árvores e os arbustos podem crescer de novo, as pedras quebradas já não se recuperam e parece terem sido demasiadas para apenas consequência de um acidente isolado e imprevisto. Inadmissível e inacreditável é ter sido feita uma fogueira de 20 m de altura naquele local. Ou não foi comunicada e previamente autorizada e é grave; ou foi-o e ainda é pior. É completamente inconcebível que esta javardice possa ter ocorrido naquele monumento único, local sagrado da nacionalidade.

05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

04 junho 2017

Outra vez, outra vez


Nota de abertura: este texto é capaz de ser aceite e concordado por alguns amigos meus muçulmanos e contestado por alguns conterrâneos, que imaginam as coisas de outra forma, mas a realidade nem sempre coincide com o que a ignorância supõe.

Outra vez e em Londres. E a culpa não é da polícia por não ter controlado todos os potenciais radicalizáveis. E a culpa também não é da chamada civilização ocidental, nem pelas remotas cruzadas, nem pela mais recente guerra na Síria (ou no Iraque). Se quisermos procurar uma génese, podemos começar com a frustração pela derrota e queda do Império Otomano há um século e acabar com a frustração por as independências não terem cumprido minimamente as expectativas criadas, coisas sobre as quais a nossa responsabilidade é algo limitada. Lamento, mas não vou pedir desculpa por os Otomanos não terem conquistado Viena e o resto da Europa

E não venham dizer que isto não tem nada a ver com o Islão. Isto é aplicação literal da fase de Medina de Maomé.

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (Corão 8:5).

"E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idoltatria é pior do que o morticinio" (Corão 1:191)

Há um Islão que é assim e os líderes do “outro” Islão podem fazer o favor de clarificar e sair a público e condenar claramente os pregadores do ódio?

02 junho 2017

A pequena ilusão


Prémios Nobel, não serão tão abundantes quanto os chapéus, mas há alguns. Da economia sai, pelo menos, um por ano. O senhor Joseph Stiglitz foi Nobel da economia há 16 anos, em 2001, e tem um livro de referência publicado chamado, em português: Globalização, a grande desilusão.

Eu li (do princípio ao fim) esse livro e, na minha modesta opinião de um ignorante nas teorias, mas algo atento à realidade e, por isso, com direito a ter uma opinião, digo sobre o livro: algumas considerações interessantes, mas atalha muito em certos caminhos; não fazenda de forma nenhuma jus ao título. Se a “globalização” podia sem dúvida ter corrido melhor, mais controlada e mais gradual, como já o referi aí para trás, que se possa carimbá-la redondamente de “errada” é uma … conclusão precipitada.

Ora bem, como o Sr Stiglitz tem expressado umas opiniões favoráveis e simpáticas a uma certa corrente “contra”, tornando-se num deus, uma sumidade única, para alguns revoltados. Ainda por cima, é um “prémio Nobel”, como se esse título de há 16 anos fosse uma chancela de infalibilidade; como se o facto de poderem existir 20 ou mais “Nobeis” discordantes seja irrelevante para quem apenas ouve o que quer ouvir… e assim ficando com as vistas encurtadas.

Citando o meu “amigo” J. Brel, que sem ter sido Nobel era muito assertivo e sensato no que dizia: “O futuro depende dos revolucionários, mas dispensa bem pequenos revoltados”.

30 maio 2017

A tática resultou


A cartilha inicial do atual governo era repor rendimentos, com isso gerar mais procura interna e esta induzir crescimento económico. Uma receita largamente questionável. Na prática, ele retirou a todos, por impostos, indiretos, para entregar a alguns e, no global, não houve mais dinheiro livre no bolso do português “médio”.

O crescimento económico que se celebra agora tem a ver fundamentalmente com exportações e o turismo e pouco ou nada, com a tal procura interna. No entanto, o governo acha que isso prova a bondade e justeza das suas políticas.

Imaginemos um treinador que manda jogar ao ataque, na prática a equipa joga à defesa e ganha o jogo. O treinador anuncia que a sua tática resultou… e a claque aplaude!

Se os resultados são importantes, saber como lá se chega não é menos. Só assim se podem tirar conclusões e encarar o futuro com seriedade e eficácia.

24 maio 2017

Pela Paz


Ao ver anunciadas as iniciativas “Contra a Nato”; perdão, “Pela Paz”, recordei-me da única manifestação em que participei na minha vida. Bem, participei aproximadamente em metade dela e passo a contar.

Nos anos 80, os USA quiseram instalar mísseis nucleares na Europa. Este projecto provocou uma grande reação pública, com motivações variadas. Desde a transmissão direta do canal URSS, até à de muita gente que, genuinamente, gostaria de ver um desanuviamento da ameaça nuclear.

Neste contexto foram organizadas umas “Marchas da Paz”, sob o signo de uma pomba singela com um bonito ramo de oliveira no bico. Eu e um grupo de amigos decidimos participar na marcha do Porto, porque entendíamos valer a pena demonstrar publicamente a nossa vontade de ver o mundo menos ameaçado. Na Praça da Liberdade recebemos um papel com as palavras de ordem oficiais, curiosamente todas elas reivindicando uma paz unilateral. Esvoaçavam bandeiras da Intersindical e comentámos: Então a Inter também é “pela paz...!”. E pensámos: vem cá a RTP, filma estas bandeiras, apresenta-as no telejornal e insinua que isto é uma manifestação só de “comunas”.

Lá arrancámos e, no grupo em que estávamos, improvisámos umas palavras de ordem: “Nem a Leste, nem a Oeste; nem Pershing, nem SS20”. Pershing era um dos modelos dos mísseis americanos em questão e SS20 era um míssil soviético. Rapidamente fomos instados a “utilizar somente palavras de ordens oficiais!” e um grupo diligente apareceu ao nosso lado com o “Milhões e milhões contra a bomba de neutrões”. Conseguimos mobilizar os vizinhos para insistir no “Nem a Leste nem a Oeste”.

Foi assim durante a descida de Mouzinho da Silveira. No largo de S. Domingos juntou-se-nos um automóvel com megafone, abafando as nossas vozes com os milhões e a bomba de neutrões. Demos uns passos rápidos à frente para fugir ao veículo, mas ele conseguiu furar até junto de nós. Depois de uma corrida adicional mais longa, passamos a ver e a sentir, não uns milhões, mas uns bons pares de sólidos cotovelos, tentando-nos separar e gritando contra a bomba de neutrões.

A manifestação para nós acabou ali, em frente à Bolsa, antes de se tornar conflituosa. Aparentemente, não era pacífico dizer “nem a Leste, nem a Oeste”.

22 maio 2017

An alternative fact


Leio que, na sua deslocação ao Médio Oriente, Donald Trump afirmou estarmos face a uma rara oportunidade de paz na região. O homem é um génio, “believe me!”. Ele consegue ver e concluir o que mais ninguém alcança.

Depois de ter vendido mil milhões de dólares de armas aos Sauditas… para ? Bombardear o Iémen não deverá ser, porque ali já não deve haver canto, recanto ou galinheiro que não tenha sido alvejado…. Para a Síria? Eh pá!! O problema é que aí pode-se saber por onde elas entram, mas não se sabem onde acabam.

Depois de ter condenado e ameaçado o Irão quando, “believe me”, era melhor, para a tal dita paz, procurar alguma equidistância, como fez Obama.

“Well, believe me!” Essa coisa da oportunidade para a paz, é um “real alternative fact”! “Believe me...” Isto está a piorar.


Foto do USAToday

19 maio 2017

Impedir que o mundo se desfaça



"Cada geração, sem dúvida, acredita estar destinada a mudar o mundo. A minha, no entanto, sabe que não o fará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça.


Esta afirmação, podendo parecer muito premente e atual, quando tantas ameaças, de várias origens e naturezas, pairam sobre o nosso mundo, tem 60 anos. Foi proferida por Albert Camus em 1957, no discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura.

Os problemas passados parecem-nos frequentemente menores do que os contemporâneos, mas é de recordar que naquela data ainda pairava no ar o cheiro das cinzas da II Guerra Mundial e estávamos em plena Guerra Fria, que, a aquecer, poderia provocar estragos irreparáveis.

O mundo não se desfez e se, até hoje, a Europa não voltou a cair na barbárie, isso foi em muito devido à construção das Instituições Europeias, assim como, com todas as suas deficiências, a ONU contribuiu para o mundo ficar um bocadinho melhor.

Aqueles que hoje menosprezam a “Europa Construída” e pedem excitados a sua desconstrução, não viveram uma guerra. Também não deveria ser necessário tê-la vivido para sentir a necessidade permanente desta prioridade evocada por Camus.

13 maio 2017

Glosa Crua, 12 - Tempo, 0


Doze anos de “glosa crua” e 1635 publicações. Vale algo? Para mim, vale…

Há uns anos, numa daquelas manobras estúpidas que não devo ser o único a fazê-las, apaguei o blog. Nuns instantes iniciais, quando a manobra parecia irreversível, não dei literalmente com a cabeça na parede, mas faltou pouco! Como se me tivesse desaparecido algo de irrecuperável e de muito valioso... para mim.


E continuo celebrando, já que "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto" !

10 maio 2017

Coisas cá da terra


Cenário 1 – Os estrangeiros ignoram ou ridicularizam a participação.

Resposta cá na terra: Estava-se mesmo a ver. Aquilo é absolutamente ridículo; não tem jeito nenhum. É inconcebível como foram escolher uma “coisa” daquelas. Outro resultado não era de esperar.
Acrescentar-se-ia, certamente, uma boa série de piadas e graçolas de natureza e gosto variados.


Cenário 2 – Consta que os estrangeiros gostam e, se calhar, vamos ficar bem.

Resposta cá na terra: Yeahhh!!! Sobral, amigo, estamos contigo! És o maior! Mostra a esses estranjas como se canta! Vamos lá, somos bons…!
E só falta pendurar bandeiras nacionais nas janelas e varandas.

Assim somos...

09 maio 2017

Milagres e Santos


Começando com uma declaração de interesse: sou agnóstico, não sou crente, mas tenho uma matriz cultural cristã. Aprendi a catequese em pequenino e não deixo de me reconhecer nalguns dos valores desta religião.

O que quer que aconteceu em Fátima em 1917, nos calores e nos apertos da primeira República, teria provavelmente uma projeção diferente caso tivesse ocorrido 30 anos antes ou 50 anos depois. No entanto, é um fenómeno social, vivo, que cresceu, que se consolidou e o seu valor atual para os crentes, não seria muito diferente se a sua base de 1917 tivesse sido mais verosímil ou menos fantástica, menos manipulada ou mais genuína. Esta “fé” pode e deve ser respeitada, independentemente das visões e convicções de cada um.

Nesta excitação toda com a vinda do Papa e para lá da proliferação dos vendilhões do templo (inclusive de colchões e de locais para dormir), não consigo entender e aceitar (se é que esse direito tenho) o processo de canonização e a sua sustentação. O critério de ser determinante e suficiente o reconhecimento de um milagre, muitas vezes associado a curas improváveis, parece-me pobre.

Muito mais determinante para o bem-estar humanidade e termos um mundo melhor são os atos e o exemplo deixado pelo próprio. Se algum cego passar a ver e me atribuir o mérito e a inspiração, isso não deverá fazer de mim santo, julgo eu…

07 maio 2017

Partidofobia


Ufa! Macron ganhou; o que se seguirá logo se verá, mas é sempre melhor do que a alternativa e ganhou apesar da demissão da extrema esquerda antifascista, que, provavelmente, gostaria de ter fascistas no poder para poder ser contra e forte. Seria mais interessante passarem a ser a favor de qualquer coisa positiva. A especificidade desta segunda volta é a ausência de candidatos dos partidos tradicionais.

Por cá, vimos a tristeza do PS no Porto, uma historia que nem sequer será potencialmente única deste partido. Como é óbvio, Rui Moreira é o candidato que muito provavelmente vencerá, por mérito próprio, independentemente dos partidos que o apoiem. Mas o PS quis reservar dividendos, para lá do razoável, e Rui Moreira mandou-os passear. Qual a reação do “aparelho”? Começar a malhar de todas as formas e feitios e “denunciar” a partidofobia (bonito, não?) do Presidente da Câmara, independente. Partidofóbicos ficamos nós todos assim e, depois, não vale a pena chorar. Felizmente é o Porto e é Rui Moreira, podia ser outro local e o Tino de Rans.

PS: Vamo-nos prepar para ver a armada de “comentadores” e cuscos oficiais a descobrir e a denunciar os dias em que Rui Moreiras se esqueceu do desodorizante.

29 abril 2017

Dança


Na praça aquecida ao Sol, uma rapariga pôs-se a dançar
Ela roda continuamente, como as bailarinas da antiguidade
Na cidade muito quente, homens e mulheres sonolentos
Espreitam pela janela esta rapariga que dança ao meio dia

Assim, certos dias parecem uma chama aos nossos olhos
Na igreja onde eu ia, chamar-lhe-iam o Bom Deus
O enamorado chama-lhe o amor, o mendigo a caridade
O Sol chama-lhe o dia e o homem bravo a bondade.

Na praça vibrante de ar quente, onde nem sequer um cão aparece
Ondulante como erva ao vento, a rapariga saltita, vai e vem
Nem guitarra nem pandeireta para acompanhar a dança
Ela apenas bate palmas para marcar a cadência

Assim, certos dias parecem uma chama aos nossos olhos
Na igreja onde eu ia, chamar-lhe-iam o Bom Deus
O enamorado chama-lhe o amor, o mendigo a caridade
O Sol chama-lhe o dia e o homem bravo a bondade.

Na praça onde tudo está tranquilo, uma rapariga pôs-se cantar
E o seu canto plana sobre a cidade, hino de amor e de bondade
Mas na cidade demasiado quente, para não mais ouvir o seu canto
Os homens fecham as janelas, como uma porta entre mortos e vivos

Assim certos dias parecem uma chama nos nossos corações
Mas nunca queremos deixar brilhar o seu brilho
Tapamos as orelhas e fechamos os olhos
Não apreciamos muito os acordares
De um coração já envelhecido

Na praça um cão ainda uiva, porque a rapariga se foi
E como o cão uivando a morte… choram os homens a sua sina!

Para marcar o dia, mais uma tradução livre… de quem…? 
Só podia ser do grande Jacques !
"Sur la Place"

26 abril 2017

Mal e ou gordo


Dizer mal, e de de várias pessoas, é mediaticamente muito mais rentável do que elogiar. Veja-se o caso de José Miguel Júdice, de cuja recente entrevista tanto se falou – além de ser mais um pouco de tiro ao Coelho, um desporto muito na moda, numa certa elite do próprio partido.

Achei muiitaaa gira a frase: “Eu tenho uma teoria que, como todas as teorias, é exagerada. Faço a distinção entre magros e gordos. Os gordinhos são mais otimistas. O António Costa é gordinho, o Soares era gordo… Salazar era magro, o Cavaco é magrinho, o Passos é magro, é uma linhagem de pessimistas. Quando alguém está bem com a vida, come melhor”.

Esta frase é um verdadeiro monumento à imbecilidade, que, ao contrário das teorias, pelos vistos sempre exageradas, não precisa de escala. Aparentemente, comer bastante e assim engordar é sinónimo de estar de bem com a vida, sendo o otimismo uma mera consequência ou causa do tamanho do prato. Acho isto irritantemente básico e muito desrespeitoso para com os otimistas que não têm meios ou vontade de comerem como abades (e, já agora, um abade ser magro, que leitura tem?). Pelo menos, percebemos que o próximo líder do partido deverá ser gordinho, para as inteligências do partido e/ou a populaça, não o associarem à suposta linhagem do tal de Santa Comba.

Não ficando apenas pelo dizer mal, vou chamar as palavras de alguém que muito admiro: “Estes dois são demasiado magros para sem desonestos” – Jacques Brel, em “Orly”.

24 abril 2017

Utopias por aí


O resultado da primeira volta das presidenciais, mostra 4 candidatos utópicos, cada qual à sua maneira, e não muito. Estão todos bastante próximos dos 20%, mais coisa, menos coisa.

Macron – Do mal o menos, para já. O futuro o dirá. Recordam-se do entusiamo com a eleição de F. Hollande em 2012? Que abria uma nova via, que marcaria uma diferença, que ia liderar uma Europa mais solidária, humana e patáti-patatá? O resultado foi tão espetacularmente deprimente que, coisa rara, nem se apresentou à reeleição. Hollande tinha o enorme aparelho do PSF por trás, Macron praticamente nem partido tem.

Le Pen – O fato de tratar alguns bois pelos nomes não é suficiente para ignorar algumas dimensões perigosas do seu programa, especialmente nas questões europeias. Como dizem os franceses, não se deve deixar a criança ir junto com a água do banho; questionar o projeto europeu não deveria implicar destrui-lo. Dizem que apela a uma utopia, a do regresso a um passado que na prática nunca existiu. Para muitos é uma utopia simpática.

Fillon – Apelando à utopia de um partido tradicional do poder ser honesto e coerente, ainda por cima ele próprio com telhados de vidro bem escacados (depois, os populistas é que não são sérios).

Mélenchon – Dizem que quer uma Europa mais “solidária”. Os coitadinhos do Sul estenderem a mão aos alemães, ainda vá que não vá… agora a França? Perturbador, e muito, é a admiração do senhor pelas revoluções bolivarianas dos Chavez e companhia. É que essas já está provado não serem utopia – são um pesadelo bem real. Quase 20% dos eleitores entusiasmarem-se com esta patética “França Insubmissa” assusta. Nota: O senhor não deu recomendação de voto para a segunda volta… (ao menos podia ter-se inspirado no Cunhal). Algum paralelismo com Corbyn e o Brexit? Esperemos que só nas aparências.

23 abril 2017

Festival de Folclore Internacional do Alto Minho


Foi em 2011 que para mim começou, embora já existisse há muitos anos. Apareci lá com a 50mm quase a estrear e foi talvez a primeira vez que puxei por ela a sério e muito inseguro. O espetáculo foi interrompido pela chuva e quando retomou, com o palco encharcado, foi para exibições atípicas e sossegadas.

No final, a organização pediu-me para partilhar algumas fotografias, coisa que, quando se começa, nunca se sabe bem onde acaba, :) . A partir daí, nunca falhei nenhuma das edições seguintes e a minha aprendizagem fotográfica deve muito ao FFIAM.

Sei agora que o Festival deixará ser o que era, afogado na pequena política que grassa na politiquice em geral. Se é verdade que tudo tem um fim, é de realçar ser por estas tacanhezas, por estes patéticos pequenos poderes que somos e seremos pequenos, não é pelas piadas parvas de um holandês.

Fica-me a satisfação e o gosto de ter dado a foto para a cartaz da última edição e agradecer a quem o fez durante todos estes anos e … a quem me ajudou a fotografar melhor. A vida continua, mais assim ou mais assado.

19 abril 2017

Quando o PR for grande


Passando respeitosamente ao lado da tragédia em si, que, apesar da espetacularidade da mesma e da sensibilidade do local, nem é propriamente de dimensão extraordinária, nem sei que diga daquela coisa de PR ter ido a correr para Tires. Será como aqueles que, quando lhes cheira a acidente, se aproximam para verem melhor…? Ou será que o PR gostaria de ter sido bombeiro e assim sublima uma vocação desatendida?

Se amanhã cair um automóvel numa ravina em Cebolais de Cima, provocando 5 mortos, o PR também sai para lá a correr? Ou, o Presidente de todos os portugueses, tem mais sensibilidade pelo que se passa na órbita de KasKais? E, se por acaso, o acidente até tivesse um contexto criminoso, eventualmente terrorista, era sítio para um PR ir a correr espreitar?

Sinceramente, esperemos para ver o que ele será quando um dia for grande.


Foto googleada

18 abril 2017

Coerências e deficiências


Que uma certa esquerda admire e aplauda Cuba, que venere a figura de Fidel Castro, apesar de todos os atropelos à liberdade e outras deficiências do regime, parece-me miopia.

Que uma certa esquerda continue a manifestar alguma compreensão e solidariedade pela desgraça em curso na Venezuela, parece-me cegueira.

Agora, que uma certa esquerda, “tradicional”, continue a apoiar e a reconhecer-se na Rússia dos dias de hoje, isso já me custa muito mais a classificar. É que a Rússia atual, dominada pelos oligarcas, não tem nadinha a ver com aquela coisa do comunismo, bom ou mau, utópico ou pragmático.

Os valores por que se rege o país são claramente mais próximos do capitalismo selvagem do que da ditadura do proletariado e sem o mínimo cheirinho de justiça social ou outra.

Senhores e senhoras, camaradas cunhados naquele molde da cintura industrial, a perfilhar e a apoiar um regime que gera e apadrinha Abramovitchs e afins, com os seus iates de luxo e demais extravagancias milionárias… há aqui qualquer coisa que me escapa!

14 abril 2017

Diferenças


Gostamos muito de dizer mal dos alemães, daqui a 50 séculos ainda os estaremos a estigmatizar pelo nazismo, apesar de eles terem resolvido essa sua herança de uma forma quase exemplar, e invocaremos muitas outras coisas, mais do campo da inveja do que do campo do racional e dos princípios.

Ficamos escandalizados por um holandês, daqueles piorzinhos, que gostaria de ser alemão, mas não o é, vir lembrar que receber ajuda também implica obrigações. O dinheiro que recebemos não foi para mulheres e copos, principalmente. Mas algum foi para os copos lá no sul de Espanha onde muitos dos nossos bravos chavalos não viram nada de especial em termos de estragos, apenas paredes riscadas… o que, aparentemente, é uma coisa perfeitamente normal.

Voltando aos alemães, temos nas notícias destes dias a solidariedade dos adeptos do Mónaco com o ataque ao Borússia e os alemães a abrirem as casas e a oferecerem hospitalidade aos monegascos. Foi bonito e uma bofetada de luva branca aos energúmenos que acham que conseguem mudar o nosso mundo. Neste caso, mudaram para melhor.

Por cá, vimos os adeptos de um clube da minha cidade, com o qual (clube) não me identifico, cantarem qualquer coisa como “Ai quem me dera que o avião da Chapacoense fosse do Benfica”. Coisa pontual e não significativa? Não! Vejam o Canelas, do meu concelho (bolas!) e o seu registo de incivilidade de há largos meses e que só se “descobriu” agora, depois de enviarem um árbitro para o hospital.

Continuemos, portanto, a fazer piadinhas com a Sra Merkel e a insultar o Sr Schauble, os culpados disto tudo, que vamos bem…

07 abril 2017

Assad é bruto, mas…


Assad usou armas químicas contra civis, ultrapassando uma linha vermelha e os EUA decidiram que a coisa não podia ficar impune.

Tão simples assim? Consciente de que o que sei será bastante menos do que o que não sei, não consigo deixar de colocar algumas questões. Assad é bruto, mas não estúpido. Qual a vantagem militar deste suposto ataque? Justificaria o risco, confirmado agora, de escalar a intervenção dos EUA, desequilibrando as forças em seu desfavor? Acharia ele que esta provocação seria ignorada pela nova administração americana, muito mais “pró sunita” do que a anterior?

A intervenção direta da Rússia, desde há uns meses, mudou o sentido da guerra. O enfraquecimento do antes poderoso e sempre ignóbil “Estado Islâmico” é consequência disso. Os sunitas do Golfo e da Turquia apreciariam muito uma participação mais ativa dos EUA e conseguiram-na. Será Assad assim tão estúpido, a ponto de ter dado este enorme tiro no seu próprio pé?

Mesmo sendo estúpido e criminoso, o seu enfraquecimento vai reforçar o “Estado Islâmico” e essa nublosa chamada “oposição síria”, que aplaude a intervenção americana com todas as mãos e pés, e que inclui Al-Qaedas e outros grupos radicais islâmicos, aparentemente financiados pelo Golfo. Eu, no lugar do Diabo, a ter que escolher entre os dois cenários maus, não duvidaria.

Não é muito claro o que será a Síria depois de uma derrota militar de Assad, mas coisa decente nunca será. Exemplos ilustrativos até já os há e aí ainda nem sequer se sabe como normaliza-los minimamente.

PS: E para o Iémen, nada …?

05 abril 2017

E é sempre a primeira vez


Obrigado Rui Veloso e Carlos Tê pelo belo hino a esta “Porto Calle”, que tantos anos depois ainda e sempre nos emociona. Sim, “Porto Calle”, porque separar as duas, só por bacocada política, muito pequenina para a grandeza do local.

Onde praticamente não há palácios, porque de nobre só o atributo no mui claro lema. Preguiçosos, presunçosos e parasitas não são bem-vindos, contas pagas na hora e sem complicações e, mesmo no auge das trevas, a inquisição foi impedida de queimar gente nas ruas.

O milhafre ferido na asa, parece que voltou a voar, mas mais do que as distinções e as classificações e o ser o mais isto ou o mais aquilo, a primazia não está na beleza, que é como os chapéus, há muitas; o fundamental é saber ser livre, como tantas vezes o demonstrou.

04 abril 2017

A banalização do terror


Londres há pouco mais de uma semana e agora Moscovo. Curiosamente, se o luto e a consternação ficam, o choque é menor. É banal… inevitável. E isto tem um aspeto positivo – o valor dos atos destes energúmenos diminui. Da inevitabilidade fica a banalidade da barbaridade.

É tão elevado, digno e pleno de alto significado chacinar pessoas que apenas normalmente apanham um transporte público para ir trabalhar, ganhar o dia!

Sois uma grande merda!!!


Foto Googleada

31 março 2017

Redundância e despropósito


Foi numa tarde de domingo, quando depois das voltas habituais e eventualmente das extraordinárias, nos sentamos por uns minutos em frente à televisão, em meia resignação. Passa um filme de tarde de domingo em que há uma ela, bonitinha e querida como deve ser, face a um ele, bom rapaz e algo ingénuo como deve ser. E um deles diz ao outro, de forma muito urgente e assertiva: “Eu amo-te!”. Assim como: “caso não tenhas reparado ou estejas com dúvidas”.

A interpretação não era grande coisa e esse defeito associado ao contexto fez-me pensar, refletir e concluir: isso não é coisa que se diga, assim a avisar, como quem recorda a hora do dentista. É demasiado ridículo. Está certo que Fernando Pessoa bem dizia que as cartas de amor são ridículas e que ainda mais ridículos seriam os que nunca as escreveram. Mas isso são as cartas, em que está um papel real ou virtual pelo meio.

Olhos nos olhos é algo redundante, e eventualmente deselegante, dizê-lo. Transmite-se e sente-se de forma tão mais eficaz quanto menos forem as palavras ditas.

O resto são filmes.

23 março 2017

Uma imagem reconfortante


Numa restaurante na estrada, passam sem som as imagens do ataque terrorista de Londres de ontem e há algo reconfortante na calma e na dignidade como os britânicos lidam com a tragédia. No ministro que socorreu o policia ferido e ficou firme junto dele até chegarem os socorros. Na forma grave e tranquila como o parlamento referiu o acontecimento e homenageou as vítimas.

Do meu lado, reconheço já ter passado a fase da revolta simples, daquela que diz: isto é impossível e tem que acabar. Infelizmente, isto é possível e não irá acabar. E, pelas alminhas, não me venham dizer que “nós” temos uma parte da culpa pelo comportamento assassino destes alucinados.

A frustração que alimenta os discursos extremistas, catalisadores desta barbárie, tem muito a ver com a desilusão de os pós-independências não terem cumprido as expetativas. No entanto, como após 500 anos Portugal ainda é responsável pelo que de mau acontece no Brasil, a Europa ainda terá mais 450 anos de responsabilidade pelas desgraças do Médio Oriente.

Eles vão continuar a matar, iremos ter que viver com isto, mas só peço uma coisa: chamem os bois pelos nomes: assassinos. E todos aqueles que relativizem esta palavra por ações ou omissões, seja numa monarquia, real ou virtual, do Médio Oriente, seja num líder religioso de qualquer credo, seja alguém assim para o moderno, que culpa as colonizações terminadas há 50 anos, que a maioria destes alucinados nem sequer conheceram, todos esses que relativizam a palavra são apoiantes morais destes crimes.

22 março 2017

P*as e vinho verde


Princípio: O sr Dijsselbloem foi infeliz e até mesmo parvinho no que disse? Sim, Foi!

Mas também ignorante. Se ele conhecesse o Sul da Europa e Portugal em particular não teria dito “Copos e mulheres”, mas sim “P*as e vinho verde”, que é a expressão correta e consagrada para o efeito na cultura local. Também foi x-ofebo, y-ogeno e redutor. No mínimo, deveria ter dito: “Copos, charros, mulheres e homens”, para ser minimamente inclusivo e respeitar as causas corretas.

Meio: O sr Dijsselbloem foi infeliz e até mesmo parvinho no que disse? Sim, Foi!

Mas também ignorante. Precisamos de ajuda externa, por causa de alguns vícios, mas não esses. Foram as rotundas cibernéticas e demais gastos autárquicos sem sentido; foram as autoestradas redundantes e demais obras públicas desnecessárias e, principalmente, os milhares de milhões que se evaporaram do BPN, BES e CGD, só para referir os maiores. Esse das “P*as e vinho verde” é um vício muito básico e nunca chegaríamos onde chegamos apenas com isso, mesmo acrescentado os charros e alargando o género. Os nossos governantes são mais sofisticados e eficazes a gastar em vícios do que o senhor pensa.

Fim: O sr Dijsselbloem foi infeliz e até mesmo parvinho no que disse? Sim, Foi!

21 março 2017

Ainda a Holanda e as pontes queimadas

Disse aqui atrás que os resultados das eleições na Holanda, apesar da não vitória dos populistas, não terão sido algo assim tão digno de festejos. Não há recuo do populismo, mas sim avanço, apenas não tão rápido quanto se receava.

No entanto, nestes tempos ocorreu algo mais claramente negativo e veremos se reversível, que é a relação da Turquia com a Europa e a “integração” dos seus imigrantes. A Holanda proibiu os ministros turcos de fazerem campanha no seu território e, independentemente das suas razões ou da falta delas, o que se seguiu tem um certo perfume de pontes queimadas. Erdogan chamou-lhes nazis em vez de se ter queixado de uma forma mais equilibrada e racional (já sem lembrar a sua ordem de prisão par milhares de pessoas no dia seguinte ao golpe falhado). Houve quem lembrasse que na Holanda, o número de imigrantes turcos é superior ao dos efetivos militares. Recomendam-lhes ainda que façam 5 filhos (bastante relevante dado o caráter democrático da Europa; se fosse nazi seria inconsequente).

Alguns imigrantes turcos certamente se terão desolidarizado, mas … os outros que saíram à rua com facas nas laranjas, como querem ser vistos a partir de agora pelos originais do seu país de acolhimento…?

20 março 2017

O populismo perdeu?


Respiraram as elites de alivio, porque o povo na Holanda, não deu a vitória aos populistas. Ouvindo-os, dir-se-ia termos assistido a uma inversão da tendência e, daqui em diante, serão apenas amanhãs cantantes.


Ora bem, o partido do primeiro ministro desceu de 41 para 33 lugares no Parlamento. O partido populista, a besta negra, subiu de 15 para 20. Está certo que não ficou em primeiro lugar, mas, mais importante do que este alívio temporário, é saber se esta tendência se mantém ou se será apenas uma questão de tempo até a besta negra efetivamente vencer.

Enquanto as elites não forem exemplos de liderança e de seriedade e continuarem a serem vistos e a comportarem-se como básicos oportunistas, não estou a ver inversão, pelo contrário. Esta autossatisfação pelo sucesso holandês, que se quer decretar estrutural e consolidado, apenas os ridiculariza e desacredita mais. De vitória em vitória, até…

16 março 2017

Que me desculpem

Que me desculpem Miguel Torga, Fernando Namora e tantos outros, que mesmo não sendo escritores nem tendo deixado um registo literário eloquente da vida que viveram e de tantas que viram viver e morrer, conseguiram manter-se no nível dos comuns mortais que humanamente trataram.

Não foi há muito e pouco importa o local público onde ocorreu, por acaso um restaurante, em que ouvi alguém falar de forma tão enfática, com tanta auto presunção, que pensei imediatamente: este cagão é médico. Uma certa forma de presumidamente se colocar a um nível superior dos outros desgraçados, que desgraçadamente necessitam de se colocar nas suas sábias mãos e têm a vida e o bem-estar dependentes do seu conhecimento. A continuação do discurso, demasiado próximo para não o poder ignorar, confirmou-me o palpite: era, claro estava, médico.

Há uma tira da Mafalda, do Quino, em que o pai dela conversa com alguém na praia, até o interlocutor se declarar …. Médico! Aí, imediatamente, nasce da areia uma coluna pedestal que eleva o senhor doutor dois metros acima do pobre…Perdão, de calções somos (quase) todos iguais.

A assunção de superioridade que uma parte da classe ostenta é a mesma de um rico face a um pobre, a de uma bonita face a uma feia. Só que não está em causa a riqueza material nem os favores da natureza; está em causa o poder sobre a vida. Independentemente do mérito subjacente ao estatuto e à função, a falta de humildade e a sobranceria são algo que me choca. Neste contexto muitíssimo mais!

14 março 2017

Os clássicos


Não sou nada apologista da apologia sistemática das glórias passadas. O foco principal deve estar no que ainda está para vir, mas… o que foi feito também conta e, de vez em quando, não faz mal olhar para isso um pouco.

Uma vez por ano reunimos os “clássicos” da “Efacec Robótica”. O nome original não era bem assim, já mudou, mudará (… como é que é mesmo o próximo?), mas este continua a ser ainda a referencia familiar. Passei por lá 14 anos, saí há 16 e ainda é família.

Não estão todos, alguns por impedimento circunstancial, outros talvez injustamente ainda não convocados, mas lá estivemos a revisitar histórias do passado, comentar as do presente e conjeturar sobre as do futuro, numa pequena volta ao mundo, decorada com episódios de todo o tipo e feitio, sucessos e algumas trapalhadas.

A mesma frontalidade de sempre, a mesma ironia na esquina de cada frase, a mesma forma de tudo questionar, a sério ou a brincar e, sobretudo, infalivelmente, a mesma lealdade mútua. Cada qual na sua forma, no passado ou no presente, reencontra identificação e empenho no projeto que vimos nascer e crescer. Que, como disse o Sr Reding, para grande frustração no momento e posterior desafio: “Está tudo muito bem, mas isso não é coisa que se faça em Portugal!”. Mas fez-se e essa afirmação, proferida com sotaque alemão, acabou por se transformar numa enorme fonte de motivação.

Para o ano lá estaremos, certo?

13 março 2017

“Muita giro!”


Foi por acaso que este domingo segui o acontecimento mediático informativo fundamental semanal da paróquia, a “entrevista” a Marques Mendes, e achei “muita giras” algumas considerações dele sobre a atividade do PR.

“Fala demais?” – pontualmente sim, mas globalmente não. Quando eu um dia for apanhado em excesso de velocidade, tentarei explicar ao polícia que foi uma transgressão pontual, mas que globalmente cumpro os limites.

Que o PR não foi um catavento, como alguns previam. Por exemplo, sobre o sistema financeiro, sempre defendeu a necessidade da estabilidade do mesmo … pois, também era o que faltava...

Outra observação engraçada foi acerca do estilo e a "descrispação" (ou lá como se diz) e o otimismo e os afetos e essas coisas todas ótimas para as fotografias. Dizia MM que o estilo do PR até estava a fazer escola, porque agora também se vê o PM a dar beijinhos e a fazer selfies. Pouco depois lá alfinetou Passos Coelho, sugerindo que ele contactava pouco com a população. Lamentável é que na altura e no sítio onde devem decorrer as discussões sérias, os estilos passem para o trauliteiro.

Estamos num país porreiro onde o PR e o PM dão muitos beijinhos e estão sempre disponíveis para selfiar… se isso contribui para a nossa felicidade, sustentada, já é outra conversa, mas que é “muita giro”, é sim senhor.

11 março 2017

Perdões



Não sei mais que dizer como introdução a mais um belíssimo texto descoberto, deste grande senhor, Jacques Brel. E penso que este Cupido e Psique, vistos no Louvre, ficam bem na ilustração do mesmo, quanto mais não seja por antítese.


Perdão por aquela rapariga que se fez chorar
Perdão por aquele olhar que abandonamos rindo
Perdão por aquele rosto que uma lágrima mudou
Perdão por estas casas onde alguém nos espera
E depois por todas estas palavras que dizemos de amor
E que utilizamos como moeda
E por todos os juramentos mortos ao nascer do dia
Perdão pelos nunca, perdão pelos sempre

Perdão de não ver mais as coisas como elas são
Perdão por ter querido esquecer os nossos vinte anos
Perdão por termos deixado esquecidas as lições
Perdão por renunciar às nossas renúncias
E depois por nos enterrarmos a meio das nossas vidas
E depois por preferir a paga de Judas
Perdão pela amizade, perdão pelos amigos

Perdão pelos lugares que nunca cantam
Perdão pelas aldeias que já esquecemos
Perdão pelas cidades onde ninguém se conhece
Perdão pelos países feitos de sargentos
Perdão por ser daqueles que não querem saber de nada
E por não ter cada dia ainda tentado
E perdão ainda e depois perdão sobretudo
De nunca saber quem nos deve perdoar.

07 março 2017

A Europa auto


Enquanto uns curiosos se entretêm com o desenvolvimento de veículos autónomos, que por um motivo obscuro qualquer costumam ter um design evocativo da ficção científica dos anos 70, o grupo francês PSA (e também um bocadinho chinês), comprou as operações da General Motors na Europa, mais conhecidas pelas suas marcas Opel e Vauxhall (no UK).

Penso que esta notícia merece ser destacada e alguma reflexão. A General Motors foi durante muito tempo o líder mundial da produção automóvel, atualmente é terceiro, ultrapassado por um japonês, Toyota, e um europeu, VW, e a sua presença na Europa tinha 88 anos. O grupo PSA, atualmente Peugeot e Citroen, esteve muito débil ainda há poucos anos e foi salvo com uma polémica injeção de capitais chineses. Os seus últimos anos de sucesso foram liderados por um português, Carlos Tavares, mas vamos esquecer os nacionalismos bacocos e pensar em termos europeus.

A GM vendeu porque perdia sistematicamente dinheiro com a operação há vários anos e, certamente, não acreditava ser possível inverter a situação. Conseguirão os europeus ter sucesso onde os americanos falharam? E se também falharem, significa que a Europa como plataforma industrial e mercado perdeu importância e a GM fez bem em sair desta zona decadente. E se a PSA tiver sucesso significa que a Europa tem qualquer coisa, um saber fazer, superior ao dos americanos?

O impacto deste resultado é muito mais do que simbólico. Sem indústria não há emprego nem estabilidade social e a indústria automóvel é um barómetro fundamental. Por falar em social, os sindicatos já estão nervosos. Enquanto se manteve o status quo e as perdas contínuas estavam calmos; agora que se perspetivam mudanças, já “são contra” ou, no mínimo, estão desconfiados. Não, não sou a favor do vale tudo, mas uma empresa que não ganha dinheiro não mantém empregos, fatalmente acabam todos. A menos que os contribuintes contribuam e, aí, o problema fica apenas mais largo…


Foto retirada do Le Monde

04 março 2017

E a culpa será do Trump?


Não faltam, nem faltarão, vozes de protesto, de condenação e até mesmo pedidos de expulsão do cargo dirigidos a Donald Trump. Não o apoio, não me inspira nenhuma simpatia, mas, se quisermos ser objetivos, uma boa parte do “problema” está mais no estilo do que nas ações. Anda meio mundo escandalizado com o muro na fronteira com o México, quando este até já está construído a metade ou a um terço, sem ninguém na altura ter achado escandaloso. O senhor é provocador e sabe que isso funciona. Por outro lado, ele foi eleito democraticamente, segundo regras eleitorais consagradas há muito tempo, e, estranha-se, está a procurar fazer o que prometeu em campanha. Se aqui há algo errado, será com ele?

Supondo que, enfim..., longe vá o agoiro, o nosso Tino de Rans fosse eleito, de que serviria crucificar depois o senhor na praça pública? Quanto mais o “sistema” tentar ostracizar e ridicularizar estas aberrações, mais sucesso elas terão junto dos “desiludidos do sistema”.

Vejamos o caso das próximas Presidenciais francesas, onde Marine le Pen tenta apanhar a onda, para grande preocupação da elite do costume. O seu adversário natural direto, à direita, é François Fillon. Ora bem, este senhor já está enterrado com o que se descobriu sobre os empregos públicos faz de conta, que arranjou para a mulher e filhos. De que serve demonizar a senhora, com tanta fragilidade nos telhados próprios? É de realçar que isto não é uma especificidade francesa; do que vai pelas nossas terras nada cito, dado que, para ser justo e minimamente abrangente, o texto depois não caberia no espaço habitual de uma crónica.

Estes fenómenos democráticos combatem-se com exemplos, princípios e seriedade e, infelizmente, porta-vozes credenciados para a função são coisa muita rara. E quando os desiludidos do sistema se desiludirem de novo com estas supostas alternativas, o que se seguirá será mais grave do que uma simples desilusão.

24 fevereiro 2017

A Susan, a Maria e a Amira

Dentro daqueles fenómenos epidémicos, acertadamente também chamados virais, que se propagam pelas redes sociais e atingem até colunas de opinião de quem tem por missão opinar e, às vezes, nem sabe bem sobre o quê, está o caso do assédio sexual de Susan Fowler na Uber.

Antes de mais, e para começar claro e cristalino, tudo o que seja um ser humano utilizar alguma forma de poder para forçar outro a fazer o que este não quer nem a isso é obrigado, constitui um grave desrespeito pela condição humana e um atentado à dignidade da mesma. Quando o assunto envolve questões sexuais e o poder está no âmbito da hierarquia profissional, aí é especialmente execrável e acrescentem os adjetivos que entenderam. Eu até repetia o parágrafo duas ou três vezes, para ficar bem marcado. Aliás, mesmo sem entrar sequer nesse campo, as relações afetivas em contexto profissional são bastante delicadas, dada a dificuldade em conseguir separar eficazmente os sobressaltos e os humores que os afetos têm com a objetividade e o rigor que os relacionamentos profissionais exigem.

Voltando à Susan, ele foi vítima de assédio sexual dentro da Uber, o assunto ganhou visibilidade e a Uber, que depende muitíssimo da imagem, decidiu envolver um famoso ex-procurador geral na investigação, fazer um generoso mea culpa e por aí fora. Não sei se para pôr alguém no seu devido lugar seja necessária tanta artilharia. Dentro do chorrilho de leituras e comentários que o caso proporciona, vejo ser evocada a ligação com a natureza e a especificidade da Uber. E, aqui, é que o erro é grave. Não será um problema específico da Uber e, dentro do mal que lhe aconteceu, a Susan teve muita sorte em isto ter acontecido numa empresa assim exposta.

Pensemos nas Marias diariamente humilhadas nos Silvas e Silvas, sem nunca poderem sonhar em ver o seu caso mundialmente exposto e com direito a investigação por um famoso ex-procurador; pensemos nas Amiras para quem dois palmos de cara ou formas onde a natureza foi generosa são motivos impeditivos de conseguir uma carreira profissional séria e a independência e a dignidade que tal permite. E, insisto um pouco sobre a Amira. Nunca terá um ex-procurador geral a investigar o caso, nem o mais básico polícia sequer e, provavelmente, nem sequer a sensibilização e a solidariedade da sua opinião pública. Dos que se escandalizam com o caso da Susan, quantos admitem alguma compreensão para com as especificidades culturais “do outro”?

23 fevereiro 2017

O que está em causa

Na gincana “política”, habitual, da discussão do caso Centeno, há um cheiro de tribalismo, que não ajuda nada a iluminar o fundo da questão. Não é relevante se o défice foi bom ou mau, se se trata de, no fundo, defender uma CGD privada ou pública, ou de qualquer outro detalhe secundário neste contexto, por mais relevante que o seja noutro campo.

O que está em causa é que o governo quis contratar um profissional, não político, para uma dada função. Como em qualquer situação habitual em que o contactado não é um pau mandado, este terá dito “sim, nestas condições”, sendo irrelevante se essas condições apresentadas eram lógicas e justificadas ou inviáveis e estapafúrdias. Foram livremente apresentadas e, ao que tudo indica, aceites. Não passa pela cabeça de ninguém que A. Domingues tivesse avançado e assumido o cargo com esse ponto em aberto.

Aqui começa o verdadeiro problema. Sendo essas condições conflituosas com a moral púbica e a legislação em vigor, a reação foi: vamos cozinhar qualquer coisa, a ver se passa. Não passou e, em vez de singelamente assumir a falha, Centeno, não necessariamente o líder desta comandita, e companhia acharam por bem enganar o patego e atirar areia para os olhos de quem fez perguntas. E isso, chateia-me… (e o homem até podia ser prémio Nobel).

20 fevereiro 2017

E a Sra Le Pen agradece


Emmanuel Macron, o candidato da esquerda às próximas eleições francesas foi à Argélia, antiga colónia, e achou por bem afirmar que a colonização constituiu um crime contra a humanidade. Não sei se acreditará mesmo no que disse ou não; os políticos têm por hábito dizer o que acham por bem ser dito.

Se a história da humanidade está cheia de crimes e as guerras por si, para mim, serão todas criminosas, independentemente das causas e motivações, essa colagem direta da etiqueta é abusiva. Devo dizer que, como português, agradeço bastante a colonização que os Romanos por cá fizeram.

Se falarmos de África e de tempos mais recentes, poder-se-ia questionar se as lutas foram mesmo pela libertação ou apenas pela mudança da tutela e se, no pós-independência, há mais ou menos crimes contra a humanidade do que antes, mas aí estaríamos a fugir à discussão do princípio.

Citando o que alguém disse no “Le Point”, em outubro passado: ”… que a colonização na Argélia tinha trazido a tortura, mas também o nascimento de um Estado, a criação de riquezas e de uma classe média. Houve elementos de civilização e elementos de barbárie”. Quem afirmou isto, bastante razoável e equilibrado? O Sr Macron, o mesmo!!!

À sombra da falta de razoabilidade, incoerência e oportunismo descarado destes senhores, cresce a Sra Le Pen. Depois, se ela ganhar… podem organizar manifs.


Foto do France24

14 fevereiro 2017

Dia perigoso

Hoje é um dia perigoso… para ir a um restaurante. Há um sério risco de ser confrontado com uma ementa de S. Valentim; pior do que isso, numa sala decorada à S. Valentim ou, mesmo muito pior ainda, viver uma situação muito deprimente, caso coincida com um jantar junto com um colega de trabalho. Acho que desta última, pelo menos, estou safo.

Saindo um pouco deste merchandising da data (e uso o english mesmo de propósito), se houver um sorriso de alguma forma que gere outro sorriso, já chega.

E para esquecer, ou recordar, que não há nada de mais maravilhoso do que um olhar que tenta conquistar outro e nada mais, mais menos, do que um olhar que considera o outro conquistado.

13 fevereiro 2017

Nada de novo

Realmente não parece acontecer nada de novo por aqui, nesta grande paróquia. As coisas vão e vêm assim como as ondas na praia; limpam a areia de umas coisas, trazem outras, algum lixo, bastante, mas no fim fica tudo mais ou menos igual.

Alguém sabe como ficou ou como vai ficar aquela coisa do salário mínimo com TSU bonificada? Pois é, não tinha nem tem jeito nenhum. O salário mínimo devia ser um limite e não uma norma. De tanto batalhar essa causa, acordaram em subi-lo, mas com subsidio. Bendito país que mãos tão largas tem para satisfazer todos os chorões. A discussão ficou pela gincana tática e, nisso, nada de novo.

A Caixa Geral de Depósitos precisa de ganhar a vida como banco bem gerido, pelo menos deixar de a perder como instrumento do partido do poder. A trapalhada que viveu (ainda vive?), durante meses e que agora fatalmente se decanta, prova o seguinte. O estatuto de gestor público não permitia (permite?) contratar os profissionais necessários e os políticos mentem, para cima, para baixo e para o lado, o que for preciso para flutuarem na porcaria que fazem. Nada de novo e muito menos o facto de o PM vir garantir a pés juntinhos que ninguém mentiu. A novidade é o Presidente querer ver uma evidência assinada (com registo notarial?) e até lá ninguém tem culpa.

Os juros da dívida pública estão a subir. É uma novidade. O que não é novidade é não parecer ser preocupante para ninguém. Ah! Há outra novidade, é o Presidente garantir que, globalmente, a coisa está bem e a melhorar.

Os transportes públicos, de privatização suspensa ou revertida, continuam em degradação, mas isso é ainda culpa da troika. Até à próxima, a culpa será sempre da anterior. Nada de novo.

De resto, reformas e políticas de fundo, coisas feitas e pensadas um bocadito para lá dos títulos da imprensa de amanhã… não vejo. Infelizmente, nada de novo e nós, neste campo, precisávamos mesmo de algumas novidades.

Novidade talvez seja um Presidente que ainda não descobriu que quem muito fala, pouca acerta… ou talvez nem isso seja novidade.

31 janeiro 2017

A infância por Brel


O Senhor Jacques Brel, que eu aprecio há muito tempo, de quem tenho a obra completa há vários anos, continua, de vez em quando, a aparecer e a conseguir surpreender-me.
Para falar assim da infância, é preciso ser-se um grande adulto ! 

A infância, quem nos pode dizer quando acaba, quem nos pode dizer quando começa, não tem nada a ver com a imprudência, é tudo o que ainda não está escrito.

A infância que nos impede de a viver, de a reviver infinitamente, de viver a retornar no tempo, de arrancar o fim do livro.

A infância que pousa nas nossas rugas, para fazer de nós velhas crianças. Eis-nos jovens amantes, o coração cheio, a cabeça vazia. A infância, a infância.

A infância é ainda o direito de sonhar e o direito de voltar a sonhar. O meu pai era pesquisador de ouro; o problema é que o encontrou.

A infância, é meio-dia cada quarto de hora e quinta-feira cada manhã. Os adultos são desertores, todos os burgueses são índios.

Se os pais conhecessem a infância, se os mais pequenos amantes soubessem, se por acaso eles conhecessem a infância, nunca mais haveria crianças, nunca

25 janeiro 2017

O que há


Este texto sai descaradamente fora da linha editorial do blogue, mas é por uma boa causa. Considero fazer sentido o esforço e a heresia, se ajudar alguém na doença do “à” e do “há”:


1) O “à”

Eu vou a + o monte = eu vou ao monte
Eu vou a + a praia = eu vou à praia


2) O “há”

Forma do verbo haver, equivalente de existir. Na dúvida substituir pela conjugação equivalente de existir e ver se faz sentido
Hoje há festa = hoje existe festa – correto
Vamos há (?) praia = vamos existe praia - incorreto


3) O plural

Nas suas conjugações “simples” o verbo haver não tem plural (pelo menos por enquanto):
Não “haverão” razões – há razões
Não “hão” coisas – há coisas
Como auxiliar pode estar no plural
“Havemos de ver as razões; hão de ser feitas coisas”