21 agosto 2017

Je suis Altice

Não sou cliente da PT, nem pretendo ser, e não tenho nenhuma simpatia ou admiração especial pela Altice. No entanto, como cidadão, sinto vergonha pela triste figura que o nosso governo está a fazer, no assédio à empresa francesa, protagonizado pelo próprio Primeiro-Ministro.

A PT enquanto pública, ou “para pública”, foi um rio de dinheiro, aproveitado e abusado por muitos famosos da praça. No meio desse saque, o negócio ruinoso com o Brasil destruiu o valor da empresa, sempre sob o alto patrocínio, interesse e influência de quem governava. Sobre as responsabilidades neste saque aparentemente não se interessam os políticos, apenas os juízes.

Subitamente, a Altice e a PT, passaram a ser coisa pestilenta. Nos dias seguintes à tragédia de Pedrogão, o PM assume e repete cegamente o comunicado desresponsabilizador do SIRESP, que, supostamente, não tinha falhado; agora decretou que o colapso do sistema foi devido aos cabos aéreos da PT, pelos vistos subcontratado do consórcio (e gostava de saber se nesta cadeia alguém exigiu contratualmente cabos enterrados). Amanhã, se a Altice desistir de comprar a TVI, voltamos à primeira forma? É claro como água que foi esta aquisição que irritou o PS, a ponto de vermos um PM fazer figuras terceiro-mundistas. Em que continente vivemos?

Sobre o Siresp, só fica bem quem não esteve perto. Hoje temos um sistema caro, obsoleto e frágil. Já que o PM tem um amigo bom a renegociar coisas, e até conhecedor deste dossier, a solução é resiliar e contratar uma prestação de serviços a profissionais, deixando de brincar a infraestruturas de comunicações dedicadas que falham ao primeiro aperto (não apenas quando os cabos aéreos ardem).

16 agosto 2017

Maniqueísmo e Jardins da Luz



Quando hoje falamos em “maniqueísmo”, como uma visão redutora e simplicista, não sabemos (eu, pelo menos são sabia) a origem da palavra, de Mani, um Parta que viveu no século III, ali pela Mesopotâmia, na altura sob influência persa, a quem os chineses chamaram “o Buda da luz” e os egípcios “o apóstolo de Jesus”.

O seu “maniqueísmo” era entre as luzes e as trevas, mas, mais do que forçar uma opção, ao que a palavra atualmente se associa, ele defendia uma universalidade da espiritualidade, tolerante e humanista, e uma laicidade do poder temporal, a todos os títulos muito moderna. Acabou perseguido, odiado e condenado, naturalmente…


- Se dizes o mesmo que o Messias ou Buda, porque procuras construir uma nova religião?
- Àquele que nasceu no Ocidente, a sua esperança nunca floriu no Oriente, daquele que nasceu no Oriente, a sua voz nunca atingiu o Ocidente. É necessário que cada verdade carregue os trajes o a pronúncia dos que a receberam?
- Mestre, admito que certas crenças merecem ser respeitadas. Mas os idolatras, os adoradores do Sol?
- Acreditas que um rei terá inveja se alguém beijar a orla da sua capa? O Sol não é mais do que uma lantejoula da capa do Altíssimo, mas é através dessa lantejoula cintilante que os homens podem melhor contemplar a Sua Luz.
“Os homens acreditam adorar a divindade, quando apenas conheceram as suas representações, representações em madeira, em ouro, em alabastro, em pinturas, em palavras, em ideias”.
-E aqueles que não reconhecem nenhum Deus?
- Aquele que recusa ver Deus nas imagens que se lhes apresentam, estará por vezes, mais próximo do que qualquer outro da verdadeira imagem de Deus.

Excerto recolhido do romance sobre a vida de Mani – Les Jardins de Lumière – de Amin Maalouf.

14 agosto 2017

PCP – prova de vida?


Já sabemos que nos tempos que correm ser comunista puro e duro é uma coisa meia religiosa, de fé e de dogmas. Após cem anos de ensaios não faltam evidências da falência do modelo e a realidade sócio-económico atual é também excessivamente diferente da do tempo de Karl Marx. Num contexto religioso é normal, e fundamental, existirem coisas do domínio do misterioso…

Um dos mistérios destes dias, para mim, é o apoio do PCP aos “déspotas boliverianos”. Se no passado, quando não havia internet nem satélites, ainda se podiam imaginar coisas bonitas sobre Cuba e ignorar, querendo ou não querendo, a ausência de liberdade, sem entrarmos noutras carências, sobre a Venezuela de hoje, não há desculpa.

É-me extraordinariamente difícil entender como alguém com o mínimo discernimento ainda consegue ser solidário com esta “tragédia boliveriana”. Para ajudar, ainda vejo posições de apoio à Coreia do Norte, contra o imperialismo americano. Não, não tenho grande simpatia pelos EUA, muito menos pelo Sr. Trump. Apesar de tudo, admiro um país onde as instituições funcionam e a separação de poderes é robusta, como o próprio sr Bush está a constatar. Mas, criticar os EUA, fazendo vista grossa das deficiências, para não entrar em pormenores, do regime norte coreano, é muito caricato.

Tenho uma teoria especulativa para desvendar estes mistérios. O PCP encontra-se apertado dentro da geringonça. Depois das reversões efusivamente saudadas, já ninguém sabe bem o que fazer para a ceia e, na prática, aquelas bandeiras históricas do sair da Nato, sair do Euro, desrespeitar o tratado orçamental da UE e etc, começam a ganhar bolor.

Gritar o apoio aos revolucionários do mundo, acaba por ser uma forma de marcar diferença, de apego às raízes, uma prova de vida. Perigosa, no entanto, por ser intelectualmente muito desonesta.


10 agosto 2017

Laicidade e laicofobia


Voltando à questão dos abusos, que começou aqui e depois divergiu para um “podemos não estar de acordo” aqui, achei por bem, eventualmente sendo de novo abusivo, transcrever um texto, algo provocador, de Amine Zaoui, jornalista argelino e muçulmano, publicado recentemente no jornal argelino “Liberté”. Certamente não faltará quem o insulte de várias formas e feitios. Não vou dizer que estou de acordo e tudo subscrevo, mas é assunto que vale a pena questionar e um ponto de vista que merece ser analisado/discutido.

O muçulmano, todo o muçulmano em qualquer parte do mundo, é alérgico ao conceito de "laicidade". A palavra "laicidade" assusta-os! Magoa. Angustia. Aos seus olhos, "laico" é equivalente a comunista. Semelhante a "ateu". Igual a "irreligioso". Sinónimo de imoral. Ou ainda, um laico é um judeu. Um judeu é um laico. Um laico é um cristão. Um cristão é um laico. Qualquer laico é um não-muçulmano. E todo muçulmano é um não-laico, um laicofóbico. Um muçulmano não pode imaginar outro muçulmano laico. Na ausência da laicidade como um estilo de vida social, como uma forma de pensar, como cultura política, o mundo muçulmano tornou-se um mundo islâmico. Consumido pelo fundamentalismo. Mesma a laicidade na Turquia é ameaçada pelo islamismo fanático apoiado pelo projeto político da Irmandade Muçulmana. A "laicidade" assusta os muçulmanos desde Meca até Nouakchott, assusta o político muçulmano tanto de direita como de esquerda, assusta os "doutores" das universidades e assusta o cidadão normal.

A laicidade é um monstro! Mas porquê essa "laicofobia" no muçulmano? A escola é a fonte fundamental dessa doença chamada laicofobia. A escola, qualquer escola no Magrebe e no mundo árabe-muçulmano, do jardim de infância à faculdade, ensina aos seus alunos que a laicidade é um perigo para a religião islâmica. Que "laicidade" é o inimigo número um do Islão. Ela é uma armadilha armada pelos judeus aos muçulmanos! Ela é o isco do anzol colonial. Depois, porque o cidadão se afoga num grande vazio intelectual, onde a história das ideias filosóficas universais é banida. Os muçulmanos vivem fora, sem História e fora da História. Ou fazem a História à sua maneira, para se vangloriarem! Porque não existe nenhum pensamento crítico. Porque o fanatismo se impõe nas escolas e nas universidades, o muçulmano é apanhado pela laicofobia. Porque o religioso é um destino comunitário imposto. Porque não há nenhum debate intelectual livre e racional, o muçulmano tem medo de laicidade. Porque não existem partidos políticos reais com programas da sociedade, todos eles são de criados ou alimentados por correntes nacionalistas de tempero islâmico ou pelas ideias da Irmandade Muçulmana.

A fobia islâmica face à laicidade criou uma cultura de ódio em toda a sociedade muçulmana. Esta fobia islâmica generalizada em direção à laicidade reforçou a mentalidade de rebanho, impediu o muçulmano de poder cultivar uma liberdade individual. Esta laicofobia criou um sentimento de medo do outro, de recusa de viver com os outros. Esta laicofobia ergueu barreiras face àquele que não é semelhante, na religião ou na forma de pensar. Esta doença que é a laicofoboa é a consequência de tudo o que o povo do Magrebe e do mundo árabe-muçulmano viveram em deceção política, social e cultural, e isto dura desde as independências desses países. Se um muçulmano não se liberta desta doença psico-intelectual que é laicofobia, ele permanecerá condenado a viver no medo, ódio e violência, contra si mesmo e contra o outro.

Nunca se explicou ao crente muçulmano simples, com clareza e coragem intelectual e política, o significado da laicidade. Nunca se ensinou às crianças das escolas muçulmanas que a laicidade é o único caminho que garante o respeito pelas religiões, por todas as religiões. Que só a laicidade garante o respeito do ser humano, com as suas convicções religiosas, filosóficas e políticas. Que o caminho da laicidade é o garante da possibilidade de convivência, entre o muçulmano e outras pessoas pertencentes a outras religiões ou outras não-religiões. Que a laicidade permitirá o florescimento em todo o respeito das diferentes culturas e línguas que vivem no Magreb ou neste mundo árabe-muçulmano. Todas as guerras declaradas no mundo muçulmano, ou noutro lugar, em nome do Islão contra outras religiões, contra outras culturas, outras línguas são resultado desta laicofobia, desta doença que corrói o muçulmano, onde quer que ele se encontre.

Sem respeito pela laicidade como cultura, pensamento e como modo de vida social e político, a própria existência do Islão permanecerá ameaçada no mundo. E a laicofobia gera a islamofobia.

08 agosto 2017

O Qatar é fixe?


Antes da polémica com a atribuição do Mundial de futebol de 2022 e com as condições desumanas nos estaleiros, muita gente teria dificuldade em distinguir o Qatar do Bharein ou até poderia presumir tratar-se de mais um emirato dos associados/reunidos.

Quem acompanhou o processo das primaveras árabes pela rama, terá ficado surpreendido por esse país ter participado ativamente e militarmente no derrube de Khadafi. Parecia estranho, num contexto supostamente meio fraterno. Quem viu de mais perto, identificou que o Qatar e o seu braço mediático, a Al-jazira, simplesmente cavalgaram a onda de contestação inicial, para ajudarem a derrubar os regimes “laicos” da região. Aqueles onde o Islão político, fundamentalmente inspirado e patrocinado pela Irmandade Muçulmana, estava severamente condicionado. Não foram os únicos, mas tomaram bastante protagonismo, muito graças à “compreensão” e aos “favores” de França, na altura liderada pelo Sr Sarkosy. As bombas caíam na Líbia e os petrodólares em França.

A influência do Qatar foi crescendo e isso, naturalmente, incomodou os Sauditas, guardiões dos lugares santos de Meca e Medina e putativos e pretensos líderes da comunidade muçulmana mundial. O boicote recentemente decretado por estes e pelos seus acólitos é inesperado e brutal. A propósito de brutalidade, podemos referir que a destruição inconsequente em curso no Iémen é também brutal e, neste caso, sobre a vida e a condição humana, bastante mais grave do que a diplomática e económica.

Neste mundo, onde tantos gostam de se posicionar entre amigos e inimigos, o facto de os Sauditas estarem nas boas graças do Mr Trump, traz alguma simpatia ao Qatar… e um certo crédito de modernidade, para já não falar do glamour de dar 200 milhões de euros por um miúdo famoso, para o pôr nuns retratos.

A acusação de suporte ao terrorismo, ou mais suavemente, de proximidade e apoio a fundamentalistas, cheira um pouco a de roto para rasgado. Incluir o fecho da Al-jazira no pacote das exigências, tem uma leitura clara: é um foco de influencia do Qatar no mundo, muçulmano e não só, que faz uma sombra incómoda para os Sauditas.

Desenganem-se os românticos, anti-trumps ou fans de qualquer coisa glamorosa. O Qatar faz sombra, sim, mas, no fundo e na copa, as árvores são muito parecidas, para não dizer iguais …


Foto da Reuters

06 agosto 2017

Podemos não estar de acordo…

Na sequência do texto anterior sobre abusos, não será certamente abusivo copiar para aqui um excerto da parte final do livro “Pourquoi j’ai cessé d’être islamiste”, de Farid Abdelkrim, muçulmano e ex-islamista francês.

Debater tem um sentido. Significa ouvir. Ouvir e entender que alguns dos meus concidadãos possam estar angustiados. Que eles possam sentir medo, por causa da visibilidade islâmica incarnada, defendida e/ou revindicada por alguns muçulmanos. Neste mundo, aprendi que Deus não se esconde sob um hidjab. Que a grandeza do Islão não se resume ao tamanho de uma barba ou à escuridão de um niaqb. Neste mundo, não dou o mínimo crédito à existência e à pertinência da “islamofobia”. Neste mundo, os muçulmanos – que eu acompanhei durante cerca de 30 anos e continuo a acompanhar – são todos diferentes. Há pessoas boas. Muito boas. E há igualmente malfeitores. Há de tudo. Há vitimas. Mas há também culpados. E inocentes. E idiotas. E santos. Verdadeiros. Há homens. E mulheres. E cidadãos. E mentirosos. E ladrões. E gulosos. E obcecados. E marialvas. E virtuosos. E integristas. E psicopatas. E doentes.

Neste meu mundo, eu não estou só. Há muçulmanos. E há todos os outros… neste mundo. Que contam igualmente.

Neste mundo, alguns creem em Deus… outros não…e há mesmo alguns que se tomam por Deus.

Neste mundo, enfim, debater é vital. Tem sentido. Isso significa alimentar. Mas significa também alimentar-se. As duas coisas ao mesmo tempo, falar e ouvir. É o direito de discordar, sem esquecer o direito de respeitar o desacordo daquele que me fala. É admitir a possibilidade que eu possa estar errado e que ele possa estar certo.

Este é, portanto, o mundo onde estou e onde vivo. Esta é a minha França. A minha concepção do debate também. A minha concepção do homem. E do muçulmano… Mas podemos não estar de acordo.

04 agosto 2017

Incidentes, relatórios e instituições


Entre o sábado 29/7 e a terça-feira 1/8, a estação de comboios de Montparnasse em Paris, viveu dias caóticos, ainda por cima num fim de semana especialmente movimentado. Tudo por causa de uma avaria difícil de encontrar, mas, para lá do problema original, a gestão da contingência agravou o caos. Descoordenação, informação incoerente entre os vários canais da empresa de caminhos de ferro, etc. Não morreu ninguém, mas houve um serviço público que falhou para lá do razoável (não esquecendo que somente nunca falha aquilo que nunca trabalha).

No dia 3/8, dois dias depois de resolvido o problema, o relatório da incidência é publicado pelo Ministério dos Transportes, evidenciando alguma desorganização estrutural com tomadas de decisão tardias, ausência de base de dados única e centralizada para a gestão da informação e tecnologias existentes obsoletas. Segue-se a definição de um conjunto de ações concretas para endereçar os problemas encontrados.

Já chega de detalhes, porque o que se passa nos caminhos de ferro franceses não é assim tão relevante para nós. De realçar apenas a rapidez com que o Estado diagnostica, informa, assume e reage. Lembrei-me dos nossos tempos recentes e, só a título de exemplo, do Siresp. Inicialmente falhava apenas um pouquechinho; depois do desplante de a Altice comprar a TVI, sem pedir licença, passou a estar debaixo de fogo. Muito do que se sabe é devido à investigação jornalística (maldita para alguns) e não à livre iniciativa (e obrigação) dos organismos oficiais. Resultados claros e objetivos do(s) inquérito(s) aparecerão, eventualmente, um dia, sabe-se lá...

Subdesenvolvimento é/nasce disto, por muito que os vendedores da banha da cobra argumentem e convençam algum povo de que a culpa é de Berlim, Bruxelas ou do diabo a sete.


Imagem do "Le Parisien"

02 agosto 2017

Um gosto

Já contei aí para trás como conheci a escrita de Amin Maalouf e o prazer que ela me dá. Desta vez foi o “Rochedo de Tanios”, que estava numa lista de espera com mais dois do mesmo autor.

De novo no Levante (Mashrek), apenas com um pequeno desvio por Chipre, não é um livro de grandes viagens como “O Leão Africano” e muitos outros do escritor. Situado na primeira metade do século XIX, está focado na terra de Maalouf, nas montanhas do Líbano, disputado entre Otomanos e Egípcios, com as potencias europeias numa “espreita” ativa. E com homens e mulheres, ricos de fraquezas, perdidos nas suas grandezas e suficientemente imprevisíveis para serem humanos.

Uma terra, ontem e sempre, charneira entre o Norte e o Sul do Médio Oriente, demasiado fraca para se impor e demasiado forte para sucumbir.

Por estes lados, ao olhar por binóculos para lá, é comum generalizar aqueles outros como árabes e muçulmanos, mas a realidade é muito mais rica. Os livros de Amin Mallouf ajudam bastante a entender essa riqueza, para lá da religião e dessa suposta monto-etnia derivada da pretensa superioridade e obrigatoriedade de se ser descendente do profeta.

Cá para mim, acho que um dia tenho que ir ao Líbano. Não que por lá exista um rochedo de Tanios, de onde se possa ver uma apelativa nesga de mar, mas porque ir conhecendo uma nesga da cultura daquele Levante, é apelo que chegue e:

“O destino passa e repassa por nós, como a agulha do sapateiro passa através do couro que ele trabalha”.

Derivando um pouco: há sempre (temos que ter sempre) lugares especiais onde se “decanta a alma”. Os rochedos (penedos) prestam-se bem a essa função. Por acaso, há umas dúzias anos que “tenho” um, nas montanhas, o da Lapa.

31 julho 2017

Se tal faltasse provar


É-me um pouco difícil abordar este assunto sem insultar ninguém, mas vou tentar, mesmo correndo o risco de ser eu o insultado. Já referi várias vezes a tristeza de constatar a acefalia faciosa que grassa por este mundo e, que provavelmente, dará mau resultado. O curioso é que, em geral, o pessoal até reconhece existir o problema…, mas apenas nos outros (no inimigo!). E se, nalguns casos, até se pode encontrar campo para um pouco de “contextualização” e “relativização”, a situação atual da Venezuela é daquelas em que basta ter meio dedo de testa e um pingo de seriedade para entender e reconhecer o absurdo indesculpável e intolerável da ação dos “déspotas boliverianos”.

Infelizmente, há bastante gente a quem lhes falta o tal meio dedo e/ou pingo de honestidade. E não estou a falar de qualquer um dos que hoje em dia sai pelas redes sociais de megafone em punho a insultar os “inimigos”. Cito dois nomes, relevantes, que conseguem usar palavras como liberdade, progresso e democracia associadas à Venezuela atual, sem corarem de vergonha. Boaventura Sousa Santos, uma suprema sumidade duma certa sociologia intolerante, tão bem vista por tantas inteligências cá do burgo e Ilda Figueiredo, figura de relevo de um partido político, por princípio democrático, e suporte parlamentar do governo atual. Desculpem lá, mas isso é falta de inteligência e/ou de seriedade?

PS: A propósito, a culpa é, realmente, em grande parte, dos americanos, mas pelo desenvolvimento do gás de xisto que atirou o preço do petróleo para baixo. Na “festa boliveriana” o “desenvolvimento” foi simplesmente comprado com petrodólares, enquanto houve.

30 julho 2017

Este homem é de esquerda!


A extensão típica destes textos é largamente insuficiente para elencar todas as coisas esquisitas por onde o mundo de Ricardo Salgado viajou. A maior parte das pessoas informadas já terá uma ideia e, se não tiver, uma simples pesquisa permite encontrar matéria mais do que suficiente para passar a ter. Poucas operações polémicas no país foram estranhas ao Sr PDT (Patrão Deles Todos).

Recentemente veio dizer, muito aristocraticamente, como convém a alguém de tal estirpe, que não é por culpa dele que há lesados do G/BES. Ele tinha intenção de pagar… só que a provisão acabou por ir parar a outro buraco. Também teria tido intenção de pagar aqueles 900 milhões extorquidas à PT e que desvalorizaram a empresa, agora tão na mira da classe política, mas por outros motivos, politicamente mais relevantes? Sim, porque para os nossos políticos uns milhares de milhões a mais ou a menos é irrelevante, alguém acabará por pagar; agora a propriedade dos meios de comunicação social é assunto muito mais sensível.

O mais curioso, sem dúvida, é o Sr PDT afirmar (crítica ou elogio?) que nenhum outro governo lhe teria tirado o tapete como fez Pedro Passos Coelho. Se outro governo tivesse aceite lá colocar mais uns mil milhares, seriam mais uns mil milhares evaporados. À luz do maniqueísmo vigente, entre pafiosos e geringonceiros, só posso concluir que Ricardo Espírito Santo, afinal, é um homem de esquerda!

27 julho 2017

A vitória dos 64 mortos


Levantaram-se dúvidas sobre o número de mortos em Pedrogão Grande. O PM respondeu ser assunto encerrado, estando, historicamente, esta afirmação dele mais associada a um desejo do que a uma realidade. Na mesma altura, ficamos a saber que um helicóptero destruído em Alijó, oficialmente teria feito apenas uma aterragem de emergência controlada. A seguir, o PM muda de discurso e lança o desafio do quem souber de mais, que avise. A lista está fechada num segredo de justiça que não se consegue racionalmente entender. É natural subsistirem dúvidas. A lista é divulgada e, tanto quanto se sabe, as diferenças para os 64 não são da escala especulada.

Acontece, porém, que este governo não governa para um país onde, além lá dos políticos e politiqueiros, há cidadãos com deveres e direitos, sendo um desses direitos o exigir transparência e verdade. Não. O Governo está em guerra. De um lado estão os seus correligionários que acreditam cegamente e apoiam, do outro os inimigos que contestam e duvidam. Um português que questione o governo não é um cidadão a exercer um direito; é um inimigo que ataca.

Não se ter verificado o especulado, constitui uma vitória contra os inimigos, celebrada efusivamente. A confirmação de uma obrigação básica do Governo, não ter encoberto e manipulado o número de vitimas de uma catástrofe, é transformada, dentro desta dinâmica maniqueísta e redutora, num sucesso. O nível a que chegamos!

25 julho 2017

Tristes tempos


Infelizmente, não me recordo de termos vivido tempos sérios, no que diz respeito à prática e ao discurso de quem nos governa. Correndo os doze anos destas minhas publicações, encontrar-se-ão muito mais pontos de crítica ao governo em funções em cada momento, do que aplausos. Estes tempos atuais, no entanto, parecem-me diferentes, para pior e o faciosismo acéfalo alastrou. Se quiserem parar de ler, podem fazê-lo, se quiserem contestar o meu raciocínio e contrapor algo, estão à vontade. Tudo exceto chamarem-me de falso, dissimulado ou desonesto. Aí, teremos o caldo mesmo entornado!

Para muitos, concordar ou discordar, dar importância ou ignorar um problema depende apenas da cor do mesmo. À falta de argumentos ou à preguiça para os procurar, cola-se uma etiqueta e “está tudo dito”. Ou é coisa da direita estúpida, ou da esquerda arrogante. O PS atual tem muita responsabilidade nisto. Se por um lado excita o pessoal com a bandeira da “esquerda”, do “outro caminho”, que merece ser bem escrutinado para saber onde vamos parar, e assim enfraquece potenciais “Podemos” e “Syrizas”, por outro lado, é de uma irresponsabilidade enorme.

Os tempos de má memória que vivemos entre 2011 e 2015 foram consequência de uma consistente má governação, ao longo de muitos anos. Por acaso, até era este PS quem estava ao leme quando afundamos. No período da troika, o fundamental da governação teria sido igual, qualquer que fosse o partido no poder. A mensagem atual de que a troika foi uma opção dos “pafiosos” e que com o PS teria sido diferente, é perigosamente muito desonesta.

Acreditei que o susto e o choque sofridos pudessem ter tido um efeito profilático e nos tornássemos mais sérios e mais exigentes. Infelizmente, não. Mente-se, insulta-se e reescreve-se a história mais do que nunca.

“A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.” Albert Camus.

Receio estarmos efetivamente a caminho de uma espécie de tirania. Como quem nos conduz são os donos da única fábrica habilitada a produzir bandeiras dizendo “liberdade”, o caminho só pode estar certo e nem se admitem discussões. As fábricas dos carimbos grosseiros funcionam a pleno regime. A nossa memória e inteligência são insultadas, com sorrisinhos sarcásticos que muito, muito, muito me incomodam.


Foto googleada, já não sei donde...

24 julho 2017

Um abuso


Colocar estas duas obras a par é um abuso. Aceito até que alguém se possa zangar comigo. Uma é um filme ficcionado e a outra um livro, de um testemunho real. Uma desenrola-se em Marrocos, num subúrbio pobre de Casablanca, Sidi Moumen, a outra passa-se em França, a começar em Nantes.

Em comum: ambos os protagonistas passaram por uma militância islâmica. Um num grupo radical, o outro na Irmandade Muçulmana (e é neste paralelo abusivo que alguém se pode zangar comigo). A Irmandade Muçulmana no Egito, na fase inicial, poderia estar perto dos salafistas jiadistas, mas agora a sua prática, pelo menos em França, é outra.

Um dos protagonistas acaba como bombista suicida, situado nos atentados de Casablanca de 2003; o outro acaba pacificamente divorciado do islão político. Antes de continuar nas comparações, o filme “Os Cavaleiros de Deus”, com subtítulo “Ninguém nasce mártir”, de Nabil Ayouch, vale bem a pena ser visto e refletido. É uma história simples e dramaticamente banal, um contexto comum a milhões de possíveis futuros mártires e mostra como é simples alguém dali se transformar em assassino. O livro é também muito interessante. Em nenhum outro registo, e já li bastantes, encontrei uma linha tão clara e bem definida a separar o muçulmano do islamista, de como é possível viver essa fé em paz com o nosso tempo e com os outros. Talvez a sobrevivência à experiência de militância tenha sido fundamental para Farid conseguir a clarificação.

O que ambos têm em comum, que mos fez fotografar a par, é, num dado momento, haver um divórcio entre o individuo e o seu meio e o seu futuro, justificado ou não. Uma desistência. Entende-se mais facilmente que Yachine se revolte contra a cidade rica, a partir do seu bairro da lata sem perspetivas, do que Farid invente um inimigo na França onde tinha nascido e onde estava integrado. Este estado de espírito de desistência e de fragilidade é capturado e manipulado por um projeto de poder, agudizando o divórcio e extremando posições. Para não se zangarem mais comigo, acrescento que este tipo de manipulação não é específico nem único do Islão. Outras religiões também a praticam, assim com outros poderes, incluindo a marginalidade clássica. É fundamental que o Islão e os muçulmanos consiguam viver sem esse foco permanente nos “outros”, nos “inimigos”. Pode haver fé e prática dela sem confrontação, sem inimigos? Pode e deve.

21 julho 2017

Se calhar, não é verdade


Como estamos num tempo em que saem notícias sobre o que pode ter acontecido, para compensar o que aconteceu mesmo e não se quer que seja notícia… arrisco.

As infelizes declarações de Gentil Martins e do candidato PSD de Loures, foram resultado de uma manipulação externa. Os arautos da geringonça encontravam dificuldades em encontrar mais onde malhar. Aquela coisa de a culpa de tudo ser ainda dos pafiosos troikianos, estava a ficar fora do prazo de validade; ao Passos Coelho não saía mais nenhuma patacoada, como a dos suicídios, e no outro lado da barricada não faltavam munições. A reação de simplesmente chamar vendidos aos jornalistas, também já começara a esgotar.

Vai daí, o Kim, que tem alguma simpatia pela geringonça, poderá ter resolvido ajudar. A Coreia do Norte pode ter condicionado o médico e o candidato a dizerem umas patacoadas sobre temas fraturantes e assim libertar a tinta presa em muitas canetas, já em risco de azedar. Não se sabe se foi com psicotrópicos ou com a ameaça de um míssil no jardim. A forma tradicional de suborno é improvável, já que esta malta é toda contra o capital e na Coreia do Norte essa coisa maléfica também não abunda.

Maravilhosamente, a Raquel Varela, a Isabel Moreira, o Daniel Oliveira e demais confrades receberam tema para cronicarem durante duas semanas. O Kim até os pode ter convidado para irem lá passar umas férias e celebrarem em conjunto, mas eles podem ter dito que o lugar deles é aqui, neste Inferno, na luta. Para usufruírem do Paraíso terão muito tempo, mais tarde.

Presumivelmente, num futuro próximo, alguém lançará uma patacoada sobre o aborto e outra sobre os migrantes e, aí será mais uma corrida, mais uma viagem, até com a facilidade de essas crónicas já estarem mais do que feitas e afinadas. O trabalho será reduzido, como convém num período de férias.

Também é possível que a patacoada da segunda figura do Estado sobre a Justiça, tenha sido resultado de uma ingerência externa, neste caso da Mossad, para dar uma ajudinha ao patrão da Altice!

Tudo isto que escrevi é uma grande patacoada? Sim, claro, mas depois de ver circular a interpretação boliveriana (poderosas ingerências externas) sobre as armas desaparecidas em Tancos, estou apenas a procurar entender, na prática, como este mundo passou a funcionar. E não está fácil!

20 julho 2017

Não quero viver numa “Venezuela Boliveriana”


Qual é o país, qual é ele, onde tudo o que de mau acontece e é notícia (porque o que não se conta, não existiu) e onde a incompetência, a corrupção e o nepotismo são sempre e apenas fruto de poderosas ingerências externas, que buscam boicotar um governo progressista? Qual será esse país…? A Venezuela, dirão…?

Bom… o vergonhoso assalto a Tancos acredita-se poder ter sido obra e encenação de forças externas poderosas procurando desestabilizar um governo progressista; a incompetência dos boys e girls da Proteção Civil durante os incêndios dramáticos, tem mãozinha da estúpida e ressabiada direita, pelo menos nas noticias que a divulgam. Qualquer jornalista que aborde um podre da (des)governação é um pafioso a abater e é insultado de forma violenta e desrespeitosa dos princípios básicos da sociedade em que supostamente vivemos. Entretanto, essa mesma Proteção Civil proíbe o pessoal do terreno de falar, para melhorar a “qualidade da informação” e … aceita-se!! Que caminho é este, senhores??

Está bem, não estamos no nível da Venezuela e não queremos lá chegar. No entanto, se pensarmos na simpatia dos partidos que apoiam o governo atual por aquele regime, ver a recente e caricata manifestação organizada em Lisboa de apoio à “revolução boliveriana”, presumo que, para eles, ficarmos iguais à Venezuela seria excelente e muito “progressista”! Para mim, não. Não quero viver num “Portugal Boliveriano”!!

19 julho 2017

A Altice e novas espécies de políticas económicas

Não tenho nenhuma simpatia especial pela Altice. Acabo até de cancelar um contrato com a MEO e zangado de tal forma que, tão cedo, não quero voltar a ouvir falar desse serviço. Apesar de tudo, o que me cobraram abusivamente ainda é inferior ao que, como todos os portugueses, perdi com as negociatas da empresa, quando esta estava na esfera pública.

Coincidindo com a compra da dona da TVI pela Altice, uma parte da nossa classe política aparece, de repente, muito preocupada com o futuro da PT. O PM até fez uma intervenção no Parlamento digna de terceiro-mundo, onde o poder se permite enviar publicamente bocas e remoques, conforme os seus humores, aos operadores económicos do país. Eu levaria mais a sério esta onda de preocupações, se lhes tivesse visto alguma quando a desastrosa gestão “política” da empresa fez derreter o seu valor, até ser comprada pela Altice por tuta e meia.

Dentro dessa onda de declarações, achei assaz curioso um comentário de Catarina Martins. Não entendia que a Altice estivesse a despedir pessoas da PT, quando afinal tinha dinheiro para comprar a Média Capital. Ou seja, o número de pessoas numa empresa não é determinado pelo necessário para ela ser eficaz e poder competir num mundo concorrencial, mas sim pelo recheio do cofre dos seus proprietários. Já agora, segundo Catarina Martins, como se enche esse cofre? Gostava de ver esta teoria económica melhor explicada e, de preferência, ilustrada com um exemplo de algum sucesso.

É assim tão difícil imaginar que os fundos disponíveis numa empresa não são uma espécie de herança recebida, para gastar, mas sim resultado de ser eficaz e competitivo? É assim tão difícil entender que quem “empata” dinheiro numa empresa, tem a expetativa de o recuperar com algum adicional, senão não investiria? É assim tão difícil entender ser indispensável haver quem invista, certamente que com regras e respeito pelas mesmas? Como não quero acreditar que exista tanta ignorância, é assim tão difícil a classe política ser séria?

17 julho 2017

Vamos ser otimistas


Um dos principais depósitos de armamento do país foi, aparentemente, assaltado com a facilidade com que se entra num simples galinheiro. Vamos então lá dar a volta à notícia – “spining, in english”…

Para começar, pode não ter sido roubo nenhum, eventualmente apenas um ajuste de inventário, dos militares matreiros. Aproveitem e contem bem os F16, nunca se sabe... Não foi um indicador de bandalheira completa nas Forças Armadas; não… a coisa é política! É a direita a atacar, desesperadamente e despudoradamente, o governo patriótico (continuem a ver isto como uma disputa clubística e depois queixem-se do subdesenvolvimento).

Duas semanas depois, e após ter sido alertado meio mundo, o nosso PM, regressado de férias, vem dizer que “com grande probabilidade, este acontecimento não teria qualquer impacto no risco da segurança interna”. Esta frase é retoricamente deliciosa, muito especialmente quando a seguir se usa a palavra “garantia”, e muito pouco tranquilizadora.

A grande probabilidade de não risco, estranhamente divulgada duas semanas depois dos acontecimentos, será devida ao facto de algum material estar fora do período de vida útil. Ora bem, a lista de material roubado/desviado/desaparecido, chamem-lhe como quiserem, é :
  • • 1450 cartuchos de 9 mm;
  • • 22 Bobinas de fio para ativação por tração;
  • • 1 Disparador de descompressão;
  • • 24 Disparadores de tração lateral multidimensional inerte;
  • • 6 Granadas de mão de gás lacrimogéneo CS / MOD M7;
  • • 10 Granadas de mão de gás lacrimogéneo CM Anti-motim M / 968;
  • • 2 Granadas de mão de gás lacrimogéneo Triplex CS;
  • • 90 Granadas de mão ofensivas M321;
  • • 30 Granadas de mão ofensivas M962;
  • • 30 Granadas de mão ofensivas M321;
  • • 44 Granadas foguete antitanque carro 66 mm com espoleta M4112A1 com lançamento M72A3 –M/986 LAW;
  • • 264 Unidades de explosivo plástico PE4A;
  • • 30 CCD10 (Carga de corte);
  • • 57 CCD20 (Carga de corte);
  • • 15 CCD30 (Carga de corte);
  • • 60 Iniciadores IKS;
  • • 30,5 Lâminas KSL (Lâmina explosiva)

Destes, quais estavam “fora de prazo” e quais as consequências reais disso? São como uma licença de software que no dia limite mais um segundo deixa completamente de funcionar? Ou continuarão a funcionar, eventualmente de forma um pouco diferente e menos garantida?

Agora, estou mesmo a imaginar um final feliz: os terroristas que receberem o material, frustrados por ele não funcionar como previsto, renunciam às ações violentas. Como consequência, os nossos amados líderes ganham o Nobel da Paz e no final temos os ex-terroristas a selfiar com os do costume… ! Que imagem linda!! Seríamos mesmo os maiores!!!

14 julho 2017

A Bastilha


Meu amigo, que acreditas que tudo deve mudar
Acreditas ter o direito de ir matar os burgueses
Se ainda acreditas ser preciso
Descer au fundo das ruas para subir ao poder
Se ainda acreditas no sonho da grande noite
E que aos inimigos, é preciso enforcá-los….

Diz-lhes, então, que mesmo sendo sincero
Nenhum sonho merece uma guerra
Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha quando era preciso amar-nos

Meu amigo, que acreditas que nada deve mudar
Acreditas ter o direito de viver e pensar como burguês
Se ainda acreditas ser preciso defender
Uma felicidade adquirida ao preço doutras felicidades
E se ainda pensas que é por estarem errados
Que as pessoas te cumprimentam em vez de te enforcarem

Diz-lhes, então, que mesmo sendo sincero
Nenhum sonho merece uma guerra
Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha quando era preciso amar-nos

Meu amigo, eu acredito que tudo se pode resolver
Sem gritos, sem sustos, mesmo sem insultar os burgueses
O futuro depende dos revolucionários
Mas dispensa bem os pequenos revoltados
O futuro não quer nem fogo, nem sangue, nem guerra
Não sejas daqueles que nos los irão trazer

Despachemo-nos de esperar
Caminhos para os amanhãs
Estendamos uma mão
Que não esteja fechada

Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha, não poderíamos antes amar-nos ?

Jacques Brel,em tradução livre

11 julho 2017

Da quinta para a serra


Esta foto circulou recentemente como exemplo de que um terreno com árvores tradicionais resiste melhor ao fogo do que uma monocultura de pinheiro, eucalipto ou, obviamente, terra abandonada. É verdade. Donde que se toda a serra estivesse com esta vegetação, resistiria melhor ao fogo. É verdade.

No entanto, na imagem, estamos a ver 1 ou 2 ha, que podem ser tratados por uma família. Em 1 ou 2 ha podemos colocar as árvores que nos apetecer, tratar e limpar o terreno e criar com alguma facilidade o tal espaço mais resistente ao fogo. Mas há um problema. À volta da quinta haverá 1000 ou 2000 ha onde não existem 1000 famílias, nem perto, para replicar o modelo.

Passando ao lado de que, muito provavelmente, entre os proprietários desses 1000 ou 2000 ha, alguns estarão em Lisboa, sem saberem bem onde ficam as suas propriedades; outros no Luxemburgo e, ao virem cá uma vez por ano, nem têm tempo para ver os seus terrenos e outros serão herdeiros que ainda não se entenderam com as partilhas… passando ao lado desse tipo de questões e supondo que os 2000 ha são administrativamente entregues à família que tão bem tratou da sua quinta…

Preparar, plantar e cuidar de 2000 ha é outra escala. Já não se trata de escolher uma dúzia de árvores no horto e ir lá com a enxada e a mangueira de vez em quando. É necessário investir, ter fundos e acreditar na rentabilidade de um negócio que durará anos… Neste momento a fileira da pasta/papel proporciona condições de investimento para a plantação de eucalipto. O facto de as outras fileiras não o conseguirem fazer será outro problema. Área disponível não falta.

E ainda: se os 2000 ha pudessem ser objeto de uma gestão integrada e global, seria possível definir que, por exemplo, por cada 100 ha de eucalipto seria obrigatório fazer 5 ou 2 ou 10 ha de floresta autóctone. Com a dispersão da propriedade e com donos ausentes ou desconhecidos, é bastante mais difícil.

Mas, pronto, vamos lá arrancar os eucaliptos bandidos, havendo quem acredite ser remédio santo.

10 julho 2017

A solução das demissões

Não é novidade nem específico de uma cor partidária aproveitar um acontecimento infeliz ou inapropriado para “exigir” a demissão de um ministro. Funciona assim como alavanca desestabilizadora para uns e pode também constituir um oportuno fusível para os outros.

Por norma, não aprecio muito essas gritarias. Penso que no exercício do poder e da representação do Estado, deveria ser consensual quando um responsável político deixa de ter condições para continuar e ser ele próprio a tomar a iniciativa de sair de cena, sem megafones nem palavras de ordem.

A propósito das recentes falhas estrondosa do Estado, em Pedrogão, na incompetente reação, e em Tancos, apareceu uma nova corrente de que “as demissões não resolvem nada”.

Se realmente é demitir por demitir, para encontrar um bode expiatório e substituir alguém por alguém igual ou pior, certamente não resolverá nada. Daí a declarar que “não vale a pena demitir”, por “poder não ser a solução”, entramos num terreno muito pantanoso. Se os cidadãos não querem pseudo-soluções, muito menos apreciarão a resignação do “melhor é impossível”.

A propósito de “não-soluções”, terem substituído metade do comando da Proteção Civil, em Abril, certamente por gente mais de confiança do que competência, é possivelmente a prova provada de que demitir pode não ser uma boa solução.

07 julho 2017

Europa à vista



Doze anos depois regressei a Istambul, a grande metrópole daqueles lados. Uma das cidades que nunca dorme.

Comecei com uma pequena escala no lado europeu, onde a visão do restaurante/bar “Reina” fechado após o ataque terrorista da última passagem de ano e de onde guardava/guardo memórias simpáticas me quereria dizer que a coisa estava diferente.

Em seguida, estive apenas baseado no lado asiático. Aquilo que eu imaginava como uma zona residencial de segunda, tipo a margem sul lá do sítio, é uma enorme e pujante metrópole, plena de novas construções, espaços comerciais, sede de empresas, etc. Apesar de sofrer também de alguma asfixia na circulação, é mais nova e diferente da “típica e histórica” zona europeia. A rua de Bagad, abstraindo-nos das matrículas dos carros e dos letreiros das lojas e restaurantes e olhado para as pessoas que circulam, que nem são turistas, podia ser perfeitamente… na Europa.

Senti como se o centro de gravidade da metrópole tivesse atravessado o Bósforo, deixando para trás a antiga Europa e projetando-se para uma mais pujante Ásia. Na linha do horizonte, vista do mar de Marmara, os seis minaretes da Mesquita Azul, agora com uma émula recente no lado asiático, e a basílica de Santa Sofia, cercada por quatro minaretes e onde ainda não desistiram de a transformar em mesquita. Alguma tendência hegemónica intratável?

A cidade já assimilou pragmaticamente o que aconteceu depois do golpe de julho passado. Deu-me a ideia de que há um limite que (ainda?) não foi passado e que, pragmaticamente, enquanto não o for, dá para viver. Ainda não foi desta que fiquei a entender quem é Gulen e quem realmente está por trás dele (a CIA, dizem…?).

Num longo jantar com vista sobre o mar, um agnóstico de matriz cultural cristã e outro de origem muçulmana discutiram o futuro da humanidade. Concordamos em praticamente tudo e garanto que a influência do raki foi bastante limitada!

05 julho 2017

Estes roubos (não) podem acontecer


Disse o Chefe de Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, acerca o escandaloso e vergonhoso roubo de material de guerra em Tancos:

"Estes roubos podem acontecer em qualquer Exército, em qualquer país, desde que haja intenções, vontades e capacidades."

Ao ler esta citação, fiquei com a ideia de que faltaria ali algum “não” na transcrição. Faria mais sentido dizer:
  1. "Estes roubos não podem acontecer em qualquer Exército, em qualquer país, desde que haja intenções, vontades e capacidades.".  Ou:

  2. "Estes roubos podem acontecer em qualquer Exército, em qualquer país, desde que não haja intenções, vontades e capacidades."
Mas, aparentemente, não foi o caso. Segundo o general, basta alguém ter intenção, vontade e capacidade e… nada a fazer! Lá se vai o material de guerra. É uma fatalidade.

É de realçar não se ter tratado de um roubo sofisticado com meios complexos. Foi assim como roubar um galinheiro. Chegar de carripana, cortar a vedação, fazer a colheita e partir. Julgo até que existirão galinheiros melhor protegidos!

Com um estado de espírito assim tão fatalista, não poderemos contar muito com estas forças armadas. Se forem atacadas com intenção, vontade e capacidade, pumba… já foste!

Eu sei que nós não queremos guerra nenhuma, mas para que precisamos então de suportar umas forças armadas se elas defendem tão pouco?? Dêem-lhes umas fisgas, sempre é mais barato e depois de roubadas fazem menos estragos.

PS: E gostei muito de um Ministro dizer que Portugal quer reaver o material roubado. Pelo menos, intenção já a temos.

04 julho 2017

Felicidade com a morte do mensageiro, ou a desgraça de 2 -3 não ser 5?


Podíamos discordar da visão e do discurso de Medina Carreira, podíamos não gostar do estilo, mas não podíamos duvidar de que ele acreditava no que no dizia, fundamentava o que apresentava e não foi parte beneficiada pelos desvarios governativos que temos sofrido, nem nunca o buscou.

Face aos números e razões por ele apresentados, os irresponsáveis respondiam com etiquetas, das quais a menos violenta seria talvez “pessimista”. Muitas vezes, à irresponsabilidade juntava-se a falta de educação. A avaliação de um estado de espírito tem algo de subjetivo, a falta de dinheiro para pagar as contas no final do mês, não. Quando isso acontece, é argumento pouco relevante o estado de espírito de quem o anuncia/ou.

Medina Carreira há largos anos que anunciava estarmos a ir contra a parede e era acusado de ser “mau agoirento” … e fomos contra a parede. Na manipulação e malabarismos com a realidade e a verdade de que os poderes tanto gostam e onde tanto investem (agora chama-se “spining”), receio que um dia ainda seja lançado um “alternative fact”, tipo: “a vinda troika foi culpa do Medina Carreira, foi ele quem deu a ideia”.

A pobreza material nem sempre é fatalidade do destino. Muitas vezes é principalmente consequência da pobreza de espírito. Independentemente da razão que assistia a Medina Carreira, encerrar (ou nem sequer abrir) o assunto com etiquetas grosseiras é de uma pobreza intelectual atroz. Inqualificável é o regozijo com que alguns comentam o desaparecimento do mensageiro pessimista. Na história do desgoverno onde vivemos e por onde temos vivido, o nome Medina Carreira, ficará associado a um dos poucos que teve a coragem de “chamar os bois pelos nomes” e de insistir que 2 – 3 dá -1 e não 5. Que alguém tenha aprendido algo com ele, são os meus votos, já que no global, ainda estamos longe de assumir a aritmética.


Foto André Kosters/LUSA

03 julho 2017

Titus Andronicus



Por cantos e esquinas do Museu da Imprensa, no Porto, deambulamos de novo atrás das “Produções Suplementares”, para mim, a terceira a que assisti.

Se é verdade que a primeira foi-me mais marcante, talvez pelo efeito novidade, foi de novo um gosto e um prazer seguir os vários quadros, numa encenação onde não há palco, onde o público se mistura com os atores, onde se vive a representação sem aquela barreira vincada entre a plateia e o palco.

Para além disso, bem feito, na minha opinião e com muita gente jovem. Mais uma vez, parabéns e duas recomendações: assistam e vão agasalhados!

01 julho 2017

E ainda o “coiso”…


Não resisti. Pelo que isto representa de “Portugal no seu pior”, pelo “por estas e por outras” é que não saímos da cepa torta.

1)      Para um concurso público desta importância e dimensão, apenas houve uma proposta. Não é normal. Estará relacionado com ter sido definido não apenas funcionalidade, mas também especificada uma tecnologia (Tetra), proprietária de um fornecedor/concorrente (Motorola) e um prazo para entrega de propostas muito curto?

2)      Um governo adjudicou, outro, de cor diferente, readjudicou com redução de preço e de valências. Comprar um veículo utilitário por 50 mil Euros é péssimo negócio; comprar o mesmo por 45 mil é melhor, mas continua a ser mau; comprar em alternativa um “papa-reformas” por 45 mil, é pior a emenda do que o soneto. Porque não se sabe exatamente o que foi alterado tecnicamente na segunda adjudicação?

3)      Em 2005 – 2006 já era claro o lado para o onde o vento soprava, tecnologicamente falando. A tecnologia usada pelas operadoras móveis iria enterrar o Tetra. Hoje isso está mais do que confirmado. Temos e pagamos um sistema frágil, caro e obsoleto.

4)      Das 4 unidades móveis de backup previstas, duas não estavam equipadas, uma tinha sido danificada na visita do Papa, há dois meses, e ainda não estava reparada, e a última estava em revisão na oficina. Isto pode parecer caricato, mas foi antes dramático.

5)      Para suprir a falta das estações móveis, o Estado encomendou agora, a correr, mais duas. É tão bom ter negócios destes. As coisas não funcionam como deviam, o cliente abre os cordões à bolsa e ainda se lucra com isso.

6)      Os donos do coiso dizem que ele “não falhou” e algumas antenas passaram apenas a “modo local”, que parece ser funcionar em “ilha”, sem ligação com o resto do mundo. É esta a performance esperada e necessária de um sistema destes? Vai uma aposta em que, quando a GNR enviou as pessoas para a estrada da morte, o sistema estava em modo arquipélago?

Não coloquei nomes de partidos, porque acredito não existirem diferenças fundamentais entre eles neste campo e parece-me estúpido e desrespeitador das vítimas discutir isto como quem discute penalties e foras de jogo. No entanto, se todos os condutores são azelhas, aquele que vai ao volante no momento do acidente tem responsabilidades acrescidas. Mas está “tudo bem” porque já foi encomendado e realizado um estudo evidenciando que a popularidade do governo não caiu depois disto. Que asco…

27 junho 2017

Ainda o SIRESP


Eu julguei que não ia falar mais do SIRESP tão cedo, mas tornou-se impossível. Deem-me um desconto, já que sou engenheiro de formação e os meus primeiros trabalhos técnicos até tiveram bastante a ver com sistemas onde as comunicações eram críticas.

Este texto começou a germinar hoje de manhã, num tom de ironia. Então, não é que na a cláusula 17 do contrato com o dito é especificado que o SIRESP não tem responsabilidade por falhas em casos de “Força Maior”: tais como: “actos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que directamente afectem as actividades objecto do contrato”. Portanto, um sistema que custou uma pipa de massa, que tem por missão garantir as comunicações em caso de emergência, não tem responsabilidade contratual de funcionar nessas situações?? É um pouco como comprar um guarda-chuva, que não é garantido funcionar em dias de chuva. Isto, no mínimo, é de uma incompetência atroz. No mínimo…

O texto termina agora, ao fim do dia, num tom de absoluta repugnância, face ao comunicado da empresa, publicado no site do governo. Têm o desplante de afirmar que o sistema esteve à altura e não teve interrupções. Provavelmente a altura pedida contratualmente foi alcançada, provavelmente não se plantou a 100% para se poder dizer que falhou… a 100%, mas este comunicado é chamar idiota a uns milhões de portugueses.

Refiro outra vez: “A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.”, Albert Camus.

23 junho 2017

As falhas na informação sobre o SIRESP


Para lá dos contornos particulares da adjudicação e “readjudicação” do SIRESP, envolvendo os “suspeitos do costume”; para lá das fragilidades intrínsecas de conceção ou de manutenção, que não deviam constar num sistema de comunicações qualquer e muito menos desta natureza, estes dias evidenciaram uma nova falha.

Refiro-me à falha na informação oficial sobre o desempenho do sistema durante o incêndio de Pedrogão Grande. Face ao que aconteceu e particularmente às mortes na 236-1, a possibilidade de isso ter sido influenciado por uma deficiente comunicação entre comando, bombeiros e GNR, exigia, no mínimo, uma pronta informação objetiva e precisa sobre o desempenho e disponibilidade do sistema naquelas horas.

Minuto a minuto, o que esteve em cima e o que esteve em baixo, que módulos, que zonas, que funcionalidades, tudo com transparência total. As explicações, justificações e os remédios poderiam vir depois, mas os factos, o que realmente se passou deveria ter sido imediatamente tornado público.

Hoje, quase uma semana depois, continuamos com declarações subjetivas dos responsáveis, do tipo “acho que não falhou” ou “falhou só um bocadinho” e outros eufemismos e vemos serem os jornalistas a fazerem o trabalho de investigação, como se tratasse de um tema “classificado”. Acredito que um dia lá aparecerá um relatório, bem cozinhado, mas a responsabilidade dos responsáveis deveria tê-los obrigado a abrirem o livro imediatamente, no dia seguinte! Infelizmente, não parece fazer parte da cultura da classe…

22 junho 2017

A Festa do Cavaquinho


Muitas das habituais manifestações/espetáculos de música/cultura tradicional, infelizmente, não são festa. Independentemente do maior ou menor rigor colocado nas representações, independentemente da qualidade intrínseca e da técnica das execuções, muitas vezes é até difícil sequer segui-las com interesse.

No dia 10 de junho passado, realizou-se em Cernache mais um encontro de “Cavaquinhos para o Guiness”. O objetivo era chegar ao milhar, ficaram a faltar uma cinquentena, mas parece que ninguém se preocupou demasiado com esse detalhe, no meio daquele ambiente genuíno de festa. E sublinho a palavra “genuíno”. Vieram novos e velhos, vieram de escolas e de universidades sénior, vieram rurais e urbanos, participaram e divertiram-se.

Os sorrisos, os dedos a correr com prazer nas cordas e os plenos pulmões de quem canta com todo o gosto do mundo, criaram incontáveis cenários de beleza e alegre autenticidade. Obrigado à organização e aos participantes. Foi muito bonita a festa, pá!

Mais fotos aqui e aqui.

21 junho 2017

SIRESP


SIRESP é a sigla para “Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal” e, desde há uns bons anos para cá, que, quando vejo noticias sobre o mesmo, há um alarme que me dispara, do género, vamos lá ver o que foi desta…

De facto, o longo tipo de decisão, envolvendo diferentes “maiorias”, o para trás e para a frente, complica e simplifica, adjudica e anula, parecia configurar uma disputa de dentinhos afiados por um saboroso manjar. Um sistema com este nível tecnológico, ter sido contratado a uma tal de “Sociedade Lusa de Negócios”, faz questionar qual o valor acrescentado (retirado?) da mesma e a natureza dos critérios de adjudicação.

Infelizmente, não se trata apenas de uma extravagante fonte cibernética nem de uma autoestrada redundante. Trata-se de um sistema que “TEM” que funcionar com níveis de disponibilidade e fiabilidade elevados, já que disso dependem vidas.

Agora, no caso da tragédia de Pedrogão Grande, ele volta de novo. As pessoas apanhadas na estrada, foram-no 4 horas depois do fogo começar e não estavam numa florestal qualquer. Estava numa das principais estradas nacionais da zona. Aparentemente, nessa altura, as comunicações entre os bombeiros e a GNR não estariam a funcionar, porque o SISREP estava em baixo. As suas antenas tinham ardido…

Ora bem, um sistema de “emergência”, e uma das nossas maiores emergências é desta natureza, incêndios, baseado em antenas no terreno, sem meios/canais alternativos imediatamente operacionais, e onde é preciso esperar que chegue e seja colocada em serviço uma estação móvel, não me parece muito adequado a este tipo de emergências. Eventualmente, mesmo com todas as comunicações operacionais, o resultado na EN236-1 poderia ter sido o mesmo, dada a especificidade das condições climatéricas, mas que a ausência de comunicação não ajudou, pelo contrário, disso não há dúvidas.

Conforme a respetiva simpatia clubística, alguns irão realçar a natureza PSD da SLN e outros o facto de Costa ter sido o ministro que o adjudicou. No entanto, a doença, infelizmente, não tem cor partidária exclusiva.

20 junho 2017

Eucaliptos, vale tudo?

Antes de começar: trabalho numa empresa da área da pasta e papel desde janeiro deste ano e trabalhei noutra análoga entre 2001 e 2006. Entre 1987 e 2001 trabalhei num fabricante de bens de equipamento que fornecia setores diversos, incluindo o do papel. Atendendo à importância da indústria da pasta e papel na economia do país, não será uma coisa assim tão rara. O eucalipto é fundamental e indispensável para esta atividade? Sim. Não é autóctone? Não, como também não o são, entre outros, os pés de videira onde estão enxertadas a quase totalidade das vinhas do Alto Douro, pós filoxera. Uma restrição genética absoluta ao “autóctone” seria uma espécie de xenofobia redutora que levaria a que hoje não houvesse, por exemplo, vinho do Porto.

É comum associar ao eucalipto a expressão de crime ecológico. No entanto, a plantação industrial do eucalipto em Portugal tem mais de 20 anos e não conheço nenhum local onde tenham ocorrido catástrofes ambientais devidas especificamente ao eucalipto. Ardem? Ardem sim, como também arde o pinheiro e o mato e, com maior ou menor facilidade, toda a vegetação. Em climas idênticos ao nosso também ocorrem fogos florestais, mesmo sem eucaliptos, dependendo muito da forma e da conservação das florestas e zonas rurais; dependendo mais do contexto do que a espécie em particular. Um local onde não há certamente incêndios é o deserto do Saara, mas esse não é o nosso modelo, creio…

Há árvores que resistem melhor ao fogo e até são autóctones e mais bonitas? Há, mas a lógica da gestão da floresta precisa de mais do que boas intenções e paisagens bonitas. Se não houver retorno, há abandono e terrenos abandonados já/ainda temos bastantes, sendo estes os que ardem melhor. Há um problema sério de desertificação do interior? Sim, e muito grande, no entanto, a fixação de alguém em Vila de Rei não é certamente função da quantidade de eucaliptos nas redondezas, mas antes da atividade económica nas proximidades. A limpeza natural das matas pelas populações diminuía o risco de incêndio? Sim, mas também não estou a ver muita gente a dispensar a botija de gás e a ir ao monte apanhar galhos para cozinhar o jantar. O tempo e as escalas são diferentes.

A indústria da pasta e papel é das poucas em que estamos na primeira divisão a nível mundial e deveríamos ser um pouco mais prudentes e esclarecidos antes de a bombardear por preconceito, guerrilha politica ou pela nacional típica inveja do sucesso. Apontar o eucalipto como responsável pelas desgraças e tragédias florestais é um abuso, um desrespeito pelas vítimas e uma forma grosseira de simplificar um problema grave do país, que tem raízes múltiplas. Para acabar: deve a plantação de eucaliptos ser completamente desregulamentada? Não, não vale tudo, nem para um lado nem para o outro.
 

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.

10 junho 2017

10 de Junho, 70 anos


Dia de Portugal, mas há mais mundo para lá de Portugal, como qualquer verdadeiro português saberá. Este dia, este ano, marca os 70 anos do lançamento do romance “A Peste” de Albert Camus. O meu exemplar na imagem deve estar mais ou menos a meio do caminho.

As grandes estórias, bem escritas e bem contadas, são intemporais. As grandezas e as misérias da condição humana não mudam e saber lê-las não tem tempos nem modas. No entanto, há alturas em que certas coisas nos parecem mais atuais e reler este livro, nesta fase da Europa e do mundo, assusta. Sentimos as ratazanas a crescerem e, ironicamente, há quem pense que o problema fundamental está na cor das mesmas. É necessário travar as ratazanas amarelas, nem que para isso se tolerem “um pouco” ou se chamem mesmo as “verdes”, as “boas”. Não, certamente que não deverá ser assim. Mais grave do que ignorar o perigo da “peste” é proporcionar ao seu crescimento, eventualmente com todas as boas intenções. Não, não é com piadas parvas nem com excitações inflamadas que a febre desce. É com humanidade…

Citando o mestre, em jeito de aviso à navegação, e sem mais palavras:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”

07 junho 2017

As contas da EDP


As contas públicas publicadas da EDP têm algumas particularidades. De uma forma geral, os resultados são apresentados da margem bruta “para baixo”. A forma como se chega à margem, receitas menos custos de produção, apenas aparece lá para a frente do documento, não da forma sistemática e habitual duma demonstração de resultados. Porquê?

O rácio Ebit/receitas apresenta algumas variações curiosas. Por exemplo, para 2016:

 16% a nível geral do grupo ; 

 42% na produção contratada de longo prazo ;
  4% nas atividades liberalizadas;
 12% nas “redes reguladas” e
 38% na Edp renováveis .

Palavras para quê… quando há números.

Detalhe aqui

06 junho 2017

Tomar, é uma questão religiosa


Sendo indiscutível o papel importantíssimo dos Templários na construção do nosso país, veja-se desde as velas das caravelas até às asas dos aviões da Força Aérea; sendo Tomar a sua referência fundamental no país, Tomar é um local sagrado da religião de “Ser Português”.

É impossível passar na charola e não sentir algo de diferente; é impossível olhar para a janela da sala do capítulo e não sofrer uma imensidade de interrogações e admirações; é impossível olhar para a colina e não pensar no tesouro material ou simplesmente de conhecimento que por ali terá circulado.

Imaginar que uma equipa de filmagens andou naquele local tipo finalistas em viagem de fim de curso no sul de Espanha, soa-me como uma grave profanação. Fico a imaginar o paralelo de um arraial minhoto na Abadia de Westminster ou uma Casa dos Segredos no palácio do Louvre.

Se as árvores e os arbustos podem crescer de novo, as pedras quebradas já não se recuperam e parece terem sido demasiadas para apenas consequência de um acidente isolado e imprevisto. Inadmissível e inacreditável é ter sido feita uma fogueira de 20 m de altura naquele local. Ou não foi comunicada e previamente autorizada e é grave; ou foi-o e ainda é pior. É completamente inconcebível que esta javardice possa ter ocorrido naquele monumento único, local sagrado da nacionalidade.

05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

04 junho 2017

Outra vez, outra vez


Nota de abertura: este texto é capaz de ser aceite e concordado por alguns amigos meus muçulmanos e contestado por alguns conterrâneos, que imaginam as coisas de outra forma, mas a realidade nem sempre coincide com o que a ignorância supõe.

Outra vez e em Londres. E a culpa não é da polícia por não ter controlado todos os potenciais radicalizáveis. E a culpa também não é da chamada civilização ocidental, nem pelas remotas cruzadas, nem pela mais recente guerra na Síria (ou no Iraque). Se quisermos procurar uma génese, podemos começar com a frustração pela derrota e queda do Império Otomano há um século e acabar com a frustração por as independências não terem cumprido minimamente as expectativas criadas, coisas sobre as quais a nossa responsabilidade é algo limitada. Lamento, mas não vou pedir desculpa por os Otomanos não terem conquistado Viena e o resto da Europa

E não venham dizer que isto não tem nada a ver com o Islão. Isto é aplicação literal da fase de Medina de Maomé.

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (Corão 8:5).

"E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idoltatria é pior do que o morticinio" (Corão 1:191)

Há um Islão que é assim e os líderes do “outro” Islão podem fazer o favor de clarificar e sair a público e condenar claramente os pregadores do ódio?