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08 abril 2026

Comical Trump


Durante a invasão do Iraque em 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf, na altura Ministro da Informação de Saddam Hussein, ficou famoso por relatar na televisão evoluções da guerra que só ele via, conforme os seus desejos e completamente opostas à realidade em curso. Uma das alcunhas irónicas que recebeu foi Comical Ali.

Por estes lidos temos ouvido outro cómico falar de conversações de paz, mudanças de regime no Irão e outros “factos” que também apenas ele “vê”. Tem algum paralelo.

É difícil não concordar com a necessidade de impedir o acesso do Irão à bomba atómica, seria salutar uma mudança de regime (para melhor) e silenciar os terroristas do Hezbollah e outros afilhados… No entanto, antes de mexer num vespeiro, convém tomar as necessárias precauções. Uma delas, seria, por exemplo, garantir a segurança do estreito do Ormuz, que está em via de se tornar uma das portagens mais caras do mundo!

Um regime como o iraniano não cai apenas por lhe decapitar algumas lideranças, mas Trump parece ter entrado numa fase de arrogância e prepotência que exclui toda e qualquer opinião diferente da sua, o que costuma dar asneira.

 Esta guerra, a continuar assim, não vai terminar rapidamente e a desproporção de custos entre um drone e o missel que o intercepta é tal, que o tempo corre a favor do Irão. Também não será com bombardeamentos contínuos e com ameaças boçais e brutais contra toda a população que ela receberá estes “salvadores” de braços abertos.

Se o objetivo era ter em Teerão um regime mais tolerante e comprometido com uma certa ordem internacional, talvez tivesse sido boa ideia não ter cortado as pontes em 2018, quando o mesmo Trump decidiu matar o acordo, bom ou mau, mas um acordo, em curso. 

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

31 agosto 2025

Ser comunista (VII)

 7)       Para finalizar

Divórcios entre princípios apresentados e práticas desenvolvidas não são uma raridade na cena política. No caso dos comunistas é um pouco diferente, na medida em que eles defendem princípios falidos e ao mesmo tempo apoiam degenerações da aplicação dos mesmos, numa espécie de círculo quadrado.

Ser-se hoje comunista é um exercício mais de “ser contra” o mundo ocidental liberal e democrático do que “ser a favor” de uma teoria e práticas coerentes.

Frequentemente o inimigo dos inimigos é declarado amigo ou aliado. Vemos isso no apoio e simpatia de certa esquerda para regimes brutais, em várias latitudes, irmanados de um objetivo comum, o de destruir o regime liberal ocidental.

Um grande problema pode chegar, no entanto, no dia seguinte e um bom exemplo é o do Irão. A esquerda aliou-se aos islamistas para destituir o Xá, pró-ocidental, tiveram sucesso, mas, uma vez os islamistas no poder, a vida não foi fácil nem longa para os comunistas. Poderia ser uma boa lição para algumas sintonias que vemos atualmente entre chamados progressistas e notórios obscurantistas.

Não tenho simpatia por xenofobismos, racismos ou autoritarismos arrogantes, mas acho curioso que aqueles movimentos que já provaram e assumiram práticas antidemocráticas se queiram erguer em baluartes na defesa da democracia contra os perigos da extrema-direita. Não, não é por aí que fico tranquilo.

O que é exatamente ser comunista, hoje? Não sei!

Começou aqui

10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

18 janeiro 2024

Obrigado, Mr Trump


Quem já passou pelo Irão ou teve algum contacto com Persas, sabe que ali existe uma cultura com um nível muito superior ao que as notícias sobre as suas lideranças e respetivas políticas sugerem. Sabe que há uma grande parte da sua sociedade com vontade de viver em liberdade, com respeito completo pelos direitos humanos, como no mundo ocidental.

Quando foi celebrado o acordo nuclear em 2015, muitos persas e muitas persas rejubilaram pelo que podia ser uma aproximação e um prenuncio de integração do país num mundo mais livre. Posteriormente em 2018, Mr Trump decidiu abandonar esse acordo, por razões de fundo que ignoro, simpatia pelos sauditas…?

O certo é que, apesar dos defeitos e falhas do acordo, este, apesar de tudo, integrava e condicionava minimamente o país. Depois o Irão voltou a ser pária. Hoje o Irão ajuda a Rússia a massacrar a Ucrânia; hoje o Irão xiita apoia ativamente o Hamas, sunita, histórica e financeiramente patrocinado por outros atores. Os seus procuradores Hezbollah e Houthis, estão mais fortes e ativos do que nunca, com estes últimos a porem causa grandes rotas marítimas internacionais e a escalarem o conflito. Não, não há caso para agradecer ao Mr Trump, apenas desejar que este mundo avance noutra direção, mas talvez seja apenas ingenuidade minha.

04 janeiro 2020

Não sabe o que faz ?



O general iraniano Qasem Soleimani não seria certamente uma flor que se cheirasse e a lista de crimes e atrocidades cometidos pelas estruturas por ele lideradas não é leve nem pequena. De todas as formas, ao ler a notícia da sua morte por ação deliberada da administração Trump, é impossível deixar de pensar que isso não vai resolver nada, muito pelo contrário.

O carisma e a admiração a ele devotadas no Irão eram e serão enormes. O seu desaparecimento físico pode provocar algum enfraquecimento, mas ele era “apenas“ a cabeça de uma organização sólida e consolidada, que não vai desaparecer e a galvanização gerada pela raiva suplantará largamente essa perda.

Se, segundo a administração americana, a ação visava evitar a realização de atentados que custariam a vida a milhar de americanos (?!), podem ficar seguros de que as ameaças e ataques aos interesses americanos serão a partir de agora muito maiores do que antes.

Pela sua história e forte identidade, a Pérsia não irá abdicar de joelhos, por muito sofrimento que lhe inflijam. Fico mesmo com algumas dúvidas sobre até que ponto a repulsa pelo assassinato não será mesmo condenado por uma parte da rua árabe sunita, tradicionais e figadais inimigos do Irão.

Sabemos que a paz no Médio Oriente não é um problema exclusivamente importado por influências externas, mas, esta ação que nada ajuda nem resolve, mostra que a administração Trump não sabe o que faz, ou, o sabe… e isso é ainda mais grave.

29 junho 2018

Jogos sem fronteiras


Cantava Peter Gabriel que os “Jogos sem Fronteiras” eram uma guerra sem lágrimas. De facto, nas competições onde há uma bandeira nacional à frente das equipas gera-se uma motivação especial, que se for sucedâneo de guerra, enfim, tanto melhor. Quantas pessoas não ligam nada ou muito pouco ao futebol e se tornam incondicionais e entusiastas adeptos da seleção, quando está em causa a bandeira?

Penso que este Mundial na Rússia, teve uma importância fundamental para o povo iraniano. Sem conhecer a fundo a contexto, mas … sinto que a campanha da sua equipa nacional marcou fundo.

Ao falar em Irão, é necessário separar a elite dirigente que vemos na televisão das outras pessoas que aí vivem, claramente do nosso mundo e a querer viver como no nosso tempo, no nosso mundo. Apesar do divórcio existente entre elas e os seus dirigentes, não existe, naturalmente, divórcio entre elas e o seu país, ainda por cima um país com a personalidade e a história da Pérsia.

Pela (re)pressão interna e pelas sanções externas, a vida não é fácil e existe um sentimento de fragilidade e uma busca de dignidade que podem atingir um nível dramático. Começou por a Nike se recusar a fornecer sapatilhas, estupidamente invocando um estúpido embargo. Uma campanha humilhante iria doer muito.

Assim não foi e terem estado até ao último segundo do último jogo a tentarem e a acreditarem na qualificação foi uma catarse coletiva, um exorcizar de complexos e medos, que certamente ficará na memória do país. Os jogadores deixaram tudo o que tinham e o que não tinham naquele relvado. Os(As) iranianos(as) sentiram-se parte de pleno direito da primeira divisão das nações do planeta. … e melhores tempos chegarão.

PS: Na imagem, a laranja é Portugal, como em muitas línguas do Médio Oriente, mas, ok, não nos vamos zangar … :)

30 maio 2018

Trumpalhar


Mais do que os “princípios” e o estilo provocatório, Donald Trump está a demonstrar uma enorme impreparação e quem o aconselha ou não sabe ou não consegue corrigir.

Irão – Ao denunciar o acordo assinado por Obama, não irá conseguir nada de bom. Sendo “nada” uma palavra traiçoeira, não se percebe muito bem onde ele quer chegar e em beneficio de quem. Sendo inquestionável que para o mundo, o Médio Oriente e o povo iraniano em particular a normalização das relações internacionais do país é fundamental e positivo, que quer mesmo Trump? Aplicar sanções adicionais e assim conseguir amolecer o regime, forçando a negociações mais favoráveis, como, acreditava ele, com a Coreia do Norte? Depois de tantos anos de sanções à antiga Pérsia, é possível ainda acreditar que esse caminho terá sucesso? Sobre a Coreia do Norte, falamos já a seguir.

Coreia do Norte - Entendendo muito pouco de diplomacias e afins, acredito que quando alguém da dimensão do Presidente dos EUA anuncia e assume ir participar numa cimeira, há algumas regras. Em primeiro lugar, alguma proporcionalidade: por muito que um beligerante presidente de um microestado insulte e ameace os EUA, não terá naturalmente direito a “cimeira privada”. Depois, imagino que as agendas e as conclusões das cimeiras sensíveis, são preparadas e acordadas previamente, eventualmente antes de serem anunciadas sequer. Assumir publicamente a participação numa reunião dessas com tudo ou quase tudo em aberto, parece-me ser de uma infantilidade atroz e expondo potencialmente o senhor e o país que ele representa a uma enorme humilhação.

Em conclusão. Quanto ao Irão não sabe para onde vai, quanto à Coreia do Norte, não sabia onde estava.

10 maio 2018

Muito mau


Imediatamente após a eleição de D. Trump, era óbvio que a impreparação e os (a falta de) princípios do senhor constituíam um perigo potencial enorme. Pequena consolação seria isto acontecer nos EUA, onde há regras, cumprimento efetivo das mesmas, poderes e controlo dos mesmos, enquadrando e limitando o que mesmo um Presidente pode fazer.

Curiosamente, até hoje, foi maior a polémica com o que ele anunciou e a forma como o disse, do que o mal realmente foi feito. A decisão recente de rasgar o acordo com o Irão será talvez a sua pior e mais triste “iniciativa concreta”, pela dimensão e pelas possíveis consequências.

Para começar diz que o acordo é mau e quer melhorá-lo, dispensando-se de especificar o que quer alterar e melhorar. Estamos conversados. O objetivo real é prejudicar o Irão e diminuir a sua influência no Médio Oriente, em benefício dos seus rivais, na minha opinião muito mais as monarquias do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, do que Israel. Este faciosismo dos EUA, para o qual pretende arrastar a Europa, é mau, muito mau…

O Irão nunca aceitará um estatuto de menoridade. Tudo o que seja forçá-lo nessa direção, apenas ajudará as fações internas mais radicais, que o querem manter como pária do mundo onde a maioria da sua população quer viver. E merecem. Os iranianos e as iranianas merecem viver com mais liberdade e a história já devia ter ensinado que não é acossando por fora que isso acontece, muito especialmente num país com a dimensão, história e personalidade da antiga Pérsia. Tem que ser por dentro e isso estava em curso.

O projeto hegemónico da Arábia Saudita agudizou o conflito Sírio, está há 3 anos a massacrar o desgraçado Iémen, tentou, sem sucesso, destabilizar o Líbano e procurou isolar e submeter os primos do Qatar. Com argumentos que talvez um dia se conheçam, empurrou Trump a destruir o processo de normalização do Irão. O preço é elevado.

PS: Será mais útil e coerente dar tempo de antena ao iluminado da Coreia do Norte!?

16 abril 2018

Sem vencedores


Por muitos intervenientes que existam num conflito, o habitual é, mais tarde ou mais cedo, agruparem-se em dois blocos, que se defrontam até um deles vencer. Muitas vezes os alinhamentos são apenas de conveniência, podendo-se desfazer rapidamente logo a seguir ao fim da guerra e surgir uma nova confrontação entre antigos aliados. EUA e URSS durante e depois da II Guerra são um bom exemplo.

No caso da Síria, isso não está a acontecer, mesmo depois de 7 anos de guerra. É certo existirem duas linhas principais, motoras do conflito, que são o eixo vertical sunita, do Golfo à Turquia, contra o eixo horizontal xiita, do Irão ao Mediterrâneo. No entanto, o conjunto de intervenientes é tão diversificado que não se conseguem arrumar em dois blocos – ver exercício de identificar o (des)alinhamento atual na imagem acima. Por outro lado, uma vitória clara de uma potência regional, Golfo/Turquia ou Irão, seria dificilmente aceite pela outra parte.

Numa zona sensível como esta, os “big boys” nunca ficarão alheados, num jogo onde obviamente não há inocentes. Se numa primeira fase “toda a gente” era contra o Estado Islâmico, esse alinhamento inicial nunca passou por uma intervenção global e assumida no terreno. Provavelmente pela memória das desventuras iraquianas, das quais a situação atual acaba também por ser consequência, os EUA em especial mantiveram-se sempre a alguma distância. Esse vazio foi aproveitado pela Rússia, cuja intervenção musculada foi fundamental para o progresso do “regime”, enquanto a Turquia aproveita para ajustar contas com os curdos.

A ação desencadeada pelos EUA e aliados em 14/4 é uma bofetada contra um excesso do regime e um sinal amarelo à Rússia e ao Irão. Foi um aviso, pontual, não o início de uma operação de grande escala, visando derrubar o regime. Estando Trump muito mais próximo dos sunitas do que Obama, não é previsível que Macron alinhe em “cantigas” como o Sarkosy fez na Líbia, motivado pelo Qatar.

E, se não parece fácil vermos claros vencedores, irá esta guerra tornar-se crónica?

13 novembro 2017

Ele saberá o que faz?


“As sauditas autorizadas a conduzir” – “Não entendo como não o consegui ver!”, do jornal Argelino “El Watan”. Esta caricatura às incoerências de algumas modernizações pode servir de alegoria para as mudanças promovidas pelo princípio herdeiro, dito MBS, na Arábia Saudita. Ele está a mudar coisas, mas saberá o que faz? O príncipe quer mandar, no país e na região. No país, prendendo, recentemente invocando luta contra a corrupção, opositores reais ou potenciais e contestatários. Pretende e decreta que o ambiente de negócios não se altera com estas arbitrariedades. O futuro o dirá.

Na região, não há forma de o acalmar. Há dois anos e meio que o Iémen é pilhado por uma guerra brutal e sem mais consequência ou objetivo do que destruir. Não há nada previsto ou em curso para (r)estruturar o dia seguinte. São deixadas zonas destruídas sem lei, ótimos viveiros e escola para formação e desenvolvimento de grupos terroristas. Provavelmente não haverá país mais martirizado neste momento com fome, carências de todo o tipo e a sofrer uma grave epidemia de cólera. Supostamente, o novo poder é apoiado pelo Irão, coisa inaceitável para os sauditas. Depois de tanto bombardeamento indiscriminado, receberam um míssil de volta, coisa considerada inaceitável?!

O Qatar não é flor que se cheire, mas o bloqueio inventado não faz sentido nenhum, que não seja uma birra de quem (quer) manda(r) aqui sou eu.

Na Síria, a batalha regional entre o eixo vertical sunita sul-norte e o eixo horizontal xiita este-oeste parece estar a resolver-se, com a ajuda da Rússia, para o lado xiita. Vamos então tentar quebrá-lo mais abaixo, pelo Líbano. Um fantástico país, com uma história riquíssima, onde se terá desenvolvido provavelmente a mais brilhante civilização do Levante Mediterrâneo, de gente educada e culta, que há uns tempos era considerado a Suíça do Oriente… As suas desgraças começaram quando os palestinianos foram expulsos da Jordânia por mau comportamento. A partir daí, entre palestinianos, israelitas e pró-iranianos, nunca mais teve sossego.

O seu primeiro-ministro, aparentemente de consensos, foi a Riad, demitiu-se de lá e nem regressou ao seu país. Especula-se que terá sido a isso forçado pelos sauditas e que se encontra retido, contra a sua vontade. Entretanto, estes sobem o tom e as ameaças contra os pró-iranianos do Líbano.

Em conclusão, MBS está a pôr a região toda a ferro e fogo e adivinhem quem lhe dá palmadinhas nas costas de pleno apoio? O Mister Trump! Neste momento, o não eclodir de mais violência na religião depende de … Israel.

16 agosto 2017

Maniqueísmo e Jardins da Luz



Quando hoje falamos em “maniqueísmo”, como uma visão redutora e simplicista, não sabemos (eu, pelo menos são sabia) a origem da palavra, de Mani, um Parta que viveu no século III, ali pela Mesopotâmia, na altura sob influência persa, a quem os chineses chamaram “o Buda da luz” e os egípcios “o apóstolo de Jesus”.

O seu “maniqueísmo” era entre as luzes e as trevas, mas, mais do que forçar uma opção, ao que a palavra atualmente se associa, ele defendia uma universalidade da espiritualidade, tolerante e humanista, e uma laicidade do poder temporal, a todos os títulos muito moderna. Acabou perseguido, odiado e condenado, naturalmente…


- Se dizes o mesmo que o Messias ou Buda, porque procuras construir uma nova religião?
- Àquele que nasceu no Ocidente, a sua esperança nunca floriu no Oriente, daquele que nasceu no Oriente, a sua voz nunca atingiu o Ocidente. É necessário que cada verdade carregue os trajes o a pronúncia dos que a receberam?
- Mestre, admito que certas crenças merecem ser respeitadas. Mas os idolatras, os adoradores do Sol?
- Acreditas que um rei terá inveja se alguém beijar a orla da sua capa? O Sol não é mais do que uma lantejoula da capa do Altíssimo, mas é através dessa lantejoula cintilante que os homens podem melhor contemplar a Sua Luz.
“Os homens acreditam adorar a divindade, quando apenas conheceram as suas representações, representações em madeira, em ouro, em alabastro, em pinturas, em palavras, em ideias”.
-E aqueles que não reconhecem nenhum Deus?
- Aquele que recusa ver Deus nas imagens que se lhes apresentam, estará por vezes, mais próximo do que qualquer outro da verdadeira imagem de Deus.

Excerto recolhido do romance sobre a vida de Mani – Les Jardins de Lumière – de Amin Maalouf.

06 abril 2016

Culturas e respeitos


Duas notícias curiosas da mesma semana.

Na Suíça, numa freguesia da zona de Basileia, os estudantes muçulmanos foram autorizados a não apertar a mão das professoras, um cumprimento habitual nas escolas por ali. Tal ato, tocar numa mulher que não é esposa nem familiar, iria contra os preceitos da sua religião. Custa-me a entender. Já cumprimentei com um aperto de mão centenas de muçulmanas sem ter sentido algum constrangimento pela parte delas. Ou seja, isto não é um problema do Islão em geral, mas de uma certa forma de interpretação do mesmo. E se esse Islão é incompatível com a sociedade europeia, não é esta que deve mudar.

A outra notícia foi a contestação das hospedeiras da Air France a serem obrigadas a cobrirem os cabelos à chegada, nas próximas ligações com Teerão. Em primeiro lugar não vejo muita diferença entre essa situação e a da Arábia Saudita. Aparentemente neste último caso a obrigação é apenas depois de saírem do aeroporto, enquanto no Irão será logo à chegada. É motivo para contestatação social e intervenção sindical!?

O Corão não impõe o uso do véu ou da burka. Apenas diz que as mulheres se devem vestir com decoro. Aliás, até há bem pouco tempo, no nosso mundo, as mulheres não costumavam sair à rua com a cabeça descoberta. Há aqui uma evolução latente, mas não me parece que isso seja assunto que diga respeito ao pessoal de bordo da Air France e muito menos ao seu sindicato. São pagas para cumprir uma função e um respeito mínimo pelos locais destino faz parte do seu trabalho, independentemente de o véu ser xiita ou sunita.


Foto da Europe1

06 fevereiro 2016

O Irão... e os outros

Vi imagens das manifestações organizadas aquando da visita a Paris do presidente do Irão, Rouhani, denunciando as violações dos direitos humanos naquele país e exigindo um reforço da ética nas relações/negócios internacionais franceses.

Por um lado, acho bem. A pressão interna e externa pode ser positiva, promovendo uma abertura do regime iraniano e proporcionando maior qualidade de vida a tantos persas, eles e elas, que bem o merecem. Conforme já referi algures aí para trás, especialmente depois de lá ter dado um salto, a sociedade iraniana tem um nível de desenvolvimento cultural muito para lá do que a imagem tradicional dos “ayatollahs” pressupõe.

Fico é a pensar se não faltarão outras manifestações. Não serão poucos os países desrespeitadores dos direitos humanos ali recebidos tranquilamente com tapete vermelho estendido. Sem sair da zona, olhemos para o grande vizinho da antiga Pérsia, a Arábia Saudita. Corta a cabeça a 47 pessoas num só dia; prende e condena a 1000 chicotadas um blogger, pelo que ele escreveu; condena à morte um poeta por apostasia; tudo em processos pseudo-judiciais bastante deficientes… Quando eles aterram em Paris para se instalarem nos hotéis luxuosos, comprar joias e imobiliário de luxo, negociar fornecimentos de armas… nessa altura não há manifestações? Porquê?


Imagem: Reuters

04 janeiro 2016

Todo o homem é meu irmão

Ainda não tinham arrefecido as iluminações da celebração da passagem de ano e o mundo ouvia a notícia da execução de 47 pessoas na Arábia Saudita, entre simples acusados de terrorismo e um alto dignatário xiita, que, aparentemente, se limitou a pedir direitos cívicos para a sua minoria. Isto é chocante, muito especialmente num país como o nosso, pioneiro na abolição da pena de morte, e atendendo até à forma pouco transparente como a justiça ali funciona. Convém recordar que supostamente a Arábia Saudita não é um país semi-pária, liderado por um ditador de opereta. É membro do G20 e com responsabilidades na ONU a nível de direitos humanos.

Este episódio vem confirmar ser o sectarismo a principal razão atual para os problemas que grassam naquela zona. Além deste sectarismo saudita sunita, é de recordar o sectarismo pró-xiita no Iraque pós queda de Saddam Hussein, que impediu a normalização do país e proporcionou a manutenção dos movimentos de protesto violento, antecessores do chamado Estado Islâmico.

Quando se fala na contestação na Europa à receção de migrantes (económicos e refugiados de guerra), estaremos também a praticar algum tipo de sectarismo? Antes de mais, convém contextualizar com algum rigor. Na Europa ninguém é preso por se manifestar em defesa de uma minoria e os vândalos que incendiaram a módica quantia de 804 automóveis na passagem de ano em França não estarão a ser acusados de terrorismo.

Se existe alguma xenofobia, a Europa sabe e defende, institucionalmente e numa grande franja da sua população, que “todo o homem é meu irmão”. Preocupante é o poder que agora cortou a cabeça a 47 pessoas ser o mesmo que financia a formação e a define as práticas religiosas de uma boa parte dos muçulmanos, inclusive na Europa. Acho isto perigoso!

01 outubro 2015

Já se terá visto uma guerra assim?

Segundo alguns especialistas, o que agora se chama “Estado Islâmico” tem na sua génese a resistência iraquiana à invasão americana e ao regime posteriormente instalado de influência xiita, que sempre foi ignorado e não reconhecido pelos sunitas. Se bem nos recordamos, os atentados suicidas e outras barbaridades nunca desapareceram do Iraque. A novidade estará agora na “imagem”, na forma cuidada e provocatória como eles divulgam e promovem as suas ações, supostamente com o objetivo de chamar os infleis ao terreno e os derrotarem como os talibãs fizeram no Afeganistão. A pobre Síria foi apanhada como um campo de batalha adicional, na sequência da contestação nascida na sua “primavera”, prontamente confiscada pelas potências regionais. Não faltam inimigos declarados ao EI, mas esta oposição é um pouco desalinhada.

A imagem acima, se bem que não atualizada, a situação é dinâmica, dá uma ideia de como o país está dividido e é disputado entre: o regime de Bashal Al Assad a vermelho; o EI, a preto; os “rebeldes” (principalmente o Al Qaeda local), a verde e os curdos a amarelo. As monarquias sunitas do golfo, mais de que contra o EI etsão contra o regime.

A Turquia é contra o regime e intervém militarmente, um pouco contra o EI e muito contra os curdos. O ocidente é moderadamente contra o regime, intervém principalmente contra o EI e até tenta/tentou ajudar uns “bons rebeldes”. O Irão apoia o regime e intervém contra o EI e um pouco contra os outros rebeldes. A Rússia é a favor do regime e, entrando agora na guerra, diz atacar o EI mas na prática está a atacar os rebeldes geograficamente mais próximos de Damasco (aquela ilha verde em Homs, entre Damasco e a costa).

Para o Irão e a Rússia, o futuro passa pela manutenção do regime, para as monarquias do golfo e a Turquia, passa pela sua deposição, o Ocidente não tem ideias claras… Dá para entender que isto não se resolverá amanhã e, entretanto, as bombas continuam a cair
.

22 julho 2015

Longe demais?

Quando a designado Estado Islâmico (EI) divulgou o vídeo da bárbara execução de James Foley, criando uma enorme onda de repulsa e de condenação, forçando os EUA e o Ocidente a serem mais ativos contra essa organização, muitos consideraram essa ação como um erro. De fato, se eles tivessem continuado com o seu trabalho sujo matando apenas azeris, curdos, xiitas e quem mais entendessem daqueles lados, o nosso mundo não assistiria com tanta atenção e as opiniões públicas não pressionariam da mesma forma, por muitos milhares que fossem mortos (e que foram).

Para os poderes regionais sunitas, a queda de Al Assad, aliado do Irão, é um “must”. Daí não olharem com muita atenção para as barbaridades do EI e de outros afins. Sem entrar no campo do apoio mais ou menos direto, que é atribuído aos países do golfo, a Turquia parecia fazer vista grossa a muita coisa. Quanto mais não seja, o contrabando de petróleo cujas receitas alimentam o EI, passa certamente por lá e não parece ser tarefa demasiado complicada controlá-lo.

O atentado desta semana em Suruc, na Turquia, matando 32 pessoas, pode ter sido um outro passo a mais, errado, do EI. Isto porque a opinião pública turca reage, naturalmente, e exige do seu governo uma atitude mais firme e mais eficaz de controlo da dita fronteira…. Esperamos que resulte nalguma mudança efetiva.

Não gosto muito de evocar aquela imagem do “não morder na mão que dá a comida”, mas pode ser que depois disto todos entendam: há certos animais que nunca se devem alimentar…


Foto: The Telegraph

17 julho 2015

Socializando…


Hossein Derakhshan foi um dos mais relevantes bloggers iranianos na década passada, tendo supostamente atingido as 20 000 visitas diárias. Acabou por ser preso em 2008 pelas razões que se pode imaginar serem imaginadas pela justiça.


Após 6 anos de prisão sem computador e sem internet foi libertado. Disseram-lhe que tinha que estar nas redes sociais para ter visibilidade. Assim fez, mas desiludiu-se com a nova internet. Diz ele que acabou a “idade dourada” dos blogs. Antes, as pessoas escreviam e liam (liam!!!), discutiam ideias e confrontavam opiniões. Cada qual frequentava os locais que entendia, por sua própria iniciativa e escolha.

Acha o facebook uma espécie de televisão. A maior parte dos utilizadores limita-se a ver o que lhe passa à frente, imagens, pequenas frases e filmes que se lançam automaticamente. Digerem o que lhes é sugerido em grande passividade e, sobretudo, pouco leem. Colocar um simples link para um texto externo quase não tem efeito. O ambiente é muito fechado, sendo difícil num post chamar conteúdos externos variados.

É curiosa a imagem de comparar a internet antiga a uma biblioteca e a atual a um televisor: passar de uma ferramenta de conhecimento e formação para simples entretenimento. De fato, tem sempre muito mais sucesso o filme de um homem a correr em cuecas (aquela coisa do viral…) do que um texto sério, por mais pertinente e bem escrito que esteja.

Em cada casa há espaço para livros e televisor e, no fundo, como a água benta, cada qual toma a quantidade que quiser…