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16 abril 2026

À antiga…


Numa fase em que é consensual que os partidos habituais do poder precisam de mudar de vida e de hábitos, para limitar o crescimento dos populismos e extremismos perigosos e prejudiciais, vimos duas notícias interessantes.

A indicação pelo PS de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Este senhor aparentemente terá tido um pseudónimo Miguel Abrantes, cuja missão no blogue Câmara Corporativa era defender com unhas e dentes um tal suposto engenheiro, efetivo primeiro-ministro, José Sócrates.

A outra é a indicação pelo PSD de António Preto para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. Este senhor recebeu a alcunha de “homem da mala”. Não foi efetivamente condenado, mas, entre outros episódios, receber 150 mil euros em líquido, seja em malas, seja noutro recipiente, não faz parte das práticas habituais dos cidadãos de boas práticas.

Continuem com nomeações limitadas a fiéis militantes, independentemente do seu currículo e cadastro, continuem a clamar pela defesa dos valores democráticos e depois verão o que a democracia vos irá trazer.

04 abril 2026

As Constituições


Estamos a celebrar os 50 anos da Constituição da República Portuguesa de 1976, tratada como se fosse “A Constituição”. Não é bem assim. Para começar, todo o processo da sua redação foi extremamente delicado e condicionado pela tutela militar e por forças minoritárias, não democráticas. Foi um exercício de equilíbrio delicado e resultou num texto que, apesar de vários pontos notáveis e positivos, não agradava completamente a ninguém. Teve o mérito de ter sido concluído e apontar um caminho.

Apenas com a revisão de 1982 foi consolidado o regime democrático e plural, entre outras medidas com a extinção do Conselho da Revolução e liberalização da economia. Felizmente ficou irreversível, apesar de todo a deceção da esquerda comunista.

Permanece no preâmbulo, é certo, a missão de “abrir caminho para uma sociedade socialista”, felizmente mais como curiosidade caricatural do que como letra de lei. Se assim não fosse, teríamos o TC a vetar todas as medidas legislativas que não fossem no sentido de caminhar para o socialismo!

Apesar disto, a revisão constitucional (e exatamente de quê) é uma necessidade do regime? É ela que nos impede de ver o país a funcionar eficazmente e com prosperidade? Penso que não. Há muitas oportunidades de melhoria nas atitudes e nas ações de quem nos governa largamente prioritárias. Discutir uma revisão agora é manobra de diversão… e há quem goste.

26 março 2026

É trabalho, dizem


Isaltino Morais volta às notícias pelo tema das despesas em restaurantes por conta da autarquia, incluindo mariscos, tabaco e vinhos caros. Diz o autarca que está tudo certo, presumindo-se que as faturas terão o número de contribuinte correto e o IVA adequado. Acrescenta tratar-se de “almoços de trabalho”. Para lá dos valores e da natureza de alguns consumos, fica uma questão. É normal que uma equipa que tem naturalmente gabinetes, salas de reuniões e demais equipamentos na sede da autarquia, precise de ir para os restaurantes “trabalhar”… ? Sem terem pratos, talheres, guardanapos e copos de bom vinho à frente não conseguem ser produtivos?!

Provavelmente não será particularidade única de Oeiras, mas este conceito de “trabalho” é deveras curiosa... e inquietante.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

11 janeiro 2026

Pobres políticos


É extremamente positivo que quem desempenhou cargos políticos consiga ter uma atividade profissional e rendimentos na vida que é a real para a esmagadora maioria dos cidadãos. De escrutinar será, não necessariamente a lista dos seus clientes, mas a natureza das prestações. Quando se evoca o manto diáfano (Eça está na moda…) da “consultadoria” é indispensável entender de que é que se fala exatamente. Porque é que uma empresa privada, que luta para sobreviver, que se calhar até gostaria de remunerar melhor os seus colaboradores, vai entregar recorrentemente uns milhares de euros a ex-políticos? Qual o retorno?

Alguém que cobra por consultadoria é alguém que tem um conhecimento específico e muito especializado sobre uma dada matéria. Não existem consultores “todo-o-terreno”. Daí ser um pouco surpreendente como alguém que nasceu e sempre vivou na política possa ter esse valor para vender a uma larga diversidade de empresas.

O que cheira é que as empresas precisarão de acesso a informações e contactos com decisores que estão na agenda de contactos desses “consultores” … Na minha opinião, esta necessidade não existirá num país eficiente e decente. Quem precisa de informação e interação com o poder, deve ter acesso direto claro e transparente, sem precisar de andar a pagar gorjetas a porteiros e estafetas que os possam conduzir por corredores (propositadamente?) obscuros e mal sinalizados.

Voltando ao valor de quem faz carreira na política, sendo certo que políticos são necessários, talvez valesse a pena pensar em eliminar os empregos partidários para jovens e as estruturas “jotas”. Todos deveriam começar com uma atividade externa em concorrência e baseada nalguma competência. Entenderiam melhor o país real e teriam também um sítio limpo para onde regressar no dia em que saíssem da política ativa.

03 janeiro 2026

E deixar de pifar?


Há países onde a passagem do controlo de fronteira nos aeroportos é uma lotaria que pode atingir várias horas de espera. Esses calvários não estão necessariamente associados a exigências de segurança. Em países como a China ou Israel, por exemplo, tive a experiência de uma passagem relativamente fluida. O problema está fundamentalmente na organização e, muito, nas atitudes.

Recordo-me de situações onde é necessário preencher uma ficha, muitas vezes escrita de pé na fila, com o passaporte a servir de apoio e depois o funcionário ficar paulatinamente a colocar os traços dos Ts bem horizontais e a completar as perninhas nos Ns e Ms, enquanto centenas de pessoas atrás esperam.

Vem isto a propósito do aeroporto de Lisboa onde por isto ou por aquilo é recorrente os viajantes serem brindados com largas horas de espera. Recentemente ouvi aterrorizado estatísticas de médias de 3 horas e pontas de 7! Tantas horas a fio, de pé, numa fila é absolutamente vergonhoso e mesmo desumano. Certo que as instalações não são as ideais… mas quando a PSP sugere a realização de um plenário no pico da tormenta, não parece estar do lado da solução. Será necessário ressuscitar o SEF, tipo baralhar e tornar a dar?

Quando a ministra atribui a culpa a um servidor que “pifou”, ficamos a adivinhar que haverá mais coisas pífias naquele sistema… Dizem nos Websummits que somos um país com um enorme potencial nessas coisas das tecnologias!  Que isto é indecente e vergonhoso disso não há dúvidas e para uma resposta eficaz ontem já era tarde!

12 dezembro 2025

Gaia Sul


Vilar do Paraíso saltou para as notícias a propósito da localização alternativa da futura estação de TGV de Gaia. Nos anos em que vivia em Arcozelo e estudava no Porto, passei lá diariamente em transportes públicos, ao longo da velhinha estrada N1-15. Recentemente refiz o percurso por curiosidade e constatei uma paisagem deprimente. Para lá das antigas construções, algumas degradas, tudo está urbanizado de forma caótica, sem um mínimo de planeamento nem harmonia. Gaia que não é beira-rio nem beira-mar, sem pés na água, é um triste deserto quanto a planificação e qualidade urbana, pontualmente rasgado por novas autoestradas brutais, completamente desintegradas e desfigurando os locais que atravessam.

Voltando ao TGV, considerando que a estação em causa não vai servir apenas o centro da cidade de Gaia, que até tem Campanhã logo em frente, mas em boa parte o seu Sul, para estes utilizadores será muitíssimo mais fácil vir até Vilar do Paraíso do que entrar no inferno caótico de Santo Ovídio.

Abismal é que depois de tantos anos de estudos, concurso lançado, propostas apresentadas e contratos fechados, se venha discutir alterações desta magnitude, com este impacto, sobretudo considerando a densa ocupação destas zonas. Não terá sido por falta de tempo…. Planear, bem pensar antes de fazer não parece ser o forte cá do nacional burgo e os resultados estão à vista um pouco por todo o lado.

Quanto ao empreiteiro que depois de assinar o contrato, vem sugerir alterações significativas, pode não ser bom sinal. Não era possível tê-lo sugerido em alternativa ainda na fase de concurso?

19 novembro 2025

Com o senhor Sousa


Pelas práticas habituais na abreviação dos nomes, o senhor devia ser conhecido por José de Sousa, mas, assim como Albuquerque vale mais do que Silva, Sócrates, mesmo em nome próprio, supera de longe o Sousa. Sim, estou a falar de um ex-primeiro ministro que anda há vários anos a destratar e a humilhar a justiça portuguesa, pondo em causa o Estado de direito.

Evoca-se que o nosso código penal é demasiado generoso nas garantias asseguradas aos acusados e que estes com fundos e bons advogados conseguem fazer longas gincanas processuais, fragilizando e destruindo os processos no fundo e nos prazos. Sabemos que um código não se muda num dia, mas quais as iniciativas tomadas, entretanto, para evitar futuras gincanas socráticas? Acha-se que está mal, mas não se avança para corrigir. Falta de capacidade, coragem ou de vontade?

Até que ponto o aparelho judicial faz sempre tudo o necessário para ser eficaz e justo, mesmo com o generoso código existente? Sobre a delirante decisão instrutória de Ivo Rosa nesta operação Marquês, que motivou tanta bondade?

Quando lemos os detalhes da operação Lex e, ainda por cima, vemos um juiz do supremo a ser investigado por um procurador, o tal em tempos nomeado para procurador europeu com um CV adulterado, não ficamos muito tranquilos.

Tudo parece, e o parecer pode ser o que é ou não, existir uma elite que se defende mutuamente à sombra de cartões partidários ou de outra filiação eventualmente mais discreta. Quando este nível não se consegue regenerar e inspirar confiança à população, não sei se virá um ou três sucedâneos de Salazar, mas a prazo uma rutura torna-se inevitável e não será bonito.

17 novembro 2025

Um ativo em 2ª mão


Imaginem que alguém trespassa um stand de venda de automóveis em 2ª mão e diz ao comprador. Têm aí 50 automóveis, que valorizamos a 100 mil euros, mas não sabemos bem o seu estado. Vamos contabilizar a venda a 100 mil euros e se depois os vender por menos, assumimos e pagamos a diferença.

Neste contexto estão a ver o novo proprietário motivado a tentar vender os automóveis pelo melhor preço e obter os 100 mil euros? Claro que não, está pouco preocupado com isso, porque a receita está garantida. Aqui ainda estamos num domínio minimamente honesto.

Se passarmos à desonestidade, então o senhor esperto irá vendê-los a um amigalhaço, ou a si próprio indiretamente, por 20 mil, para depois revender por 80 ou 100, ficando com algum “lucro” no negócio, à custa do inocente que montou este negócio, com todo o risco do lado dele.

Imaginamos agora que não é um simples stand com um stock de automóveis, mas uma instituição financeira com um stock de créditos e de imóveis? Os mesmos riscos estão lá, apenas a escala é diferente. Acrescentemos que o vendedor, o tal que compensa a diferença, é o Estado Português, todos nós?

Será um pouco escandaloso, não? Foi e está a ser o caso da privatização do Novobanco. Estava-se mesmo a ver que isto ia acabar como estamos a ver nas notícias, não?


Atualizado a 30/11/2025 com cópia da publicação no "Público"


21 outubro 2025

Não foi politico !?

 

Diz o Engenheiro ( ?) Carlos Moedas que o acidente no elevador da Glória se deveu a causas técnicas e não políticas. Fiquei baralhado. Efetivamente o cabo e os freios são componentes técnicos (ainda bem que não são políticos…).

Fui ler o relatório do GPIAAF (aqui). Efetivamente do que se sabe, para já, não se pode indicar que por trás da desgraça tenha estado uma ação ou diretiva política direta, do tipo extinguir/reestruturar um serviço ou redução de orçamento. As não conformidades que de uma forma ou outra ajudaram/proporcionaram este desfecho são mais do domínio passivo do que ativo.

Falhas nos procedimentos internos, ausência de supervisão por entidades externas e muita ligeireza. Fazia-se como sempre se fez, sem se pensar muito em avaliar se é preciso fazer diferente.

Mais do que o erro “administrativo” na aquisição do cabo e na não detecção do erro, chocaram outras coisas.

Toda a gente que quisesse saber sabia que os travões não travavam suficientemente para serem redundantes a uma rotura do cabo e… tenhamos esperança de que este nunca rompa. Ninguém sabia/sabe ao certo o peso real das cabinas! Cito: “Há também indícios de que o peso das cabinas aumentou de forma não negligenciável desde o momento da eletrificação, existindo indicações díspares quanto ao peso atual, consoante os documentos: 14, 18 e 19 toneladas, cujo valor exacto é desconhecido da CCFL”. Lê-se e não se acredita. Outros pequenos/grandes exemplos de irresponsabilidade e de vazios nos procedimentos não faltam.

Mesmo o mantra dos sindicatos, apontando de imediato como causa a externalização dos serviços de manutenção não cola. A empresa externa disponibilizava recursos básicos que eram supervisionados muito proximamente pelos experientes técnicos da casa.

 As responsabilidades políticas e de gestão estarão mais no que não fizeram do que no que eventualmente fizeram. Os responsáveis têm também a missão de questionar e promover as mudanças necessárias. Esta situação de passividade otimista… é da responsabilidade de alguém.


12 setembro 2025

Um Escárrio


A nomeação de Vítor Escária para diretor do ISG parece noticia de 1 de abril, dia dos enganos. Certo que ele ainda não foi condenado a nada, mas que cidadão integro e transparente esconde milhares de euros no seu local de trabalho, já não referindo a falta de respeito pelo local específico onde isso ocorreu.

Uma instituição de ensino superior deverá ter superiores exigências quanto à sua reputação e credibilidade, coisa que não está aqui evidente, a menos que o objetivo seja transformar a mesma em Instituto Superior de Gestão do Lóbi, com especialidade em gestão de dinheiro vivo. Será que o Pagamento ao novo diretor também circulará transportado em caixas de vinho. Qual o valor de Vítor Escária? O seu silêncio?

Estou a imaginar uma pergunta de um teste elaborado pelo Doutor Escária no seu domínio de especialidade: “Indique e justifique as situações em que é vantajoso manter dinheiro vivo escondido”. Fico muito curioso em conhecer as eventuais respostas.

Tudo isto cheira tão mal, que até dá vómitos.



Atualizado em 14/9 com o recorte da publicação no "Público". Sendo curiosamente retirada a interrogação quanto ao valor de Vitor Escária estar eventualmente no seu silêncio...!

04 setembro 2025

Não podia…

 

Longe de mim avançar nesta fase com suposições ou conclusões sobre a tragédia ocorrida com o funicular da Glória em Lisboa ontem.

Algumas coisas podem ser afirmadas. A primeira é que isto “não podia” ter acontecido. Não sabemos se foi a manutenção mal especificada, mal contratada ou mal realizada, ou outra coisa, mas este acidente não é consequência de algum fenómeno de “força maior” ou, já agora, das alterações climáticas, que têm as costas largas. É uma tragédia vergonhosa.

Este acidente é consequência de falha humana e não de uma única, uma não seria suficiente. Esta desgraça é um triste exemplo do estado maltratado e malcuidado de tanto equipamento e património do Estado. São as escadas rolantes do Metro que avariam, é o navio patrulha da Marinha que não navega como devia, são os Canadair contratados que não voam, é o Siresp que funciona às vezes… e só não mais acrescento por não me lembrar ou não aparecerem nas notícias, tão pouco se tornarão noticias relevantes.

Certo que nem todas as avarias se transformam em vítimas mortais nesta escala, mas isto é o retrato deste país, que faz de conta funciona, até a realidade brutalmente  provar o contrário…

A propósito… parece que a organizar Web Summits somos espetaculares!!!


01 junho 2025

Ainda o sistema no SNS


Sobre os escândalos com as cobranças abusivas feitas por alguns médicos no SNS, fala-se de problemas e necessidade de correção no “sistema”.

Toda a gente que já lidou com situações em que a pessoa que não consegue responder às necessidades em horário normal é premiada com remuneração majorada em horas extras, sabe que há um risco enorme de ela procurar criar e manter condições para maximizar e aproveitar essa oportunidade. Também qualquer um com simples bom senso sabe que alguém registar os seus créditos sem validação terceira/hierárquica é uma porta escancarada para a falta de escrúpulos.

Para lá das correções necessárias, certamente, no “sistema”, vejo outro problema “sistemático”. As pornográficas folhas de salários desses médicos não foram vistas com ninguém com “olhos de ver”, independentemente do “sistema”? Gerir não é apenas aplicar regras definidas e enquanto elas forem cumpridas está tudo bem. Não! Gerir é estar atento e ter o “radar” ligado para escrutinar o que se passa e o que merece intervenção. A inação com estas situações não se desculpa pelas deficiências do “sistema”. É incompetência ou conivência.

20 maio 2025

Habituem-se…?

 

Nestas eleições vimos uma preocupante subida de um populismo irresponsável, cuja força, no entanto, não é a ideologia. Esta pouco é escrutinada e muitos preferem colocar simplesmente a etiqueta de “extrema-direita” (como antes se “lutava” colando etiquetas de “fascista” ou “neoliberal”…). Seria mais eficaz pôr a nu a sua inconsequência e falta de qualidade dos seus quadros do que infantilizar o eleitorado,

Quanto à queda do PS, não resisti em revisitar uma famosa entrevista de António Costa à revista Visão, regiamente instalado em cima da sua maioria absoluta em dezembro de 2022. Para lá de várias mensagens sobranceiras e arrogantes, Costa proclamava: Habituem-se vamos cá estar assim por quatro anos, independentemente de casos e casinhos que não interessam verdadeiramente ao “país real”. Ainda não passaram 3 anos sobre essa data e o país real mostrou não se habituar.

É evidente que o perfil do Pedro Nuno Santos não ajudou. Se o PS foi importante na fundação da nossa democracia, não o foi com lideranças deste perfil e nunca em irmandade com partidos de vocação totalitária.

O Chega tem/teve um eficiente papel destrutivo, mais por demérito dos outros, que se puseram a jeito, do que por mérito próprio. Papel eventualmente positivo, correspondente à responsabilidade que a sua nova dimensão exigiria, é difícil de o imaginar neste momento.

Estas eleições mostraram que o eleitorado não se habitua a tudo, em parte felizmente. Será o momento de os intervenientes responsáveis refletirem que é preciso mudar algo seriamente, senão serão mudados eles e o resultado, para o país real, pode não ser positivo.


09 março 2025

Uma moção para ti, uma comissão para mim


Se a empresa de Montenegro vendia consultadoria e com sucesso, estaria suportada por um especialista que só podia ser ele. Quando ele assume responsabilidades políticas esse conhecimento não se passa, como num restaurante se pode passar a terceiros o avental de quem está a lavar pratos. Seria previsível que os serviços deixassem de ser prestados pela indisponibilidade do prestador. Se a empresa continua a faturar e fortemente, das duas uma: ou Montenegro continua a intervir direta ou indiretamente e está mal; ou não há propriamente prestação e a natureza da faturação é… nublosa.

Duma forma ou de outra, não estou a ver uma saída limpa para o caminho feito por estes euros e a questão está toda aqui.

Os nossos brilhantes líderes políticos? Empenham-se na gritaria e em maximizar o retorno do caso. A minha moção de censura é maior do que a tua; a minha comissão de inquérito durará mais tempo do que a tua moção; ameaças censura, mostra (des)confiança… Um espetáculo triste de tacticismo e palpita-me que não vai encerrar tão cedo. Depois, queixem-se … 

28 fevereiro 2025

País de porteiros em família

Já vivi num país, que não primava pela eficácia nem pela meritocracia, uma coisa vai com a outra, e onde, para funções pouco exigentes e qualificadas, o mais recomendado era contratar alguém primo ou familiar de quem já lá estava. Como praticamente qualquer um servia, ficava garantido algum compromisso, quanto mais não fosse pela fidelidade a quem o tinha contratado.

Também se tornava prático. Em vez de procurar abertamente quem poderia melhor servir, bastava dizer “Ó António, não tens por acaso um primo ou sobrinho que queira ser aqui porteiro”. E o António tinha e arranjava.

Conforme a cultura, ou respetiva ausência, o nível do recrutamento endogâmico podia subir e, especialmente para entidades não solicitadas a concorrência, nem por ela ameaçadas, era prático generalizar o critério. Só vantagens. Por um lado, o António beneficiava de uma tribo de protetores devedores, prontos a retribuírem-lhe o favor. Por outro lado, era tudo boa gente, bem previsível e comportada, retirando da equação, naturalmente, competência, desempenho e respetivas consequências.

O trabalho de seleção era também muito simplificado e querer reduzir a carga de trabalho não há quem não queira…. Grande trabalheira seria ter que ir à procura de alguém pela competência. Ainda por cima, como dizia há uns anos atrás um especialista no tema: “Os independentes são muito imprevisíveis…”

Sobretudo nada de surpresas. Imaginem que aparecia alguém mesmo competente que ridicularizasse o desempenho da família instalada na corte… !?

Quando olho para a lista de representantes, nomeados e demais escolhidos para coisa pública ou para-pública e respetivo CV, fico com a muito forte impressão que é tudo muito coisa de primos e irmãos. Basta isso, para todos ficarem felizes e contentes… todos ? Depende do universo e da ambição.

25 fevereiro 2025

O consultório Montenegro


Relativamente à polémica com a empresa familiar de Luis Montenegro, preocupa-me pouco o seu possível conflito de interesses com a famigerada “lei dos solos” ou o facto de ele eventualmente parquear a sua participação junto da sua mulher, um primo ou o motorista.

Tão pouco a primeira questão será conhecer as empresas que recorreram aos seus serviços de consultadoria, mas sim a natureza dos mesmos. Se, por exemplo, a atividade da empresa fosse vender sardinhas, os seus clientes trocavam uns tantos euros por umas tantas sardinhas e era claro o que estava a ser transacionado.

Da mesma forma que não há lojas a venderem simultaneamente sardinhas, raquetes de ténis e impressoras multifunções, um serviço de consultadoria é um trabalho especializado. Alguém tem um conhecimento profundo de um dado contexto e esse conhecimento é o valor que é vendido aos seus clientes. Pelo objeto social da empresa, “planeamento estratégico, organização, controlo, informação e gestão, reorganização de empresas, gestão financeira, gestão de recursos humanos, segurança e higiene no trabalho, objetivos e políticas de marketing, organização de eventos, proteção de dados pessoais”. não se descobre a especialidade que está em causa, nem o que poderão ser exatamente esses serviços que conseguem fazer entrar em casa do primeiro-ministro umas centenas de milhares de euros.

Qual foi a natureza da contrapartida dessas compras? Em função dessa resposta, poderá ser importante conhecer as empresas que a tal recorreram, mas a primeira questão é esclarecer o que se vende por ali…

13 fevereiro 2025

Seguro e o partido invisível


O PS é um partido histórico da nossa democracia, por onde muita gente passou ao longo de todo este tempo, uns mais recomendáveis de que outros. Apesar de alguns posicionamentos recentes a alinhar com a esquerda “dura”, é um partido com largo espetro eleitoral. É de estranhar que nas últimas duas décadas nunca tenha conseguido apresentar um candidato presidencial forte e respeitável, que conseguisse agregar uma parte significativa do seu eleitorado.

Para as próximas, António José Seguro reúne todas as condições e não é Augusto Santos Silva que nos irá convencer do contrário. Dificilmente se encontrará no seu percurso político algo que possa ser objeto de rejeição, pelo contrário. Apontem-lhe um defeito de caráter? Poderia ser o tal grande candidato que tem faltado ao PS.

O problema e o pecado de Seguro foi ter associado o PS a certos interesses e a um partido invisível existente na sociedade portuguesa. A ser falso, hoje ninguém daria importância ao que um derrotado tinha estranhamente argumentado uma vez. A ter um fundo de verdade é incómodo para os eleitores de base, que certamente não apreciarão agendas escondidas. Será também desconfortável para as elites relacionadas, que preferirão perfis mais amenos.

Por isso, para alguns, Seguro não “tem perfil”… eu acho que tem

02 fevereiro 2025

A Pen secreta


Estar uma pendrive cuidadosamente guardada num cofre, por alguma razão será.

Alguém colocar ou encontrar uma pendrive nestas condições deverá saber ou descobrirá o conteúdo e a razão.

Conhecer um conteúdo, tão sensível, e mantê-lo sem reportar às autoridades competentes, não é normal para gente responsável e de bem.

Porque raio alguém colecionou e guardou aqueles dados está, para já, no domínio da especulação, mas que é potencialmente muito perturbador e assustador, é!

12 outubro 2024

Oportunidade perdida


As crises, com todos os seus transtornos, privações e perdas, podem constituir oportunidades de aprendizagem, mesmo dramáticas e eventualmente tanto mais proveitosas quanto mais dramáticas.

Em 2011, a crise nacional, a intervenção da “troika” e todo o sofrimento que provocou poderia ter sido um desses momentos de aprendizagem dolorosa, mas não foi.

Poderia ter sido clarificado que a origem da crise fora uma governação corrupta e irresponsável e que a saída da mesma tinha sido o resultado do trabalho, empenho e sacrifício de todo o país, Podia, mas não foi… por causa das narrativas criadas.

Argumentar que o nosso colapso foi consequência da crise de 2008 é desde logo a primeira “narrativa” falsa. A crise foi mundial e não vimos todos os países de joelhos a mendigar junto do FMI. Entrar numa estrada de montanha a 140 km/h e despistar-se na primeira curva não é razão para culpar a curva…

A seguir, a perca final da oportunidade vem de outra narrativa. O sofrimento da crise foi devido à maldade da direita (e do Passos) e o alívio do aperto foi mérito da esquerda virtuosa que virou a página da austeridade. Se saímos do buraco em que o “Eng” Sócrates nos enterrou, não foi pelo esforço e sacrifício coletivo do país, mas pela generosidade e bondade do novo inclino de S. Bento.

Nos tempos que correm, parece que o PSD aprendeu a lição. Manter o poder depende de ter mãos largas e “quem mais chora, mais mama”… Trabalhar para criar riqueza que se possa distribuir não é o fundamental. Iremos pagá-lo de novo um dia, porque quem não aprende com os erros, acaba por os repetir.