30 dezembro 2016

Melhor será sempre acreditar


Usei recentemente esta fotografia, tirada na casa museu Júlio Verne em Amiens, para ilustrar o texto abaixo copiado, de Fernando Pessoa.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão.

Invocar estes temas associando-lhes um barco na casa do grande sonhador das “viagens extraordinárias”, não é coisa vã. No entanto, o barco da imagem não é a representação de nenhuma criação fantástica do escritor. Trata-se do real transatlântico “Great Eastern”, um enorme navio da altura, no qual J. Vernes viajou até aos EUA e lhe inspirou o romance “Uma Cidade Flutuante”. Onde pretendo chegar, e a ambiguidade da imagem quanto à natureza da viagem evocada para isso contribui, é à reflexão de que o limite entre os sonhos possíveis e os impossíveis, pode não ser tão clara como o entre ter sido um imperador romano ou falar com a rapariga com quem nos cruzamos todos os dias na rua.

Aliás, uma vez que Álvaro de Campos declarava “tenho em mim todos os sonhos de mundo”, seria interessante assistir a uma discussão entre ele e o seu “companheiro de quarto”, Bernardo Soares, quanto à classificação, binária, de cada um desses sonhos. Mesmo que não tem todos, todos, os sonhos do mundo e simplesmente sonha alguma coisa nova para cada novo ano, terá problema idêntico.

E desistir da Lua, por a achar inalcançável quando, mais tarde, ela poder passar bem próxima à nossa frente? Na dúvida é sempre preferível em tudo acreditar, mesmo correndo o risco de nada entender… do que o inverso.

28 dezembro 2016

O Presidente, o George e o Arlindo

“Ó que lindo chapéu preto, naquela cabeça vai….” Esta frase diz algo a alguém? E esta: “Muito boa noite senhoras e senhores, lá na minha terra há bons cantadores”. Provavelmente serão familiares para muitos e tão familiares, de tal forma popularmente adotadas, que já se diluem na chamada tradição. Um nome comum por trás delas: Arlindo de Carvalho. Um senhor que faleceu em 26 de Novembro passado, com uma história de vida merecedora do maior respeito.

Ora bem, o nosso PR, que ainda não se esqueceu dos tempos em que tinha a obrigação profissional de tudo comentar, publicou na página da Presidência um lamento pela morte de George Michael. Não me parece muito bem para a dignidade dessa página que concorra com uma “janela da saudade” mundana qualquer, independentemente dos méritos e deméritos do cantor em causa, nem que adote o estilo do “eu @aqui e @ali”, tipo simples página pessoal, registando inclusive a ginginha que se tomou algures em boa companhia.

Neste dilúvio de “apontamentos”, essa mesma página passou em branco o desaparecimento de Arlindo de Carvalho. Com o que ele significa para a cultura portuguesa isso parece-me uma falta de respeito e das grandes.

Senhor Presidente: acalme-se um pouco, coloque um mínimo de distância entre a sua ação e a espuma dos dias; enfim, ocupe o seu lugar, por favor.

26 dezembro 2016

De líder para capataz

Quem manda nas empresas serão, obviamente, os seus donos (à exceção das empresas públicas onde os donos somos todos nós e mandam os políticos). Quem são os donos das empresas será teoricamente relativamente fácil de identificar, pelo menos formalmente. Há, no entanto, diferenças enormes entre o tipo de donos e o perfil de quem manda.

Há empresas com dono claro e próximo, com personificação da liderança, onde o líder faz parte da equipa que com ela se confunde, se necessário for. Ganhará certamente mais do que os demais, mas não será frequente esse fator chegar às centenas de vezes. Essas são as empresas familiares, seja no sentido da propriedade propriamente dita, seja pelo sentimento de todos pertencerem a uma família. Velhos tempos…

Depois há outras com dono volátil, eventualmente anónimo e/ou coletivo, onde cada um pode nem saber bem o que tem em cada momento. Os donos entram e saem individualmente ou em bloco. No fundo, muitos apenas entregaram as suas poupanças a uns profissionais que se encarregam de as rentabilizar, de fundo em fundo.

Os capatazes, nomeados pelos “financeiros”, não fazem parte da equipa, estão lá a cumprir uma missão, de “criar valor para o acionista” (e em caso de sucesso ficam com uma parte substancial desse valor no seu bolso). É de bom-tom dourar a receita com uma série de declarações de intenções e de princípios, evocar pomposamente teorias e princípios de gestão, devidamente decoradas com chavões e palavrões (in english please…), quando, no fundo, se está simplesmente a cortar a direito para os resultados do próximo trimestre. Se isso envolver comprar um pomar e for vantajoso cortar as árvores e vender a madeira, siga…! Os recursos humanos da empresa são apenas um dos ativos, a rentabilizar da melhor forma. Novos tempos?

Faz sentido? Se calhar fará, porque a tendência do mundo está mais neste sentido do que no outro e, reconheça-se, sem “valor criado para o acionista”, não há acionistas e as empresas não sobrevivem. No entanto, uma empresa sem líder efetivo, é um pomar que não sabe se amanhã produzirá cerejas ou se será vendido para uma serração e, com contas ao trimestre, dificilmente se plantará alguma vez um pomar.

23 dezembro 2016

Natal plural


É nesta mesma lareira, e aquecido ao mesmo lume, que confesso a minha inveja de mortal sem remissão por esse dom natural, ou divina condição, de renascer cada ano, nu, inocente e humano como a fé te imaginou, Menino Jesus igual ao do Natal que passou.
(Miguel Torga).

Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada.
(David Mourão Ferreira).

Natal... Na província neva. Nos lares aconchegados, um sentimento conserva os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, como a família é verdade! Meu pensamento é profundo, estou só e sonho saudade. E como é branca de graça a paisagem que não sei, vista de trás da vidraça do lar que nunca terei!
(Fernando Pessoa).

Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher
(Ary dos Santos)

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

16 dezembro 2016

A culpa das intervenções imperialistas


É argumento habitual de alguns regimes tristes como os castristas, os chavistas e outros paralelos ou sucessores dizer que as coisas não correm bem fundamentalmente devido a intervenções e perturbações provocadas por inimigos imperialistas. A sua incapacidade, incompetência e até mesmo desonestidade supostamente não pesam nos destinos azarados do seu país. A culpa é sempre dos boicotes externos.

O que eu nunca imaginaria era um dia assistir a uma narrativa destas da parte do Partido Democrático americano. Pelos vistos, a eleição de Donald Trump foi devida/influenciada pela intervenção dos russos! É evidente que os russos tentam intervir nos EUA, estes na China e em todo o lado e a China só onde não puder. Não há aqui espaço para virgens ofendidas, dado que as mesmas não existem nestes círculos.

A ser verdade, a ter existido uma manipulação ou influencia decisiva da Rússia, pobre democracia americana que afinal, mais do que contaminada pelos milionários donativos, estará condicionada pelos imperialistas soviéticos. O ego do Putin deve ter crescido para o dobro com a notícia. De recordar que, supostamente, matéria-prima para manipulação mediática existiria dez vezes mais do lado de Trump, do que do Clinton, da qual apenas ouvimos falar de uma utilização imprudente e indevida de uma conta de email pessoal.

Seria melhor que os Democratas americanos e outros paralelos olhassem um pouco para dentro antes de embarcarem nestas argumentações terceiro-mundistas.

10 dezembro 2016

Ne me quittes, quoi?


Já tive oportunidade de expressar aí para trás a enorme admiração que tenho pela inteligência, sensibilidade, inspiração, humanidade, persistência e determinação do grande Jacques.

Um dos seus temas mais populares é o “Ne me quittes pas” e pode-se questionar se faz sentido alguém, por amor, dispor-se a ser “a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão…”.

Acho que há duas leituras possíveis do poema. Essa, mais direta, com um suposto destinatário concreto, uma Marieke, Madeleine, Mathilde ou Isabelle, mesmo sem estar explicitamente nomeado. Outra, alternativa, não tem um nome próprio associado. Brel fala ao amor, à capacidade de se enamorar, à possibilidade de se apaixonar, coisa que, falhando, até os reis morrem.

E isso deverá será sempre possível, porque até do vulcão mais morto o fogo pode brotar de novo, porque mesmo nos campos mais áridos podem voltar a nascer pujantes searas.

Enfim, a poesia não tem que ter leitura única e redutora. Ao fim ao cabo, tantas vezes, são apenas palavras insensatas, mas que alguém entenderá, nem que seja invocando pérolas de chuva de terras onde nunca chove.

08 dezembro 2016

O significado do 1ª de Dezembro

Achei assaz caricatas as argumentações em torno da importância da re-celebração do feriado do 1º de dezembro, por parte de alguns cortesões e seus arautos. Não falhou a quase coincidência da visita dos reis de Espanha para dar mais enfase e dramatismo à “importância da coisa”. Não se defenestraram os Vasconcelos, responsáveis pela anterior supressão do feriado, mas vontade não te faltou.

Sejamos práticos. Antes, alguém achou que devíamos trabalhar mais e suprimiram-se alguns feriados, incluindo este; agora dizem que a coisa estará melhor, repõem-se e o pessoal gosta, independentemente de ser o dia da restauração da República, do gaspacho algarvio ou dos rojões à moda do Minho (esta última opção proporcionaria uns programas de comemoração interessantes…!).

Mais importante do que comemorar a restauração é trabalhar para manter essa tal independência. Aliás, não me parece fazer sentido comemorar a restauração e ignorar a proclamação inicial. A batalha de S. Mamede ou de Ourique, não merecem nada? E a de Aljubarrota? E o dobrar do cabo Bojador ou do da Boa Esperança? E o Eça e o Fernando Pessoa?

Não se enganem com estes auratos trauliteiros. Se para ganhar ou manter o poder, for necessário celebrar o nascimento de Madre Teresa de Calcutá, a morte Fidel Castro ou até mesmo todas as Luas Cheias… eles já lá estão!

06 dezembro 2016

Reduz as necessidades?


Os dias de reparação de uma avaria colocaram-me nas mãos um modelo de telemóvel duas gerações atrás do atual. Esta marca tem a facilidade de conseguirmos replicar a configuração de um aparelho e assim o substituto ficou quase igual ao original.

Dentro do quase que não era igual, estava o tamanho até para melhor, mais tamanho de telemóvel. A seguir, a velocidade, incrivelmente mais lenta. Quando o anterior seguia os meus toques a toque de caixa sem protestar, para este não valia a pena dar muitos toques seguidos, era um de cada vez e vamos com calma.

Ora bem, esta limitação tem algo de didático. Será que eu precisava mesmo de dar os outros toques seguidos e andar para trás e para a frente, tantas vezes sem acertar à primeira com o que realmente queria fazer? No caso do substituto diminuído, eu era obrigado a pensar mesmo no que queria fazer e a tentar ir direto ao objetivo, já que o andar para trás e para a frente era penoso.

Aos poucos ou aos muitos, perdemos a noção da limitação das capacidades neste campo dos bits e dos bytes, que agora até já só se medem dos giga para cima. Desdobramos e replicamos informação, sem conta nem medida. A facilidade de clique e desclique, para a frente e para trás, vista ao longe, sem som nem legendas, faz-nos parecer baratas tontas. Por um lado é ótimo não sentir limitações, por outro lado não o gerir é mau. Quando precisarmos, provavelmente não saberemos.

“Reduz as necessidades, se queres passar bem”. Jorge Palma

05 dezembro 2016

Inimigo do inimigo

O inimigo do nosso inimigo pode ser um aliado útil, especialmente num contexto de guerra, num dado momento, dentro de táticas de curto/médio prazo. Como o mundo não é a preto e branco, possui várias dimensões (nem se divide apenas entre direita e esquerda), essa solidariedade automática com o inimigo do inimigo, é muitas vezes uma simples manobra oportunista. Uma vez derrotado o inimigo, o casamento de conveniência corre o risco de não sobreviver à vitória, caso as diferenças de fundo permanecem e sejam significativas.

Estas considerações vêm a propósito do incensar da figura morta de Fidel Castro, a quem a esquerda reconhece o grande mérito de se ter oposto e desafiado um inimigo comum, o EUA. No entanto, a falta de liberdade no país, o subdesenvolvimento económico, as enormes desigualdades sociais entre as figuras do regime e o povo, as perseguições por delito de opinião, chegando às execuções, parecem ser irrelevantes para quem prefere destacar as cirurgias oftalmológicas oferecidas e o acolhimento de algumas crianças de Chernobyl. Evita Perón oferecia vestidos de noiva e máquinas de costura e o povo adorava-a; penso que a esquerda “engagée” nem tanto.

Esta brutal incoerência pode ter duas origens: ou uma espécie de cegueira, que perdoa tudo aos “nossos”; ou considerar que ainda estamos em guerra e, sendo assim, todos os inimigos do inimigo são para apoiar... até mesmo a Coreia do Norte ? Em ambos os casos, não falem em princípios, pode ser?

29 novembro 2016

Teslinhas

O Sr Elon Musk é um tipo incrível. Para convencer o mundo de que os inovadores carros elétricos não são do outro mundo para as suas capacidades tecnológicas, anuncia uma fasquia um bom pedaço mais para cima: quer colonizar e colocar pessoas a viver em Marte, já em 2022!! Para quem se propõe tamanho desafio, carritos elétricos são tremoços… É um pouco como a Amazon querer distribuir encomendas por drones, a agência publicitária Google desenvolver veículos autónomos ou … a Efacec, para quem sabia fazer AGV’s, transformadores seriam canja.

A Tesla, automóveis, é uma história de expetativas, consegue levantar fundos nos mercados, mantém uma cotação das ações interessante, mas continua a ter dificuldade em ganhar dinheiro, pelo menos que se veja. No entanto, é uma atividade muito sexy e o pessoal excita-se com aquilo.

Anuncia-se uma fábrica para Europa. Tenho algumas dúvidas se isso será mesmo para avançar a curto prazo, ou é mais uma forma de gerar expetativas e assim conseguir convencer os investidores a avançarem com mais uns cobres.

Tão sexy a coisa é que já anda meio país aqui excitado… com a expetativa. Qualquer presidente de camara, ou associação recreativa, vem à praça apregoar a adequação maravilhosa do seu terreiro ao projeto. Imaginem que o nosso país até tem a vantagem competitiva de possuir um grupo de apoio no facebook (leio isto na imprensa séria)! O sr Musk e os investidores potenciais devem ficar extraordinariamente sensibilizados e irrevogavelmente convencidos.

Dependendo muito, obviamente, dos detalhes (e nos detalhes é que aparece o diabo), à partida seria bom que a eventual fábrica viesse para Portugal. No entanto, em vez de andar meio país excitado a berrar “Eu quero a Tesla, eu quero a Tesla!”, porque não pensar em criar condições de sucesso para as pequenas teslinhas que por aí andam a penar? Não serão tão sexys, mas são mais certas.

21 novembro 2016

A responsabilidade dos políticos, revisitada

Este texto meu, de fevereiro de 2004, foi publicado no Público do dia 10 desse mês. Hoje, Alain Juppé, que afinal não morreu, é notícia por ter passado à segunda volta das primárias de direita para as presidenciais francesas.

Caso seja ele a ir a votos, é muito provável que se encontre face a face com Marine le Pen. Depois, o pessoal surpreende-se com as “Trumpices”.

A responsabilidade dos políticos.

A França está em “estado de choque”. O brilhante Alain Juppé, delfim e potencial sucessor de Chirac e presidente do partido no poder foi condenado a 18 meses de prisão com pena suspensa e 10 anos de inelegibilidade. As reacções são curiosas: 10 anos de inelegibilidade para um “eleito” são equivalentes a uma morte cívica e mesmo quase a uma morte civil. A sentença é desproporcionada. Os juízes têm demasiado poder; deveriam ser antes um “serviço público de justiça”. A juíza é de esquerda e é casada com um americano!

Os juízes foram pressionados. Os seus gabinetes foram visitados por empregados de limpeza super-diligentes que, face a uma porta fechada, entraram pelo tecto falso. Mas, se houve pressões, talvez seja motivo para anular o julgamento. É a estupefacção num país em que os políticos têm tradição de inimputabilidade. Que acusa Berlusconi de “fazer leis de auto-protecção” mas que se recusa o tocar no seu próprio presidente da república. O curioso é que por detrás dos comentários parecem não existir dúvidas sobre o facto de a lei ter sido efectivamente violada e que, aparentemente, a responsabilidade deveria chegar ao próprio Chirac. Ao mesmo tempo ignora-se que os juízes se limitaram a aplicaram uma lei votada quase sem discussão pela actual maioria para disciplinar o financiamento dos partidos. […]

Por trás de toda esta problemática, em França e não só, está e continuará a estar o cancro da democracia que é o financiamento dos partidos e o tráfico de influências associado. Que o estado nunca será pessoa de bem enquanto este assunto não for encarado, legislado com isenção, a lei aplicada com rigor e a justiça feita com objectividade. Até lá continuaremos a viver em estados podres.

18 novembro 2016

E não há tampa para o buraco

A CGD é um banco público e dizem que fundamental como instrumento para o desenvolvimento da economia nacional. A CGD tem um buraco que vai implicar altos custos para os contribuintes. Uma das parcelas principais vem de empréstimos feitos a empresas/entidades envolvidas na luta pelo controlo no BCP. Ou seja, o instrumento público fundamental envolveu-se numa luta de comadres, ficou a arder e agora pagamos nós.

Parece claro que tapando-se o buraco, de um forma ou de outra, será necessário mudar de vida, que é como quem diz, a CDG deixar de ser um instrumento de controlo e propaganda política, a origem da maioria das suas desgraças. Precisará de banqueiros a sério e não de comissários tipo Armando Vara. O seu vencimento é demasiado elevado? Provavelmente sim (não só o deles), mas é uma situação de mercado, que não muda de um dia para o outro e o mais caro é sempre a incompetência.

Para poder encaixar os profissionais da banca na CGD, foi necessário alterar a legislação do “gestor público”. Ao fazê-lo e ao aprová-lo os nossos políticos assumiram que o tal estatuto é incompatível com as necessidades da CGD, face ao mercado. No imbróglio atual, parece evidente que alguém terá assegurado à nova equipa que a exceção criada incluía a dispensa de apresentar publicamente as declarações de rendimentos. Como o assunto “empancou” na opinião pública, agora ninguém disse nada, ninguém sabe de nada e as leis são para cumprir… enquanto os novos gestores parecem querer insistir em ver mantido o acordado.

Mais dia, menos dia este assunto estará de uma forma ou de outra encerrado, mas, para o futuro, quem serão os profissionais, qualquer que seja o setor, que acreditarão na palavra dos políticos, prontos a recuar e a se desdizerem à mais simples berraria populista? Não precisamos de gestores assim…? Pelo menos não voltem com os “Armandos Vara”, eles não estão perdoados.

Neste embrulhada, digna dos famosos e épicos tempos de Santana Lopes, o nosso irritante PM afirma em Madrid, contentinho, que o sistema financeiro português saiu do impasse…

17 novembro 2016

Depois do dia seguinte

A vitória de Trump, improvável e até mesmo impossível na ótica de quem julga(va) saber o que vai ser este mundo, aconteceu. Numa primeira reação acreditei que o Trump Presidente seria bastante diferente do Trump candidato, como, de certa forma, a discurso da vitória pressagiava. Pensava eu que, face a um candidato manifestamente mal preparado, a diferença, positiva ou negativa, dependeria do aparelho que o viesse a rodear e a guiar… a quem ele delegasse a chatice de governar mesmo.

No entanto, o que se está a ver agora (não) acontecer aumenta a minha preocupação. Dentro dos potenciais nomeados para a sua equipa, há gente com ideias estranhas, mas, mais preocupante, são aqueles que tiveram ações perigosas, tais como John Bolton, um dos grandes responsáveis pelas manipulações feitas pela administração Bush e, nomeadamente, pela construção da fantasia das armas de destruição maciça no Iraque. Tem bastantes inimigos entre as pessoas sérias deste mundo.

Trump transmite a imagem de um candidato não preparado, mas inebriado pelo poder. Extramente preocupante é o grau de envolvimento da família. Que um Presidente apresente socialmente a primeira-dama, é uma coisa; que se rodeie de filhos e genros no melhor espírito tribal terceiro-mundista é muito inquietante. Ou é porque não encontra mais ninguém em quem confiar, o que é alarmante; ou por querer deliberadamente concentrar o poder (e os seus proveitos?) num círculo restrito, o que é assustador, especialmente para a escala e as responsabilidades mundiais do país em questão, que não se pode transformar numa United Trump States Corporation.

No fim, o problema principal do populismo não é a sua ação; é a sua herança.

11 novembro 2016

Nos campos das papoilas


Nos campos de papoilas, onde outrora se acharam as trincheiras, há campos que permanecem minados por projeteis não explodidos, ainda não achados. Há demasiadas lápides fúnebres e tantas delas tão simples como “A Soldier of the Great War – Known unto God”. No memorial de Thiepval estão os nomes de 72000 soldados desaparecidos na batalha do Somme de 1916, de destino desconhecido. 


Uma coisa é ler uma descrição de algo onde, somente no primeiro dia, houve mais de 20000 mortos. Outra coisa é ver o filme no museu de Albert onde desfilam as imagens dos locais: La Boisselle, Poizières, Thiepval, Beaumont-Hamel. Muito mais do que isso é atravessar a região e ver como tudo é tão perto, como logo a sair ao inferno dos australianos, foi um dos ingleses, depois o dos irlandeses e do outro lado do riacho está os da Terranova. Os cemitérios militares são a imagem de uma colheita sinistra. De uma colheita que não se renovou, morreram definitivamente, e que não queremos ver renovada. 

Todas as guerras são estúpidas e insensatas. A Grande Guerra talvez mais um pouco, por uma certa ligeireza nas suas causas diretas e pela brutalidade e insensibilidade da imagem dos soldados a saírem em massa das trincheiras, tantos deles para caírem escassos metros à frente. No mesmo museu acima referido, a estatística diz-nos: 8 milhões, 538 mil, 315 mortos em toda a guerra.

11 de Novembro, dia do armistício, dia da papoila ao peito. Um armistício que não evitou uma nova grande guerra, apenas 20 anos depois. Entretanto, já passaram mais de 70 anos sobre o final da última grande guerra na Europa. Foi a última? Acredito que sim, mas nunca facilitando.




10 novembro 2016

Trump, Bush, Lula e Sanders

Contra todas as previsões e racionalidades, Trump ganhou. Ou, talvez, tenha sido antes Hillary quem perdeu, por desgaste da imagem e descrédito nos simples eleitores, saturados do sistema vigente. Se do lado Democrata estivesse um antissistema como Sanders, o seu resultado teria sido melhor do que o de Clinton e eventualmente venceria? Um cenário não menos inquietante…

Como vai ser na prática a ação de um líder assustadoramente diferente do modelo e dos valores tradicionais, que estamos habituados a ver? Encontro algum paralelo, noutra latitude geográfica e politica, com a eleição de Lula da Silva no Brasil em 2003. Um sindicalista ex-operário que destronou as famílias tradicionais do sistema. Hoje, vendo à distância, e como as investigações em curso vão levantando, a rutura com o “sistema” não foi assim tão significativa como inicialmente previsível.

Trump está mal preparado, talvez não muito diferente de George W. Bush, apenas com a diferença de que esta pertencia a uma dinastia do sistema e tinha mais tento na língua. O problema principal com Bush veio dos seus conselheiros, decididamente maus conselheiros. A esperança é que a prática de Trump, e no discurso da vitória já mostrou mais tento na língua, seja suficientemente influenciada por conselheiros razoáveis, o que quer que isso seja exatamente, esperando bem que não venham da mesma cepa.

O problema maior é que, depois do populismo falhar, a fase seguinte é muito imprevisível e incontrolável.

07 novembro 2016

O orçamento e o real

De orçamentos de Estado entendo pouco, mas orçamentos em geral já me passaram muitos pelas mãos e o princípio é sempre o mesmo. Ao longo do ano compara-se o realizado no ano com o previsto em orçamento e com o realizado no ano anterior. Para o ano seguinte, é tudo igual, apenas avançando um ano.

Na preparação de um novo orçamento os valores previstos para o ano seguinte são comparados com a realização/previsão do ano em curso. Sendo conhecido um valor mais atual e fiável para o realizado, ninguém irá comparar as previsões com o orçamentado feito um ano antes e, eventualmente, não cumprido.

Havendo diferenças entre o orçamento inicial e o realizado final, alguém levará nas orelhas ou será agraciado, conforme a natureza do desvio, mas uma coisa é certa… no final de cada ano o orçamento, “previsão”, morreu, substituído pela “realidade“ constatada.

Isto vem a proposta da polémica com os aumentos e diminuições das verbas, por exemplo para o ensino no orçamento de Estado. Orçamentou-se 100 e gastaram-se 120. Para o ano seguinte orçamenta-se 110 e chama-se a isto um aumento. Aritmeticamente é efetivamente um aumento face aos 100 homólogos, mas as comparações devem ser feitas entre o que faz sentido. Entre um número inicial errado e um atual certo, é absurdo considerar como base o que já se sabe estar errado.

Cereja no topo do bolo foi o ministro dizer que “já se sabe”, que o real será sempre superior ao orçamentado e assim, na prática, sendo expetável que o valor final real atinja os 130, haverá um efetivo e real aumento. Pois... só que isso não se chama “orçamentar” – chama-se brincar com verbas. E parece que ninguém está a/vai levar nas orelhas por isso.

03 novembro 2016

Coisas dos gostos na rede

Há uns dias, e por exceção excecional, interpelei uma figura pública na sua página facebook, achando que ele estava a apresentar uma posição mal fundamentada. Questionei-o se conhecia a “organização X”, bastante relevante no contexto em causa. Tive direito a uma resposta relativamente rápida, do género de declaração de ignorância. Dizia não conhecer, mesmo apesar da sua vivência, e deixava-me em desafio, com uma ponta de ironia, um convite a explicar.

Lá me apliquei a responder com uma exposição relativamente detalhada, resultando que a declaração irónica de ignorância era efetivamente infeliz. O senhor não respondeu nem comentou mais. Pode ser normal devido à grande quantidade de interações e solicitações, apesar de ter posteriormente comentado outras linhas abertas no mesmo post, talvez porque nessas ele “tinha razão e argumentos”.

O que eu achei mesmo delicioso foi que, antes de eu responder, a declaração de ignorância tinha 2 ou 3 gostos. Já depois da minha resposta a contagem subiu até aos 17, sem uma única reação na minha explicação. Diz bastante do “ouço apenas o que quero ouvir”.

Radicalização não é só a da kalashnikov. A intelectual também faz muitos estragos.

26 outubro 2016

TPI e Gâmbia

Nas imagens recorrentes dos migrantes africanos mortos e resgatados já se entendeu que nem todos são refugiados sírios, há alguns de cor escura (será politicamente correto dizer assim?). Uma parte significativa desses vêm da Gâmbia, um pequeno país de 2 milhões de habitantes, situado na costa ocidental de África, encaixado no Senegal.

República tornada islâmica, governado desde 1994 por Yahya Jammeh, após golpe de estado, é um país onde é muito perigoso ser jornalista. Ser oposição e manifestar dá direito a ser preso e estar preso não é nada saudável, dado que a detenção provoca frequentemente a morte. Jammeh é um ditador perigosamente ridículo e, evidentemente, os indicadores de desenvolvimento não são brilhantes. Será de estranhar que muitos dos seus habitantes queiram fugir dali?

Recentemente o país anunciou a sua saída do TPI (Tribunal Penal Internacional), por entender que este apenas persegue dirigentes africanos. Por exemplo, Jammeh pediu que o TPI abrisse um processo à União Europeia por causa dos migrantes mortos no Mediterrâneo e essa pretensão não foi satisfeita!

Tornar a Gâmbia um país “decente”, de onde as pessoas não queiram fugir a todo o custo, correndo riscos enormes não é uma opção para o senhor. A culpa é e há-de ser sempre dos colonizadores. Atendendo a que os portugueses foram os primeiros europeus a pôr os pés por ali, ainda nos vai chegar também fatura.


Foto extraída do site do "The Telegraph"

24 outubro 2016

O deserto é monoteísta?


Há frases que, quando chegam, entram com estrondo, sem pedir licença e se nos instalam imponentes e inamovíveis. Numa nota de rodapé de um livro que estou a ler, o Al-Muqaddima de Ibn Khaldun, uma espécie de história universal escrita no século XIV e que me dará temas para mais algumas reflexões, o tradutor chamava a seguinte frase de Ernest Renan, filósofo, historiador e escritor francês do séc XX.

“O deserto é monoteísta”. É uma frase fantástica de reflexão e provocação. Se realmente as religiões monoteístas nascem no deserto, podemos ver aí um dedo do infinito, a opressão e angústia dos grandes espaços, a necessidade do rigor e disciplina para a sobrevivência, o valor da frugalidade e, já agora, a plenitude da felicidade não ser atingida nesta vida árida terrena, mas sim transferida para uma outra existência futura?

Ao passear em torno da expressão, encontrei uma frase resposta, complementar, ser arriscada por alguns: “a floresta é politeísta”. A fertilidade, a alegria das cores, a diversidade da natureza farta não cabem num deus único e precisam de uma paleta de deuses que esteja à altura de tanta exuberância?

A citação inicial enquadra-se numa perspetiva desenvolvida por Ibn Khaldoun, defendendo a superioridade moral, maior coragem e empenho dos homens nómadas, fruto da necessidade de sobreviverem num deserto agreste, face aos citadinos amolecidos nas carnes e nos espíritos pelos confortos e facilidades do seu modo de vida. Acrescenta que os nómadas vencem os segundos com alguma facilidade, devido à sua têmpera mais rija, mas depois sedentarizam-se e degeneram.

Fazendo um salto perigosíssimo para a teologia. As religiões monoteístas do deserto, em confronto, com as da floresta levam/levaram a melhor, mas depois têm dificuldade em manterem-se com a mesma forma depois da vitória? Exemplos não faltam. Por acaso estou até a ver uma série sobre os Bórgias, mas nem é preciso ir tão longe.

Mesmo sem chegar às divergências da prática, permanecendo sob os princípios e as suas evoluções. Que relação têm as fecundas “Nossas Senhoras“ com o ascético deserto dos profetas? Não haverá aqui já uma espécie de florestação do deserto?

Há aqui pano para muitas mangas…!
Imagem: Entre o deserto argelino e uma araucaria brasileira...

20 outubro 2016

O contentamento do Manuel

Dizia o Manuel que para ele o preço da gasolina nunca mudava.

Ele metia sempre no depósito 20 Eur de combustível, não gastava nem mais nem menos um cêntimo. Parece que este governo é aconselhado por quem conhece bem os Maneis deste país. De facto a reposição dos rendimentos e outras benesses, para alguns, tem contrapartidas que todos irão pagar, a menos do Manuel que gasta sempre 20 Eur no posto de abastecimento.

Como o crescimento não apareceu, uma não surpresa para quem pensasse um bocadinho, fica o dar com uma mão para tirar com a outra. O pessoal (algum) recebe algo mais no início do mês, mas depois entrega-o com acréscimo nas taxas e taxinhas. O Manuel anda contente.

Quem pensa em investir é que precisa de pensar três vezes, que é quase tanto quanto subiu a base para a taxa sobre o arrendamento local, por exemplo. É que os investidores não fazem as contas como o Manuel.

17 outubro 2016

À espera da “slim tax”


Vamos supor que eu tenho um aumento em Janeiro e decido comprar um carro novo. Como o valor do aumento não chega para a prestação, resolvo fazer a compra apenas em Julho. Assim o ano “safa-se”, dado ter um aumento de receita durante 12 meses e de despesa em apenas 6.

O grande problema virá, está bom de ver, no ano seguinte, considerando que não tenho novo aumento e vou precisar de pagar as prestações do carro novo logo a partir de Janeiro. Aí concluo ter feito uma opção irresponsável.

Os orçamentos de Estado do atual Governo, com as suas “reposições” e aumentos de despesa/redução de receitas faseadas ao longo do ano, fazem-me lembrar um cenário deste tipo. Se no ano passado ainda podia haver alguma justificação, dentro da teoria de que a reposição dos “rendimentos” geraria crescimento, justificando uma evolução faseada, hoje já sabemos que, por este andar, o crescimento chegará apenas numa manhã de nevoeiro.

Insistir em arrancar com novos impostos em janeiro e atirar compromissos quanto à despesa lá para a frente vai colocar um sério problema para o orçamento de 2018. Isso pode nem ser problema se houver eleições antes; senão, lá terá que surgir uma “slim tax” ou outra coisa qualquer que torne o orçamento “bom”, dentro daquele sábio princípio “Um bom orçamento é aquele que vai buscar dinheiro onde os orçamentos anteriores não descobriram que ainda havia para tirar.” Por outras palavras, a política fiscal não é um contrato minimamente estável entre o Estado e o contribuinte, mas antes uma espécie de exercício de “geocaching” em busca das receitas escondidas.

14 outubro 2016

O que é a literatura?

Dizem os dicionários que a literatura é a arte da palavra, de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente. Não me parece que obrigue à produção de tijolos de 500 páginas. Também não penso que as palavras deixam de ser arte quando manifestadas conjuntamente com a música. Aliás, há quem defenda que a poesia deve ser cantada.

O Prémio Nobel da literatura para Bob Dylan não premeia a música, premeia as palavras de um trovador e só por snobismo se pode pretender que essas e outras trovas não são arte de palavras. Dentro do género, é difícil dizer que Dylan será o mais merecedor. Eu, pessoalmente, veria com muito apreço e justiça um reconhecimento literário de Jacques Brel.

Descendo aqui ao nosso burgo. Alguém dúvida ou questiona a excelência literária de Sérgio Godinho ou Carlos Tê?

12 outubro 2016

May you stay…


Dos tempos em que o cinema não tinha pipocas, do tempo que as pessoas iam mesmo ver um filme e ficavam caladas do princípio ao fim, sem desatarem em conversas de autocarro, especialmente nos momentos mais densos, quando o silêncio da tela deve inundar a sala, nesse tempo havia um cinema no Porto chamado “Batalha”. O “Batalha” tinha anexa uma pequena sala, justamente denominada “Sala Bebé”, com uma programação muito interessante e onde vi uma grande parte dos filmes “bons” de que me recordo.

A propósito dessas recordações e desses filmes, ressurgiu-me recentemente a memória de uma coisa especial chamada “The Last Waltz”, de Martin Scorcese. Uma banda fundamentalmente de suporte, que assumiu simplesmente o nome de “The Band”, fez um concerto de despedida, convidando uma grande parte daqueles com quem partilharam o palco durante a sua carreira e esse concerto deu um filme. No fecho, uma interpretação de “I Shall Be Released”, que talvez não fique para a história pela performance em si, juntou no palco alguns dos convidados. Incluindo apenas Bod Dylan, Dr. John, Neil Young, Van Morrison, Ringo Starr, Joni Mitchell, Eric Clapton, Neil Diamond, Ron Wood. Estes são os mais sonantes para mim, mas a lista não é exaustiva.

Recentemente comprei o CD duplo do registo, sim, sou daqueles que ainda compra CD’s, e é muito bom, mesmo. Sem grandes precisões ou justificações, destaco um tema muito forte, próprio do grupo, “The Nigth They Drove Old Dixie Down”, cantado pelo fantástico Richard Manuel, e impõe-se-me um “Forever Young” com o Bob Dylan, o mais assíduo e continuado utilizador dos serviços da banda.

May you stay….forever…

11 outubro 2016

Quem deve, paga?

O governo anunciou um perdão fiscal, mas oficialmente não é designado perdão, dado que “quem deve vai ter que pagar aquilo que deve”. Se não pagará juros nem custas, presumo que estes não eram, então, devidos. Deduzo também que os prazos para pagamento das obrigações fiscais são algo de não vinculativo.

Há cerca de 5 anos atrás cobraram-me uma multa por um IUC pago fora do prazo. Dois anos antes tinha-me atrasado escandalosamente um mês e meio! Comigo foi fácil e tive que acrescentar uns módicos 46% adicionais ao valor total do imposto (já integralmente pago 2 anos antes, insisto).

Devo reconhecer que até dá algum jeito haver contribuintes com dívidas ao Estado. É uma reserva de “liquidez” que pode ser usada num momento de aflição como parece ser o atual.

Obviamente que de justo não tem nada, mas o que mais me irrita, sinceramente, são estas argumentações de atirar areia para os olhos: “quem deve vai ter que pagar aquilo que deve”. Tenho muita alergia a areia nos olhos. Chateia-me…!

06 outubro 2016

Felizmente má marioneta

Há uns largos anos vi um cartoon em que o SG da ONU era uma espécie de marioneta comandada por 3 ou 4 senhores do mundo. A particularidade era cada qual ter os seus fios e seu próprio comando. Assim, o desgraçado, penso que na altura seria Boutros-Ghali, estava todo torcido, uma perna para cada lado e de braços cruzados, para grande desespero dos tais senhores que exclamavam: “Este tipo não faz nada de jeito”.

É uma imagem bastante representativa e, de certa forma, feliz. Por um lado o SG tem um poder limitado e sofre enormes pressões; por outro lado é positivo não haver um senhor que o possa controlar. Isso seria o fim da organização. Melhor todos dizerem “este tipo não faz nada de jeito” do que um deles dizer “este tipo faz tudo o que eu quero”.

Neste contexto, a manobra de última hora, pouco cristalina, revela uma atitude extraordinariamente perniciosa e sectária. Não se excitem os “esquerdas” com este falhanço infeliz da direita. Se o favorito fosse de direita e a esquerda tentasse algo de idêntico, ouviríamos o mesmo, apenas em espelho. Posso estar a especular excessivamente e gratuitamente, mas a última coisa de que precisamos são politiquices sectárias de “connosco” ou “contra nós”, relativamente ao SG da ONU. Infelizmente vivemos um tempo em que a luta pelo poder num contexto em mudança está a radicalizar posições.

Há e terão que existir sempre valores de nível superior a politiquices, muito especialmente quando recheadas com tiques populistas. Acredito que António Guterres consiga voar mais alto do que esses mal crescidos.

04 outubro 2016

O encanto da segunda linha


O que têm em comum Mértola no Guadiana, Silves no Arade, Alcácer do Sal no Sado, Montemor-o-Velho no Mondego e até mesmo Santarém no Tejo? São as cidades de segunda linha nos respetivos rios e todas elas, mais tarde ou mais cedo, foram perdendo importância, ou por alteração dos circuitos comerciais, ou por consolidação e garantia de segurança contra a pirataria nas suas correspondentes, mais expostas na costa.

As cidades de segunda linha têm o encanto do que já foi. De uma certa forma pararam no tempo ou o tempo principal passou a correr desviado delas. Nas suas ruas, hoje menos do que já foram, correm cheiros de outros tempos. As ruas antigas fluem e cruzam-se sem pressas, irremediavelmente ultrapassadas. Os cais já não se vêm, ou se se existir algo mais do que a sua memória não terão barcos ou, se os houver, não estarão atarefados a carregar e a descarregar mercadorias.

Eu gosto de cidades de segunda linha, desamparadas. A sua despromoção ensina-nos. A evolução é complexa e muitas vezes imprevisível; a riqueza é construída e também tributária de circunstâncias não dominadas; o decair pode não significa acabar, mas recomeçar de outra forma.

Curiosamente, para o Douro não existe nenhuma cidade de segunda linha nas suas margens agrestes. Foi o rio que não deixou ou o Porto que não precisou? A primeira urbe interior intrinsecamente ligada ao rio surge apenas no Peso da Régua, mas o seu desenvolvimento é relativamente recente e num contexto muito específico. As cidades da bacia do Douro, Penafiel, Amarante, Lamego e Vila Real, não estão nele mas nos afluentes e não puseram (julgo eu) barcos na água. Um rio diferente.

03 outubro 2016

Posso revelar?


Nem todos possuem fontes que permitam um espaço semanal de revelações em horário nobre, mas, desta vez, eu trago uma boa. O meu amigo Hans, funcionário numa chancelaria de Além Reno, contou-me a razão das reviravoltas de última hora no processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU. E passo a ficcionar:

Diz ele que há umas semanas a Frau Angie apareceu extremamente nervosa depois de um sonho, pior, de um pesadelo que teve. Viu ela a Fraulein Todwasser numa conferência de imprensa a apresentar em primeira mão as linhas orientadoras futuras da ONU. Considerando a proximidade entre o partido do candidato favorito e as Todwasser, ela achou aquilo uma espécie de aviso e de premonição.

Bem lhe tentaram explicar que o candidato favorito não era daqueles socialistas neo-marxistas, era dos antigos, melhor, dos intermédios, parece que até ia à missa, não sendo e forma nenhuma previsível que ele precisasse ou utilizasse o apoio das Todwasser. A Frau Angie continuava desconfiada. Depois de o líder deles ter andado tão excitado a tsiprar, ela já não confiava muito naquela gente e pediu a opinião a uns amigos, que conheciam um pouco o país. Estes conheciam basicamente as praias do sul, mas lá lhe contaram que o geringoncismo pós-eleitoral do partido tinha surpreendido muita gente, mesmo uma parte do seu eleitorado.

É certo e sabido que se há coisas que os alemães não suportam são imprevistos. A Frau Angie disse então: Não pode ser. Que avance a Cristalina, se não conseguir passamos à Depuralina. Não podemos, de forma nenhuma, correr o risco de ver a ONU geringonçar.

02 outubro 2016

A exceção OPEP

Se um conjunto de produtores de um dado setor de atividade se reunir secretamente para acordar quotas de produção, distribuições de mercado e tentar manipular ou condicionar preços está sujeito a pesadíssimas penalidades, que várias entidades reguladoras da concorrência não hesitam em aplicar.

A Opep reuniu-se esta semana e decidiu reduzir a produção, para procurar fazer subir o preço do petróleo. Veremos o que dá na prática, dado que a confiança mútua não é particularmente elevada entre os seus membros.

Custa-me a entender como esta cartelização de mercado funciona assim, publica e impunemente. É certo que se eles se zangarem e boicotarem fornecimentos, lá teremos que cozinhar a lenha, jantar à luz da vela e deslocarmo-nos de burro ou bicicleta… ou não.

Acredito que não seja possível, na prática, tratar o petróleo como uma indústria qualquer, até por questões geoestratégicas sensíveis associadas, mas gostava de saber o que as autoridades de regulação da concorrência pensam sobre isto, quanto ao princípio.

30 setembro 2016

Segredo desvendado

O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU estava a correr bem e muito sério. O nosso sério e boa pessoa António Guterres parecia estar bem lançado e com um favoritismo indiscutível.

Mas, eis que de repente, tudo se baralha. Para evitar a nomeação de A Guterres vai aparecer uma búlgara apoiada em força pela direita europeia, parece que também pela Rússia, e subvertendo todo o processo e descredibilizando o mesmo e até colocando sérias questões de legitimidade ao eventual futuro mandato da senhora. Porquê?

Ora bem, eu estou em condições de revelar (o Marques Mendes que se cuide com a concorrência) qual a razão para tanta agitação e excitação. Ao que parece, Angela Merkel teve um grande pesadelo. Sonhou ouvir a Mariana Mortágua a anunciar as linhas diretrizes do orçamento da Onu e, ao acordar, disse: Isto não pode acontecer!

28 setembro 2016

PS, PS, onde estás tu PS…?

Já existe um imposto sobre o património imobiliário, chama-se IMI e pode-se questionar se as avaliações estão corretas, as taxas são justas ou se os beneficiários são os adequados. No entanto, um imposto sobre um património, que eventualmente nem gera rendimento é delicado. É como eu ter um jardim e todos os anos me viram retirar uns metros quadrados do mesmo.

Não posso, por isso, concordar com a ideia de ser justo ir buscar dinheiro a quem o tem. Praticamente todas as formas de acumular dinheiro já têm um imposto em cima do rendimento original. Há demasiada evasão fiscal? Se sim, ataque-se o problema na fonte e não cegamente nos resultados. O simples facto de se ter dinheiro pode resultar de muito trabalho, de muito empenho, de ter assumido grandes riscos ou de ter ganho o totoloto.

O que me preocupa fundamentalmente no entusiasmo e excitação de uma certa esquerda em torno deste direito de saque, é a visão de que riqueza será sempre um pecado a merecer castigo. Esquecem-se que para comermos e vivermos é necessário atividade económica, na agricultura, na indústria e nos serviços e que sem “riqueza” nalgum sítio não há investimentos, não há máquinas para dar trabalho, nem desenvolvimento de conhecimento sequer.

É importante os partidos da esquerda esclarecerem qual o modelo económico que defendem e pelo qual lutam. Se se trata de um baseado na livre iniciativa, de regras bem definidas e garantindo justiça social ou uma solução estatizada até não poder mais e onde é pecado ser rico. Em paralelo, por curiosidade, para os defensores da segunda alternativa, apontem um exemplo (basta um) em que este cenário conduziu a uma situação de liberdade, dignidade e qualidade de vida para as respetivas populações.

PS, PS, onde estás tu PS…?

27 setembro 2016

Que mania é esta de divagar sobre o que dizem os títulos?


Aparentemente, e como em quase tudo, haverá regras e princípios quanto a títulos para livros. Aparentemente, uma delas é não incluir conjugações verbais. Como com quase tudo, as regras podem ser quebradas, especialmente num domínio criativo. Por exemplo: “Que cavalos são estes que fazem sombra no mar” será um título muito pouco ortodoxo, mas ninguém crucificou António Lobo Antunes por isso. Falando em crucificações, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” é formalmente irrepreensível, como título.

Os títulos podem e devem ser visitados e interrogados antes, durante e depois da leitura da obra. Há quem ironize com o facto de alguns títulos, excessivamente pretensiosos, quererem, por eles próprios, serem uma segunda história, uma espécie antítese. Modéstia à parte, eu, quase sempre, apenas dou o título a um texto depois de ele estar concluído ou muito adiantado.

Gosto de passear o olhar pelas bancadas e estantes das livrarias a ler títulos e noto existirem muitos/demasiados do tipo “O fulano que sabia…”, “A sicrana que fazia…, “O beltrano que tinha…””. Estes títulos têm dois problemas. O primeiro é a coisa do verbo obrigatório ali a seguir ao “que” e nem toda a gente tem a tolerância e o talento do Lobo Antunes, que até se pode permitir dois “ques” mais verbo no mesmo título. O outro é o “que” em si… embirro com ele. Quando escrevo algo, cada “que” que debito aparece-me a vermelho grosso nas minhas lentes. Acho sempre que uso “ques” a mais… Uma parte obrigatória da revisão que faço é a tentativa de redução do número de “ques” (frase não revista).

Que mania é esta de divagar os títulos? Haverá títulos que sabem demais? Haverá títulos que valem de menos? De qualquer forma, na minha biblioteca, o melhor título até tem duas conjugações verbais e um “que”.


21 setembro 2016

Zé Povinho? Não, obrigado!

Acho triste que o povo português se identifique e acarinhe tanto a figura do Zé Povinho. Obviamente, não está aqui em causa nenhuma crítica ao genial Rafael Bordalo Pinheiro, mas sim à aceitação da figura por ele criada.

Contava-me em tempos um transmontano que quando se mudou para a grande cidade, estes pensavam que ele, por ser pobre, era burro. Mas ele não era burro. Aliás, pobre já seria desgraça suficiente, donde que ser pobre e burro era desgraça a mais. “Pobre não pode ser burro”, dizia ele alto e bom som, para quem o quisesse ouvir.

O Zé Povinho é pobre, mal vestido, mas não é burro e isso induz em erro os doutores da cidade. É este o seu charme. Mas, se por um lado, é resmungão e até insolente, ao mesmo tempo é também manso e submisso. O Zé Povinho será desconcertante para a elite, a sua franqueza desmascara e desarma, é certo, mas permanecer passivamente resignado e ostensivamente desaprumado tem um mérito muito duvidoso.

Não seria expectável que o povo português se identificasse com um Fradique Mendes queirosiano, mas poderia ser uma figura um pouco mais consequente e não apenas num “ ’tás a enganar-me, pensas que não noto, mas vejo tudo; podes continuar enganar-me, eu rio-me, mando umas bojardas e assim ficamos”.

É para isto que queres a esperteza ò Zé? Assim, quem se fica mesmo a rir, e com boas razões para isso, são os trapaceiros aprumados.

19 setembro 2016

O orçamento dos impostos

Nos preparativos, aperitivos e antevisões para o próximo orçamento de Estado, a palavra-chave parece ser “impostos”. Feitas as reversões e virada a página da austeridade (de certa forma), o crescimento económico lá foi fazer companhia a D. Sebastião: há-de aparecer numa manhã de nevoeiro.

A agenda da atualidade é completada com umas bocas e piadas sobre jogos de caçar bichinhos virtuais e anda também a corte muito indignada com a publicação de um livro proibido. Tudo coisas fundamentais para os amanhãs cantarem.

Como o tal dito crescimento não dá sinais de aparecer, a alternativa é colocar a imaginação a trabalhar em termos de receita fiscal, que parece ser um inquestionável e ilimitado direito de saque do Estado sobre tudo o que mexe e mesmo sobre o que está parado. Eu sugiro acrescentar impostos sobre pianos de cauda e portões de garagem elétricos.

Entretanto, para haver crescimento, criação de mais riqueza, é necessário haver confiança e investimento. Quem confia e investe num país onde todos os anos o governo sai à rua para sacar mais e novos impostos?

18 setembro 2016

Casa comum e falta de vergonha


Uma casa comum necessita de um mínimo de regras comunitárias. Esta Europa, de costas tão largas quando se trata de apontar razões e desculpas para as inépcias e incompetências das governações nacionais, não tem assim tantas regras quanto à forma como os Estados gerem as suas contas. Para os que estão no Euro, apenas lhes dizem: não gastem muito mais do que o que recebem, concretamente 3%. Como se forma a receita e como se distribuem as despesas são opções relativamente livres de cada um.

As receitas dos Estados vêm fundamentalmente de impostos e se não há liberdade total, pouco menos. Por várias razões a harmonização fiscal não será para amanhã. Por exemplo, a taxa base do imposto sobre os rendimentos das empresas é, salvo erro, de 10% na Irlanda, 21% em Portugal e 33,33% em França, já sem considerar as infinitas situações particulares e exceções. Faz sentido? Se a Irlanda se governa com os 10% e se isto é conhecido e transparente, melhor para ela. No entanto, há nas instituições europeias quem questione esta discrepância.

Coisa diferente é um país negociar individual e secretamente com uma empresa condições fiscais especialíssimas. Foi o que fez o Sr Juncker no Luxemburgo, ao que se sabe chegando a acordar taxas da ordem de 1%, para entidades sem atividade real no país. Foi agora notícia o caso da “correção fiscal” à Apple, na Irlanda, onde pagava uma taxa “muito amiga” de 0,005%. De realçar que não está em causa apenas a atividade da Apple na Irlanda. Os lucros supostamente gerados pela Apple em Portugal, por exemplo, também para lá são aspirados. Em contas simplificadas, uma empresa que declare mil euros de resultados em Portugal pagará tanto de imposto quanto a Apple na Irlanda por cada 4,2 milhões de lucro. É ridículo e injusto.

Para lá do enquadramento legal, há aqui um fator moral brutal. A Apple e as outras empresas que tais, supostamente socialmente responsáveis, com toda a lista de princípios politicamente corretos transcritos nas suas paredes reais e virtuais, consideram que não devem contribuir para as infraestruturas, sistema de saúde, justiça e educação dos seus clientes? Tenham vergonha.

15 setembro 2016

Ainda Setembro, antes e depois


Setembro é um mês especial. Vejo o virar do ciclo anual muito mais neste mês do que naquele Dezembro, quando pouco muda.

Em Setembro acontecem coisas significativas. São as colheitas, o começo das aulas e o fim do verão e do querido mês de Agosto. Não aprecio grandemente o calor intenso e a exposição solar per si, mas há algo de catártico naquele peso quente, especialmente quando se atravessa, sem horas, o silêncio perfumado do interior seco.

O começo das aulas. Uma cançãozita antiga falava “dos estudantes que sonham terem terminado os estudos e dos professores que sonham recomeçá-los”. Hoje haverá talvez professores que apenas desejam que os alunos sejam como eram há 20 anos.

Há 30 anos, mais coisa menos coisa, fui selecionado para uma entrevista para “assistente convidado” na Feup e, reconsiderando a candidatura, disse que não. “Engenheiro” é fazer coisas e de salas de aulas já tinha acumulados 17 anos. Para lá de todas as tensões, dúvidas e inquietações, (re)começar as aulas é uma forma forte de acreditar. Haverá algum local com mais quantidade de esperanças e expetativas juntas do que numa escola num primeiro dia de aulas?

A temperatura vai descer, a luz do dia vai encurtar, especialmente depois daquela machadada brutal da mudança da hora. Haverá coisas que não se poderão fazer mais, até ao próximo ciclo. Porque, novo ciclo, haverá sempre, pelo menos enquanto eu por cá estiver.

14 setembro 2016

Entre a paz e o Islão

Quando em 622 Maomé e os seus companheiros fugiram de Meca para Medina, seguiu-se uma guerra aberta entre as duas cidades, liderado do lado de Medina por Maomé. Em 627 foi julgada e condenada uma família judaica de Medina, os Qurayza, por se ter recusado a participar na batalha de Kandaq ao lado dos muçulmanos. Os homens foram executados, as mulheres e crianças escravizadas. A afirmação recorrente de que a violência não tem nada a ver com o islão necessita, portanto, no mínimo, de alguma contextualização. No entanto, a tensão entre a (uma parte da) comunidade muçulmana e o resto do mundo não se limita aos casos de violência extrema.

O Islão é uma religião de um Deus único, omnisciente, omnipotente, criador do Céu e da Terra e senhor do juízo final. Inclui episódios como a expulsão do Paraíso de Adão e Eva, o diluvio e a arca de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra e a travessia do Mar Vermelho. Cita figuras como Abrão, Isaque, Jacó, José do Egito e Moisés. Parece familiar? Sim, a sua base é a mesma das outras duas religiões do livro. Até Cristo é referido no Corão, embora de forma superficial. O “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra” não é citado.

Nos primeiros tempos de Meca, Maomé divide os homens em três grupos. Os muçulmanos que observam e cumprem os preceitos da religião, tendo no fim o Paraíso à sua espera; os ateus e pagãos que não escaparão ao Inferno e, finalmente, os cristãos e judeus. Para estes a mensagem é: vocês estão certos, estão no bom caminho, adorando o Deus de Abrão e Moisés; apenas vos falta reconhecerem-me a mim como o seu último profeta (atualizem-se…!).

Para muitos muçulmanos o cristianismo e o judaísmo não são religiões completas, de pleno direito, mas apenas versões deturpadas e imperfeitas da “única”. Daí o seu enorme esforço proselitista (se a palavra pode ser usada) nas comunidades judaico-cristãs e uma completa falta de sentido de reciprocidade. Protesta-se contra o facto de a Suíça proibir minaretes (nem são indispensáveis para a plena função de uma mesquita) ao mesmo tempo que se proíbe linearmente outras religiões no “outro lado” (ou são tão regulamentadas que a diferença prática é pequena).

Esta postura do direito à primazia e de muitos muçulmanos não se verem a partilhar um espaço e uma sociedade em equidade com outras crenças e descrenças, provoca tensões e frustrações, sendo as frustrações, em geral, muito más conselheiras. Enquanto houver pregadores muçulmanos a insistirem no objetivo hegemónico da sua religião, dificilmente haverá paz de espírito e a outra pode ser uma consequência.

13 setembro 2016

O fundamental e o acessório

Parafraseando uma expressão humorística de um personagem de Herman José, “não havia necessidade” da entrevista que o juiz Carlos Alexandre deu à SIC. No entanto, por inoportuna e infeliz que seja, deveria servir para ser explorada em favor da “narrativa” da perseguição a José Sócrates?

Independentemente do desenlace do processo, da personalidade do juiz e do tempo que demore, todos os portugueses sérios e com alguma vergonha na cara deveriam, no mínimo dos mínimos, guardar distância de um ex-primeiro ministro que, saído do cargo, assume um nível de vida incompatível com os seus rendimentos oficiais conhecidos e com uns circuitos financeiros muito típicos dos do dinheiro sujo.

Não importa qual o partido, não interessa quem é o juiz. José Sócrates é um personagem que envergonha o país e as suas instituições. Não será o único, certamente, no entanto qualquer tipo de defesa tribal ou relativização do escândalo em função de uma entrevista ou do restaurante onde almoça o juiz, é desonestidade e subdesenvolvimento social. Depois venham dizer que a culpa da “austeridade” é toda da troika e dos alemães. Que por cá, tirando uns ranhosos armados em justiceiros, os nossos são todos bons rapazes, a quem o país muito deve.

Rodopiar magistral nos limites do mistral




XX Festival de Folclore Internacional do Alto Minho - 2016
Escola de Música i Dances de Mallorca

11 setembro 2016

Princesas Misteriosas do Cáucaso




XX Festival de Folcore Internacional do Alto Minho - 2016
Tsu Folk Dance Ensemble “University 2”, Tibilisi, Geórgia

07 setembro 2016

Isto sim, é um golpe

O Gabão é um país na costa ocidental africana, ali logo acima de Angola, relativamente pequeno em população, menos de 2 milhões, e bastante rico em petróleo. Liderado desde 2009 por Ali Bongo, filho do presidente histórico Omar Bongo, ainda recentemente me parecia ser um dos poucos países na zona com alguma visão estratégica e vontade de a implementar, conforme o documento com a capa acima reproduzida expunha com alguma consistência e abrangência.

Houve eleições presidenciais em 27 de agosto passado. Quando faltava apenas escrutinar os votos da província do Alto Ogooué, o candidato da oposição, Jean Ping, tinha um avanço de 60 000 votos sobre o candidato presidente em exercício, Ali Bongo. Ora bem, os resultados dessa província foram uma taxa de participação de 99,93% e mais 95% dos votos a favor de Ali Bongo, que assim recupera e ultrapassa Jean Ping por cerca de 5500 votos.

Entretanto o país está a ferro e fogo, a comunidade internacional apela à calma, esta notícia do Le Monde aqui é de um cinismo “remarquable” e pode-se sempre comparar com esta aqui do Mondeafrique

06 setembro 2016

Proibir o quê e para quê?

De acordo com os princípios europeus de liberdade e diversidade cultural não deveria ser proibida a utilização do burkini nas praias. Há quem assim pense, como também há quem entenda que para salvaguardar esses mesmos princípios europeus de liberdade e de diversidade cultural é necessário travar este programa reivindicativo de algumas organizações muçulmanas.

É de realçar que alguns dos que hoje reivindicam a liberdade de usar o burkini, são os mesmíssimos que amanhã se (quando?) puderem irão exigir a proibição do biquíni. Não tenho a mínima dúvida de que logo que acharem existirem condições, irão pedir o “direito” a haver praias exclusivas para burkini. As mulheres que quiserem usar outra coisa, “indecente”, farão o favor de se deslocarem para outras paragens.

A noção de que “é preciso travar” já não é uma bandeira fantasma da extrema-direita. É uma convicção cada vez mais alargada, dada a forma constante, paulatina e firme como essas organizações nunca estão satisfeitas e pedem sempre mais um degrau. Dado que o Islão se autodefine como a “religião superior” e “o modelo de sociedade ideal”, não os vejo com vontade de parar antes de obterem uma efetiva hegemonia, sendo de recordar que vivermos num regime democrático.

Ironicamente, é como se a liberdade, a democracia e o espirito de tolerância europeus, não perfeitos mas largamente acima do existente na generalidade dos países muçulmanos, fossem utilizados como um meio para … tornar a nossa sociedade mais fechada e menos tolerante. Como travar, não sei…

03 setembro 2016

O “golpe”

Dilma Roussef foi destituída por votação num Congresso legítimo. Os argumentos formais eram frágeis? Há quem tenha pior registo? A solução transitória atual carece de legitimidade? Talvez tudo isso seja verdade, mas a que propósito uma votação deste tipo é um golpe? Golpe seria uma destituição decretada por um juiz à porta fechada sem escrutínio nem recurso ou por um general de arma em punho.

Quando o último governo de Passos Coelho foi derrubado no nosso Parlamento alguns também invocaram a palavra “golpe”, não os mesmos que a usam agora para o Brasil. Esses, na altura, invocaram a absoluta soberania do órgão legitimamente eleito.

Se o árbitro marca um penalti duvidoso podemos encolher os ombros caso seja a favor da nossa equipa e gritar “bandido” (ou pior) ser for contra. A isso chama-se facciosismo e no futebol é relativamente inócuo, para lá da poluição provocada nos órgãos de comunicação que a isso se dedicam.

Em assuntos mais sérios, o facciosismo é muito perigoso porque provoca uma destruição de valores. Uma sociedade sã precisa de estar alicerçada em princípios imunes a simpatias e alinhamentos tribais. Se isso falha, abre-se a porta ao discricionário e ao injusto.

Citando um grande: “A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.”, Albert Camus.

Tirania é tirania e independentemente da cor das suas bandeiras.

01 setembro 2016

Natascha Kampusch


Há cerca de 10 anos, em 23 de Agosto de 2006, a jovem austríaca Natascha Kampusch fugia de um cativeiro monstruoso de 3096 dias, passados numa cave de 6 m2. Uma daquelas notícias que emociona a opinião e pública e dá a muitos a grande satisfação de se sentirem deveras bonzinhos, face às barbaridades como estas que ocorrem pelo mundo.

Houve quem não gostasse de ela não ter divulgado todos os detalhes do cativeiro, nem de não ter linearmente condenado o raptor. Não lhe perdoaram ter chorado quando soube da morte do seu carcereiro, o único ser humano com quem contactou durante mais de 8 anos. Será possível odiar continuamente durante tantos anos? Um monstro será monstro da cabeça aos pés durante 24 horas por dia, 365 dias por ano?

A realidade não é a preto e branco, preto de um lado e branco do outro. Quem não consegue entender isso e critica a jovem austríaca ex-refém por recusar a monocromia, só deve conhecer a “vida” das telenovelas.



Mais detalhe na notícia do I aqui, de onde extraí a fotografia

30 agosto 2016

O cartel do fogo


É notícia na imprensa espanhola o processo judicial contra o “cartel do fogo”, conjunto de empresas que opera no negócio dos meios aéreos para a extinção de fogos florestais e liderado pela Avialsa. Supostamente manipulavam o mercado e subornavam decisores. As suas operações em Portugal, Itália e França aparecem também citadas.

Seria curioso (ou mesmo imperioso) analisar o histórico do negócio do combate aos incêndios florestais no nosso país. Porque se escolheram os helicópteros russos Kamov? Porque ficaram alguns avariados durante anos obrigando a contratações adicionais de milhões de euros, por vezes em ajuste direto? Quem são os reais proprietários das empresas que concorrem, quais a relação entre elas e porquê as cedências de posições contratuais entre supostos concorrentes?

Para lá do problema comum a todas as contratações que saqueiam e delapidam o erário público, aqui há ainda um outro prejuízo brutal e assustador, o causado pelo fogo. Não estou a afirmar, nem sequer a insinuar nada, mas se há negócios que devem ser escrutinados com todas as lupas, este é seguramente um deles.



Alguns detalhes mais aqui e aqui.

Imagem de um dos aviões da Avialsa ao serviço de proteção civil portuguesa, extraída do site airliners.net.