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21 março 2026

Haja festa


 

Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo, os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam. Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?

O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem frequentemente fugas nos circuitos.

Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas” elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.

02 abril 2023

É crime, digo eu


Recordo-me de uma época em que havia edições dos Lusíadas censuradas, nomeadamente quanto ao relato do encontro dos bravos navegadores com as Ninfas da Ilha dos Amores. De facto, passagens como a seguinte podem chocar puritanos zeladores de almas inocentes:

De uma os cabelos de ouro o vento leva

Correndo, e de outra as fraldas delicadas;

Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes súbito mostradas;

Uma de indústria cai, e já releva,

Com mostras mais macias que indignadas,

Que sobre ela, empecendo, também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia.

Entendo que hoje não deve passar pela cabeça de ninguém censurar desta forma a genialidade e a beleza do grande poeta. Isso seria um crime. Não faltam, no entanto, zelotas de outras causas e pudores que já não se limitam a cancelar e a procurar limitar e proibir produções culturais e artísticas “incorretas”. Chegaram ao ponto de “corrigir” obras de outros tempos, em profundo desrespeito pelo público e pelos autores. Coloquem lá uma bolinha vermelha, preta, rosa ou outro sinal qualquer, mas deixam a obra como foi criada. Ou então, escrevam claramente na capa “Edição objeto de censura ideológica”. Caso contrário, é crime, digo eu!

02 novembro 2022

Porque falham as nações


Depois de mais de 500 páginas sobre o tema e com vastos exemplos históricos, entendi claramente a mensagem: o sucesso ou o fracasso de uma nação dependem de esta ter políticas e instituições “inclusivas” ou “extrativas”. Em português mais comum dir-se-ia haver quem governe ou quem se governe.

Nos modelos inclusivos o poder e a influencia no poder envolve uma larga maioria dos interessados, dispondo estes de meios, canais de comunicação e capacidade de reivindicação, garantindo-se que o governo alinha pelo interesse geral e que pode ser facilmente substituído quando se desviar desse objetivo.

A tentação de ficar agarrado ao poder e evitar riscos com reformas ou inovações é também uma caraterística dos “extrativos”, provocando dessa forma o definhamento económico e social.

Mesmo com uma perspetiva histórica alongada, fiquei com a impressão de me estarem a contar um filme a partir do meio. As razões de fundo, porque nalguns países se estabelece e se mantem quem governe e noutros quem se governe, não podem residir apenas nos aleatórios da história.  Porque é a “revolução gloriosa” inglesa de 1688, no fundo uma contestação e limitação do poder real absoluto teve sucesso e se consolidou, permitindo a futura revolução industrial, enquanto, por estes lados, mais tarde, a revolução liberal de 1822 e a correspondente lenta mas concreta evolução para um modelo de limitação de poderes reais, não nos fez sair da cepa torta?

A forma e a força como a população tem vontade e poder para travar trajetórias nocivas ao interesse geral, tem, acho eu, uma componente cultural. Certo que, em situações díspares de meio, entre uma fértil e generosa terra ou um árido e inclemente solo, os requisitos para a sobrevivência são diferentes e assim também serão as exigências quanto à governação. Mas, entre Portugal e a Inglaterra as diferenças não serão assim tão grandes.

Essa coisa da cultura não se mede apenas pelo número de pessoas que vão aos museus e teatros… ou também?

17 agosto 2020

Isto de cativar…

 

É necessário denunciar Luis de Camões. Então, não é que em vez de condenar a escravatura, resolveu escrever poemas sobra uma bela (?) cativa que supostamente o tinha cativo – rica ironia! Um mau exemplo que perdurou. Mesmo no século XX, reputados esclavagistas como Zeca Afonso e Sérgio Godinho ainda tiveram o desplante de musicar e cantar a “bela cativa”. Obviamente, não podemos nem devemos olvidar que o poeta, despudorado esclavagista, manteve até à sua morte um escravo, Jau, trazido do Oriente. 

Os Lusíadas são pouco mais do que o exaltar de uma campanha miserável que levou a escravatura aos quatro cantos do mundo. Algo que nos deveríamos envergonhar profundamente. “Shame on you!”; queimem os livros; estátuas abaixo e toponímia corrigida! 

E não nos acusem de violência. Num passado não muito longínquo, jovens burgueses revoltados contra o seu próprio meio sociocultural, chegaram a despoletar bombas em estações de caminho de ferro. Aqui não se mata ninguém, apenas uma cultura podre, que indiscutivelmente é podre e nefasta. 

Não, ainda não chegaram ao ponto de derrubar estátuas de Camões e mudar nome de ruas e praças, mas a lógica subjacente está lá, se pensarmos, por exemplo, no Padre António Vieira. 

Sim, está em causa destruir uma cultura, a própria. Sim, é esse o objetivo destas excitações. Com todos os defeitos e virtudes, crimes e maravilhas que balizaram o seu caminho é a nossa história e raiz. O mínimo dos mínimos é construir o futuro lendo justamente o passado. As políticas de terra queimada nunca trouxeram nada de bom, especialmente no domínio cultural. Isto de cativar julgamentos e aprisionar pensamentos é muito mau sinal.


19 novembro 2019

Ser Cultura



Talvez, para alguns, seja maior referência o “Mudam-se os tempos…”, ou o “Cantigas de Maio”, ou “Os Sobreviventes”. Para mim é o “Ser Solidário” e um concerto no Coliseu a acabar mais tarde do que o do último comboio “decente”. E a primeira vez em que vi uma ponte para um fado, decente. E, mais tarde, o reencontro nos “Três Cantos”.

Hoje, certamente, o “FMI” teria uma escuta diferente, não por simpatia pela dita cuja instituição, mas porque … ainda bem que o mês de novembro aconteceu, pela liberdade.

Mas a altura não é para essas considerações. É para recordar e homenagear uma grande figura da cultura portuguesa. E essa coisa da cultura é maior do que o resto.

16 março 2018

Coisas proibidas


Um destes dias revi um filme “proibido”. Lolita. Não a versão do Kubrick, mas a do Adrian Lyne. Digo proibido porque os mesmos vigilantes que exigem a retirada de obras de arte de museus, supostamente imorais, certamente condenariam a exibição pública deste filme. Sei que estou a entrar em terreno minado, um pé um pouco ao lado no caminho pode dar grande confusão e mesmo uma palavra escrita para cima, pode ser lida para baixo. 

Arriscando… o filme é um bom filme, na minha modesta opinião, tecnicamente muito bem feito. Chocará certamente, mas não é de forma nenhuma uma apologia da pedofilia, nem sequer a trata com ligeireza ou a procura banalizar.

Voltando aos censores. Como definir o âmbito e os limites do moralmente correto e aceitável de passar num écran ou de se mostrar num museu. Por exemplo, há uma temática, largamente difundida, aparentemente considerada “normal!”, mas que me choca profundamente, que é a violência. Não a violência do Tom and Jerry ou do Astérix entre os Romanos. Estas estão claramente no domínio do fantástico. Refiro-me à violência urbana, brutal, quase gratuita.

A facilidade com que se vê gente, mesmo o herói “bom”, a espancar e a matar gente tem adjacente uma desvalorização da integridade física e da vida humana que, no mínimo, deveriam levantar questões. Se acharmos ser inaceitável exibir um “Lolita”, que dizer de um “Kill Bill”, sendo que existem coisas muito mais violentas do que o “Kill Bill” a circular nas tardes de domingo?

Deixando de lado estas considerações sobre a bondade ou malvadez do conteúdo, um filme, uma forma de expressão criativa, tem que ser obrigatoriamente correta, moralmente correta? E valorizar uma criação “incorreta” é do domínio da perversão? E a sua divulgação é perniciosa para a sociedade e os bons costumes?

Depende fortemente da maturidade do recetor, sendo que assumir uma menoridade generalizada dos mesmos, não resolve grande coisa.

Ficamos sem conclusões…

27 janeiro 2018

Coisas lá para casa


Quando fiz a minha prospeção de prendas natalícias gastei algum tempo na página da Tradisom, do amigo José Moças. Entre picando o que já sabia querer e cheirando o que talvez valesse a pena comprar, encontrei e encomendei um CD de um grupo chamado At Tambur, de quem nunca tinha ouvido falar, pecado meu.

De música não entendo muito e jeito para ela, bastante pouco. Simplesmente gosto ou não gosto do que ouço e há coisas de que gosto muito. E gostei muito desse álbum, achei-o uma coisa bastante bem feita e original. O CD é de 2003, tanto quanto soube o projeto não teve continuidade e o grupo já não existe.

Portanto, há uma dúzia de anos, alguém fez uma coisa muito interessante, aparentemente pouco divulgada, pelo menos para o meu nível de atenção, e desapareceu. Se agora o comprei e ouço, foi por ter decidido um dia escavar no catálogo da muito meritosa editora e divulgadora.

Onde quero chegar? Quantas coisas estarão a ser feitas hoje, fruto de muito esforço, com grande qualidade e a passar-nos ao lado? Hoje, numa altura em que as facilidades de divulgação são incomparavelmente maiores do que há uma dúzia de anos. Quando, com tanta facilidade, nos aparece à frente dos olhos um filme de um gatinho a trepar por um cortinado algures no outro lado do mundo...

Depois, há ainda os projetos que o pessoal até conhece, até estima, até põe uns gostos aqui e acolá, mas vai a correr sacar o mp3, porque a crise, coisa e tal. A guita não chega para tudo, certo, mas gastar mais facilmente os euros nuns drinks sociais, face a remunerar uma produção cultural que nos faz bem, apreciamos, sabendo que quem a fez também tem contas a pagar... pois...prioridades?

12 dezembro 2017

Três mulheres


Uma marroquina, uma tunisina e uma argelina, estabelecidas na Europa, analisam e refletem sobre o que está a acontecer neste mundo, onde se assiste a uma influência crescente do islão político na sociedade. O guião e o estilo são distintos, mas há uma linha comum: a hipocrisia de quem defende e promove essa islamização, a desonestidade intelectual de muitos “ocidentais” que a toleram e relativizam e a inaceitável condição feminina nesse modelo de sociedade. 

Não são abordagens simplistas, depois de alguém ter ouvido qualquer coisa ontem e vir hoje debitar palpites, esquecendo-se que a realidade raramente coincide com aquilo que a ignorância imagina. São visões e posições de quem aí nasceu, viveu e se libertou.

No final destes testemunhos e reflexões ricas, incluindo alguns argumentos e pontos de vista que não compro, fica a confirmação e a perplexidade sobre como uma parte da Europa cosmopolita, culta e desenvolvida, continua a ver com condescendência e “compreensão” uma teoria e uma prática que, só para dar um bom exemplo, recusa um estatuto de cidadania de pleno direito à mulher.

Senhoras, senhores e correlativos, podem ter os vossos motivos para odiarem a sociedade em que vivem e o seu modelo, que até vos permite manifestar livre e publicamente esse ódio. Lembrem-se, no entanto, que o inimigo do inimigo não é automaticamente amigo. Ainda por cima, a aliança entre os “socialistas do terceiro mundo” e os “ativistas islâmicos” contra o “ocidente colonizador” foi coisa de interesse e circunstância, sol de muito pouco dura.

Para lá dos princípios não deverem ser atropelados pelo tribalismo, muito especialmente quando estão em causa direitos humanos, abram os olhos e vejam que esse casamento “vermelho-verde” acabou há muito. Sim, tenho uma enorme fobia do islão politico, denuncio a sua hipocrisia e assumo-o plenamente, como deve fazer qualquer um para quem direitos humanos são mais do que uma “ideia”.

03 novembro 2017

Coitadinho do gato


A sociologia é uma área de conhecimento intrincada e complexa, não conseguindo ter um binómio de Newton (nem uma lei de Ohm). Talvez por isso as suas interpretações e teorias tenham tanto de díspar no conteúdo como de ferocidade na sua defesa. Desculpem lá, mas falar demasiado alto está muitas vezes associado a fragilidade na argumentação.

Nesta vaga de denúncias de situações de assédio sexual, que já saudei aqui, veem-se teorias para tudo e para o contrário. Uma, que achei muito curiosa, argumentava estarmos a assistir a uma consequência da exposição excessiva do corpo (objeto) da mulher e do desaparecimento do travão religioso. Lembrei-me de uma sociedade em que não há de todo exposição pública do corpo feminino e onde existe uma presença quase asfixiante de normas religiosas restritivas na sociedade … e que não é claramente um bom exemplo. Dispensa-se o desenho, certo? Como dizia um sábio dessas paragens, estranhamente até um pouco alinhado com a teoria acima: se o gato come um pedaço de carne deixado em cima da mesa, a culpa é mais de quem deixou a carne à vista do que do bicho. Ou seja, a mulher que deixe de mostrar as pernas, se não quer ser importunada por um pobre animal, que, recorde-se, não é de pau.

Sobre essa coisa da exploração do corpo da mulher (ou do homem, conforme preferências), sinceramente não vejo porque não se pode expor e evidenciar algo belo, excluindo, claro está, o obsceno e o grosseiro. Uma voz bonita, não é também um “atributo físico”? Mostrar um olhar bonito, é exploração? Pobre e triste seria um mundo onde se só vissem imagens de corpos enfiados em sacos de sarapilheira (e nem sequer vou de novo ao paralelismo com os locais onde isso acontece).

Em resumo, eduquem, responsabilizem o gato abusador; se não for a bem, que seja a mal. O caminho é por aí. Esconder não é de forma nenhuma uma solução, e, a propósito, a origem do problema é tudo menos moderna.

Na foto uma escultura de José Rodrigues nos jardins do convento de São Paio, Cerveira.
Propositadamente…

16 agosto 2017

Maniqueísmo e Jardins da Luz



Quando hoje falamos em “maniqueísmo”, como uma visão redutora e simplicista, não sabemos (eu, pelo menos são sabia) a origem da palavra, de Mani, um Parta que viveu no século III, ali pela Mesopotâmia, na altura sob influência persa, a quem os chineses chamaram “o Buda da luz” e os egípcios “o apóstolo de Jesus”.

O seu “maniqueísmo” era entre as luzes e as trevas, mas, mais do que forçar uma opção, ao que a palavra atualmente se associa, ele defendia uma universalidade da espiritualidade, tolerante e humanista, e uma laicidade do poder temporal, a todos os títulos muito moderna. Acabou perseguido, odiado e condenado, naturalmente…


- Se dizes o mesmo que o Messias ou Buda, porque procuras construir uma nova religião?
- Àquele que nasceu no Ocidente, a sua esperança nunca floriu no Oriente, daquele que nasceu no Oriente, a sua voz nunca atingiu o Ocidente. É necessário que cada verdade carregue os trajes o a pronúncia dos que a receberam?
- Mestre, admito que certas crenças merecem ser respeitadas. Mas os idolatras, os adoradores do Sol?
- Acreditas que um rei terá inveja se alguém beijar a orla da sua capa? O Sol não é mais do que uma lantejoula da capa do Altíssimo, mas é através dessa lantejoula cintilante que os homens podem melhor contemplar a Sua Luz.
“Os homens acreditam adorar a divindade, quando apenas conheceram as suas representações, representações em madeira, em ouro, em alabastro, em pinturas, em palavras, em ideias”.
-E aqueles que não reconhecem nenhum Deus?
- Aquele que recusa ver Deus nas imagens que se lhes apresentam, estará por vezes, mais próximo do que qualquer outro da verdadeira imagem de Deus.

Excerto recolhido do romance sobre a vida de Mani – Les Jardins de Lumière – de Amin Maalouf.

02 agosto 2017

Um gosto

Já contei aí para trás como conheci a escrita de Amin Maalouf e o prazer que ela me dá. Desta vez foi o “Rochedo de Tanios”, que estava numa lista de espera com mais dois do mesmo autor.

De novo no Levante (Mashrek), apenas com um pequeno desvio por Chipre, não é um livro de grandes viagens como “O Leão Africano” e muitos outros do escritor. Situado na primeira metade do século XIX, está focado na terra de Maalouf, nas montanhas do Líbano, disputado entre Otomanos e Egípcios, com as potencias europeias numa “espreita” ativa. E com homens e mulheres, ricos de fraquezas, perdidos nas suas grandezas e suficientemente imprevisíveis para serem humanos.

Uma terra, ontem e sempre, charneira entre o Norte e o Sul do Médio Oriente, demasiado fraca para se impor e demasiado forte para sucumbir.

Por estes lados, ao olhar por binóculos para lá, é comum generalizar aqueles outros como árabes e muçulmanos, mas a realidade é muito mais rica. Os livros de Amin Mallouf ajudam bastante a entender essa riqueza, para lá da religião e dessa suposta monto-etnia derivada da pretensa superioridade e obrigatoriedade de se ser descendente do profeta.

Cá para mim, acho que um dia tenho que ir ao Líbano. Não que por lá exista um rochedo de Tanios, de onde se possa ver uma apelativa nesga de mar, mas porque ir conhecendo uma nesga da cultura daquele Levante, é apelo que chegue e:

“O destino passa e repassa por nós, como a agulha do sapateiro passa através do couro que ele trabalha”.

Derivando um pouco: há sempre (temos que ter sempre) lugares especiais onde se “decanta a alma”. Os rochedos (penedos) prestam-se bem a essa função. Por acaso, há umas dúzias anos que “tenho” um, nas montanhas, o da Lapa.

11 março 2017

Perdões



Não sei mais que dizer como introdução a mais um belíssimo texto descoberto, deste grande senhor, Jacques Brel. E penso que este Cupido e Psique, vistos no Louvre, ficam bem na ilustração do mesmo, quanto mais não seja por antítese.


Perdão por aquela rapariga que se fez chorar
Perdão por aquele olhar que abandonamos rindo
Perdão por aquele rosto que uma lágrima mudou
Perdão por estas casas onde alguém nos espera
E depois por todas estas palavras que dizemos de amor
E que utilizamos como moeda
E por todos os juramentos mortos ao nascer do dia
Perdão pelos nunca, perdão pelos sempre

Perdão de não ver mais as coisas como elas são
Perdão por ter querido esquecer os nossos vinte anos
Perdão por termos deixado esquecidas as lições
Perdão por renunciar às nossas renúncias
E depois por nos enterrarmos a meio das nossas vidas
E depois por preferir a paga de Judas
Perdão pela amizade, perdão pelos amigos

Perdão pelos lugares que nunca cantam
Perdão pelas aldeias que já esquecemos
Perdão pelas cidades onde ninguém se conhece
Perdão pelos países feitos de sargentos
Perdão por ser daqueles que não querem saber de nada
E por não ter cada dia ainda tentado
E perdão ainda e depois perdão sobretudo
De nunca saber quem nos deve perdoar.

29 agosto 2016

Folclorite Aguda em Viana do Castelo


As danças, trajes e cantares tradicionais portugueses são ricos, vivos e vistosos. De certa forma isso constituiu uma infelicidade. É sabido que nos tempos do Estado Novo foi feita uma promoção do país e da alegria e riqueza de cá viver, usando e abusando dessa tal espetacularidade, em prejuízo do rigor e do respeito pela verdadeira cultura tradicional.

Posteriormente, principalmente a partir da década de 80, foi feito um esforço de correção de alguns hábitos consagrados pelos grupos folclóricos, anacrónicos quanto à época supostamente representada, que é a dos finais do século XIX, início do século XX, pré-implantação da República. Esses erros incluem a estilização (e mesmo a invenção) de alguns trajes, exposição indecorosa (para a época) de atributos femininos e são particularmente relevantes na área musical, a nível de naipe de instrumentos e na forma como são tocados, com evidente resistência a serem corrigidos.

Recentemente na romaria da Sra Agonia, em Viana do Castelo, terra muito ciosa das suas tradições e preservação das mesmas, vi um grupo, supostamente autentico, deliciar o público com uma versão “folclórica” do “Havemos de ir a Viana”, popularizado por Amália Rodrigues. Está bem que o povo gosta e adotou a música, independentemente da sua origem. Está bem que quando um dia se revisitarem as músicas populares desta época estará lá certamente “os peitos da cabritinha”, mas, no mínimo, com outros trajes… espero.

Há uma fronteira entre o domínio criativo de inspiração popular e o trabalho autêntico de reconstituição de tradições. Essa fronteira pode ser atravessada, mas com sinalização clara e não nesta promiscuidade leviana. Trabalho cultural deve ser sério e não uma palhaçada que não merece o mínimo respeito. O povo merece mais.

19 julho 2016

Amin Maalouf

Descobri este escritor libanês por acaso há uns anos numa livraria de Argel, quando por lá vivia. Com ou sem acaso eram edições particulares e únicas: havia páginas fora do sítio e até algumas em branco. Os franceses reclamam-lhe parcialmente a nacionalidade, mas a tinta dele é do levante mediterrânico, o Mashrek, sem margem para dúvidas.

O título mais apelativo para os curiosos será provavelmente “As cruzadas vistas pelos árabes”, mas foi a viagem pela Pérsia antiga e recente da “Samarcanda” que me revelou o encanto da sua escrita.

É um escritor de viagens humanas na história. Os seus protagonistas atravessam e testemunham grandes acontecimentos da história, mas sempre com uma dimensão individual intelectual e emocional significativa. Assistimos ao desenrolar de choques culturais e religiosos, tanto à grande escala como no íntimo de cada um.

Pode ser no dobrar do século XV e início XVI, em “O Leão Africano”, onde um muçulmano vai de Granada a Roma, passando por Fez e Cairo; ou no século XVII, com “O Périplo de Baldassare”, do qual tive recentemente o prazer de virar a última página, onde um cristão do Oriente vai do Líbano a Génova, passando por Istambul, Izmir, Lisboa e Londres.

As religiões e as culturas cruzam-se, desafiam-se e dialogam. Não digo que isto seja especialmente necessário agora mais do que nunca, mas seguramente agora e sempre. Este nosso Mediterrâneo, entre o levante (Mashrek) e o poente (Magreb), pode estar a viver muitas desgraças, mas a pujança cultural do que nasceu nas suas margens não morre.

08 maio 2016

Uma novidade


No (excelente) programa “Visita Guiada” que foi para o ar na RTP2 na passada semana, o tema foi o barroco da igreja da Misericórdia de Viana do Castelo. No final do programa foi explorada a eventual relação entre aquele barroco específico Vianense os trajes tradicionais da região.

As fotos foram minhas, escolhidas da página do Grupo Etnográfico de Areosa. Um momento alto da minha atividade fotográfica e penso que dificilmente superável!

06 junho 2014

Nem tudo se compra

Anunciada em simultâneo com a atribuição do de 2018 à Rússia, para todos ficarem contentes, a escolha do Qatar para o mundial de Futebol de 2022 começou logo por ser atípica. A seguir, por acaso, descobriu-se que jogos no deserto em pleno verão não devem ser muito confortáveis. Para o anfitrião, este evento é uma oportunidade para ganhar (ainda) mais visibilidade internacional e infra-estruturar o país com visto a torna-lo um destino turístico importante e viabilizar o pós petróleo/gaz.

Mas, como aquela que veste um vestido caríssimo e sofisticado e depois arruína o conjunto com um acessório foleiro, o brilho começou a desbotar com a revelação das condições inumanas e quase esclavagistas dos trabalhadores utilizados na construção. Por um lado até pode ser bom, a visibilidade pode forçar alguma evolução.

O desconforto foi aumentando e até o inefável Sr Blatter da FIFA já assume esta escolha ter sido um erro. O nosso caro M Plattini da Uefa continua a achar bem. Assume ter votado no Qatar por “ O Golfo ser um belo local para organizar o campeonato e isso valorizará o desenvolvimento do futebol”. Gostava de ter a oportunidade de lhe poder pedir para desenvolver e concretizar um pouco mais as suas razões. Assegura que nada teve a ver com um jantar para o qual foi convidado pelo Presidente francês da altura e onde, por mero acaso, também estariam presentes uns altos dignatários qataris que muitos negócios cozinhavam ali. No contexto, e como exemplo, quem a seguir comprou e investiu fortemente no clube da capital francesa? O Qatar.

Recentemente há um novo desenvolvimento. Os ingleses, talvez stressados por não terem a certeza se poderão ter lá cerveja ou apenas Coca-Cola, atacam. O jornal “Sunday Times” publica uma série de provas de que a escolha do Qatar foi escandalosamente comprada e, sendo assim, deverá ser anulada. Provavelmente todos estes processos têm sempre associados algumas simpatias e prendinhas, mas parece que desta vez foi forte e feio. Se a anulação se concretizar será um enorme revés para o Qatar e para a sua estratégia.

No entanto, quanto ao potencial atractivo turístico, eu não tenha a mínima dúvida em preferir o vizinho do outro lado do Golfo, a Pérsia (Irão). Mesmo sem hotéis 10 estrelas e infra-estruturas faraminosas, será sempre mais interessante, simplesmente pela sua cultura, que, no fim, é sempre o fundamental. E não se compra cash. Cria-se com tempo e outros ingredientes, inteligentes.

02 maio 2014

Eu não quero os Miró

Não entendo tanto assanho e agitação contra a saída do país da colecção Miró, ex-BPN. Em primeiro lugar é de realçar que a sua compra não foi feita com fundos próprios de alguém. Foi mais uma parcela do saque aos dinheiros públicos que tanto está a custar limpar. Por isso, há alguma justiça em os vender e reembolsar o contribuinte que não foi tido nem achado nem representado na transacção inicial. Depois, qual o significado de ter uma colecção do pintor catalão em Portugal? Algum, mas não muito…

E se o produto dessa venda fosse aplicado a restaurar, conservar e promover património genuinamente português em risco? Culturalmente será muito mais relevante e prioritário ver a nossa herança cultural salvaguardada do que ter aqueles quadros algures numas salas em Lisboa.

07 junho 2012

Serralves esteve em festa

Festa é festa e Serralves é cultura, donde que festa cultural é aquela coisa que atrai muita gente, inclusive aquela gente que não gosta  de circos. Na comunicação social, o que vi foi o seguinte: um macaquinho a andar de triciclo, as crianças gostavam, mas um circo a sério tem muito melhor, e uma espécie de super-heróis tristes e cansados assim como a mostrar que os super-heróis não são necessariamente assim tão super. Posso estar a fazer um julgamento faccioso, não fui lá, comento pelo que vi na comunicação social, mas apetece-me fazê-lo, mesmo com uma semana de atraso. Super-heróis há, masculinos e femininos, mesmo sem bigode e tenho alguma dificuldade em acompanhar esta reflexão do suíço famoso que nos trouxe os super-homens azuis cansados. De realçar que um/a verdadeiro/a “super” não se mede pelo tamanho dos bíceps, é por outras coisas…. E quanto ao resto teria sido melhor um circo, mesmo circo. Tem maior dimensão cultural; pode não ser é aquela que os fans de Serralves aceitam.

22 janeiro 2007

Âncoras de identidade (II)

Podem as roupas expostas nas montras das lojas serem iguais por todo o lado, assim como o prato de comida rápida e os filmes em cartaz. No entanto, cada cultura terá sempre as sua âncoras de identidade específicas, porque se as não tiver apaga-se. E uma boa parte da atitude colectiva depende da natureza dessas âncoras.

Vejamos. É fácil entender que a Bélgica seja complexada. Que âncoras pode ter um país que foi criado ad-hoc por terceiros para servir de terra de ninguém nos conflitos bélicos frequentes da altura e com duas comunidades tão homogéneas como uma mistura de água e azeite?

Curioso é a França ancorar-se tanto no famoso trio da “liberdade, igualdade e fraternidade” e lembrarmo-nos que a prática da revolução, raiz dessa referência, esteve nos antípodas desses mesmos princípios. Ainda, em situações de crise, como a ocupação alemã ou a guerra da Argélia, o seu comportamento no terreno tende a afastar-se muitíssimo da grandeza dos discursos. Decididamente, são mesmo bons é em marketing.

Um jovem país/regime terá tendência a focalizar-se no heroísmo do processo de independência/revolução contra os malefícios do colonizador/opressor. Esquece que ao ficar cristalizado nesse momento está a adiar o futuro porque essa é uma âncora que se desvaloriza e esfuma com o tempo. Não se pode passar toda a vida à sombra de uma batalha ou de uma revolução!

Quanto a Portugal, a primeira âncora que adoptei foram os Descobrimentos. Quem não tem prazer em dizer que um dia o mundo foi cortado em dois, nós ficámos com uma das metades e, ainda por cima, escondendo informação aos espanhóis para nos apropriarmos do Brasil? Numa fase posterior achei que essa referência tinha o prazo de validade ultrapassado e desvalorizei-a.

(continua...)

03 setembro 2006

Ainda as línguas e os “bês”

Parece lógico que as línguas evoluam. E dentro do universo de cada língua não é claro que essa evolução seja completamente síncrona. Por exemplo: se duas comunidades falarem hoje português igualzinho e deixarem de ter contacto entre elas, só por coincidência é que dentro de uma geração falarão ainda exactamente a mesma língua.

Parece lógico que as divergências nessa evolução serão tanto maiores quanto menor seja o nível de comunicação dentro da comunidade da língua. Parece lógico que uma nação fechada tenha a sua língua específica. Uma variante germanófona no Luxemburgo será assumida como marca identificadora. Se ocorresse numa zona do país Alemanha, seria diminuída face à norma oficial.

Parece claro que vivemos numa era em que o “nível de comunicação” é alto. Por isso, as divergência deveriam ser reduzidas. No entanto, nunca como agora, essas “divergências” foram valorizadas… Porquê? Por se entender que estão em risco? Que daqui para a frente não haverá mais espaço para divergências??? Será porque culturalmente estamos a ficar normalizados?

De todas as formas, parece importante distinguir o caso do flamengo germanófilo, radicalmente diferente do francês latino, do valenciano marginalmente diferente do catalão…

E, nesta confusão… onde ficam os nossos “bês pelos vês” ???