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17 agosto 2025

Atualidades de há 80 anos


Verão de 1944 e tempos seguintes. Depois de uma humilhante derrota e ocupação de quatro anos, França busca um rumo e uma nova normalidade. Os tempos imediatamente após os armistícios nem sempre são tranquilos. Há ajustes de contas e várias fações que se precipitam para o “vazio”, procurando tirar partido da transição para ganharem predominância e se imporem.

Este livro compila um conjunto de editoriais e de respostas públicas de Albert Camus. Clarividente, humano, objetivo, preciso e elegante, ele defende que deve haver justiça, mas resistindo a cair no ódio; que é preciso mudanças, mas não com uma nova guerra e que totalitarismos e campos de concentração são a condenar veemente, independentemente da cor e da bandeira dos mesmos. Convém recordar que na altura uma boa parte da “intelligentsia” ainda acredita na “necessidade” de lutar por todos os meios pelo “homem novo”.

Recortei algumas passagens que passo a seguir. Os que tiverem muito interesse, podem procurar o livro; os que tiverem pouco, que fiquem por aqui. Ninguém é obrigado a ler até ao fim, mas, são sempre atualidades.

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Não há vida sem diálogo. Mas o diálogo foi hoje, na maior parte do mundo, substituído pela polémica. O século XX é o século da polémica e do insulto. Eles ocupam, entre as nações e os indivíduos, e mesmo ao nível das disciplinas outrora desinteressadas, o lugar que tradicionalmente cabia ao diálogo refletido. Dia e noite, milhares de vozes, empenhadas, cada uma por seu lado, num tumultuoso monólogo,

Vivemos no terror, porque a persuasão já não é possível, porque homem se entregou totalmente à História e já não é capaz de se virar para a outra parte de si, tão verdadeira como a parte histórica, que pressente na beleza do mundo e no rosto dos outros; porque vivemos no mundo da abstração, no mundo dos gabinetes e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem cambiantes. Vivemos asfixiados no meio de pessoas que creem ter absoluta razão, seja nas máquinas, seja nas ideias que têm. E para todos os que não podem viver privados de diálogo e de amizade humana, um tal silêncio é o fim do mundo.

Sou pela pluralidade das posições.  Será que se pode fazer o partido dos que não têm a certeza de ter razão? Seria o meu. De qualquer modo, não insulto os que não estão comigo. É a minha única originalidade.

 E não se trata aqui de defender um sentimentalismo ridículo que englobasse todas as raças na mesma terna confusão. Os homens são todos diferentes, é verdade, e eu sei das profundas tradições que me separam de um africano ou de um muçulmano. Mas sei também o que nos une, sei que há, em cada um deles, algo que não posso desdenhar sem me destruir mim mesmo. É por isso que é preciso dizer claramente que tais sintomas, espetaculares o não, de racismo revelam o que há de mais abjeto e de mais insensato no coração do homem

Nos anos vindouros, através dos cinco continentes, irá prosseguir uma luta interminável entre a violência e a prédica. É evidente que a primeira tem mil vezes mais possibilidades de vencer do que a segunda. Mas eu sempre pensei que se o homem que tem esperança na condição humana é um louco, o que desespera dos factos é um covarde. E. doravante, a única honra está em sustentar teimosamente esta formidável aposta que irá decidir se as palavras são ou não são, afinal, mais fortes do que as balas.

Se tivesse tempo, diria também que esses homens deveriam tentar preservar na sua vida pessoal aquela parcela de alegria que não pertence à história. Querem fazer-nos crer que o mundo de hoje tem necessidade de homens totalmente identificados com a sua doutrina e almejando fins definitivos, numa submissão total às próprias convicções. Acho que, no estado em que se encontra o mundo, esse género de homens fará mais mal do que bem. Mas admitindo, o que não creio, que eles acabem por conseguir fazer triunfar o bem até ao final dos tempos, parece-me a mim necessário haver outro género de homens interessados em preservar alguns leves cambiantes, o estilo de vida, a possível felicidade, o amor e, enfim, o difícil equilíbrio, de que os filhos desses homens também irão afinal necessitar, mesmo que a sociedade perfeita seja já uma realidade

Sabemos que a nossa sociedade assenta na mentira. Mas a tragédia da nossa geração foi ter visto, sob as falsas cores da esperança, uma nova mentira sobrepor-se à antiga. Nada, pelo menos, nos obriga a chamar salvadores aos tiranos e a justificar, com a salvação do homem, o assassínio da criança. E assim, recusamo-nos a crer que a justiça porventura exija, mesmo provisoriamente, a supressão da liberdade. A dar-se-lhes ouvidos, sempre as tiranias são provisórias. Explicam-nos que há uma grande diferença entre a tirania reacionária e a tirania progressista. Haveria assim campos de concentração que vão no sentido da história e um sistema de trabalho forçado que pressupõe a esperança. Admitindo que tal fosse verdade, podíamos pelo menos interrogar-nos sobre a duração dessa esperança. Se a tirania, embora progressista, durar mais de uma geração, isso significará, para milhões de homens, uma vida de escravidão, e nada mais. Quando o provisório abarca a vida inteira dum homem, torna-se, para esse homem, definitivo.

 

Quando a morte se torna negócio de estatísticas e de administração é que de facto as coisas do mundo não vão lá muito bem. Mas se a morte se torna abstrata é porque a vida também o é. E a vida de cada um mais não será do que uma abstração, a partir do momento em que alguém se lembre de a submeter a uma ideologia. A desgraça é que nós estamos no tempo das ideologias e das ideologias totalitárias, isto é, suficientemente seguras de si, de sua razão imbecil ou da sua tacanha verdade, para só considerarem a salvação do mundo debaixo do seu próprio domínio. E querer dominar alguém ou alguma coisa é desejar a esterilidade, o silêncio ou a morte dessa mesma coisa ou pessoa.

Tenho horror à violência confortável. Tenho horror aqueles cujas palavras vão mais longe do que os actos. E aí que me afasto de alguns dos nossos grandes espíritos, cujos apelos ao crime deixarei de desprezar, quando forem eles a empunhar as armas da execução.

O longo diálogo dos homens acaba de se interromper. E não há dúvida de que um homem que não se pode persuadir é um homem que mete medo. E é assim que, a par das pessoas que não falavam por considerá-lo inútil, ia alastrando e alastra ainda uma imensa conspiração de silêncio, aceite pelos que tremem e que encontram bons motivos para a si próprios ocultarem esse temor, e criado pelos que nele têm interesse. «Não se deve falar da depuração dos artistas na Rússia, porque isso aproveita à reação.» «Não se deve falar no apoio dos Anglo-saxões a Franco, porque isso só aproveita ao comunismo.» Bem dizia eu que o medo é uma técnica.

10 fevereiro 2022

O bem sem o mal?


Não é a primeira vez que o senhor acima representado é por aqui citado. Admiro a sua produção literária, o seu humanismo (nem sempre de moda) e o seu discernimento.

Um destes estes dias passou pelas minhas mãos este livro, coleção de discursos e palestras por ele realizadas. Uma boa parte tem lugar nos anos seguintes ao fim da II Guerra Mundial e há um aspeto nessa ressaca da barbaridade que me interrogou.

Camus questiona o mundo em que vive, nomeadamente a sua desumanização. Não vou aqui transcrever o detalhe, mas há um sentimento de perda de referências e de dúvidas sobre o caminho e os valores do novo mundo. À partida, com a chegada da tão ansiada paz, depois de tantas atrocidades militares, do holocausto e do drama da ocupação e da resistência, em que o próprio se tinha envolvido ativamente, deveria ser uma altura mesmo de paz, de reencontro com a serenidade e a normalidade, num mundo em que não se massacram pessoas na mais absoluta banalização.

Na altura da guerra e da ocupação, havia o mal e havia a luta pela paz e pela liberdade, o bem. Este era um objetivo duro, mas claro e simples. Desaparecendo o mal, ficou o bem desorientado?

O bem só se consegue definir e estabilizar face a um mal? A mensagem de um Deus sem o contraponto de um Diabo, tem dificuldade em se afirmar e ser entendida, como a tese que sem a antítese não se aguenta? Não sei… talvez que se Camus pudesse ouvir isto diria, este tipo não entendeu nada, talvez… mas tentei!   

 

08 fevereiro 2018

Memórias do muro


Esta semana cumpriu-se uma data curiosa relativamente ao muro de Berlim. Igualou-se o tempo que esteve construído com o tempo decorrido após a sua demolição. Quem diria…

Olhando hoje para essa memória, apetece-me evocar duas coisas. Em primeiro lugar a sua natureza direcional. O seu objetivo não era evitar a entrada de pessoas (ou de latas de coca cola). Era evitar as saídas. Em segundo lugar, a indiscutível melhoria das condições de vida, pelo menos, para não complicar, na ex Alemanha de Leste, decentemente governada. É possível hoje, racionalmente, defender a bondade desses regimes que, conforme disse Camus, tinham tanto de socialista como a Inquisição de cristã? Racionalmente, obviamente que não.

Há, no entanto, e haverá, nostálgicos desses tempos, enquadrados em dois tipos. Uns são os religiosos. Aqueles que acreditam dogmaticamente num modelo, apesar de após cem anos e ensaios em vários continentes e culturas, ter sido sistematicamente incapaz de proporcionar bem-estar material e intelectual de forma sustentável aos seus povos. Face as estas evidências, continuar a crer, é coisa do domínio religioso.

Outros são os que valorizam um certo paternalismo tranquilo do regime. Não é assim tão raro nos pós-ditaduras. Também por cá temos nostálgicos dos tempos respeitosos da “outra senhora”. Como se face a ter um caminho livre a descobrir, a arriscar, haja quem prefira ser levado pela mão. Pensa-se menos…

E, por favor, não me evoquem a pretensa superioridade moral, da solidariedade, da defesa dos desfavorecidos e etc. Na prática, a prática passou por uma oligarquia de privilegiados, muito pouco escrutinados, que, apesar das argumentações bonitas, foram incapazes de proporcionar vidas decentes aos seus povos.

Enquanto não lermos seriamente o passado, corremos sempre o risco de um futuro sombrio.


Foto de um Trabant no Memento Park, em Budapeste, onde arrumaram estátuas e outros monumentos "socialistas", anteriormente distribuídos pela cidade.

03 fevereiro 2018

Eles também escrevem

Entre as pessoas que fazem os livros que efetivamente lemos, os tradutores não costumam ter a visibilidade e o reconhecimento merecido. A tarefa não é tão simples como se pode imaginar à partida, sendo a sua influencia sobre a qualidade do trabalho final enorme.

Que o diga eu, escala a respeitar, quando me entretenho a traduzir umas linhas do Camus ou do Brel. Há sempre ali uma palavra ou outra a dar luta e a música de cada a frase que precisa de funcionar. Tratando-se de um romance completo, a precisar de “música” no mesmo tom do princípio ao fim, é obra!

Reli há pouco um romance traduzido de um autor que ultimamente ataco pelo original... e que deceção. Uma coisa penosa, de tão mau soar. Uma tradução destrutiva. Mais recentemente reli o Dostoivesky aqui ilustrado, traduzido pelos Guerra. O texto conquista-nos desde a primeira linha. A trabalho deles é notável.

Como um executante musical que interpreta uma peça criada e escrita por outro, o tradutor interpreta e de certa forma personaliza uma obra. Deveriam ter mais destaque e reconhecimento.

03 janeiro 2018

Prometo tentar


Um destes dias, duas pessoas que muito prezo, faziam-me uma observação de que os meus textos eram demasiado sérios e muito sistematicamente críticos. Eventualmente, até concordariam na generalidade com o conteúdo, mas a coisa resultava pesada.

Lá tive que pensar. Pronto, é uma mania. Será que tendo a ser predominantemente negativo, sempre e só a criticar e a ver e o que está mal, incapaz de reconhecer o que está bem? Bom… acho que tenho alguma facilidade em falar positivamente sobre artistas e criadores em geral. Assim, “tipo” Albert Camus, Jacques Brel e aproximados…

O problema… o problema é que a nossa vida, o nosso futuro e o dos nossos depende de outra natureza de personagens. Aqueles que nos veem buscar dinheiro ao bolso e que decidem sobre uma série de coisas que muito contribui para a felicidade e infelicidade do mundo. Eu nem sou muito exigente com esses. Apenas peço que sejam sérios. Sérios materialmente, no sentido de não se apropriarem daquilo a que não têm direito, e sérios intelectualmente, de não prometerem a Lua para amanhã e a Via Láctea para a semana.

Fazer de conta que não é importante, ignorar, deixar andar, não … não é sério. Estão demasiadas coisas em jogo. Pegar-lhe pela ironia, pelo sarcasmo, para a coisa ficar mais leve, é perigoso. Perigoso, porque pode resvalar para um registo insolente que fira, não os diretamente visados, mas pessoas amigas que neles acreditam e que me merecem respeito. Daí procurar manter objetividade e tentar não fugir muito do cada coisa é o que é, cada palavra no seu sítio, sem floreados nem muitas graçolas.

Pronto… de qualquer forma prometo tentar ver mais positivo e o meu visitante habitual, de pelo preto (ainda se pode usar este adjetivo?), é testemunha!

03 dezembro 2017

Entre ser e não parecer


Vai apenas a citação, em tradução livre. Com uma última frase, que é daquelas enormes, brutais, à Camus, de reverenciar e gravar na pedra.

A exigência de felicidade e a sua busca paciente. Não é preciso exilar uma melancolia, mas sim destruir em nós esse gosto do difícil e do fatal. Ser feliz com os seus amigos, de acordo com o mundo, e ganhar a felicidade seguindo uma linha que, no entanto, leva à morte.
“Tremereis face à morte.”
“Sim, mas nada terei falhado do que é a minha única missão e que é viver”. Não se resignar ao convencionado e às horas de expediente. Nunca renunciar – exigir sempre mais. Mas ser lúcido, mesmo durante as horas de expediente. Aspirar à nudez onde nos rejeita o mundo, brevemente estaremos sós face a ele. Mas sobretudo, para ser, não procurar parecer.


Albert Camus, em Carnets I

(e onde quer que este enormíssimo mestre esteja, feliz, morto e realizado, que me desculpe, se li e traduzi mal.)


foto googleada sem referência à origem

28 agosto 2017

O limite leste da Europa?


Dizem que Portugal é o limite ocidental da Europa (continental), no cabo da Roca até se recebe um certificado, e há quem defenda uma Europa do Atlântico aos Urais. Segundo os antigos, o meridiano de Alexandria dividiria o nosso continente da Ásia e também há quem ache que a Europa, mesmo Europa, só começa para lá dos Pirinéus.

Por estes dias, fiquei com a ideia de que a Hungria é o limite oriental de uma certa Europa. Em tempos associada ao Reino do Leste (Oesterreich = Áustria), a Hungria foi o leste do leste. Vindos dos Urais, os húngaros aqui instalados foram durante algum tempo um tampão às investidas contra o ocidente (ainda hoje…?). Foi também terra de fronteira, não entre o cristão e o mouro, mas entre o cristão e o turco.

A monumentalidade de Budapeste transmite sensações diversas. Por um lado, parece uma subsidiária da imperial Viena, algo feito num dia ou numa noite, muito demasiado neo qualquer coisa e com pouca patine do tempo para os parâmetros europeus. Por outro lado, há no ar algo de único que desafia e atrai… e aquele idioma...

Em geral, os húngaros não parecem imediatamente simpáticos nem acolhedores. Inolvidável a zanga e a agressividade gestual de um funcionário a quem interrompemos o saborear de umas batatas fritas para comprar um bilhete de entrada num monumento.

Na estação de comboios de Budapeste há comboios catitas a saírem para Viena e Munique e também decrépitos para Belgrado. Há o metro “Millenium”, o primeiro construído na Europa continental, ainda no século XIX, e onde descendo um simples lanço de escadas a partir do passeio, já se está no caís; há os novos modernos e janotas e os do tempo soviéticos, que ameaçam qualquer falange que se ouse interpor entre as portas a fechar.

Entre a Áustria e a Hungria, historicamente ligadas, passou a cortina de ferro. Também foi aqui que abriu a primeira brecha da mesma em agosto de 1989. Também foi na Hungria, em 1956, que ocorreu um dos primeiros desafios públicos à dominação soviética e o sair para a rua e morrer, exigindo liberdade. Albert Camus fez uma vibrante e sentida homenagem a esses heróis, que pode ser vista integralmente aqui e cito uma passagem.

“Não sou daqueles que pensam poder haver um conformar, mesmo resignado, mesmo provisório com um regime de terror que tem tanto direito de se chamar socialista como os verdugos da inquisição tinham em se chamarem cristãos.” (politicamente incorreto e ignorado pelos seus companheiros de estrada, que em 1957 ainda acreditavam em amanhãs cantantes).

Há uma certa Europa que termina aqui na Hungria e há qualquer coisa de mágico no estar num limite e numa encruzilhada.

25 julho 2017

Tristes tempos


Infelizmente, não me recordo de termos vivido tempos sérios, no que diz respeito à prática e ao discurso de quem nos governa. Correndo os doze anos destas minhas publicações, encontrar-se-ão muito mais pontos de crítica ao governo em funções em cada momento, do que aplausos. Estes tempos atuais, no entanto, parecem-me diferentes, para pior e o faciosismo acéfalo alastrou. Se quiserem parar de ler, podem fazê-lo, se quiserem contestar o meu raciocínio e contrapor algo, estão à vontade. Tudo exceto chamarem-me de falso, dissimulado ou desonesto. Aí, teremos o caldo mesmo entornado!

Para muitos, concordar ou discordar, dar importância ou ignorar um problema depende apenas da cor do mesmo. À falta de argumentos ou à preguiça para os procurar, cola-se uma etiqueta e “está tudo dito”. Ou é coisa da direita estúpida, ou da esquerda arrogante. O PS atual tem muita responsabilidade nisto. Se por um lado excita o pessoal com a bandeira da “esquerda”, do “outro caminho”, que merece ser bem escrutinado para saber onde vamos parar, e assim enfraquece potenciais “Podemos” e “Syrizas”, por outro lado, é de uma irresponsabilidade enorme.

Os tempos de má memória que vivemos entre 2011 e 2015 foram consequência de uma consistente má governação, ao longo de muitos anos. Por acaso, até era este PS quem estava ao leme quando afundamos. No período da troika, o fundamental da governação teria sido igual, qualquer que fosse o partido no poder. A mensagem atual de que a troika foi uma opção dos “pafiosos” e que com o PS teria sido diferente, é perigosamente muito desonesta.

Acreditei que o susto e o choque sofridos pudessem ter tido um efeito profilático e nos tornássemos mais sérios e mais exigentes. Infelizmente, não. Mente-se, insulta-se e reescreve-se a história mais do que nunca.

“A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.” Albert Camus.

Receio estarmos efetivamente a caminho de uma espécie de tirania. Como quem nos conduz são os donos da única fábrica habilitada a produzir bandeiras dizendo “liberdade”, o caminho só pode estar certo e nem se admitem discussões. As fábricas dos carimbos grosseiros funcionam a pleno regime. A nossa memória e inteligência são insultadas, com sorrisinhos sarcásticos que muito, muito, muito me incomodam.


Foto googleada, já não sei donde...

10 junho 2017

10 de Junho, 70 anos


Dia de Portugal, mas há mais mundo para lá de Portugal, como qualquer verdadeiro português saberá. Este dia, este ano, marca os 70 anos do lançamento do romance “A Peste” de Albert Camus. O meu exemplar na imagem deve estar mais ou menos a meio do caminho.

As grandes estórias, bem escritas e bem contadas, são intemporais. As grandezas e as misérias da condição humana não mudam e saber lê-las não tem tempos nem modas. No entanto, há alturas em que certas coisas nos parecem mais atuais e reler este livro, nesta fase da Europa e do mundo, assusta. Sentimos as ratazanas a crescerem e, ironicamente, há quem pense que o problema fundamental está na cor das mesmas. É necessário travar as ratazanas amarelas, nem que para isso se tolerem “um pouco” ou se chamem mesmo as “verdes”, as “boas”. Não, certamente que não deverá ser assim. Mais grave do que ignorar o perigo da “peste” é proporcionar ao seu crescimento, eventualmente com todas as boas intenções. Não, não é com piadas parvas nem com excitações inflamadas que a febre desce. É com humanidade…

Citando o mestre, em jeito de aviso à navegação, e sem mais palavras:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”

19 maio 2017

Impedir que o mundo se desfaça



"Cada geração, sem dúvida, acredita estar destinada a mudar o mundo. A minha, no entanto, sabe que não o fará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça.


Esta afirmação, podendo parecer muito premente e atual, quando tantas ameaças, de várias origens e naturezas, pairam sobre o nosso mundo, tem 60 anos. Foi proferida por Albert Camus em 1957, no discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura.

Os problemas passados parecem-nos frequentemente menores do que os contemporâneos, mas é de recordar que naquela data ainda pairava no ar o cheiro das cinzas da II Guerra Mundial e estávamos em plena Guerra Fria, que, a aquecer, poderia provocar estragos irreparáveis.

O mundo não se desfez e se, até hoje, a Europa não voltou a cair na barbárie, isso foi em muito devido à construção das Instituições Europeias, assim como, com todas as suas deficiências, a ONU contribuiu para o mundo ficar um bocadinho melhor.

Aqueles que hoje menosprezam a “Europa Construída” e pedem excitados a sua desconstrução, não viveram uma guerra. Também não deveria ser necessário tê-la vivido para sentir a necessidade permanente desta prioridade evocada por Camus.

13 julho 2016

Contra Mersault

Mersault é o protagonista de “O Estrangeiro” de Albert Camus, talvez a obra mais famosa de um dois maiores escritores de língua francesa do século XX e uma referência fundamental na literatura do existencialismo. O enredo desenrola-se na Argélia Francesa onde Mersault mata um árabe numa praia, sem razão e sem saber bem porquê, dentro do tom do “absurdo da existência”, característico daquela corrente filosófica e literária. Na história, Mersault é julgado e condenado. Do árabe, morto gratuitamente nada se sabe, nem sequer o seu nome. Para uns isto é uma forma de racismo, para outros, eu modestamente incluído, faz parte de uma certa perspetiva niilista da história.

Kamel Douad, escritor argelino, publicou recentemente um romance que teve algum sucesso: “Mersault – Contra inquérito”. O seu personagem é o irmão do árabe desaparecido da vida, dos registos e mesmo ausente do cemitério, por supostamente o cadáver se ter volatilizado. Viaja entre a denúncia da indiferença do colonizador e a desgraça e angústia da família indígena. A injustiça é ainda mais gritante porque o tipo que lhe matou o irmão, publicou um livro sobre o assunto e ficou famoso, numa fusão de autor (Camus) e Mersault (personagem). Nos calores dos dias da independência, o novo protagonista mata um francês, também por nada, mas o autor de agora tem o cuidado de lhe dar um nome completo (o próprio e o de família). O protagonista é preso brevemente, não pelo crime, mas apenas por não ter participado na luta independentista. A trama é relatada numa mesa de café, que cheira muito a outro grande romance de Camus, “A Queda”.

O livro incomodou-me um pouco por estar apoiado numa correspondência algo grosseira e nalguns aspetos forçada. Só não sei se Kamel Doaud é mesmo fino a ponto de o paralelo abusivo, ser propositadamente assim. No mínimo, o livro tem duas perspetivas de leitura. Num ponto de vista simples e direto, prima a solidariedade terceiro-mundista com o “outro” ignorado e menosprezado. Em alternativa, podemos ver friamente encenada e destacada uma ironia triste sobre a falta de objetividade e de rigor, e consequente amálgama de razões e suposições, que muitas vezes por ali se vive.

Da desgraça de um mal inicial, um crime gratuito e brutal, partimos para uma cobrança desajeitada, com uma argumentação baralhada e fantasiada, não menos brutal e completamente injustiçada. Este défice de discernimento, acaba por constituir uma desgraça maior do que aquela que pretendia corrigir. Será esta uma mensagem sub-reptícia de Kamel Daoud ou serei eu a fantasiar em excesso? Gostaria de saber como o júri que premiou o romance o leu, sendo certo que um bom livro é aquele que pode ser lido de várias formas.

30 março 2014

Contra o fim do Mundo


A minha participação na coluna do Centro Cultural do Alto Minho publicada na "A Aurora do Lima", Viana do Castelo, cujo convite agradeço.

08 abril 2013

Mal amados

Dentro da minha tradição de não referir efemérides exceptuado as excepções, descobri recentemente que este ano se cumprem 100 anos sobre o nascimento do grande Albert Camus, de quem já falei aqui várias vezes… E no artigo que li referiam o seu enquadramento com a sua terra natal, Argélia, e da forma como ele é pouco reconhecido pelos valores oficiais dos seus compatriotas. Esclarecido, ele tentou dar o seu contributo ao processo de independência mas afastou-se impotente face a um rumo que estava a ser seguido, segundo ele errado. Criticou o colonialismo e denunciou a pobreza em que vivia uma grande parte da população, mas a solução para ele não passaria por uma autonomia com exclusão dos europeus. Achava que se podia viver e partilhar o país sem o maniqueísmo em vigor e não lho perdoaram.

E daqui lembrei-me de uma outra grande figura humana, para a qual tanto quanto sei não está nenhuma efeméride em curso, e que também foi mal amado pelos seus: Jacques Brel. Na pequena Bélgica, o grande Brel achava que se podia ser flamengo de alma e coração exprimindo-se em língua francesa. Os pequenos flamenguitos não o entenderam e também não lhe perdoaram tamanha heresia.

Com um mundo de distância entre os dois, ou talvez não, dois mal-amados e pelas mesmas razões profundas: por não venderam a alma, por não alinharem em coros superficiais, por não aligeirarem o valor das convicções, por terem e manterem um espírito livre. Bem hajam!

04 janeiro 2010

O Homem não é relativo

No virar do ano com os indispensáveis balanços e previsões, dei conta de que hoje, 4 de Janeiro de 2010, se completam 50 anos da morte de Albert Camus, para mim um dos espíritos mais belos e brilhantes do século XX. De uma clarividência extraordinária e com uma experiência de vida riquíssima, acabou como um proscrito do meio existencialista francês cuja miopia o considerava demasiado humanista. O tempo, supremo filtro, vem provando que Camus é intemporal enquanto o “papa” Sartre fica como uma referência datada, sendo necessárias realmente muitas dioptrias para conseguir defender Staline e Mao sem reconhecer o que eles realmente representavam. Para Camus o mundo não se dividia em “gregos contra troianos” onde é necessário optar por um lado até às últimas consequências; para ele o mundo era composto por homens. Foi resistente à ocupação Nazi, denunciou o Gulag e criticou ambos os lados do processo de independência da Argélia. Assim é difícil manter "amigos".

Ao iniciar o 2010 e nos 50 anos do seu desaparecimento, recomendo revisitar o grande Camus, e deixo aqui um aperitivo, repetido já de outra entrada anterior:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”
Da colectânea de textos “Reflexões sobre o Terrorismo”

20 maio 2007

Meme quê??

Você sabe o que é um “meme”? Eu acho que não sei. A Nucha deixou-me encomenda e lá fui tentar entender o que era, mas não fiquei bem esclarecido. De qualquer forma, há um conjunto de citações que eu “arrasto” comigo e que me servem um pouco de alicerce. Estará bem?


Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância
E que continuamos sonhando, adultos num substracto de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros
Que é prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão


Fernando Pessoa


... uma obra de homem outra coisa não é
senão este longo caminhar
para tornar a achar, pelos desvios da arte,
as duas ou três imagens simples e grandes
para as quais o coração pela primeira vez se abriu.

Albert Camus


"Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta
ao pé de uma parede sem porta "

Fernando Pessoa

"Mas também aqui não pude odiar ninguém "

Fedor Dostoievsky


Tenho mais pena dos que sonham
o provável, o legitimo e o próximo,
do que dos que devaneiam sobre
o longínquo e o estranho.
Os que sonham grandemente, ou são doidos
ou acreditam no que sonham e são felizes.....
Mas o que sonha o possível
tem a possibilidade real da verdadeira desilusão

Fernando Pessoa


Não existe amanhã visto que se morre
Albert Camus

07 maio 2007

Simples e completo




Acho que a apreciação de uma obra de arte é fortemente influenciada pelo contexto pessoal em que é visitada. Se eu tivesse lido “O Estrangeiro” pela primeira vez hoje e não aos 16 anos, talvez ele representasse menos para mim. O primeiro livro que li há muitos anos de Steinbeck, “A um deus desconhecido”, não me soou com a mesma intensidade com que, mais tarde, os restantes me fascinaram. Até acho que, às tantas, um dia, quem sabe, ainda hei-de olhar para uma barra de ferro ferrugenta dobrada numa exposição de arte plástica moderna e achá-la ao mesmo nível estético da “Vénus de Milo” (?!).

Tudo isto a propósito do filme “Paris Texas” que revisitei recentemente, a partir de um DVD de saldo, no PC portátil, em cima dos joelhos. Acho que quando o vi pela primeira vez, com as condições todas, tinha gostado. Mas, agora, deslumbrou-me. Um história com tanto de simples como de completo, magistralmente contada e com uma fotografia que é um regalo para os olhos da primeira à última cena.
Uma obra prima!

11 fevereiro 2007

Filosofia e terrorismo

Durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962), o movimento de libertação FLN entendeu que provocar atentados e atingir civis nas cidades, por ter mais impacto e visibilidade, era muito mais eficaz de que afrontar militares algures numa frente obscura no interior do país. A França reagiu de forma pouca bonita usando de todos os meios incluindo tortura e execuções sumárias para travar o que entendiam ser um flagelo que “quase tudo” justificava. Esta situação foi próxima da actual no Iraque e consta que o Sr G. Bush anda a ler livros sobre o assunto. Infelizmente o epílogo da guerra na antiga colónia Francesa foi tudo menos pacífico e civilizado, apesar de um controlo militar muito mais efectivo do que o actual no Iraque.

Que pensar sobre o assunto? Duas grandes referências intelectuais da época, filosoficamente muito próximas, escreveram sobre o assunto de forma diversa:

Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.
Albert Camus in “Reflexões sobre o Terrorismo”

Nestes primeiros tempos de revolta, é necessário matar. Abater um Europeu é matar dois coelhos de uma só cajadada, suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido: ficam um homem morto e um homem livre. O sobrevivente, pela primeira vez, sente um solo nacional sob a planta dos seus pés.

Jean-Paul Sartre – Prefácio ao " Damnés de la Terre”.

Já sabia há muito que ia um mundo de diferença em termos de grandeza humana entre estes dois vultos. Estes dois extractos citados num livro que acabei de ler sobre o assunto em questão, “Les souffrances secretes des français d’Algérie” de Raphael Delpard, somente o confirmam.

Dá para entender e sorrir ironicamente ao recordar que Camus foi acusado pelos canónicos existencialistas de ser demasiado humanista.

Quanto à profunda leitura que Sartre faz do significado dos atentados, ele que nunca tendo sequer posto os pés na Argélia não correu o risco de cair aos pedaços sob uma bomba libertadora, fica-me a questão: se a bomba explodisse numa esplanada de Montparnasse entre duas baforadas do seu belo cachimbo, lhe amputasse as pernas e matasse alguns próximos, incluindo crianças e familiares, seria que manteria inalteradas estas suas “teorias teóricas”?

10 dezembro 2006

Pós-peregrinação



... uma obra de homem outra coisa não é senão este longo caminhar para tornar a achar, pelos desvios da arte, as duas ou três imagens simples e grandes para as quais o coração pela primeira vez se abriu”
Albert Camus

O post anterior, com o marco, é daqueles que marca mesmo. E que não aceita facilmente uma coisa qualquer a seguir. E, então, fui buscar uma das minhas citações preferidas do mestre e trouxe-a para Tipaza, para junto daquele trio clássico de raízes do que somos : civilização romana, oliveiras e Mediterrâneo.
O que me faz acrescentar:

“A miséria impediu-me de crer que tudo está bem debaixo do sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo"
Albert Camus

08 dezembro 2006

Peregrinação



“Compreendo aqui aquilo a que se chama glória. O direito de amar sem limites.”Albert Camus

Inscrito na lápide colocada no local adorado pelo grande mestre.

E com um agradecimento ao Mohamed, funcionário reformado, a quem eu interrompi a contemplação do Mediterrâneo para me guiar na imensidão das ruínas romanas de Tipaza até ao local onde ele próprio tinha visto o mestre e que, no fim, não aceitou mais do que um aperto de mão.

20 julho 2005

Filosofia de férias

“A Anarquia dos Valores – Será o relativismo fatal?” de Paul Valadier veio ter às minhas mãos estas férias. Pareceu-me que poderia ser interessante, apesar da minha visceral incapacidade de digerir textos filosóficos. Qualquer afirmação fora de contexto muda de valor. É possível, esgrimindo contextos, fazer uma afirmação razoável, ridícula, estúpida, divinal e por aí fora. Acho que é isso que os filósofos fazem e os vários “ismos” não são mais do que várias modas em que se muda a vítima que é virada do avesso no momento.

Consegui ler o livro enquanto ele revisitava Sócrates, Kant, Nietzsche, existencialistas e por aí fora. Quando a autor embalou para as suas conclusões, eu desembraiei. Fiquei a cinco páginas do fim. Foi mesmo morrer na praia.

Acho que muita gente ainda não ultrapassou o trauma pós-Galileu. Se não estamos no centro do mundo, estamos no centro de quê? Um dia, quando se aplicar o princípio da incerteza de Heisenberg a todo o conhecimento, tudo ficará mais calmo.

O meu filósofo preferido continua a ser Fernando Pessoa. Gosto muito mais das análises dos artistas do que das dos filósofos convencionais. Os artistas usam o pincel, os filósofos usam o bisturi. Vão lá desvendar uma mulher bonita com um bisturi, e depois digam que, afinal, nem ficou lá muito bonita...

Talvez por tudo isto, Sartre, o filósofo, esteja datado e Camus, o romancista, fique intemporal. A propósito de Camus, transcrevo um excerto de um muito interessante prefácio a uma reedição de “O Avesso e o Direito”, que nenhum filósofo poderia escrever:

“A miséria impediu-me de crer que tudo está bem debaixo do sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo”.