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10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…

16 abril 2018

Sem vencedores


Por muitos intervenientes que existam num conflito, o habitual é, mais tarde ou mais cedo, agruparem-se em dois blocos, que se defrontam até um deles vencer. Muitas vezes os alinhamentos são apenas de conveniência, podendo-se desfazer rapidamente logo a seguir ao fim da guerra e surgir uma nova confrontação entre antigos aliados. EUA e URSS durante e depois da II Guerra são um bom exemplo.

No caso da Síria, isso não está a acontecer, mesmo depois de 7 anos de guerra. É certo existirem duas linhas principais, motoras do conflito, que são o eixo vertical sunita, do Golfo à Turquia, contra o eixo horizontal xiita, do Irão ao Mediterrâneo. No entanto, o conjunto de intervenientes é tão diversificado que não se conseguem arrumar em dois blocos – ver exercício de identificar o (des)alinhamento atual na imagem acima. Por outro lado, uma vitória clara de uma potência regional, Golfo/Turquia ou Irão, seria dificilmente aceite pela outra parte.

Numa zona sensível como esta, os “big boys” nunca ficarão alheados, num jogo onde obviamente não há inocentes. Se numa primeira fase “toda a gente” era contra o Estado Islâmico, esse alinhamento inicial nunca passou por uma intervenção global e assumida no terreno. Provavelmente pela memória das desventuras iraquianas, das quais a situação atual acaba também por ser consequência, os EUA em especial mantiveram-se sempre a alguma distância. Esse vazio foi aproveitado pela Rússia, cuja intervenção musculada foi fundamental para o progresso do “regime”, enquanto a Turquia aproveita para ajustar contas com os curdos.

A ação desencadeada pelos EUA e aliados em 14/4 é uma bofetada contra um excesso do regime e um sinal amarelo à Rússia e ao Irão. Foi um aviso, pontual, não o início de uma operação de grande escala, visando derrubar o regime. Estando Trump muito mais próximo dos sunitas do que Obama, não é previsível que Macron alinhe em “cantigas” como o Sarkosy fez na Líbia, motivado pelo Qatar.

E, se não parece fácil vermos claros vencedores, irá esta guerra tornar-se crónica?

13 novembro 2017

Ele saberá o que faz?


“As sauditas autorizadas a conduzir” – “Não entendo como não o consegui ver!”, do jornal Argelino “El Watan”. Esta caricatura às incoerências de algumas modernizações pode servir de alegoria para as mudanças promovidas pelo princípio herdeiro, dito MBS, na Arábia Saudita. Ele está a mudar coisas, mas saberá o que faz? O príncipe quer mandar, no país e na região. No país, prendendo, recentemente invocando luta contra a corrupção, opositores reais ou potenciais e contestatários. Pretende e decreta que o ambiente de negócios não se altera com estas arbitrariedades. O futuro o dirá.

Na região, não há forma de o acalmar. Há dois anos e meio que o Iémen é pilhado por uma guerra brutal e sem mais consequência ou objetivo do que destruir. Não há nada previsto ou em curso para (r)estruturar o dia seguinte. São deixadas zonas destruídas sem lei, ótimos viveiros e escola para formação e desenvolvimento de grupos terroristas. Provavelmente não haverá país mais martirizado neste momento com fome, carências de todo o tipo e a sofrer uma grave epidemia de cólera. Supostamente, o novo poder é apoiado pelo Irão, coisa inaceitável para os sauditas. Depois de tanto bombardeamento indiscriminado, receberam um míssil de volta, coisa considerada inaceitável?!

O Qatar não é flor que se cheire, mas o bloqueio inventado não faz sentido nenhum, que não seja uma birra de quem (quer) manda(r) aqui sou eu.

Na Síria, a batalha regional entre o eixo vertical sunita sul-norte e o eixo horizontal xiita este-oeste parece estar a resolver-se, com a ajuda da Rússia, para o lado xiita. Vamos então tentar quebrá-lo mais abaixo, pelo Líbano. Um fantástico país, com uma história riquíssima, onde se terá desenvolvido provavelmente a mais brilhante civilização do Levante Mediterrâneo, de gente educada e culta, que há uns tempos era considerado a Suíça do Oriente… As suas desgraças começaram quando os palestinianos foram expulsos da Jordânia por mau comportamento. A partir daí, entre palestinianos, israelitas e pró-iranianos, nunca mais teve sossego.

O seu primeiro-ministro, aparentemente de consensos, foi a Riad, demitiu-se de lá e nem regressou ao seu país. Especula-se que terá sido a isso forçado pelos sauditas e que se encontra retido, contra a sua vontade. Entretanto, estes sobem o tom e as ameaças contra os pró-iranianos do Líbano.

Em conclusão, MBS está a pôr a região toda a ferro e fogo e adivinhem quem lhe dá palmadinhas nas costas de pleno apoio? O Mister Trump! Neste momento, o não eclodir de mais violência na religião depende de … Israel.

30 outubro 2017

Revolucionários ou revoltados, mas profissionais


A cara na capa deste livro é de Ilich Ramírez Sánchez, venezuelano apesar do primeiro nome. Ficou mais conhecido por Carlos, o Chacal, e foi o terror público número um, principalmente em França, nas décadas de 70 e de 80. Sim, nessa altura havia terrorismo, com bombas a explodir em locais públicos e, muito na moda da época, desvios de aviões e outros sequestros. Esta história ajuda a compreender o que por cá acontece e tem acontecido. Aqui vão alguns sublinhados meus, após leitura.

Não era proletário nem operário. Pelo contrário, a larga maioria dos terroristas ocidentais da altura eram da alta burguesia. Chega até a referir um caso, por excecional, de uma camarada originária de um nível social mais baixo.

Queria fazer a revolução. Na Venezuela, não deu jeito, em França também não foi possível, em Moscovo já tinha sido e… onde sobrou uma causa para lutar: Palestina. Se não houvesse Palestina, quais seriam as causas a abraçar pelos Chacais? Algum paralelismo com as mais recentes partidas para a Síria?

Começa por aspirar a ser revolucionário e depois passa a mercenário (revolucionário profissional), ou seja, organiza atentados e sequestros para quem lhe paga. No entanto, o auge da sua atividade ocorre quando França prende Magdalena Kopp, sua companheira de armas e ele usa o terrorismo… para exigir a libertação da amada.

Uma referência ao pacto Moro. Itália fechava os olhos ao transito e atividades dos terroristas (pró)palestianos pelo seu território, com a condição de estes irem fazer os estragos para outro lado. Edificante e muito próprio de um regime democrata-cristão. A coisa não acabou bem para Aldo Moro, raptado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas, prova de que isto de tolerar terroristas pode não se saudável.

Dentro do Médio Oriente, estendido até à Argélia, que lhe estende o tapete vermelho durante o sequestro dos ministros da Opep, vemos uma enorme volatilidade nos acordos, desacordos, pactos e traições entre os vários líderes. Não ajuda muito a suposta base comum “árabe”, nem parece ser determinante existir um inimigo claro e comum, Israel. Fico a pensar que, mesmo sem Israel, dificilmente se veria (e se vê) paz e cooperação por aqueles lados, dada a falta de confiança mútua, ausência de compromissos estáveis e outras carências…

07 abril 2017

Assad é bruto, mas…


Assad usou armas químicas contra civis, ultrapassando uma linha vermelha e os EUA decidiram que a coisa não podia ficar impune.

Tão simples assim? Consciente de que o que sei será bastante menos do que o que não sei, não consigo deixar de colocar algumas questões. Assad é bruto, mas não estúpido. Qual a vantagem militar deste suposto ataque? Justificaria o risco, confirmado agora, de escalar a intervenção dos EUA, desequilibrando as forças em seu desfavor? Acharia ele que esta provocação seria ignorada pela nova administração americana, muito mais “pró sunita” do que a anterior?

A intervenção direta da Rússia, desde há uns meses, mudou o sentido da guerra. O enfraquecimento do antes poderoso e sempre ignóbil “Estado Islâmico” é consequência disso. Os sunitas do Golfo e da Turquia apreciariam muito uma participação mais ativa dos EUA e conseguiram-na. Será Assad assim tão estúpido, a ponto de ter dado este enorme tiro no seu próprio pé?

Mesmo sendo estúpido e criminoso, o seu enfraquecimento vai reforçar o “Estado Islâmico” e essa nublosa chamada “oposição síria”, que aplaude a intervenção americana com todas as mãos e pés, e que inclui Al-Qaedas e outros grupos radicais islâmicos, aparentemente financiados pelo Golfo. Eu, no lugar do Diabo, a ter que escolher entre os dois cenários maus, não duvidaria.

Não é muito claro o que será a Síria depois de uma derrota militar de Assad, mas coisa decente nunca será. Exemplos ilustrativos até já os há e aí ainda nem sequer se sabe como normaliza-los minimamente.

PS: E para o Iémen, nada …?

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

28 julho 2016

Pior do que antes

Se não faltam no Médio Oriente, guerras com forte componente religiosa/comunitária, podemos questionar porque é que, por exemplo, a guerra no Líbano de 1975 a 1990, até com envolvimento direto do diabolizado Estado de Israel, não provocou uma mobilização da comunidade muçulmana europeia como agora com a Síria? Por não haver internet… nem “Al Jazira”? O facto é que hoje, na Europa, o nível de radicalização em abrangência e em intensidade é indiscutivelmente maior do que há 20-30 anos, quando as chamadas feridas da colonização estariam supostamente mais vivas. Quem é responsável por isto? Penso que muita gente no Islão e para lá dos marginais declarados ou encapotados.

Para não deixar a coisa no abstrato deixo um nome: Youssef Qaradawi. Não é único mas é significativo e suficiente. É fácil encontrar citações deste senhor carregadas de ódio e apelos à violência. Durante anos foi uma vedeta da rede de televisão Al Jazira e convidado para palestras em França, daquelas em que se debate o direito do homem bater na mulher, pela UOIF, uma importante e poderosa federação de associações muçulmanas, “próxima” da Irmandade Muçulmana. Hoje ele está proibido de entrar em França, para grande pesar do anfitrião, mas as suas ideias não. Segundo Ahmad Jabbalh, presidente da UOIF na altura da proibição, o “sábio Youssef Qaradawi” é « um homem de paz e de tolerância que trabalha para a abertura e a moderação e cujas posições foram sempre no sentido da justiça e da liberdade dos povos, exercendo uma influência positiva no mundo muçulmano” e “a proibição apenas fará aumentar o ressentimento e o sentimento de exclusão da comunidade muçulmana”.

Um ressentido e excluído querer partir para a Síria ou pegar numa grande faca e desatar a degolar inimigos da fé, não é uma consequência direta dos pregões dos Qaradawis e companhia e da brutal hipocrisia e manipulação destas organizações, mas que ajuda, ajuda…

07 julho 2016

O depois da mentira


O relatório Chilcot, divulgado esta semana na Inglaterra (ou Grã-Bretanha ou Reino Unido...) veio comprovar aquilo de que já se suspeitava há muito tempo. Que a invasão do Iraque de 2003 foi uma birra, ou outra coisa, dispensável. Que não havia nenhuma ameaça séria naquele momento e que a via negocial não estava esgotada. Publicado em 2011, o livro “A Era da Mentira” de Mohamed Elbaradei, antigo Diretor da Agencia Internacional de Energia Atómica e Nobel da Paz em 2005, é também bastante elucidativo sobre esse embuste e outros assuntos contemporâneos da mesma temática.

Ficou também agora evidenciada a ausência de uma preparação séria para o “dia seguinte”. De recordar que o que se passa hoje no Iraque, nomeadamente as tensões sectárias que ajudaram à nascença do chamado estado islâmico são, em parte, ainda a consequência dessa falta de previsão.

A divulgação deste relatório, numa altura em que Donald Trump aparece como sério candidato à presidência dos EUA, deveria ser objeto de uma reflexão especial pelos eleitores americanos.

Ficamos à espera da publicação de algo análogo em França, se tal for possível, sobre o envolvimento desta no derrube de Khadafi. Enquanto o UK se deixou enganar ou foi enganado pelos EUA; na Líbia a França interesseiramente e falsamente foi atrás de outros, por acaso não europeus nem ocidentais.

É comum referir que o Iraque com Saddam e a Líbia com Khadafi estavam “melhor” do que ficaram depois das respetivas “libertações”. Isso é verdade, mas significa que essa parte do mundo só se controla e está estável debaixo de regimes ditatoriais e repressivos? Não deveria ser assim mas, pelo menos, poderíamos ter aprendido que a doença não se cura com envio de tropas e mísseis. Não aprenderam. Na Síria apenas só não estamos aí pelo apoio do Irão e da Russa ao regime, mas os danos já são irreversiveis.

19 abril 2016

De certa forma, já não chega?


Vimos recentemente mais uma iniciativa mediática sobre o tema dos refugiados, desta vez a visita do Papa à ilha grega de Lesbos, culminada na recolha de 3 famílias muçulmanas. Parece-me estarmos distraídos vendo apenas um certo tipo de árvore, esquecendo a floresta. Não seria mais importante, por exemplo, chamar a atenção do mundo para o Iémen onde de há um ano para cá ocorre uma guerra brutal que está a deixar o país completamente destruído e destruturado? Ou sobre os dois “Sudões”? Ou sobre a Nigéria onde 2 anos depois ainda não reapareceram as 200 estudantes raptadas, pelo contrário, outros raptos e massacres se somaram ainda.

Dentro do simbolismo, não seria mais representativo ter trazido também (sublinho: também) cristãos e yazidis que, mais do que da guerra, fogem do extermínio e da escravatura? Mais importante do que apelar ao espírito humanitário de acolher quem sofre, não teria maior impacto e seria bastante mais eficaz pôr a nu as reais causas da desgraça e denunciar abertamente os senhores da guerra, sejam eles quem forem?

Os refugiados que estão algures entre o Médio Oriente e a Europa, são uma pequena parte de todos os que sofrem e estão ameaçados no mundo. A solução, se o objetivo é encontrar soluções para lá do expor a miséria, não é traze-los para a Europa. Não sendo fácil parar as dinâmicas bélicas e destruidoras é muito mais importante acusar e pressionar os seus mentores do que apelar à caridade, invocando inclusive uma certa culpabilização do cidadão comum.

Pessoalmente, não aceito essa pressão, que considero até uma forma de distração. Há gente com mais responsabilidades neste mundo a serem pressionadas em primeiro lugar. A verdadeira solução não se passa pelo paliativo, sempre parcial, da caridade.


Foto do Le Figaro

18 fevereiro 2016

Todos contra o EI

Sem sombra de dúvidas! Todos estão contra o chamado Estado Islâmico, nem um único interveniente na questão Síria se declara a favor. No entanto… o Golfo e a Turquia estão fundamentalmente contra Assad (e a Turquia encarnecidamente contra os Curdos); o Irão é principalmente a favor de Assad. Supostamente todos combatem o Estado Islâmico. No entanto o cerne da questão não está aí, mas sim na subsistência ou não do regime de Assad.

A intervenção Russa veio desequilibrar as forças. Ao atacar o EI e os “bons rebeldes”, abriu caminho ao reforço da posição de Assad e dos Curdos. O Golfo e a Turquia clamam por intervenção terrestre para reequilibrar. A Turquia fica em pânico com a perspetiva da consolidação de uma grande presença curda na sua fronteira (muito mais do que com a do próprio EI). Daí bombardear mais esses curdos do que o EI.

Explodem bombas em território turco. Em teoria poderiam ter origem curda ou do EI. Os responsáveis turcos apontam prontamente serem curdas. De facto, o EI não teria grande motivação para atacar a Turquia neste momento mas, também, aparentemente os curdos não ficam a ganhar com este acicatar do seu inimigo. Deverão ter mais interesse em consolidar as suas posições na Síria e no Iraque e não em dar argumentos para uma intervenção mais musculada da Turquia…Ficou claro, ou começo de novo…?

Uma coisa é certa. Se a Turquia e o Golfo invadirem militarmente Síria; a Rússia e o Irão corresponderão à escalada. Sendo a Turquia membro efetivo da Nato, se atacada terá direito a ser defendida por toda a Aliança! Vamos ver contingentes europeus a partirem para o Médio Oriente? Teoricamente assim seria…


Foto da Reuters

02 fevereiro 2016

Nasceu um problema para os verdadeiros refugiados

Quando no Verão passado se generalizou a designação de “refugiado” para todos os migrantes em busca do solo europeu, era bastante previsível que algo iria correr mal.

Abertas as comportas, assistimos a uma escalada brutal do caudal de chegada dos migrantes. Nos títulos das notícias chamavam-lhes “refugiados sírios”, mas, na prática, muitos deles eram magrebinos e subsarianos aproveitando um novo canal de entrada. Os acontecimentos da passagem de ano em Colónia, vieram realçar o mundo de diferenças culturais, que não se esbatem por obra e graça de um espírito santificado, de um credo qualquer.

Agora, países como a Alemanha e na Escandinávia vêm-se a braços com centenas de milhares não refugiados, alguns deles até se portam muito mal, e com as estruturas de apoio saturadas. Como o reenvio de um solicitador de asilo político é complexo e demora o seu tempo, a solução encontrada para agilizar o processo foi redefinir como “seguros” alguns dos países de origem/trânsito dos migrantes. Se para a larga maioria dos casos faz sentido este aligeirar do processo, esta reclassificação de alguns países pode colocar um grave problema aos verdadeiros refugiados atuais e futuros.

Como em tudo, baralhar conceitos e chamar as coisas pelo nome errado, nunca é boa tática …

19 outubro 2015

Por uma vez

O cenário atual na Síria é extraordinariamente confuso. Temos 4 fações principais no terreno (regime, Estado Islâmico, Curdos e outros rebeldes) e 5 frentes de influência externa (Turquia, Rússia, Irão, Monarquias do Golfo e Ocidente), sem estes atores estarem até agora claramente agregados (por simplificação, até nem separo Ocidente em EUA e Europa…).

A intervenção direta musculada da Rússia veio trazer mais bombas e mais mortes, certamente. Veio também baralhar a visão do conflito para aqueles que gostam de ver as coisas simplificadas, perdoando ou condenando os USA ou a Rússia, conforme a sua simpatia, mas acaba por forçar uma clarificação do que cada um quer mesmo ver no final, resultando dois blocos.

A Rússia e o Irão querem o regime atual e combatem o Estado Islâmico e os outros rebeldes; o Ocidente, Golfo e Turquia querem os outros rebeldes e combatem o Estado Islâmico e o regime.

Independentemente do vencedor final, provavelmente o Estado Islâmico recuará até ao Iraque, que continuará o caos que conhecemos desde há 12 anos, e os curdos poderão ter o mesmo destino de outros levantamentos. Vêm à luta com empenho e valor e, no fim, recuam escorraçados…

Como os outros rebeldes são Al-Qaedas e afins, tenho muitas dúvidas se uma Síria por eles “governada” venha a ser muito diferente da atual Líbia. Com todos os defeitos do regime de Bashar Al Assad é preferível deixá-lo a governar e ir pressionando a mudança do que desestruturar o/outro país.

01 outubro 2015

Já se terá visto uma guerra assim?

Segundo alguns especialistas, o que agora se chama “Estado Islâmico” tem na sua génese a resistência iraquiana à invasão americana e ao regime posteriormente instalado de influência xiita, que sempre foi ignorado e não reconhecido pelos sunitas. Se bem nos recordamos, os atentados suicidas e outras barbaridades nunca desapareceram do Iraque. A novidade estará agora na “imagem”, na forma cuidada e provocatória como eles divulgam e promovem as suas ações, supostamente com o objetivo de chamar os infleis ao terreno e os derrotarem como os talibãs fizeram no Afeganistão. A pobre Síria foi apanhada como um campo de batalha adicional, na sequência da contestação nascida na sua “primavera”, prontamente confiscada pelas potências regionais. Não faltam inimigos declarados ao EI, mas esta oposição é um pouco desalinhada.

A imagem acima, se bem que não atualizada, a situação é dinâmica, dá uma ideia de como o país está dividido e é disputado entre: o regime de Bashal Al Assad a vermelho; o EI, a preto; os “rebeldes” (principalmente o Al Qaeda local), a verde e os curdos a amarelo. As monarquias sunitas do golfo, mais de que contra o EI etsão contra o regime.

A Turquia é contra o regime e intervém militarmente, um pouco contra o EI e muito contra os curdos. O ocidente é moderadamente contra o regime, intervém principalmente contra o EI e até tenta/tentou ajudar uns “bons rebeldes”. O Irão apoia o regime e intervém contra o EI e um pouco contra os outros rebeldes. A Rússia é a favor do regime e, entrando agora na guerra, diz atacar o EI mas na prática está a atacar os rebeldes geograficamente mais próximos de Damasco (aquela ilha verde em Homs, entre Damasco e a costa).

Para o Irão e a Rússia, o futuro passa pela manutenção do regime, para as monarquias do golfo e a Turquia, passa pela sua deposição, o Ocidente não tem ideias claras… Dá para entender que isto não se resolverá amanhã e, entretanto, as bombas continuam a cair
.

27 setembro 2015

Para lá da Síria


Quando se ouve falar na questão dos refugiados Sírios, parece que apenas existe guerra nesse país, mas não é o caso. Olhando unicamente para as proximidades da bacia mediterrânica, há guerra mais ou menos convencional na Síria, Iraque, Iémen, Sudão Norte x Sul, Israel x Palestina. Há golpes de estado violentos não estabilizados na República Centro Africana e Burkina Fasso (por agora). Há guerrilhas muito ativas e violentas na Somália, já passando ao Quénia, na Nigéria, já passando aos Camarões e ao Chad, na Líbia, no Sinai, no Mali, no Niger, Afeganistão e Paquistão. Regimes particularmente violentos e desrespeitadores dos direitos humanos na Eritreia, Burundi… e fico por aqui, dado que já estou a sair do mapa. Será mais curto, e mais difícil, enumerar os países em que existe segurança e um mínimo de condições de vida para a generalidade da população.

Vamos trazer os habitantes destes países problemáticos para a Europa? Só na Nigéria são 170 milhões. Sem desenvolver a ironia de serem necessários muitos monovolumes para ir buscar essa gente toda, é obvio que não!

21 setembro 2015

É um rio e não um lago

Parece-me assustadoramente ligeira e mal refletida a forma como a comunicação social e os políticos estão a tratar a questão dos migrantes. Até há bem pouco tempo, todos eram emigrantes ilegais a repelir, agora parece que são todos refugiados (e sírios) a acolher. Ambas as visões não estão corretas. Quando se fala em abrir as fronteiras está-se a cometer um erro de leitura e de escala tremendo. Não está em causa receber um número mais ou menos fechado de 100 ou 200 000 pessoas; está em causa um fluxo contínuo que pode chegar a 10 000 pessoas/dia e que não esgota tão cedo. Não estamos a esvaziar um lago; estamos a receber um rio.

A decisão da Alemanha de fechar as fronteiras era perfeitamente previsível, apenas uma questão de tempo. Pretender redistribuir o fluxo pelo resto da Europa é outra questão de tempo. Enquanto se falar de quotas com valores fechados, está-se a persistir no equívoco.

Na origem dos problemas estão as guerras. Apontar individualmente imperialistas americanos, agressores israelitas, arrogantes monarquias do golfo, fundamentalistas iranianos, oportunistas franceses ou intervencionistas russos, etc., conforme a simpatia política ou cultural, é outro erro grosseiro.

Contribui também, e muito, o desgoverno em tantos países. Aqui o problema é bastante mais complexo, porque se cruza a direito à autodeterminação com a manifesta incapacidade de criar uma sociedade minimamente justa, próspera e digna. Existem desgraçados, certamente. Para lá de não poderem vir todos para a Europa, ficar simplesmente emocionado com as imagens da desgraça, é muito pouco.

09 setembro 2015

Não é cedo para o discutir


As imagens dos refugiados (ou emigrantes) a recusarem a ajuda oferecia por causa da cruz vermelha nas caixas choca, sobretudo pela forma. A uns metros de distancia eles detetam a cruz e recusam-na de forma hostil. Não tentam sequer entender ou dialogar. A Cruz Vermelha não é uma organização confessional e não estava ali a entregar bíblias. A sua cruz é derivada da bandeira Suíça.

Como devemos lidar com estas posições de quem por cá chega de outros credos? Irão recusar frequentar uma escola ou entrar numa instituição pública que por uma razão histórica tenha uma cruz algures gravada no edifício? Iremos esconder tudo o que possa chocar, como na catedral de Santiago de Compostela, onde os mouros aos pés do apóstolo já foram encobertos com flores? Iremos proibir as referências à quadra natalícia em todos os serviços públicos e, por exemplo, acabar com as festas de Natal nas escolas? Irão as autarquias deixar de promover presépios e pinheiros de Natal e “esterilizar” as iluminações das ruas na quadra respetiva?

Não sou crente, mas acredito que as referências fundamentais culturais não devem ser apagadas, sejam elas quais forem. Os migrantes que chegam deveriam ler os livros de história do seu país de acolhimento e não os rejeitar altivamente, apenas por lá estar uma cruz. Devem saber o que é/foi o cristianismo para melhor entenderam onde estão. Seremos todos mais felizes assim. Devem-se inserir-se nos valores existentes onde, por exemplo, a violência doméstica não é um assunto estritamente doméstico. Não é cedo para falar disto porque o tarde corre o risco de ser tarde demais.

Nota adicional em 2015/09/10: De acordo com uma notícia que posteriormente me chegou (ver comentário) o motivo da recusa dos refugiados pode não estar relacionado com a cruz nas caixas. De todas as formas, acho que a questão da integração destas novas culturas, que tendem a marcar fortemente a sociedade em que se inserem, continua de atualidade. Esta introdução é que pode não servir…
A parte da catedral de Santiago não tem dúvidas. Vi, registei e comentei aqui

03 setembro 2015

Foto desfocada

Meio mundo ficou chocado com a imagem da criança síria que deu à costa numa praia da Turquia. Certamente Ayral merece a nossa compaixão e, ao mesmo tempo, ele evoca todas as outras crianças mortas afogadas no Mediterrâneo. No entanto, não devia o mundo ter ficado assim tão chocado. Há mais de um ano que na Síria milhares de Ayral são mortos pelos bombardeamentos, vêm os seus pais serem barbaramente assassinados, as suas mães violadas e as suas irmãs vendidas para escravas sexuais. Isto, nesta dimensão e duração, choca (deveria) muito mais do que um simples corpo, com todo o respeito pelo mesmo e pela sua família, que somos todos nós.

O que se passa na Síria não é consequência de um terramoto, marmoto ou outro fenómeno de origem natural. É uma guerra provocada por disputas territoriais entre as potências regionais. O abjeto “Estado Islâmico” não existe apenas por simples loucura de um bando de fanáticos. A zona que eles dominam é completamente insuficiente em quase tudo, inclusive em produção de equipamento militar. Como conseguem eles manter um exército operacional durante tanto tempo? Quem são os cúmplices desta abjeção? Pela lógica diria serem algumas dessas potências regionais…

Mesmo com toda a carga emotiva associada, o pequeno Ayral é uma questão menor. Não deveria monopolizar as primeiras páginas. Mais depressa elas deveriam ser ocupadas pelos milhares de Ayral que sofrem na Síria, lado a lado com as caras sorridentes dos negócios por aqueles lados fechados. Escrevo isto para reforçar que não me sinto culpado.

22 julho 2015

Longe demais?

Quando a designado Estado Islâmico (EI) divulgou o vídeo da bárbara execução de James Foley, criando uma enorme onda de repulsa e de condenação, forçando os EUA e o Ocidente a serem mais ativos contra essa organização, muitos consideraram essa ação como um erro. De fato, se eles tivessem continuado com o seu trabalho sujo matando apenas azeris, curdos, xiitas e quem mais entendessem daqueles lados, o nosso mundo não assistiria com tanta atenção e as opiniões públicas não pressionariam da mesma forma, por muitos milhares que fossem mortos (e que foram).

Para os poderes regionais sunitas, a queda de Al Assad, aliado do Irão, é um “must”. Daí não olharem com muita atenção para as barbaridades do EI e de outros afins. Sem entrar no campo do apoio mais ou menos direto, que é atribuído aos países do golfo, a Turquia parecia fazer vista grossa a muita coisa. Quanto mais não seja, o contrabando de petróleo cujas receitas alimentam o EI, passa certamente por lá e não parece ser tarefa demasiado complicada controlá-lo.

O atentado desta semana em Suruc, na Turquia, matando 32 pessoas, pode ter sido um outro passo a mais, errado, do EI. Isto porque a opinião pública turca reage, naturalmente, e exige do seu governo uma atitude mais firme e mais eficaz de controlo da dita fronteira…. Esperamos que resulte nalguma mudança efetiva.

Não gosto muito de evocar aquela imagem do “não morder na mão que dá a comida”, mas pode ser que depois disto todos entendam: há certos animais que nunca se devem alimentar…


Foto: The Telegraph

20 abril 2015

Pensar na verdadeira origem do drama...

Está nas primeiras páginas e na agenda dos políticos europeus a questão dos naufrágios no Mediterrâneo. Os “humanitários” de serviço acham que a culpa é da Europa por fechar as portas à imigração legal, forçando a clandestinidade. A Europa é capaz de ter alguma culpa, mas a solução não é certamente abrir as portas de par em par. Sem querer generalizar, aqueles que na viagem atiraram pela borda fora os membros de outra crença religiosa diferente da sua, não são bem-vindos.

Uma boa parte desses clandestinos embarcam na Líbia, um país que não tem o mínimo de administração ou controlo. Que inclusivamente até está parcialmente controlado por aqueles tipos das bandeiras pretas, para quem a vida de uma pessoa vale muito pouco e para atacar o ocidente vale tudo. Uma parte dos refugiados foge da Síria onde uma guerra foi declarada e apoiada pela Europa, já lá vão 4 anos. Não tenho/tinha nenhuma simpatia por Khadafi ou Bachar El Assad, mas obviamente que estas intervenções militares pesadas contra os “tiranos maus” criam muitos problemas deste género.

Neste momento está a começar mais uma, no Iémen. Há quem a ache aceitável. Quando um barco de iemitas naufragar no Mediterrano, vamos continuar a achar que a Europa é culpada, pelo facto de fechar as suas fronteiras… ?

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