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18 fevereiro 2026

O Ramadão

Por estes dias começa o mês sagrado muçulmano do Ramadão. Um primeiro pensamento e palavra para todos os muçulmanos que conheci, que vivem a sua fé serenamente e votos de que tenham uma celebração feliz, à medida das suas expetativas, junto dos seus próximos e familiares.

Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar. De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII em 1582.

A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia, pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França, houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.

A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.

Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em jejum há uma dúzia de horas?

Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática religiosa. No entanto…

No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento! Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.

Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar, tanto faz…)

12 dezembro 2017

Três mulheres


Uma marroquina, uma tunisina e uma argelina, estabelecidas na Europa, analisam e refletem sobre o que está a acontecer neste mundo, onde se assiste a uma influência crescente do islão político na sociedade. O guião e o estilo são distintos, mas há uma linha comum: a hipocrisia de quem defende e promove essa islamização, a desonestidade intelectual de muitos “ocidentais” que a toleram e relativizam e a inaceitável condição feminina nesse modelo de sociedade. 

Não são abordagens simplistas, depois de alguém ter ouvido qualquer coisa ontem e vir hoje debitar palpites, esquecendo-se que a realidade raramente coincide com aquilo que a ignorância imagina. São visões e posições de quem aí nasceu, viveu e se libertou.

No final destes testemunhos e reflexões ricas, incluindo alguns argumentos e pontos de vista que não compro, fica a confirmação e a perplexidade sobre como uma parte da Europa cosmopolita, culta e desenvolvida, continua a ver com condescendência e “compreensão” uma teoria e uma prática que, só para dar um bom exemplo, recusa um estatuto de cidadania de pleno direito à mulher.

Senhoras, senhores e correlativos, podem ter os vossos motivos para odiarem a sociedade em que vivem e o seu modelo, que até vos permite manifestar livre e publicamente esse ódio. Lembrem-se, no entanto, que o inimigo do inimigo não é automaticamente amigo. Ainda por cima, a aliança entre os “socialistas do terceiro mundo” e os “ativistas islâmicos” contra o “ocidente colonizador” foi coisa de interesse e circunstância, sol de muito pouco dura.

Para lá dos princípios não deverem ser atropelados pelo tribalismo, muito especialmente quando estão em causa direitos humanos, abram os olhos e vejam que esse casamento “vermelho-verde” acabou há muito. Sim, tenho uma enorme fobia do islão politico, denuncio a sua hipocrisia e assumo-o plenamente, como deve fazer qualquer um para quem direitos humanos são mais do que uma “ideia”.

01 julho 2015

O dia de semear a bonança?


No mesmo dia do atentado na praia de Sousse, há outro menos mediatizado mas não de somenos importância, e não me refiro ao de França.

O atentado contra a mesquita xiita no Kuwait demonstra que mesmo as monarquias do Golfo Pérsico não estão a salvo. A ser verdade o que alguns dizem, que estes regimes apoiam de uma forma mais ou menos direta uma versão mais radical do islão, que com alguma facilidade degenera nestas catástrofes, estarão a sofrer um efeito boomerang. Não sei se é verdade, mas sendo indiscutível que quem semeia ventos, colhe tempestades, talvez este atentado venha evidenciar a necessidade de semear aquilo que há-de trazer a bonança.

Haja discernimento para o entender e determinação para o realizar.

27 junho 2015

Pobre Tunísia

Das poucas vezes que estive na Tunísia, ainda no tempo de Ben Ali, ficou-me a imagem de um país extremamente policiado. No rescaldo das “primaveras árabes”, parecia ser o único país onde um regime democrático se conseguiria consolidar, ultrapassando a radicalização e a confrontação pós-revolução e evitando também (re)cair no autoritarismo militar.

Se na nova Tunísia democrática, existia um reduto de militantes islâmicos radicais nos montes Chaambi, isso parecia ser apenas isso mesmo: um reduto confinado. Com a colaboração da Argélia fechando do outro lado, seria uma questão de tempo até neutralizar os guerrilheiros. O atentado no museu do Bardo de Março deste ano foi um golpe duro – no pleno centro da capital e num dos principais locais turísticos do país. Podia-se entender ser um caso isolado, uma infelicidade que não se repetiria.

O ataque desta semana na praia de Sousse parece ser agora um golpe fatal. Efetivamente, os serviços de segurança tunisinos demonstraram serem incapazes de acompanhar e controlar estes acontecimentos. Longe estão dos tempos de Ben Ali e existe também a novidade da Líbia ali ao lado, completamente descontrolada e infestada (já se lembraram de fazer o balanço da guerra patrocinada pelo exterior que derrubou Khadafi?).

Dificilmente o turismo no país, que tem um peso enorme na sua economia, retomará deste choque, pelo menos a curto prazo. A Tunísia ficará mais pobre e os tunisinos pior. Não o merecem. Numa guerra existem soldados, generais e banqueiros. Nos jornais estamos a ver apenas os soldados…

17 dezembro 2014

Sidi Bouzid - 17 / 12 / 2010


Nos primeiros dias de Dezembro de 2010 eu estava na Tunísia. Se alguém me tivesse dito nessa altura: - Sonhei que daqui a um mês isto vai estar tudo a ferro e fogo, palácios saqueados, o presidente a fugir e o regime deposto; eu teria respondido a esse suposto interlocutor: - Deves ter comido algo que te fez mal! Neste país, pode até o povo sair para a rua, mas antes de aquecerem as solas na calçada, já alguém lhes estará a aquecer as costas com um bastão. Cerca de duas semanas depois, em 17 de Dezembro, o vendedor de fruta de Sidi Bouzid, acossado e humilhado pela polícia, imolava-se, desencadeando a revolução, na qual, à partida, ninguém acreditava.

Razões para ter ido até o fim:

- a primeira dama e respectiva família, o clã Trabelsi, tendo passado de ilegítima a legítima, tratava o país como um bem pessoal. Que quem governa se governa é condenável, mas até certo ponto tolerável – isto não.

- o wikileaks tinha revelado muitos detalhes e dado uma maior e insuportável visibilidade a esses saques e abusos.

- as autoridades reagiram com bastão nas costas, sem entenderem que essa resposta já não servia.

- a Tunísia não é um país inventado um dia, a milhares de quilómetros de distancia. É herdeira do império cartaginês e a história e identidade contam muito.

- uma ajudinha da cadeia de TV do Qatar, Al Jazira, muito popular na altura, que deu uma enorme cobertura e destaque, mostrando os acontecimentos como uma epopeia empolgante.

Hoje, exactamente 4 anos depois, a Tunísia é o único país das “primaveras” onde a consolidação de um verdadeiro regime democrático parece ainda possível. Porquê? Devido à sua forte identidade… e, apesar de tudo, por ter sido pouco “ajudado”. A democracia não pega de enxerto e muito menos empurrada à força.

14 julho 2013

A História não se repete

Era uma vez um país em que após décadas de regime fechado a pressão popular o obriga a abrir-se e que realiza eleições abertas, multi-partidárias. As eleições são ganhas por islamitas mas os militares impedem-nos de governar. Será o Egipto de hoje? Pode ser, mas eu estava a pensar na Argélia de 1992 e onde o resultado dessa exclusão foi uma década negra com cerca de 200 000 mortes. Para lá da guerrilha tradicional e atentados cegos em zonas urbanas como mercados e transportes públicos, houve listas de gente das letras e das ciências eliminados um a um, houve aldeias inteiras isoladas e os seus habitantes degolados e um sem número de outras atrocidades. Irá o Egipto cair num caminho idêntico? Esperemos que não, até porque o contexto é diferente. Na Argélia a segunda volta das eleições legislativas foi suspensa pelos militares e os islamitas nunca chegaram a governar, tendo saltado para a clandestinidade com toda a força e “legitimidade”. No Egipto eles fizeram a experiência do governo e parece haver uma parte importante da população que apoia a recente acção do exército.  

Num país árabe que se abre ao multi-partidarismo, é previsível serem os islamitas a ganharem as primeiras eleições – eles conseguem apresentar uma proposta concreta e diferente com a qual uma grande parte da população se identifica: “a nossa religião, os nossos valores”. No entanto, para muitos, o objectivo principal não é a democracia em si, mas simplesmente viverem melhor. Se o novo governo não conseguir responder a esse anseio com brevidade, rapidamente se desencanta. Terá ainda que procurar um compromisso dificilmente praticável entre a facção islâmica mais conservadora para quem a Sharia pode e deve servir de Constituição e uma parte da sociedade, mais moderna, que até participou na revolução buscando um país mais moderno, e que se assusta enormemente com alguns (des)propósitos como, por exemplo, no que diz respeito à condição feminina.

O primeiro-ministro turco, islamista, Recep Erdogan, disse uma vez, distraído ou não, que a democracia é como um comboio que se apanha e donde se sai quando se chega ao destino pretendido. Morsi no Egipto estaria a tentar por em prática o mesmo princípio. Como se ironizava na Argélia na altura, democracia seria um homem, um voto… uma vez! Sendo o Egipto um país fulcral no mundo árabe pelo seu peso demográfico e localização, o que lá acontecer é de extraordinária importância para meio mundo.

Numa grande encruzilhada está também a Tunísia, que apesar de uma dimensão muito inferior ao Egipto tem um peso não negligenciável. Foi lá que tudo começou em Janeiro 2011. Esta semana iniciou-se o Ramadão. São 30 dias em que entre o nascer e o pôr-do-sol, para lá de outras restrições, não se come e não se bebe. Em 1964, há quase 50 anos, Bourgibga, o líder forte e pai da Tunísia moderna, na altura pouco democrática, bebeu um sumo de laranja em directo na Televisão, em pleno dia durante o Ramadão, argumentando que o jejum podia ser quebrado em caso de guerra e que na Tunísia estava em curso uma batalha pelo desenvolvimento. Por muito menos há hoje gente levada a tribunal, acusada do crime de muito largo espectro de “atentado ao sagrado”.

Presumir como muitos o fizeram há dois anos, que bastava registar partidos, organizar eleições e contar votos para ter um país firme no caminho do desenvolvimento é obviamente uma enorme ingenuidade. Esperemos, e se possível ajudemos, que corra bem. Por meio mundo, que é também o nosso, e muito especialmente pelos seus homens e mulheres, muito principalmente estas, que merecem viver em dignidade com paz, respeito e com oportunidades.

28 maio 2013

Primavera ou isso

Quando o processo começou na Tunísia, todos assobiaram para o lado assumindo que com mais ou menos esforço Ben Ali colocaria ordem na casa. E Ben Ali caiu. Quando começou no Egipto as reacções já foram mais ambivalentes: é importante a democracia, é importante a legitimidade… E o regime caiu. Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas Khadafi vai pelo mesmo caminho e vamo-nos colocar do lado certo do vento da história. Enganaram-se de novo. Khadafi só caiu pela preciosa ajuda dos que quiserem activamente estar do lado “certo”.

Temos agora a Síria. Há quem ache que está em causa a simples luta entre um mau ditador e uns bons rebeldes, mas devido à má experiência da Líbia, tem havido muito mais prudência na entrada/ajuda ao conflito. No entanto, e acrescentados os ingredientes da situação geopolítica actual na zona, não é difícil concluir que o que está em confronto na Síria não é certamente a democracia contra a ditadura. É muito simplesmente uma nova declinação do histórico conflito entre sunitas e shiitas que tem quase tanto tempo quanto a religião muçulmana.

Qual o propósito de o Ocidente apoiar declaradamente uma das partes quando o registo das acções e barbaridades cometidas parece ser relativamente bem distribuído? Porque é que quando se fala do eventual uso de gás sarin pelo governo sírio é um escândalo que justifica sair a terreiro e quando parece que é antes/também usado pelos rebeldes, se assobia para o lado? Se o popular canal de televisão Al-Jazira (Qatar – Sunita) trata de uma forma diferenciada os conflitos nos diferentes países conforme o seu alinhamento com a península arábica, sede do sunismo, porque é que temos que os acompanhar nessa discriminação?

Enfim haverá interesses e razões que justificam tudo isto, como também há gente inocente que sofre e que morre, mas por favor não pintem o cenário com as cores da liberdade e da democracia. Estas merecem muito mais respeito.

21 agosto 2012

Nem tudo é mau


Comecemos pelo mau. A atleta acima à esquerda, Habiba Ghribi, é Tunisina e foi a primeira mulher do país a ganhar uma medalha olímpica, neste caso a prata nos 3000m obstáculos. Grande polémica no país, nomeadamente por mostrar o umbigo. Acho muito bem que protestem, que o digam e que o assumam para se ficar a saber quem são e o que são. Na Tunísia livre e democrática está a ser preparada uma nova constituição que dá à mulher um estatuto de “complementaridade” face ao homem. O ditador Bourguiga deve andar às voltas no túmulo. No mesmo país umas “brigadas” salafistas resolveram ser polícias, e violentos, dos ataques ao sagrado, perante alguma moleza das autoridades. Atacar e destruir obras de arte de uma exposição “moderna”, como aconteceu em Cartago em Junho passado, em que algumas tinham algum carácter provocador, é muito condenável mas mais ou menos previsível. Mais recentemente impediram a actuação de um grupo musical iraniano, por considerarem um “atentado ao sagrado” eles serem muçulmanos…. mas chiitas !! Fica claro quem está a alimentar este fogo.

Passemos ao bom. No norte do Mali controlado por islamitas, onde um casal foi morto por apedrejamento por terem filhos sem estarem casados, estava previsto o decepar em público a mão de um ladrão. Não aconteceu porque a população se mobilizou e o impediu. Podem tê-la cortado em privado mas o facto de a execução pública da sentença ter sido anulada é fantástico de significado. Em cima à esquerda está Rita Jahanforuz, provavelmente a cantora israelita actualmente mais popular e que … nasceu no Irão. No seu trabalho não renega as raízes e inclusive canta versões de temas tradicionais persas, como este. É adorada pelas pessoas dos dois países que se odeiam.

01 agosto 2012

Mais uma estação...

Quando começou na Tunísia, toda a gente assobiou para o lado, é um acesso de febre que passará rapidamente. Enganaram-se todos e, imodéstia à parte, até eu… e Ben Ali caiu mesmo. Apesar da generosa exposição mediática proporcionada pela Al-Jazira, a causa principal foi mesmo a pressão popular interna.

Quando começou no Egipto, todos foram mais prudentes e, face à incerteza sobre o desfecho, apareceram os discursos públicos ambivalentes. E Moubarak caiu.

Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas, Khadafi iria seguir o mesmo caminho. No entanto a mobilização popular não foi suficiente para levar o processo até ao fim, mesmo com a fortíssima pressão mediática da Al Jazira, do Qatar. E então, Onus, Natos, States, Franças e Qataris tiveram mão pesada, teoricamente a proteger civis e na prática a garantir que Khadafi caía mesmo.

Hoje a Síria parece ir pelo mesmo caminho da Líbia e já se fala na necessidade de “proteger os civis”. Independentemente de todo mal que se pode dizer e constatar sobre o regime de El Assad, o que se passa na Síria não é certamente uma luta de “bons rebeldes” pela democracia e pela liberdade do povo. É a continuação da luta que dura há séculos entre os sunitas da península arábica e os xiitas que actualmente gravitam em torno do Irão. Se o Ocidente acha que o enfraquecimento do Irão é um efeito colateral positivo e desejável desta guerra, eu não estou assim tão convencido.

Que o Qatar e Arábia Saudita sejam uns paladinos e uns patrocinadores da liberdade e da democracia é, no mínimo, irónico. Que busquem aumentar a sua influência e a islamização sunita do Médio Oriente e Magreb, está na lógica das coisas. No entanto, não lhe chamem democratização nem presumam assim tão rapidamente que esses povos irão viver melhor no novo regime.

No norte do Mali, onde foi implantado uma espécie de estado islâmico radical graças às armas que sobraram do dilúvio que caiu na Líbia para “proteger os civis”, foi esta semana morto por delapidação (isto é: à pedrada mesmo) um casal, acusados e condenados pelo crime de viverem juntos e terem filhos sem serem casados.

04 junho 2012

Tudo aqui tão perto

1- E a Espanha aqui tão perto - O que era impensável passou a ser provável – a Espanha pedir um resgate. Só que a acontecer será diferente, diz-se. Poderá ser uma ajuda directa à banca para não ficar o governo tutelado pela famosa troika. Que raio, porquê para eles e não para a Irlanda que tinha uma situação à partida tão idêntica? E se o Sr Hollande implementar as suas ideias voluntariosas e a França ficar enrascada, alguém está a ver uma troika com o FMI a entrar em França? Claro que não; o De Gaulle até ressuscitava com a raiva! Certamente que haverá outro modelo de ajuda. E isto é um dos problemas desta Europa – vai à toa arremendando soluções em função de cada caso concreto.
2 – E a Galiza aqui tão perto – Diziam-me lá este fim-de-semana que o sofrer a crise em Portugal será menos traumático do que em Espanha, porque Portugal no fundo nunca interiorizou a “nova riqueza” de uma forma tão assumida como Espanha. Ou seja, resignamo-nos mais facilmente a reencontrar as dificuldades. Será?
3 - E o Mali aqui tão perto – O norte do Mali decretou “independência”, num novo estado, islâmico a mais não poder ser, conquistado e controlado pelo Al Qaeda com as armas que sobraram da overdose bélica que choveu na Líbia nos últimos tempos. Novo Afeganistão à vista…. E aqui tão perto
4 – E o Afeganistão aqui tão perto – Multiplicam-se os casos que pareçam não deixar dúvidas sobre os autores e as intenções. Os alunos nas escolas sofrem intoxicações mais ou menos graves, por lá serem ensinadas coisas inadequadas e, sobretudo, por ensinarem raparigas que não têm nada que andar na escola. Os Américas e Cia vão desistir e abandonar o país.
5 – E a nova Primavera na Tunísia – Ghazi e Jabeur – dois jovens líbios de 28 anos diplomados e desempregados, enraivecidos e desesperados cometeram o crime que publicaram no facebook caricaturas obscenas do profeta e de se declararam ateus. Ambos julgados e condenados a 7 anos e meio de prisão efectiva. O primeiro fugiu, o segundo pode ter ainda mais problemas porque o Procurador recorreu da sentença e pede perpetuidade.

03 fevereiro 2011

O nascimento da democracia?

Talvez me tenha enganado há umas semanas atrás quando vaticinava um simples sucessor para Ben Ali na Tunísia. Afinal os tunisinos rejeitam todos os que tiverem ligações com o passado. Para um passado de 23 anos, que começaram por ser a continuação dos 30 anos anteriores de Bourguiba, quem poderá sobrar imaculado e com “capacidade” mínima de governar? Não é evidente. Há aqui um grande buraco à espera para ser ocupado, não se sabe por quem.
Para aqueles que excitados falam da grande novidade do fim das ditaduras e do nascer das democracias no mundo árabe, convém recordar que estes movimentos não são sim tão inéditos e que os seus antecessores não tiverem fim feliz. A história não se repete mas convém não ser esquecida.
Exemplo 1. Argélia, final dos anos 80. Grande contestação e tumultos nas ruas, partido único no poder desde a independência, há mais de 25 anos, é fortemente questionado. O presidente da altura, Bendjedid, depois cognominado “Branca de Neve” pelos cabelos brancos e pela ingenuidade, decide organizar eleições livres e multipartidárias em 1991. O partido islamista (FIS) iria ganhá-las, os militares não gostam, destituem o presidente e suspendem o processo eleitoral. Os radicais pegam em armas para tentarem obter pela força o que lhes tinha sido negado pelos votos. O país mergulha numa década de terror. Hoje, passados 20 anos, talvez 200 000 mortos e uma boa parte da elite intelectual dizimada, ainda não está completamente sanado. Talvez esta experiência traumatizante seja a “vacina” que acalmou, para já, os protestos, que arrancaram em simultâneo com os da Tunísia.
Exemplo 2. Irão 1979 – Um regime autoritário e pro-ocidental cai, empurrado pela “rua árabe”. O que hoje é o Irão passados 30 anos já toda a gente sabe. Pode o Egipto não ser chiita, mas…
Com os todo-poderosos e omnipresentes “aparelhos” desacreditados quem pode aparecer com a imagem pura e limpa e com crédito perante a dita “rua árabe”? O FIS argelino designava “Frente Islâmica de Salvação”. Conforme dizia um Tunisino recentemente essa gente respeita a democracia apenas enquanto é oposição. Ou conforme se receava durante o processo argelino: “um homem, um voto, uma vez”.

15 janeiro 2011

E agora segue-se… ?


Ben Ali foi a primeira vítima do wikileaks. Acredito que as revelações que mostraram em detalhe e confirmaram o que se adivinhava, pôs a pólvora a descoberto. O jovem que se imolou foi rastilho. O regime ter acreditado que podia ter controlado o incêndio à bala, foi o seu último erro.
A última vez que estive em Tunes foi há um mês, em Dezembro passado. Aquele eixo Cartago-Gammarth era realmente muito giro. Giro e chique. Nem parecia que estávamos em África. Mesmo não conhecendo a fundo os dois contextos, apetece-me dizer que tinha mais sítios chiques e finos do que a própria cidade do Porto. Difícil imaginar que esteve a ferro e fogo e que uma parte foi saqueada, de tão tranquilo e “controlado” parecia.
Os mesmos que há dois meses abraçavam fraternalmente Ben Ali e que há duas semanas assobiavam para o lado enquanto os manifestantes caiam pelas balas, ontem negavam autorização de aterragem ao avião do ex-presidente e hoje saúdam a revolução do povo tunisino. Pois é. Dizem que o povo tunisino fez cair um ditador… É verdade. Ben Ali saiu, já não está lá. Mas pretender que tudo mudou assim quando a “grande família” controlava uma enorme parte da economia do país... no mínimo, não é evidente.
E agora? Será a vez da “oposição democrática” ? Se existia, não se via. Será a vez de uma “democracia” ? Acho que não. Provavelmente será a vez de um “herdeiro” de Ben Ali. E, apesar de tudo, pode não ser a pior solução.

22 julho 2005

O carácter das línguas

Em recente viagem de trabalho na Tunísia surpreendi-me com a quantidade de termos franceses misturados nos diálogos em árabe. Alguns de neologismos/ conceitos importados, tipo “boîte de vitesse” e outros aparentemente só por simpatia e derivados de uma conversação anterior em francês. Achei que tal permissividade não era nada elevada nem sinónimo de carácter da língua.

Ironicamente, dou por mim, em seguida, a falar em Português ao telefone, face aos árabes, e a dizer, repetidamente, “transhipment” em vez de transbordo. Concluí que o efeito não seria muito diferente nem, pior ainda, tão raro.

Que pensará um inglês, quando no meio de um discurso em Português, ouvir “coffee break”, “after shave”, “teenager”, “low profile” ou “drink”?

Algumas destas importações têm a ver com neologismos. O “basketball”, pode ser adoptado foneticamente como basquetebol ou ser traduzido para um “balón cesto” como fizeram os espanhóis. Este fenómeno toca todas as línguas. Ao fruto castanha chama-se em flamengo “kastanje”, cujo som nos é muito familiar.

Há outro grupo mais grave. É o imigrante que fala da casa tipo “maison” com janelas tipo “fenêtres”. É também o gestor moderno que acha que a aplicação dos conceitos será mais pura se usar vocabulário de origem. Assim, fala de “assessment” em vez de avaliação e de” training” em vez de formação. Evidentemente um problema de distracção e/ou presunção e/ou ignorância.

Curiosamente os franceses, que tiveram a coragem de inventar o “octets” para fugir ao aparentemente incontornável “byte”, resolveram trocar o “fin de semaine” pelo “week end”,

Sintomático é o caso da informática. No primeiro embate, nem se consegue discernir que “file” é ficheiro e “folder” pasta. Li uma vez que “a competência dum especialista é inversamente proporcional ao número de “palavrões” que utiliza e desconhecidos pelos leigos”. Quem sabe, traduz e clarifica, quem não sabe debita chavões para impressionar. A posterior introdução de versões portuguesas de software tem “nacionalizado” muitos termos. Horrível e lastimável é, pelo contrário, a adopção do Brasileiro, por exemplo, no SAP (planejamento, estoques, faturamento, etc).

Recuando um pouco mais, a influência cultural francesa, no final do século XIX, inundou o Português da altura de inúmeras palavras francesas porque era chique. Como um motorista francês é mais fino do que um português, um motorista fino português chamar-se-ia então chauffeur.

Indo ainda mais atrás, porque é que um médico de crianças se chama pediatra (Grego: “paidós”/criança + “iatros”/médico)? Porque é que uma cidade do mundo se chama cosmopolita (Grego; “Kosmos”/mundo + “polis”/cidade). Foi presunção de, numa dada altura, o grego ter sido considerado elevado e assim ter invadido toda a linguagem erudita? Não sei. O que é um facto é que hoje está na língua e, enquanto um chauffer talvez esteja de saída, o pediatra não. Nota à parte: na minha opinião, para bem entender Português, é mais importante estudar grego do que latim. É impressionante a quantidade de étimos gregos que temos e cujo conhecimento muito ajudaria a bem a dominar a nossa língua.

Não é raro coexistir mais do que uma palavra, de diferentes origens, para o mesmo conceito, sem clarificação rigorosa das diferenças de aplicação como o cavalo do latim vulgar, o equestre do latim erudito e o hípico do grego. Obviamente as línguas evoluem mas que valor acrescentado terá ficarem consagrados no Português o “drinque” e o “trainingue” e todos os outros “ings” que por aí andam?