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18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

09 dezembro 2025

Sim, é antissemitismo

 

Dois livros acima, muito distintos, mas sobre o mesmo tema. O Estado de Israel.

Sim, já estou a imaginar as reações de repulsa e de “lá vem este branquear os genocidas”. Sim, Israel tem ações condenáveis, não tenho grande simpatia por Netanyahu e muitíssimo menos pelos seus parceiros de geringonça Ben-Gvir e Smotrich. Isso, no entanto, não justifica o “interesse” especial que certas forças têm em criticar e condenar Israel de forma desproporcional. Al Assad e Putin bombardearam civis em Aleppo e não só, recorrendo inclusive a armas químicas para combater o Estado Islâmico, com um balanço final de meio milhão de mortos… enfim, vá lá. Saddam Hussein terá morto cerca de um milhão de pessoas? A islamização do Sudão conta 2 milhões mortos? Enfim… coisas que acontecem, não vale a pena protestar muito, nada adianta e mais exemplos se poderiam acrescentar. Nesta guerra em Gaza acredita-se piamente no “Ministério da Saúde do Hamas”, clamando por cada morto civil, numa guerra em que aparentemente nunca há baixas militares palestinianas.

Israel tem um padrão de reação desproporcional. Deste-me um golpe, levas dois; pensa bem para a próxima. Esta aproximação é apreciada e utilizada vantajosamente por Hamas e companhia, gente para quem quantos mais mortes, mais mártires, melhor!

Apesar de tudo o que se pode e deve criticar a Israel, este país, a sua fundação, crescimento e consolidação é um exemplo de tenacidade, de perseverança, de ultrapassar obstáculos, descobrir soluções, gerar de conhecimento e… podíamos muito aprender com eles…

A tensão na região começa com a diplomacia de guerra da Inglaterra na I Grande Guerra, que promete tudo a todos. Um lar para os judeus a troco da sua influência nos EUA para estes entrarem na guerra, uma Grande Síria aos árabes haxemitas para os motivarem a rebelar-se e combaterem os Otomanos (Lawrence da Arábia é o embaixador da causa) e, ao mesmo tempo, combinam com a França a posterior repartição da região entre os dois países. Terminada a guerra, as expetativas de todos são incompatíveis e a tensão dispara. O então Secretário Colonial, Wiston Churchil inventou dois países para os haxemitas, Iraque e Transjordânia (atual Jordania) e deixou a Palestina indefinida. De repente, em vez de se discutir a repartição do bolo inteiro, todo o Médio Oriente, passou a ser disputada apenas a última fatia, a Palestina.

Ao longo das décadas de existência do estado judeu algumas coisas óbvias podem ser apontadas e recordadas:

- Desde a primeira hora todas as guerras foram despoletadas por árabes e fações árabes, que não aceitam menos do que a sua hegemonia na região. Israel reage, defendendo-se… e contra-atacando, mas nunca deu o primeiro passo.

- Em 1948 havia 851 mil judeus nos países árabes, em 2018 estavam reduzidos a pouco mais de 3 mil. Os que saíram e seus descendentes não estão a viver em campos, financiados por uma agência especifica da ONU. Refugiado é temporário. Quando não regressam ou não se integram é por que não querem ou não os deixam e será uma forma de deixar a ferida viva. Os próprios judeus expulsos não o desejariam, mas alguém está a ver os países árabes a receber e dar cidadania plena a todos os seus descendentes?

- Desde o fim da guerra do Yom Kippur de 1973 que tem havido tentativas de estabelecer a paz entre Israel e seus vizinhos, com avanços notórios. O sucesso das mesmas é, no entanto, posteriormente dinamitado por alguém que relança as hostilidades. Hoje é o Hamas, apoiado pelos seus padrinhos Irão e Qatar.

- Institucionalmente Israel está em paz com cada vez mais vizinhos e com processos de colaboração que chegam ao domínio da defesa, concretizado aquando dos últimos ataques do Irão.

. O apoio financeiro e logístico do Qatar (Irmandade Muçulmana) ao Hamas é talvez o maior cancro atual na região. Todos que quiserem saber, sabem que daquele movimento nada de bom se pode esperar, nem sequer para os próprios palestinianos que eles reclamam defender. Qual o objetivo do Qatar em alimentar e promover estes bárbaros?!

- Mesmo que se possa discordar e criticar o que se passou em 1948, Israel é hoje um país consolidado e a História é mesmo assim. Não há marcha atrás a partir de certa fase, A reivindicação do “From the river to the sea…” é uma cantilena irrealista. Alguns até desconhecem o significado concreto da mesma, mas acham giro. Quem a canta está redondamente enganado e de forma nenhuma do lado da solução.

- A ocupação da Cisjordânia e respetivos colonatos são um entrave importante. No entanto, não são irresolúveis no âmbito de um acordo de paz, tal como foram desmantelados os existentes em Gaza, quando Israel abandonou o território.

- Uma certa opinião pública ocidental adora os lenços palestinianos, como no passado gostava das camisas à Mao, das boinas à Che Guevara e de símbolos de outras causas. O fundo da motivação tem muito em comum. O ser contra o “seu mundo”. Da mesma forma como os contestatários passados nunca iriam viver na China maoista, também os ativistas atuais nunca se instalarão no Irão (LGBTs nem se fala). Convinha ganharem a consciência de que não estão a ajudar os palestinianos, mas apenas a branquear manipuladores que os usam para causas e modelos de sociedade que certamente não querem mesmo ver implantados na sua própria casa.

Por hoje, é tudo e espero não estar a pregar no deserto (se bem que no passado alguns tiveram sucesso nesse enquadramento 😊 )


17 outubro 2025

Paz? Talvez…


O processo atualmente em curso na Palestina merece ser saudado e parabenizados todos os que o proporcionaram. Não sabemos, naturalmente, se se a paz será duradoura, mas a libertação dos reféns, pelo menos dos vivos, esvazia os argumentos de Israel para continuar a massacrar a população de Gaza e abre numa nova fase.

Enquanto houver um grupo com vontade de se afirmar aos tiros e alguém que lhe dê as armas, a guerra continuará. Em Gaza não faltará gente com vontade de fazer falar as armas, independentemente se estão enquadrados numa estrutura Hamas, Hamas-bis ou mesmo sem estrutura.

No entanto, aquele território, por si, não tem condições para se armar sozinho. Haver ou não guerra depende mais do que vão fazer os apoiantes e financiadores externos da “causa”. Não sei até que ponto eles foram envolvidos e comprometidos no atual processo, mas o futuro e a paz em Gaza não serão decididos em Gaza.


Atualizado em 19/10 com publicação no Público


08 outubro 2025

Inspirados por Sadat


A famosa flotilha de Gaza parece ter ajustado e apontado o calendário para chegar ao real destino, ponto de interseção, na data do Yom Kippur, o dia mais sagrado do judaísmo, algo equivalente ao Natal dos cristãos. Há um precedente. Em 1973 Anwar Al Sadat, presidente do Egito, lançou a última guerra do seu país contra Israel nesta data e estes, mal informados ou com excesso de confiança, decidiram não “estragar” os festejos dos seus soldados em larga escala e sofreram um rude golpe inicial.

No final o Egito perdeu a guerra, mas de forma mais honrada do que a da humilhação da anterior guerra dos seis dias. Na altura era uma guerra de soldados e de tanques. Não de bombardeamentos a civis nem de pseudo-hospitais como bases militares

Em 1977 Sadat visitava Israel, houve os acordos de Camp David em 1978 e finalmente o tratado de paz em 1979. Foi o primeiro passo para a pacificação entre as várias nações da região, chegando posteriormente mesmo à OLP de Arafat em Oslo, em 1993.

Em 1981 Sadat morre assassinado por jihadistas que não lhe perdoaram a paz. Yitzhak Rabin também pagaria com a vida a sua opção pela paz.

Se alguém pensou em Sadat e no Yom Kippur de 1973, será importante que pense também no que se seguiu. Os herdeiros dos assassinos de Sadat e de Rabin não devem ser desculpados, tolerados … nem financiados. 

06 outubro 2025

Funda, mas não sangra

Há uns anos, numa praia, assisti a uma cena algo caricata. Uma criança tinha-se ferido num dedo e, desatado o berreiro, lá veio a comitiva de mamã e titis para averiguar e ajudar. Ouvi um diálogo curioso:

- Ai que golpe tão profundo que fizeste!

Alguém questionava: - E sangra?

Sendo a resposta: - Não sangra, mas é muito fundo!!

Lembrei-me disto a propósito de os ativistas da flotilha libertados se queixarem de ter havido espancamentos. Ora bem, um espancamento deixa sinais, nomeadamente, pelo menos, uma nodoazita negra. Se existisse um ativista assim marcado, já a imagem teria corrido este mundo e o outro. Terá sido assim tipo ferida funda, mas que não sangra. Digamos que para quem considera Israel um Estado assassino, até podem considerar que regressaram bem de saúde e em aparente boa forma.

Afirmações que estão ao mesmo nível das afirmações da ativista Ana Alcade, a “Barbie Gaza”, segundo a qual o Hamas não violou mulheres israelitas durante o ataque do 7 de outubro. Tudo gente séria.

Espero um dia saber donde vieram os fundos para esta viagem…

04 outubro 2025

O comércio das boas causas

Há uma coisa que me repugna fortemente. É ver evocada uma boa causa, justa e solidária, quando a agenda e os objetivos reais são outros. É o caso desta famosa flotilha e da sua suposta missão humanitária. É evidente que se o objetivo fosse mesmo humanitário, as ações teriam sido outras. Qual o sentido de enviar uns barquitos ao longo de toooodo o Mediterrâneo, sabendo obviamente que nunca lá iriam chegar?  Também ainda estamos para ver qual a natureza e dimensão dessa ajuda embarcada.

O objetivo era chegar onde chegaram. Publicitar e sensibilizar a opinião pública para a guerra de Gaza. Têm todo o direito de o fazer, mas chamem os bois pelos nomes. Já agora, atirar os telefones para o mar… porquê? Que segredos continham? O caricato de mandar borda-fora as facas da manteiga também não se entende, mas não serão tão nocivas para o ambiente.

Fico na expetativa de ver uma nova flotilha organizada na direção da Crimeia, ilegalmente ocupada, para protestar contras as atrocidades cometidas pelos russos na Ucrânia… mas não a iremos ver. Não estaria alinhada com a agenda políticas destes ativistas e, se de lá se aproximassem, a abordagem e o tratamento recebido seria certamente bastante mais violento do que o agora aplicado pelos malvados israelitas.

25 setembro 2025

Reconhecimento, ficções e realidades




Por estes dias, Portugal e mais alguns países reconheceram o Estado da Palestina. Parece ser principalmente um sinal para Israel pelo que se passa em Gaza. Independentemente da justeza e da necessidade de pressionar Israel, pode-se questionar se é eficaz e se faz sentido. Em primeiro lugar, hoje há duas palestinas. A Cisjordânia, governada pela Fatah, com Mahmoud Abbas eleito presidente em 2004, depois não houve mais eleições, e Gaza controlada pelo Hamas, um movimento, no mínimo, pouco civilizado e democrático…

Fui reconhecida qual delas? As duas em conjunto é um pouco do campo ficcional, dado o afastamento e o antagonismo entre os dois movimentos. Uma certa lógica institucional diria que, apesar do tudo, foi reconhecida a Cisjordânia, mas isso não mudaria grande coisa em Gaza, controlada pelo Hamas, com o histórico conhecido. Como se pretende que fique Gaza depois disto? Esta indefinição num passo tão relevante como este é algo caricata.

Se se trata de pôr em prática boas intenções, plenamente justas, acrescento duas sugestões. A primeira é promover e reconhecer um Curdistão, uma pátria para os Curdos, que várias vezes mostraram uma boa capacidade de se organizarem e governarem, até serem fatalmente esmagados por um vizinho poderoso.

A segunda é reconhecer Taiwan, que tem definição, organização e instituições dignas de um verdadeiro Estado, sem a mais pequena sombra dúvida. A menos que a ideia é ser firme contra os erros das democracias e tolerante face às arrogâncias das ditaduras.

Atualizado a 26/9 com recorte da publicação no Público.

03 setembro 2025

Cancelamentos e indignações


Vamos supor que nos idos da década de 60 do século passado, Amália Rodrigues ou Carlos Paredes têm um concerto programado numa sala de Paris e que o mesmo é anulado por questões de segurança, já que um ruidoso movimento contestatário da ditadura e do colonialismo de Portugal exige a o seu cancelamento e ameaça com perturbações da ordem pública, caso se realize. Parece bem?

É delicado avaliar uma ação atual colocando-a num cenário passado, mas podemos sempre questionar se se justifica cancelar todo um país, seus cidadãos e artistas, pelas ações do seu governo. Isto vem a propósito do que assistimos atualmente quanto a Israel. Uma coisa é Netanyahu e a sua geringonça, outra coisa são os cidadãos do país, alguns abertamente contra as ações do seu governo e ainda outra serão os judeus espalhados pelo mundo.

Cancelar e mesmo atacar tudo o que cheire a israelita e judeu é um triste reflexo de uma coisa feia, que pensávamos desaparecida, especialmente da parte dos movimentos “progressistas”.

Se há quem queira contestar contra o que se passa em Gaza, está no seu direito, sem dúvida. Agora, não o façam exclusivamente para essa situação e todos os santos dias. Tentem o seguinte: 2ªfeira pelos palestinianos, 3ªfeira pelos LGBTs no Irão, 4ªfeira pelas mulheres no Afeganistão, 5ªfeira pelos Uigures na China, 6ª feira pelas minorias cristãs no Médio Oriente, sábado pelos curdos na Turquia e domingo pela Ucrânia. Na 2ªfeira seguinte voltam à Palestina ou podem ainda acrescentar alguma situação em África, onde não faltam também motivos de indignação.

Esta fixação exclusiva nos palestinianos não é simplesmente humanitária, é política e, pela minha parte, acrescentaria um dia para protestar contra os financiadores do Hamas e de todos os movimentos que não buscam de todo algum caminho de paz.

Nota adicional em 5/9, para os cépticos quanto à seletividade politica destas contestações. Qual foi a atividade destes ativistas quando, para combater o "Estado Islâmico", Al-Assad e Putin bombardearam e massacraram populações civis? As bombas russas sobre Aleppo eram mais humanitárias do que as de Israel sobre Gaza?

02 agosto 2025

Estado a mais ou Estado a menos


Os recentes anúncios por parte de vários países de reconhecimento de um Estado Palestiniano parecem-se ser principalmente uma tentativa de pressão/castigo sobre Israel, que merece certamente ser forçado a mudar de atitude.

Se esse reconhecimento proporcionará um avanço consistente na pacificação da região, é outra questão. Em primeiro lugar, os defensores do “from the river to the sea…” dizem claramente que Israel não tem direito a existir e não é com esses que a paz chegará. A história está cheia de migrações na sequência da constituição dos Estados Nações, por exemplo após a queda dos impérios (vejam o Otomano, com os gregos e os arménios) e no final das guerras (vejam os milhões no centro da Europa após a II Grande Guerra). No entanto, não há mais nenhum lugar no mundo em que as feridas dessas deslocações fiquem abertas tanto tempo e com netos de refugiados a continuar a usufruir do estatuto de “refugiados”.

Certo que as mortes de civis em Gaza têm que acabar, mas decretar um Estado, a menos de alguma influência indireta sobre Israel, que dará na prática? Esse Estado que representatividade terá, que governação terá, que segurança trará? Em 2006 houve eleições na Palestina, ganhas pelo Hamas, que deu guerra civil e administração separada das duas zonas, Gaza pelo Hamas e Cisjordânia pela Fatah. Depois disso não voltou a haver eleições e não foi Israel quem o impediu.

O que fez o Hamas livre em Gaza desde a retirada completa de Israel em 2005? Preparou nova guerra. Podem decretar que o Hamas ficará agora excluído, mas quem o financia encontrará certamente um Hamas-bis que retomará a cartilha e a ação.

Na minha opinião, o fundo do conflito é haver fações árabes que não aceitam menos do que a hegemonia árabe e muçulmana na região. Todas as guerras neste conflito foram iniciadas pelos árabes: 1948, 1967, 1973 e 2023. Com o tempo, líderes responsáveis, a começar por Sadat em 1978, foram progressivamente entrando num processo de normalização e de aceitação de Israel, mas “sobra” sempre alguém que retoma a atitude agressora. Certo que Israel, tem muitas ações condenáveis na sua história, mas é óbvio que, com o seu modelo de sociedade, se tiver a sua segurança garantida, será fácil encontrar solução. Outubro 2023 provou que deixar Gaza livre durante 17 anos não foi caminho para a paz.

PS: Atualizado a 7/8 com o recorte da publicação no Público

29 junho 2025

Apelar à paz

Por diversas razões e em diversos cenários temos guerra no mundo. A Rússia invadir uma Ucrânia sossegada, que não tinha ambição militar, apenas pretendia viver como no mundo ocidental é diferente de neutralizar preventivamente o potencial nuclear do Irão, que tinha, e tem, propósito assumido de destruir Israel. Estabelecer analogias entre os dois casos, só mesmo para quem os EUA e o ocidente estão sempre do lado errado e não será por essa lógica que chegaremos a algum lado válido.

Certamente que devemos ser pela paz e apelar à mesma. O problema é quando os apelados são insensíveis a discursos de Miss Mundo e de secretários-gerais da ONU. Pode-se referir o belo exemplo de Ghandi, que teve sucesso, mas face a um estado minimamente de direito, que era o Império Britânico. Enviem um Ghandi uigur contestar pacificamente em Pequim e contem-me o resultado.

Para figuras como Putin, os apelos são obviamente inconsequentes. Até se deve rir da ingenuidade. Gente para quem os argumentos válidos são apenas os da força militar ou económica, só responderão face a esses mesmos argumentos. Lamentavelmente é mesmo assim. Só em sociedades democráticas e livres é que os apelos podem surtir algum efeito e, por norma, raramente são eles quem despoleta os conflitos. Sim, já estou a ouvir contestação a esta afirmação, mas vão ver objetivamente nas guerras em curso quem disparou o primeiro tiro.

Como se dizia já na antiguidade, "Se queres a paz, prepara-te para a guerra". Não sei se são necessários 2% ou 5% ou outras percentagens, mas fazer figura de pomba no meio de um bando de falcões… estes agradecem. Não é a pomba que vai converter os falcões maléficos em aves boazinhas

11 outubro 2024

Pobres libaneses


Pobres libaneses que nascendo no que outrora era considerado a Suíça do Médio Oriente, multicultural e livre, vivem hoje num país destruído, desestruturado e de frágil autoridade.

Pobres libaneses que se viram invadidos em 1970 pelos palestinianos da OLP, expulsos da Jordânia num “setembro negro”, após programarem assinar o rei anfitrião e aí tomar o poder. Seguiu-se uma desestabilização e uma guerra civil, cujas cicatrizes ainda não desapareceram.

Pobres libaneses que a seguiram viram instalar-se no seu país uma organização militar patrocinada e dirigida pelo Irão e que, sem ser controlada nem prestar contas às autoridades libaneses, mais não busca do que violência e destruição.

Podemos entender que os Palestinianos na Cisjordânia tenham capital de queixa pela presença e controlo israelita; mais difícil é entender que a faixa de Gaza, deixada tranquila por Israel desde 2005 queira reacender a sua guerra, mas o Hezbollah? Que argumentos tem para estar há um ano a tentar massacrar o norte de Israel? Ainda por cima, sendo xiitas que ainda não há muito tempo lutavam ferozmente na Síria contra a família sunita onde se enquadra e se alimenta o Hamas?

Que, depois de um ano de ameaças e assédio, consideradas “normais” por uma certa comunidade internacional, agora Israel se defenda proactivamente, é de súbito um “ai Jesus”, que estão a escalar a guerra…?

Podemos e devemos questionar a estratégia de Israel em Gaza, mas que contra-ataque quem o ataca a partir do Líbano sem outra razão nem objetivo que não seja a sua destruição, deveria ser mais difícil de criticar.

Pobres libaneses que não os deixam viver em paz no seu outrora belo país, entre os seus cedros.

20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

31 agosto 2024

Pobres palestinianos


Pobres palestinianos de Gaza onde tantos estão a sofrer o que nenhum ser humano deveria sofrer. Mas, como dizia até o insuspeito Guterres, isto não nasceu do nada, nem começou no dia 8/10/2023. Vejamos.

Pobres palestinianos que na sequência da constituição do Estado de Israel foram empurrados para uma guerra pelos seus vizinhos árabes. Pobres palestinianos que após perderem essa guerra, viram a sua parte da Palestina ocupada pela Jordânia e pelo Egito, em vez de os terem deixado constituir livremente o seu Estado, logo naquela altura.

Pobres palestinianos deslocados que, em vez de se integrarem no novo espaço, foram colocados ad-eternum em estatuto de refugiado, a caminhar já para um século. Os gregos ortodoxos ameaçados que fugiram da Ásia Menor após a formação do novo país Turquia, ainda estão em campos de refugiados do outro lado do mar Egeu?

Pobres palestinianos de Gaza que deixados tranquilos pelos Israelitas por quase 2 décadas, viveram numa prisão, num regime ditatorial severo, sem liberdade de expressão, nem de contestação, donde não se podia sair livremente, nem para o Egito, mas onde podiam entrar camiões plenos de armamento. Pobres palestinianos que viram a larga ajuda externa servir para preparar a guerra em vez de tentar construir a paz e promover o seu bem-estar.

Pobres palestinianos que depois das iniciativas e acordos de paz com os países árabes e a próprio OLP sofrem agora um Hamas, que não tem um mínimo de vontade de encontrar um apaziguamento. E, vai uma aposta, se o Hamas acordar em calar as armas, aparecerá a seguir outra coisa qualquer para retomar a guerra?

Pobres palestinianos que viram o Hamas organizar e desencadear o brutal 7/10, que não teve mais propósito ou efeito do que provocar uma reação brutal do vizinho ameaçado.

Para que fica claro, para quem leu até aqui, Israel tem fama de responder desproporcionalmente e não está a deixar os seus créditos por mãos alheias. Infelizmente a qualidade humana dos seus líderes não está ao nível da dos de há umas décadas (não é só por lá), mas colocar o ónus do sofrimento palestiniano apenas ou principalmente em Israel não ajuda a causa do povo palestiniano.

E, já agora, uma palavra para tantos povos no mundo que estão a sofrer tanto ou mais do que os palestinianos, sem que isso pareça ser relevante para as opiniões publicas publicáveis.

11 agosto 2024

Judeus, israelitas e Netanyahu


Uma das caraterísticas da xenofobia e de outras limitações cognitivas e/ou desonestidade intelectual é a generalização de um negativo individual para o global da comunidade. Há um Xieiro que cuspiu para o chão? Os Xieiros são gente que cospe para o chão. Há nazis na Alemanha, a Alemanha é terra de nazis. Há manifestações racistas na Inglaterra… os ingleses são racistas. Esta generalização será tanto mais fácil e intensa quanto menor for o conhecimento efetiva da realidade objetiva e facilidade manipulativa. Já agora, antes de 1974, os portugueses eram todos fascistas?

Isto vem a propósito do antissemitismo que ressurge por estes tempos, supostamente na sequência da intervenção de Israel em Gaza. Claro que a ação de Netanyahu em Gaza tem aspetos condenáveis, claro que o indecente ataque de 7/10 “obrigava” a uma reposta e claro que, atendendo à forma como o Hamas faz das populações civis escudos humanos, essa resposta afetaria certamente inocentes.

Agora, Israel é um país onde há quem discorde de Netanyahu e pode demonstrá-lo livremente na rua sem ficar com ossos partidos ou pior. E assumir que todos os judeus aplaudem e apoiam os excessos do poder atual em Israel e com isso relançar um antissemitismo global é ignorância, estupidez ou pior.

Convém recordar que todas as guerras Israel – Palestino/árabes não foram provocadas por Israel e quem lança uma guerra e perde, perde …. Convém recordar que a faixa de Gaza esteve livre, se é que para um território sob o controlo do Hamas essa expressão possa ser usada, sem presença de ocupante israelita, desde 2005…

Enfim, a facilidade com que se abraça o antissemitismo é um reacender de coisas que infelizmente não querem desaparecer. É rancor e ódio contra uma comunidade diferente e invejada por ser frequentemente próspera? É a nostalgia dos estados nação religiosamente homogéneos onde outros credos fugiam ao controlo e promiscuidade entre religião e Estado? Isto e ou muito mais, é triste e, desculpem lá uma ironia final. Frequentemente aqueles que pedem todo o respeito e tolerância para alguns “outros”, que até apresentam códigos sociais incompatíveis com a nossa norma, são os mesmos que lançam este ódio contra estes “outros” que não atrapalham rigorosamente nada nem ninguém na nossa sociedade. Descubra as diferenças…

20 maio 2024

Protestos contra… os próprios


Tem-se visto algumas referências ao paralelismo entre os atuais protestos de estudantes, particularmente nos USA, contra a guerra na Palestina e aos de há umas décadas atrás contra a guerra do Vietname. Há alguns pontos em comum, mas a intervenção militar americana na indochina tinha motivações, objetivos e antecedentes completamente diferentes dos do contexto atual. Também quem protestava era quem, ou seus próximos, lá ia expor-se, o que não é o caso de todo neste momento.

O que há também de comum entre estes protestos e outras contestações estudantis é o serem “contra o seu sistema”. É compreensível e meritório que os jovens queiram e exijam um mundo melhor e questionem a forma como o seu mundo é administrado, mas isso não deveria gerar simpatia por regimes brutais, largamente piores em termos de respeito pelos direitos humanos do que o mundo ocidental. Porque será que a brutalidade da Rússia na Síria para acabar com o Estado Islâmico, poucos dedos fez levantar? Xinjiang diz alguma coisa?

Na fundação de Israel, este enfrentou os estados árabes promovidos pelo ocidente, na sequência da reorganização dos Médio Oriente, pós queda do império Otomano. Assim, inicialmente foi buscar apoio ao chamado bloco de Leste. Vai uma aposta em como se hoje os EUA ainda apoiassem apenas os árabes e a Rússia suportasse Israel, os estudantes americanos estariam sossegados ou, quando muito, a sair à rua com bandeiras do estado judaico, protestando contra o (seu) imperialismo que tinha desencadeado esta guerra desnecessária? Depois, há também quem se aproveite desta ingenuidade/ignorância e que lhes chama “idiotas úteis”.

16 abril 2024

OLAG - Organização de Libertação da Anatólia Grega


 

Não há, mas podia ter havido.

Na sequência da queda dos impérios, especialmente no final da Grande Guerra, estes desmembraram-se em vários estados nação, que buscaram identidade e estabilidade pela homogeneidade étnica e religiosa. Dentro desse processo a vida não foi fácil para os arménios e gregos no novo país Turquia. E para muitos até nem foi longa…

Além dos que foram mortos, tema ainda hoje sensível, dezenas de milhares de gregos ortodoxos atravessaram o mar Egeu e instalaram-se na atual Grécia. Agora, vamos supor…

Foram colocados em campos de refugiados e três gerações depois ainda aí continuam, ostentando a chave da casa abandonada pelos avós e vivendo em condições degradadas, na dependência de uma agência da ONU.

Foi criado um movimento OLAG – Organização de Libertação da Anatólia Grega (em grego talvez fosse OEAA - Oργάνωση Ελληνική Απελευθέρωση της Ανατολίας), apoiada e financiada pela Rússia e outros países ortodoxos, que realiza ações terroristas contra interesses turcos, chegando mesmo a sequestrar e assassinar uma delegação de atletas turcos nuns jogos olímpicos. Lança ataques terroristas contra território turco e, em retaliação, a Turquia ameaçada invade a Grécia e anexa uma parte dela.

Nas escolas ortodoxas gregas é ensinado desde a primeira hora que um turco é um inimigo que merece castigo e ódios ilimitados. Os turcos vêm os gregos como gente que os odeia e um perigo permanente.

Quando décadas depois a OLAG se normaliza um pouco e assina um acordo de paz com a Turquia, nasce um novo movimento, Os Ortodoxos Radicais, que relançam as hostilidades.

Quando a Turquia está progressivamente a sair da Grécia ocupada e a permitir a autonomia aos ortodoxos gregos, estes aproveitam essa liberdade para organizar e lançar novo ataque terrorista brutal na Turquia.

A ferida continuaria aberta, e por aí fora seguimos…

Esta história não se passou assim, apesar de gregos e turcos não serem grandes amigos como a situação em Chipre o atesta, mas um pouco mais a sul, noutra zona do ex-império Otomano, por aí seguimos. Descubra as diferenças….

14 abril 2024

Eu sou Israel

Eu sou Israel e isto não significa estar de acordo com toda a política e atuais políticos no poder no país. É pena que Netanyahu não seja um Yatzhak Rabin, mas foi eleito, será reeleito ou não, julgado se necessário e é possível no país haver manifestações contra o governo sem riscos para a vida económica ou física de cada um.

O conflito com os palestinianos eterniza-se, Israel não é inocente, mas tão pouco o principal responsável. Se em 1949 os “amigos” árabes tivessem permitido a constituição de um estado palestiniano em vez de terem ocupado os territórios, há muito que o assunto estaria encerrado. Mas não. Enquanto os judeus deslocados se integraram no novo estado hebreu, os palestinianos foram colocados em campos de refugiados, já lá vão 3/4 de século! Após um certo tempo razoável, os refugiados retornam se houver condições ou integram-se. Não há justificação racional para permanecem geração após geração assim confinados. Em quantas dezenas de processos, pós-queda dos grandes impérios e constituição de estados nação mais ou menos homogéneos houve deslocações de populações da mesma amplitude e hoje os processos estão cicatrizados?

 Se o Hamas não tivesse sido criado e boicotado o processo de paz em curso, talvez hoje não houvesse guerra. Governando Gaza “tranquilamente”, sem invasor presente, desde 2005, o que é que o Hamas organizou para o martirizado povo palestiniano? Guerra, culminando no vergonhoso ataque de 7/10/2023.

Porque é que a brutalidade da Arábia Saudita no Iémen desde 2015 não suscitou especiais reações, porque é que quando a Rússia arrasou parte da Síria para travar um movimento terrorista, causando largas dezenas de milhares de mortos, isso não casou indignação?

Porque este confronto não é entre mesquitas e sinagogas. Já agora, em Israel existem muçulmanos, mesquitas e partidos árabes representados no Knesset e o recíproco nem de perto nem de longe. O confronto em torno de Jerusalém é entre dois modelos de sociedade e governo. Entre as democracias liberais, onde as pessoas são livres, busca-se a prosperidade e as mulheres não são seres de segunda e as ditaduras repressivas.

Sem pretender justificar ou desculpar todas as reações de Israel, que de certa forma caiu na armadilha que o Hamas preparou em 7/10, este processo não cicatriza porque cada vez que disso se aproxima, alguém vem provocar a reabertura da ferida.

Os drones que passaram a última noite sobre Jerusalém são os mesmos que se lançam sobre Kyiv. A luta é a mesma e eu estou claramente do lado dos países em que os cidadãos (e cidadãs) têm voz e liberdade para a usar.

 

06 fevereiro 2024

Refugiados para sempre?


Na recente polémica com a agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos, a UNRWA, tem-se realçado a importância do trabalho humanitário que ela desenvolve, mas também se pode colocar uma questão. Porque é que ela ainda existe hoje e com tamanha importância?

Refugiado é alguém que perdeu a sua casa e condições de vida onde estava estabelecido, foi forçado a deslocar-se para outro lugar, encontrando-se numa situação de fragilidade. Faz sentido beneficiar de apoio e solidariedade nesse momento, mas a lógica é que seja uma situação transitória. Ou há normalização das condições e ele retorna, ou se instala definitivamente algures. Campos de refugiados com gente em condições precárias durante décadas não fazem sentido.

Aqui, estamos a falar de refugiados na sequência da fundação de Israel em 1948! Quantos dos palestinianos atualmente com esse estatuto eram já vivos nessa altura? Dentro do mesmo processo, os judeus que abandonaram as zonas árabes, instalaram-se algures em Israel e reconstruiram as suas vidas. Algumas décadas antes, centenas de milhares de gregos ortodoxos foram obrigados a abandonar a Turquia, quando esta se constituiu, e atravessaram o mar Egeu, mas não ficaram eternamente a viver em campos de refugiados e a chorar a chave da casa perdida. Inúmeros exemplos análogos podem ser encontrados na História.

Obviamente que para quem quer eternizar os conflitos e manter a pressão, dá jeito existirem ainda e sempre “refugiados”. Ajuda a capitalizar as reivindicações e a manter a causa viva. Estes palestinianos estão de certa forma “aprisionados” e, nisto como noutros pontos, vítimas dos defensores de uma certa causa, não necessariamente a que mais lhes interessa.

31 outubro 2023

Algures neste mundo


Algures no Médio Oriente, para dominar uma sublevação e um movimento terrorista, uma cidade é fortemente bombardeada, causando a morte de milhares de civis inocentes. Falamos de Gaza em 2023? Sim, mas não só. Poderíamos estar também a falar de Alepo, arrasada por bombardeamentos russos em 2016. A bandeira dos aviões era diferente, mas as bombas e as vítimas nem tanto.

O que foi muito diferente foi a reação e as manifestações de apoio e repúdio por este mundo fora, como se as bombas russas, para muitos, fossem toleráveis face ao mal em causa e as israelitas não. Esta flagrante diferença de critérios ajuda a explicar em parte porque este conflito não acaba e a causa palestiniana é para muitos bastante conveniente. Temos de um lado os ocidentais antiocidentais, para os quais o sistema económico e social de Nova Iorque, Londres, Roma, Lisboa ou Telavive é maléfico e, por oposição de princípio, apoiam o inimigo do inimigo. Se bem que, no fundo, não me pareçam muito motivados a irem mesmo viver para os outros sistemas alternativos de Moscovo, Teerão, Pequim ou Pyongyang.

Do outro lado estão os verdadeiramente defensores desses regimes alternativos, que odeiam (e invejam?) o ocidente e os seus valores. Estes são mais perigosos e consequentes. Não desvalorizando as desgraças em curso naquela zona do planeta, convém não misturar as causas e confundir as leituras. O primeiro passo para encontrar soluções é ler corretamente o enunciado.