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09 novembro 2020

70 Milhões de Parvos

 


Ao contrário dos golpes palacianos, ou de caserna, em que ocorrem descontinuidades no poder, sem que a rua participe ou saiba bem o que se passa, nas revoluções há uma ignição, eventualmente provocada por uma questão secundária, mas que vai encontrar eco numa parte significativa da população, recetiva a uma mudança de regime, e que assim se consolida.

Acho que estamos a assistir a uma revolução, não necessariamente ao longo de uma simples madrugada, nem em direção a amanhãs entusiasmantes. Está em curso uma mudança significativa de valores e de princípios valorizados pelos eleitores. Os 70 milhões que nos USA votaram num parvo, não são todos parvos, basicamente não queriam mais do mesmo. Numa versão mais suave do que já foi, o “Front Nationale” francês arrisca-se a eleger o próximo presidente do país. Isto era um cenário de pesadelo considerado absolutamente impossível não há muito tempo. E mais exemplos não faltam.

A eleição de Biden (a derrota de Trump) é algo de positivo, mas não é nem deve ser considerada um alívio porque não consolida nada. A revolução contínua e não serve de muito condenar as faíscas quando se é descuidado com a pólvora.


30 janeiro 2019

Em busca do círculo quadrado


Corria o longínquo mês de junho de 2016 quando ocorreu mais uma inglesice, britanice ou reino unidiotice. Um referendo sobre a permanecia do Reino Unido na UE. À partida seria mais uma “pequena” prova de fogo, tal como os referendos de má memória aos tratados europeus, que tantos sustos causaram. Podia ter sido apenas mais uma ameaça, mas não foi...

No dia seguinte voava nos ares a pergunta incrédula: e agora, o que se segue? Os políticos de sua majestade viram-se na amarga necessidade de limpar uma porcaria, que eles tinham espalhado, uns mais do que outros, e para a qual não possuíam detergente. Se pensarmos na questão irlandesa, que parece ser um dos problemas fundamentais, é óbvio estarmos perante uma quadratura de círculo. Aparentemente ninguém quer fronteira física entre a República e a Irlanda do Norte, permanecendo esta assim, na prática, integrada na Europa em termos de libre circulação. Se bem entendi, a Europa não o pode permitir sem nenhum tipo de controlo ou salvaguarda e o UK não quer aceitar esta interferência europeia…

No fundo, no fundo a culpa imediata desta trapalhada é de quem resolveu referendar uma coisa que não se sabia bem como seria. Podia ter corrido bem se a resposta fosse outra, mas como não o foi, está um imbróglio bem atado. A culpa mais remota foi de quem vendeu uma vaga ideia que incluía um círculo quadrado. Uma vaga ideia e um ser contra, já que os (maus) políticos estão sempre bastante predispostos a “serem contra”.

Um referendo desta natureza e com este impacto nunca poderia ter sido lançado sem um enquadramento mais detalhado do que estava mesmo em causa e respetivas implicações. Simplesmente perguntar: é para sair ou para ficar foi de uma enorme irresponsabilidade e não creio que alguém fique a ganhar com isto, nem em riqueza nem em credibilidade. Ninguém e em primeiro lugar, obviamente, o UK.

10 novembro 2017

O King Maker


Nos anos 70, houve no Parlamento um famoso e (a)típico deputado da UDP, de nome Acácio Barreiros. Para muita gente era considerado importante existir um ou dois naquele registo, vá lá, no máximo três, mas estava completamente fora de questão que pudessem mandar mesmo… O atual Bloco de Esquerda é um herdeiro direto do partido original de Acácio Barreiros. Mais polido e bem-apresentado, mas as raízes vêm de lá.

Abrindo uma exceção à não utilização de estrangeirismos, os Acácios Barreiros sucessores estão a tornar-se os “king makers” dos regimes e não exclusivamente em Portugal. A degradação e descrédito dos partidos tradicionais do poder faz subir os extremos, que acabam por se tornar os “viabilizadores” das soluções governativas. É uma situação perfeitamente normal, do ponto de vista da representatividade democrática, mas...

Dada a sua “sistemática marginalidade anti-sistema”, a participação ou apoio a uma solução de “poder tradicional” pode ter elevados custos eleitorais. Assim, eles precisam de vender a pele bastante cara e deixar uma assinatura clara nos programas governativos, resultando desproporcional à sua base eleitoral e, sobretudo, desalinhado com a larga maioria adepta de um modelo “tradicional”, com ligeiras nuances para a direita ou para a esquerda. Esses programas acabam por parecer mais uma lista de mercearia de exigências avulsas atendidas, do que algo com orientação e sentido estratégico, entrando-se assim numa navegação à vista, quando os tempos pedem outra coisa.

Saindo de Portugal, o que vemos na Catalunha é muito isso. Os anarquistas/radicais minoritários impuseram uma agenda e criaram a dinâmica que deu nesta triste figura. Como pode alguém falar/defender uma legitimidade democrática saída da “trapalhaçada” do 1/10? Como pode alguém de “esquerda” defender a separação de uma região rica que não quer ser solidária com as mais pobres?

Saindo da esquerda para a direita, noutras paragens, xenófobos e racistas vão chegando à primeira fila. São tão perigosos quanto os radicais de esquerda, dado que, como toda gente sabe, os extremos tocam-se.

07 outubro 2017

Independência para…?


Sim, o referendo não foi constitucional; sim, não era necessária tanta violência para o impedir, esta até ajudou a causa separatista; sim, assumir como válido o resultado de tal palhaçada, onde cada qual votava onde lhe apetecesse e quantas vezes quisesse, é digno de uma república das bananas… Sim, mas passando ao lado destes aspetos relevantes e indo ao fundo da questão.

O que é que a Catalunha ganha objetivamente, talvez, com a independência …? Considerando que não reduz a criação de riqueza local, deixará de a repartir com as regiões mais desfavorecidas de Espanha. Parece-me uma causa digna dos defensores de uma supremacia racial, um egoísmo a roçar a xenofobia, donde que não entendo como a extrema-esquerda apoia isto quando, em princípio, eles terão a solidariedade no seu ADN. Ganhará a pureza de fugir à corrupção que grassa em Madrid? Deixa-me rir…!

O que é a Catalunha perde com a independência? Muitíssimo. A integração em Espanha e na Europa, e, sobretudo, a confiança para o investimento numa região conduzida pelo “povo na rua”, secundarizando as normas escritas. Ou acharão eles que a suposta supremacia laboral, moral, etc e tal da nação catalã é tanta que a visão exterior não sairá afetada por estas trapalhadas? Uma pequena curiosidade, apenas ilustrativa: o excitado FC Barcelona que campeonato e troféus iria disputar? Um pequeno detalhe, enorme: o que custará a uma Catalunha isolada construir acordos comerciais com o resto do mundo, presumindo que não pretenderão viver “orgulhosamente sós”?

Pedir/exigir independência unilateralmente, porque queremos e logo se verá, sem uma avaliação e um enquadramento mínimo para a fase transitória e a seguinte, é digno de anarquistas. Alguns acham giro e excitante isto do anarquismo, mas não dá de comer a ninguém, pelo contrário, costuma trazer fome. Então, uma das regiões mais ricas de Espanha e da Europa, está a ser pilotada por anarquistas? Assim parece.

26 setembro 2017

Como é que isto vai acabar?


Desde que o parlamento catalão votou a realização de um referendo pela independência e o poder central o julgou ilegal, em sede de Tribunal Constitucional, que muitas cosas estranhas se passam por ali.

As autoridades de Madrid, querem fazer aplicar a lei, doa a quem doer. Os independentistas parecem estar borrifando-se para isso e acham que a vontade do povo (pelo menos duma parte, da deles…) é soberana. Vimos assim saírem ordens de prisão para todos os que organizarem, promoverem ou divulgarem o referendo e vemos autarcas, membros do governo local e até mesmo forças da ordem (os “Mossos”) a ignorarem determinações de juízes!

Estamos num ponto onde uma discussão e um debate razoável e civilizado já não parecem possível. Não sei julgar onde está a “culpa” maioritária ou minoritária, se na arrogância centralizadora, se no menosprezo pela lei dos separatistas. É certo que a História passa por vezes por saltar as leis, mas duvido muito que isso seja válido/necessário no enquadramento atual.

Vale tudo, até dizer que os governantes catalães interrogados, são presos políticos! É curioso ver alguém outorgar-se o direito de ignorar uma deliberação do poder judicial e a seguir queixar-se de sofrer uma suposta violação do Estado de Direito (que formalmente até não existe). O achar que as leis são para cumprir apenas quando no nosso interesse, é o princípio de uma coisa muita feia.

Em Portugal não temos uma Catalunha (parcialmente) assanhada, mas esta lógica (e esta lata) de alavancar poder com argumentação falaciosa que não resiste a duas simples perguntas, parece ser moda e, pior, eficaz, já que a tática é não responder objetivamente a perguntas, mas apedrejar argumentos. A ligeireza irresponsável, a arrogância intelectualmente desonesta e o faciosismo tribal, não auguram nada de bom para a futuro da liberdade e da democracia, nem na Catalunha nem aqui.

02 junho 2017

A pequena ilusão


Prémios Nobel, não serão tão abundantes quanto os chapéus, mas há alguns. Da economia sai, pelo menos, um por ano. O senhor Joseph Stiglitz foi Nobel da economia há 16 anos, em 2001, e tem um livro de referência publicado chamado, em português: Globalização, a grande desilusão.

Eu li (do princípio ao fim) esse livro e, na minha modesta opinião de um ignorante nas teorias, mas algo atento à realidade e, por isso, com direito a ter uma opinião, digo sobre o livro: algumas considerações interessantes, mas atalha muito em certos caminhos; não fazenda de forma nenhuma jus ao título. Se a “globalização” podia sem dúvida ter corrido melhor, mais controlada e mais gradual, como já o referi aí para trás, que se possa carimbá-la redondamente de “errada” é uma … conclusão precipitada.

Ora bem, como o Sr Stiglitz tem expressado umas opiniões favoráveis e simpáticas a uma certa corrente “contra”, tornando-se num deus, uma sumidade única, para alguns revoltados. Ainda por cima, é um “prémio Nobel”, como se esse título de há 16 anos fosse uma chancela de infalibilidade; como se o facto de poderem existir 20 ou mais “Nobeis” discordantes seja irrelevante para quem apenas ouve o que quer ouvir… e assim ficando com as vistas encurtadas.

Citando o meu “amigo” J. Brel, que sem ter sido Nobel era muito assertivo e sensato no que dizia: “O futuro depende dos revolucionários, mas dispensa bem pequenos revoltados”.

20 março 2017

O populismo perdeu?


Respiraram as elites de alivio, porque o povo na Holanda, não deu a vitória aos populistas. Ouvindo-os, dir-se-ia termos assistido a uma inversão da tendência e, daqui em diante, serão apenas amanhãs cantantes.


Ora bem, o partido do primeiro ministro desceu de 41 para 33 lugares no Parlamento. O partido populista, a besta negra, subiu de 15 para 20. Está certo que não ficou em primeiro lugar, mas, mais importante do que este alívio temporário, é saber se esta tendência se mantém ou se será apenas uma questão de tempo até a besta negra efetivamente vencer.

Enquanto as elites não forem exemplos de liderança e de seriedade e continuarem a serem vistos e a comportarem-se como básicos oportunistas, não estou a ver inversão, pelo contrário. Esta autossatisfação pelo sucesso holandês, que se quer decretar estrutural e consolidado, apenas os ridiculariza e desacredita mais. De vitória em vitória, até…

01 julho 2016

Ainda bem, Europa

Há exatamente 100 anos, a 1 de julho de 1916, começava a batalha do Somme, um rio que atravessa o Norte de França, cerca de 150 km a norte de Paris. Foi uma das linhas da frente da famosa guerra de trincheiras.

O envolvimento francês em Verdun, no leste, e os seus 163 mil mortos aí deixados, fez com que fossem as tropas britânicas as preponderantes nesta frente. Também por isso esta batalha é mais recordada do outro lado da Mancha.

Logo no primeiro dia morreram 19 mil britânicos. Durante 4 meses e meio, ao longo de cerca de 40 km, irão morrer 206 mil ingleses, 67 mil franceses e 170 mil alemães. Acrescentando os feridos, o número supera um milhão.

Hoje vivemos as ondas de choque do “Brexit” e quando assistimos a uma infindável, intragável e vergonhosa exploração politica e politiqueira do acontecimento, apetece dizer ainda bem. Ainda bem que a Europa de hoje não cava trincheiras. Por execrável e detestável que seja o discurso político ainda bem que vivemos numa Europa que não discute ao som das botas militares. E acredito ser irreversível.

A foto é da belíssima catedral de Amiens, cidade principal da região. Para me recordar de quando por lá passei e da quantidade de cemitérios militares que vemos sinalizados ao longo da estrada.

17 agosto 2015

FMI, FMI…

Desde o início que não entendo a participação do FMI nos resgates dentro da zona euro. É um pouco vergonhoso que a Europa e o Euro tenham tido necessidade de recorrer a essa instituição financeira. O argumento da sua experiência técnica vale pouco, dado os países em resgate não possuírem moeda própria. Um caso anterior, algo análogo, na Argentina, agarrando o peso ao dólar, foi um desastre. De uma coisa não tenho duvidas: se em 2010, em vez da Grécia, estivesse em causa, por exemplo, a França, mais depressa De Gaulle se levantaria do túmulo do que o FMI entrava lá…!

Agora, para a Grécia “take 3”, o FMI diz não entrar sem haver inicialmente uma restruturação da dívida, dado considerar que o país não tem capacidade para a reembolsar e, por isso, não pode emprestar ainda mais. Fico confuso. Então o FMI não é credor da Grécia? Só empresta mais se ele próprio aceitar um calote?!? Ou acha o FMI que que o calote deve ser apenas na parte dos outros credores? Espertos…! Por outro lado, se a função do FMI é precisamente intervir e tutelar os casos complicados, estará a Grécia assim tão mal, pior do que, por exemplo, o Mali?

Uma coisa eu entendo. Numa situação de crise alguém tem que liderar claramente e forte e feito, se necessário. Ou o FMI, ou a Europa. Este folhetim em que o menino doente se recusa a tomar medicação, face a uma troika de médicos, cada qual com o seu ponto de vista, em permanente negociação e busca de consensos, é imbróglio pela certa, como se constata.

02 julho 2015

Amplitude democrática

Continuam a surpreender-me a amplitude de alguns comentários sobre a legitimidade democrática das reivindicações gregas. Se um partido em Portugal propuser 2000 Euros de salário mínimo e reforma aos 55 anos, ganha as eleições. A seguir, podemos ir legitimamente pedir aos alemães que nos paguem?

Se a Alemanha convocar um referendo para saber se os seus contribuintes aceitam contribuir para um novo resgate à Grécia, que dirão os que estão hoje entusiasmados com a coragem de se convocar um referendo na Grécia? Já agora, convém recordar que segundo relatórios oficiais recentes, haverá cerca de 12.5 milhões de alemães a viver abaixo do limiar da pobreza, o número mais elevado após a reunificação.

A vida não é fácil e não se resolve berrando pelo dinheiro dos outros.

21 junho 2015

Uma nova esquerda

Há uma “nova esquerda” a nascer na Europa e a crescer no natural descontentamento do eleitorado com a degradação e a corrupção associadas aos partidos tradicionais. É “contra” os mercados e contra quem manda na Europa. Se bem que a Europa e a sua governação não sejam exemplares, fico a refletir no seguinte. Se todos os países Europeus, incluindo a Alemanha, fossem como a Grécia, governados por um Syriza com mãos largas a manter um brutal custo no Estado e de mãos rotas quanto a cobrança de impostos, com défices permanentes e a solicitar ajuda aos outros… como ficaria a Europa? Falida.

Ou seja, esta abordagem de sacar aos ricos, só funciona enquanto houver ricos. Tem alguma incoerência, não terá? É uma opção “marginal” e dificilmente um partido de poder consegue exercê-lo de forma sustentada, pedindo cheques ao inimigo, quanto mais não seja por uma guerra que acabou há 70 anos. Não é certamente “..mais um sinal da mudança da orientação política que está em curso na Europa, do esgotamento das políticas de austeridade e da necessidade de termos uma outra política …” Sic António Costa, Janeiro 2015.

Na encruzilhada em que a Europa está, globalmente mais pobre e a necessitar de encontrar novos equilíbrios, a esquerda precisa de procurar novos valores e rumos que certamente não passam por uma diabolização primária de quem é solvente.

03 março 2015

Numa origem do mal

Andava meio mundo entretido a comentar o cachecol do Sr Varoufakis e outro meio a inventar anedotas envolvendo as rodas da cadeira do Sr Schauble, que quase nem se prestou atenção às revelações do “Swissleaks”. Hoje o assunto tem menos visibilidade, já perdeu o efeito de novidade, mas vale a pena voltar ao tema.

Trata-se da revelação de uma fraude fiscal de 180 mil milhões de euros que a filial suíça do banco inglês HSBC proporcionou a 100 mil clientes. A lista divulgada reporta-se a 2006/2007, altura em que os dados foram “roubados” por um informático. Desde 2010 que ela circula reservadamente por polícias, responsáveis políticos e inspectores fiscais de vários países, sem, no entanto, suscitar muito entusiasmo ou ações concretas. Apenas agora, devido a um trabalho de investigação jornalística, vieram a público detalhes e nomes de envolvidos. Gente que fugiu aos impostos, muitos deles de países com contas públicas deficitárias e a precisarem de reduzir pensões e outras prestações socialmente sensíveis. Não deixa de ser curioso que quando se contam os tostões dos orçamentos de estado e se escrutinam as contribuições de cada país para os “resgates”, estes milhões fiscalmente tresmalhados pareçam ser um detalhe de somenos importância.

Preocupante ainda é o HSBC assumir não colocar publicidade em meios de comunicação “hostis”. No “Daily Telegraph” um jornalista de referência já se demitiu em protesto contra o facto de o jornal ter minimizado a cobertura do caso, para não perder receitas de publicidade. Não consigo entender como todos os protestos da opinião pública se concentram no senhor Schauble. Se são mesmo contra os “mercados” e o “capital malvado”, sejam coerentes e ataquem uma das principais origens do mal.

25 fevereiro 2015

E eu devo ser cubano

Como já referi atrás, o novo primeiro-ministro grego começou por pedir que “os alemães pagassem a crise”. Uma postura próxima da de Alberto João Jardim, mais identificada com reivindicação oportunista, a roçar a chantagem, do que com uma ideologia. João Jardim fez a contabilidade dos recursos naturais que os “cubanos do continente” roubaram da ilha ao longo da história; a Grécia pede um cheque à Alemanha pela guerra de há 70 anos. Qualquer razão é boa para “sacar” dinheiro.

Por outro lado, não entendo as críticas ao alinhamento supostamente pecaminoso de Portugal com a Alemanha. Eu prefiro ver Portugal a funcionar como a Alemanha do que como a Grécia. Ironia à parte, nestes exercícios imaginativos de “deves e haveres”, não se fala muito das “pipas de massa” que nestes últimos 30 anos entraram aqui e na Grécia, em boa parte com origem na Alemanha. Poderão estes pedir a devolução da parte que foi mal empregue e/ou desviada?

Uma coisa é certa, tal como está, não dá! Ou vai cada qual para o seu lado, com as suas contas separadas e a sua soberania, ou, ao pedir cheque atrás de cheque, quem os assina terá uma palavra a dizer na sua utilização: seja a Alemanha ou a “Europa”. Alguma coisa precisa de mudar, mas não será com o descarado e hipócrita Sr Junckers que a tal Europa se afirmará.

09 fevereiro 2015

Os ricos que paguem a crise

Tempos houve em que esta frase típica da esquerda aparecia pintada pelas nossas paredes. Neste sentido, o novo primeiro-ministro grego, não será muito de esquerda. Com o Syriza os gregos ricos parecem estar tranquilos, inclusive os armadores absurdamente isentos de pagar impostos pela própria constituição do país. A mensagem de Tsipras é “os alemães que paguem a crise” e não hesita em pedir ajuste de contas pela guerra.

Em nome do enorme contributo da Grécia histórico para a nossa cultura e civilização, pedimos uma coisa ao Sr. Tsipras. Por favor deixe a guerra na história porque é aí que todos a queremos ver.

26 janeiro 2015

O fundo da irresponsabilidade

O Syriza ganhou as eleições na Grécia e decretou o fim da austeridade. Eu também não sou “pela” austeridade. Fico é com curiosidade em ver o que irá decretar em seguida para pagar médicos, professores, policia e juízes, mesmo até excluindo os jardineiros de hospitais sem jardins. Idem para as pensões e até excluindo o número recorde de cidadãos centenários que a Grécia possui/possuía ainda a receba-las. Normalmente esses fundos deveriam vir dos impostos, os tais que ninguém gosta de pagar e onde os gregos são campeões da fuga. Mesmo sendo a realidade mais complexa, não me parece que o Syriza possa decretar serem os contribuintes alemães a substituírem os gregos. Se o comportamento da Alemanha e da Europa não foram exemplares, sobretudo por falta de visão e de antecipação, uma grande parte do problema grego nasceu na Grécia.

Lá e cá, a causa de fundo não está na Sra Merkel, facilmente diabolizada. Está na incapacidade e falta de seriedade dos partidos “tradicionais”. Está na incoerência gritante de se clamarem defensores de “valores”, quando a sua prática… deixa tanto a desejar. Podem os processos prescrever e nada ficar provado, mas entre isso e ficar apagado da memória do eleitorado há uma diferença muito grande.

Sobre valores, que dirão os que hoje se congratulam com este resultado, inquestionavelmente democrático, se um dia a Sra Le Pen ganhar as presidenciais em França?

30 dezembro 2014

E se o Syriza ganhar?

A possibilidade do Syriza ganhar as próximas eleições gregas e ser governo está a provocar muita excitação, em várias frentes. Eu confesso ter alguma curiosidade em assistir aos efeitos práticos de uma mudança dessas. Em primeiro lugar, seria um teste necessário para o Euro. A nossa bela moeda única, criada com muito optimismo (ou ligeireza) prevendo apenas dias de sol, precisa de estar preparada para lidar com decisões soberanas e democráticas de um país membro, doa a quem doer, e até poderá doer mais ao rebelde do que ao sistema.

Todos sabemos ou imaginamos qual o resultado de falar grosso a quem devemos dinheiro: depende de quanto a nossa dívida pesa para esse credor. Se for pouco manda-nos passear; se for relevante irá aceitando o “diálogo”… até valer pouco. Daí, eu ter muita curiosidade em ver na prática os efeitos desse “Não pagamos!”. Muito provavelmente ninguém depois emprestará decentemente um euro (ou um dracma) à Grécia e não acredito que fique numa situação melhor do que a actual.

Ou será que o Syrisa no poder, tornar-se-á mais “pragmático” e menos “idealista”? Sendo muito provável que a aplicação duma política de ruptura terá consequências duras, principalmente para os gregos, acho ser uma experiencia a tentar. De uma forma ou de outra é necessário clarificar e concretizar as alternativas possíveis para estas dívidas insustentáveis (onde se inclui a nossa) e para a governação desta europa perigosamente dividida entre o norte supostamente rico, sério e implacável e o sul declarado pobre, trapalhão e corrupto. A realidade é mais complexa e pode ser mais rica.

24 novembro 2014

Presunção de injustiça?

José Sócrates desperta paixões. Para as negativas é motivo de júbilo ele ter sido detido; para as positivas é um choque e impõe-se uma relativização/teoria da conspiração e até uma certa “presunção de injustiça”. No entanto, quem já foi passar um simples fim-de-semana a Paris, questiona-se certamente como um ex-servidor do Estado pode ter ou obter fundos para viver lá um ano inteiro como ele viveu.

As reações oficiais, responsáveis, apontam para a necessidade de separar a justiça da política e está certo, mas talvez apenas por agora … Ou Sócrates está/sai inocente, ou o problema pode chegar à política, sobretudo se se provar que a origem dos fundos em causa está dalguma forma relacionada com as suas anteriores funções de ministro e primeiro-ministro. Pior ainda será se ficar evidenciado que estes fundos tresmalhados não constituem um caso pontual mas sim sistémico.

A prudência oficial dos outros quadrantes políticos pode ter mais a ver com os vidros nos telhados do que com os “princípios”. Neste momento quero acreditar que a justiça tem fortes razões para agir como agiu e que algumas televisões terem estado no aeroporto será efeito de bufaria individual e não institucional. Não sabemos detalhes nem temos que os saber hoje, mas insinuar ou afirmar que não havia necessidade de o deter é, no mínimo, pouco fundamentado.

29 setembro 2014

Riqueza para distribuir, deve ser criada

Na mesma altura em que se anunciam recordes de encomendas para o novo iPhone recém-lançado, uma ONG de Hong Kong lança mais uma polémica sobre a fábrica chinesa da Foxconn que produz equipamentos para Apple. Fala-se em 13 casos de leucemia, provavelmente ligados às condições de trabalho, embora sem haver clara confirmação da relação causa-efeito. Não tenho naturalmente nada contra a China e o seu desenvolvimento, mas as questões recorrentes quanto às condições de trabalho reais demonstram ser um ambiente economicamente imbatível.

Nesta Europa deprimida e em crise crónica, quem governa não encontra mais remédio do que ir acrescentando buracos ao cinto que nos aperta e quem está na oposição, em geral, declara ser contra a austeridade e “pelo crescimento”. Nomeadamente a oposição de esquerda faz fóruns e plataformas para reunir pessoas contra “esta política”. É preciso ir contra os antigos “porcos capitalistas”, que agora ganharam uma nova alcunha de “mercados”, para manter o estado social, a solidariedade e todas essas coisas inquestionavelmente importantes.

No entanto, quantos dos participantes nesses fóruns e plataformas não terão uma poupançazita num fundo qualquer, que em boa parte são quem alimenta os malditos “mercados”? Mesmo sem terem corrido a encomendar o novo iPhone, quantos não convocarão essas reuniões de protesto e reflexão a partir de um equipamento fabricado numa Foxconn qualquer, com operários descartáveis e a trabalhar muito mais horas dos que as permitidas cá? Quantos estariam dispostos a pagar algo mais por um equipamento produzido na Europa, permitindo reduzir o desemprego e criar a tal riqueza que tão afincadamente querem distribuir?

Antes dos discursos inflamados e dos apelos à defesa das “políticas sociais”, seriam interessante entender porque esta está a falir, ir à raiz do problema… e ser coerente.

19 maio 2014

Regras e liderança

A Europa que eu quero” Esta citação do presidente francês dava o título a um artigo do Le Monde, simbolicamente ilustrado com fotografia com Hollande bem central e Merkel em segundo plano e fora de foco. O todo diz muito sobre a visão e acção da França e da Alemanha na Europa. Os primeiros gostariam de liderar, sonham com isso e mesmo que mandem pouco, falam e agem como se mandassem; os segundos têm todos os atributos (ou quase todos) para liderar, mas não querem, atribuindo-se um perfil pelo menos publicamente discreto. Aparentemente para Angela Merkel o fundamental é seguir as regras, dispensando-se um protagonista alfa. Efectivamente, se houver um conjunto de regras justas e claras, não é nem deve existir um sinaleiro em cada cruzamento a decidir discricionariamente quem passa em primeiro lugar. Os franceses poderão concordar com o princípio, mas com a condição de as regras serem definidas ou fortemente influenciadas por eles.

Só que isto é para o dia-a-dia. Para o futuro é necessário visão e inspiração e isso não nasce dos regulamentos. É necessária capacidade de mobilizar, inovar, realmente liderar. Não é o mandar do policia-sinaleiro, é o leme do capitão frente ao oceano desconhecido. E se na Europa isso falta de forma atroz, o curioso é a Alemanha declarar ser desnecessário… Será mesmo por incapacidade ou simples manha?

24 março 2014

A ressaca da democracia

O resultado das eleições autárquicas em França e o crescimento espectacular da extrema-direita assusta muita gente. Não tenho nenhuma simpatia pelas ideias da FN (Frente Nacional) mas não podemos deixar de respeitar a opção democrática do eleitorado. De recordar que já nas presidenciais de 2002 Jean Marie le Pen chegou a disputar a segunda volta, para grande surpresa e escândalo. E se é certo que a FN de hoje é diferente da de há 12 anos, o problema de fundo é igual, ou pior.

O simplesmente lamentar este resultado, com cara de enjoo, recordando que os “valores” do FN não se identificam com os da democracia, deixa algo por dizer. É que os “valores” dos partidos tradicionais “valem” apenas na teoria. Na prática os negócios e negociatas e a falta de ética dos seus políticos estão muito longe do que seria expectável e minimamente aceitável.

Quando no final da década de 90 a extrema-direita racista e xenófoba crescia na Bélgica, os partidos “sérios”, para a impediram de aceder ao poder, criaram uma grande coligação a que chamaram “cordão sanitário” e o mesmo deverá ser tentado agora na segunda volta destas eleições m França. O problema é que isso vale pouco se não estiver limpo o interior do dito cordão.

Tenho sérias dúvidas se, a prazo e após a experiência do poder, a prática da FN será diferente da dos outros, mas este fenómeno do eleitorado recusar os partidos tradicionais e embarcar em experiências mais ou menos radicais, como a do palhaço italiano, é um caminho muito perigoso e com uma ressaca imprevisível.