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15 novembro 2025

Podia ter sido diferente


Por estes dias escutei num dos podcasts do Observador a espantosa vida de Jorge Jardim. Dava um filme de fazer inveja a James Bond, ainda por cima tratando-se de realidade e não de ficção. O homem tinha iniciativa, coragem, habilidade, uma capacidade enorme de viajar, sobrevoar e superar desafios, perigos e dificuldades e, se calhar, alguma falta de “bom-senso”. Ter sobrevivido a tantas peripécias foi questão não só de sorte, mas também.

Uma grande curiosidade é a sua proximidade com Salazar, quando ideologias à parte, a distância de carácter devia ser enorme entre quem corria as quatro partidas do mundo, de todas as formas e feitios, e quem voou uma única vez entre Lisboa e Porto em 1966, dois anos antes de cair da cadeira, não gostou, não repetiu e ir além de Badajoz não estaria ao nível de transpor o Adamastor, mas quase.

Já nos anos 70, Jardim, homem do regime radicado em Moçambique, entende que a guerra colonial não é solução e começa a negociar por contra própria em Lusaca um acordo de independência para a colónia, equilibrado, procurando lugar para todos. Quando Lisboa soube, estupidamente não aprovou…

Veio o 25 de Abril e o novo poder entregou à Frelimo tudo de mão beijada sem condições, nem obrigações e deu no que deu, outro erro de Lisboa. Um padrão infelizmente frequente nas descolonizações, quando os movimentos de libertação são reconhecidos como legítimos e únicos representantes do “povo”, sem pedir opinião ao povo, nem nesse momento, nem depois.

Este ano comemoraram-se 50 anos dessas independências e, mais uma vez, lá vieram os discursos sobre a responsabilidade da herança colonial nas “dificuldades” atuais. Se seguirem a escola do Brasil, daqui a 50 anos Portugal ainda continuará a arcar com a culpa pela miséria e subdesenvolvimento. Há uns tempos Lula da Silva referia que o facto de a primeira universidade brasileira ter sido criada apenas em 1920 (facto contestável) era uma consequência da colonização portuguesa. Considerando que o seu país ficou independente em 1822, esta influência nefasta projetada por 100 anos, parece coisa de feitiço ou magia-negra, que desconhecia ser assim tão poderosa nestas latitudes.

Voltando às nossas colónias africanas, seja em 1973, seja em 1975, as ações e o resultado podia ter sido diferente.

Podemos certamente criticar o racismo e as desigualdades sociais no tempo das colónias. Devemos também reconhecer que o resultado das independências está muito longe de ter constituído uma melhoria das condições de vida para as populações. Voltando ao Eng Jardim e a Moçambique, ver imagens do estado atual do seu Grande Hotel da Beira, é representativo da evolução do país nestes últimos 50 anos.

04 setembro 2025

Não podia…

 

Longe de mim avançar nesta fase com suposições ou conclusões sobre a tragédia ocorrida com o funicular da Glória em Lisboa ontem.

Algumas coisas podem ser afirmadas. A primeira é que isto “não podia” ter acontecido. Não sabemos se foi a manutenção mal especificada, mal contratada ou mal realizada, ou outra coisa, mas este acidente não é consequência de algum fenómeno de “força maior” ou, já agora, das alterações climáticas, que têm as costas largas. É uma tragédia vergonhosa.

Este acidente é consequência de falha humana e não de uma única, uma não seria suficiente. Esta desgraça é um triste exemplo do estado maltratado e malcuidado de tanto equipamento e património do Estado. São as escadas rolantes do Metro que avariam, é o navio patrulha da Marinha que não navega como devia, são os Canadair contratados que não voam, é o Siresp que funciona às vezes… e só não mais acrescento por não me lembrar ou não aparecerem nas notícias, tão pouco se tornarão noticias relevantes.

Certo que nem todas as avarias se transformam em vítimas mortais nesta escala, mas isto é o retrato deste país, que faz de conta funciona, até a realidade brutalmente  provar o contrário…

A propósito… parece que a organizar Web Summits somos espetaculares!!!


10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

30 novembro 2024

As frentes de libertação

A tragédia  que estamos a assistir em Moçambique, tem por vilão uma entidade intitulada “frente de libertação”. Este movimento e outros análogos, protagonizaram uma luta pela emancipação de povos oprimidos, evocando projetos de liberdade e de democracia. Poucos foram, no entanto, os que a seguir cumpriram minimamente as promessas e muito especialmente quanto à democracia.

Depois de ganharam a legitimidade de representarem o povo a libertar, adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso”. Nos casos de não ter sido possível encontrar unicidade nessa representatividade revolucionária, seguiu-se guerra civil pela primazia “libertadora”. Nestes processos houve, é certo, influencias externas cujo objetivo era basicamente que as populações “mudassem de dono”. Pode ter havido alguma precipitação nos processos de independência, mas o resultado final é muito longe de brilhante e positivo para as populações objeto dessa “libertação”.

Há uma parte disto que é história, que não podemos mudar, mas talvez aprender. A benevolência ingénua com que os “colonizadores” olharam para o que se prenunciava e, apesar disso, daí lavaram as mãos: Querem autodeterminação? Levem-na!

Hoje a discussão não é essa, mas a pobreza do governo de muitas frentes Ex libertadoras é um problema para as suas populações, para a humanidade em geral e para a Europa em particular, onde uma parte da opinião pública ainda se crê devedora de pecados passados, passíveis de expiação recolhendo massivamente as populações desfavorecidas. Não acredito ser isso a preferência deles, nem o melhor caminho para a humanidade, nem para o desenvolvimento desses países. Entretanto, continuamos a lavar as mãos face às barbaridades, não queremos ser acusados de neocolonialismo.


20 fevereiro 2024

Outro mundo


Há cerca de dois anos, o mundo ocidental alertava para a concentração de forças armadas russas junto à fronteira ucraniana. Por estes lados um exército de “idiotas úteis” desvalorizava e até ironizava, comparando até a credibilidade dessas fontes de informação sobre a Rússia com as profecias de Nossa Senhora de Fátima de há um século atrás.

Hoje vemos a barbaridade que se passa por ali e penso que só podemos lamentar não ter de imediato e radicalmente cortado todos as compras de combustíveis à Rússia, compras que permitiram financiar a destruição de um país inocente e soberano. Guerra é guerra… e mais vale passar um pouco de frio nas casas e abrandamento na indústria, do que ver os blindados e os misseis a ameaçar.

Por estes dias, soubemos da morte do corajoso Alexei Navalny, cujo “crime” foi questionar, denunciar e afrontar o regime de Putin. Infelizmente é só mais um de uma longa lista de vítimas de uma organização assassina. O regime russo atual não é comunista ortodoxo, de forma nenhuma, mas a sua assinatura é muito semelhante à do estalinismo.

Ao mesmo tempo que a Europa se inquieta, e bem, com a subida dos populismos e xenofobismos da extrema-direita, deveria ser também consensual que o nosso mundo, de liberdade e de democracia, com todos os seus defeitos e fragilidades, é felizmente incompatível com a realidade de Moscovo. O voto contra do PC e do BE no Parlamento Europeu de uma resolução de 2019 que equipara o nazismo ao estalinismo e respetivas justificações são eloquentes. Saberão eles que se forem viver para esse outro mundo, além de muitas outras coisas que lhes faltarão, correm o risco grande de acabarem como Navalny se tiverem a coragem de pensar e de expressar o seu pensamento?

19 outubro 2023

Holodomor


Nestes tempos de bárbara agressão da Rússia à Ucrânia, refere-se por vezes o precedente da grande fome dos anos 30, imposta pela URSS stalinista, e que resultou na morte terrível de “alguns” milhões de ucranianos.

Do que me foi dado ver e ler, parece-me que este processo não foi uma repressão política, mas “simplesmente” o resultado da soma da falência do modelo de produção coletivo com a desumanidade criminosa do sistema stalinista. Começando por aqui, todos sabemos, se quisermos saber, que para Staline, matar gente era absolutamente irrelevante, face aos seus desígnios e caprichos. Hitler matou judeus porque os achava malignos, ao menos tinha um mínimo de “justificação” *; Staline matou provavelmente mais, compatriotas seus, por um sim por um não e às vezes mesmo por nada de concreto. Foi de uma barbaridade e desprezo pela vida humana sem paralelo.

Quanto ao outro fator, o da coletivização, nos amanhãs comunistas não havia propriedade privada. Todos aqueles que possuíam e cultivavam terras foram perseguidos, forçados à coletivização ou deportados. Como resultado previsível, isto não funcionou e a produção de cereais caiu a pique. Consequência muito “lógica” foi decretado ser obrigatório produzir e o pouco que a desorganização conseguia gerar era confiscado, não deixando de todo o mínimo necessário para a subsistência dos camponeses. Cada grão escondido era confiscado. Isto foi aplicado a todos as zonas agrícolas da URSS, incluindo a Ucrânia.

Este livro, acima representado, conta vários testemunhos horríveis e bárbaros de gente sem amanhã, morrendo e vendo morrer os seus de forma terrível e desesperada, vítimas de um sistema falido. O espantoso é que um século depois e sem um único caso de sucesso a registar, ainda haja quem continue a achar que o sistema na teoria está correto e o problema está apenas na implementação prática! Mudem de religião, por favor…

* nota posterior em 20/10

Para que não fiquem dúvidas possíveis de interpretação. Hitler e os nazis cometerem crimes hediondos sem justificação, objeto de julgamento no pós-guerra e cujos propósitos são ainda criminalizáveis hoje em dia. No entanto, na sua cabeça havia uma lógica e um objetivo, daí a palavra “justificação”. Para eles os judeus não eram alemães “de gema”.

Os crimes Stalinistas, se bem que alguns contra opositores ao regime e daí com alguma “lógica”, muitos foram arbitrários e gratuitos. É o caso de todos estes milhões de camponeses, seus compatriotas, condenados à morte apenas porque lhes impuseram um sistema ineficiente.

No final, um ou milhões de mortos inocentes, serão sempre mortos inocentes, mas enquanto Hitler chacina judeus por os considerar indesejáveis, Stalin impõe um regime de terror cuja autoridade passa por matar o seu próprio povo como e quando lhe apetece sem sequer precisar de “justificar”.


18 outubro 2023

Por favor


Os mesmos que acharam que os EUA “estavam a pedir” o 11/9, também entendem que Israel “proporcionou” o 6/10. Sejamos honestos, não há santos neste campeonato, mas também não há nada que justifique nem uma coisa nem outra. Ou, a haver, não é justificação racional e civilizada. Ou são os ódios incrustados aos judeus que desde 1948 acham muito bem atirá-los todos ao mar, ou são doentes, cegados primariamente contra tudo que é ocidental e americano e que, do conforto das suas esplanadas e poltronas, teorizam “revoluções” que felizmente não lhes tocam, nem afetam o seu bem-estar, que não prezam, mas apreciam.

As imagens que nos chegaram agora de Israel e que ficarão não são do palestiniano desesperado que apenas tem as pedras da rua para tentar incomodar o soldado israelita fortemente armado.  São de famílias calma e pacificamente instaladas que são chacinadas e são de jovens divertindo-se num festival de música, como em qualquer outro lugar semelhante deste nosso mundo, para quem a vida acabou estupidamente ali.

Duas sugestões. Face à penúria de bens essenciais que afeta o território de Gaza, os seus “responsáveis” podiam trocar a compra dos rockets por alimentos e medicamentos de que a sua população tanto necessita. Os financiadores do Hamas, provocadores indiretos, mas fortemente responsáveis por estas atrocidades, podiam mostrar solidariedade para lá da financeira (a tal que vai para os rockets). Abram os seus países para receberem uma boa parte dos palestinianos desesperados. Seria bonito...

E como o armamento não nasce espontaneamente em Gaza, seria também oportuno escrutinar estes circuitos e quem os alimenta.

14 outubro 2023

Suponhamos


Inquestionavelmente a Ucrânia tem inúmeras razões contra a Rússia, mesmo bastante mais do que os palestinianos contra Israel. Suponhamos que um comando ucraniano entra na Rússia, chacina aldeias inteiras e centenas de jovens despreocupados que assistem a um concerto musical. Barbaridade, sem dúvida.

Quantos políticos e comentadores ocidentais irão dizer, sim, não está bem, mas, enfim, a Rússia estava a pedi-las…! Em quantas cidades haverá manifestações de regozijo e de apoio à Ucrânia pela “justiça” feita? Claro que nem um, nem uma. Diferenças culturais que precisamos de exportar e, pelo menos, não importar. Neocolonialismo, alguém disse? Tenham juízo e respeito pelos valores e dignidade humanas.

27 janeiro 2023

Condenações e omissões


Um destes dias, um excitado queimou um exemplar do Corão em frente da Embaixada turca na Suécia e o assunto tornou-se planetário, gerando protestos na rua árabe e mesmo tomada de posição do secretário-Geral da ONU.

Certo ser condenável, mas tratou-se de um ato individual que não matou nem feriu ninguém e se o SG da ONU tem que se manifestar cada vez que um excitado insulta os princípios ou convicções de um vizinho… não lhe sobrará muito tempo.

Depois, há a curiosidade da fácil mobilização da rua árabe por um ato isolado, quando, ao mesmo tempo, ignora as barbaridades diárias e institucionais que estão a acontecer com os Uigures e a sua religião. Difícil de entender que um debate proposto na ONU sobre a situação desta minoria tenha sido chumbado, contando, entre outros, com os votos contra do Paquistão, onde tão facilmente a rua se inflama, Qatar, Emiratos Árabes, Indonésia e outros países de maioria muçulmana. Difícil ainda de entender a falta de reação popular quando por muito menos nascem incontroladas manifestações e motins violentos.

O quadro com o resultado global da votação, 19 contra, 17 a favor e 11 abstenções, é um monumento à hipocrisia reinante. É alarmante quanto à saúde dos direitos humanos no planeta e à forma como eles são institucionalmente tratados neste fórum da ONU, que se mostra assim assustadoramente atacado por uma mui maligna doença.

- abaixo, versão publicada no Público, que lhe retirou o último parágrafo.



27 novembro 2022

Serão mesmo universais?

A polémica com o Mundial do Qatar e o (não) respeito dos direitos humanos é uma boa oportunidade para refletir sobre a respetiva universalidade. No rescaldo da II Guerra Mundial, com a vitória das democracias sobre os totalitarismos, a recém-criada Organização da Nações Unidas proclamava uma Declaração Universal dos Direitos Humanas, que pretendia ser uma referência e um guia para uma nova era, de democracia e de liberdade.

Nesse baralho havia já algumas cartas atravessadas. Entre os vencedores não estavam apenas democracias. A União Soviética e os seus satélites abster-se-iam na votação da referida carta. Dentro da ONU sempre houve membros que formalmente apoiando, ou não, na prática não praticavam. Para lá do bloco de Leste, Portugal de Salazar e a Espanha de Franco são exemplos.

Prevaleceu o pragmatismo de ser preferível integrar membros não perfeitos e assim de alguma forma os condicionar do que os deixar pairando como párias. É também verdade que, só como exemplo, se para os combustíveis fosseis restringíssemos o seu aprovisionamento aos países respeitadores… sobrariam muito poucos. De todas as formas, sempre existiu o reconhecimento de que por princípio havia direitos humanos universais.

Recentemente, com uma certa moda de valorizar diferenças culturais e minorias, associada ao crescimento de regimes autoritários, vemos alguma crítica à suposta colonização cultural ocidental e apelos à necessidade de respeitar especificidades e diferenças…

Ao menos uma coisa seria relevante: questionar livremente os cidadãos desses países sobre se se acham no direito a serem respeitados. Não será tudo, mas um bom princípio, sendo que a pressão migratória para a Europa é já uma forma de votar… com os pés. 

22 julho 2022

E quem paga?


O Sri Lanka, antigo Ceilão, vive dias de grande tormenta. Populares invadiram o palácio presidencial e a residência do primeiro-ministro, o presidente fugiu, o poder não está na rua, mas as portas estão escancaradas e as incertezas são muitas.

Para trás fica um período de má governação, incompetente e corrupta, a quem o travão do Covid-19 no turismo deu o golpe de graça. O país não consegue refinanciar a sua dívida nem garantir o mínimo de serviços do Estado. Bancarrota, assim se chama.

Não é situação rara e o passo seguinte habitual é financiamento sob tutela, tipicamente do FMI, forçando uma grande disciplina orçamental e controlo das finanças públicas. A particularidade aqui é que uma boa parte da dívida do país ser com a China, conhecida por financiar projetos de desenvolvimento (e outros) na sua esfera de influência, sem olhar demasiado para a qualidade da governação associada.

Assim sendo, o FMI terá alguma relutância em participar no reembolso desta dívida. A China também não deve estar muito interessada em aceitar algum tipo de restruturação; seria um precedente terrível, dada a sua enorme exposição a situações potencialmente análogas. Irá nascer um “FMI Chinês”?

E, no fim, quem paga? Para já, paga o povo e especialmente os mais desfavorecidos. Nós, por cá, andamos mais preocupados com a legitimidade dos penteados…

24 maio 2022

Crimes de Guerra


Um jovem soldado russo confessou o seu crime de guerra na Ucrânia, ter morto um civil deliberada e intencionalmente. Certo que a vítima e a sociedade em geral, pedem que justiça seja feita, o momento é simbólico, mas face ao que vemos diariamente, só podemos esperar que o jogo não fique pelos peões. Não terá havido um superior que o incentivou a disparar? E aquele que lançou um míssil contra um hospital? E quem deu ordem para lançar misseis com esses alvos?

Apesar de os civis sofrerem regularmente com as guerras foi, depois do ensaio em Guernica, que na II Grande Guerra o massacre deliberado de civis passou a ser utilizado assumidamente como arma de guerra. Face à resistência apresentada pelos Países Baixos às forças nazis, que pretendiam entrar rapidamente em França, contornando a fronteira comum bem defendida, a cidade de Roterdão foi arrasada, com sucesso, forçando a capitulação imediata do país. A seguir foi a vez de Londres, mas aí o resultado foi diferente.

Bombardear deliberadamente civis para desmoralizar a população foi adotado no conflito por todos os lados, acabando a série com “sucesso” após Hiroshima e Nagasaki. Se disparar contra um civil é um crime de guerra, arrasar uma cidade também o será, certamente.

Não sei se se pode assumir razoável ter havido julgamento em Nuremberga e não sobre os massacres em Hamburgo, Colónia, Dusseldorf ou Dresden, só como exemplos. Seria impossível na altura, mas hoje? Grozni, Alepo e Mariupol são exemplos de crimes de guerra inquestionáveis. Há justiça para os julgar?

10 março 2022

Os idiotas úteis, rudes e macios

 

Esta expressão atribuída a Lenine, sem garantias quanto à origem, era aplicada àqueles ocidentais que promoviam os regimes comunistas, úteis, fazendo vista grossa aos seus defeitos e inventando qualidades inexistentes, idiotas.

Parecem não ser uma espécie em vias de extinção. Na situação atual da invasão dramática da Ucrânia pela Rússia, continuam a existir idiotas que se recusam a condenar a barbaridade ou, um pouco mais suavemente, acrescentam uns “mas”, apontando alguma coresponsabilidade do “imperialismo ocidental”.

Alguns fatos. Quais as ações militares ofensivas realizadas pela Nato na Europa contra um país soberano? Zero. E do lado da URSS/Rússia? Hungria, Checoslováquia, Geórgia, Ucrânia Crimeia e agora Ucrânia global. Algum país foi condicionado para aderir à Nato ou ameaçado caso a abandonasse? Não. Quiseram aderir livremente por receio do vizinho russo e Putin acaba confirmar a pertinência dessa preocupação.

Há seis meses atrás qual era a dinâmica da Nato – ativa, ameaçadora? Não. Falava-se mesmo em “morte cerebral”, tão letárgico era o seu animo. De há uns anos para cá que os EUA reduziram o seu interesse pela Europa. O seu grande adversário já não é a Rússia e passou a ser a China. O teatro principal na disputa pela influência planetária deixou estas paragens e mudou-se para o Pacífico. Ter-se-á Putin sentido menorizado, despromovido de divisão e arranjou esta desgraça toda só para mostrar que o mundo tem que contar com ele e voltar a ver uma Rússia na primeira linha…? “Make Russia great again!?

Se assim foi, falhará o objetivo. A Rússia vai sair desta barbaridade ainda mais irrelevante e diminuída. A única grandeza que lhe restará será o seu arsenal nuclear… e, quanto a isto, só nos restar “esperar que os russos também amem os seus filhos”.


03 março 2022

Por quem os sinos dobram


Este excerto de um poema de John Donne deu o título a um dos mais famosos romances de Ernest Hemingway. Diz ele que quando os sinos dobram, é por nós todos.

Vermos uma grande potência, autocrática, rica em recursos energéticos, que tanta falta fazem ao nosso conforto, invocar supostos perigos e ameaças para arrasar um vizinho incómodo e…? Falamos de Rússia e Ucrânia em 2022? Sim, mas não só. Podíamos também estar a falar, por exemplo, de Arábia Saudita e Iémen em 2015. Ucrânia é Europa e as dores próximas são sempre mais intensas, mas no domínio dos princípios, e a vida e dignidade humanas devem ser sempre questão de princípios, a diferença não é assim tão grande.

Felizmente, na desgraça, o heroísmo do povo ucraniano fez a Europa sair da sua zona de conforto e assumir o risco de ter problemas com o aquecimento central das casas, em nome do direito à liberdade e dignidade de quem se vê obrigado a dormir fora de casa ou, pior, a fechar os olhos para sempre.

Que esta consciência de que na Ucrânia os sinos dobram também por nós possa ser uma trágica mas oportuna mudança nas sensibilidades. Como cantava Jacques Brel – “Todas as crianças são como a tua”. E mais sinos a dobrar por aí não faltam!

25 fevereiro 2022

Ucrânia


Entre tudo o que se disse e mentiu no passado recente sobre este assunto, há uma frase de Putin, que me parece relevante e verdadeira:

“A Rússia não se pode sentir segura, desenvolver-se, ou existir com uma constante ameaça vinda do território da Ucrânia moderna”.

Aparentemente, uma Ucrânia “moderna” constitui uma ameaça ao “desenvolvimento” da Rússia, na ótica de Putin.

A URSS perdeu a guerra fria porque o seu modelo de desenvolvimento foi ultrapassado pela dinâmica ocidental. Se países ex URSS quiseram e decidiram aderir à Nato e adotar um modelo político e social ocidental, não o fizeram pela pressão dos tanques e dos misseis “imperialistas” à sua porta. Fizeram-me por acreditarem que por aí teriam uma vida melhor.

A Rússia ver nisto uma ameaça pode-se compreender, mas o problema e a solução estão no interior dela e não no exterior. Que o queira resolver à lei da bala, só comprova a sua fraqueza.

Que idiotas úteis(?) tenham andado a insistir sobre a responsabilidade da Nato, que aliás andava vegetativa, na génese desta desgraça, só prova a sua imbecilidade. Que alguns possamos ficar com um pouco menos de calor e gás é sempre melhor do que outros ficarem sem vida.

 

20 agosto 2021

Tinha que ser assim?


 A imagem das centenas de afegãos partindo no avião militar americano vai certamente ficar para a história. Este retrato tem dois tempos. Um é o da transição catastrófica que obviamente não tinha que ser assim e que demonstrou uma enorme impreparação e capacidade de previsão por parte de quem por lá andava há 20 anos, aparentemente com visão exclusiva de drone.

O outro tempo é o que agora começa e todo o sofrimento e humilhação que sofrerão daqui para a frente afegãos e afegãs, elas muito mais do que eles. Para os meninos e meninas excitados com as desventuras do imperialismo ianque, consultem a história e respeitem quem sofre.

Para a história ficará também o discurso de J. Biden de que aquela guerra não era a deles, que só lá tinham ido neutralizar uma base terrorista e, quanto a isso, missão cumprida. Todas as promessas e expetativas legitimas criadas aos afegãos e afegãs… “não é o nosso problema”. De um cinismo revoltante. Pode ser a mais pura verdade, mas a imagem dos EUA como, apesar de tudo, patrocinadores e garantes de um mundo livre e justo morreu e não foi Trump que o matou, quem diria…

Tinha que ser assim? 20 anos de banho de mundo livre, ao menos muito melhor do que o anterior, não podiam ter deixado uma marca um pouco mais perene?

O que faltou/falta para consolidar o respeito básico pelos direitos humanos neste país e noutros? Quando se vê a enorme quantidade de gente que desses países quer migrar para o “Ocidente”, o que falta para nas suas pátrias se conseguir implementar e consolidar um regime “Ocidental”. Certamente algo mais do USDs (e rublos) e drones (e tanques). A questão é toda … evolução cultural, sem preconceitos, remorsos, ignorância nem arrogância. Demora tempo, sim. Mais de 20 anos, não sei. Desistir é que não serve.



06 agosto 2021

Talibans e o resto


 Em 2001, os EUA entraram no Afeganistão para controlar o país que albergava os terroristas do 11/9. Hoje, 20 anos depois, deitam a toalha ao chão e retiram. Os ditos talibans, que já antes tinham dado água pelas longas barbas à URSS, avançam rapidamente, retomando o controlo de grandes partes do país, deixando em maus lençóis todos os que de uma forma ou de outra colaboram com os EUA e acreditaram numa sociedade mais aberta. Muito especial e dramaticamente as mulheres.

Por muito profundas que sejam as raízes tribais desse movimento, a sua eficácia e subsistência não depende apenas dos calhaus da montanha. Ao que parece é/foi o Paquistão, ali ao lado, que de uma forma mais ou menos assumida lhes serviu de apoio. Um bocadinho acima do mesmo lado, está a zona problemática da China, dos uigures, onde existem movimentos terroristas, ETIM e outros, que parecem gozar de algumas facilidades no Paquistão e nas zonas controladas pelos Talibans.

A China tem interesse no Paquistão, o corredor até ao Índico da sua BRI atravessa todo o país. Os terroristas uigures atacam aqui interesses chineses e estes puxam as orelhas aos paquistaneses.

Um destes dias uma comitiva taliban foi recebida oficialmente em Tianjin (foto) e um dos objetivos, teoricamente alcançado, foi de obter um compromisso da parte dos novos futuros líderes afegãos em como deixariam de apoiar os separatistas uigures. Quem conhece o terreno, o histórico e as culturas tem dúvidas de que a prática corresponda.

Entretanto, há gente no Afeganistão a voltar às trevas.

Sem querer particularizar excessivamente nos atores concretos desta realpolitik, é uma vergonha para a humanidade assistirmos a estes retrocessos brutais nos direitos humanos, caucionados por países e regimes representados nas instituições internacionais e supostamente comprometidos com os princípios básicos de respeito por esses direitos humanos. Seria mais útil e mais interessante que a opinião pública se interessasse por isto e deixasse o Vasco da Gama em paz.

29 abril 2020

24 de abril e bacalhau


Quando se fala no 24 de abril, para lá da estúpida, obtusa e infindável guerra colonial, é comum avançar com os nomes de Aljube, Peniche e Tarrafal. Hoje, apetece-me falar de bacalhau. Há uma certa visão de que a PIDE só incomodava comunistas, conceito bastante largo na altura, e, segundo essa perspetiva, aqueles para quem “a sua política era o trabalho”, não tinham problemas com o designado Estado Novo. 

O bacalhau tocou muita gente pelo trabalho e muito duramente. Refiro-me a quem participou na chamada campanha do bacalhau, organizada e promovida pela “outra senhora”. A visita ao museu marítimo de Ílhavo é muito interessante e elucidativa sobre a vida terrível daqueles homens, que chegavam a trabalhar 20 horas por dia, em condições arrepiantes. Os lançados nas águas gélidas dos mares da Terra Nova não tinham sido condenados pelo regime a derreter numa frigideira do Tarrafal por delito de opinião, mas estavam condenados a um trabalho duríssimo e miserável para a sua sobrevivência e dos seus. 

Um regime que estabelece como grande política alimentar o seu povo a partir de condições tão sub-humanas é pequeno, é mesquinho e sem visão. Esta condenação do país ao miserabilismo, por ignorância, incapacidade, falta de visão ou o que quer que seja como defeito não é o único problema do Estado Novo, nem a campanha do bacalhau o único exemplo, mas é uma ilustração muito concreta e bem documentada. Não fica mal falar dela neste mês de abril.

06 abril 2020

Depois da Primavera


A Primavera parecia vir adiantada. As amendoeiras floridas até coincidiram com o Carnaval. À data havia 80 mil casos a nível mundial, mas apenas 34 mortos fora da China e 7 na Europa (6 em Itália e 1 em França), dados da OMS. E foram as deslocações nas férias de Carnaval as principais responsáveis pelo grande espalhar do bicho na Europa.

Era antes do tempo, mas era uma Primavera pujante, confiante e festiva. Estavam longe as nuvens e acreditávamos que as condições e o sistema sanitário na Europa não eram iguais os da Ásia. Afinal, de falsos alarmes já estávamos cheios. O próprio Presidente da República vai a Podence para um banho de multidão. Imagens com pouco mais de um mês, mas que hoje parecem de há um século.


Na data oficial, a Primavera não chegou, foi suspensa. Podem ainda lá estar flores, mas não as vemos. Já não podemos atravessar rios nem cruzar cordilheiras. Não há pessoas em quem tocar. Desconfiamos do calor humano, fugimos, damos distancia. Os olhares cruzam-se receosos e apreensivos, sorrisos são apagados. Desaparecem os lugares onde se possa rir ou chorar, ou partir ou chegar, ou cantar ou amar.

A Primavera está suspensa, sim, mas um dia chegará. Como depois de um fogo devastador, de rescaldo delicado, sairemos de novo à rua e haverá cinzas. O bicho terá queimado vidas, sonhos, ganha pães, projetos e alentos. As cinzas serão varridas para dar lugar a um novo campo deserto, ou por lá ficarão fecundando o que irá renascer. Ou, quem sabe, nalguns lugares estarão intactos frutos sobreviventes, resistentes. Entre o que muda e o que fica, não sabemos como ficará, mas a Primavera chegará.



28 fevereiro 2019

O abuso dos fracos


Os tempos não correm de feição para a Igreja Católica, no que diz respeito aos seus problemas com pedofilia e abusos sexuais.

Tiveram o mérito de se reunirem para enfrentar e debater a questão, esperemos que não na perspetiva de mudar algo para que nada mude, longe de mim saber o que pode ou não mudar nessa instituição, mas tenho cá um palpite que enquanto o celibato continuar a ser obrigatório e essa coisa do sexo encarada como um parente próximo do pecado original, problemas acontecerão…

Quase em simultâneo, um tribunal na Austrália condena o cardeal George Pell por abusos sexuais, alguém que foi o número três na hierarquia do Vaticano e (publicamente) conservador nos costumes até dizer para lá de chega.

Isto de uma frustração associada a uma posição de poder provocar abuso não é específico deste domínio. Será inerente da natureza humana alguém em posição de força não resistir a humilhar e abusar daqueles sobre os quais tem/pretende ter domínio? Talvez, não sei. ~

De uma coisa tenho a certeza: abusar do poder para subjugar outros não é coisa de fortes. É coisa de gente muito, muito fraca.


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