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24 dezembro 2021

Natal Torga


Apesar de poder não o parecer à primeira vista, eu acho que Natal rima muito com Torga:

Natal.

E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. O homem necessita cada vez mais destas datas sagradas. Para reencontrar a santidade da vida, deixar vir à tona impulsos religiosos profundos, comer e beber ritualmente, dar e receber presentes, sentir que tem família e amigos, e se ver transfigurado nas ruas por onde habitualmente caminha rasteiro. São dias em que estamos em graça, contentes de corpo e lavados de alma, ricos de todos os dons que podem advir de uma comunhão íntima e simultânea com as forças benéficas da terra e do céu. Dons capazes de fazer nascer num estábulo, miraculosamente, sem pai carnal, um Deus de amor e perdão, contra os mais pertinentes argumentos da razão.

Miguel Torga, in Diário (1985)

Natividade 

Nascer e renascer...
Ser homem quantas vezes for preciso.
E em todas colher,
No paraíso,
A maça proibida.
E comê-la a saber
Que o castigo é perder
A inocência da vida.
Nascer e renascer...
Renovar sem descanso a condição.
Mas sem deixar de ser
O mesmo Adão
Impenitentemente natural,
Possuído da íntima certeza
De que não há pecado original
Que não seja o sinal doutra pureza.

Miguel Torga in Diário XIII




 

29 novembro 2021

A Grande Guerra


Por um destes dias de novembro celebrou-se mais um aniversário do armistício da Grande Guerra de 1914-18. Para muitos tem como particularidade ter sido uma enorme barbaridade começada por um simples episódio nos Balcãs, em Sarajevo, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, e a guerra das trincheiras, da lama e dos gases.

Não tem/teve a projeção hollywoodesca da seguinte, com a barbárie do monstro nazi, do holocausto, nem dos bombardeamentos massivos de alvos civis, mas a I Guerra Mundial tem algo que arrepia.

O assassinato de Francisco Fernando acendeu o rastilho do barril de pólvora e que, se não fosse por aí, certamente por outro lado teria sido ateado, mas é arrepiante a desumanização do ser humano, a banalidade das baixas, que os seus incompetentes condutores demonstraram. Verdun, Somme, Ypres e outros são apenas nomes de locais em que uma tentativa de avançar algumas centenas de metros, significava milhares de mortos, por vezes num único dia e tantas vezes para nada.

Certo que a seguinte também teve movimentos desesperados muito pesados, com muitas baixas, mas penso que com bastante menos barbaridade em causa própria. A facilidade com que os estrategas da Grande Guerra repetiam sempre as mesmas manobras infrutíferas de tentar furar a linha da frente, tantas vezes com milhares de baixas diárias do próprio lado é arrepiante. Aliás o próprio conceito de “baixa” tem algo de curioso. É um número que deixou de estar disponível. Se morto, ferido por uns tempos ou estropiado para sempre, é irrelevante e equivalente, do ponto de vista da “estratégia”.

Os tanques e os aviões mudaram muito e mais do que isso mudou o mundo. Acho que hoje, pelo menos na Europa, não se aceitariam 4 anos deste tipo de ofensivas e chacinas. Evoluímos… ainda bem!

06 agosto 2021

Talibans e o resto


 Em 2001, os EUA entraram no Afeganistão para controlar o país que albergava os terroristas do 11/9. Hoje, 20 anos depois, deitam a toalha ao chão e retiram. Os ditos talibans, que já antes tinham dado água pelas longas barbas à URSS, avançam rapidamente, retomando o controlo de grandes partes do país, deixando em maus lençóis todos os que de uma forma ou de outra colaboram com os EUA e acreditaram numa sociedade mais aberta. Muito especial e dramaticamente as mulheres.

Por muito profundas que sejam as raízes tribais desse movimento, a sua eficácia e subsistência não depende apenas dos calhaus da montanha. Ao que parece é/foi o Paquistão, ali ao lado, que de uma forma mais ou menos assumida lhes serviu de apoio. Um bocadinho acima do mesmo lado, está a zona problemática da China, dos uigures, onde existem movimentos terroristas, ETIM e outros, que parecem gozar de algumas facilidades no Paquistão e nas zonas controladas pelos Talibans.

A China tem interesse no Paquistão, o corredor até ao Índico da sua BRI atravessa todo o país. Os terroristas uigures atacam aqui interesses chineses e estes puxam as orelhas aos paquistaneses.

Um destes dias uma comitiva taliban foi recebida oficialmente em Tianjin (foto) e um dos objetivos, teoricamente alcançado, foi de obter um compromisso da parte dos novos futuros líderes afegãos em como deixariam de apoiar os separatistas uigures. Quem conhece o terreno, o histórico e as culturas tem dúvidas de que a prática corresponda.

Entretanto, há gente no Afeganistão a voltar às trevas.

Sem querer particularizar excessivamente nos atores concretos desta realpolitik, é uma vergonha para a humanidade assistirmos a estes retrocessos brutais nos direitos humanos, caucionados por países e regimes representados nas instituições internacionais e supostamente comprometidos com os princípios básicos de respeito por esses direitos humanos. Seria mais útil e mais interessante que a opinião pública se interessasse por isto e deixasse o Vasco da Gama em paz.

26 março 2018

Mortes (in)evitáveis


A morte é inevitável. É aquela certeza que resiste a todas as modas, escola ou escolhas. O momento pode não o ser. Quando alguém é morto, antes do tempo, por acidente ou crime, para lá de culpar a falta de sorte ou condenar o assassino, há uma certa resignação à fatalidade. Na maior parte das vezes o morto é elemento passivo na história, naquele momento.

Sente-se algo de diferente com a morte do polícia francês na tomada de reféns recente em Trèbes, Arnaud Beltrme. Ele morreu por ter intervindo ativa e voluntariamente. Certo que ser polícia implica correr riscos e muitas vezes de vida, mas ninguém é pago para morrer.

A sua morte, depois de se ter oferecido para substituir uma das reféns, foi consequência de uma opção sua, profissional, mas altruísta, de uma enorme grandeza. Ter sido estupidamente assassinado por um alucinado, um de vários milhares que por aí existem, impressiona. Impressiona pelas circunstâncias da perda e pela dimensão potencial de replicação do fenómeno.

Entretanto, imagino que, pelo menos desta vez, não haverá uns “idiotas úteis/perigosos inúteis” que virão relativizar e tecer considerações sobre responsabilidades compartidas!


Foto AFP

06 dezembro 2017

Natal luz


Numa cidade-luz onde poucas ou nenhumas iluminações de Natal preenchem o espaço público, “diversité oblige” (um dia descobrir-se-á que toda esta correção, se calhar está errada), os narizes retraem-se ao contacto com o frio matinal.

No passeio à frente, narizes grandes e pequenos colam-me às montras animadas das galerias, transbordantes de sons e cores de Natal, ou do que lhe queiram chamar, mas bonito e caloroso.

No passeio atrás, uma idosa sentada, encolhida com o frio, com uma caixa de cartão no chão da rua, onde pede especificamente cheques refeição. Tem a companhia de uns gatos enroscados, imóveis e retraídos.

No mesmo passeio, dois turistas (?) de prancha na mão desenham calmamente o quadro. Têm todo do tempo do mundo, a senhora e os gatos estão absolutamente estáticos, tipo natureza morta.

Tirei a foto constrangido, muito a correr é certo, de longe, sem grandes preocupações técnicas e com um resultado sofrível. Talvez o desenho dos senhores tenha saído bem, tempo não lhes faltou… e descontração.

02 novembro 2017

Aos amigos ausentes


Seja na exuberância dos cemitérios jardim do litoral, seja na austera secura dos do interior, amigos ausentes, amigos presentes.

Junto palavras, em tradução livre, de um grande amigo da humanidade, sempre, sempre presente: Jacques Brel. Jojo, seu grande amigo, tinha morrido de cancro de pulmão, a mesma doença que o iria vitimar.

Jojo
Aqui tens alguns risos, alguns vinhos, algumas belas
Tenho o prazer de te dizer que a noite será longa a tornar-se manhã
Jojo
Ouço-te rugir canções do mar, onde os bretões adivinham que S. Cast deve dormir ao fundo do nevoeiro.

Sete palmos de terra, Jojo ainda cantas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Esta noite como sempre, refazemos as nossas guerras
Tu retomas Saint-Nazaire, eu refaço o Olympia, ao fundo do cemitério
Falamos em silencio de uma juventude velha
Sabemos os dois que o mundo boceja por falta de imprudência

Sete palmos de terra, Jojo ainda esperas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Dás-me rindo notícias daí
Eu digo “morte aos idiotas”, bem mais idiotas do que tu
Mas que se aguentam melhor
Jojo
Tu conheces os nomes das flores, vê que minhas mãos tremem
Sei que sabes quem chora, para afogar de pudor
Os meus pobres lugares comuns

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra não estás morto

Jojo.
Deixo-te pela manhã, para vagas tarefas
Entre alguns bêbados, amputados do coração
Que abriram demasiado as mãos
Jojo
Eu não vou a mais lado nenhum
Visto-me dos nossos sonhos
Órfão até aos lábios, mas feliz por saber
Que estou a chegar

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra, ainda te amo

Foto: Cemitério de Numão

12 setembro 2017

Entre bairrismo e identidade


No mundo sou pelo meu país, no meu país pela minha região, na minha região pela minha terra, na minha terra pelo meu bairro… e onde acaba isto? No meu bairro pela minha rua, na minha rua pela minha casa, na minha casa pelo meu quarto e no meu quarto, eventualmente, se aplicável, pelo meu lado da cama!?!

Certamente que há identidade e valores que servem de âncora ao estar e ao andar neste mundo, mas o bairrismo exacerbado, mesmo sem chegar ao nível do lado da cama, é uma forma de pobreza. Porque ao desvalorizar o diverso, ao menosprezar o diferente, resulta numa consanguinidade cultural e social, com a correspondente degradação. Então, quanto mais mistura melhor? Sim e não. Diversas influências são riquezas, mal lidas ou não interpretadas são despiste. Ao invés? Sou por tudo o que é antagónico: se o meu meio é verde, abraço o amarelo? Não, a (des)construção de uma identidade pela negativa, é mais uma forma, pouco inteligente, de acabar pobre e perdido.

No mundo, sou pelas pessoas sérias, francas e bem-intencionadas. Vê-lo-ei com uma ótica condicionada, é certo, pelo que vi até hoje. Mas continuarei de olhos abertos.

16 março 2017

Que me desculpem

Que me desculpem Miguel Torga, Fernando Namora e tantos outros, que mesmo não sendo escritores nem tendo deixado um registo literário eloquente da vida que viveram e de tantas que viram viver e morrer, conseguiram manter-se no nível dos comuns mortais que humanamente trataram.

Não foi há muito e pouco importa o local público onde ocorreu, por acaso um restaurante, em que ouvi alguém falar de forma tão enfática, com tanta auto presunção, que pensei imediatamente: este cagão é médico. Uma certa forma de presumidamente se colocar a um nível superior dos outros desgraçados, que desgraçadamente necessitam de se colocar nas suas sábias mãos e têm a vida e o bem-estar dependentes do seu conhecimento. A continuação do discurso, demasiado próximo para não o poder ignorar, confirmou-me o palpite: era, claro estava, médico.

Há uma tira da Mafalda, do Quino, em que o pai dela conversa com alguém na praia, até o interlocutor se declarar …. Médico! Aí, imediatamente, nasce da areia uma coluna pedestal que eleva o senhor doutor dois metros acima do pobre…Perdão, de calções somos (quase) todos iguais.

A assunção de superioridade que uma parte da classe ostenta é a mesma de um rico face a um pobre, a de uma bonita face a uma feia. Só que não está em causa a riqueza material nem os favores da natureza; está em causa o poder sobre a vida. Independentemente do mérito subjacente ao estatuto e à função, a falta de humildade e a sobranceria são algo que me choca. Neste contexto muitíssimo mais!

08 outubro 2014

Feminismo ou outra coisa

Numa televisão muda de um espaço público passavam imagens da intervenção de Ema Watson na ONU, muito mediatizada, em defesa dos direitos das mulheres. Ao pensar no contexto e na premência do assunto, dei por mim a concluir existirem realidades muito distintas, pedindo estratégias diferenciadas. Em países como, por exemplo, a Arábia Saudita ou o Paquistão há evidentemente muito, muitíssimo a fazer. Só que nesses locais o problema dos direitos das mulheres é apenas um fruto, grande é certo, de um mal mais amplo. Se supostamente essa parte fosse resolvida, outras limitações da dignidade humana em geral permaneceriam, sendo aliás muito improvável que uma evolução parcial dessas pudesse acontecer. Aí, o combate não é simplesmente pelos direitos das mulheres, deve ser dirigido à raiz do mal.

Doutro lado, nesta nossa sociedade, haverá ainda muita gente que acredite honestamente que a mulher não deva ter os mesmos direitos e oportunidades que o homem? Não muita. Muitos mais serão aqueles que exploram as especificidades do sexo feminino em proveito próprio, não por convicção, antes por oportunismo. Sem teorizar em demasia, todos temos mais apetência para umas coisas e mais dificuldades noutras. Será sempre melhor uma pessoa de 2,2 m de altura jogar basquetebol e uma de 1,70 m jogar hóquei em patins do que vice-versa. No entanto, se os negros dominam a maratona, isso não deve impedir os brancos de praticarem atletismo, tentarem a sua sorte em pé de igualdade e serem avaliados pelos resultados objectivos.

A discriminação ser feita por convicção ou por oportunismo tem uma diferença grande e exige uma abordagem diferente. Aliás, aqueles que aproveitam qualquer pretexto para abusar de um ser humano e da sua dignidade, não são selectivos. Não é inédito mulheres com poder discriminarem negativamente outras mulheres. O simples “heforshe” pode parecer poético mas nos tempos actuais é até algo redutor. Em resumo, feminismo parece-me ser uma palavra curta.

09 setembro 2014

O Islão em transição


Começo por referir que tenho vários amigos muçulmanos a quem muito respeito, desejo as maiores felicidades e que também não me querem nenhum mal. É necessário ser prudente e evitar embarcar em considerações generalizadoras e redutoras quando se fala do mundo islâmico. Separando as coisas, para lá do Islão espiritual e religioso no sentido estrito da palavra, há, no entanto, um Islão político, que usa a religião como estandarte de campo de batalha. Como exemplo simples e significativo, o conflito antigo e ainda actual entre sunitas e chiitas, com tanta desgraça e mortes na sua conta, tem muito mais a ver com uma luta pela influência temporal do que com concepções espirituais. E, aquilo que a Europa cristã fazia há uns séculos atrás, de alargar a sua marca religiosa pelo mundo fora, com uma promiscua aliança entre a cruz e a espada e um oportunista cruzamento de interesses, ainda está hoje nalgumas agendas, se bem que com meios diferentes.

Surpreende ser possível encontrar e recrutar no nosso mundo ocidental voluntários dispostos a partirem para o médio Oriente, para degolar infiéis. Penso que o campo de recrutamento terá duas vertentes. Por um lado estão aqueles radicais “desta sociedade”, que são simples e basicamente a favor de quem está contra ela, da mesma forma como no passado foram venerados Mao, Staline entre outros criminosos e terroristas. Doutro lado estarão os muçulmanos desenraizados. O primeiro caso parece-me ser um fenómeno transitório, muita gente com grandes responsabilidades actualmente andou por esses caminhos na sua juventude, enquanto o segundo é mais permanente. O que está por trás desta radicalização: raiva, frustração, sentimento de exclusão/humilhação? Contra aquele espírito de raiz cristã do “somos todos pecadores/a culpa também é nossa”, convém recordar que o esforço feito na Europa, hoje laica, para integrar e respeitar as várias religiões, e nomeadamente a muçulmana, é absolutamente incomparável a algum esquiço de reciprocidade que se possa encontrar do outro lado.

No tempo actual, ninguém deveria ter dúvidas de que uma religião se deve afirmar por si, pelos seus valores, por opção pessoal de cada individuo, num plano fundamentalmente espiritual e minimizando o seu impacto na “sociedade dos outros”. A luta em causa, qualquer que seja o idioma em que se conjugue, será uma luta interna de cada um pelos seus valores e princípios. No entanto, num país muçulmano de referência que é a Arábia Saudita, renegar a religião, apostasia, ainda é crime passível de pena de morte. Como isto não é certamente deste tempo, e dificilmente de tempo algum, há uma evolução pendente de uma parte do Islão, que se deve centrar nos princípios, apagar os “detalhes” anacrónicos e encontrar formas de afirmação mais sãs. O expansionismo forçado, musculado ou macio, tem efeitos nocivos. Usar e deturpar princípios espirituais para esse fim não é nada de novo, mas está a apresentar um efeito terrível que é um retrocesso brutal na humanidade e na irmandade entre os homens. Os muçulmanos sérios têm uma responsabilidade enorme em travar isto.

27 março 2014

Deuses na sombra

Há alguns dias assisti a uma sessão de apresentação do livro de Valter Hugo Mãe, “Desumanização”, que não li, e que tem por cenário a Islândia. Uma boa parte do tempo foi dedicado a falar da Islândia em si, das suas especificidades e idiossincrasias. Naturalmente que um país, que é uma ilha, encostada ao círculo polar Árctico e com um inverno em que há 20 horas de sol… por mês, há-de ter muitas especificidades.

Acreditar que debaixo das pedras vivem uns elfos que se devem respeitar, pode ser positivo em termos atitude de protecção do ambiente, mas não deixa de ser viver uma espécie de narrativa fantástica colectiva. Quando uma vez me perguntaram na Bélgica se em Portugal não havia histórias de anõezinhos a viver nas florestas eu respondi: O meu país tem muito sol e a sua luz não deixa espaço para essas fantasias; essas coisas só existem em países sem luz, condenados ao nevoeiro! E também recordo que quando vivi na Bélgica, o que me fazia mais falta era, efectivamente, a luz.

É a noite quem cria os fantasmas, assim como são as limitações que abrem os horizontes do sonho e da imaginação. Talvez seja natural que num país tão fechado como a Islândia seja criado um colorido com o que não se vê. Sob um sol mediterrânico intenso e impiedoso, uma pedra será apenas uma pedra, como diria Caeiro, e a beleza de um céu brilhante reverberando as oliveiras, não dá espaço nem necessidade de se imaginar algo mais escondido debaixo da terra ou entre a sombra das árvores.

No penedo da Lapa, o meu santuário no Alto Douro, a visão é inspiradora e a inspiração e espiritualidade são buscadas olhando do alto para os horizontes abertos e rasgados. Nem de perto nem de longe se pensa nas entranhas de onde sai o majestoso maciço granítico. Não consigo imaginar nenhuma mística num poço, nem sequer no da Quinta da Regaleira. O país está repleto de capelinhas nos mirantes, e tantas delas, senão todas, herdeiras de alguma outra veneração mais antiga. Aliás, o meu penedo tem num cantinho uma covinha escavada com um rasgo para gotejar que me cheira a coisa bem pagã.

Não faz sentido discutir prós e contras de cada um dos cenários, nem é minimamente justo sequer tentar aplicar uma escala de valores a um contexto destes. Aliás, de fantástico colectivo todas as sociedades têm algo, só que à nossa chamamos-lhe “fé”. Parece-me claro que nunca uma terra do sol poder ser idêntica a uma terra do gelo. Por muito que o ambiente artificialmente criado aqueça, arrefeça ou ilumine, a luz materna molda-nos para o bem e para o mal. Tentemos aproveitar a parte do bem.

22 janeiro 2014

Os recolectores do alheio

Num passado longínquo o ser humano era recolector. Passava e apanhava o que a natureza tinha para dar. Há um processo evolutivo posterior em que passamos a viver do que plantamos e a usufruir do que construímos. Esta organização social, que nos permite viver com uma qualidade muito, muito superior à desses tempos de recolectores, deixa pouco espaço para andarmos por aí a apanhar coisas na natureza.

Esta reflexão vem a propósito de duas notícias que me passam à frente dos olhos. O caso da China em que funcionários e próximos do aparelho do poder deitaram a mão a uns largos milhares de milhões e os aconchegaram em oportunos paraísos fiscais. Outro caso mais próximo e mais comezinho, passa-se na casa Fernando Pessoa, em Lisboa, que encomenda serviços directamente a uma empresa que tem sede na residência da sua directora artística. Em ambos os casos, local e dimensão à parte, há aparentemente um ponto comum: aproveitar uma oportunidade para ficar com uma maçã que está ali à mão, mesmo sem ter direito a ela. Há ainda outro ponto comum: não ocorrem em meios tipicamente capitalistas. Um dos casos ocorre num país/partido comunista/popular; o outro num meio artístico/cultural. Isto presume que o fenómeno é certamente muito transversal e abrangente e, quem sabe, herança dos genes recolectores que subsistam.

Para lá do enquadramento legal, policial e penal que se pode dedicar a estes fenómenos com mais ou menos empenho e eficácia, há um aspecto fundamental. O aproveitar uma situação/oportunidade para deitar a mão ao que não é nosso, destrói o fundamento da nossa sociedade e é um retrocesso civilizacional. A tentação é grande e não parece conhecer restrições quanto ao meio em que se desenvolve mas, no entanto, a qualidade de vida que todos queremos depende do que construímos. São os valores que estão na base da criação da riqueza que se destroem e isto é pior do que o prejuízo material associado.

29 fevereiro 2012

Por acaso

Por acaso, após aqueles programas que se dizem de “notícias” e que têm um pouco de tudo incluindo notícias, corri alguns canais antes de desligar a televisão, coisa que faço umas 2 ou 3 vezes por mês. Apareceu-me na RTP Memória “O Regresso de D.Camilo” e fiquei agarrado, roubado de umas duas horas e tal ao meu encontro com a cama.

Para lá do “agradável” da comédia e do espírito do humor, há algo de mais naqueles personagens. Uma enorme humanidade e respeito pelo homem. Para lá das trapaças e rasteiras pouco honestas trocadas entre o padre e o presidente da junta comunista existe como que uma linha fundamental intransponível: no fundo há homens que se respeitam. Como se no fundo a brutalidade não fosse mesmo brutal, como se a mentira não fosse mesmo a sério, até às últimas consequências. Não sei. Não consigo descrever mas há um valor humano muito intenso e digno que quando o “perigo” se aproxima desperta e bloqueia o ir longe demais. Digno e humano.  
   

26 maio 2010

Numa cidade perto de si

Ele tinha 33 anos e queria casar com ela. Ela tinha 15 anos e não queria. Então, um dia, sob ameaça de arma branca, ele forçou-a a entrar num prédio abandonado e a subir a um terceiro andar onde a tentou violar.

Ela fugiu precipitadamente pela janela do terceiro andar, partindo vários ossos na queda, mas mantendo-se consciente. Ele aproveitou então para a trazer de novo para cima e para durante várias horas concluir o que se tinha proposto fazer inicialmente.

Quando o estado de saúde dela se complicou ele abandonou-a à porta de um hospital sem sequer avisar os serviços.

Aconteceu numa cidade próxima de si... ou não. Não importa. Para certas coisas não há distâncias.

12 fevereiro 2010

Ucrânia

Este mundo globalizado e buliçoso tem uma grande capacidade de nunca parar de nos interrogar, surpreender e fazer reflectir. Desta vez é sobre gente, casas e gente que não tem sítio a que chame afectivamente casa.

No mesmo banco de um aeroporto apinhado, uma expatriada em partida definitiva identificou-me a família pelo logótipo no mostrador do meu PC, família que tinha tido um ponto comum com a sua, ponto de partida para um curto diálogo.

Terminado o projecto em curso, ela avançava para outro, desta vez no país natal, Ucrânia, e num local bem conhecido por todos: Chernobyl.

É bom regressar a casa? Era bom sair daquele local, mas para ela o seu país natal não era equivalente a casa. E se o Ianukovitch ganhar as eleições vai ser ainda pior. Metade do país queria ser russo, metade, onde ela se incluía, queria ser ocidental. A língua aprendida na escola era o russo, não a deles. Nada acontecia, nada mudava e estas eleições iriam provavelmente matar a esperança. Depois, um estrangeirado de regresso, não é necessariamente bem recebido e integrado. Mas é bom regressar a casa ou não? Casa é sempre casa, não é? Casa...? Não... é um local como muitos outros e não especialmente interessante, dizia encolhendo os ombros com uma indiferença mal encenada e um sorriso resignado.

De partida para o embarque disse o nome: Olga. É um nome russo, não é?

E no fim de semana passado o Ianukovitch ganhou as eleições.

04 janeiro 2010

O Homem não é relativo

No virar do ano com os indispensáveis balanços e previsões, dei conta de que hoje, 4 de Janeiro de 2010, se completam 50 anos da morte de Albert Camus, para mim um dos espíritos mais belos e brilhantes do século XX. De uma clarividência extraordinária e com uma experiência de vida riquíssima, acabou como um proscrito do meio existencialista francês cuja miopia o considerava demasiado humanista. O tempo, supremo filtro, vem provando que Camus é intemporal enquanto o “papa” Sartre fica como uma referência datada, sendo necessárias realmente muitas dioptrias para conseguir defender Staline e Mao sem reconhecer o que eles realmente representavam. Para Camus o mundo não se dividia em “gregos contra troianos” onde é necessário optar por um lado até às últimas consequências; para ele o mundo era composto por homens. Foi resistente à ocupação Nazi, denunciou o Gulag e criticou ambos os lados do processo de independência da Argélia. Assim é difícil manter "amigos".

Ao iniciar o 2010 e nos 50 anos do seu desaparecimento, recomendo revisitar o grande Camus, e deixo aqui um aperitivo, repetido já de outra entrada anterior:

“Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.”
Da colectânea de textos “Reflexões sobre o Terrorismo”

27 junho 2009

Sim, pá, é mesmo ingerência!


Diz o ayatollah que os problemas que o Irão vive são fruto da ingerência ocidental e tem razão. Só que essa “ingerência” não é de natureza política, diplomática ou de fruto de um trabalho de sapa de serviços secretos. Não, nem é intencional sequer! É uma ingerência cultural. Infelizmente para eles, há muitos persas que querem viver como se vive no Ocidente no século XXI e não na Idade Média. E aí não temos culpa de sermos o que somos. E não iremos pedir desculpa por isso. Pelo menos eu não irei. Nem irei pedir desculpa por viver num país que baniu a pena de morte há mais de um século.

Pois é! Se calhar o problema é mesmo. Podem expulsar todos os jornalistas, podem condenar à morte todos os que entenderem que naturalmente o fundo da questão irá manter-se porque “não há machado que corte” a vontade de viver dignamente e de ser livre.

09 fevereiro 2009

Eluana Englaro



Eluana Englaro "morreu" após 17 anos sem vida. E apanhou distraídos uns certos guardiões, não sei bem de quê, que se entretinham ainda a argumentar, procurarando anular a autorização legal e tentando cinicamente "salvá-la".
Não há a mínima dúvida científica sobre a completa irreversibilidade de certas lesões cerebrais e estes 17 anos de Eluana e de tantos outros idênticos não podem ser considerados "vida".
Só quem nunca presenciou o vazio atroz destas "existências" e a semi-morte que o convivo diário dos seus próximos com elas representa poderá usar a palavra vida neste contexto. Quem nunca viu pode fazer um esforço e imaginar. Ou então, passar uma semana junto a um deles e, em seguida, tentar imaginar o que serão 5, 10 ou 15 anos.
Não, decididamente não! Não basta respirar para viver.

27 novembro 2008

Mas, mesmo aqui


Na galeria dos meus escritores de eleição esteve, está e estará Fiodor Dostoievsky. Chegou a estar no top 3 mas já não faço mais essas contabilidades detalhadas. Surpreendeu-me e surpreende-me como a mais de um século de distância os seus dramas continuam a ser tão actuais. Bom… pensando melhor e enchendo o peito de ar: a altura das saias sobe e desce, a forma dos colarinhos das camisas muda, mas no fundo e por trás de tudo isso, as misérias e grandezas da condição humana são intemporais e intemporais serão também as suas autênticas pinturas.

O herói de Dostoivesky é um nobre arruinado ou arruinando-se. Com tanto de quase tudo, teoricamente mais do que suficiente para um brilhante sucesso, mas passa ao lado de tudo e tudo desdenhando. Tipicamente suicida-se. Stravoguine deixa na mensagem final: “Mas, mesmo aqui, não pude odiar ninguém”. E, obviamente, aqui, em qualquer lugar e em qualquer tempo, odiar rima e rimará com amar. Com o grande desprendimento de quem nada agarra, dá tudo o que tem por nada. Desiste da forma mais completa possível: limpando o mundo e limpando-se a si.

A personagem de Dostoivesky é altamente improvável em termos não ficcionais, pelo menos daquela forma. Há o simulado que como conta Pessoa, e cito de memória, “num grande gesto magnânimo, dá ao primeiro mendigo que encontra tudo o que tem na algibeira, … mas apenas na algibeira onde guarda menos dinheiro… não sou parvo nem nenhum romancista russo”. Ou seja uma espécie de duplo falhado. Desistindo de desistir. Pretendendo possuir a grandeza de estar noutra escala de valor, onde o que vale para os outros para o próprio é indiferente, mas, no fundo, com um medinho, incoerente é certo, de perder o que não devia valer.

Stravoguines verdadeiros existirão então poucos ou nenhuns, mas quantos não há que sobem sorrateiramente ao sótão da solidão e que, em vez de passarem uma corda pelo pescoço, simplesmente fecham a porta e apagam a luz?

20 março 2008

O Desgosto dos Belgas

A notícia tocou-me a vários níveis. Hugo Claus, doente de Alzheimer, morreu de eutanásia, a seu pedido, consciente. E a palavra que salta para o primeiro plano é coragem.

Hugo Claus escreveu sobre o seu país com muita coragem. Sendo Belga e Flamengo, escarafunchou fundo na tacanhez das mentalidades desse pequeno país, tão cheio de pequena gente. O seu livro “O Desgosto dos Belgas” é um testemunho e um retrato terrível daquela Flandres que, como Brel tinha acusado meia dúzia de anos antes, era “nazi durante as guerras e católica no intervalo delas”. E escreve de uma forma tão lúcida e incisiva, só possível a quem está muito próximo e o vive e o ama e o sofre.

Depois, o fim. Face ao Alzheimer, aquela coisa que faz partir o espírito à frente do corpo, Hugo Claus disse não, que queria partir todo de uma vez, no momento que ele escolheu. Não sei se ele se cruzou com Brel, mas não posso deixar de evocar mais uma vez esse outro flamengo tresmalhado: “Morrer, isso não é nada, agora envelhecer, ó envelhecer...”