Mostrar mensagens com a etiqueta States. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta States. Mostrar todas as mensagens

08 maio 2026

A culpa é dos States


Sim, os EUA não são de forma nenhuma um ator angelical e puro na geopolítica mundial. Particularmente o seu atual Presidente deixa muito a desejar quanto a ética e princípios, mas daí a colocá-los na primeira linha das responsabilidades por todas as desgraças do mundo, vai a distância de uma generalização abusiva.

Recentemente vimos uma inacreditável “pérola” desse “desporto” de culpar os EUA de tudo e mais alguma coisa. Judite de Sousa, que por formação e currículo tinha obrigação de saber o que diz e medir as suas palavras, veio afirmar que “O Japão atacou Pearl Harbour porque levou com dois bombas atómicas”. Não está apenas em causa a discrepância cronológica do ataque japonês ter ocorrido em 1941 e os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki em 1945.  O primeiro evento foi um ataque surpresa, sem declaração prévia de guerra, que precipitou a entrada dos EUA na guerra; o segundo foi o momento final que levou à capitulação do Japão.

Penso que nem Donald Trump poderia afirmar tal barbaridade, sendo de realçar que ele não tem formação superior em História, como esta famosa jornalista e comentadora … É absurdo e estúpido demais para ser verdade.

Dir-se-ia que as nossas TVs têm mais espaços de comentários do que comentadores habilitados para os preencher. Que crédito podemos dar a esses palpitadores “todo-o-terreno” que por ali pululam?

08 abril 2026

Comical Trump


Durante a invasão do Iraque em 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf, na altura Ministro da Informação de Saddam Hussein, ficou famoso por relatar na televisão evoluções da guerra que só ele via, conforme os seus desejos e completamente opostas à realidade em curso. Uma das alcunhas irónicas que recebeu foi Comical Ali.

Por estes lidos temos ouvido outro cómico falar de conversações de paz, mudanças de regime no Irão e outros “factos” que também apenas ele “vê”. Tem algum paralelo.

É difícil não concordar com a necessidade de impedir o acesso do Irão à bomba atómica, seria salutar uma mudança de regime (para melhor) e silenciar os terroristas do Hezbollah e outros afilhados… No entanto, antes de mexer num vespeiro, convém tomar as necessárias precauções. Uma delas, seria, por exemplo, garantir a segurança do estreito do Ormuz, que está em via de se tornar uma das portagens mais caras do mundo!

Um regime como o iraniano não cai apenas por lhe decapitar algumas lideranças, mas Trump parece ter entrado numa fase de arrogância e prepotência que exclui toda e qualquer opinião diferente da sua, o que costuma dar asneira.

 Esta guerra, a continuar assim, não vai terminar rapidamente e a desproporção de custos entre um drone e o missel que o intercepta é tal, que o tempo corre a favor do Irão. Também não será com bombardeamentos contínuos e com ameaças boçais e brutais contra toda a população que ela receberá estes “salvadores” de braços abertos.

Se o objetivo era ter em Teerão um regime mais tolerante e comprometido com uma certa ordem internacional, talvez tivesse sido boa ideia não ter cortado as pontes em 2018, quando o mesmo Trump decidiu matar o acordo, bom ou mau, mas um acordo, em curso. 

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

13 janeiro 2026

Opus

Certamente que haverá muita gente boa e bem-intencionada associada ao movimento Opus Dei.

Quem se quiser informar (e não pelo “Código da Vinci”) encontrará facilmente alguns detalhes que farão franzir sobrolhos. Uma organização elitista focada no poder, abusos de poder e o degradante tratamento das auxiliares, coerções e limitações das liberdades dos seus membros, mortificações corporais e outros sacrifícios físicos algo medievais, manipulações tocando gente demasiado jovem para ser embarcada nestes projetos, roturas familiares pouco cristãs, altos jogos de xadrez no Vaticano apadrinhados por João Paulo II. Enfim, muita coisa muito pouco enquadrável e abençoável pelos princípios cristãos, sendo que, se Cristo voltasse à Terra, talvez os tratasse pior do que fez aos vendilhões do Templo. E, mais uma vez, todos aqueles que participam e acreditam estar num campeonato pio e meritório, tentem informar-se (se puderem) e ser objetivos.

Sobre o pano de fundo do colapso do Banco Popular, este livro faz uma viagem detalhada sobre a história da organização, visitando muitos dos detalhes que em grande parte já se conheciam. O que me deixou muito surpreendido e mesmo chocado foi, particularmente relativamente aos EUA, a facilidade com que milhões e milhões podem ser oferecidos e circularem sem o público saber bem quem paga o quê e para quê. É conhecido que por lá os donativos para as campanhas eleitorais, por exemplo, atingem dimensões astronómicas, chocando um pouco tentar imaginar o que os doadores estão a (tentar) comprar que possa justificar tais valores.

Quanto à sua entrada e influência nos meios académicos, entre estes e os wokes, o Diabo pode estar à vontade para escolher…!

Voltando ao Opus, resta esperar que o Papa Leão XIV continue os passos do Papa Francisco, refreando os ímpetos e o poder da organização, caso contrário parece-me existir um risco de vermos uma mutação da religião, com José Maria Escriva a substituir Cristo como figura fundamental e este a deslizar para partilhar o fundo da cena com Abrão.

Em conclusão o que me repugna fortemente são organizações, esta e outras semelhantes, utilizarem boas causas como simples engodo para projetos de poder, atraindo e enganando gente bem-intencionada.

Se alguém discordar, diga… 

Sobre estas reflexões de há 20 anos, pouco mudou...

04 janeiro 2026

E agora mundo…?

O regime de Nicolás Maduro era criminoso, não tinha legitimidade e é possível (sejamos otimistas) que o povo venezuelano passe a viver melhor no futuro, após esta operação militar. Depois do descalabro social e económico provocado pelo chavismo, não é muito difícil.

No entanto, e por muito que possa eventualmente melhorar a vida no país, é impossível apoiar a operação dos EUA, simplesmente porque o argumento de ter o direito de aniquilar um regime narco, serve também para atacar os “nazis” da Ucrânia pela Rússia e os “amotinados” de Taiwan pela China. Nestes dois últimos casos não há nenhuma “desculpa” minimamente séria e razoável nem nada de bom a esperar para os países atacados.

Não faltam países no mundo com regimes criminosos cujas populações têm a vontade e o direito a viverem melhor, no entanto, ao avançar com intervenções militares, sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba.

No pano de fundo temos uma ONU completamente ultrapassada e esvaziada. Quando a diplomacia colapsa, entram as armas. O mundo em que queremos viver tem que saber como conviver com essas armas, recordando que nem sempre estarão em “boas” mãos.

18 setembro 2025

Os argumentos e as balas


 "Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo”. Esta frase é muitas vezes atribuída erradamente a Voltaire, mas a sua pertinência e mérito são independentes da respetiva origem.

Certamente que não concordo com muito do que Charles Kirk afirmava. Vi alguns filmes dos seus debates com estudantes, ignoro se completamente representativos e notei o seguinte. Ninguém estava ali obrigado, ele tinha respostas e perguntas provocatórias, mas não agressivas, não o vi insultar os seus interlocutores, mesmo quando eles assumiam posturas arrogantes. Vi-o questionar ideias e, em muitos casos, demonstrar incoerências. Repito que não posso afirmar que fosse sempre assim, mas o tom dos debates era idêntico em todos que vi…

Penso que uma boa parte do ódio que recebia não seria pelas “ideias” em si, mas pela sua capacidade argumentativa com que muitas vezes “destruía” discursos e “sagrados”…

Que tenha sido assassinado é grave, mas, mais grave é que se vê de júbilo pela sua morte. “um bom fascista é um fascista morto”; de absurdas supostas reciprocidades “quem com ferros mata…”, quando ele não agrediu sequer ninguém e de comparações absolutamente desproporcionais com ditadores assassinos…

Que haja quem assim pense e o assuma é muitíssimo grave. Quando se começa a combater ideias com balas, sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba…

02 setembro 2025

Dust Bowl


O famoso romance de John Steinbeck, “As vinha da Ira”, começa com a partida de Tom Joad e família do Oklahoma pobre e arruinado, para a Califórnia, a suposta terra prometida.

O facto histórico por trás da ruína dos Joad e de muitos agricultores das planícies centrais dos USA, foi uma das maiores catástrofes ecológicas do século XX. A designação inglesa original é “Dust Bowl” e ocorreu nos anos 30 do século passado. Os detalhes do fenómeno podem ser facilmente encontrados na internet (sugiro aqui, donde retirei a ilustração acima).

Resumidamente, a sequencia começou com a instalação de colonos nessas planícies e a sua adaptação a terreno agrícola. Essa alteração arrancou a flora original, de raízes profundas, fundamental para a estabilização dos solos. De seguida vieram longas secas que transformaram o solo fragilizado em pó. Para acabar, ventos fortes arrastaram essa camada de poeira, empobrecendo ainda mais os terrenos e criando nuvens negras que duravam dias e percorriam enormes distâncias, uma catástrofe ecológica, económica e social enorme.

Como é evidente, a causa do problema e respetiva dimensão foi uma intervenção humana desastrada, que a natureza não perdoou… Certo que há 100 anos talvez não se soubesse tanto como hoje e a própria difusão da informação seria mais limitada.

A ocorrer hoje, vai uma aposta 1 x 1 milhão em como a “responsabilidade” seria atribuída às alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa…? Sim, que as há, mas usá-las para desresponsabilizar incompetências e ignorâncias não é bom serviço à causa…

17 abril 2025

Incoporated States of America


A imagem dos representantes das grandes corporações americanas logo atrás de D. Trump na sua tomada de posse ficará para a história. Não necessariamente pela proximidade do mundo dos negócios à política e ao poder, alguém sempre pagou os milhões das campanhas eleitorais, mas sim pela visibilidade dos mesmos. O segredo é muitas vezes a alma do negócio e as influências desenvolvidas nos bastidores são frequentemente mais eficazes.

Também a linguagem arrogante e grosseira de Trump não será certamente uma estreia absoluta. As famosas gravações da Casa Branca, divulgadas durante o processo Watergate, mostraram um presidente Nixon bastante menos elegante verbalmente do que se imaginaria. A diferença aqui é, mais uma vez, o assumir publicamente essa postura.

Defender interesses nacionais com medidas protecionistas, mais ou menos camufladas, quando tal é considerado útil, também não é uma novidade absoluta, mas a diferença aqui não se fica apenas pelo estilo, é a dimensão e a imprevisibilidade.

Taxas aduaneiras altas são sinónimo de países que não conseguem ter uma economia competitiva em terreno aberto e quem as paga é quem importa. Os EUA pertencem agora a esse clube? Depois, e nomeadamente para bens industriais, que parecem ser o foco principal de Trump, não se ganha dimensão e competitividade de um dia para o outro. É necessário investimento e desenvolvimento de conhecimento, coisas que nunca avançam com regras a mudarem todos os dias. Donald Trump está a comportar-se como um caprichoso e arrogante dirigente de um país que falha e não encontra o bom remédio dentro de portas, como lhe compete.

Para a dimensão do país, a aplicação destas medidas provocaria um impacto dramático na economia mundial… e na própria. Na prática nem sabemos se irá acontecer mesmo assim, ou se é apenas bluff e tática negocial. De todas as formas jogar ao poker nesta escala, isso sim, é inédito.

06 março 2025

Camarada Trump, amigo; o povo está contigo!

Constitui para mim um mistério como gente com formação, informação e discernimento conseguiu, e alguns ainda conseguem, terem benevolência, compreensão e apoiarem sistemas comunistas que, apesar de algumas boas intenções na sua génese e nessa época, resultaram em implementações miseráveis e muitas delas criminosas em grande escala.

Duplo mistério é como esses supostos iluminados ainda têm simpatia com Putins, que apesar de partilharem a geografia e alguns métodos do famoso e tenebroso pai dos povos, não tem nada de nada em comum com as teorias de Karl Marx.

Onde já não há palavras é para caraterizar o alinhamento destes EUA com os criminosos de Moscovo. Então os EUA não eram o inimigo visceral de todo os comunistas? Como ficam os órfãos de Estaline neste cenário de verdadeiro curto-circuito mental? Seguem Putin e aplaudem Trump? Iremos ver o atual presidente dos EUA discursar na próxima Festa do Avante?

Este alinhamento não lembra ao diabo e deve ser também um curto-circuito mental para os herdeiros do senador McCarthy, o tal que tanto investigou e perseguiu os perigosos comunistas infiltrados nos EUA.

É óbvio que este mundo se rege muito mais por interesses do que por princípios e os EUA já apoiaram bastantes regimes pouco saudáveis para as suas populações e respetivos direitos e liberdades. No entanto alguns princípios, mesmo que teóricos, precisam de existir, que definam a identidade das nações. Não posso acreditar que uma parte significativa da população americana se identifique com estas opções.


22 fevereiro 2025

Acabou o recreio


Uma certa Europa vive o fim de uma era da inocência, quando se entretia a discutir o sexo dos anjos e a procurar novos anjos para defender.

Se Trump e Cia podem ter razão nalguns aspetos, o wokismo é uma praga irracional, uma Gronelândia autónoma à mercê da Rússia é um problema, um canal do Panamá chinês é um risco enorme, tudo disso se desvanece face à arrogância e intimidação brutais do senhor e do indescritível Elon Musk, que, quando se vê em excitados pulos, parece mais um adolescente retardado do que um esboço de estadista. A grande questão é como irão as instituições dos EUA aguentar e resistir a esta “cowboiada”.

Para a Europa, é o fim do recreio. O papá rico cortou a mesada. Terá que viver, especialmente no domínio da segurança, com os seus próprios meios. Não vale a pena chorar. Provavelmente os Trumpusks irão embater no muro, as suas famosas tarifas serão um boomerang  que retornará contra a sua própria economia, mas não é por os regentes europeus irem ajoelhar a Washington, implorar qualquer coisa ou simples bom senso que os excitados execráveis se colocarão em questão.

É o momento da Europa decidir e assumir se é “uma” coisa, se tem princípios e coragem para lutar pelos mesmos. Esqueçam os EUA, pelo menos por agora. Acabou o recreio.

31 janeiro 2025

Deep "Sick"


Esta semana passou um furacão nos meios e empresas tecnológicas com a chegada da ferramenta de inteligência artificial chinesa, Deep Seek, mais barata e tão ou mais eficaz do que as congéneres americanas estabelecidas.

Quanto a eficácia, ela será um pouco questionável quanto a temas como “Tiananmen”, devendo-nos isto fazer refletir sobre os créditos que devemos dar à isenção destas máquinas sabichonas em geral.

Quanto a custos, sabemos que tudo o que vem da China é barato, nem se sabendo por vezes as razões de fundo da competitividade. De recordar que a Europa, ferida na indústria automóvel, quer travar o que nesse campo de lá chega, por supostas ajudas públicas ao setor.

Por último, mas não menos importante, estas ferramentas precisam de enormes infraestruturas tecnológicas e bons algoritmos, mas, sobretudo, de informação em quantidade brutal. Como uma simples “start-up” caída das nuvens conseguiu criar e ter acesso a essa biblioteca de dados colossal? Sabendo que ela depois se autoalimenta com os dados que lhes são colocados para analisar e rever, terão consciência os utilizadores que estão a engordar uma enorme base de dados chinesa?

Recordando as dúvidas e entraves colocados à utilização de equipamentos de telecomunicação chineses nas nossas redes, será que embarcar nesta IA “barata” não será potencialmente muito mais grave?

11 novembro 2024

Não ser Trump não chega


A vitória de Trump não é uma boa noticia e dispenso-me de elencar todas as razões já sobejamente enunciadas. Certamente também não será o fim do mundo, uma vez que ele já lá passou 4 anos e ainda cá estamos com as instituições cá e lá relativamente estáveis. Talvez um dos aspetos não negligenciáveis, a prazo, é a degradação de valores cívicos e éticos que uma liderança destas transmite à sociedade. Já houve no passado outros presidentes de princípios “marginais”, mas com a diferença que o escondiam ou conseguiram manter escondido. A menos de Nixon e o seu Watergate.

A surpresa quanto à derrota de Kamala, virá de quem achava que bastava não ser Trump para reunir um largo e maioritário consenso de “gente boa e luminosa”, garantidamente vencedora. E não foi assim. Kamala foi uma vice-presidente muito pouco luminosa e largos sorrisos “dentífricos” não chegam certamente para ser reconhecida como líder.

Enquanto não se encontrar uma terceira via entre o populismo arrogante e boçal e o wokismo arrogado e sofisticado, enquanto as escolhas se mantiveram entre estes dois polos, receio bem que o povo preferirá a arrogância boçal à arrogância elitista.

A “culpa” não é do Trump…

27 outubro 2024

Quando o rei vai nu


O espetáculo que estamos a assistir nos EUA com uma figura chamada Donald Trump, parece saído de um filme de ficção e dos pouco verosímeis. Leio que os Republicanos até já estão a entrar com ações em tribunal para preparar a contestação a uma eventual derrota. Esperemos que as instituições americanas sejam suficientemente robustas para aguentar estas e outras investidas. Uma coisa é ter esse senhor como Presidente, outra coisa é a democracia e o Estado de Direito se degradarem num país com a importância deste…

É chocante como esta figura pode um dia figurar numa galeria ao lado de gente como, por exemplo, Abraham Lincoln ou Franklin Roosevelt. A questão é que não se assiste a uma transição direta de líderes cultos, esclarecidos e verdadeiramente mandatados pelo povo para o interesse do povo, para estes tristes populistas fanfarrões e desrespeitadores das instituições. E também o problema não é específico e isolado dos EUA. Em maior ou menor escala, atacas várias democracias, já que quanto a isso as ditaduras têm problemas de outra natureza.

Se olharmos para as realidades mais próximas, que melhor conhecemos, é forçoso reconhecer a diminuição das qualidades e da seriedade dos líderes democráticos, cada vez mais preocupados com o poder pelo poder e só aparentemente comprometidos com o bem-estar e o desenvolvimento dos seus cidadãos. Digamos que estes “reis” andam a perder peças de credibilidade de forma contínua e irreversível…

E quando se descobre que o rei vai nu… entra o bobo!

Não é questão de ideologia, embora ela possa vir atrás, é questão de dinastia. É apenas descrédito das “famílias reais”…

19 agosto 2024

Desvendando labirintos


Já algumas vezes aí para trás tive a oportunidade e o prazer de referir o quanto aprecio a obra deste escritor libanês (ok, quando ele lá nasceu a zona tinha administração francesa).

Para lá dos seus romances históricos ricos e “humanos”, estamos perante alguém que pensa e com uma latitude de análise que alarga a nossa, caso nisso estejamos interessados. Este “Labirinto dos Perdidos”, sua última publicação, não é romance nem está centrado no seu Levante (Mashrek).

É a história dos sucessos e fracassos de quatro nações cujas transformações mais marcaram o século XX: Japão, Rússia, China e Estados Unidos. O que houve de novo em cada processo, o que fez o a diferença e o sucesso, onde os caminhos se perderam, como os erros chegaram.

É um livro obrigatório para quem tiver curiosidade em entender o que por este mundo está a acontecer… e pode vir a acontecer. Muito bom!

20 maio 2024

Protestos contra… os próprios


Tem-se visto algumas referências ao paralelismo entre os atuais protestos de estudantes, particularmente nos USA, contra a guerra na Palestina e aos de há umas décadas atrás contra a guerra do Vietname. Há alguns pontos em comum, mas a intervenção militar americana na indochina tinha motivações, objetivos e antecedentes completamente diferentes dos do contexto atual. Também quem protestava era quem, ou seus próximos, lá ia expor-se, o que não é o caso de todo neste momento.

O que há também de comum entre estes protestos e outras contestações estudantis é o serem “contra o seu sistema”. É compreensível e meritório que os jovens queiram e exijam um mundo melhor e questionem a forma como o seu mundo é administrado, mas isso não deveria gerar simpatia por regimes brutais, largamente piores em termos de respeito pelos direitos humanos do que o mundo ocidental. Porque será que a brutalidade da Rússia na Síria para acabar com o Estado Islâmico, poucos dedos fez levantar? Xinjiang diz alguma coisa?

Na fundação de Israel, este enfrentou os estados árabes promovidos pelo ocidente, na sequência da reorganização dos Médio Oriente, pós queda do império Otomano. Assim, inicialmente foi buscar apoio ao chamado bloco de Leste. Vai uma aposta em como se hoje os EUA ainda apoiassem apenas os árabes e a Rússia suportasse Israel, os estudantes americanos estariam sossegados ou, quando muito, a sair à rua com bandeiras do estado judaico, protestando contra o (seu) imperialismo que tinha desencadeado esta guerra desnecessária? Depois, há também quem se aproveite desta ingenuidade/ignorância e que lhes chama “idiotas úteis”.

31 outubro 2023

Algures neste mundo


Algures no Médio Oriente, para dominar uma sublevação e um movimento terrorista, uma cidade é fortemente bombardeada, causando a morte de milhares de civis inocentes. Falamos de Gaza em 2023? Sim, mas não só. Poderíamos estar também a falar de Alepo, arrasada por bombardeamentos russos em 2016. A bandeira dos aviões era diferente, mas as bombas e as vítimas nem tanto.

O que foi muito diferente foi a reação e as manifestações de apoio e repúdio por este mundo fora, como se as bombas russas, para muitos, fossem toleráveis face ao mal em causa e as israelitas não. Esta flagrante diferença de critérios ajuda a explicar em parte porque este conflito não acaba e a causa palestiniana é para muitos bastante conveniente. Temos de um lado os ocidentais antiocidentais, para os quais o sistema económico e social de Nova Iorque, Londres, Roma, Lisboa ou Telavive é maléfico e, por oposição de princípio, apoiam o inimigo do inimigo. Se bem que, no fundo, não me pareçam muito motivados a irem mesmo viver para os outros sistemas alternativos de Moscovo, Teerão, Pequim ou Pyongyang.

Do outro lado estão os verdadeiramente defensores desses regimes alternativos, que odeiam (e invejam?) o ocidente e os seus valores. Estes são mais perigosos e consequentes. Não desvalorizando as desgraças em curso naquela zona do planeta, convém não misturar as causas e confundir as leituras. O primeiro passo para encontrar soluções é ler corretamente o enunciado.

07 agosto 2023

Hiroxima, missão assassina? (I)


Por estes dias, concretamente a 6 e 9 de agosto, registam-se os aniversários dos bombardeamentos atómicos sobre o Japão de 1945, acontecimentos que mudaram para sempre este mundo e as suas guerras.

Uma primeira discussão será de até que ponto isto poderia ter sido evitado e a bomba atómica não ter sido de todo inventada. Parece impossível. A própria Alemanha estava na corrida, imagine-se se tivessem chegado primeiro, e mais tarde ou mais cedo a bomba seria uma realidade. A perseguição aos judeus, incluindo aos físicos que fugiram e atravessaram o Atlântico, foi afinal um "feliz" tiro no pé dos nazis.

A segunda questão é se havia necessidade de a ter utilizado e se este massacre de civis constituiu um ato criminoso. Se bem que com meios diferentes, bombardear cidades para forçar rendições, aconteceu neste final da guerra, mas também logo no início. Quando em maio de 1940, a Alemanha resolveu atacar e França, atravessando o Benelux para contornar a famosa linha Maginot, a Holanda resistiu inicialmente, mas rendeu-se após um brutal bombardeamento que arrasou Roterdão. A Bélgica, na perspetiva de sofrer algo idêntico também não resistiu e estas capitulações relâmpago dos seus vizinhos do Norte, foram muito criticadas pela França, que a isso atribui a sua derrota… relâmpago.

Seguiu-se o massacre de Londres e a “very british” reação de “Keep calm and carry on”. Mais tarde seria a resposta aliada na Alemanha, como, por exemplo, Dresden, Colónia, Hamburgo e Berlin.

Quando Truman decide largar a bomba em Hiroxima, para forçar a capitulação do Japão, não era também a primeira vez que uma cidade nipónica sofria um bombardeamento. O tipo de bomba, escala e efeitos foram diferentes, mas o princípio não foi diferente do que tinha sido corrente naquela guerra.

O segundo bombardeamento de Nagasaki, apenas 3 dias depois, sem ter dado tempo ao Japão de assimilar e reagir ao de Hiroxima, é bastante mais questionável. O fato de a primeira bomba ser de uranio e a segunda de plutónio, faz especular sobre se o interesse “científico” em testar os dois tipos de bomba não se terá sobreposto aos objetivos puramente militares e humanos…

Enfim, com a ligeireza e tranquilidade de quem hoje está a olhar para isto sentado num sofá, a toda esta distância, parece-me que Hiroxima tem desculpa, mas Nagasaki talvez não.

Continua para ...

20 agosto 2021

Tinha que ser assim?


 A imagem das centenas de afegãos partindo no avião militar americano vai certamente ficar para a história. Este retrato tem dois tempos. Um é o da transição catastrófica que obviamente não tinha que ser assim e que demonstrou uma enorme impreparação e capacidade de previsão por parte de quem por lá andava há 20 anos, aparentemente com visão exclusiva de drone.

O outro tempo é o que agora começa e todo o sofrimento e humilhação que sofrerão daqui para a frente afegãos e afegãs, elas muito mais do que eles. Para os meninos e meninas excitados com as desventuras do imperialismo ianque, consultem a história e respeitem quem sofre.

Para a história ficará também o discurso de J. Biden de que aquela guerra não era a deles, que só lá tinham ido neutralizar uma base terrorista e, quanto a isso, missão cumprida. Todas as promessas e expetativas legitimas criadas aos afegãos e afegãs… “não é o nosso problema”. De um cinismo revoltante. Pode ser a mais pura verdade, mas a imagem dos EUA como, apesar de tudo, patrocinadores e garantes de um mundo livre e justo morreu e não foi Trump que o matou, quem diria…

Tinha que ser assim? 20 anos de banho de mundo livre, ao menos muito melhor do que o anterior, não podiam ter deixado uma marca um pouco mais perene?

O que faltou/falta para consolidar o respeito básico pelos direitos humanos neste país e noutros? Quando se vê a enorme quantidade de gente que desses países quer migrar para o “Ocidente”, o que falta para nas suas pátrias se conseguir implementar e consolidar um regime “Ocidental”. Certamente algo mais do USDs (e rublos) e drones (e tanques). A questão é toda … evolução cultural, sem preconceitos, remorsos, ignorância nem arrogância. Demora tempo, sim. Mais de 20 anos, não sei. Desistir é que não serve.



06 agosto 2021

Talibans e o resto


 Em 2001, os EUA entraram no Afeganistão para controlar o país que albergava os terroristas do 11/9. Hoje, 20 anos depois, deitam a toalha ao chão e retiram. Os ditos talibans, que já antes tinham dado água pelas longas barbas à URSS, avançam rapidamente, retomando o controlo de grandes partes do país, deixando em maus lençóis todos os que de uma forma ou de outra colaboram com os EUA e acreditaram numa sociedade mais aberta. Muito especial e dramaticamente as mulheres.

Por muito profundas que sejam as raízes tribais desse movimento, a sua eficácia e subsistência não depende apenas dos calhaus da montanha. Ao que parece é/foi o Paquistão, ali ao lado, que de uma forma mais ou menos assumida lhes serviu de apoio. Um bocadinho acima do mesmo lado, está a zona problemática da China, dos uigures, onde existem movimentos terroristas, ETIM e outros, que parecem gozar de algumas facilidades no Paquistão e nas zonas controladas pelos Talibans.

A China tem interesse no Paquistão, o corredor até ao Índico da sua BRI atravessa todo o país. Os terroristas uigures atacam aqui interesses chineses e estes puxam as orelhas aos paquistaneses.

Um destes dias uma comitiva taliban foi recebida oficialmente em Tianjin (foto) e um dos objetivos, teoricamente alcançado, foi de obter um compromisso da parte dos novos futuros líderes afegãos em como deixariam de apoiar os separatistas uigures. Quem conhece o terreno, o histórico e as culturas tem dúvidas de que a prática corresponda.

Entretanto, há gente no Afeganistão a voltar às trevas.

Sem querer particularizar excessivamente nos atores concretos desta realpolitik, é uma vergonha para a humanidade assistirmos a estes retrocessos brutais nos direitos humanos, caucionados por países e regimes representados nas instituições internacionais e supostamente comprometidos com os princípios básicos de respeito por esses direitos humanos. Seria mais útil e mais interessante que a opinião pública se interessasse por isto e deixasse o Vasco da Gama em paz.