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06 fevereiro 2026

Fazer de conta (uma vez mais...)

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última. Face a uma situação não rotineira, o aparelho do Estado entra em modo barata tonta, sem rumo nem determinação, como se tivesse aterrado num mundo alienígena, que é preciso “aprender”. Enquanto pessoas desesperadas e desalojadas caem dos telhados ao tentarem proteger o que lhes resta das suas casas semidestruídas, enquanto isso… um ministro produz vídeos de autopromoção, outro levanta uma barraca e leva uma dúzia de militares com motosserras a um beco, uma ministra penosamente luta por conseguir nos dizer algo com sentido e uma caravana ministerial de veículos negros vai lá ver…

Ao fim de vários dias, anunciam-se uns apoios… é tudo o que sabem fazer: oferecer dinheiro. Capacidade e estruturas efetivas e competentes de liderança e de realização não existem. Nem existirão. Quando a matéria-prima é fraca o resultado será sempre sofrível. 

No final, face ao mundo real, os alienígenas são os “responsáveis” políticos.

A imagem dos F16 danificados no hangar é também um bom exemplo de como, mesmo nas Forças Armadas, prevenção e antecipação não parecem ser conceitos familiares.

15 janeiro 2026

A dificuldade de pensar…


Em outubro de 2024 o Governo lançou o Passe Ferroviário Verde com o qual, por 20 euros mensais, se pode viajar numa larga gama de serviços da CP, incluindo o Intercidades (IC). Não se previu que a procura pudesse disparar a ponto de saturar a oferta disponível, com impacto significativo nos ICs de reserva obrigatória.

Com as reservas a abrirem 24 horas antes da partida prevista da estação de embarque do passageiro, os utilizadores desenrascados descobriram que reservando para uma partida de uma estação a montante da sua teriam acesso à reserva com mais antecedência e pelo mesmo preço!

Obviamente que o truque se generalizou e alguém que queira ir de Santarém para Lisboa no IC das 13h18, pode fazer a reserva no mesmo comboio a partir de Braga, de onde sai às 10h04, ganhando mais de três horas de “vantagem”. Se alguém pretender ir no mesmo comboio do Porto até Coimbra, poderá não o conseguir porque há um lugar reservado desde Braga para alguém que vai entrar apenas em Santarém.

Que não tenham previsto o problema ainda se pode tolerar, enfim…, agora que não tenham encontrado solução, que continuem a circular comboios com lugares fisicamente disponíveis e gente a ficar em terra, já é mais um sinónimo de incapacidade de pensar e realizar, porque para encontrar uma solução para resolver este absurdo não é necessário desenterrar Einstein. Pelo menos já batizarem o fenómeno. Chamam-lhe “Viagens fantasma” e, como se sabe, não é fácil lidar com o sobrenatural.

03 janeiro 2026

E deixar de pifar?


Há países onde a passagem do controlo de fronteira nos aeroportos é uma lotaria que pode atingir várias horas de espera. Esses calvários não estão necessariamente associados a exigências de segurança. Em países como a China ou Israel, por exemplo, tive a experiência de uma passagem relativamente fluida. O problema está fundamentalmente na organização e, muito, nas atitudes.

Recordo-me de situações onde é necessário preencher uma ficha, muitas vezes escrita de pé na fila, com o passaporte a servir de apoio e depois o funcionário ficar paulatinamente a colocar os traços dos Ts bem horizontais e a completar as perninhas nos Ns e Ms, enquanto centenas de pessoas atrás esperam.

Vem isto a propósito do aeroporto de Lisboa onde por isto ou por aquilo é recorrente os viajantes serem brindados com largas horas de espera. Recentemente ouvi aterrorizado estatísticas de médias de 3 horas e pontas de 7! Tantas horas a fio, de pé, numa fila é absolutamente vergonhoso e mesmo desumano. Certo que as instalações não são as ideais… mas quando a PSP sugere a realização de um plenário no pico da tormenta, não parece estar do lado da solução. Será necessário ressuscitar o SEF, tipo baralhar e tornar a dar?

Quando a ministra atribui a culpa a um servidor que “pifou”, ficamos a adivinhar que haverá mais coisas pífias naquele sistema… Dizem nos Websummits que somos um país com um enorme potencial nessas coisas das tecnologias!  Que isto é indecente e vergonhoso disso não há dúvidas e para uma resposta eficaz ontem já era tarde!

30 dezembro 2025

Se o ridículo matasse, este país estava morto

No boletim de voto das Presidenciais de 2021 constava um senhor chamado Eduardo Nelson da Costa Batista, um candidato fantasma, já que quando o TC chumbou a sua candidatura os boletins de voto já estavam impressos.

Seria previsível que depois de tão ridículo falhanço, tivessem sido tomadas medidas para evitar repetições. Parece que não. Para 2026, as eleições seguintes às de 2021 parece que vamos ter não um, nem dois, mas três candidatos fantasmas nos boletins.

Coisas que acontecem quando a incompetência e impunidade são muitas. E fico por aqui, para não entrar pelos palavrões! Não criem uma cultura de meritocracia no aparelho do Estado, que estamos bem. Tudo funciona da melhor forma possível, dadas as (podres) circunstâncias.

Nota adicional: Aqui, há 5 anos eu esperava ingenuamente que não seria repetível...

17 novembro 2025

Um ativo em 2ª mão


Imaginem que alguém trespassa um stand de venda de automóveis em 2ª mão e diz ao comprador. Têm aí 50 automóveis, que valorizamos a 100 mil euros, mas não sabemos bem o seu estado. Vamos contabilizar a venda a 100 mil euros e se depois os vender por menos, assumimos e pagamos a diferença.

Neste contexto estão a ver o novo proprietário motivado a tentar vender os automóveis pelo melhor preço e obter os 100 mil euros? Claro que não, está pouco preocupado com isso, porque a receita está garantida. Aqui ainda estamos num domínio minimamente honesto.

Se passarmos à desonestidade, então o senhor esperto irá vendê-los a um amigalhaço, ou a si próprio indiretamente, por 20 mil, para depois revender por 80 ou 100, ficando com algum “lucro” no negócio, à custa do inocente que montou este negócio, com todo o risco do lado dele.

Imaginamos agora que não é um simples stand com um stock de automóveis, mas uma instituição financeira com um stock de créditos e de imóveis? Os mesmos riscos estão lá, apenas a escala é diferente. Acrescentemos que o vendedor, o tal que compensa a diferença, é o Estado Português, todos nós?

Será um pouco escandaloso, não? Foi e está a ser o caso da privatização do Novobanco. Estava-se mesmo a ver que isto ia acabar como estamos a ver nas notícias, não?


Atualizado a 30/11/2025 com cópia da publicação no "Público"


28 setembro 2023

Prateleiras vazias


Já todos vimos imagens de supermercados onde os produtos básicos têm preços tablados e acessíveis, mas as prateleiras estão sistematicamente vazias. Isto acontece em países onde, na incapacidade de permitir uma normal criação de riqueza e uma atividade económica sã, os governos centralizadores, incompetentes e hiper-legisladores, entendem que decretando preços baixos e outras limitações, o problema se resolve.

O resultado dessas abordagens são as prateleiras vazias. Encontro algumas semelhanças com o que se passa atualmente no mercado da habitação. Há falta de casas, para vender, especialmente para arrendar e as soluções governativas passam por travar rendas e outras diretivas restritivas. Se estas “prateleiras” já não estavam muito recheadas, não é assim que se vão compor, pelo contrário. É difícil de entender?

20 outubro 2021

Prioridades e critérios no SNS


Os hospitais públicos do SNS têm previsto um enquadramento e uma classificação em função de vários critérios como os serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e, particularmente, a população que servem. O CHVNGE - Centro Hospitalar Vila Nova Gaia Espinho serve uma população direta de 350.000, indireta de 700.000 e em áreas específicas de 1,2 milhões habitantes, cumprindo todos os critérios do nível III há 20 anos.

A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não foi ainda reclassificado não se sabe.

O mais curioso é que após uma visita ao CHVNGE do primeiro-ministro, ministra da Saúde e presidente da Câmara de Gaia á Instituição em junho deste ano, estes terão prometido a respetiva reclassificação para breve. A mesma acabou por ser concretizada a 1 julho, mas não integralmente. Abrangeu apenas os vencimentos dos gestores, que passaram a ser remunerados em função da importância efetiva do hospital.

Quanto aos 1,2 milhões de cidadãos que necessitem de acudir ao CHVNGE, podem ter o consolo de saber que a gestão do mesmo é reconhecida de topo. Quantos aos meios necessários, paciência…

20 dezembro 2020

Já vi este filme


A imagem de Eduardo Cabrita tentando defender o indefensável traz-me à memória Azeredo Lopes argumentando sobre Tancos e o célebre “no limite pode não ter havido furto nenhum!”. Neste caso, houve SEF, certamente, mas, enfim…  no limite pode deixar de haver.

O traço comum é a ligeireza com que supostos responsáveis ministeriais conseguem assumir tão facilmente uma postura de tamanha irresponsabilidade e fabulizar argumentos e suposições sem o mínimo de respeito pela inteligência de quem os ouve, os elegeu e a quem devem prestar contas.

Para ministros assim, efetivamente, basta ter sido fiel jotinha, assessor, chefe de gabinete e secretário de Estado. Se assim vamos a algum lado decente, obviamente que não! E encerro porque, a partir deste limite, já só me saem palavrões.

26 julho 2019

Fazer de conta


Há muitas situações em que a parecer conta e até pode ser suficiente, outras não. Basta imaginar um automóvel cujos travões apenas aparentam travar… Isto é capaz de ser a minha costela de engenheiro a dar prioridade ao ser/funcionar face ao parecer. Para mais detalhe consultar o brilhante Scott Adams e o seu Dilbert quando descreve as idiossincrasias dos engenheiros.

Por estes dias ficou a saber-se que a nossa brilhante Proteção Civil, que parece ter maior prioridade em proteger os seus boys do que a população em geral, mandou fazer e distribuir golas “anti fumo” que podem servir para alguma coisa, eventualmente para proteger os pulmões do frio no inverno, mas que a última coisa que devem fazer é estar em cenário de fogo. E foram distribuídas às populações das aldeias identificadas com alto risco de incêndio.

Lógica disto? Alguém se enganou? Não…! Colocada face ao ridículo a agência que faz de conta que protege esclareceu que efetivamente não se trata de equipamento de proteção, mas apenas de sensibilização de “boas práticas”. Aparentemente não parece ter sido essa a história contada aos felizes contemplados.

Ainda bem que a ANPC não especifica nem concebe automóveis, que teriam coisas parecidas com travões mas que não travam, volantes que não dirigem… enfim, ainda bem. Mas não é por acaso que este país anda um pouco descontrolado!

05 junho 2019

E acabar de vez com o Siresp?


Quando inicialmente o Siresp foi pensado poderia fazer sentido construir uma infraestrutura dedicada para aquelas funções, com aquela tecnologia. Na altura em que foi finalmente contratado e implementado, haveria já muitas dúvidas sobre a pertinência dessa opção e passemos ao lado da atipicidade do processo do concurso, com uma única proposta recebida, e o ziguezague da adjudicação/anulação/readjudicação.

Nas tragédias de 2017 ficou patente que o sistema tinha bastantes deficiências e limitações. Que para lá das atipicidades do negócio era necessário e fundamental que funcionasse mesmo e bem. Daí para cá muito se fala em investir/gastar dinheiro para melhorar o seu desempenho e disponibilidade.

Se há 15 anos era questionável a necessidade de construir uma rede dedicada, hoje, com o enorme desenvolvimento posterior das redes móveis, dúvidas não há. Parece-me que por mais euros que lá se coloquem, nunca fica resolvido o problema da obsolescência tecnológica e dos custos crescentes que ela acarreta. Não fará mais sentido acabar de vez com uma coisa que, ainda por cima, já nasceu velha?


- Incluindo versão impressa no "Público" de hoje.

18 abril 2019

Que tudo corra bem…

Soma e segue. Ou falta de competência, ou de empenho, ou de discernimento, ou de escrutínio, ou… mas... cada vez mais se confirma termos à nossa frente uma máquina de Estado cuja eficácia e excelência parece confinada à mui nobre atividade de cobrar impostos, além de gerir o dia a dia. Reformas, coisas pensadas a sério… mesmo um organismo privado que ousou fazer contas e apresentar umas questões sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, foi chutado para canto pelo ministro da tutela. Tudo está bem até a inevitabilidade ou as redes sociais obrigarem a fazer qualquer coisa.

A reação do governo à greve dos motoristas de matérias perigosas, não materiais, informem lá o Ministro que quis falar e se enganou várias vezes no nome, foi mais um exemplo de ir comprar as trancas depois de a casa estar arrombada. Está bem que não morreu ninguém, nenhuma ambulância ficou parada na estrada com um ferido grave, como também no caso do helicóptero do Inem despenhado em Valongo, não morreu mais ninguém, mas já houve tragédias a sério e a sensação e o amargo na boca têm o mesmo sabor: em cima do joelho e atrás do prejuízo.

Fica, e só como exemplo, o anedótico da forma como foram decretados os serviços mínimos para o abastecimento de combustíveis: 40% para a grande Lisboa e o grande Porto. Em primeiro lugar, como depois se corrigiu, 40% não é suficientemente específico. Seria necessário definir, de preferência estar pré-defiido, os pontos específicos e as regras de acesso, restrições e prioridades. Depois a limitação às duas grandes metrópoles diz muito sobre o conceito de “país” que vai naquelas mentes.

Que tudo corra bem, já que cada vez que algo corre mal ficamos entre a tragédia e o caricato.

14 janeiro 2019

Estranheza?


Em outubro de 2017 o país assistia atónito e angustiado a um enorme descalabro na plantação de naus a haver, raiz simbólica de sonhos e aspirações nacionais. O pinhal, de pinheiro, de Leiria sofria um incêndio de enormes dimensões.

Depois, vimos uma bonita cerimónia oficial de replantação, bastante parcial, está claro, mas de sobreiros, que são uma árvore “melhor”. É que o pinheiro, apesar de não ter o estigma do eucalipto, também não é assim mesmo o que deve ser. Sobreiro é politicamente mais correto e ficamos na dúvida sobre se aquele seria um primeiro passo para vermos a prazo um montado de Leiria ou outra coisa.

Aparentemente foi outra coisa, já que as tais arvorezitas simpáticas, se não morreram todas, pouco falta. Parece que não são adaptadas àquele solo e quem organizou a cerimónia catita, com representação governamental ao mais alto nível, não sabia e não terá dado ouvidos a quem sabe. Politicamente correto e tecnicamente errado, não é grande novidade, pois não? Será de estranhar que este país ande um pouco pior do que todos gostaríamos?

Podem ter um pouquechinho de vergonha e de humildade para acabarem com estas encenações absolutamente caricatas e trabalharem a sério?


Foto Daniel Rocha/Público

21 novembro 2018

Fácil…?



Em julho de 2015 visitei as pedreiras de Borba, no âmbito de um programa específico organizado por uma pequena empresa promotora de turismo cultural.

Foi muito interessante, formativo… e impressionante. Estar ali junto aqueles cortes abismais foi uma experiência inesquecível. Agora, o que não podia e ainda hoje me custa a acreditar, é que tamanhos precipícios não fossem objeto de monitorização cuidada, a ponte de poder fazer ruir uma estrada e causar mortos, mesmo sem ser na ocorrência de um fenómeno natural extremo.

Somos uns otimistas! E alguém será irresponsável, eventualmente.

02 outubro 2018

Um banco em segunda mão

Quando se vende um bem como, por exemplo, um automóvel usado, é habitual seguir-se o princípio de ele ser vendido no estado em que está, analisar-se previamente tudo o que houver para analisar, ficando fora de questão eventuais compensações, ajustes ou acertos futuros. Exceção, e legalmente suportada, poderá existir quando existe algo intencionalmente escondido. O princípio salutar é que a partir de altura em que já não sou eu quem o conduz e mantém, também não quero ser responsabilizado por eventuais avarias.

O processo de venda da Novobanco parece ser um caso pouco saudável do género: o banco agora é vosso, vocês passam a geri-lo, mas se alguma coisa correr mal, suposta herança do período anterior, mandem-nos a conta que nós pagamos. Este “nós” acaba por não ser bem o “nós” que assina. É o fundo de resolução e no fundo o contribuinte que evidentemente não tem mais opção do que pagar o que lhe mandam.

Leio que o NB anuncia precisar de mais 726 milhões, sendo que a conta ainda não está fechada. Parece-me ser uma história do tipo: olha, naquele automóvel que me vendeste há uns meses, a embraiagem foi à vida. Vou substitui-la por uma nova e mando-te a conta.

Não será tão simples avaliar o balanço de um banco como a saúde do motor de um automóvel, mas todos sabemos que a embraiagem pode ir à vida mais depressa ou mais devagar conforme o tipo de condução.

21 fevereiro 2018

E o meu carvalho?


Como muitos portugueses, recebi um folheto governamental com as recomendações e obrigações relativas à prevenção dos incêndios florestais. A parte que diz respeito à proteção das casas, aqui reproduzida, é pouco clara.

Por um lado, define a obrigação de limpar mato e cortar árvores num raio de 50 metros em redor das casas. Por outro lado, em letra pequena em baixo, diz “cortar árvores e arbustos a menos de 5 m da edificação…”. Como ficamos, 50 ou 5? Mesmo com o critério dos 5 metros, o meu carvalho estaria incluído. Sou mesmo obrigado a cortá-lo?

A limpeza das copas está mal definida, além de representada de forma pouco precisa. Presumo que no que diz respeito à altura, o objetivo será ter o tronco limpo até 4 metros de altura. Para qualquer espécie, para qualquer idade? Se formos limpar a maior parte das árvores de fruto até 4 metros, sobrará pouco… Na horizontal, os 4 metros são entre copas de árvores contíguas? Nas situações onde isso não ocorre, é necessário abater as árvores em “excesso”? A ser rigoroso com estas instruções, cheira-me que não sobrarão muitos pomares incólumes pelo país. Não faria sentido isto ser um pouco mais contextualizado, conforme espécies, tipo de exploração e zona?

Onde o folheto é muito claro é na questão das multas, com a particularidade de este ano serem a dobrar! De acordo com o folheto, o meu singelo carvalho pode custar-me 10 mil euros! Como é bem possível, por outro lado, existir legislação que penalize o abate de carvalhos, tenho que me informar e avaliar qual será o prejuízo menor.

Terão mudado algumas cabeças, mas mantém-se a ligeireza, apenas acrescida de chico esperteza: quando houver a próxima vaga de incêndios, a “culpa” será obviamente de quem não cumpriu estas obrigações irrealisticamente vastas e vagas.

08 fevereiro 2018

Memórias do muro


Esta semana cumpriu-se uma data curiosa relativamente ao muro de Berlim. Igualou-se o tempo que esteve construído com o tempo decorrido após a sua demolição. Quem diria…

Olhando hoje para essa memória, apetece-me evocar duas coisas. Em primeiro lugar a sua natureza direcional. O seu objetivo não era evitar a entrada de pessoas (ou de latas de coca cola). Era evitar as saídas. Em segundo lugar, a indiscutível melhoria das condições de vida, pelo menos, para não complicar, na ex Alemanha de Leste, decentemente governada. É possível hoje, racionalmente, defender a bondade desses regimes que, conforme disse Camus, tinham tanto de socialista como a Inquisição de cristã? Racionalmente, obviamente que não.

Há, no entanto, e haverá, nostálgicos desses tempos, enquadrados em dois tipos. Uns são os religiosos. Aqueles que acreditam dogmaticamente num modelo, apesar de após cem anos e ensaios em vários continentes e culturas, ter sido sistematicamente incapaz de proporcionar bem-estar material e intelectual de forma sustentável aos seus povos. Face as estas evidências, continuar a crer, é coisa do domínio religioso.

Outros são os que valorizam um certo paternalismo tranquilo do regime. Não é assim tão raro nos pós-ditaduras. Também por cá temos nostálgicos dos tempos respeitosos da “outra senhora”. Como se face a ter um caminho livre a descobrir, a arriscar, haja quem prefira ser levado pela mão. Pensa-se menos…

E, por favor, não me evoquem a pretensa superioridade moral, da solidariedade, da defesa dos desfavorecidos e etc. Na prática, a prática passou por uma oligarquia de privilegiados, muito pouco escrutinados, que, apesar das argumentações bonitas, foram incapazes de proporcionar vidas decentes aos seus povos.

Enquanto não lermos seriamente o passado, corremos sempre o risco de um futuro sombrio.


Foto de um Trabant no Memento Park, em Budapeste, onde arrumaram estátuas e outros monumentos "socialistas", anteriormente distribuídos pela cidade.

21 dezembro 2017

Coisas raras


Estas duas imagens acima, retiradas do Observador, mostram um “segurança” a carregar, supostamente para dentro do veículo uma caixa, imaginamos que com documentos (não será um cabaz de Natal, presumo). A seguir, a senhora sai, com o marido, ao volante desse automóvel, completamente à vontade, sem ser importunada.

Isto passou-se ontem na Casa dos Marcos e leio ter sido hoje realizada uma grande operação de busca pela Polícia Judiciária, entre outros, naquele local. Eu acharia lógico que essa operação tivesse ocorrido no dia seguinte à divulgação do escândalo ou, pelo menos, alguma ação fosse feita para evitar a destruição de provas, durante todo este tempo.

Ora bem, não foi assim. A PJ foi lá uma semana e meia depois, curiosamente no dia seguinte a a senhora ter estado na instituição o tempo que quis, fazendo o que quis e saindo levando o que quis, sem ser incomodada. Mesmo sabendo que ela estava a passar lá o dia, ninguém se lembrou de, pelo menos, travá-la à saída e revistar o carro? Portanto, em conclusão, a PJ encontrará o que foi deixado para eles verem, certo?

Não sei se é apenas coincidência, mas … porra! Alguém continua a gozar connosco, não?

28 outubro 2017

O que foi diferente?


Existem incêndios florestais significativos em Portugal há décadas. Com mais ou menos área florestal ardida, fatalidades costumavam ser muito pontuais e prejuízos materiais para lá da vegetação eram geralmente limitados a construções isoladas. Este ano foi diferente, pelo número de vítimas e, sobretudo no dia 15/10, pela extensão e natureza dos estragos, abrangendo zonas que não se imaginava expostas.

O que houve de diferente este ano? Diria que fundamentalmente as condições climatéricas de fundo, um inverno muito seco, e uma meteorologia atípica nos dias das catástrofes. Se isto foi efetivamente diferente, por si só não justifica toda a desgraça. Deficiências que poderiam passar desapercebidas em situações menos exigentes, ficaram expostas e agravaram as consequências. Incompetência dos “boys”, planeamento burocrático (as grandes catástrofes de junho e outubro não respeitaram o calendário oficial), as falhas nas comunicações, incluindo a vergonhosa história do Siresp e a falta de profissionalização e de organização no combate aos incêndios.

Não será certamente por falta de leis. Após Pedrogão foi aprovada nova legislação, a tal do D. Dinis bis, e dois meses depois, com o relatório da comissão independente e a segunda catástrofe, novo pacote é lançado. Considerando que uma árvore precisa de décadas para ficar adulta, imaginemos quantas reformas elas verão durante o seu crescimento, caso aguentem. Há bastantes semelhanças entre este pacote de outubro e o pós-2003. Até no anunciar de novas centrais de biomassa e, já agora, onde andam as lançadas em 2006?

Vemos muitas medidas bondosas, mas esquecem uma coisa fundamental: a economia! Enquanto não houver uma perspetiva económica que viabilize a exploração das florestas, estas ficarão abandonadas a gerar biomassa. Podem somar os bombeiros, militares e aviões que quiserem: elas irão arder, será apenas uma questão de tempo.

Entretanto, uma das poucas utilizações economicamente viáveis que é a plantação do eucalipto é diabolizada, como se fundamentalmente só ardessem zonas de eucalipto e o resto, como o pinhal de Leiria, fossem simples exceções, a confirmar a regra. Para lá de outras consequências económicas, se arrancarmos os eucaliptos, reduzindo a atividade económica existente, o abandono não irá agravar? Dizem alguns que não, que vamos plantar carvalhos, são melhores e mais bonitos. São sim, mas nem toda a gente tem o carro melhor e mais bonito que gostaria de ter, pois não? É a economia...

23 outubro 2017

Quem te avisa…


O “aviso” reproduzido acima não me foi entregue na entrada de uma exibição de “A Guerra dos Mundos”, para dar ambiente. Apareceu-me na caixa de correio (física) e não nestes tempos recentes de picardias e tuitadas entre o Mr Trump e o Kim. Foi já em 2010 e eu fiquei extremamente intrigado com como e porquê alguém se deu ao trabalho de elaborar e produzir um aviso daqueles. Costuma-se dizer que “quem te avisa, teu amigo é”, mas eu, ingrato, ainda não preparei a mochila recomendada.

Isto de avisos e calamidades, fez-me pensar que entre a catástrofe de Pedrogão e a calamidade do 15 de outubro, não recebi, nem me lembro de ver física ou eletronicamente nenhum aviso com o que fazer em caso de incêndio próximo. Presumo que seria algo útil para as populações mais expostas. Estas apenas ouviram, à posteriori, que deveriam ser mais pró-ativos e resilientes. Sobre a forma da pró-atividade, essa fica no campo do autodidatismo, já que somos um povo sobejamente desenrascado. Se correr mal, aprendam para a próxima… caso cá fiquem para tentar de novo.

Porque é que em quatro (4) meses não foi possível emitir e divulgar um “manual” sobre o tema. Falta de lembrança, de vontade … ou de conhecimento?

17 outubro 2017

Sobre as naus que não haverá


Se houvesse a escolher cinco locais naturais do país a proteger a “qualquer custo”, certamente que o pinhal de Leiria estaria nessa lista. Não apenas pela dimensão, pela função de estabilização do terreno numa parte daquela longa faixa litoral arenosa, que sem vegetação pareceria um deserto, mas, obviamente e também, por “a plantação de naus a haver” ser simbolicamente cadinho e berço de sonhos e aspirações.

O pinhal não estava dividido, com um canto do Manuel em Lisboa, uma tira do António no Luxemburgo e uma leira de uns herdeiros desentendidos quanto a partilhas (também não tinha eucaliptos…). Estava todinho à disposição do Estado.

Se há sítio onde podia e devia haver uma gestão e um ordenamento florestal irrepreensíveis seria ali. Avisos tinham saído de que a falta de limpeza e tratamento podiam proporcionar uma calamidade. Agora, resta-nos esperar serenamente pelas conclusões de um mui provável inquérito “post-mortem”. As notícias de que “faltava verba” para gasóleo, a ser confirmada, é assustadora, mas, realmente, não se pode ter tudo. O cumprimento do défice implica sempre prioridades. E pode-se reverter esta calamidade, senhores?

Será certamente replantado, não sendo necessário um D. Dinis bis para isso, mas a imagem acima de Hélio Medeiros do pinhal a arder, ficará na nossa memória associada à mediocridade e incompetência do desgoverno neste país, cada vez mais incapaz de sonhar com naus a haver. Tristeza.