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26 novembro 2025

De Miguel para Miguel

Já tinha aqui evocado este Senhor Miguel Unamuno e como o seu nome próprio, comum e associado ao do Cervantes, inspirou o pseudónimo literário do nosso Torga.

Este livro é uma leitura que Unamuno faz ao famoso romance e à personagem imortal e universal de Cervantes, escrevendo como se D. Quixote tivesse sido uma figura real e o outro Miguel o seu biógrafo. Ele lê-nos o livro, interpela o Cavaleiro da Triste Figura e, ao mesmo tempo, interpela-nos a nós e ao seu mundo contemporâneo que, não sendo propriamente idêntico ao de hoje, comporta questões de fundo que nunca perderão uma atualidade gritante. É um livro para ler devagar, por vezes tive mesmo de reler certas passagens para bens as digerir.

O texto que foi acrescentado como introdução, “O Sepulcro de D. Quixote” é das coisas mais fantásticas e bem escritas que já li.

Unamuno escreve muito bem e, para lá disso, mostra-se um fino conhecedor da natureza humana, especialmente naqueles aspetos onde não há séculos que a possam transformar. Um livro verdadeiramente magistral, que jamais se esquece.

A universalidade e a amplitude da leitura de Unamuno são especialmente curiosas pelas pontes que estabelece com várias figuras religiosas, das quais a não menos relevante é o assinalar as semelhanças entre as campanhas de D. Quixote e a vida de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Entre outros paralelos, ambos tudo abandonarem em busca da sua estrela, da sua visão de glória e do seu ideal. De passagem, sobre a universalidade da temática quixotesca, aproveitem para visitar a fantástica interpretação de “La Quete” (A busca) por Jacques Brel, exemplo aqui, e mastiguem bem as palavras.

D. Quixote não é apenas de la Mancha, nem de Espanha, nem do século XVII. É de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as gentes que acreditam e não desistem, que são loucas sim, mas pela grandeza das causas e pelo valor da vida.

Deixo duas passagens:

Numa obra de enganos e embustes se condensou, o fruto do nosso heroísmo; numa obra de enganos e embustes se eternizou a passageira grandeza da nossa Espanha; numa obra de enganos e embustes se condensa e compendia a nossa filosofia espanhola, a única verdadeira e autêntica; com uma obra de enganos e embustes chegou a alma do nosso povo, encarnada em homem, até aos mistérios do abismo da vida. E essa obra de enganos e embustes é a história mais triste que jamais se escreveu; a mais triste, sim, mas também a mais consoladora para quantos sabem saborear nas lágrimas do riso a redenção da miserável sensatez a que a escravidão da vida presente nos condena.

 

Mas isso é absurdo, dizeis? E quem é capaz de dizer o que é o absurdo? E ainda que o fosse! Só o que ensaia o absurdo é capaz de conquistar o impossível. Não há outra forma de acertar uma vez no cravo que vibrar cem marteladas na ferradura. E sobretudo, há apenas uma maneira de triunfar verdadeiramente: é arrostar com o ridículo. […]. Sim, o nosso mal está todo na cobardia moral, na falta de coragem para cada um afirmar a sua verdade, a sua fé, e para defendê-la. A mentira envolve e estrangula as almas que habitam nesta casa de borregos amodorrados, estúpidos por obstrução de sensatez.

 

13 julho 2021

Florentino Ariza


Quis o azar ou a sorte que um destes dias me tenha passado à frente dos olhos uma versão cinematográfica do “Amor nos tempos de cólera” do imortal Garcia Marquez, um dos destaques da minha biblioteca, um daqueles autores que cabe nos dedos de uma mão do topo das minhas preferências.

O filme, entendo que bem feito e agradável de ver, não transmite a intensidade, a exuberância e o génio narrativo de Gabo, mas isso seria provavelmente missão impossível. O enredo está lá e no final reencontramos algo de único e de todos na figura de Florentino Ariza, que espera determinado mais de 50 anos para atingir o seu sonho, neste caso o amor de Fermina.

Acho que um bom livro se pode ler de trás para a frente e também, por vezes, para o lado. E esta determinação em atingir algo, custe o que custar, demore o que tive que demorar é um desígnio que pode não ser exclusivo do amor. Recordo-me, por exemplo, do Quixotesco “sonhar o sonho impossível” de Jacques Brel, não desconsiderando obviamente o original cavaleiro da triste figura.

Será patético e absurdo passar a vida na esperança de um improvável que apenas parece viável ao próprio? Será um desperdício? Talvez sim, talvez não. A ânsia e a busca da beleza, da verdade, da perfeição são uma excelente melodia para o despertador matinal.

Se para a persistência resultar e se atingir o supremo desígnio, é necessário declarar uma situação de cólera e colocar um pequeno mundo em quarentena é outra questão. Há doenças e doenças.

31 março 2018

Viver de pé


E eis que nos escondemos, quando o vento se levanta, por medo que nos empurre para batalhas duras
E eis que nos escondemos em cada amor nascente, que nos diz depois do outro, eu sou a certeza
E eis que nos escondemos, que a nossa sombra, por um momento, para melhor fugir da inquietação, seja a sombra de uma criança, a sombra dos hábitos que plantamos em nós, quando tínhamos vinte anos
Será impossível viver de pé?

E eis que nos ajoelhamos de estar meio tombados sob o incrível peso das nossas cruzes ilusórias
E eis que nos ajoelhamos e já recaídos por ter sido grande o espaço de um espelho
E eis que nos ajoelhamos enquanto a nossa esperança se limita a rezar, quando é demasiado tarde e já não podemos ganhar todos os encontros falhados
Será impossível viver de pé?

E eis que nos deitamos pelo mais pequeno amor, pela mais pequena flor a quem dizemos sempre.
E eis que nos deitamos para melhor perder a cabeça, para melhor matar o tédio dos reflexos de amor
E eis que nos deitamos do desejo parado, de prolongar o dia, para melhor cortejar a morte que se prepara para ser até o fim a nossa própria derrota
Será impossível viver de pé?

Tradução livre de “Vivre Debut” de Jacques Brel.

03 fevereiro 2018

Eles também escrevem

Entre as pessoas que fazem os livros que efetivamente lemos, os tradutores não costumam ter a visibilidade e o reconhecimento merecido. A tarefa não é tão simples como se pode imaginar à partida, sendo a sua influencia sobre a qualidade do trabalho final enorme.

Que o diga eu, escala a respeitar, quando me entretenho a traduzir umas linhas do Camus ou do Brel. Há sempre ali uma palavra ou outra a dar luta e a música de cada a frase que precisa de funcionar. Tratando-se de um romance completo, a precisar de “música” no mesmo tom do princípio ao fim, é obra!

Reli há pouco um romance traduzido de um autor que ultimamente ataco pelo original... e que deceção. Uma coisa penosa, de tão mau soar. Uma tradução destrutiva. Mais recentemente reli o Dostoivesky aqui ilustrado, traduzido pelos Guerra. O texto conquista-nos desde a primeira linha. A trabalho deles é notável.

Como um executante musical que interpreta uma peça criada e escrita por outro, o tradutor interpreta e de certa forma personaliza uma obra. Deveriam ter mais destaque e reconhecimento.

03 janeiro 2018

Prometo tentar


Um destes dias, duas pessoas que muito prezo, faziam-me uma observação de que os meus textos eram demasiado sérios e muito sistematicamente críticos. Eventualmente, até concordariam na generalidade com o conteúdo, mas a coisa resultava pesada.

Lá tive que pensar. Pronto, é uma mania. Será que tendo a ser predominantemente negativo, sempre e só a criticar e a ver e o que está mal, incapaz de reconhecer o que está bem? Bom… acho que tenho alguma facilidade em falar positivamente sobre artistas e criadores em geral. Assim, “tipo” Albert Camus, Jacques Brel e aproximados…

O problema… o problema é que a nossa vida, o nosso futuro e o dos nossos depende de outra natureza de personagens. Aqueles que nos veem buscar dinheiro ao bolso e que decidem sobre uma série de coisas que muito contribui para a felicidade e infelicidade do mundo. Eu nem sou muito exigente com esses. Apenas peço que sejam sérios. Sérios materialmente, no sentido de não se apropriarem daquilo a que não têm direito, e sérios intelectualmente, de não prometerem a Lua para amanhã e a Via Láctea para a semana.

Fazer de conta que não é importante, ignorar, deixar andar, não … não é sério. Estão demasiadas coisas em jogo. Pegar-lhe pela ironia, pelo sarcasmo, para a coisa ficar mais leve, é perigoso. Perigoso, porque pode resvalar para um registo insolente que fira, não os diretamente visados, mas pessoas amigas que neles acreditam e que me merecem respeito. Daí procurar manter objetividade e tentar não fugir muito do cada coisa é o que é, cada palavra no seu sítio, sem floreados nem muitas graçolas.

Pronto… de qualquer forma prometo tentar ver mais positivo e o meu visitante habitual, de pelo preto (ainda se pode usar este adjetivo?), é testemunha!

02 novembro 2017

Aos amigos ausentes


Seja na exuberância dos cemitérios jardim do litoral, seja na austera secura dos do interior, amigos ausentes, amigos presentes.

Junto palavras, em tradução livre, de um grande amigo da humanidade, sempre, sempre presente: Jacques Brel. Jojo, seu grande amigo, tinha morrido de cancro de pulmão, a mesma doença que o iria vitimar.

Jojo
Aqui tens alguns risos, alguns vinhos, algumas belas
Tenho o prazer de te dizer que a noite será longa a tornar-se manhã
Jojo
Ouço-te rugir canções do mar, onde os bretões adivinham que S. Cast deve dormir ao fundo do nevoeiro.

Sete palmos de terra, Jojo ainda cantas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Esta noite como sempre, refazemos as nossas guerras
Tu retomas Saint-Nazaire, eu refaço o Olympia, ao fundo do cemitério
Falamos em silencio de uma juventude velha
Sabemos os dois que o mundo boceja por falta de imprudência

Sete palmos de terra, Jojo ainda esperas
Sete palmos de terra, não estás morto

Jojo
Dás-me rindo notícias daí
Eu digo “morte aos idiotas”, bem mais idiotas do que tu
Mas que se aguentam melhor
Jojo
Tu conheces os nomes das flores, vê que minhas mãos tremem
Sei que sabes quem chora, para afogar de pudor
Os meus pobres lugares comuns

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra não estás morto

Jojo.
Deixo-te pela manhã, para vagas tarefas
Entre alguns bêbados, amputados do coração
Que abriram demasiado as mãos
Jojo
Eu não vou a mais lado nenhum
Visto-me dos nossos sonhos
Órfão até aos lábios, mas feliz por saber
Que estou a chegar

Sete palmos de terra Jojo, ainda és irmão
Sete palmos de terra, ainda te amo

Foto: Cemitério de Numão

14 julho 2017

A Bastilha


Meu amigo, que acreditas que tudo deve mudar
Acreditas ter o direito de ir matar os burgueses
Se ainda acreditas ser preciso
Descer au fundo das ruas para subir ao poder
Se ainda acreditas no sonho da grande noite
E que aos inimigos, é preciso enforcá-los….

Diz-lhes, então, que mesmo sendo sincero
Nenhum sonho merece uma guerra
Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha quando era preciso amar-nos

Meu amigo, que acreditas que nada deve mudar
Acreditas ter o direito de viver e pensar como burguês
Se ainda acreditas ser preciso defender
Uma felicidade adquirida ao preço doutras felicidades
E se ainda pensas que é por estarem errados
Que as pessoas te cumprimentam em vez de te enforcarem

Diz-lhes, então, que mesmo sendo sincero
Nenhum sonho merece uma guerra
Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha quando era preciso amar-nos

Meu amigo, eu acredito que tudo se pode resolver
Sem gritos, sem sustos, mesmo sem insultar os burgueses
O futuro depende dos revolucionários
Mas dispensa bem os pequenos revoltados
O futuro não quer nem fogo, nem sangue, nem guerra
Não sejas daqueles que nos los irão trazer

Despachemo-nos de esperar
Caminhos para os amanhãs
Estendamos uma mão
Que não esteja fechada

Destruímos a Bastilha e nada se resolveu
Destruímos a Bastilha, não poderíamos antes amar-nos ?

Jacques Brel,em tradução livre

02 junho 2017

A pequena ilusão


Prémios Nobel, não serão tão abundantes quanto os chapéus, mas há alguns. Da economia sai, pelo menos, um por ano. O senhor Joseph Stiglitz foi Nobel da economia há 16 anos, em 2001, e tem um livro de referência publicado chamado, em português: Globalização, a grande desilusão.

Eu li (do princípio ao fim) esse livro e, na minha modesta opinião de um ignorante nas teorias, mas algo atento à realidade e, por isso, com direito a ter uma opinião, digo sobre o livro: algumas considerações interessantes, mas atalha muito em certos caminhos; não fazenda de forma nenhuma jus ao título. Se a “globalização” podia sem dúvida ter corrido melhor, mais controlada e mais gradual, como já o referi aí para trás, que se possa carimbá-la redondamente de “errada” é uma … conclusão precipitada.

Ora bem, como o Sr Stiglitz tem expressado umas opiniões favoráveis e simpáticas a uma certa corrente “contra”, tornando-se num deus, uma sumidade única, para alguns revoltados. Ainda por cima, é um “prémio Nobel”, como se esse título de há 16 anos fosse uma chancela de infalibilidade; como se o facto de poderem existir 20 ou mais “Nobeis” discordantes seja irrelevante para quem apenas ouve o que quer ouvir… e assim ficando com as vistas encurtadas.

Citando o meu “amigo” J. Brel, que sem ter sido Nobel era muito assertivo e sensato no que dizia: “O futuro depende dos revolucionários, mas dispensa bem pequenos revoltados”.

29 abril 2017

Dança


Na praça aquecida ao Sol, uma rapariga pôs-se a dançar
Ela roda continuamente, como as bailarinas da antiguidade
Na cidade muito quente, homens e mulheres sonolentos
Espreitam pela janela esta rapariga que dança ao meio dia

Assim, certos dias parecem uma chama aos nossos olhos
Na igreja onde eu ia, chamar-lhe-iam o Bom Deus
O enamorado chama-lhe o amor, o mendigo a caridade
O Sol chama-lhe o dia e o homem bravo a bondade.

Na praça vibrante de ar quente, onde nem sequer um cão aparece
Ondulante como erva ao vento, a rapariga saltita, vai e vem
Nem guitarra nem pandeireta para acompanhar a dança
Ela apenas bate palmas para marcar a cadência

Assim, certos dias parecem uma chama aos nossos olhos
Na igreja onde eu ia, chamar-lhe-iam o Bom Deus
O enamorado chama-lhe o amor, o mendigo a caridade
O Sol chama-lhe o dia e o homem bravo a bondade.

Na praça onde tudo está tranquilo, uma rapariga pôs-se cantar
E o seu canto plana sobre a cidade, hino de amor e de bondade
Mas na cidade demasiado quente, para não mais ouvir o seu canto
Os homens fecham as janelas, como uma porta entre mortos e vivos

Assim certos dias parecem uma chama nos nossos corações
Mas nunca queremos deixar brilhar o seu brilho
Tapamos as orelhas e fechamos os olhos
Não apreciamos muito os acordares
De um coração já envelhecido

Na praça um cão ainda uiva, porque a rapariga se foi
E como o cão uivando a morte… choram os homens a sua sina!

Para marcar o dia, mais uma tradução livre… de quem…? 
Só podia ser do grande Jacques !
"Sur la Place"

11 março 2017

Perdões



Não sei mais que dizer como introdução a mais um belíssimo texto descoberto, deste grande senhor, Jacques Brel. E penso que este Cupido e Psique, vistos no Louvre, ficam bem na ilustração do mesmo, quanto mais não seja por antítese.


Perdão por aquela rapariga que se fez chorar
Perdão por aquele olhar que abandonamos rindo
Perdão por aquele rosto que uma lágrima mudou
Perdão por estas casas onde alguém nos espera
E depois por todas estas palavras que dizemos de amor
E que utilizamos como moeda
E por todos os juramentos mortos ao nascer do dia
Perdão pelos nunca, perdão pelos sempre

Perdão de não ver mais as coisas como elas são
Perdão por ter querido esquecer os nossos vinte anos
Perdão por termos deixado esquecidas as lições
Perdão por renunciar às nossas renúncias
E depois por nos enterrarmos a meio das nossas vidas
E depois por preferir a paga de Judas
Perdão pela amizade, perdão pelos amigos

Perdão pelos lugares que nunca cantam
Perdão pelas aldeias que já esquecemos
Perdão pelas cidades onde ninguém se conhece
Perdão pelos países feitos de sargentos
Perdão por ser daqueles que não querem saber de nada
E por não ter cada dia ainda tentado
E perdão ainda e depois perdão sobretudo
De nunca saber quem nos deve perdoar.

31 janeiro 2017

A infância por Brel


O Senhor Jacques Brel, que eu aprecio há muito tempo, de quem tenho a obra completa há vários anos, continua, de vez em quando, a aparecer e a conseguir surpreender-me.
Para falar assim da infância, é preciso ser-se um grande adulto ! 

A infância, quem nos pode dizer quando acaba, quem nos pode dizer quando começa, não tem nada a ver com a imprudência, é tudo o que ainda não está escrito.

A infância que nos impede de a viver, de a reviver infinitamente, de viver a retornar no tempo, de arrancar o fim do livro.

A infância que pousa nas nossas rugas, para fazer de nós velhas crianças. Eis-nos jovens amantes, o coração cheio, a cabeça vazia. A infância, a infância.

A infância é ainda o direito de sonhar e o direito de voltar a sonhar. O meu pai era pesquisador de ouro; o problema é que o encontrou.

A infância, é meio-dia cada quarto de hora e quinta-feira cada manhã. Os adultos são desertores, todos os burgueses são índios.

Se os pais conhecessem a infância, se os mais pequenos amantes soubessem, se por acaso eles conhecessem a infância, nunca mais haveria crianças, nunca

10 dezembro 2016

Ne me quittes, quoi?


Já tive oportunidade de expressar aí para trás a enorme admiração que tenho pela inteligência, sensibilidade, inspiração, humanidade, persistência e determinação do grande Jacques.

Um dos seus temas mais populares é o “Ne me quittes pas” e pode-se questionar se faz sentido alguém, por amor, dispor-se a ser “a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão…”.

Acho que há duas leituras possíveis do poema. Essa, mais direta, com um suposto destinatário concreto, uma Marieke, Madeleine, Mathilde ou Isabelle, mesmo sem estar explicitamente nomeado. Outra, alternativa, não tem um nome próprio associado. Brel fala ao amor, à capacidade de se enamorar, à possibilidade de se apaixonar, coisa que, falhando, até os reis morrem.

E isso deverá será sempre possível, porque até do vulcão mais morto o fogo pode brotar de novo, porque mesmo nos campos mais áridos podem voltar a nascer pujantes searas.

Enfim, a poesia não tem que ter leitura única e redutora. Ao fim ao cabo, tantas vezes, são apenas palavras insensatas, mas que alguém entenderá, nem que seja invocando pérolas de chuva de terras onde nunca chove.

14 outubro 2016

O que é a literatura?

Dizem os dicionários que a literatura é a arte da palavra, de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente. Não me parece que obrigue à produção de tijolos de 500 páginas. Também não penso que as palavras deixam de ser arte quando manifestadas conjuntamente com a música. Aliás, há quem defenda que a poesia deve ser cantada.

O Prémio Nobel da literatura para Bob Dylan não premeia a música, premeia as palavras de um trovador e só por snobismo se pode pretender que essas e outras trovas não são arte de palavras. Dentro do género, é difícil dizer que Dylan será o mais merecedor. Eu, pessoalmente, veria com muito apreço e justiça um reconhecimento literário de Jacques Brel.

Descendo aqui ao nosso burgo. Alguém dúvida ou questiona a excelência literária de Sérgio Godinho ou Carlos Tê?

16 maio 2016

Espírito comunitário

Comunidade: conjunto de pessoas identificadas com um determinado território, partilhando uma herança cultural e histórica, com regras sociais alinhadas?

Agregar vontades, partilhar valores e unir esforços é, à partida, positivo e construtivo. A identificação de um individuo com uma/sua comunidade é um motivo de satisfação e orgulho e a rejeição será, frequentemente, causa de uma enorme frustração. No entanto, não faltam guerras e outras desgraçadas alicerçadas precisamente em confrontos comunitários, muitas vezes com a clivagem num dos elementos mais marcantes da respetiva identidade: a religião.

Se recuarmos alguns séculos e pensarmos em pequenas tribos nómadas ou povoações isoladas, sujeitas a muitas ameaças naturais e humanas, a coesão interna e a partilha de valores com aliados seriam fundamentais para a sua sobrevivência. O antagonismo agressivo entre diferentes comunidades era uma constante.

Na atualidade, qual o sentido de falarmos em comunidades, de retalharmos a humanidade? Um das mais dramáticas crises comunitárias recentes na Europa foi a perseguição e exterminação de judeus durante a II Guerra Mundial. Esquecendo os líderes e as suas máquinas de guerra impessoais, tivemos gente que na véspera era vizinha (partilhava a mesma comunidade?) denunciar os “outros” e arruinar-lhes a vida. Também tivemos gente como Aristides Sousa Mendes, que arriscaram e se expuseram para salvar gente que não conheciam sequer, de outra comunidade religiosa, porque havia e há um nível comunitário superior: a humanidade.

Podemos ter a comunidade de bairro, quando se trata, por exemplo, de apoiar um clube de futebol. No entanto, no nível mais elevado, onde está a vida e a dignidade humana, a comunidade é uma e apenas uma. Haja clarividência e grandeza para subir de nível, de cada vez que a necessidade o imponha, porque, citando Jacques Brel
:

Filhos de César ou filhos de nada
Todas as crianças são como as vossas
O mesmo sorriso, as mesmas lágrimas
Os mesmos sustos, os mesmos suspiros
Filho de César ou filho de nada

Todas as crianças são como a tua

02 maio 2016

Les Toros - Jacques Brel


Não é um daquela dúzia de grandes clássicos do grande Jacques Brel. Faz parte das 3 ou 4 dúzias de temas brilhantes que se vão descobrindo à medida que se ouve com atenção a obra completa. Como tantos, genial. Dispensa comentários.

Os touros aborrecem-se ao domingo
Quando é preciso correr por nós.
Um pouco de areia, sol e tábuas
Um pouco de sangue para fazer um pouco de lama
É o momento em que os merceeiros se julgam Don Juan
É o momento em que as inglesas se julgam Montherlant.

Ah! Quem nos dirá em que pensa
Um touro que gira e dança
E de repente se apercebe que está nu?
Ah! Quem nos dirá com que sonha
Um touro cujo olhar se levanta
E descobre os chifres dos cornudos?

Os touros aborrecem-se ao domingo
Quando é preciso sofrer por nós.
Mas eis os picadores e a multidão vinga-se
Eis os toureiros e a multidão ajoelha.
É o momento em que os merceeiros se julgam Garcia Lorca.
É o momento em que as inglesas se julgam a Carmencita.

Os touros aborrecem-se ao domingo
Quando é preciso morrer por nós
Mas a espada vai cair e a multidão verga-se
Mas a espada caiu e a multidão levanta-se.
É o momento de triunfo em que os merceeiros se julgam Nero.
É o momento de triunfo em que as inglesas se julgam Wellington.

Ah! E ao cair no chão
Sonharão os touros com um inferno
Onde arderão homens e toureiros defuntos?
Ah! Ou então no último suspiro
Não nos perdoarão eles
Pensando em Cartago, Waterloo e Verdun?
Verdun!

18 agosto 2014

Envelhecer ou morrer ?

O Grande Jacques era um brincalhão. Gostava de trocar as voltas às coisas e ás palavras. No seu último álbum histórico que já referi aí para trás, há um tema chamado “Envelhecer”.

No momento em que ele o escreveu e cantou, já sabia que não morreria de velho, mas sim pelo "apito de árbitro”. No refrão há uma frase forte “Morrer não é nada, mas envelhecer, ó envelhecer”. Lendo, no entanto, com mais atenção… não é bem assim. Ele bem o apito trocaria por morrer de velho, mesmo sendo um mau negócio. Quem não… ?

Aqui está em tradução livre.

Morrer, corando, conforme a guerra que há
Devido aos alemães, por causa dos ingleses
Morrer de beijo inteiro entre os seios de uma gorda
Contra os ossos de uma magra, no fundo de um calabouço
Morrer de um arrepio, morrer de se dissolver
Morrer de se sapar, morrer de se dissolver

Ou terminar a corrida na noite dos seus cem anos
Velhote estridente, erguido por algumas mulheres
Pregado à Ursa Maior, cuspindo o seu último dente
Cantado “Amesterdam” !
Morrer, não é nada
Morrer, grande negócio
Mas envelhecer, ó envelhecer

Morrer, morrer de rir, é talvez possível
Aliás a prova é que eles já não ousam muito rir
Morrer fazendo de palhaço, para alegrar o deserto
Morrer face ao cancro por apito de árbitro
Morrer debaixo do cobertor, tão anónimo
Tão incógnito, que morre um sinónimo

Ou terminar a sua corrida na noite dos seus cem anos…

Morrer coberto de honras, num rio de prata
Asfixiado sob as flores, morrer em monumento
Morrer no fim de uma loura, onde nada acontece
Onde o tempo nos ultrapassa, e a cama cai em túmulo
Morrer insignificante, no fundo de um chazinho
Entre um medicamente e um fruto que fenece

Ou terminar a sua corrida na noite dos seus cem anos…

Morrer, não é nada
Morrer, grande negócio
Mas envelhecer, ó envelhecer

24 julho 2014

Goofazons are cool !

Há 4 meses a Facebook comprou uma empresa de óculos de realidade virtual, Oculus, por uma avultada quantia, levantando interrogações sobre a lógica desse enorme investimento. Uma das interpretações é que dada a volatilidade dos seus utilizadores, como num local de diversão mundana, o FB corre o risco de ficar fora de moda e cair a pique. Assim, da mesma forma como um cinquentão compra um desportivo descapotável para parecer “cool”, esta entrada do FB na realidade virtual pode ser apenas uma forma de rejuvenescer a imagem e de se tentar manter atraente. 

Recentemente li um artigo na “Courrier” sobre a Google, descrevendo como esta está empenhada e a investir na construção de um futuro melhor para a humanidade. Uma colecção de desafios fantásticos, supostamente comparáveis ao de Kennedy de colocar um homem na lua na década de sessenta: balões para levar a internet aos aborígenes, casas construídas rapidamente com impressoras 3D, turbinas eólicas voadoras, robots inteligentes (sim, porque para burro…). Tudo isto com meios quase infindáveis à disposição, laboratórios de topo, recursos humanos que são os melhores dos melhores, condições de trabalho de sonho …. Até parece que a Google não é uma empresa, mas antes uma excêntrica fundação. Cheira-me a excessivo. Se é certo que os resultados da investigação têm o seu tempo de gestação, alguns resultados devem aparecer. Duas vezes no dossier, era referida uma experiencia que permitiu melhorar em 25% o sucesso do reconhecimento de voz. Não será mau mas cheira a magro. Fico a pensar se o fundo daquela “excêntrica feira de investigação” não será simplesmente a promoção da imagem do que fundamentalmente é “apenas” uma agência de publicidade, também sujeita a forte volatilidade do seu público…

Num contexto um pouco diferente aquele anúncio da Amazon planear usar drones para fazer as entregas também me parece mais uma campanha de imagem do que um projecto industrial e económico sério.

Coisa prática, corri o tradutor da Google para um poema do J Brel do qual fiz uma tradução livre recentemente – aqui - . O resultado, abaixo transcrito, é pouco abonatório para os fantásticos laboratórios que tentam moldar o nosso futuro. Mesmo sem ser coisa de ir à lua, parece-me que poderiam algo um bocadinho mais cool!

São mais de dois mil e eu que ver dois
A chuva tem soldados ele parece uma outra
São mais de dois mil e eu que ver dois
E eu sei que falar ele deve dizer "eu te amo! "
Deve dizer "eu te amo! "
Acho que eles são de nada prometer
Estes dois são muito fina para ser desonesto

São mais de dois mil e eu que ver dois
E de repente ele chora ele chora a ferver
Estão todos rodeados em suado gordura
Eaters e esperança mostre que o nariz
Mas estes dois rasgado super dor
Cães abandonados a façanha de juiz

A vida não faz nenhum presente e o nome de Deus, que está triste
Orly no domingo com ou sem Becaud!

E agora eles choram quero dizer tanto
No início ele era quando eu digo "ele"
Enquanto eles são rebaixados eles não ouvir nada
O choro do outro e, em seguida
E infinitamente como dois corpos que oram
Infinitamente lentamente estes dois órgãos estão separados
E separando ambos lágrima corpo
E eu juro que eles gritam e, em seguida, eles mostram
Mais uma vez tornar-se um reverter fogo
E então, redéchirent preparem-se os olhos
E depois para trás à medida que a maré vai,
Ele consome despedida ele baba algumas palavras
Mexeu a mão vaga e, de repente, ele fugiu
Fugiu sem olhar para trás e, em seguida, ele desaparece
Comido pelas escadas

E, em seguida, ele desaparece comido pelas escadas
E ela fica lá da cruz do coração, a boca aberta
Sem um grito, sem uma palavra ela sabe que a sua morte
Ele vem da cruz agora, ela se transforma
E ainda os retornos seus braços vão para o chão
É isso aí! Ela mil anos a porta está fechada
Aqui sem luz ele gira sobre si mesmo
E ela já sabe ele sempre vai virar
Ela perdeu os homens mas não perde o amor
Amor disse-lhe revoilà desnecessário
Ela morava projetos o que não vai esperar
O frágil revoilà antes de ser para venda

Eu estou aqui, eu sou eu não me atrevo a fazer qualquer coisa por ela
Os petiscos multidão como qualquer fruta

11 julho 2014

Ver um amigo chorar...

Na continuação deste, ainda o grande Jacques e ainda "Les Marquises".
Há muita coisa triste no mundo mas...

Sim, claro, há as guerras na Irlanda
E essas tribos sem música
Sim, claro, toda esta falta de ternura
Já não há mais América
Sim, claro, o dinheiro não tem cheiro
Mas o sem cheiro chega-vos ao nariz
Sim, claro, pisamos as flores
Mas, mas ver um amigo chorar…

Sim, claro, há as nossas derrotas
E depois a morte lá ao fundo
O corpo inclina já a cabeça
Espantado de ainda estar de pé
Sim, claro, as mulheres infiéis
E os pássaros assassinados
Sim, claro, os nossos corações perdem as asas
Mas, mas ver um amigo chorar…

Sim, claro, estas cidades exaustas
Por estas crianças de 50 anos
A nossa impotência em ajudá-los
E os nossos amores com dores de dentes
Sim, claro, o tempo passa rápido
Estes metros cheios de afogados
A verdade que nos evita
Mas, mas ver um amigo chorar

Sim, claro, os nossos espelhos são íntegros
Nem a coragem de ser judeu
Nem a elegância de ser negro
Pensamos ser pavio, somos apenas cera
E todos esses homens nossos irmãos
De tal forma que não nos surpreende
Que por amor nos dilaceram
Mas, mas ver um amigo chorar

07 julho 2014

Orly em tradução livre

Já falei aí para trás de Brel. Em 1966 no auge da carreira decidiu abandonar os palcos. No seu último concerto no Olympia, como sempre, recusou-se aos “encores” mas regressou 7 vezes ao palco para agradecer. Honrou os contractos pendentes e fez o último espectáculo em 1967. Depois de algumas experiências cinematográficas nem sempre bem sucedidas instalou-se nas ilhas Marquesas, no Pacífico. Doente, cancro de pulmão, quando ninguém esperava, ele regressa, doente, para gravar em 1977 um novo álbum de originais, a todos os títulos histórico e admirável, “Les Marquises”. Morreria no ano seguinte. Já falei disso antes – hoje apeteceu-me apenas fazer uma tradução livre de um texto magnífico dessa obra.

Orly 

São mais de dois mil e eu apenas vejo dois
A chuva colou-os, parece, um ao outro
São mais de dois mil e eu apenas vejo dois
E sei que falam, ele dir-lhe-á “amo-te”, ela dir-lhe-á “amo-te”
Acho que estão a tentar nada se prometerem
Estes dois são demasiado magros para serem desonestos

São mais de dois mil e eu apenas vejo dois
E bruscamente ele chora, chora em grandes soluços
Rodeados que estão de gordurosos suados
Que lhes estendem o nariz
Mas estes dois dilacerados, soberbos de desgosto
Deixam simplesmente aos cães a façanha de os julgar

A vida não dá prendas e meu Deus com é triste Orly
Num domingo, com ou sem Bécaud

E agora eles choram, os dois, há pouco era ele apenas
Tão encastrados que estão, não ouvirão mais nada do que os soluços do outro
E depois
E depois infinitamente, como dois corpos que rezam
Infinitamente lentamente os dois corpos separam-se
E separando-se, os dois corpos dilaceram-se
E juro-vos que gritam
E depois retomam-se, voltam a ser um só
Voltam a ser o fogo e dilaceram-se de novo
E depois recuando, como o mar que se retira
Eles consomem o adeus
Ele balbucia umas palavras, agita uma mão vã
E bruscamente ele foge, foge sem se voltar
E depois ele desaparece, engolido pela escada rolante

A vida não dá prendas e meu Deus com é triste Orly
Num domingo, com ou sem Bécaud

E depois ele desaparece, engolido pela escada rolante
E ela, ela fica lá, coração em cruz, boca aberta
Sem um grito, sem uma palavra
Ela conhece a sua morte, acabou de a atravessar
Ela volta-se de novo, os seus baraços tocam o chão
De repente ela tem mil anos
A porta fecha-se de novo, ei-la sem luz
Ela volta-se sobre si e ela sabe que voltar-se-á sempre,
Ele já perdeu homens, mas aqui ela perde o amor
O amor disse-lhe, eis o inútil
Ela vivera de projectos que esperarão para sempre
Ei-la frágil, antes de estar à venda
Eu estou lá, segui-a
Nada ouso por ela, que a multidão debica como um fruto qualquer

08 abril 2013

Mal amados

Dentro da minha tradição de não referir efemérides exceptuado as excepções, descobri recentemente que este ano se cumprem 100 anos sobre o nascimento do grande Albert Camus, de quem já falei aqui várias vezes… E no artigo que li referiam o seu enquadramento com a sua terra natal, Argélia, e da forma como ele é pouco reconhecido pelos valores oficiais dos seus compatriotas. Esclarecido, ele tentou dar o seu contributo ao processo de independência mas afastou-se impotente face a um rumo que estava a ser seguido, segundo ele errado. Criticou o colonialismo e denunciou a pobreza em que vivia uma grande parte da população, mas a solução para ele não passaria por uma autonomia com exclusão dos europeus. Achava que se podia viver e partilhar o país sem o maniqueísmo em vigor e não lho perdoaram.

E daqui lembrei-me de uma outra grande figura humana, para a qual tanto quanto sei não está nenhuma efeméride em curso, e que também foi mal amado pelos seus: Jacques Brel. Na pequena Bélgica, o grande Brel achava que se podia ser flamengo de alma e coração exprimindo-se em língua francesa. Os pequenos flamenguitos não o entenderam e também não lhe perdoaram tamanha heresia.

Com um mundo de distância entre os dois, ou talvez não, dois mal-amados e pelas mesmas razões profundas: por não venderam a alma, por não alinharem em coros superficiais, por não aligeirarem o valor das convicções, por terem e manterem um espírito livre. Bem hajam!