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28 março 2026

E por vezes…


Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente, entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente de hoje…

Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses, David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se vê escrito:

“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais da Solidão”

Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras, sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à Amália.

Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito, obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas. A ver e a rever…

David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final). 

05 março 2026

Entre russos


Sim, há mais russos para lá de alguns de triste memória…

No meu ponto de vista uma obra de arte vale fundamental pela sensibilidade despertada. A mestria técnica ajuda e creio até ser indispensável. Um quadro com borrões de tinta projetados ou uma “instalação” com algumas chapas ferrugentas dobradas dificilmente compensarão a falta de técnica artística com algo que me impressione o suficiente para as apreciar.

O tema, pode ajudar, mas acabar por ser um pouco secundário. Nma sinopse da Mona Lisa constaria “Um retrato de uma mulher” e não seria por aí que lhe chegaria a fama. Noutro campo e noutra escala, um dos melhores livros de Saramago para mim é o “Todos os nomes”, cujo sumário pode ser considerado banal, ao contrário das “Intermitências da morte” e de “O homem duplicado”, onde um muito interessante tema não tem desenvolvimento (e impressão) proporcional, na minha opinião.

Vem isto a propósito destas duas figuras maiores da literatura russa, objeto de um tratamento muito díspar na minha biblioteca. Para Dostoivesky está lá, e lido, tudo o que encontrei, algumas edições até com umas boas décadas em cima e páginas escurecidas, longe do branco original. Para Tosltoi havia apenas uma singela “Anna Karénina”, talvez o seu maior romance, mas que permanecia por percorrer, coisa que fiz recentemente.

Sobre Tolstoi, é indiscutível que ele domina a arte de escrever e que o livro nos faz viajar, impressionar e sentir… Agora, em comparação com o autor dos “Irmãos Karamazov”, falta-lhe o toque que me provoca a diferença entre o excelente e o genial. Estamos no domínio da impressão, a minha não será a de toda a gente, nem a de hoje pode ser a mesma amanhã. Apenas digo que a “Anna Karénina” irá continuar singela na prateleira, e “Os Possessos” talvez sejam objeto de releitura.

Mas, enfim, nisto como em outras coisas, cada qual como cada um… e ainda bem.

23 janeiro 2026

Cisnes Selvagens

O livro de Jung Chang, com o nome aqui em título, foi editado em 1991, contando a história de 3 gerações de mulheres na China, ao longo do século XX. Para muitos terá sido o primeiro contacto pormenorizado e bem documentado com o “Grande Salto em Frente” e a “Revolução Cultural” maoístas, todos os seus absurdos, abusos, brutalidades e chacinas.

Não é aqui espaço para o detalhar. Para quem se interessa pela história do século XX, é um livro obrigatório. Como curiosidade apenas gostaria de ouvir o comentário dos “progressistas maoístas” europeus dos anos 60 e 70 sobre as barbaridades reais do seu ídolo asiático.

Um destes dias encontrei numa livraria o “Voai, Cisnes Selvagens”, da mesma autora, 34 anos depois. Embora revisitando algumas passagens do primeiro, é mais autobiográfico, com a história da vida de Jung Chang, como decidiu escrever o primeiro livro, o que depois escreveu e como o regime foi reagindo às suas publicações. Vale a pena. É, novamente, histórico.

Quanto a outras obras da mesma autora, há a assinalar uma biografia de Mao que deve ser uma das melhores obras sobre o tema e da Imperatriz (viúva) Cixi. Encomendadas, já me foram ambas entregues e aguardo com muita expetativa o tempo da sua leitura. Conhecer a China é importante para conhecer o mundo.

Irei dando notícias… 

26 novembro 2025

De Miguel para Miguel

Já tinha aqui evocado este Senhor Miguel Unamuno e como o seu nome próprio, comum e associado ao do Cervantes, inspirou o pseudónimo literário do nosso Torga.

Este livro é uma leitura que Unamuno faz ao famoso romance e à personagem imortal e universal de Cervantes, escrevendo como se D. Quixote tivesse sido uma figura real e o outro Miguel o seu biógrafo. Ele lê-nos o livro, interpela o Cavaleiro da Triste Figura e, ao mesmo tempo, interpela-nos a nós e ao seu mundo contemporâneo que, não sendo propriamente idêntico ao de hoje, comporta questões de fundo que nunca perderão uma atualidade gritante. É um livro para ler devagar, por vezes tive mesmo de reler certas passagens para bens as digerir.

O texto que foi acrescentado como introdução, “O Sepulcro de D. Quixote” é das coisas mais fantásticas e bem escritas que já li.

Unamuno escreve muito bem e, para lá disso, mostra-se um fino conhecedor da natureza humana, especialmente naqueles aspetos onde não há séculos que a possam transformar. Um livro verdadeiramente magistral, que jamais se esquece.

A universalidade e a amplitude da leitura de Unamuno são especialmente curiosas pelas pontes que estabelece com várias figuras religiosas, das quais a não menos relevante é o assinalar as semelhanças entre as campanhas de D. Quixote e a vida de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Entre outros paralelos, ambos tudo abandonarem em busca da sua estrela, da sua visão de glória e do seu ideal. De passagem, sobre a universalidade da temática quixotesca, aproveitem para visitar a fantástica interpretação de “La Quete” (A busca) por Jacques Brel, exemplo aqui, e mastiguem bem as palavras.

D. Quixote não é apenas de la Mancha, nem de Espanha, nem do século XVII. É de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as gentes que acreditam e não desistem, que são loucas sim, mas pela grandeza das causas e pelo valor da vida.

Deixo duas passagens:

Numa obra de enganos e embustes se condensou, o fruto do nosso heroísmo; numa obra de enganos e embustes se eternizou a passageira grandeza da nossa Espanha; numa obra de enganos e embustes se condensa e compendia a nossa filosofia espanhola, a única verdadeira e autêntica; com uma obra de enganos e embustes chegou a alma do nosso povo, encarnada em homem, até aos mistérios do abismo da vida. E essa obra de enganos e embustes é a história mais triste que jamais se escreveu; a mais triste, sim, mas também a mais consoladora para quantos sabem saborear nas lágrimas do riso a redenção da miserável sensatez a que a escravidão da vida presente nos condena.

 

Mas isso é absurdo, dizeis? E quem é capaz de dizer o que é o absurdo? E ainda que o fosse! Só o que ensaia o absurdo é capaz de conquistar o impossível. Não há outra forma de acertar uma vez no cravo que vibrar cem marteladas na ferradura. E sobretudo, há apenas uma maneira de triunfar verdadeiramente: é arrostar com o ridículo. […]. Sim, o nosso mal está todo na cobardia moral, na falta de coragem para cada um afirmar a sua verdade, a sua fé, e para defendê-la. A mentira envolve e estrangula as almas que habitam nesta casa de borregos amodorrados, estúpidos por obstrução de sensatez.

 

02 setembro 2025

Dust Bowl


O famoso romance de John Steinbeck, “As vinha da Ira”, começa com a partida de Tom Joad e família do Oklahoma pobre e arruinado, para a Califórnia, a suposta terra prometida.

O facto histórico por trás da ruína dos Joad e de muitos agricultores das planícies centrais dos USA, foi uma das maiores catástrofes ecológicas do século XX. A designação inglesa original é “Dust Bowl” e ocorreu nos anos 30 do século passado. Os detalhes do fenómeno podem ser facilmente encontrados na internet (sugiro aqui, donde retirei a ilustração acima).

Resumidamente, a sequencia começou com a instalação de colonos nessas planícies e a sua adaptação a terreno agrícola. Essa alteração arrancou a flora original, de raízes profundas, fundamental para a estabilização dos solos. De seguida vieram longas secas que transformaram o solo fragilizado em pó. Para acabar, ventos fortes arrastaram essa camada de poeira, empobrecendo ainda mais os terrenos e criando nuvens negras que duravam dias e percorriam enormes distâncias, uma catástrofe ecológica, económica e social enorme.

Como é evidente, a causa do problema e respetiva dimensão foi uma intervenção humana desastrada, que a natureza não perdoou… Certo que há 100 anos talvez não se soubesse tanto como hoje e a própria difusão da informação seria mais limitada.

A ocorrer hoje, vai uma aposta 1 x 1 milhão em como a “responsabilidade” seria atribuída às alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa…? Sim, que as há, mas usá-las para desresponsabilizar incompetências e ignorâncias não é bom serviço à causa…

22 maio 2025

Camilo Castelo Branco




Celebrou-se recentemente o segundo centenário do nascimento do escritor, falou-se muito sobre isso e, por acaso, vi na mesma altura a série “Ferreirinha”, onde a sua história corre em paralelo, apesar de um pouco romanceada e mesmo branqueada. Por exemplo, a cegueira não foi devida ao período do cárcere e respetiva falta de luz…

No que por estes tempos li e ouvi sobre o autor, entendi que ele é considerado uma das figuras maiores da nossa literatura, certo, para muitos taco-a-taco com o grande Eça de Queiroz, para alguns mesmo acima.

Ora bem, de Eça li tudo, ou quase, do Camilo apenas encontrei perdida na minha biblioteca uma pequenina edição do “Amor de Perdição”, resultado de uma compra “obrigatória”, numa visita à Lello. Decidi partir à exploração do autor, considerando ser uma vergonha o desinteresse que lhe tinha dedicado.

Ao romance de referência já existente juntei “Maria da Fonte”, uma crónica sarcástica e mordaz sobre os acontecimentos de 1846 e sequente guerra da Patuleia, a partir das memórias do famoso Padre Casimiro, e de todas as incoerências e caricatos daquele período. Acrescentei as “Memórias do Carcere”, um bom retrato da sociedade da época e respetivos crimes e castigos e a “Queda de um Anjo”, a irónica típica novela do puro rural que chega à capital para ser amolecido e corrompido pela mesma.

Camilo indubitavelmente sabe escrever, disso não há dúvida, há ali elegância, não há arestas nem coisas que arranham os ouvidos. Agora, duas coisas menos bem para mim.

Para a caraterização de um personagem ou de uma ação existem adjetivos que bastem na língua portuguesa. Outra forma é por comparação com outrem, em analogia. Ele fez-se “sicrano”, ela agiu tal “beltrana”…. Camilo usa e abusa desta segunda via, com um enorme universo de sicranos e beltranos, clássicos, históricos e mesmo contemporâneos, alguns famosos apenas naquela época. Perde-se um pouco a leitura para quem não conhecer a galeria completa.

A outra questão é que Camilo salta muito para dentro da narrativa, não como um narrador personagem, mas como ele mesmo, frequentemente ironizando o desempenho dos seus personagens e até interpelando os leitores. É um pouco como se víssemos uma peça de teatro em que o encenador para a cena e sobe ao palco, para comentar o quadro, em nome próprio. Como se houvesse uma fronteira pouco clara entre o cronista, que opina, e o romancista que é suposto mergulhar-nos numa história e deixar-nos vivê-la, sem apartes nem interrupções.

Em resumo, a partir desta amostra, continuo claramente a votar em Eça de Queiroz. Numa particularidade Camilo passará à frente, que é na ligação ao país fora da capital. Apesar do seu cosmopolitismo e do castiço da “Cidade e as Serras”, Eça escreve “sentado” em Lisboa. Apesar da sua tentação de comentar e de se apresentar ele mesmo superiormente nas suas histórias, Camilo parece-me indubitavelmente mais próximo do mundo rural, das suas rudezas, grandezas e asperezas. Aqui deu-me vontade de saltar para o Miguel Torga, mas, por hoje fechamos assim.

Nota: Foto refeita já que a anterior foi considerada não angelical pelo FB e a publicação censurada :) 

29 novembro 2024

Estou chocado !


Boualem Sansal, na minha opinião um dos mais brilhantes escritores e pensadores da atualidade, de 75 anos, está preso na Argélia, desde 16 de novembro, por “ameaças à segurança do Estado argelino”. O processo pode potencialmente acabar em prisão perpetua.

Qual o crime? Terá dito que parte da Argélia do Oeste pertenceu no passado a Marrocos, inclusive a cidade de Orão e que foi a França colonial que ao definir o território denominado Argélia o separou. Não sei história suficiente para avaliar a afirmação, mas toda a gente sabe, se quiser saber, que antes da colonização não há muitas referencias a um território unificado correspondente a uma boa parte do atual país.

Daí a uma afirmação destas dar prisão preventiva e poder chegar a pena perpetua …!

O escritor engenheiro já tinha sido despedido da função pública pelo que escreveu. Mas não deixou de escrever, com elegância e com coragem, nem de viver no seu país natal, magrebino, apesar de também ter nacionalidade francesa.

Há uma coincidência temporal com uma polémica tomada de posição da França favorável a Marrocos e pouco apreciada pela Argélia, relativamente à eterna questão do Saara Ocidental, que é outro tema… Não quero acreditar que esteja relacionado e que o estado argelino possa prender um intelectual do seu calibre como forma de pressão…

Força Boualem ! Parabéns pela obra! Esta ninguém a tira.

06 outubro 2024

(Des)cruzadas


É sempre interessante ver os dois lados, embora, com todo o respeito pelo Amin Maalouf e pelos seus excelentes escritos, do outro lado dos cruzados não estavam árabes, mas sim uma multitude de povos do Médio Oriente e não só. Saladino, o grande herói dos “árabes” que reconquistou Jerusalém aos “francos”, era de origem … curda. Quem diria. Uma etnia hoje não muito acarinhada por quem lhe constrói estátuas e venera como grande herói do Islão.

Árabe era, sem dúvida, o 2º califa, Omar, que conquistara a cidade aos bizantinos em 637, 15 anos apenas após a Hégira e a fundação oficial do Islão.

Hoje em dia associa-se cruzadas a abusos, barbaridades e violentas campanhas de evangelização, mas não é isso que me ficou. A não consolidação da presença latina na zona é capaz de ser precisamente resultado de o seu programa ser muito militar e pouco evangelizador/cultural. As cruzadas procuraram principalmente controlar e aceder à terra santa, nomeadamente Jerusalém. Acessoriamente marcar o poder de alguns papas e dar espaço de conquista a alguns senhores feudais aventureiros, posteriormente mesmo a reis, num caldo de misticismo medieval.

Não deixa de ser algo curioso que na mesma época a reconquista da península ibérica, “arabizada” a partir de 711, tenha sido consolidada a meados do século XIII, enquanto no outro extremo do mediterrâneo tudo acabou no final desse século com a conquista final de Acre pelos mamelucos (já agora, de árabes tinham pouco). Porque é que dois processos com tanto em comum no contexto e no calendário tiveram desfechos tão diferentes?

Falar atualmente em novas cruzadas, a propósito das intermináveis crises no Médio Oriente, é uma expressão sonante, mas oca de significado. Ninguém pega hoje na cruz (ou na metralhadora) para remissão de pecados e garantir acesso ao Paraíso…

Refletir sobre paralelismos e divergências entre processos históricos com o impacto que estes tiveram é um desafio aliciante. Por isso, hoje ficamos sem conclusões.

19 agosto 2024

Desvendando labirintos


Já algumas vezes aí para trás tive a oportunidade e o prazer de referir o quanto aprecio a obra deste escritor libanês (ok, quando ele lá nasceu a zona tinha administração francesa).

Para lá dos seus romances históricos ricos e “humanos”, estamos perante alguém que pensa e com uma latitude de análise que alarga a nossa, caso nisso estejamos interessados. Este “Labirinto dos Perdidos”, sua última publicação, não é romance nem está centrado no seu Levante (Mashrek).

É a história dos sucessos e fracassos de quatro nações cujas transformações mais marcaram o século XX: Japão, Rússia, China e Estados Unidos. O que houve de novo em cada processo, o que fez o a diferença e o sucesso, onde os caminhos se perderam, como os erros chegaram.

É um livro obrigatório para quem tiver curiosidade em entender o que por este mundo está a acontecer… e pode vir a acontecer. Muito bom!

31 dezembro 2023

Um Bom Espinosa Ano


 Buscando acrescentar eliv fugir um pouco aos votos clássicos…

Ouvi um destes dias uma entrevista a J Rodrigues dos Santos, de promoção do seu novo livro sobre este filósofo neerlandês de origem portuguesa. O nome sonava-me, mas a dimensão menos. Devo dizer que li 3 livros de JRS, para testar…. Lêem-se bem, são didáticos, mas falta-lhes aquela coisinha que separa um relato descritivo de um romance literário. De todas as formas, tem muito mérito por escrever, ter sucesso e pôr muita gente a folhear páginas escritas.

Resolvi, portanto, ir visitar o personagem, começando de forma um pouco mais séria e menos romanceada, através da obra acima representada. Neste momento, longe de mim a pretensão de ter absorvido o seu pensamento nalgumas centenas de páginas, lidas uma vez, e muito menos de o vir aqui tentar resumir em meia dúzia de frases, mas algumas reflexões apetece-me desenvolver.

Espinosa é extraordinariamente inteligente, corajoso e clarividente. Deduzir e avançar com as suas ideias e formulações, especialmente naquela época, foi um exercício de liberdade e de promoção da dignidade humana fantástica. Pensar sem barreiras, deduzir sem preconceitos, assumir sem condicionalismos, ser livre e criativo de espírito, sem razões a castrar as emoções e sem limitações a travar a razão… que mais se pode desejar?

08 dezembro 2023

Há livros diferentes

Há autores para os quais um ou dois livros lidos implicam a vontade de outros dois e de tudo o que deles apareça. Por vezes o que aparece, já depois dos títulos sonantes terem sido digeridos, não é necessariamente a primeira água, mas tem que ser bebido.

John Steinbeck é um desses autores para mim. Mais “A Leste do Paraíso”, e outros humanamente mais densos, do que “As Vinhas da Ira”, mas se me aparecer à frente um título desconhecido, lá ma rendo a este autor sem Deus conhecido.

Recentemente apareceu-me este “Um Dia Diferente” e lá foi comigo até à caixa. Confesso que não tinha expetativas muito elevadas, mas enganei-me. Lá estava de novo aquela densidade e simples complexidade de personagens, tão distantes e tão próximos. Há muito tempo que não dava por mim ansioso a ler e saborear, expectante sobre onde tudo aquilo ia terminar. Como acabaria a história daquela trupe tão marginal, tão tresmalhada e tão humana.

Não digo aqui como acabou, mas ainda bem que graças a um Deus qualquer que existe quem consegue ver e contar o mundo como Steinbeck.

 

03 maio 2022

História, Estado e Religião


O Islão é uma religião com génese relativamente recente. 14 séculos constituem uma distância temporal que já permite alguma precisão histórica. Esta religião, também de Abrão e Moisés, com raízes comuns ao judaísmo e ao cristianismo, originou um edifício muito diferente. Ao contrário do Cristianismo que se desenvolve dentro de um organizado e estruturado império Romano e a César o que é de César, o Islão vai-se desenvolver numa Arábia tribal, sem estruturas de Estado.  De certa forma, Maomé será também César, o primeiro, e o crescimento e implantação do Islão vão coincidir com a criação de um Estado.

A morte de Maomé e respetiva sucessão constituíram um momento delicado, até porque ele não deixou definida a forma de transição do poder após a sua morte. Estas obras de Hela Ouardi são uma fascinante viagem por esse tempo, as convulsões no islão pós-Maomé e os sistemas de valores que se disputam. Se a primazia deve ser dada aos companheiros do profeta, independentemente das suas origens sociais, à sua tribo, os quraish, que já antes dele constituam uma elite na paisagem social árabe, ou à sua família próxima, incarnada pelo seu primo e genro, Ali.  

Esta época dos primeiros califas passou por várias fases e com alternância das diferentes correntes. Se pensarmos que desses 4 califas, 3 morreram assassinados, dá para imaginar um pouco as convulsões vividas. Depois de Maomé, a Arábia não voltou a ser a mesma e uma boa parte do mundo também. As razões desta evolução são importantes para entendermos o que se passa hoje.

Para lá da mensagem e das ações em vida do profeta, a sua sucessão é determinante para a expansão e consolidação do novo Estado. A coincidência entre a liderança politica/militar e religiosa, a criação e a expansão do império árabe com a religião como aglutinadora e legitimadora, os pergaminhos e a antiguidade na fé como avalizadoras da autoridade terão sido fundamentais para a federação das tribos e a eficácia militar, mas...

A dificuldade e impossibilidade de separar as duas lideranças são talvez a razão de algum anacronismo e dificuldade de consolidação dos “Estados Nação” nos dias de hoje.

01 abril 2022

Pequenas histórias


Tinha lá por casa um livro de crónicas perdido, num andar superior de uma estante e que não se me mostrava facilmente. O Pai Natal trouxe-me o aqui representado e foi o momento de ler os dois, do mesmo autor, Germano Silva.

O Porto, é o Porto. Uma frase que de concreto pouco diz. O Porto não é uma cidade de monumentos vistosos e de abasbacar. É uma cidade feita da grandeza de simples e frontal gente, de pequenas e significativas histórias, que lhe traçam no granito a identidade.

As crónicas de Germano Silva são simples histórias, de pequenos episódios, de perdidos recantos, de discretas passagens, mas de onde se constrói um belo quadro da chamada antiga, mui nobre, sempre leal e Invicta.

São pequenas histórias, mas muitas e diversas, ricas precisamente por essa diversidade e por um fio condutor que nos desvela o ser da urbe. Há quem diga que “a vida é feita de pequenos nadas”; uma cidade é feita, e muito, de pequenas histórias. Obrigado Germano Silva. Não voltamos a olhar para as ruelas e calçadas da mesma forma depois de o ler.

03 março 2022

Por quem os sinos dobram


Este excerto de um poema de John Donne deu o título a um dos mais famosos romances de Ernest Hemingway. Diz ele que quando os sinos dobram, é por nós todos.

Vermos uma grande potência, autocrática, rica em recursos energéticos, que tanta falta fazem ao nosso conforto, invocar supostos perigos e ameaças para arrasar um vizinho incómodo e…? Falamos de Rússia e Ucrânia em 2022? Sim, mas não só. Podíamos também estar a falar, por exemplo, de Arábia Saudita e Iémen em 2015. Ucrânia é Europa e as dores próximas são sempre mais intensas, mas no domínio dos princípios, e a vida e dignidade humanas devem ser sempre questão de princípios, a diferença não é assim tão grande.

Felizmente, na desgraça, o heroísmo do povo ucraniano fez a Europa sair da sua zona de conforto e assumir o risco de ter problemas com o aquecimento central das casas, em nome do direito à liberdade e dignidade de quem se vê obrigado a dormir fora de casa ou, pior, a fechar os olhos para sempre.

Que esta consciência de que na Ucrânia os sinos dobram também por nós possa ser uma trágica mas oportuna mudança nas sensibilidades. Como cantava Jacques Brel – “Todas as crianças são como a tua”. E mais sinos a dobrar por aí não faltam!

10 fevereiro 2022

O bem sem o mal?


Não é a primeira vez que o senhor acima representado é por aqui citado. Admiro a sua produção literária, o seu humanismo (nem sempre de moda) e o seu discernimento.

Um destes estes dias passou pelas minhas mãos este livro, coleção de discursos e palestras por ele realizadas. Uma boa parte tem lugar nos anos seguintes ao fim da II Guerra Mundial e há um aspeto nessa ressaca da barbaridade que me interrogou.

Camus questiona o mundo em que vive, nomeadamente a sua desumanização. Não vou aqui transcrever o detalhe, mas há um sentimento de perda de referências e de dúvidas sobre o caminho e os valores do novo mundo. À partida, com a chegada da tão ansiada paz, depois de tantas atrocidades militares, do holocausto e do drama da ocupação e da resistência, em que o próprio se tinha envolvido ativamente, deveria ser uma altura mesmo de paz, de reencontro com a serenidade e a normalidade, num mundo em que não se massacram pessoas na mais absoluta banalização.

Na altura da guerra e da ocupação, havia o mal e havia a luta pela paz e pela liberdade, o bem. Este era um objetivo duro, mas claro e simples. Desaparecendo o mal, ficou o bem desorientado?

O bem só se consegue definir e estabilizar face a um mal? A mensagem de um Deus sem o contraponto de um Diabo, tem dificuldade em se afirmar e ser entendida, como a tese que sem a antítese não se aguenta? Não sei… talvez que se Camus pudesse ouvir isto diria, este tipo não entendeu nada, talvez… mas tentei!   

 

13 julho 2021

Florentino Ariza


Quis o azar ou a sorte que um destes dias me tenha passado à frente dos olhos uma versão cinematográfica do “Amor nos tempos de cólera” do imortal Garcia Marquez, um dos destaques da minha biblioteca, um daqueles autores que cabe nos dedos de uma mão do topo das minhas preferências.

O filme, entendo que bem feito e agradável de ver, não transmite a intensidade, a exuberância e o génio narrativo de Gabo, mas isso seria provavelmente missão impossível. O enredo está lá e no final reencontramos algo de único e de todos na figura de Florentino Ariza, que espera determinado mais de 50 anos para atingir o seu sonho, neste caso o amor de Fermina.

Acho que um bom livro se pode ler de trás para a frente e também, por vezes, para o lado. E esta determinação em atingir algo, custe o que custar, demore o que tive que demorar é um desígnio que pode não ser exclusivo do amor. Recordo-me, por exemplo, do Quixotesco “sonhar o sonho impossível” de Jacques Brel, não desconsiderando obviamente o original cavaleiro da triste figura.

Será patético e absurdo passar a vida na esperança de um improvável que apenas parece viável ao próprio? Será um desperdício? Talvez sim, talvez não. A ânsia e a busca da beleza, da verdade, da perfeição são uma excelente melodia para o despertador matinal.

Se para a persistência resultar e se atingir o supremo desígnio, é necessário declarar uma situação de cólera e colocar um pequeno mundo em quarentena é outra questão. Há doenças e doenças.

21 janeiro 2021

Coisas de Mouros e Mouras


Já por aqui referi as duas visões simplificadas da presença e herança muçulmana por estes lados. Um destes dias resolvi espreitar o que se diz sobre o tema em terras irmãs. Encontrei algumas semelhanças. Na forma como os reinos cristãos procuram uma afirmação hegemónica cultural menorizando essa herança nos atos e na narrativa histórica e também na forma como caçadores do exótico, hipnotizados pela diferença perdida vêm herança mesmo onde ela nunca existiu.

E encontrei duas Espanhas. Um na zona onde a permanência foi longa e após a reconquista persistiram comunidades muçulmanas. Comunidades não integradas e supostamente colaborantes com os piratas mouros do norte de África que saqueavam e capturavam escravos na costa levantina. O facto de Granada ter ficado muçulmana ainda dois séculos após a reconquista principal, contará bastante para a persistência dessas comunidades, a sua visibilidade e conflitualidade. Chegou a ser decretada em 1609 uma ordem de expulsão formal dos mouriscos de Espanha, que se encontravam principalmente no Sudeste, especialmente por Valencia e Aragão.

Depois, há a outra Espanha, onde os muçulmanos foram efetivamente mais uma passagem do que uma presença, especialmente na Galiza. Aí mouros e mouras são um elemento fantástico, não necessariamente de carne e osso. Vivem em poços, fontes, enterrados na terra e, mais do que pelas espadas e adagas, se receiam pelos encantamentos e fenómenos sobrenaturais. Coisas estranhas e inexplicáveis são candidatas a “coisas de mouros”, muitas vezes refletidas na toponímia.

Em Portugal encontra-se certamente o equivalente desta visão galega, mas muito menos a outra. Não sendo especialista, não me recordo de ver referencias a relatos de tensões e rebeliões envolvendo comunidades muçulmanas pós-reconquista, muito menos no século XVII. Porquê? Certamente o além do Tejo, onde a presença foi mais longa, teria uma dinâmica e importância (e demografia?) incomparavelmente menores do que a costa levantina e isso conte para alguma coisa… tema a seguir

22 novembro 2020

Unamuno



Foi a este e ao Cervantes que Adolfo Correia da Rocha foi buscar o nome próprio para juntar à planta brava da montanha, Torga, e criar o seu pseudónimo literário.

Passando ao lado da polémica dos seus apoios e desapoios, posições tresmalhadas ou coerentes e se o franquismo o matou e depois solenemente enterrou, ou não… e concentrando-nos no que fica de fundamental, a obra.

Num destes dias longos de fim de semana caseiro reencontrei a "Névoa” entre os meus livros. É um daqueles em que quase com pena vemos aproximar-se o final da obra e do prazer de uma leitura que não se quer ver terminada.

Magistral. Muito bem escrito e sendo relativamente curto, tem uma profundidade e abrangência enormes. Dentro da simplicidade de muito discurso direto, são 200 páginas sem palavras complicadas. Mas que de imagem em imagem, quase linearmente, sem saltos nem surpresas de arrebatar, nos despe e mostra a simplicidade da complexa condição humana.

Bravo, senhor Miguel.

17 abril 2020

Histórias para voar


Há aqueles livros de que gostamos e há aqueles autores que devoramos. Que, quando começamos uma nova leitura, temos a certeza quase certa de que iremos gostar. E assim passamos ao longo da sua obra editada, uma a uma, apenas com pena de não haver sempre mais.

Luís Sepúlveda foi, para mim, um desses. Grato pelas belas histórias.

06 março 2019

À moda do Porto


No último verão passei pela Lello pela primeira vez depois de ela estar no roteiro turístico, com entrada paga e tudo. O facto de fazer parte dos locais obrigatórios a visitar na baixa da Invicta, levanta algumas reflexões.

É uma evidencia de que a cidade não tem assim tantos pontos de chamada atração turística, como talvez seria de esperar numa cidade centenária e muito fortemente identificada com a personalidade do país (desculpem lá as outras). Citando Alexandre Herculano:

“Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle [o Porto] quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter português no que tinha de bom, e no que tinha de máu, que não passava de algumas demasias de orgulho.”

“Um carácter de honra granítica, uma tonalidade sóbria e altiva de quem emergiu na afirmação do poder à custa do trabalho desenvolto, um tratamento (...) com sabor a maresia, uma alma patente, bom coração, generoso, leal”


Porque uma simples livraria se tornou numa etapa indispensável dos locais a visitar na cidade? Não é mau ser uma livraria e não será assim tão simples, mas… Talvez por o carater do Porto não residir em palácios, que quase não existem, nem se espalhar por salas de visitas.

Não faz mal os turistas visitarem a Lello, mas não procurem a cidade por aí. A sua assinatura está por outros lados, não necessariamente em locais onde se entra por uma porta.