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16 dezembro 2025

Obrigados a jogar na Bolsa?


É bem conhecido o problema da sustentabilidade e do futuro do sistema de pensões e daí ouvirmos apelos à constituição de planos de poupança individuais, já que no futuro pode não haver dinheiro que chegue para cumprir as expetativas.

Uma primeira reflexão sobre constitucionalidade. Quando na dureza da troika se procurou tocar no estatuto dos funcionários públicos, o TC chumbou a proposta, invocando, entre outros argumentos, “direitos constituídos” e o famoso “Princípio da Confiança”. Diz este que o Estado, sendo de Direito, não pode trocar as voltas aos cidadãos à sua bela mercê, traindo expetativas legitimas existentes.

Nesta base, a alguém que trabalhou e contribuiu durante 40 anos com a expetativa de usufruir de certas condições de reforma, dizer-lhe na última hora, que afinal não vai ser assim, não se enquadrará no mesmo contexto? Ou os funcionários de Estado são uma casta à parte?

Portugal não é a Suíça. Todos aqueles para quem é tão duro chegar ao fim do mês, irão criar poupanças com vista a melhorarem a sua reforma daqui a umas boas décadas? Não será prioritário. Assim, parece que Bruxelas se prepara para tornar essa poupança obrigatória. Esses fundos serão aplicados, com riscos é claro e geridos por quem? Por gente competente, não nomeada por favores e pouco comprometida com os Ricardos Salgados deste mundo…? Jogo na Bolsa se quiser, não por obrigação.

Penso que o mais lógico e justo por parte do Estado e das obrigatoriedades legais será sempre um espírito de redistribuição síncrona. Quem trabalha desconta para quem já não o faz, eventualmente ajustando a data de transição conforme necessário, o que parcialmente já é feito. Se há algo que o Estado possa fazer aqui é proporcionar oportunidades de contribuição para quem ainda tem idade para criar valor e dificuldade em encontrar uma oportunidade no mercado de trabalho atual. 

26 fevereiro 2021

Empresas, nascem e morrem


O livro acima representado, que li recentemente, é uma vista sobre a génese, desenvolvimento e desaparecimento da indústria de papel no estado do Maine, nos EUA, ao longo de mais de um século.

Com o devido respeito pelas distâncias, diferenças e diversidades, apetece-me desenhar um ciclo típico, que poderá não ser assim tão específico daquele contexto.          

Fase I – Os fundadores. A empresa é criada por alguém e segue dentro da família, com dono próximo, personalizado e extraordinariamente ligada à comunidade. Mais do que um emprego para a vida, a empresa é o sustento de famílias inteiras, em sucessivas gerações. Sem muitas obrigações legais que a forcem a tal, oferece um conjunto enorme de infraestruturas e serviços sociais à comunidade. Os trabalhadores, apesar de tudo o que falta, sentem-se orgulhosos em participar no projeto e no sucesso do seu trabalho.

Fase II – Os seguidores - Esgotada a participação da linhagem original, a empresa passa a ser dirigida por quadros aí nascidos. Se bem que a propriedade possa estar já dispersa e parcialmente longe da “terra”, não têm exigências apertadas sobre o retorno do seu investimento. Assim, mantem-se na gestão local uma visão de longo prazo e uma pressão moderada sobre os resultados. Para os trabalhadores o espírito não muda muito e sindicalização não é sentida como necessária.

Fase III – A degradação – Por falta de enquadramento e/ou de caráter o ambiente é envenenado por nepotismo, pequenos reis em cada esquina e iniquidades insuportáveis. Entram os sindicatos.

Fase IV – Gente de fora – A empresa é comprada, vamos supor neste cenário, para já, por outra do mesmo setor. É submetida a concorrência interna, os processos são comparados e questionados, produtos são deslocados e os que agora mandam ainda falam a mesma língua, mas com outro sotaque. A guerra com quem lá está, já sindicalizada, e quem chega e quer mudar é total. A empresa pode ser fechada, por excedentária na nova carteira, redimensionada ou mesmo melhorada. Não remam já com todos na mesma direção, mas antes se confrontam internamente, uns de um lado e outros de outro. As decisões de investimento são algo travadas pela incerteza do clima de litigância.

Fase V – Gente mesmo de fora – Diretamente ou indiretamente os donos são investidores financeiros, que colocam como objetivo prioritário absoluto a sua retribuição e a curto prazo. Nomeiam diretamente equipas de gestão, com esse objetivo, vindas sabe-se lá de onde, que não são minimamente consideradas nem reconhecidas pela antiga organização de cima a baixo. Aqui, tudo pode acontecer e o ambiente não é nem nunca virá a ser o da família. A empresa pode acabar por fechar, como uma grande maioria neste caso, ou não.

Algo que na minha opinião falha no livro em questão é a ligação e a influencia do meio externo e do mercado. Num cenário protegido a fase II, onde as pessoas são certamente mais felizes, pode ser viável, mas tornar-se inviável se o ambiente concorrencial apertar. As empresas necessitam de capitais para investir e sobreviver; quem os disponibiliza espera naturalmente resultados, dentro das melhores expetativas. Dificilmente apenas com legislação se conseguirá proporcionar e forçar um justo equilíbrio entre resultados, sustentabilidade, respeito pelas comunidades e manutenção de valores sociais básicos. Depende das pessoas, valores e … cultura. Entre irredutíveis sindicatos fechados em direitos adquiridos e predadores financeiros que não se preocupam em matar a empresa desde que o seu retorno a curto prazo seja o pretendido… há empresa que morrem e pessoas que sofrem. Depende da … cultura.

 

06 janeiro 2020

Quando as almas das empresas se perdem



A história trágica e caricata do Boeing 737 Max não me larga e continua a intrigar-me, mesmo depois de lhe ter dedicado algumas reflexões aqui e aqui. Como foi possível a uma empresa com os pergaminhos tecnológicos da Boeing se ter enfiado em tão grosseira asneira? Ao navegar no assunto, encontrei este interessantíssimo artigo  que me fez soar campainhas a vários níveis e acredito que também o fará a muitos meus antigos companheiros de estrada.

Em 1977, a muito saudável Boeing comprava a praticamente falida McDonnel Douglas, mas na recomposição acionista subsequente ficou a mandar a cultura da segunda. A entusiasta e bem sucedia família engenheira da Boeing foi cilindrada por frios gestores, distantes, mesmo geograficamente, cujas prioridades 1, 2 e 3 eram cortar custos a tudo custo.

A sede social foi transferida de Seattle, onde tudo tinha acontecido, para Chicago, onde qualquer coisa podia acontecer. Em vez gestores de topo nascidos e criados na casa, chegaram génios externos. Não do tipo que tanto podem gerir uma empresa tecnológica como um fabricante de refrigerantes, mas quase. Segundo o artigo acima citado, tudo isto mudou radicalmente a empresa, minou o empenho, o entusiasmo, destruiu a solidariedade e o espírito de família e, de certa forma, matou-lhe a alma.

É certo que este processo coincide com uma enorme alteração do negócio do transporte aéreo, onde, na sequência da desregulamentação, passou a ser necessário ter muito mais atenção à competitividade. Se a Boeing tivesse continuado a ser uma empresa de engenheiros entusiasmados e divertidos a inventarem aviões, poderia não ter sobrevivido. Mas se financeiros mauzinhos esquecerem que numa empresa que cria, e em maior ou menor escala são todas, é fundamental dar poder a criativos entusiasmados e divertidos com o que fazem e identificados de corpo e alma com o projeto, correrá mal.

Na ótica da maximização do valor para o acionista o genial Boeing 737 foi espremido para lá dos limites. Cortaram tanto os custos que acabaram por cortar algo de vital. Provavelmente porque é a Boeing e é nos USA, a empresa sobreviverá, mas o acidente tem escala suficiente para matar uma qualquer empresa, por muito saudável que seja. Noutras escalas e noutra paragens, quantas haverá por aí no passado e para o futuro a morrerem por terem perdido a alma? E em quantos casos, contas feitas entre a entrada e a saída, o processo não terá até “gerado valor para os acionistas”?


Imagem do voo inaugural do histórico Boeing 747

21 setembro 2019

Grande Europa que falha


O grande Airbus A380, o maior avião comercial de passageiros do mundo, doze anos após ter entrado ao serviço, vai deixar de ser fabricado porque não tem encomendas. O conceito comercial não provou. São preferidos aviões mais pequenos para viagens diretas.

Nunca voei em nenhum, apenas visitei a impressionante fábrica do bicho em Toulouse, e é sempre com um certo amargo de boca e tristeza que vemos um esforço brutal como este não ter sucesso. De certa forma análoga, a Europa também já vivera a experiência de um conceito de avião revolucionário que não vingou: o fabuloso Concorde.

Falhar faz parte dos riscos e, deixem-me puxar a brasa para a sardinha deste lado do Atlântico, tem mais mérito arriscar a desenvolver e falhar, do que enxertar de forma mal-amanhada novos motores numa carcaça com mais de 50 anos de conceção, como a Boeing fez com o 737 MAX.

Em 50 anos não encontraram orçamento, nem vontade, nem coragem para refazerem a sério o seu avião mais popular e continuaram a espremer a espremer, até ultrapassar os limites? Sendo relativamente clara a sequência das opções e a ligeireza do caminho tomado (ver aqui), o que mais me interpela agora é: qual o custo que esta poupança da Boeing vai ter? Já nem falo das entregas atrasadas, redução de vendas e de encomendas anuladas. Aqueles aparelhos todos, parados durante meses, sem ainda se saber quando regressam aos céus, geram perdas brutais. Palpita-me que a Boeing irá gastar com advogados muitíssimo mais do que o que poupou com engenheiros (e aqui não há questão de brasas e sardinhas)!

24 janeiro 2019

Banca do Povo?


Sim, todo o negócio tem risco e registarem-se perdas numa atividade é normal. Convém não ser sempre, nem em escala que ponha em causa a sobrevivência. Sim, quando se fala em salvar os bancos e no tratamento especial de que eles beneficiam quando estão em apuros, a razão principal para essa diferenciação não é proteger os donos dos bancos, mas os bens de quem lá confiou os seus ativos.

No entanto, há bancos e bancos, perdas e perdas. O que se tem sabido recentemente sobre as perdas registadas na CGD vai para lá do normal em negócios e em bancos. A razão principal para o descalabro é a interferência e irresponsabilidade política. Desde a nomeação de personalidades como Armando Vara para a administração até ao financiamento descuidado de projetos “parapúblicos” voluntariosos, como o da Artlant/La Seda, tudo isto é política no seu pior. O envolvimento direto e indireto da CGD na luta pelo controlo do BCP é… nem sei que lhe diga.

Há quem afirme ser importante haver um banco público, “nosso”. Atendendo a que já não existem praticamente bancos portugueses em Portugal, inclino-me a dar-lhes alguma razão. No entanto, se é para ficar às ordens de comissários políticos e a criar buracos de milhares de milhões, mais vale não haver. Convém não esquecer que essa fortuna queimada vem de todos nós e tudo o que ardeu nesses devaneios, poderia ter servido para outras aplicações criadoras de riqueza e bem-estar.

02 outubro 2018

Um banco em segunda mão

Quando se vende um bem como, por exemplo, um automóvel usado, é habitual seguir-se o princípio de ele ser vendido no estado em que está, analisar-se previamente tudo o que houver para analisar, ficando fora de questão eventuais compensações, ajustes ou acertos futuros. Exceção, e legalmente suportada, poderá existir quando existe algo intencionalmente escondido. O princípio salutar é que a partir de altura em que já não sou eu quem o conduz e mantém, também não quero ser responsabilizado por eventuais avarias.

O processo de venda da Novobanco parece ser um caso pouco saudável do género: o banco agora é vosso, vocês passam a geri-lo, mas se alguma coisa correr mal, suposta herança do período anterior, mandem-nos a conta que nós pagamos. Este “nós” acaba por não ser bem o “nós” que assina. É o fundo de resolução e no fundo o contribuinte que evidentemente não tem mais opção do que pagar o que lhe mandam.

Leio que o NB anuncia precisar de mais 726 milhões, sendo que a conta ainda não está fechada. Parece-me ser uma história do tipo: olha, naquele automóvel que me vendeste há uns meses, a embraiagem foi à vida. Vou substitui-la por uma nova e mando-te a conta.

Não será tão simples avaliar o balanço de um banco como a saúde do motor de um automóvel, mas todos sabemos que a embraiagem pode ir à vida mais depressa ou mais devagar conforme o tipo de condução.

27 maio 2018

Feijões ambientalmente desastrosos


Sem grandes precisões da ciência económica, que não domino, uma moeda é um valor intermédio entre uma coisa que fiz ou entreguei e outra que posso obter. Terá um universo onde é reconhecida e aceite. Os feijões e as notas do monopólio têm valor apenas dentro do contexto de um jogo. Um dólar será reconhecido e aceite praticamente em todo o mundo, uma moeda não convertível pouco valerá fora do seu país emissor. Nalguns recantos, mesmo na Europa, inventaram-se moedas complementares/comunitárias que são relativamente bem aceites para pequenas transações.

Criar uma nova moeda não será difícil per si, o desafio é vê-la reconhecida num universo que se veja e isso vai depender muito da forma como é emitida e controlada.

Estou a chegar a essa coisa das “criptomoedas” e à mais famosa, o bitcoin, que me levanta algumas reflexões. A primeira, do ponto de vista tecnológico, é a robustez que a sua gestão tem demonstrado. Neste mundo onde nada parece estar a salvo das piratarias informáticas, tanto quanto se sabe e ouve a sua base tem-se mostrado bastante sólida.

 A segunda reflexão é na vertente sociológica. Como há tanta gente a reconhece-la, a acreditar e a investir nela é um mistério para mim. Simples espírito de jogo? Facilidades para pirataria fiscal e financeira?

A terceira, e aqui a coisa é mesmo grave, é a sua dimensão energética e consequentemente ecológica. A emissão de novos bitcoins (mineração??) é um processo competitivo entre computadores. O consumo energético anual de todas as máquinas que lutam pelos novos bitcoins é da escala de um país inteiro como a República Checa!!(fonte ttps://digiconomist.net/bitcoin-energy-consumption ). Este número é cerca de 1,5 vezes superior ao consumo total de energia em Portugal, tendo dobrado desde janeiro de 2018 até agora.

Falta ainda somar o consumo energético associado às restantes moedas análogas. Num tempo em que se contam para tudo, por muito e por pouco, as toneladas de CO2 emitidas, os impactos ambientais de tudo e mais alguma coisa… isto é uma BARBARIDADE!


29 março 2018

O BES que era bom


Quando em agosto de 2014 o BES de então foi “resolvido”, o a seguir denominado “Novo Banco” seria supostamente a parte boa e enxuta da instituição. Os buracos e as desgraças teriam ficado na parte má. Evidentemente que não era expetável um mar de rosas para os primeiros tempos de um banco novo, a começar naqueles auspícios, por muito sãozinnho que fosse suposto ser o seu balanço inicial. 


Três anos e sete meses depois do “dia D” estar ainda a registar mais dois mil milhões de buraco, imparidades, malparado, em Portugal ou nas Arábias, custa-me muito a entender. 



A recapitalização pelo fundo de resolução de 4,3 mil milhões, está dada como perdida. Com este novo buraco vão ser necessários mais 800 milhões dos quais 450 empresta(da)dos pelo Estado. Certamente que esperamos que o Estado recupere estes e o empréstimo inicial. Ao fim e ao cabo, a “coisa” foi apresentada como “sem custos para o contribuinte”. 



Presumo que o fundamental destes dois mil milhões condenados já lá estaria em 2014, não creio terem sido fruto da nova gestão, destes últimos anos. Se lá estavam, como demorou tanto tempo a serem identificados e assumidos? Estavam assim tão bem escondidos? Ou, até agora, assumia-se algum otimismo na avaliação e o novo dono resolveu ser especialmente pessimista? 



Será coincidência este enorme buraco ser revelado neste momento, quando ainda pode ser imputado e assumido pelo passado? E, já agora, são mesmos os últimos “miles” milhões…?

16 janeiro 2018

Onde estarias num dia BES?


Já foi costume perguntar “Onde estavas no 25 de Abril?”, para localizar o interlocutor nalgumas dimensões. Com o avançar dos anos, chamar essa data já começa a ser pouco relevante, dado haver cada vez mais gente posteriormente chegada.

A eleição de Rui Rio para líder do PSD, face a Santana Lopes, é uma boa notícia, independentemente de todas as incertezas. O partido não se escapa, no entanto, à vergonha de ter tido quase metade dos votantes a pedir o regresso do menino guerreiro, que já provou, reprovou e que não vale a pena provar de novo.

Sai Passos Coelho, por quem não tenho grande simpatia, acho até algo limitado, mas há uma teoria segundo a qual um líder eficaz não pode ser muito inteligente. Deixando em aberto o seu posicionamento neste enquadramento, a fustigação a que foi sujeito desde as últimas eleições foi desproporcionada e teorizo duas razões para tanta aversão.

A primeira razão tem a ver com o ter ganho as legislativas e não ter governado. Como se a legitimidade parlamentar da geringonça não chegasse e fosse necessário derrotar de alguma forma, à posteriori, o vencedor. A colagem da troika e das suas restrições a Passos Coelho, quando até Tsipras faria/fez o mesmo, provoca um despiste de razões e responsabilizações, que não ajuda nada a evitar nova receita.

A segunda razão será o famoso "não" a Ricardo Salgado. Teoriza-se hoje se os estragos teriam sido maiores ou menores com mais uma mãozinha. É daqueles palpites difíceis mesmo no fim do jogo, mas quando se anuncia que estão dados como perdidos os quatro mil e novecentos (4900) milhões que o Fundo de Resolução injetou no “banco bom” (dos buracos do “mau”, nem falar…), se calhar a necessidade não seria uma mãozinha, mas uma boa sucessão delas. Certo é que a recusa da mãozinha ao BES não foi, nem nunca lhe será perdoada, mesmo por gente da sua família política.

Apetece-me agora perguntar a Rui Rio: onde estará num dia BES? Pergunta sem sentido, dado já não existir BES? Não! Sucessores e sucedâneos não faltam nem nunca faltarão!


Imagem RTP

19 dezembro 2017

Uma quadratura do círculo

O rating da dívida pública portuguesa subir é uma boa notícia. Tendencialmente pagaremos menos juros pela pipa de massa que devemos e que precisamos ciclicamente de renovar. Independentemente do de quem é o mérito, se podia ser ainda melhor ou, pelo contrário, pior, é positivo!

Convém recordar que esta classificação não é um prémio de mérito genérico e abstrato. É uma leitura da capacidade do país para honrar os seus compromissos financeiros a prazo. Ou seja, entendem estes senhores, que para alguns estão “desautorizados”, mas, para quem interessa, para quem tem o cacau para aplicar, são muito credíveis, que se alguém emprestar dinheiro a Portugal, pode estar relativamente seguro que o irá receber depois, certinho, com os respetivos juros. Entre outras coisas, acham muito improvável que o país tente impor uma renegociação da dívida, que não honre os compromissos assumidos ou que possa sair da moeda única.

Como ficarão então os apoiantes deste governo, acérrimos defensores da saída do euro e da renegociação da dívida, quando veem o “seu governo” ser reconhecido por não pensar nem sonhar em fazê-lo? Este circulo quadrado é uma das particularidades desta mistura de água com azeite, também chamada geringonça.

11 novembro 2017

As redes sociais ameaçam a democracia?


Este era o título da capa de um “The Economist” recente, de onde extraí a imagem. Ao confirmar-se a influência pró-ativa da Rússia nas últimas eleições americanas, parece ter ficado muita gente histérica e indignada, numa de “não pode ser!”, “É preciso fazer alguma coisa!!”.

A propaganda e a manipulação da informação não são ciências novas nem específicas da Rússia. Sempre existiram. Um país tentar condicionar a opinião pública em terceiros, de forma direta ou camuflada, não é nenhuma novidade e não deveria espantar ninguém.

A internet e as redes sociais trazem uma diferença na forma. Constituem enormes amplificadores de “opiniões” e de noticias falsas e verdadeiras. Facilitam a difusão e a camuflagem. Mas tanto o fazem para o “mal” como para o “bem”, neste último caso na denúncia de situações e na mobilização para causas que a comunicação social tradicional ignora, especialmente em regimes controlados.

Assim, a simplificar, a internet está para a informação como a globalização está para a economia. Curiosamente, o próprio “Economist”, quando aborda questões e polémicas relacionadas com os aspetos negativos da globalização, reais ou percecionados, costuma acabar sempre no mesmo acorde: a globalização permite criar mais riqueza globalmente e, a prazo, é isso que conta. Até lá, são apenas alguns sobressaltos.

Embora eu não tenha uma posição tão liberal, do quanto mais aberto melhor, acho que neste caso da informação, quanto mais melhor. Acredito mesmo que a brutal diversidade de fontes de informação só pode, a prazo, melhorar o conhecimento da sociedade sobre si própria e sobre a humanidade. Todos sabemos que há mentirosos e manipuladores neste mundo. Antes estávamos expostos a meia dúzia, agora estamos expostos a umas centenas ou milhares, pelo tal efeito de amplificação. Teremos que nos habituar a isso. O controlo efetivo do que se publica na internet nunca, mas nunca pode ser efetivo nem eficaz, sobretudo num quadro de Estado de Direito onde estamos enquadrados. Vejam os Estados de Não Direito que bem a tentam controlar de todas as formas e feitios, cega ou seletivamente, à bruta ou à fina… e nem eles conseguem.

Significa que tudo é/deve ser permitido? Não. Haverá sempre um enquadramento legal a respeitar, mas, dada a dimensão deste universo,
é impossível ser completamente abrangente. É ainda de recordar que os “beneficiados” não são sempre os “Trumps”.

30 julho 2017

Este homem é de esquerda!


A extensão típica destes textos é largamente insuficiente para elencar todas as coisas esquisitas por onde o mundo de Ricardo Salgado viajou. A maior parte das pessoas informadas já terá uma ideia e, se não tiver, uma simples pesquisa permite encontrar matéria mais do que suficiente para passar a ter. Poucas operações polémicas no país foram estranhas ao Sr PDT (Patrão Deles Todos).

Recentemente veio dizer, muito aristocraticamente, como convém a alguém de tal estirpe, que não é por culpa dele que há lesados do G/BES. Ele tinha intenção de pagar… só que a provisão acabou por ir parar a outro buraco. Também teria tido intenção de pagar aqueles 900 milhões extorquidas à PT e que desvalorizaram a empresa, agora tão na mira da classe política, mas por outros motivos, politicamente mais relevantes? Sim, porque para os nossos políticos uns milhares de milhões a mais ou a menos é irrelevante, alguém acabará por pagar; agora a propriedade dos meios de comunicação social é assunto muito mais sensível.

O mais curioso, sem dúvida, é o Sr PDT afirmar (crítica ou elogio?) que nenhum outro governo lhe teria tirado o tapete como fez Pedro Passos Coelho. Se outro governo tivesse aceite lá colocar mais uns mil milhares, seriam mais uns mil milhares evaporados. À luz do maniqueísmo vigente, entre pafiosos e geringonceiros, só posso concluir que Ricardo Espírito Santo, afinal, é um homem de esquerda!

02 junho 2017

A pequena ilusão


Prémios Nobel, não serão tão abundantes quanto os chapéus, mas há alguns. Da economia sai, pelo menos, um por ano. O senhor Joseph Stiglitz foi Nobel da economia há 16 anos, em 2001, e tem um livro de referência publicado chamado, em português: Globalização, a grande desilusão.

Eu li (do princípio ao fim) esse livro e, na minha modesta opinião de um ignorante nas teorias, mas algo atento à realidade e, por isso, com direito a ter uma opinião, digo sobre o livro: algumas considerações interessantes, mas atalha muito em certos caminhos; não fazenda de forma nenhuma jus ao título. Se a “globalização” podia sem dúvida ter corrido melhor, mais controlada e mais gradual, como já o referi aí para trás, que se possa carimbá-la redondamente de “errada” é uma … conclusão precipitada.

Ora bem, como o Sr Stiglitz tem expressado umas opiniões favoráveis e simpáticas a uma certa corrente “contra”, tornando-se num deus, uma sumidade única, para alguns revoltados. Ainda por cima, é um “prémio Nobel”, como se esse título de há 16 anos fosse uma chancela de infalibilidade; como se o facto de poderem existir 20 ou mais “Nobeis” discordantes seja irrelevante para quem apenas ouve o que quer ouvir… e assim ficando com as vistas encurtadas.

Citando o meu “amigo” J. Brel, que sem ter sido Nobel era muito assertivo e sensato no que dizia: “O futuro depende dos revolucionários, mas dispensa bem pequenos revoltados”.

13 fevereiro 2017

Nada de novo

Realmente não parece acontecer nada de novo por aqui, nesta grande paróquia. As coisas vão e vêm assim como as ondas na praia; limpam a areia de umas coisas, trazem outras, algum lixo, bastante, mas no fim fica tudo mais ou menos igual.

Alguém sabe como ficou ou como vai ficar aquela coisa do salário mínimo com TSU bonificada? Pois é, não tinha nem tem jeito nenhum. O salário mínimo devia ser um limite e não uma norma. De tanto batalhar essa causa, acordaram em subi-lo, mas com subsidio. Bendito país que mãos tão largas tem para satisfazer todos os chorões. A discussão ficou pela gincana tática e, nisso, nada de novo.

A Caixa Geral de Depósitos precisa de ganhar a vida como banco bem gerido, pelo menos deixar de a perder como instrumento do partido do poder. A trapalhada que viveu (ainda vive?), durante meses e que agora fatalmente se decanta, prova o seguinte. O estatuto de gestor público não permitia (permite?) contratar os profissionais necessários e os políticos mentem, para cima, para baixo e para o lado, o que for preciso para flutuarem na porcaria que fazem. Nada de novo e muito menos o facto de o PM vir garantir a pés juntinhos que ninguém mentiu. A novidade é o Presidente querer ver uma evidência assinada (com registo notarial?) e até lá ninguém tem culpa.

Os juros da dívida pública estão a subir. É uma novidade. O que não é novidade é não parecer ser preocupante para ninguém. Ah! Há outra novidade, é o Presidente garantir que, globalmente, a coisa está bem e a melhorar.

Os transportes públicos, de privatização suspensa ou revertida, continuam em degradação, mas isso é ainda culpa da troika. Até à próxima, a culpa será sempre da anterior. Nada de novo.

De resto, reformas e políticas de fundo, coisas feitas e pensadas um bocadito para lá dos títulos da imprensa de amanhã… não vejo. Infelizmente, nada de novo e nós, neste campo, precisávamos mesmo de algumas novidades.

Novidade talvez seja um Presidente que ainda não descobriu que quem muito fala, pouca acerta… ou talvez nem isso seja novidade.

12 janeiro 2017

É este o futuro?

Quem já assistiu a apresentações sobre o admirável mundo novo que está aí a chegar, do qual alguns totós ainda não tomaram consciência e devidas ações, que, por isso, necessitam de ir a correr contratar uns consultores para a digitalização do seu negócio e etc e etc, certamente já ouviu falar em unicórnios. Empresas inovadoras, que valem uma pipa de massa e muitas delas por supostamente terem criado um novo modelo de negócio, disruptivo.


Uma delas, bastante sexy, que o pessoal gosta muito de apontar como exemplo é a Uber. Efetivamente, a Uber tornou-se num nome omnipresente e sinónimo de uma mudança radical na mobilidade urbana.

Ora bem, vamos a factos. A Uber está valorizada em muitos milhões, conseguiu convencer muitos investidores a colocar lá fundos, mas (ainda?) perde dinheiro. Eu fico a pensar como uma empresa cujo principal ativo é uma aplicação de telemóvel, por muito sofisticada que seja, que não parece ter quadros, nem ativos de nenhuma forma proporcionais ao seu volume de negócio; uma empresa onde os clientes pagam a pronto, sem calotes, que praticamente nem precisa de investir em promoção da imagem… como é que uma empresa assim precisa de tanto dinheiro e como tem tantos e contínuos prejuízos…

Depois, aqueles que trabalham mesmo, os condutores, também não ficam ricos, muito pelo contrário. Praticam horários alargados, desregulamentados para ganharem o que calha e parece ser uma vida bem dura. Portanto, é este o admirável mundo novo: de um lado uma capitalização de milhões a perder dinheiro e do outro lado uns biscateiros esforçados que se chama pelo telemóvel…? Não faltará nada aqui?

26 dezembro 2016

De líder para capataz

Quem manda nas empresas serão, obviamente, os seus donos (à exceção das empresas públicas onde os donos somos todos nós e mandam os políticos). Quem são os donos das empresas será teoricamente relativamente fácil de identificar, pelo menos formalmente. Há, no entanto, diferenças enormes entre o tipo de donos e o perfil de quem manda.

Há empresas com dono claro e próximo, com personificação da liderança, onde o líder faz parte da equipa que com ela se confunde, se necessário for. Ganhará certamente mais do que os demais, mas não será frequente esse fator chegar às centenas de vezes. Essas são as empresas familiares, seja no sentido da propriedade propriamente dita, seja pelo sentimento de todos pertencerem a uma família. Velhos tempos…

Depois há outras com dono volátil, eventualmente anónimo e/ou coletivo, onde cada um pode nem saber bem o que tem em cada momento. Os donos entram e saem individualmente ou em bloco. No fundo, muitos apenas entregaram as suas poupanças a uns profissionais que se encarregam de as rentabilizar, de fundo em fundo.

Os capatazes, nomeados pelos “financeiros”, não fazem parte da equipa, estão lá a cumprir uma missão, de “criar valor para o acionista” (e em caso de sucesso ficam com uma parte substancial desse valor no seu bolso). É de bom-tom dourar a receita com uma série de declarações de intenções e de princípios, evocar pomposamente teorias e princípios de gestão, devidamente decoradas com chavões e palavrões (in english please…), quando, no fundo, se está simplesmente a cortar a direito para os resultados do próximo trimestre. Se isso envolver comprar um pomar e for vantajoso cortar as árvores e vender a madeira, siga…! Os recursos humanos da empresa são apenas um dos ativos, a rentabilizar da melhor forma. Novos tempos?

Faz sentido? Se calhar fará, porque a tendência do mundo está mais neste sentido do que no outro e, reconheça-se, sem “valor criado para o acionista”, não há acionistas e as empresas não sobrevivem. No entanto, uma empresa sem líder efetivo, é um pomar que não sabe se amanhã produzirá cerejas ou se será vendido para uma serração e, com contas ao trimestre, dificilmente se plantará alguma vez um pomar.

29 novembro 2016

Teslinhas

O Sr Elon Musk é um tipo incrível. Para convencer o mundo de que os inovadores carros elétricos não são do outro mundo para as suas capacidades tecnológicas, anuncia uma fasquia um bom pedaço mais para cima: quer colonizar e colocar pessoas a viver em Marte, já em 2022!! Para quem se propõe tamanho desafio, carritos elétricos são tremoços… É um pouco como a Amazon querer distribuir encomendas por drones, a agência publicitária Google desenvolver veículos autónomos ou … a Efacec, para quem sabia fazer AGV’s, transformadores seriam canja.

A Tesla, automóveis, é uma história de expetativas, consegue levantar fundos nos mercados, mantém uma cotação das ações interessante, mas continua a ter dificuldade em ganhar dinheiro, pelo menos que se veja. No entanto, é uma atividade muito sexy e o pessoal excita-se com aquilo.

Anuncia-se uma fábrica para Europa. Tenho algumas dúvidas se isso será mesmo para avançar a curto prazo, ou é mais uma forma de gerar expetativas e assim conseguir convencer os investidores a avançarem com mais uns cobres.

Tão sexy a coisa é que já anda meio país aqui excitado… com a expetativa. Qualquer presidente de camara, ou associação recreativa, vem à praça apregoar a adequação maravilhosa do seu terreiro ao projeto. Imaginem que o nosso país até tem a vantagem competitiva de possuir um grupo de apoio no facebook (leio isto na imprensa séria)! O sr Musk e os investidores potenciais devem ficar extraordinariamente sensibilizados e irrevogavelmente convencidos.

Dependendo muito, obviamente, dos detalhes (e nos detalhes é que aparece o diabo), à partida seria bom que a eventual fábrica viesse para Portugal. No entanto, em vez de andar meio país excitado a berrar “Eu quero a Tesla, eu quero a Tesla!”, porque não pensar em criar condições de sucesso para as pequenas teslinhas que por aí andam a penar? Não serão tão sexys, mas são mais certas.

18 novembro 2016

E não há tampa para o buraco

A CGD é um banco público e dizem que fundamental como instrumento para o desenvolvimento da economia nacional. A CGD tem um buraco que vai implicar altos custos para os contribuintes. Uma das parcelas principais vem de empréstimos feitos a empresas/entidades envolvidas na luta pelo controlo no BCP. Ou seja, o instrumento público fundamental envolveu-se numa luta de comadres, ficou a arder e agora pagamos nós.

Parece claro que tapando-se o buraco, de um forma ou de outra, será necessário mudar de vida, que é como quem diz, a CDG deixar de ser um instrumento de controlo e propaganda política, a origem da maioria das suas desgraças. Precisará de banqueiros a sério e não de comissários tipo Armando Vara. O seu vencimento é demasiado elevado? Provavelmente sim (não só o deles), mas é uma situação de mercado, que não muda de um dia para o outro e o mais caro é sempre a incompetência.

Para poder encaixar os profissionais da banca na CGD, foi necessário alterar a legislação do “gestor público”. Ao fazê-lo e ao aprová-lo os nossos políticos assumiram que o tal estatuto é incompatível com as necessidades da CGD, face ao mercado. No imbróglio atual, parece evidente que alguém terá assegurado à nova equipa que a exceção criada incluía a dispensa de apresentar publicamente as declarações de rendimentos. Como o assunto “empancou” na opinião pública, agora ninguém disse nada, ninguém sabe de nada e as leis são para cumprir… enquanto os novos gestores parecem querer insistir em ver mantido o acordado.

Mais dia, menos dia este assunto estará de uma forma ou de outra encerrado, mas, para o futuro, quem serão os profissionais, qualquer que seja o setor, que acreditarão na palavra dos políticos, prontos a recuar e a se desdizerem à mais simples berraria populista? Não precisamos de gestores assim…? Pelo menos não voltem com os “Armandos Vara”, eles não estão perdoados.

Neste embrulhada, digna dos famosos e épicos tempos de Santana Lopes, o nosso irritante PM afirma em Madrid, contentinho, que o sistema financeiro português saiu do impasse…

25 julho 2016

Le petit bonhomme



Esta fotografia correu as redes sociais e, para lá do ridículo evidente, recorda-me uma cena de “O Grande Ditador” de Chaplin, dos dois ditadores disputando a primazia da altura nas cadeiras do barbeiro...

Antes de continuar, afirmo não ter nenhuma simpatia ou admiração por Durão Barroso. Quando ele foi presidir a Comissão, até pensei ter sido escolhido por pretenderem alguém de rasgo limitado e suficientemente maleável.

François Hollande veio dizer que achava mal Durão Barroso ir para o Lehman Brothers, pela responsabilidade deste banco na crise de 2008 e pelo mal que ela provocou na Europa. Um pouco caricato e incoerente, mas vamos por partes.

Dizer que o Lehman Brothers foi responsável pela crise é como o bêbado que aponta a culpa ao último copo… Pretender que se não tivesse havido essa crise, de origem externa, a Europa estaria muito melhor… é anedota. Acredito tratar-se de uma mensagem para amansar a esquerda francesa, mas algo atabalhoada…

Já agora, o sucessor do Sr Barroso, o Sr Juncker que enquanto governante do Luxemburgo ajudou multinacionais a não pagarem impostos “justos” na Europa e concretamente prejudicando a própria França, não tem direito a umas considerações moralistas? Não será mais grave esta nódoa direta de quem está em exercício do que a outra, de quem saiu há mais de um ano?

15 abril 2016

Bem prega Frei Yanis

A notícia original não é de hoje mas com os últimos desenvolvimentos ganhou mais visibilidade. Yanis Varoufakis faz-se cobrar generosamente pelas suas palestras (é o mercado a funcionar…) e, pelo menos algumas vezes, terá solicitado que o pagamento fosse realizado para uma conta em Oman.


Não sei se isto se pode chamar “off shore”, mas a responsabilidade social de pagar impostos no seu país pelos seus rendimentos não lhe parece ser relevante. A culpa da Grécia estar constantemente falida e andar de resgate em resgate, está claro, é da Sra Merkel, dos burocratas europeus, dos neoliberais e de outros malditos mais. E lá tivemos o nosso PM a dar um abraço solidário aos heróis da tragédia grega. Imagino que objetivo seria apenas acalmar o berloque, mas fica-lhe/nos mal…

Notícia original, de onde retirei a foto, do “Times” aqui.