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05 maio 2026

A linguagem de estar e ficar no poder


Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força.  Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.

A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações “pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação pretendida.

Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.

Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante simples e eficaz.  A curiosidade é que em situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.

Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.

Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o Estado Novo era predominantemente desta classe.

Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.

23 fevereiro 2026

E se fosse no ISCTE?


O caso de Fábio Teixeira, formado em enfermagem, nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) fez correr muito tinta e inclusive a suficiente para ser rapidamente decretada a reversão da nomeação.

Efetivamente, o desalinhamento entre a sua área de formação e a natureza da estrutura causa perplexidade. Desconhecemos se terá conhecimentos específicos sobre o sector, como Miguel Barreto, que depois de ter sido diretor-geral de Energia, se dedicou a criar dúzias de empresas especializada em ganhar licenças de produção de energia, posteriormente revendidas com interessante mais valias. Os condicionamentos no acesso à produção de energia verde, criam oportunidades douradas e talvez Manuel Pina, o presidente da EMER, que nomeou o enfermeiro, tenha algo a explicar sobre eventuais conflitos de interesse com as empresas em que participa/participou.

Podemos ainda especular o seguinte. Se Fábio Teixeira tivesse tirado um curso de “Ciências Políticas” ou outro análogo, porventura menos exigente intelectualmente e tecnicamente também desalinhado, certamente não se levantaria tamanho vendaval… e que desses há por aí muitos, há.

A qualificação para uma função de gestão não se esgota na formação técnica e académica. É indispensável um conjunto de qualidades humanas e de liderança. Formação política nos ISCTEs ou nas juventudes partidárias, essas qualificam pouco para o que realmente importa.

27 dezembro 2025

O este e o aquele


Para quem não assistiu, cá vai um resumo da principal discussão no último debate das Presidenciais, por acaso até envolvendo dois candidatos com fortes probabilidades de chegarem à final.

- Você é um “este”!

- Não sou, não!

- É sim!

- Não sou!

- Sim, é!

               - Justifique porque me chama um “este”!

- Não preciso. Você é que tem de provar que não é!

               - Mas você saiu-me cá um “aquele”!

- Não, não sou!

               - É, sim senhor!

- Você é que é um “este”!

               - Você é que é um “aquele”

 Só faltou para manterem o nível (presidencial, recorde-se) encerrarem com um

- Quem o diz é quem o é!

- Tens cara de chimpanzé!!

E os verdadeiros primatas que me desculpem a imagem! 

13 novembro 2025

Também tu BBC ?


Dois altos dirigentes desta empresa pública com imagem e histórico de excelência, num país onde as responsabilidades são assumidas com seriedade, demitiram-se na sequência de uma manipulação na edição de um discurso de Donald Trump. Este, no fundo, agradece o favor que lhe fizeram. Infelizmente não é caso isolado, já que muitos jornalistas decidiram ser cavaleiros de nobres causas, em vez de profissionais de informação. Quem é pago para produzir informação deve produzir informação, em vez de ser ativista pelas suas convicções. Quem compra informação, espera receber informação e não doutrinamento.

Para além de descredibilizarem estes órgãos de informação que, nestes tempos de desinformação fácil e abundante, são mais do que nunca necessários para a sanidade e objetividade na opinião pública, estas cruzadas ideológicas têm um efeito absolutamente oposto pela assimetria evidente e descarada no tratamento dos temas.

Por exemplo, num caso de polícia envolvendo uma “minoria”, esses detalhes factuais são omitidos, para não provocar generalizações abusivas. Noutros casos é promovida a notícia a simples “suspeita de ligações à extrema-direita”.

Por cá as atitudes sobranceiras nas entrevistas a André Ventura não o diminuem, pelo contrário. Acabam por ser uma bênção para o seu projeto de poder. Muitos jornalistas precisam de voltar à escola (não à madraça).


Atualizado em 14/11/2025 com a publicação no "Público".


21 outubro 2025

Não foi politico !?

 

Diz o Engenheiro ( ?) Carlos Moedas que o acidente no elevador da Glória se deveu a causas técnicas e não políticas. Fiquei baralhado. Efetivamente o cabo e os freios são componentes técnicos (ainda bem que não são políticos…).

Fui ler o relatório do GPIAAF (aqui). Efetivamente do que se sabe, para já, não se pode indicar que por trás da desgraça tenha estado uma ação ou diretiva política direta, do tipo extinguir/reestruturar um serviço ou redução de orçamento. As não conformidades que de uma forma ou outra ajudaram/proporcionaram este desfecho são mais do domínio passivo do que ativo.

Falhas nos procedimentos internos, ausência de supervisão por entidades externas e muita ligeireza. Fazia-se como sempre se fez, sem se pensar muito em avaliar se é preciso fazer diferente.

Mais do que o erro “administrativo” na aquisição do cabo e na não detecção do erro, chocaram outras coisas.

Toda a gente que quisesse saber sabia que os travões não travavam suficientemente para serem redundantes a uma rotura do cabo e… tenhamos esperança de que este nunca rompa. Ninguém sabia/sabe ao certo o peso real das cabinas! Cito: “Há também indícios de que o peso das cabinas aumentou de forma não negligenciável desde o momento da eletrificação, existindo indicações díspares quanto ao peso atual, consoante os documentos: 14, 18 e 19 toneladas, cujo valor exacto é desconhecido da CCFL”. Lê-se e não se acredita. Outros pequenos/grandes exemplos de irresponsabilidade e de vazios nos procedimentos não faltam.

Mesmo o mantra dos sindicatos, apontando de imediato como causa a externalização dos serviços de manutenção não cola. A empresa externa disponibilizava recursos básicos que eram supervisionados muito proximamente pelos experientes técnicos da casa.

 As responsabilidades políticas e de gestão estarão mais no que não fizeram do que no que eventualmente fizeram. Os responsáveis têm também a missão de questionar e promover as mudanças necessárias. Esta situação de passividade otimista… é da responsabilidade de alguém.


04 outubro 2025

O comércio das boas causas

Há uma coisa que me repugna fortemente. É ver evocada uma boa causa, justa e solidária, quando a agenda e os objetivos reais são outros. É o caso desta famosa flotilha e da sua suposta missão humanitária. É evidente que se o objetivo fosse mesmo humanitário, as ações teriam sido outras. Qual o sentido de enviar uns barquitos ao longo de toooodo o Mediterrâneo, sabendo obviamente que nunca lá iriam chegar?  Também ainda estamos para ver qual a natureza e dimensão dessa ajuda embarcada.

O objetivo era chegar onde chegaram. Publicitar e sensibilizar a opinião pública para a guerra de Gaza. Têm todo o direito de o fazer, mas chamem os bois pelos nomes. Já agora, atirar os telefones para o mar… porquê? Que segredos continham? O caricato de mandar borda-fora as facas da manteiga também não se entende, mas não serão tão nocivas para o ambiente.

Fico na expetativa de ver uma nova flotilha organizada na direção da Crimeia, ilegalmente ocupada, para protestar contras as atrocidades cometidas pelos russos na Ucrânia… mas não a iremos ver. Não estaria alinhada com a agenda políticas destes ativistas e, se de lá se aproximassem, a abordagem e o tratamento recebido seria certamente bastante mais violento do que o agora aplicado pelos malvados israelitas.

03 setembro 2025

Cancelamentos e indignações


Vamos supor que nos idos da década de 60 do século passado, Amália Rodrigues ou Carlos Paredes têm um concerto programado numa sala de Paris e que o mesmo é anulado por questões de segurança, já que um ruidoso movimento contestatário da ditadura e do colonialismo de Portugal exige a o seu cancelamento e ameaça com perturbações da ordem pública, caso se realize. Parece bem?

É delicado avaliar uma ação atual colocando-a num cenário passado, mas podemos sempre questionar se se justifica cancelar todo um país, seus cidadãos e artistas, pelas ações do seu governo. Isto vem a propósito do que assistimos atualmente quanto a Israel. Uma coisa é Netanyahu e a sua geringonça, outra coisa são os cidadãos do país, alguns abertamente contra as ações do seu governo e ainda outra serão os judeus espalhados pelo mundo.

Cancelar e mesmo atacar tudo o que cheire a israelita e judeu é um triste reflexo de uma coisa feia, que pensávamos desaparecida, especialmente da parte dos movimentos “progressistas”.

Se há quem queira contestar contra o que se passa em Gaza, está no seu direito, sem dúvida. Agora, não o façam exclusivamente para essa situação e todos os santos dias. Tentem o seguinte: 2ªfeira pelos palestinianos, 3ªfeira pelos LGBTs no Irão, 4ªfeira pelas mulheres no Afeganistão, 5ªfeira pelos Uigures na China, 6ª feira pelas minorias cristãs no Médio Oriente, sábado pelos curdos na Turquia e domingo pela Ucrânia. Na 2ªfeira seguinte voltam à Palestina ou podem ainda acrescentar alguma situação em África, onde não faltam também motivos de indignação.

Esta fixação exclusiva nos palestinianos não é simplesmente humanitária, é política e, pela minha parte, acrescentaria um dia para protestar contra os financiadores do Hamas e de todos os movimentos que não buscam de todo algum caminho de paz.

Nota adicional em 5/9, para os cépticos quanto à seletividade politica destas contestações. Qual foi a atividade destes ativistas quando, para combater o "Estado Islâmico", Al-Assad e Putin bombardearam e massacraram populações civis? As bombas russas sobre Aleppo eram mais humanitárias do que as de Israel sobre Gaza?

01 agosto 2025

Estes tempos


“[…] a nossa capacidade de integração dos imigrantes na comunidade política nacional. Devemos manter as portas abertas da nossa comunidade com moderação e dentro das regras legais que regulam a aquisição da nacionalidade, e portanto, dos direitos políticos próprios da cidadania. Também devemos exigir uma demonstração real da vontade de integração desse imigrantes na nossa comunidade nacional. A contrapartida da nossa abertura é a rejeição firme dos isolacionismos religiosos e culturais. Não podemos dar direitos políticos a minorias que recusam os nossos valores e não acatam as nossas leis. Queremos receber dignamente, isso sim, os cidadãos livres que escolheram partilhar o nosso destino coletivo e respeitar a nossa ordem jurídica”.

O texto acima é capaz de provocar alguma urticária em alguns setores políticos, culturais e sociais atuais e até ser linearmente carimbado como digno de uma extrema-direita xenófoba e racista. Ora bem, o texto não é de hoje, é de 2002 e foi proferido pelo Presidente da República Portuguesa da altura, Jorge Sampaio, que certamente não ficou na história como um inspirador de André Ventura.

A forma como o discurso não foi polémico na altura e hoje faria rasgar vestes, é sinónimo de que estamos a andar para trás e a cair em simplificações e radicalizações que não são sinónimo de bom-senso nem de inteligência.

Está subjacente que o designado multiculturalismo tem limites. Um país, uma sociedade, não é uma macedónia de legumes onde tudo se pode acrescentar livremente. Há coisas que não combinam. Por exemplo, e para não fazer muito complicado, o estatuto da mulher nalgumas sociedades não é compatível com os seus direitos constitucionais em Portugal. O eventual problema com quem chega não é a cor da pele, é o respeito pelos códigos sociais (para lá dos jurídicos, obviamente) que fazem a nossa identidade e o quadro em que queremos e decidimos viver.

Que hoje em dia, se possa ser insultado por “gente de elite” ao expressar o mesmo ponto de vista de Jorge Sampaio de 2002, é altamente preocupante para o estado da nação e da sua evolução.

02 fevereiro 2025

A Pen secreta


Estar uma pendrive cuidadosamente guardada num cofre, por alguma razão será.

Alguém colocar ou encontrar uma pendrive nestas condições deverá saber ou descobrirá o conteúdo e a razão.

Conhecer um conteúdo, tão sensível, e mantê-lo sem reportar às autoridades competentes, não é normal para gente responsável e de bem.

Porque raio alguém colecionou e guardou aqueles dados está, para já, no domínio da especulação, mas que é potencialmente muito perturbador e assustador, é!

25 janeiro 2025

As malas e as mães


A atualidade nacional tem andado entretida estes dias com as malas do Chega e as mães do Bloco, desenvolvendo-se algum paralelismo. Se quisermos ir ao fundo e ao sério, o que está em causa, em termos políticos, é completamente diferente.

O deputado do Chega rouba malas no aeroporto por ele, para ele. Não tem instruções do partido, nem este beneficia e até se desmarca rapidamente. A culpa do Chega será não ter escrutinado a pessoa e ter elegido um cleptómano.

No caso do Bloco, o cenário é muito diferente, porque está em causa a direção do partido. É um assunto de foro institucional, onde a primeira reação do partido é gritar por “cabala política” e apresentar queixa à ERC. Para lá dos detalhes (i)legais da dispensa das funcionárias, há um pragmatismo, frieza e desumanidade, daqueles que o BE acusa o grande capital, mas que não se coibiu de fazer igual e de tentar esconder, atacando o mensageiro. Muito mau.

O Chega estará a sofrer as consequências de ter um grupo parlamentar precipitadamente escolhido e díspar em muitas dimensões. O BE descobriu que, na prática, o radicalismo combina mal com a necessidade de pagar contas no fim do mês, mas que há capitalistas mais humanos, há…

18 janeiro 2025

Quanto vale, quanto custa?


O país comentarista chocou-se com a possibilidade de ser nomeado para secretário-geral do Governo, uma função supostamente muito importante, potencialmente geradora de enormes poupanças e ganhos de eficiência, alguém que iria manter o seu salário atual de mais 15 mil euros.

A polémica apareceu e as contestações proliferaram como cogumelos, até por representar uma remuneração superior à do primeiro-ministro, e essa opção abortou.

Não sei se esse valor é o “correto” em termos de mercado de trabalho para o posto em causa, mas chocam-me duas coisas. A primeira é o valor muito baixo que é pago aos mais altos responsáveis do país. Está certo que não estarão motivados exclusiva ou principalmente pela remuneração direta, mas se queremos “profissionais” de primeira-água, não é com estes valores que eles virão. A segunda, e que terá chocado muito menos gente, é essa pessoa estar atualmente a auferir desse vencimento, supostamente “escandaloso”, no Banco de Portugal, sem se saber muito bem o que por lá faz.

Ou seja, é inaceitável uma remuneração assim para uma função crucial no Governo do país e altamente exigente, mas isso ser pago no BdP para funções de “consultoria”, menos mal…?

19 outubro 2024

Para lá das gémeas


O caso das gémeas luso-brasileiras tem uma dimensão enorme e escandalosa, pelo valor do tratamento, pela forma expedita como a ele tiveram acesso, pelo estatuto dos facilitadores e pelo interesse da seguradora que se salvou de pagar um tratamento caríssimo.

Sobre isto, já se sabe o suficiente para serem tiradas as necessárias ilações éticas, políticas e eventualmente criminais. Não é minha intenção agora aqui fazer chover no molhado.

Mas, sem esta proporção, quem nunca apelou a uma ajudinha para ter acesso a um serviço ou ser mais bem tratado no SNS? Quem angustiado face a uma necessidade urgente não hesitou em fazer um telefonema e procurou uma atenção especial para si ou para os seus…? Talvez sobrem poucos para atirar a primeira pedra. Talvez porque, com ou sem razão, ficar na fila comum seja entendido como não suficiente para um tratamento atempado e cuidado.

Mais uma vez, insisto que o caso das gémeas está numa órbitra muita diferente de alguém que telefona à enfermeira de serviço a pedir uma especial atenção com quem está internado na cama X.

Convém realçar que quando se fala em igualdade no acesso e direito à saúde é também disto que se está a falar. O sistema deveria ter eficiência e reatividade para os cidadãos se sentirem confortáveis na fila comum, sem tentações para a furar. Isso seria num país a sério…

12 outubro 2024

Oportunidade perdida


As crises, com todos os seus transtornos, privações e perdas, podem constituir oportunidades de aprendizagem, mesmo dramáticas e eventualmente tanto mais proveitosas quanto mais dramáticas.

Em 2011, a crise nacional, a intervenção da “troika” e todo o sofrimento que provocou poderia ter sido um desses momentos de aprendizagem dolorosa, mas não foi.

Poderia ter sido clarificado que a origem da crise fora uma governação corrupta e irresponsável e que a saída da mesma tinha sido o resultado do trabalho, empenho e sacrifício de todo o país, Podia, mas não foi… por causa das narrativas criadas.

Argumentar que o nosso colapso foi consequência da crise de 2008 é desde logo a primeira “narrativa” falsa. A crise foi mundial e não vimos todos os países de joelhos a mendigar junto do FMI. Entrar numa estrada de montanha a 140 km/h e despistar-se na primeira curva não é razão para culpar a curva…

A seguir, a perca final da oportunidade vem de outra narrativa. O sofrimento da crise foi devido à maldade da direita (e do Passos) e o alívio do aperto foi mérito da esquerda virtuosa que virou a página da austeridade. Se saímos do buraco em que o “Eng” Sócrates nos enterrou, não foi pelo esforço e sacrifício coletivo do país, mas pela generosidade e bondade do novo inclino de S. Bento.

Nos tempos que correm, parece que o PSD aprendeu a lição. Manter o poder depende de ter mãos largas e “quem mais chora, mais mama”… Trabalhar para criar riqueza que se possa distribuir não é o fundamental. Iremos pagá-lo de novo um dia, porque quem não aprende com os erros, acaba por os repetir.

05 outubro 2024

IRC e IRS jovem

Parece que finalmente, vamos ter um consenso e ver um ponto final na dramática novela da aprovação do orçamento de Estado. Parece…

Independentemente do desenlace final, que desconheço no momento em que escrevo, acho impressionante que as grandes clivagens, opções estratégicas fundamentais e convicções profundas quanto ao programa orçamental do país se resumam a ponto a mais ou a menos em IRC e idade a mais ou a menos no IRS.

Foi/é um triste espetáculo de quem resolveu fazer disto espetáculo, e ponto capital que poderia até levar o país a novas eleições. Obviamente que não está/estava em causa o conteúdo objetivo, mal estaríamos se as grandes opções programáticas fossem estas.

Foi birra de quem queria ter tema de discórdia e pegou nestes, mas, sinceramente, poderiam ter arranjado assunto mais substancial. No resto estão completamente de acordo em tudo? Quanto às grandes opções nos campos económico, social, educação, saúde, justiça não há divergências nem propostas alternativas? Sinceramente…!

 

22 maio 2024

Um bom debate?


Será que o debate de ontem foi um bom debate, como vi referido nalguns fóruns? Começando por para que serve o debate? Para conhecer os pontos de vista dos candidatos ou para, em sentido largo, aprender algo? Bom, para os candidatos repetirem aquilo que já sabemos valerá de pouco e isso foi o caso de João Oliveira, absolutamente cassete, ou disco riscado, e não vale a pena questioná-lo, porque dali nada sai nada diferente ou de outro “racional”.

Tanger Correia parecia, mais uma vez, alguém na corda bomba, a tentar não se espalhar, com uma cassetizinha mais ou menos aprendida, mas dando ares de ter vontade que aquela espécie de tormenta acabasse depressa.

Ficava então Marta Temido (tendo gaguejado menos) e Sebastião Bugalho, supostamente quem poderia apresentar visões e ideias mais equilibradas e supostamente mais ricas e esclarecedoras. Se é um facto que debaterem, e talvez haja quem adore este espírito de tourada, foi tudo na base do disseram, não disseram, é verdade, foi mentira. Mais do que afirmarem, pela positiva, o que pretendiam e propunham, caíram muito facilmente no acusar o outro do negativo que eles, ou o seu grupo político fizeram. Foi, não foi, disse, não disse. Muito pobre. Acho que foi um debate inútil. Não aprendi nada.

01 dezembro 2023

Ao eleitor o que é do eleitor


Correm preocupações e alarmes quanto ao resultado das últimas sondagens, onde o Chega tem um crescimento espetacular. Não é necessariamente uma boa notícia, mas a democracia tem destas coisas. É o eleitor que decide.

Depois de tantos anos com ouvidos moucos aos designados casos e casinhos e pretendendo que formalmente está tudo bem até eventual condenação e transito em julgado, que esperavam? Que os eleitores aceitassem a bondade dessa formal inocência?

Obviamente que o Chega não tem um projeto sério e consistente, mas ele cresce no lixo que outros criaram. Se o querem combater e contestar, vão aos fundamentos e à incoerência das suas ideias e propostas. Argumentar angelicamente de que “eles são muito diferentes de nós”, não é herbicida, é adubo!

29 novembro 2023

Habituem-se ?


França é um país que preza muito a laicidade do Estado. Desde há uns tempos para cá que existe larga polémica sobre onde e como se podem montar presépios de Natal em espaços públicos e, seja por opção voluntária de autarcas, seja por decisão de tribunal, a probabilidade de nos cruzarmos com um presépio exposto em zona pública é cada vez mais remota.

As iluminações ditas de Natal parecem ser os próximos alvos. Na progressista cidade de Nantes, este ano houve inovação. As decorações chamam-se “Voyage en Hiver” (Viagem no Inverno), fugindo à palavra polémica, e em vez das habituais e festivas iluminações sobre ruas e praças, há umas coisas coloridas agarradas a algumas fachadas…

Será que um não crente se sente chocado por ver um presépio ou sobre a sua cabeça iluminações ditas de Natal? Será isso suficiente para desinfetar a quadra de toda referência religiosa, mesmo quando isso constitui uma fortíssima tradição cultural no sentido amplo da palavra? Vamos evoluir para um quadro social em que estas referências devem ser completamente apagadas de um espaço público asséptico? Certo que a sociedade e os costumes evoluem e o futuro, o futuro o dirá. Agora, pelo menos neste momento, parece-me bastante forçado… e muito menos bonito!



12 outubro 2022

Dura lex…


 É inquestionável que a existência de regras pré-definidas e aplicadas sem arbitrariedade é fundamental para a prosperidade e o sucesso. Já diziam os romanos que a lei, desde que exista, é para respeitar, por mais dura que seja, sem favores ou castigos discricionários. Todas as situações em que as sentenças são ajustadas e aptadas conforme o perfil do réu, são sinónimos de um sistema podre e condenado ao fracasso.

Isto vem a propósito das recentes polémicas com os negócios paralelos e familiares de ministros com o Estado, do qual o mais recente, com Pedro Nuno Santos, não deveria levantar a mais pequena dúvida. Conjuntamente com o pai ele detém mais de 10% da empresa, isso proíbe a celebração de contratos públicos e, segundo a dura lex, o ministro devia ser demitido. Qual é a dúvida? Não são necessários pareceres encomendados ou voluntários, frescos ou ressessos, para lançar uma névoa e acalmar o assunto até as primeiras páginas serem tomadas por novo “caso”. De notar que até já quase nem se fala do marido da ministra, associado de um cidadão chinês, anteriormente condenado por corrupção, a receber fundos comunitários, tutelados pela mulher, com o objetivo fantástico de desenvolver produtos de uso veterinário com água termal. Espírito inovador não falta!

E, sem dúvida, o crescimento dos populismos é um problema!

16 dezembro 2021

Ministros ao largo


Não sei se Manuel Pinho cometeu crimes ou não, não sei se a sua detenção é abusiva ou justificada. Nesta dimensão, e para essas respostas, não sei se a justiça está a ser justa ou se chegará a sê-lo, se por excesso ou por defeito.

Agora, há uma coisa que para mim é indiscutível e independente de acórdãos e recursos. Mesmo sem eventual crime existente ou provado, é inaceitável que um responsável pela coisa pública, especialmente ao nível de ministro, possua bens “ao largo”, em offshores. Com que fim, qual a necessidade?

A possível inocência penal de Manuel Pinho e atual presunção de inocência não branqueiam algo que é inadmissível num Estado que queremos sério e dirigido por gente insuspeita. O processo nos tribunais é um assunto em curso; a condenação clara e inequívoca da conduta política é uma exigência, indiscutível para este caso e outros análogos.

20 outubro 2021

Prioridades e critérios no SNS


Os hospitais públicos do SNS têm previsto um enquadramento e uma classificação em função de vários critérios como os serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e, particularmente, a população que servem. O CHVNGE - Centro Hospitalar Vila Nova Gaia Espinho serve uma população direta de 350.000, indireta de 700.000 e em áreas específicas de 1,2 milhões habitantes, cumprindo todos os critérios do nível III há 20 anos.

A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não foi ainda reclassificado não se sabe.

O mais curioso é que após uma visita ao CHVNGE do primeiro-ministro, ministra da Saúde e presidente da Câmara de Gaia á Instituição em junho deste ano, estes terão prometido a respetiva reclassificação para breve. A mesma acabou por ser concretizada a 1 julho, mas não integralmente. Abrangeu apenas os vencimentos dos gestores, que passaram a ser remunerados em função da importância efetiva do hospital.

Quanto aos 1,2 milhões de cidadãos que necessitem de acudir ao CHVNGE, podem ter o consolo de saber que a gestão do mesmo é reconhecida de topo. Quantos aos meios necessários, paciência…