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22 abril 2026

A tua tortura é pior do que a minha


Por estes dias tem sido notícia e polémica a contabilidade dos presos políticos de antes e depois do 25 de abril. O debate é temperado com argumentos sobre como se integra na comparação a diferença na duração entre 48 anos e 2 anos e em que medida os antecedentes e respetiva tensão acumulada atenuam a importância do fenómeno. São ponderações e contabilidades pueris.

A principal diferença que vejo é que relativamente ao Estado Novo é praticamente consensual terem existido presos políticos, torturas e outras barbaridades, sendo raríssimas as vozes que as desvalorizam ou tentam apagar. Quanto ao pós 25 de Abril, as leituras são muito mais relativizadas. É indiscutível que em 1974-75 houve atropelos graves e sistemáticos ao Estado de Direito e aos Direitos Humanos, devidamente promovidas e validades por altas hierarquias em funções. Não foram esporádicas escaramuças em contexto de excitações revolucionárias. Começaram em setembro de 74, cinco bons meses depois da revolução e não se autoextinguiram por normalização dos seus protagonistas, mas por um contragolpe em novembro de 75.

O facto de terem existido é grave e as tentativas de branqueamento por quem gosta de hastear a bandeira da liberdade e da democracia são imposturas hipócritas. Aqueles que ainda guardam respeito e admiração por figuras como Otelo Saraiva de Carvalho e o seu projeto de encher o Campo Pequeno de contrarrevolucionários, podem manter as suas convicções, não serão presos. Agora, assumam que não são democratas nem defensores da liberdade. Os do outro lado são mais claros nas suas opções e intenções. Procurar comparar as conta-correntes de Salazar e de Otelo é de interesse secundário. O mais importante é assumir que existiram e não devem voltar a existir.

10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

14 dezembro 2025

Vice-Rei do Norte


Especialmente nesta altura em que ficou na moda desenvolver novas narrativas sobre o que foi e o que não foi o 25 de novembro, nada melhor do que ler quem o viveu e dele foi protagonista, melhor do que escutar o “disse que disse” de quem repete o que ouviu dizer, na parte que encaixa na sua narrativa preferida.

Esta autobiografia de Pires Veloso, onde obviamente o 25 de novembro de 1975 tem uma quota importante é obrigatória para quem se quiser informar.

O cognome de Vice-Rei do Norte, não é especialmente do meu agrado. Depende de como for pronunciado, com alguma simpatia e respeito ou com sobranceria e algum toque de desdém. Para começar não estamos em contesto monárquico, depois Pires Veloso não foi vice de ninguém. Em Lisboa é que existiam uns candidatos a vice czares. Um vice-rei presume existir algures um rei e aquele ser um personagem que com alguma autonomia governa um território distante.

E em 1975 o Norte e a cidade de Porto foram diferentes de Lisboa, mas não na perspetiva de uma terra longínqua e destacada. Pires Veloso teve sempre um olhar sobre o Portugal inteiro. Este Norte e a cidade do Porto, hostis às forças extremistas (daí catalogados de reacionários e fascistas) é o mesmo que em 1832, durante a guerra civil foi um bastião firme na defesa do liberalismo contra o absolutismo. Os genes são os mesmos. Podem contra-argumentar que esquerda-direita; revolução- contrarrevolução não estão no mesmo alinhamento, mas sim… A bandeira hasteada no Porto nas duas situações foi a mesma: Li-ber-da-de !

Pires Veloso acabou por pagar a sua coragem e integridade, mas penso que a fazer de novo, igual faria, sem se condicionar pelos golpes baixos que a corte, reestabelecida e legitimada graças a, entre outras, à sua contribuição, não hesitou em lhe aplicar posteriormente.

Sobre o conteúdo específico do seu testemunho, uma surpresa para mim foi o lugar de Ramalho Eanes. Tendo pouco ou nada intervindo no dia 25 é espetacular e oportunisticamente catapultado à primeira linha, numa encenação programada e realizada pelo grande maestro Melo Antunes.

Agora vou especular. Aviso colocado, concretizo… O Prec estava exausto, Vasco Gonçalves encostado e as reações populares, a começar no Norte, apontavam a um beco sem saída para aquele caminho; o golpe PCP do 25/11 é travado pela conjugação das forças de Pires Veloso, Jaime Neves e Força Aérea, sob o arbitragem de Costa Gomes e aí… Melo Antunes, conhecido por moderado, mas não necessariamente um democrata pluralista vai colocar a coroa de louros em Eanes que, do mal o menos, permitirá a continuação da influência comunista dentro do que era possível. O mui democrático Conselho da Revolução aguentou-se até 1982.

Dá para entender a alergia que alguns democratas de gema desenvolveram por Ramalho Eanes, especialmente Sá Carneio e em certa medida também Mário Soares.

Se houvesse uma biografia completa e detalhada de Melo Antunes, certamente muita coisa se aprenderia e melhor se entenderia o que aconteceu no país nesta época.

01 setembro 2025

A flotilha da liberdade e respetivas coerências


Vi na televisão uma reportagem sobre a partida da flotilha de Gaza de Barcelona. Para começar, uma espécie de conferencia de imprensa. Quase todos com o keffiyeh, mas aos ombros apenas, não a envolver a cabeça da forma tradicional, talvez para não evocar Arafat, ou não serem acusados de apropriação cultural, ou talvez apenas porque com aquele calor é mais confortável não embrulhar a cabeça. Ignoro se irão propor essa nova forma de utilização às palestinianas de Gaza. A senhora que fazia de pivot (imagem acima) usava também uns simpáticos calções que serão certamente entusiasticamente adotados no destino.

Falou uma senhora, Ada Colau, em catalão, Barcelona oblige, que aparentemente era entendida e aplaudida…Falou também Mariana Mortágua (com o lenço aos ombros, claro), algo enervada. Ou nervosa... não vá, caso chegue a desembarcar, o Hamas descobrir as suas opções de “género”…

No final umas imagens de Greta Thunberg, já a navegar no navio “Family”, registado na Madeira, e que não me pareceu ser de todo neutro em emissões de CO2. Curiosamente nos sites de seguimento do tráfico marítimo, ele aparece neste momento ainda em Barcelona.

Tudo super coerente !

21 março 2025

Ainda a Vendeia


A cerca de 50 km a sul de Nantes, há uma placa informativa na autoestrada anunciando “Memorial da Vendeia”. A primeira vez que a vi não tinha a mínima ideia do contexto e após informação e posterior visita do local ficou-me como um dos episódios mais dramáticos e representativos daquele período de liberdade terrifica, dois conceitos que infelizmente se apresentam muitas vezes em conjunto.

O tema já foi objeto de publicação anterior, aqui, e posteriormente li a obra acima representada, verdadeiramente (bem) desenvolvida e documentada sobre o tema. Não é objetivo hoje refazer o histórico dessa guerra e guerrilha, da tentativa de genocídio sobre toda a população civil da zona rebelde e demais as barbaridades desse período de terror absoluto, sem o mínimo de respeito pelos “direitos universais do homem”, nem mesmo o direito a viver para aqueles cujo sangue fosse declarado “impuro” (ver a letra da Marselhesa).

Há aqui um fenómeno daqueles que, acreditando tão inequivocamente estarem do lado “certo” da história, não hesitam em enviar para as masmorras ou para o cadafalso, todos os que se considerem estar do lado errado. Em Nantes, chegaram a afogar sumariamente no rio os inimigos do regime, como suposta medida sanitária na sequência da saturação das prisões.

Uma questão que levanta muitas interrogações é como, séculos depois, com todos os elementos para uma visão clara de toda a barbaridade, ainda haja gente “inteligente” que consegue expressar simpatia, compreensão e benevolência para com “Robespierres” e outros que tais. É um verdadeiro mistério da natureza e da irracionalidade humana.

Numa dada passagem do livro, o autor lança um repto se este totalitarismo ideológico jacobino não foi a matriz inspiradora do que a seguir se viu na Europa com os regimes ditatoriais brutais, nomeadamente no século XX. Pode não ter sido inspirador diretamente, poderão apenas terem génese na mesma “doença do poder”, mas as semelhanças são bastantes.

Efetivamente há atualmente órfãos de Estaline e órfãos de Robespierre e com muitos a partilharem as duas orfandades… Qual será a cura, não sei, racionalidade e humanidade não parecem ser.


15 dezembro 2024

A Vendeia e as ideias


A Vendeia está no centro da costa atlântica francesa, um departamento não muito conhecido. A região não tem os pergaminhos históricos da Aquitânia ao Sul, nem a especificidade cultural da Bretanha ao Norte. Um episódio marcou, no entanto, a sua crónica. Nos finais do século XVIII, nas convulsões do processo pós-revolução francesa, ocorreu um levantamento popular contra um recrutamento maciço, tendo-se formado um exército “irregular” que algum trabalho deu àqueles que defendiam a liberdade a todo o custo, passando pelo terror, sempre que “necessário”.

Há uma altura em que, para acabar de vez com a perturbação, os que queriam impor a (sua) fraternidade, custasse o que custasse, decidem enviar expedições punitivas que circularão pela região matando todos os que se apresentam à sua frente, minimamente ou supostamente suspeitos, independentemente da atividade, sexo ou idade. Uma brutal sequência de massacres, existindo um memorial evocativo, em Lucs-sur-Boulogne (imagem abaixo), num dos locais onde essas execuções sumárias foram  realizadas.

Obviamente que os tempos hoje são outros e que este tipo de violência já não é usado para impor ideias, pelo menos por estes lados. No entanto, ainda há quem não hesite em usar toda a força disponível, e socialmente aceitável, para calar opiniões diversas. Chama-se cancelamento. Se antes se entendia que os contestatários podiam perder o direito a viver, hoje ficamos pela perda do direito a falar. Do mal, o menos…

Felizmente que o limite da agressão aceitável está noutra escala e dimensão, mas, por muita bondade que possa existir na sua génese, as ideias que não admitem contraditório são fontes de pobreza, para o mundo e para elas. Uma ideia que se autoproclama inquestionável e se arroga o direito de destruir as outras, está ela própria a caminho da destruição de todos os seus eventuais méritos.



12 junho 2024

O tamanho do S Gonçalo


Entre os vales do Cávado e do Neiva, há um ponto culminante, próximo dos 500 m de altitude, com uma vista enorme e abrangente a partir de lá, sendo também visto de “todo o lado” com a sua a torre de observação e antenas.

A primeira vez que lá tentei chegar a pedalar, foi numa tarde de verão tão quente que fiz meia-volta a menos de metade, ali pelo monte do Castro. De uma segunda vez, mais recente e mais pela fresca, fui um pouco mais acima, mas a combinação do declive com a irregularidade do terreno é tal que torna a coisa um pouco difícil. Aliás, o percurso sinalizado será quando muito para subir a pé e para quem não receia torcer um tornozelo. Foi esta combinação e “incapacidade” que me deu a motivação (e a justificação!) para comprar a elétrica.

Tanto assim, que após uma primeira volta de ambientação, a segunda saída foi subir ao S. Gonçalo, com a coisa melhor estudada, pelos estradões e não por leitos de ribeira secos…  Aliás, com a assistência elétrica no mínimo, já é um bom treino ir por ali acima.

 Mais do que altitude e da vista lá no ponto final, o que fascina é a dimensão daquela área enorme, sem uma casita para amostra. Há estradões que sulcam o monte em todas as direções e a sensação de que dificilmente se passará por todos os cantos e recantos. Liberdade é um pouco isso, também, não? Haver sempre algo por descobrir.

E a uma distancia de uma dúzia de quilómetros da base.., ou umas dúzias de pedaladas.



20 fevereiro 2024

Outro mundo


Há cerca de dois anos, o mundo ocidental alertava para a concentração de forças armadas russas junto à fronteira ucraniana. Por estes lados um exército de “idiotas úteis” desvalorizava e até ironizava, comparando até a credibilidade dessas fontes de informação sobre a Rússia com as profecias de Nossa Senhora de Fátima de há um século atrás.

Hoje vemos a barbaridade que se passa por ali e penso que só podemos lamentar não ter de imediato e radicalmente cortado todos as compras de combustíveis à Rússia, compras que permitiram financiar a destruição de um país inocente e soberano. Guerra é guerra… e mais vale passar um pouco de frio nas casas e abrandamento na indústria, do que ver os blindados e os misseis a ameaçar.

Por estes dias, soubemos da morte do corajoso Alexei Navalny, cujo “crime” foi questionar, denunciar e afrontar o regime de Putin. Infelizmente é só mais um de uma longa lista de vítimas de uma organização assassina. O regime russo atual não é comunista ortodoxo, de forma nenhuma, mas a sua assinatura é muito semelhante à do estalinismo.

Ao mesmo tempo que a Europa se inquieta, e bem, com a subida dos populismos e xenofobismos da extrema-direita, deveria ser também consensual que o nosso mundo, de liberdade e de democracia, com todos os seus defeitos e fragilidades, é felizmente incompatível com a realidade de Moscovo. O voto contra do PC e do BE no Parlamento Europeu de uma resolução de 2019 que equipara o nazismo ao estalinismo e respetivas justificações são eloquentes. Saberão eles que se forem viver para esse outro mundo, além de muitas outras coisas que lhes faltarão, correm o risco grande de acabarem como Navalny se tiverem a coragem de pensar e de expressar o seu pensamento?

05 maio 2022

Os limites da Europa


De Lisboa a Vladivostok parece-me um pouco exagerado. Havendo poucas dúvidas quanto ao limite Atlântico a oeste, o Pacifico do outro lado é talvez um pouco exagerado.

Na definição da Europa e seus limites, mais importante do que os meridianos geográficos estão os valores sociais e culturais e, citando a chamada Constituição Europeia, “humanismo, igualdade de todos os seres, liberdade, respeito pela razão”. A história da Europa teve fases brilhantes e períodos sinistros, por vezes escassamente separados, como, em França, com a Declaração universal dos direitos do homem e do cidadão em 1789 e o terror de Robespierre quatro anos depois. Mais recentemente vimos barbaridades como a guerra civil espanhola, aqui ao lado, o Nazismo na Alemanha e o Stalinismo na Rússia.

No entanto, nos últimos 70 anos, após o final da II Guerra Mundial, a Europa parece ter-se estabilizado, reencontrado esses valores e citando de novo: “respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito”. O que se está a passar na Ucrânia é uma clara negação dos valores europeus. Para aqueles que se recusam a vê-lo, como não viram o Gulag, cegueira ideológica é uma explicação algo benigna.

Trata-se antes de uma opção ideológica, veladamente assumida. É não se reconhecer nos valores humanísticos europeus, promover a tal “revolução” purificadora e a reversão deste regime que, sem ser ideal, é o melhor que existe. Não é passivamente ignorar, é ativamente lutar por uma causa perigosa.

21 setembro 2021

Sobre Homens e Humanidade


É relativamente fácil elogiar os mortos. São previsíveis e não há ricochete possível. Sobre os elogios póstumos a Jorge Sampaio, julgo, no entanto, que muitos não teriam tido dificuldade em o ter dito em vida do mesmo, sem receio de surpresas ou de golpes baixos. O Presidente da República, dentro dos seus defeitos e qualidades, incluía elevação e respeito por todos.

Jorge Sampaio não teria sido provavelmente um bom Primeiro-Ministro. Àquela do “Há vida para além do déficit” faltava “Sim, há, e chama-se falência e troika”. Como qualquer humilde contabilista doméstico sabe, gastar mais do que se ganha, acaba mal.

Apesar disso, há um nível de respeito por todos e de todos para ele, que não encontramos na geração seguinte dos, chamemos-lhe, líderes partidários, que nem dentro do mesmo partido se respeitam. Será que um ambiente de repressão, censura e de luta pela liberdade gera personalidades mais ricas e humanas do que a luta pela liderança na juventude partidária? Pois… E a solução passará por um novo período de ausência de liberdade?

Apesar de todos os sinais em contrário e de toda a pobreza intelectual e humana, carência de dignidade e princípios que vemos nas estrelas (?) ascendentes que nos anunciam, quero acreditar que não. Quero acreditar que o respeito por todas as opiniões e posições é e deverá continuar a ser um alicerce e pilar deste edifício em que vivemos. Falta sempre juntar a capacidade de gerar riqueza e de sustentabilidade económica, social e ambiental. Ter que passar por novo período de trevas para tal (re)afirmação seria triste.

24 junho 2021

O camarada Vasco


Com o centenário do nascimento de Vasco Gonçalves, vejo algo surpreso o branquear da cor do Primeiro-Ministro do Verão quente, colocando em evidência os avanços sociais ocorridos nesse período, tais como o estabelecimento do salário mínimo, dos subsídios de férias e desemprego e da licença de parto.

Sendo isso verdade, pode-se questionar se ocorreu graças a ele em particular ou se teria acontecido dentro da dinâmica da época, independentemente do PM em funções. Pode-se também olhar para outras coisas que se passaram nessa altura, como as suas posições quanto à não liberdade sindical a as pressões sobre a comunicação social desalinhada.

Um bom exemplo, foi o jornal República fundado em 1911 por um distinto republicano, António José de Almeida. Foi oposição e sobreviveu ao Estado Novo, mas soçobrou naquele Verão quente de 1975. Não vou desenvolver aqui os detalhes do que se passou, eles estão facilmente acessíveis a quem quiser saber, apenas o significado.

O PCP, através dos seus ativistas, com a cobertura do governo Gonçalvista, calou um órgão de comunicação social incómodo. Não foi um ato isolado, a Renascença sofreu as mesmas pressões, o DN teve uma série de jornalistas saneados pelo futuro Nobel e muitos outros periódicos viram areia cair nas suas engrenagens.

O caso República levou à saída do PS do governo e teve repercussões internacionais, forçando mesmo outros PCs europeus a demarcarem-se do seu homólogo português. Tudo isto no tempo do camarada Vasco, que não era democrata, nem defendia os valores de Abril partilhados pela larga maioria do povo português.

30 outubro 2020

Três tempos e…

Tempo hoje:

Em outubro de 2020, num bonito e cerimonioso cenário, na Sorbonne, entre as figuras de Vitor Hugo e de Louis Pasteur, repousa a urna e é homenageado por toda a França o professor Samuel Paty, assinado por um islamista radical, e cujo crime foi ter mostrado numa aula as famosas caricaturas de Maomé, do Charlie Hebdo, no âmbito de uma discussão sobre a liberdade de expressão. Evocadas generosamente as três palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Tempo antes:

Quantos “Maires”, galhardamente envergando a faixa tricolor, agora inquestionavelmente solidários com o luto, proclamando e repetindo as três palavras mágicas, num tempo antes, não fecharam os olhos e até ajudaram a construção de madraças suspeitas, com financiamentos de origem suspeita, com formações suspeitas, desde que isso os ajudasse a preservar o poder? Democracia a quanto obrigas?

Quantos intelectuais e outros que tais, que aplaudiram o filme de Jean-Luc Godard, o preservativo no nariz de João Paulo II, todas as provocações de bom e mau gosto, do “é proibido proibir”, estão calados, amedrontados ou intelectualmente acorrentados e porquê?

Tempo depois:

Diz o Presidente de lá que a França não renunciará às caricaturas religiosas. Do ponto de vista do princípio é coerente. Na prática, um vendaval se levanta, até maior do que a decapitação original provocara. Apetece questionar até onde irá este vendaval. Até as caricaturas serem aceites, sem causarem mortos, ou até um pouco mais de autocensura e chamemos-lhe respeito virem definitivamente amedrontar e acorrentar a liberdade de expressão? Certamente haverá mais mortos… mas qual será o próximo tempo?

 

29 abril 2020

24 de abril e bacalhau


Quando se fala no 24 de abril, para lá da estúpida, obtusa e infindável guerra colonial, é comum avançar com os nomes de Aljube, Peniche e Tarrafal. Hoje, apetece-me falar de bacalhau. Há uma certa visão de que a PIDE só incomodava comunistas, conceito bastante largo na altura, e, segundo essa perspetiva, aqueles para quem “a sua política era o trabalho”, não tinham problemas com o designado Estado Novo. 

O bacalhau tocou muita gente pelo trabalho e muito duramente. Refiro-me a quem participou na chamada campanha do bacalhau, organizada e promovida pela “outra senhora”. A visita ao museu marítimo de Ílhavo é muito interessante e elucidativa sobre a vida terrível daqueles homens, que chegavam a trabalhar 20 horas por dia, em condições arrepiantes. Os lançados nas águas gélidas dos mares da Terra Nova não tinham sido condenados pelo regime a derreter numa frigideira do Tarrafal por delito de opinião, mas estavam condenados a um trabalho duríssimo e miserável para a sua sobrevivência e dos seus. 

Um regime que estabelece como grande política alimentar o seu povo a partir de condições tão sub-humanas é pequeno, é mesquinho e sem visão. Esta condenação do país ao miserabilismo, por ignorância, incapacidade, falta de visão ou o que quer que seja como defeito não é o único problema do Estado Novo, nem a campanha do bacalhau o único exemplo, mas é uma ilustração muito concreta e bem documentada. Não fica mal falar dela neste mês de abril.

25 novembro 2019

Deveria ser consensual



O 25 de novembro é uma data importante na história recente do país, como muitas outras. Quem quiser ver de perto o que se passou no verão desse ano de 1975, não tem dificuldade em concluir que o caminho em curso era o da não liberdade, da não democracia, do não respeito pelos direitos humanos. Era o caminho para uma tirania, cujos exemplos e experiências, terminaram sistematicamente em várias formas de miséria.

Pela lógica seria, portanto, uma data pacífica e consensual. Não deveria servir de arma de arremesso, ou, se tal fosse tentado, o projétil nada atingiria, sendo disparado no vazio. Surpreende-me e preocupa-me que em 2019 essa data possa ser ainda polémica e que ainda haja projeteis e feridos. Sinceramente, alguém defender o que supostamente se perdeu com o 25 de novembro é muito preocupante. Pelo mais básico respeito pela liberdade e pela legitimidade democrática, deveria ser consensual.

06 setembro 2019

A riqueza da guerra

Para mim e para a maior parte da população europeia, a guerra é uma coisa horrível que vemos nos noticiários, revemos ficcionada em filmes, romances e séries, mas que, sobretudo, apenas imaginamos. Não sabemos o que é mesmo a guerra, o poder morrer estupidamente no segundo seguinte ou ver um próximo cair irreversivelmente ao nosso lado. Podemos tentar imaginar, mas imagino que a imaginação não é suficiente e esperemos que assim continue durante muito tempo.

Os monumentos e as apologias aos bravos que tombaram em combate são uma forma de nos tentar fazer imaginar um sentido, uma glória para algo que não tem nem pode ter glória.

A liderança militar, ou ditatorial, é eficaz. Ninguém imagina um batalhão a realizar um referendo diário para decidir o caminho a seguir. Ou, entre de dois batalhões, um avançar e outro recuar. O seguimento cego e sem contestação das ordens superiores é fundamental para ganhar batalhas. Da não objeção e castração da emancipação de cada um, virá a vitória e o consolo das cerimónias e estátuas.

Há uma economia da guerra. Aquela em que as forças se mobilizam e são dirigidas sem questões nem contestação, maximizando o resultado. A História tem histórias de impérios criados militarmente, eximiamente organizados e extremamente eficazes enquanto na fase da conquista. O problema aparece quando a conquista material deixa de ser suficiente e são necessários outros avanços. Os do conhecimento e os da iniciativa, enraizados em cultura e liberdade.

Tudo isto a propósito de guerra e do declínio da Europa atual? Sim. A ver vamos…

27 junho 2019

Memórias e Liberdade


Aljube, em Lisboa, uma antiga prisão de má memória. Entre outros espíritos livres aí esteve preso Miguel Torga, pelo gravíssimo crime… de ter escrito um livro! Em 2015 foi transformada em espaço de memória da resistência e liberdade. É importante ter memórias claras e entender o nascer e o porquê da liberdade e da sua falta… de forma honesta.

Infelizmente, naquele local, o revisitar da história nacional do século XX, não é séria, não ajudando assim à causa da liberdade. Começa pela sequência dos malefícios da Monarquia, das boas vontades da Primeira República, sendo o maio de 1926 obra de uns malandros que apanharam o povo distraído, ignorando a ajuda dos erros dos primeiros anos republicanos no aparecimento e implantação do Estado Novo.

Depois, e pior, é 1975. A palavra usada para caraterizar o resultado das eleições para a Constituinte é “desilusão”!

Conta ter ocorrido um confronto entre forças “avançadas” e outras que defendiam uma “democracia mais moderada”, saldado por uma “derrota”. Gostava que me explicassem em que consistia exatamente esse “avanço” e como se distinguem e classificam as democracias quanto ao seu nível de “moderação”.

Pelos verdadeiros lutadores da verdadeira liberdade, esta narrativa faciosa e sem vergonha é insultuosa. Se não queremos entender e enfrentar porque a liberdade aparece e desaparece, estarmos sempre à mercê de novos aljubes.



Ariane


Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades…

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Miguel Torga
(aquando da sua passagem pelo Aljube)

04 junho 2019

O silêncio

O silêncio de uma manhã pode não ser de morte. Depois do silêncio nasce o novo, vem a notícia. 30 anos. Depois do silêncio não pode ficar outro silêncio. Pelos silenciados definitivamente no momento, pelos silenciados continuamente no tempo e pelos silenciados na ignorância dos fatos apagados da história que lhes ensinam.

Um momento de não silêncio pelo que vale a pena noticiar, uma homenagem possível aos silenciados. Há 30 anos.

12 junho 2018

Depois do Maio


Cinquenta anos depois do Maio 1968, vivemos o Maio de 2018. Eu já era nascido no tempo do primeiro, mas não o suficiente para ter uma memória e um sentimento direto. Fica-me a ideia de que ficou na história mais pelo simbolismo do que pelos factos e pelo fundo.

Desculpem-me a dissonância, mas não consigo ver a necessidade de fazer voar paralelepípedos pela cidade para, entre outros, reivindicar o direito de os rapazes poderem entrar nas residências universitárias femininas. Dos testemunhos da época, também me parece que o famoso “É proibido proibir” seria uma forma formalmente simplificada do “Nós proibimos que nos proíbam”, fazendo o “nós” e o “nos” aqui acrescentados uma diferença grande.

França tem uma grande tradição e especialidade em romantizar (perdoem-me os romancistas) as suas revoluções. Mesmo a outra, a grande, a de 1789, por trás de uns princípios genericamente bonitos e meritórios teve uma prática miserável, para não dizer criminosa, detalhe habitualmente ignorado no boca cheia da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

50 anos depois do 68, voltaram a existir distúrbios nas universidades francesas. Ao que parece por o governo tentar impor curricula específicos para acesso aos cursos. Numa equivalência local, alguém que fez o 12º ano em humanísticas, pode exigir a liberdade de entrar num curso de engenharia, mas certamente que não lhe será fácil avançar se ignora toda a matemática do secundário. Havendo taxas de abandono elevadas e recursos cada vez mais limitados…

A fotografia acima (Gonzalo Fuentes, Reuters), um simples exemplo e há mais no mesmo registo, é do estado em que ficou uma das faculdades em Paris após a sua ocupação dos defensores da “liberdade” contra a “seletividade”. Pelos vistos já não há paralelos para retirar da calçada (talvez já não haja mesmo de todo calçadas) e não se pode romanticamente abrir a cabeça aos polícias, mas não consigo entender nem aceitar esta ligeireza e desrespeito pelos bens públicos de um local que eles pretendiam simbolicamente proteger. Apetece dizer que com defensores assim, dispensam-se atacantes. Sobre as razões para a ignição destes rastilhos em meio estudantil, isso é tema para outra conversa.

15 fevereiro 2018

Assim, tipo Porsche


Dizem que muitas pessoas, chegando a uma certa idade, têm uma espécie de mania, enfim… digamos que de procurar regredir uns anos, buscar uma segunda juventude… sei lá, coisas que por aí se dizem. Nessa fase, alguns compram um Porsche. De realçar que, estatisticamente falando, deve ser mais provável ter dinheiro para um Porsche aos 50 do que aos 20.

No entanto, talvez não seja mesmo preciso arranjar um Porsche, ou um Maserati conforme as preferências, para encontrar algum gosto de rejuvenescimento, liberdade e aventura. Uma simples, ou não tão simples, bicicleta também serve? Se calhar, sim…

O que é que leva tanta gente a sair para a estrada e para o monte e a galgar quilómetros e calhaus? Sim, há gente de todas as idades, eu próprio comecei a pedalar com alguma regularidade ainda na adolescência, mas … acho não errar muito se disser que há ali uma franja de idades assim mais para cima, dos que já não passam a noite nos copos, nem se distraem tanto em casa pela manhã.

Num artigo que li recentemente sobre a febre das bicicletas, que nalguns casos atinge temperaturas elevadas, até apresentavam um acrónimo inventado para o fenómeno – MAMIL (Middle Age Men In Lycra…). Sem comentários! Não, não sou um MAMIL!! Quando muito serei um JMIMELQEF (Jovem de Meia Idade Metade Em Lycra Quando Está Frio).

Há uma oração boa para caraterizar o contexto MAMIL – “Senhor, se eu morrer não deixes a minha mulher vender a minha bicicleta pelo preço que eu disse que ela custou!”. Enfim, mais uma vez, não será o meu caso, até porque a minha bicicleta de estrada ainda é a mesma da adolescência.

O indiscutível é existir uma enorme sensação de liberdade e de autossuperação ao ver deslizar quilómetros em cima de uma das máquinas mais simples e geniais que existem.

08 fevereiro 2018

Memórias do muro


Esta semana cumpriu-se uma data curiosa relativamente ao muro de Berlim. Igualou-se o tempo que esteve construído com o tempo decorrido após a sua demolição. Quem diria…

Olhando hoje para essa memória, apetece-me evocar duas coisas. Em primeiro lugar a sua natureza direcional. O seu objetivo não era evitar a entrada de pessoas (ou de latas de coca cola). Era evitar as saídas. Em segundo lugar, a indiscutível melhoria das condições de vida, pelo menos, para não complicar, na ex Alemanha de Leste, decentemente governada. É possível hoje, racionalmente, defender a bondade desses regimes que, conforme disse Camus, tinham tanto de socialista como a Inquisição de cristã? Racionalmente, obviamente que não.

Há, no entanto, e haverá, nostálgicos desses tempos, enquadrados em dois tipos. Uns são os religiosos. Aqueles que acreditam dogmaticamente num modelo, apesar de após cem anos e ensaios em vários continentes e culturas, ter sido sistematicamente incapaz de proporcionar bem-estar material e intelectual de forma sustentável aos seus povos. Face as estas evidências, continuar a crer, é coisa do domínio religioso.

Outros são os que valorizam um certo paternalismo tranquilo do regime. Não é assim tão raro nos pós-ditaduras. Também por cá temos nostálgicos dos tempos respeitosos da “outra senhora”. Como se face a ter um caminho livre a descobrir, a arriscar, haja quem prefira ser levado pela mão. Pensa-se menos…

E, por favor, não me evoquem a pretensa superioridade moral, da solidariedade, da defesa dos desfavorecidos e etc. Na prática, a prática passou por uma oligarquia de privilegiados, muito pouco escrutinados, que, apesar das argumentações bonitas, foram incapazes de proporcionar vidas decentes aos seus povos.

Enquanto não lermos seriamente o passado, corremos sempre o risco de um futuro sombrio.


Foto de um Trabant no Memento Park, em Budapeste, onde arrumaram estátuas e outros monumentos "socialistas", anteriormente distribuídos pela cidade.