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17 outubro 2017

Sobre as naus que não haverá


Se houvesse a escolher cinco locais naturais do país a proteger a “qualquer custo”, certamente que o pinhal de Leiria estaria nessa lista. Não apenas pela dimensão, pela função de estabilização do terreno numa parte daquela longa faixa litoral arenosa, que sem vegetação pareceria um deserto, mas, obviamente e também, por “a plantação de naus a haver” ser simbolicamente cadinho e berço de sonhos e aspirações.

O pinhal não estava dividido, com um canto do Manuel em Lisboa, uma tira do António no Luxemburgo e uma leira de uns herdeiros desentendidos quanto a partilhas (também não tinha eucaliptos…). Estava todinho à disposição do Estado.

Se há sítio onde podia e devia haver uma gestão e um ordenamento florestal irrepreensíveis seria ali. Avisos tinham saído de que a falta de limpeza e tratamento podiam proporcionar uma calamidade. Agora, resta-nos esperar serenamente pelas conclusões de um mui provável inquérito “post-mortem”. As notícias de que “faltava verba” para gasóleo, a ser confirmada, é assustadora, mas, realmente, não se pode ter tudo. O cumprimento do défice implica sempre prioridades. E pode-se reverter esta calamidade, senhores?

Será certamente replantado, não sendo necessário um D. Dinis bis para isso, mas a imagem acima de Hélio Medeiros do pinhal a arder, ficará na nossa memória associada à mediocridade e incompetência do desgoverno neste país, cada vez mais incapaz de sonhar com naus a haver. Tristeza.

21 julho 2016

Os conquistadores e os seguintes

O livro “Conquistadores – como Portugal criou o primeiro império global” de Roger Crowley é, na minha opinião, um livro de leitura obrigatória. Escrito por um inglês, consegue ter um distanciamento e uma objetividade que a nossa relação afetiva com o assunto dificulta.

Penso que os descobrimentos portugueses têm um reconhecimento histórico distorcido. De um lado talvez excessivo, por nós, nascidos e criados a ouvir Lusíadas e “Heróis do mar…”, do outro lado, menosprezado pelas potências históricas seguintes a quem custa reconhecer a genialidade e o pioneirismo destes pequeninos. Dentro da leitura global da época dá-se uma importância exagerada à simples viagem de Colombo, por a América se ter tornado no que se tornou, e pouco destaque à incrível empresa de Fernão de Magalhães, num meio natural e social adverso a forçar e a encontrar no fim do mundo uma passagem diabólica entre os dois mares.

O livro de Crowley parece estar bem fundamentado (quem sou eu…) e dá uma visão muito rica dos sucessos e insucessos, da brutalidade e da diplomacia (muitas vezes da falta desta) e, sobretudo, da importância da liderança.

Ficou-me uma reflexão principal. Não é fácil ter sucesso, exige saber, persistência, meios humanos e materiais. Mas, há algo mais difícil do que ter sucesso, que é mantê-lo. É, depois do sucesso inicial, continuar em busca do saber, manter a persistência e, muito especialmente, as lideranças não serem confiscadas pelos oportunistas.

26 setembro 2014

Ignorância

Passou-me e saltou-me à frente dos olhos um número especial (mono)temático de uma publicação francesa de referência, “Le Point”, com o título “Essas viagens que mudaram o mundo”. No subtítulo (sobretítulo?) vinham os nomes de Cristovão Colombo, Marco Polo, Alexandra David-Neil, Bougainville, Livingstone, Charcot… Espera aí: quem são aquela Alexandra e o Buganvília de quem, na minha ignorância, nunca ouvi falar? E já sem referir o Charcot que me diz qualquer coisa, mas não mais do que o Amudsen. E então Vasco da Gama e Fernão de Magalhães? E,para não ficarmos apenas pelos nossos descobrimentos, Charles Lindberg, Yuri Gagarine ou Neil Armstrong, as suas viagens não terão mudado o mundo e em muito?

Não resisti a folhear a publicação para confirmar que os nossos lá estavam. Não tive tempo para ler nem coragem para comprar a revista, mas deu-me um certo amargo de boca recordar-me de que já tinha comprado e lido alguns outros números de tema específico e supostamente de “referência”. Obviamente que para ser vendido em França terá mais sucesso com aqueles destaques. Às tantas, alguém até a compra só para saber quem é aquela Alexandra compatriota tão distinta… mas num tema “grandes viagens”, num destaque de 6, conseguir colocar 3 franceses é um grandessíssimo e evidente exagero, que não abona nada em favor da real “Grandeur de la France”.

Eu sei que os grandes que nos ultrapassaram têm dificuldades em assumir o protagonismo dos pardais lusos nessa fase… mas, por menos reconhecido ou divulgado, não tem menos valor!

Nota: Para quem gosta de livros de viagem, o relato da viagem de Fernão de Magalhães é qualquer coisa de fantástico e uma grande lição de vida

25 abril 2011

Sobrevivendo os Pardais

Alturas houve em que eu não tinha paciência para ouvir falar nos “Descobrimentos”. Na história oficial que tínhamos que aprender, eles eram o momento alto e, bem vistas as coisas, o único momento alto. E, 500 anos depois, apetecia dizer: sim, está bem, foi extraordinário, mas fechemos a página e deixemos de viver uma identidade plantada nas cinzas dos Gamas e dos Cabrais!. Posteriormente achei que se a nossa dimensão não se pode esgotar e encerrar nessa empresa, podemos e devemos, no entanto, olhar para a frente sem a menosprezar nem ignorar.

Curiosamente, enquanto a Grécia, que até tem alguns tristes pontos em comum recentes connosco, continua após vinte e cinco séculos a capitalizar os seus Sócrates e Aristóteles, nós não conseguimos que o Mundo reconheça a dimensão devida aos Descobrimentos, a que pode nem ser estranho o facto de nós próprios termos dificuldade em a gerir friamente. Há pouco tempo li “O Império dos Pardais” de João Paulo Oliveira, um excelente romance histórico passado no tempo de D. Manuel I. Colocar aquele enredo riquíssimo ao lado do que serve de base à famosa série “Os Tudor” sobre Henrique VIII não tem comparação possível. E enquanto meio mundo terá visto interessadíssimo a evolução dos problemas hormonais desse soberano e demais tricas cortesãs, poucos em Portugal conhecerão a real dimensão dessa época manuelina.

Hoje comemoramos o 25 de Abril que começa a ficar para a nossa democracia, como os Descobrimentos estão para a história de Portugal. Temos que passar à 3ª fase: depois da celebração eufórica e depois do desencanto com o resultado objectivo; deixemo-lo na história como um momento belíssimo e olhemos para a frente de forma construtiva e descomplexada.

O título do livro “Império dos Pardais” evocava o facto de o pequeno pardal Portugal conseguir manter um império mundial só e apenas enquanto os pássaros grandes se entretinham nas duas disputas e querelas. Quando estes parassem e olhassem para o mundo, nós rapidamente seríamos retirados de cena. Na prática foi isso que aconteceu mas não lhe atribuo uma causa de fatalidade incontornável tão clara. De qualquer forma, se temos que ser sempre pardais, que o sejamos, mas sapientes e dignos.

15 junho 2009

Preciosa

De passagem pela Argentina. Para o supervisor do projecto estavam a expirar os 3 meses de estadia contínua permitida e necessitava de sair e reeentrar no país para ter carimbo fresco no passaporte. Não é muito lógico, mas funcionava. O mais prático era atravessar o estuário do Rio de La Plata de Buenos Aires para a povoação uruguaia em face. Resolvo acompanhá-lo mas não consigo convencer mais ninguém a acordar cedo ao domingo. Assim saímos da nossa base na cidade de La Plata para Buenos Aires pela fresca, sem trânsito e sem necessidade daquelas manobras e utrapassagens especiais que nos chocam no primeiro dia mas que ao fim de uma semana de estadia já cumprimos escrupulosamente (ou, melhor dizendo, sem escrúpulos).

Disseram-nos que a cidade do outro lado, escondida atrás de cerca de 50 km de águas barrentas, era “preciosa”. Atendendo a outras recomendações anteriores, podia não significar muito. Quando acrescentaram que era património mundial da Unesco, aí, a ser verdade, já prometia algo mais. E numa manhã calma, num rápido e grande catamaran, lá atravessámos o final do longo curso do Paraná dispostos a ver o que quer que houvesse para ver.

Buenos Aires é uma metrópole frenética. Na altura estava a poucos passos da catástrofe anunciada de 1999 mas ainda era “antes”. Largas avenidas perigosas de atravessar e muita gente empurrando-nos para todos os lados. Tirando um final de dia numa esplanada do recuperado e caro “Puerto Madero” ou um domingo de manhã no bairro antigo de S. Telmo onde se pode encontrar um casal numa praça a dançar o tango com uma expressividade e uma sensualidade de mais nenhum lugar do mundo, Buenos Aires não é acolhadora nem humana.

À aproximação do fim da viagem lá aparece a pequena povoação em península debruçada sobre a água e rodeada por muralha antiga. Duas torres de igreja brancas sobre as copas das árvores. Vou comentando com o meu companheiro de viagem que parece simpática. O desembarque e o primeiro contacto com os uruguaios, incomparavelmente mais abertos e assumidos do que os vizinhos argentinos. À entrada da cidade velha um brasão português, as ruas, as telhas o ambiente... tudo cheirava a português. No outro lado do mundo e a menos de uma hora da buliçosa B. Aires, estávamos numa simpática e pacata aldeia portuguesa!
E foi assim que descobri existir uma jóia realmente preciosa chamada “Colónia del Sacramento”.



Foto googleada - na altura ainda não estava banalizado o fotografa tudo a toda a hora e em todos os lugares.

11 junho 2009

Chorar em Português


Numa reportagem de Sandra Felgueiras que passou na RTP1 antes da “eleição” das 7 maravilhas de origem portuguesa, falava-se do desaparecimento da língua portuguesa na Índia e da persistência e resistência da cultura portuguesa aí e em Malaca. Se nas praças indianas passaram apenas 50 anos, em Malaca são quase 4 séculos. E, como após este tempo ainda há gente que se identifica com a herança portuguesa, mesmo sem nunca terem posto os pés em Portugal, isso sim, é muito mais relevante do que qualquer ruína de convento ou pano de muralha.

Pessoas que diziam querer saber mais e que gostariam de falar português correctamente. Mas não havia professor. A responsável do Insituto Camões oportunamente entrevistada foge ao cerne da questão e fala dos cursos por internet... para que serve esse instituto, afinal? Qual a sua missão e o espírito de missão de quem lá anda?

O espectáculo seguinte, o da atribuição solene dos prémios, de que só vi a parte final, foi bacoco. Sem brilho, sem profundidade, sem sentido. Aqueles “trajes” variados a evoluir gesticulando no palco ao som de um ritmo qualquer foi absolutamente deprimente. Também o facto de estas coisas serem nomeadas por voto popular só prova que a “democracia” nem sempre é ideal. Por mim Colónia de Sacramento não poderia ter faltado, mas isso é outra história.

Ainda, voltando à reportagem, num momento que me emocionou, alguém dizia que via a RTPi e às vezes, dava aquela coisa “como se diz?” – chorar? – Vontade de chorar. Não fixei literalmente mas o espírito era que lá pelos confins alguém chorava em Português. Face a esta grandeza, o evento social e pretensiosamente cosmopolita foi estupidamente pobre. Não, decididamente estamos mesmo muito longe do tempo de D. João II e de Afonso de Albuquerque. A dimensão e a profundidade da herança portuguesa no mundo mereciam e pediam muito mais e muito melhor!

02 junho 2009

E ainda os descobridores...

Como dizia atrás, parece que os australianos têm grande orgulho em o seu continente ter sido descoberto pelo civilizado Cook e não pelos pobres tristes tugas. Lembra-me o Brasil onde muita gente continua a achar que a culpa do seu deficit de desenvolvimento é do Cabral. Se em vez dele tivesse sido um Smith qualquer, hoje eles seriam os USSA – United States of South América, a par e par com os USA, que se veriam aliás obrigados a adoptar uma designação mais específica de USNA!

Se calhar, não é bem assim. Acho que o Brasil se compara melhor com a Austrália. Os EUA estão numa latitude geográfica muito diferente e nestas coisas de desenvolvimento, a temperatura, a fertilidade das terras e o esforço de sobrevivência necessário tem uma grande influência nas mentalidades (e vou estrategicamente esquecer que o Porto tem exactamente a latitude de Nova Iorque… ).

Reconheço que nunca estive na Austrália e conheço muito pouco dela para grandes conclusões mas talvez isso já seja uma pista. O que resultou da construção anglo-saxónica da Austrália, onde uma elite relegou a população indígena ao estatuto de quase “gado”? Será globalmente mais limpinho e organizado do que o Brasil, mas qual a marca cultural que a Austrália tem no mundo (para lá da Nicole, claro!) ? Perguntas que ficam.

O que resultou do Brasil mestiço? Sendo certo que a nossa proximidade nos dá uma posição de espectador privilegiada, não parece haver dúvidas de que o Brasil é muito mais definido, aberto e culturalmente imensamente mais rico do que a Austrália. Eu não sei bem o que preferira mas estou convencido que se pensarem nisto a sério os brasileiros não ficarão assim tanto entusiasmados com o cenário da hipotética troca do Cabral pelo Cook.

29 maio 2009

Tanto e tão pouco


Entre 1521 e 1523, aproximadamente 250 anos antes de Cook, Cristóvão de Mendonça percorreu a quase totalidade da costa Australiana e cartografou-a com rigor, conforme mapa acima documenta. Ficou em segredo, tal como o Brasil também esteve antes do tratado de Tordesilhas. Não houve necessidade, interesse ou oportunidade e nunca foi publicitado. Também não foi assumido. Apesar de todas as evidências, os australianos e o “mundo” continuam a preferir o Capitão Cook como descobridor. Afinal, sempre é de estirpe mais nobre do que os toscos anões mediterrânicos, mas isso é tema para outra reflexão.

A reflexão actual é pensar que Bartolomeu Dias tinha dobrado o Cabo das Tormentas em 1487-88, 35 anos antes! E, nesse período em que uma simples ida à Índia podia durar mais do que um ano, 35 anos é pouco tempo. A própria expedição de Mendonça saiu de Lisboa em Abril de 1519 e chegou a Goa apenas em Junho de 1520. Neste contexto 35 anos é mesmo muito pouco tempo para Moçambique, Mombaça, Ormuz, Goa e Malaca, para explorar e consolidar o domínio no Índico e numa parte do Pacífico. Poderíamos ainda somar mais para Oriente Macau e o Japão mas aí a presença é principalmente comercial.

Há um conjunto de elementos científicos determinantes para estes feitos, independentemente da sua origem, como as técnicas de navegação, os navios e o armamento. Mas não é suficiente. Sem organização, planificação sistemática e, sobretudo, liderança de qualidade não há tecnologia que resista. E é aí que reside o meu espanto. Que bicho nos mordeu para em meio século termos ficado donos efectivos e eficazes de meio mundo, bicho esse que nunca mais voltou a dar sinais de vida?

Não se pode conduzir a olhar para o retrovisor e mais importante do que realçar glórias passadas é desenhar e construir o futuro. Agora, merecia bem a pena entender qual foi a dinâmica que gerou e permitiu o protagonismo de figuras como D. João II, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque e como tão rapidamente se extinguiu. Foi apenas a série de azares que levou ao descalabro de D. Sebastião e o traumatismo dos Filipes? Foi a riqueza que minou o engenho? Mas, a ser assim, já não tivemos pobreza suficiente para o despertar de novo? Que raio de bicho mau nos mordeu para vivermos num país em que em cada boca, em cada esquina, em cada coluna de jornal e em cada comentário na televisão vemos apenas “velhos do Restelo”, diligentemente diagnosticando e identificando os desméritos de cada iniciativa?
No rescaldo da leitura de “Para além de Capricórnio” de Peter Trickett.

22 janeiro 2007

Âncoras de identidade (II)

Podem as roupas expostas nas montras das lojas serem iguais por todo o lado, assim como o prato de comida rápida e os filmes em cartaz. No entanto, cada cultura terá sempre as sua âncoras de identidade específicas, porque se as não tiver apaga-se. E uma boa parte da atitude colectiva depende da natureza dessas âncoras.

Vejamos. É fácil entender que a Bélgica seja complexada. Que âncoras pode ter um país que foi criado ad-hoc por terceiros para servir de terra de ninguém nos conflitos bélicos frequentes da altura e com duas comunidades tão homogéneas como uma mistura de água e azeite?

Curioso é a França ancorar-se tanto no famoso trio da “liberdade, igualdade e fraternidade” e lembrarmo-nos que a prática da revolução, raiz dessa referência, esteve nos antípodas desses mesmos princípios. Ainda, em situações de crise, como a ocupação alemã ou a guerra da Argélia, o seu comportamento no terreno tende a afastar-se muitíssimo da grandeza dos discursos. Decididamente, são mesmo bons é em marketing.

Um jovem país/regime terá tendência a focalizar-se no heroísmo do processo de independência/revolução contra os malefícios do colonizador/opressor. Esquece que ao ficar cristalizado nesse momento está a adiar o futuro porque essa é uma âncora que se desvaloriza e esfuma com o tempo. Não se pode passar toda a vida à sombra de uma batalha ou de uma revolução!

Quanto a Portugal, a primeira âncora que adoptei foram os Descobrimentos. Quem não tem prazer em dizer que um dia o mundo foi cortado em dois, nós ficámos com uma das metades e, ainda por cima, escondendo informação aos espanhóis para nos apropriarmos do Brasil? Numa fase posterior achei que essa referência tinha o prazo de validade ultrapassado e desvalorizei-a.

(continua...)

26 junho 2005

Atrás da riqueza

Portugal teve a infelicidade de, ao longo de um longo período da sua história, ter tido acesso a várias fontes de riqueza demasiado fáceis. Primeiro do Oriente, depois do Brasil e, finalmente, de África. É sabido que, a forma como estas riquezas foram aproveitadas, foi pobre. Limitámo-nos a reexportá-las sem valor acrescentado e, em contrapartida, a importar praticamente todos os produtos manufacturados. Quando acabou o fluxo, pouco ficou de material. De mentalidade ficou, no entanto, algo de muito negativo: a noção de que não é fundamental contribuir para a criação da riqueza, basta estar estrategicamente colocado por onde ela passa.

Para os interesses dominantes neste modelo, não interessava sequer o desenvolvimento de valor acrescentado nacional. Ganhavam dinheiro a exportar as matérias-primas e ganhavam dinheiro a importar os produtos acabados de qualidade. A indústria nacional era um concorrente que lhes retirava influência. É curioso registar que as primeiras tentativas de industrialização do país, como os lanifícios na Beira, encontraram tudo menos facilidades da parte do poder instalado.

A indústria que, apesar de tudo, se foi desenvolvendo foi sempre considerada de segunda classe. Criou-se, e ainda subsiste, a noção de que “tudo” o que é importado é bom e “tudo” o que é nacional é fraco. Esta postura da não valorização objectiva do “made in Portugal” é um dos maiores problemas culturais que temos. A dificuldade em reconhecer que “o que é bom, é bom” e “o que é mau, é mau”, não motiva que se procure fazer melhor, não proporciona o “fazer diferente” e não recompensa a inovação.

Como consequência deste complexo, existe uma quase completa ausência de marcas Portuguesas implantadas no Mundo e uma indefinição da imagem do próprio país também. Uma internacionalização estará condenada se, em vez de uma entidade forte, tiver, por trás dela, uma crise existencialista de valores.

A nossa riqueza futura depende de assumirmos que não nos podemos limitar a arranjar um bom lugar na margem do rio e esperar ir apanhando uns bons peixes que passem. Estes rios trazem cada vez menos peixe. É necessário escolher que peixes temos condições para desenvolver, proporcionar as condições para cultivá-los, criá-los com conhecimento e todo um conjunto de outras coisas diferentes do ficar bem sentado numa tribuna. Esta mensagem é, naturalmente, dirigida prioritariamente a uma certa forma de ver o país em Lisboa.

Não será sintomático que um notável empresário da nossa praça seja um mero importador de automóveis? Que tenha, inclusive, destaque em bolsa, acompanhado por analistas que fazem previsões da evolução dos ganhos da sua empresa em função do lançamento de novos modelos pelo fabricante alemão??

24 maio 2005

A História codificada

O sucesso do “Código da Vinci” e a controvérsia associada convidam a colocar uma série de questões.

Em primeiro lugar, o seu êxito é, em muito, devido à forma como está “contado” e como gere o desenrolar da acção puxando o leitor de capítulo em capítulo. Um estilo que, para o final, chega a pecar por demasiado repetitivo. A sua passagem para filme seria muito mais interessante como série de episódios do que como clássica longa-metragem.

Quanto ao conteúdo, ele é, para muitos, extremamente apelativo: A história oficial está “mal contada”, os “poderosos” manipulam a informação que nos chega, há muita coisa à nossa volta, aparentemente banal, mas cheia significado oculto. Para muitos é irresistível a atracção pelo contra-poder e pela contradição do conhecimento comum. Se se provasse que o assassínio de J.F. Kennedy em 1963 foi um acto isolado, quantos pessoas continuariam a não acreditar e a insistir emocionalmente na teoria da conspiração?

Um perigo associado a este e a todos os romances que visitam factos/personagens históricos é a falta de rigor e a potencial mistura que ficará nos leitores entre a ficção e a realidade. Para quantos milhares não terá ficado como ponto assente que Leonardo foi realmente um grão-mestre da ordem do Priorado do Sião? Pobre da Vinci! Compete aos leitores serem rigorosos e prudentes nas suas leituras mas, por outro lado, é muito mais interessante ler um romance histórico do que um compêndio de História.

Por outro lado, também, quantos milhares de portugueses não terão a ideia de que Viriato foi um pastor tosco que atirava pedregulhos aos romanos, do cimo de um penedo da Estrela? Pobre Viriato! São ainda inúmeros os exemplos de histórias oficiais com dados deliberadamente omitidos ou deturpados. Daí que não serão tanto de estranhar as fortes apetências de alguns pelas “contra-histórias”.

Voltando ao conteúdo do romance, gostaria de apontar dois factos. O primeiro é que o culto pela divindade no feminino não é algo assim tão apagado da espiritualidade católica tal como é vivida. Se formos inquirir os crentes sobre os símbolos principais da sua fé, creio que as “Nossa-senhoras” são objecto de uma devoção que supera todos os santos e santíssima trindade juntos.
Outro aspecto é a ausência de Portugal naquela macedónia de símbolos e lendas esotéricas. Vejamos. Os Templários foram extintos em 1312 para o Rei Francês Filipe o Belo limpar a sua conta-corrente e, se possível, se apropriar das suas riquezas fabulosas. As riquezas nunca apareceram e nasceu o mito do tesouro dos Templários: para onde foi e se era material ou de conhecimento.
Em Portugal, D. Dinis, ”o plantador de naus a haver”, limitou-se a mudar-lhes o nome para Ordem de Cristo. Os descobrimentos são impulsionados pelo Infante D. Henrique, Grão-mestre da Ordem de Cristo. Não é difícil especular que as riquezas e, principalmente, os conhecimentos dos Templários tenham estado por trás do empreendimento. A Cruz de Cristo, derivada da dos templários, decorou as velas das caravelas e está hoje, por exemplo, nos aviões da nossa Força Aérea. Que história secreta estará escrita na fabulosa janela da sala do capítulo do convento de Cristo em Tomar?