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09 dezembro 2020

Desclassificar Camarate

 

Recordo-me daquele dia de dezembro em que o país atónito e apreensivo recebia a notícia do acidente de Camarate. Na jovem democracia, nunca algo de semelhante tinha ocorrido. O facto em si e as potenciais consequências assustavam. Recordo-me dos julgamentos sumários populares: - Foi um acidente! – Foi atentado! – Foram os comunistas! – Foi a CIA!

As conclusões oficiais e imediatas foram pelo acidente. Durante anos, associar a palavra atentado a Camarate foi tabu e motivo de indignação e insulto contra qualquer temerário que as evocasse. Dez (10!) comissões parlamentares de inquérito foram apontando para o atentado e evidenciando a falta de vontade e de eficácia da investigação criminal. Falou-se da questão de um eventual tráfico de armas que condenou o Ministro da Defesa e, por arrasto, o Primeiro-ministro.

Podemos imaginar que, na altura, assumir o atentado teria tido consequências devastadoras na ainda frágil democracia. Podíamos? O que não podemos, de todo, é passados 40 anos continuar sem saber o que realmente se passou antes, no dia e depois. Ainda falta vontade?  A revelação de toda a trama ainda fere alguém com poder para a travar? 40 anos depois, é obrigatório saber.


E ainda: 

Recordo-me da longa transmissão televisa das cerimónias fúnebres, em véspera de eleições. Arriscando fazer futurologia no passado: Tudo isto ajudou ou prejudicou o resultado de Soares Carneiro? Eu acho que prejudicou e acabou por confirmar uma derrota já previsível. Estas situações fortalecem os fortes e enfraquecem os fracos.

Soares Carneiro, sem chama nem carisma, “pau de cabeleira” da AD ficou adicionalmente exposto na sua fraca figura. Quem não queria votar nele, não mudou de ideias; quem estava na dúvida, em maior dúvida terá ficado ao vê-lo desamparado, sem tutela.


20 março 2019

Anacronismos gritantes

Há quem mate brutalmente (será que existem assassinatos delicados?) em nome de uma guerra santa que começou há 14 séculos. Agora, na Nova Zelândia, alguém matou invocando o outro lado dessa guerra, situando-se uns séculos mais à frente. A guerra é a mesma, mas há um pormenor relevante, o não estarmos na Idade Média e ser claro e assumido pela larga maioria que o “não matarás” é um valor, mais do que religioso, inquestionável na cultura em que vivemos.

Estaremos às portas de uma guerra de civilizações, de um reeditar das conquistas e cruzadas, como alguns gostam de evocar e de com isso excitar espíritos, com motivações diversas? Penso que não. Uma guerra envolve duas partes que falam a mesma linguagem bélica.

O crescimento da xenofobia no mundo ocidental, seja enquadrada em organizações institucionais, seja a partir de movimentos espontâneos, irá desenvolver uma atitude bélica cristã/ocidental e proporcionar a tal guerra? Sinceramente, penso que não. Os espontâneos e os clandestinos, serão sempre e apenas isso, espontâneos e clandestinos, e, por mais execráveis que sejam os movimentos organizados públicos com discursos xenófobos e racistas, não os estou a ver a financiarem a compra de armas e a criarem essa dinâmica bélica em escala que se veja.

Significa isto que não há perigo de escalada e que podemos deixar essa gente à vontade, a odiar e a criar ódios, mesmo que mais do que um processo de endoutrinamento social esteja simplesmente em causa o acesso ao poder? Obviamente que não. Nem todos os crimes são de sangue. No entanto, ingénuo ou otimista, acredito que há partes da história que não se repetem e que a sociedade atual ocidental tem indelével nos seus valores que o sangue não faz parte da linguagem nem do caminho. Não acredito numa guerra de sangue, mas há outras batalhas a travar e muito particularmente para garantir o caráter indelével destes nossos valores.

13 junho 2018

Sim e não


13 de novembro de 2015. Na sala de espetáculos parisiense “Bataclan”, 90 pessoas são covarde e brutalmente assassinadas.

Outubro de 2018. Para a mesma sala estão programados dois espetáculos do rapper Médine, que usa a palavra jihad e que não se poupa a usar símbolos associados à mesma. Numa das suas letras, explicitamente contra a laicidade, diz “crucifiquemos os laicos como no Calvário”.

Sim, que grande país de liberdade é este em que, aparentemente, é possível e legal isto acontecer.

Não, isto acontecer é imoral e escandaloso, especialmente naquela sala.

Pode ser que a coisa do “crucificar os laicos” seja um sentido figurado, como quando alguns excitados dizem “morte aos capitalistas”, não estando propriamente a pedir a morte física dos mesmos (pelo menos a maioria…).

Não, a laicidade não pode ser posta em causa ou relativizada no nosso mundo, que prezamos. A negação da mesma, a não separação das instituições é um Estado teocrático, inaceitável, independentemente do deus em funções e dos seus putativos delegados.

Já agora, aqueles anjinhos assumidos ou dissimulados que candidamente defendem o rapper, na perspetiva da “liberdade de expressão”, manterão coerentemente a mesma posição para o caso de um outro usar uma figura de estilo do tipo: “Decapitemos os muçulmanos em Meca” ?

NÃO.

26 março 2018

Mortes (in)evitáveis


A morte é inevitável. É aquela certeza que resiste a todas as modas, escola ou escolhas. O momento pode não o ser. Quando alguém é morto, antes do tempo, por acidente ou crime, para lá de culpar a falta de sorte ou condenar o assassino, há uma certa resignação à fatalidade. Na maior parte das vezes o morto é elemento passivo na história, naquele momento.

Sente-se algo de diferente com a morte do polícia francês na tomada de reféns recente em Trèbes, Arnaud Beltrme. Ele morreu por ter intervindo ativa e voluntariamente. Certo que ser polícia implica correr riscos e muitas vezes de vida, mas ninguém é pago para morrer.

A sua morte, depois de se ter oferecido para substituir uma das reféns, foi consequência de uma opção sua, profissional, mas altruísta, de uma enorme grandeza. Ter sido estupidamente assassinado por um alucinado, um de vários milhares que por aí existem, impressiona. Impressiona pelas circunstâncias da perda e pela dimensão potencial de replicação do fenómeno.

Entretanto, imagino que, pelo menos desta vez, não haverá uns “idiotas úteis/perigosos inúteis” que virão relativizar e tecer considerações sobre responsabilidades compartidas!


Foto AFP

29 dezembro 2017

Quando acaba o terrorismo islâmico?


Ao contrário do que alguns ingénuos e outros mal-intencionados possam pensar, o fim do terrorismo Islâmico não depende do Ocidente. Não depende de este assumir a sua história, de integrar melhor os migrantes, de terminar com a tal política intervencionista no Médio Oriente, nem da eficácia da sua polícia. Alguns destes pontos ajudarão a mudar a escala e a dinâmica do problema, mas nunca o erradicarão, porque não é daqui que ele nasce. Mesmo a derrota do autodesignado “Estado Islâmico” na Síria e Iraque é apenas o destruir de uma metástase. Facilmente outra nascerá, ali ou mais ao lado.

O terrorismo islâmico acabará, assim como a instabilidade social provocada pelo salafismo disfarçado ou assumido, quando quem de direito entender e assumir conclusões sobre a decadência e posterior queda do Império Otomano.

Nos séculos XVI e XVII o califado dominava completamente o Mediterrâneo Oriental, estava implantado no norte de África, inclusive na costa atlântica depois de Alcácer Quibir e ameaçava Viena e a Europa Central. No século XX aparece moribundo e cai de podre no fim da Grande Guerra de 14-18. Porquê? É uma grande questão, mas se foi claramente ultrapassado pela Europa das Luzes, não parece que um retorno às origens, a visão salafista, resolva grande coisa, pelo contrário.

Enquanto o “mundo muçulmano” não entender que perdeu por ter ficado para trás, nada resolverá buscando recuar ainda mais. É como beber uns uísques para esquecer uma dor de fígado. Um século depois dessa derrota, insistir em semear o ódio ao vencedor e em amaldiçoar os valores que permitiram esse desfecho, é continuar a afundar-se e a agravar as frustrações, donde nascem as radicalizações. Sem complexos para cima e para baixo, para a esquerda ou para direita, é absolutamente inquestionável que o mundo hoje, cultural, social e cientificamente está moldado pela fantástica evolução acontecida no chamado Ocidente, nos últimos séculos. Em cada pequena coisa que utilizamos, em cada minuto, está um saber nascido nesta civilização. Em nenhuma outra fase da história terá havido uma tamanha predominância global. É de realçar que este domínio não é fundamentalmente “hard”, pela força, apesar de esta existir nalguns cenários. O poder é fruto do conhecimento desenvolvido, do modelo de sociedade criado e da qualidade de vida proporcionada.

Existem imperfeições, certo, mas é indiscutível que o respeito pela liberdade, pela diversidade, a condição da mulher, a aceitação do espírito crítico, a abertura aos novos saberes, a separação entre igreja e estado e outras coisas para nós tão “naturais”, fizerem, fazem e farão a diferença. Se os líderes de lá não querem avançar, não nos peçam para regredir; se a larga maioria da sua população quer viver como no Ocidente, não os enganem quanto ao caminho a seguir. Enquanto a frustração pela derrota continuar na diabolização dos vencedores… é o chamado tiro no pé.

Como esta consciencialização poderá demorar algum tempo, há uma alternativa mais imediata: é a de os pregadores do ódio serem coerentes e declararem proibido e haram (pecaminoso) o recurso a todo o equipamento e tecnologia desenvolvida pelos kuffars (infiéis). Nem era preciso ser mesmo tudo, bastava armamento, meios de comunicação e de transporte. Já faria uma grande diferença!

30 outubro 2017

Revolucionários ou revoltados, mas profissionais


A cara na capa deste livro é de Ilich Ramírez Sánchez, venezuelano apesar do primeiro nome. Ficou mais conhecido por Carlos, o Chacal, e foi o terror público número um, principalmente em França, nas décadas de 70 e de 80. Sim, nessa altura havia terrorismo, com bombas a explodir em locais públicos e, muito na moda da época, desvios de aviões e outros sequestros. Esta história ajuda a compreender o que por cá acontece e tem acontecido. Aqui vão alguns sublinhados meus, após leitura.

Não era proletário nem operário. Pelo contrário, a larga maioria dos terroristas ocidentais da altura eram da alta burguesia. Chega até a referir um caso, por excecional, de uma camarada originária de um nível social mais baixo.

Queria fazer a revolução. Na Venezuela, não deu jeito, em França também não foi possível, em Moscovo já tinha sido e… onde sobrou uma causa para lutar: Palestina. Se não houvesse Palestina, quais seriam as causas a abraçar pelos Chacais? Algum paralelismo com as mais recentes partidas para a Síria?

Começa por aspirar a ser revolucionário e depois passa a mercenário (revolucionário profissional), ou seja, organiza atentados e sequestros para quem lhe paga. No entanto, o auge da sua atividade ocorre quando França prende Magdalena Kopp, sua companheira de armas e ele usa o terrorismo… para exigir a libertação da amada.

Uma referência ao pacto Moro. Itália fechava os olhos ao transito e atividades dos terroristas (pró)palestianos pelo seu território, com a condição de estes irem fazer os estragos para outro lado. Edificante e muito próprio de um regime democrata-cristão. A coisa não acabou bem para Aldo Moro, raptado e assassinado pelas Brigadas Vermelhas, prova de que isto de tolerar terroristas pode não se saudável.

Dentro do Médio Oriente, estendido até à Argélia, que lhe estende o tapete vermelho durante o sequestro dos ministros da Opep, vemos uma enorme volatilidade nos acordos, desacordos, pactos e traições entre os vários líderes. Não ajuda muito a suposta base comum “árabe”, nem parece ser determinante existir um inimigo claro e comum, Israel. Fico a pensar que, mesmo sem Israel, dificilmente se veria (e se vê) paz e cooperação por aqueles lados, dada a falta de confiança mútua, ausência de compromissos estáveis e outras carências…

30 agosto 2017

Para ninguém morrer mártir


O filme de Nabyl Ayouch, “Os Cavaleiros de Deus”, com o subtítulo “Ninguém nasce mártir”, de que já falei aqui atrás, ficciona a radicalização de um grupo de adolescentes, em Sidi Moumen, um subúrbio pobre de Casablanca, situando-os, no final, nos atentados suicida ocorridos nessa cidade em 2003. É um contexto facilmente “justificável”: um meio muito desfavorecido, sem perspetivas, e onde este desfecho pode ser apresentado como um efeito colateral e inevitável (?) da miséria.

Nos recentes atentados da Catalunha identifico algum paralelismo no processo de radicalização de um grupo de jovens, mas há uma diferença fundamental. Os jovens de Barcelona não viviam num bairro da lata; estavam suficientemente integrados, a ponto de as suas ações muito surpreenderam quem os conheceu. Lança-se o argumento de que não estariam suficientemente integrados, que sofreriam alguma frustração, do não ser dali nem da origem e receita-se mais esforço de integração. Com o devido respeito, discordo.

Todos os adolescentes, e não só, passam por fases de frustração e de ansiedade, não sendo necessariamente a radicalização violenta uma consequência inevitável. Um imigrado/deslocado tem sempre problemas de não ser completamente de um sítio, nem do outro. Podem confirmá-lo os nossos emigrantes, que, no entanto, não desatam a matar cidadãos do país anfitrião por esse motivo. A propósito, este efeito do desenraizamento cultural e da crise de identidade, talvez seja um ponto a não ignorar por aqueles que acham que a solução para os problemas no terceiro mundo é trazer toda a gente para a Europa.

Se as fases de frustração são inevitáveis, com mais ou menos desenraizamento a ajudar, onde está o caminho para evitar o problema? Estará na criminalização dos promotores, daqueles que exploram essas frustrações em proveito de um projeto de poder obscuro, ou consequência de um simples ressentimento mal resolvido. Todos os ímanes e afins que pregam um islão hegemónico e a islamização da sociedade devem ser criminalizados. A eficácia do policiamento desse crime pode ter as suas brechas, naturalmente, mas, para mim, não restam dúvidas de que essa gente promove o ódio e o crime. A tolerância deveria ser zero.

24 julho 2017

Um abuso


Colocar estas duas obras a par é um abuso. Aceito até que alguém se possa zangar comigo. Uma é um filme ficcionado e a outra um livro, de um testemunho real. Uma desenrola-se em Marrocos, num subúrbio pobre de Casablanca, Sidi Moumen, a outra passa-se em França, a começar em Nantes.

Em comum: ambos os protagonistas passaram por uma militância islâmica. Um num grupo radical, o outro na Irmandade Muçulmana (e é neste paralelo abusivo que alguém se pode zangar comigo). A Irmandade Muçulmana no Egito, na fase inicial, poderia estar perto dos salafistas jiadistas, mas agora a sua prática, pelo menos em França, é outra.

Um dos protagonistas acaba como bombista suicida, situado nos atentados de Casablanca de 2003; o outro acaba pacificamente divorciado do islão político. Antes de continuar nas comparações, o filme “Os Cavaleiros de Deus”, com subtítulo “Ninguém nasce mártir”, de Nabil Ayouch, vale bem a pena ser visto e refletido. É uma história simples e dramaticamente banal, um contexto comum a milhões de possíveis futuros mártires e mostra como é simples alguém dali se transformar em assassino. O livro é também muito interessante. Em nenhum outro registo, e já li bastantes, encontrei uma linha tão clara e bem definida a separar o muçulmano do islamista, de como é possível viver essa fé em paz com o nosso tempo e com os outros. Talvez a sobrevivência à experiência de militância tenha sido fundamental para Farid conseguir a clarificação.

O que ambos têm em comum, que mos fez fotografar a par, é, num dado momento, haver um divórcio entre o individuo e o seu meio e o seu futuro, justificado ou não. Uma desistência. Entende-se mais facilmente que Yachine se revolte contra a cidade rica, a partir do seu bairro da lata sem perspetivas, do que Farid invente um inimigo na França onde tinha nascido e onde estava integrado. Este estado de espírito de desistência e de fragilidade é capturado e manipulado por um projeto de poder, agudizando o divórcio e extremando posições. Para não se zangarem mais comigo, acrescento que este tipo de manipulação não é específico nem único do Islão. Outras religiões também a praticam, assim com outros poderes, incluindo a marginalidade clássica. É fundamental que o Islão e os muçulmanos consiguam viver sem esse foco permanente nos “outros”, nos “inimigos”. Pode haver fé e prática dela sem confrontação, sem inimigos? Pode e deve.

05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

04 junho 2017

Outra vez, outra vez


Nota de abertura: este texto é capaz de ser aceite e concordado por alguns amigos meus muçulmanos e contestado por alguns conterrâneos, que imaginam as coisas de outra forma, mas a realidade nem sempre coincide com o que a ignorância supõe.

Outra vez e em Londres. E a culpa não é da polícia por não ter controlado todos os potenciais radicalizáveis. E a culpa também não é da chamada civilização ocidental, nem pelas remotas cruzadas, nem pela mais recente guerra na Síria (ou no Iraque). Se quisermos procurar uma génese, podemos começar com a frustração pela derrota e queda do Império Otomano há um século e acabar com a frustração por as independências não terem cumprido minimamente as expectativas criadas, coisas sobre as quais a nossa responsabilidade é algo limitada. Lamento, mas não vou pedir desculpa por os Otomanos não terem conquistado Viena e o resto da Europa

E não venham dizer que isto não tem nada a ver com o Islão. Isto é aplicação literal da fase de Medina de Maomé.

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (Corão 8:5).

"E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idoltatria é pior do que o morticinio" (Corão 1:191)

Há um Islão que é assim e os líderes do “outro” Islão podem fazer o favor de clarificar e sair a público e condenar claramente os pregadores do ódio?

04 abril 2017

A banalização do terror


Londres há pouco mais de uma semana e agora Moscovo. Curiosamente, se o luto e a consternação ficam, o choque é menor. É banal… inevitável. E isto tem um aspeto positivo – o valor dos atos destes energúmenos diminui. Da inevitabilidade fica a banalidade da barbaridade.

É tão elevado, digno e pleno de alto significado chacinar pessoas que apenas normalmente apanham um transporte público para ir trabalhar, ganhar o dia!

Sois uma grande merda!!!


Foto Googleada

23 março 2017

Uma imagem reconfortante


Numa restaurante na estrada, passam sem som as imagens do ataque terrorista de Londres de ontem e há algo reconfortante na calma e na dignidade como os britânicos lidam com a tragédia. No ministro que socorreu o policia ferido e ficou firme junto dele até chegarem os socorros. Na forma grave e tranquila como o parlamento referiu o acontecimento e homenageou as vítimas.

Do meu lado, reconheço já ter passado a fase da revolta simples, daquela que diz: isto é impossível e tem que acabar. Infelizmente, isto é possível e não irá acabar. E, pelas alminhas, não me venham dizer que “nós” temos uma parte da culpa pelo comportamento assassino destes alucinados.

A frustração que alimenta os discursos extremistas, catalisadores desta barbárie, tem muito a ver com a desilusão de os pós-independências não terem cumprido as expetativas. No entanto, como após 500 anos Portugal ainda é responsável pelo que de mau acontece no Brasil, a Europa ainda terá mais 450 anos de responsabilidade pelas desgraças do Médio Oriente.

Eles vão continuar a matar, iremos ter que viver com isto, mas só peço uma coisa: chamem os bois pelos nomes: assassinos. E todos aqueles que relativizem esta palavra por ações ou omissões, seja numa monarquia, real ou virtual, do Médio Oriente, seja num líder religioso de qualquer credo, seja alguém assim para o moderno, que culpa as colonizações terminadas há 50 anos, que a maioria destes alucinados nem sequer conheceram, todos esses que relativizam a palavra são apoiantes morais destes crimes.

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

16 julho 2016

Porque não acaba

Os avanços militares contra o designado Estado Islâmico na Síria e no Iraque parecem sugerir que o apogeu desta organização ficou para trás e ser agora uma questão de relativamente pouco tempo até essa barbaridade passar a ser passado.

Poderá ser verdade, concretamente para este rebento do fundamentalismo islâmico, mas as sementes lá estando, é outra questão de tempo até vermos novo protagonista. Donde vêm essas sementes e quem as rega? Para lá de algumas particularidades na génese do Islão, a sua visão hegemónica e de superioridade face às outras religiões do livro, o registo bélico da fase de Medina e a concentração da liderança religiosa e temporal na mesma figura, particularidades que podiam ter sido resolvidas com o tempo, é necessário ir ver mais perto, a 100 anos atrás.

No final da Grande Guerra de 14-18, o império otomano, herdeiro dos califados históricos, está de rastos e cai. As razões da sua decadência são tema para muitos estudos, questionando-se nomeadamente qual a influência da religião nesse declínio. Kemal Ataturk irá fundar uma Turquia moderna, laica, entendendo que o futuro passa pela separação da religião da política.

No mundo muçulmano em geral este fim de ciclo e o desaparecimento do califa é sentido como uma perda e uma grande desilusão. O que é correu mal? Algumas vozes, principalmente no Egito, vão proclamar que se na “origem” foram poderosos e agora enfraqueceram, isso aconteceu por se terem afastado dos fundamentos religiosos. A solução é o regresso às origens: o salafismo. Tudo que é “influência ocidental” é mau. É necessário islamizar o individuo, a família, a sociedade, o país, o mundo; se for necessário lutar, lute-se; se essa luta tiver que ser violenta, seja; se for preciso morrer nessa luta, isso é uma obrigação e uma honra. Esta cartilha criada nos anos 20 está por trás de quase todo o ativismo político islâmico atual, interpretado de forma mais “hard” ou mais “soft”, conforme o contexto.

Estes salafistas vão estar inicialmente aliados aos independentistas “progressistas” face ao colonizador, inimigo comum. Após as independências o casamento de conveniência desfaz-se, porque as conceções de sociedade dos dois são incompatíveis.

O salafismo ativista vai encontrar terreno fértil nas desilusões do pós-independência, a partir da década de 80. De fato, os regimes no poder falham as expetativas de desenvolvimento e de bem-estar que a expulsão dos colonizadores prometia. As sementes no terreno fértil serão regadas pelas monarquias do golgo pérsico, substancialmente enriquecidas após o choque petrolífero da década de 70. Lideradas nessa fase pela Arábia Saudita, guardiã dos principais locais santos e seguidora de uma versão do islão fechada e intolerante, encontrarão assim uma forma de expandir e aumentar a sua influência no mundo muçulmano. As chamadas “Primaveras Árabes” e, principalmente, os seus desfechos devem ser lidos neste enquadramento.

Não afirmo que os petrodólares pagaram diretamente as kalashnikov que massacram em nome do Islão. É claro, no entanto, pelo menos no norte de África, que a radicalização dos jovens, muitos deles agora a lutar na Síria e amanhã sabe-se lá onde, tem a marca das escolas, mesquitas e associações patrocinadas pelo “golfo”. É muito importante realçar que não estão em causa movimentos pontuais que nascem e morrem isoladamente. Há um processo de base, estruturado e com um longo histórico.

Enquanto houver terreno fértil, sementes e irrigação, os rebentos continuarão a brotar.
 

Antevisão do próximo Natal?


Apanhei esta imagem no Le Soir no final do ano passado e apeteceu-me evocá-la hoje, sem mais comentários.

07 julho 2016

O depois da mentira


O relatório Chilcot, divulgado esta semana na Inglaterra (ou Grã-Bretanha ou Reino Unido...) veio comprovar aquilo de que já se suspeitava há muito tempo. Que a invasão do Iraque de 2003 foi uma birra, ou outra coisa, dispensável. Que não havia nenhuma ameaça séria naquele momento e que a via negocial não estava esgotada. Publicado em 2011, o livro “A Era da Mentira” de Mohamed Elbaradei, antigo Diretor da Agencia Internacional de Energia Atómica e Nobel da Paz em 2005, é também bastante elucidativo sobre esse embuste e outros assuntos contemporâneos da mesma temática.

Ficou também agora evidenciada a ausência de uma preparação séria para o “dia seguinte”. De recordar que o que se passa hoje no Iraque, nomeadamente as tensões sectárias que ajudaram à nascença do chamado estado islâmico são, em parte, ainda a consequência dessa falta de previsão.

A divulgação deste relatório, numa altura em que Donald Trump aparece como sério candidato à presidência dos EUA, deveria ser objeto de uma reflexão especial pelos eleitores americanos.

Ficamos à espera da publicação de algo análogo em França, se tal for possível, sobre o envolvimento desta no derrube de Khadafi. Enquanto o UK se deixou enganar ou foi enganado pelos EUA; na Líbia a França interesseiramente e falsamente foi atrás de outros, por acaso não europeus nem ocidentais.

É comum referir que o Iraque com Saddam e a Líbia com Khadafi estavam “melhor” do que ficaram depois das respetivas “libertações”. Isso é verdade, mas significa que essa parte do mundo só se controla e está estável debaixo de regimes ditatoriais e repressivos? Não deveria ser assim mas, pelo menos, poderíamos ter aprendido que a doença não se cura com envio de tropas e mísseis. Não aprenderam. Na Síria apenas só não estamos aí pelo apoio do Irão e da Russa ao regime, mas os danos já são irreversiveis.

16 junho 2016

De relativização em relativização

Aquando do massacre dos jornalistas do Charlie Hebdo em Janeiro de 2015, não faltaram umas vozes progressistas e (pseudo?) pro-terceiro-mundistas a relativizar, colocando alguma “culpa” nos próprios jornalistas, na medida em que estes “tinham provocado”, é preciso “respeitar o outro” e outras considerações perigosas e inaceitáveis para o que é e foi um crime bárbaro e injustificado. Mesmo alguns ativistas islâmicos de cara civilizada viram uma boa oportunidade para pedirem mais “respeito” e houve quem achasse que uma solução (?!) passaria por uma espécie de autocensura.

Agora com o massacre no bar gay de Orlando, ainda não vi ninguém a colocar uma coresponsabilização nas próprias vítimas, na medida em que ser homossexual é declaradamente contra os princípios islâmicos e até com um enquadramento legal que chega nalguns países à pena de morte. Não vi ninguém a reclamar que a “solução” passa por tirar os gays do espaço público, fechar os locais dedicados e “não provocarem”. Gostava de ouvir os ativistas islâmicos de cara civilizada falarem sobre esta questão.

Reforço que falo de ativistas islâmicos. Aqueles que têm por objetivo islamizar o individuo, a família, o país e o mundo, que se encontrarem obstáculos lutam, se essa luta tiver que ser violenta, eventualmente por procuração, sê-lo-á e que se for preciso morrer nessa luta, isso é uma honra e uma obrigação.

Não me refiro aos muçulmanos que querem viver em paz com a sua religião inseridos numa comunidade diversa. Esses também são atacados e combatidos, embora de outra forma, pelos ativistas de cara civilizada. Não há nem pode haver relativização possível face a estes crimes nem tolerância face a tais propósitos.

PS: “Relativizar” com base nas dúvidas sobre o “islamismo” do autor do massacre é mais uma diversão dispensável.

08 abril 2016

De atentados, não tenho medo…

Os recentes atentados em Bruxelas apanharam-me na Argélia, onde, no passado, já ouvi explosões idênticas (apenas ouvi). A mesma Bruxelas em que, há cerca de 20 anos, todas as manhãs eu subia a Rue de la Loi, onde se encontra a estação atacada de Maelbeek. Talvez por isso acompanhei as notícias … com uma atenção especial, que procuro não chamar doentia.

Devo dizer, no entanto, não recear particularmente os atentados e não prevejo mudar um milímetro dos meus hábitos por causa dessa ameaça. Pragmaticamente falando, a probabilidade de ser um dia atropelado ao circular pela estrada de bicicleta é bastante mais elevada e não irei deixar de o fazer por isso.

Preocupa-me, sim, outro tipo de ameaça. De num belo fim de tarde sentar-me numa esplanada em frente ao mar, pedir uma cerveja e ser informado que não a podem servir. Proibido mesmo não é, mas há um novo local de culto próximo e o proprietário do estabelecimento não quer confusões. Face ao meu olhar desolado, propõe-me servir a cerveja numa caneca opaca, desde que eu prometa ter cuidado para não ficar com espuma visível nos lábios.

Estando o tempo tão agradável, decido organizar um churrasco para o dia seguinte. Ao passar no meu talho habitual e pedir salsicha fresca, carne entremeada e essas coisas do costume, sou informado de que já não vendem carne de porco. Proibido mesmo não é, mas como todos os talhos da cidade decidiram não a vender, este também não teve outra opção, para não perder uma parte significativa da clientela. Face ao meu olhar desolado, o talhante lá toma nota do pedido e, passado alguns minutos, regressa com as salsichas e afins bem embrulhadas, tudo convenientemente identificado com uma etiqueta falsa. Pela segunda vez, em pouco tempo, estou a sentir-me estranhamente clandestino.

Neste momento, alguém pensará que devo estar maluco. Não estar preocupado com poder tornar-me carne picada e sim com uma simples etiqueta falsa? Não, não estou maluco. A cerveja e a carne de porco serviram apenas de ilustração simples. Há outros aspetos mais significativos como, por exemplo, a liberdade de expressão e a condição feminina em que pode estar em causa uma mudança radical da nossa sociedade. Existe uma dinâmica com origem no Médio Oriente, buscando estabelecer uma cultura medieva arcaica, dominante, de submissão, cujo impacto vai para lá de um simples ataque terrorista. Nem todos os muçulmanos aderem a esse projeto e alguns serão apenas vítimas de uma manipulação feita em cima da sua identidade comunitária, explorando desencantos de origens várias Mas que tenho medo disso, tenho…

30 março 2016

Há violência no Corão?

“Não há imposição quanto a religião" (2:256)

“Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.” (8:5)


Estes dois versículos do Corão têm perspetivas diferentes e contraditórias quando à forma como os muçulmanos devem interagir com os não crentes. Para uns, os versículos belicosos como o segundo têm prevalência. Para outros, o primeiro, tolerante, será de aplicação genérica e o segundo dirigido a contextos bem definidos. Significa isto que, quando após um atentado, se ouve dizer candidamente que o Islão é uma religião de “paz e amor”, a mensagem está truncada. Seria mais útil e didático apresentar as duas visões e defender a interpretação duma delas.

Sendo já outra simplificação resumir o terrorismo islâmico aos ataques suicidas, é também habitual ouvir-se que o suicídio não é permitido pelo Corão. Sendo verdade, está mais uma vez, incompleto. A denúncia e condenação deveria ser extensiva a líderes (sim, líderes) como o egípcio Youssef Qaradawi, pregador vedeta da cadeia de televisão Al Jazeera, ouvido por dezenas de milhões em todo o mundo. Este senhor, polémico mas reconhecido em muitas organizações islâmicas europeias, crismou alguns atentados suicidas em atentados-mártires, para os “legalizar”.

É fácil e consensual condenar os alucinados que se fazem explodir, mas por muitos poderosos e ricos que sejam os apoiantes desses tais líderes (ou precisamente por isso) é necessário estender a condenação a quem de forma mais ou menos assumida, ajuda direta ou indiretamente na alucinação.

23 março 2016

Silêncio


Por todos aqueles que hoje deveriam estar vivos, como nós.
Silêncio, nada mais...

(porque nem um insulto nem um palavrão a pena valem)

Imagem extraída do site do "Le Soir"