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08 abril 2026

Comical Trump


Durante a invasão do Iraque em 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf, na altura Ministro da Informação de Saddam Hussein, ficou famoso por relatar na televisão evoluções da guerra que só ele via, conforme os seus desejos e completamente opostas à realidade em curso. Uma das alcunhas irónicas que recebeu foi Comical Ali.

Por estes lidos temos ouvido outro cómico falar de conversações de paz, mudanças de regime no Irão e outros “factos” que também apenas ele “vê”. Tem algum paralelo.

É difícil não concordar com a necessidade de impedir o acesso do Irão à bomba atómica, seria salutar uma mudança de regime (para melhor) e silenciar os terroristas do Hezbollah e outros afilhados… No entanto, antes de mexer num vespeiro, convém tomar as necessárias precauções. Uma delas, seria, por exemplo, garantir a segurança do estreito do Ormuz, que está em via de se tornar uma das portagens mais caras do mundo!

Um regime como o iraniano não cai apenas por lhe decapitar algumas lideranças, mas Trump parece ter entrado numa fase de arrogância e prepotência que exclui toda e qualquer opinião diferente da sua, o que costuma dar asneira.

 Esta guerra, a continuar assim, não vai terminar rapidamente e a desproporção de custos entre um drone e o missel que o intercepta é tal, que o tempo corre a favor do Irão. Também não será com bombardeamentos contínuos e com ameaças boçais e brutais contra toda a população que ela receberá estes “salvadores” de braços abertos.

Se o objetivo era ter em Teerão um regime mais tolerante e comprometido com uma certa ordem internacional, talvez tivesse sido boa ideia não ter cortado as pontes em 2018, quando o mesmo Trump decidiu matar o acordo, bom ou mau, mas um acordo, em curso. 

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

09 dezembro 2025

Sim, é antissemitismo

 

Dois livros acima, muito distintos, mas sobre o mesmo tema. O Estado de Israel.

Sim, já estou a imaginar as reações de repulsa e de “lá vem este branquear os genocidas”. Sim, Israel tem ações condenáveis, não tenho grande simpatia por Netanyahu e muitíssimo menos pelos seus parceiros de geringonça Ben-Gvir e Smotrich. Isso, no entanto, não justifica o “interesse” especial que certas forças têm em criticar e condenar Israel de forma desproporcional. Al Assad e Putin bombardearam civis em Aleppo e não só, recorrendo inclusive a armas químicas para combater o Estado Islâmico, com um balanço final de meio milhão de mortos… enfim, vá lá. Saddam Hussein terá morto cerca de um milhão de pessoas? A islamização do Sudão conta 2 milhões mortos? Enfim… coisas que acontecem, não vale a pena protestar muito, nada adianta e mais exemplos se poderiam acrescentar. Nesta guerra em Gaza acredita-se piamente no “Ministério da Saúde do Hamas”, clamando por cada morto civil, numa guerra em que aparentemente nunca há baixas militares palestinianas.

Israel tem um padrão de reação desproporcional. Deste-me um golpe, levas dois; pensa bem para a próxima. Esta aproximação é apreciada e utilizada vantajosamente por Hamas e companhia, gente para quem quantos mais mortes, mais mártires, melhor!

Apesar de tudo o que se pode e deve criticar a Israel, este país, a sua fundação, crescimento e consolidação é um exemplo de tenacidade, de perseverança, de ultrapassar obstáculos, descobrir soluções, gerar de conhecimento e… podíamos muito aprender com eles…

A tensão na região começa com a diplomacia de guerra da Inglaterra na I Grande Guerra, que promete tudo a todos. Um lar para os judeus a troco da sua influência nos EUA para estes entrarem na guerra, uma Grande Síria aos árabes haxemitas para os motivarem a rebelar-se e combaterem os Otomanos (Lawrence da Arábia é o embaixador da causa) e, ao mesmo tempo, combinam com a França a posterior repartição da região entre os dois países. Terminada a guerra, as expetativas de todos são incompatíveis e a tensão dispara. O então Secretário Colonial, Wiston Churchil inventou dois países para os haxemitas, Iraque e Transjordânia (atual Jordania) e deixou a Palestina indefinida. De repente, em vez de se discutir a repartição do bolo inteiro, todo o Médio Oriente, passou a ser disputada apenas a última fatia, a Palestina.

Ao longo das décadas de existência do estado judeu algumas coisas óbvias podem ser apontadas e recordadas:

- Desde a primeira hora todas as guerras foram despoletadas por árabes e fações árabes, que não aceitam menos do que a sua hegemonia na região. Israel reage, defendendo-se… e contra-atacando, mas nunca deu o primeiro passo.

- Em 1948 havia 851 mil judeus nos países árabes, em 2018 estavam reduzidos a pouco mais de 3 mil. Os que saíram e seus descendentes não estão a viver em campos, financiados por uma agência especifica da ONU. Refugiado é temporário. Quando não regressam ou não se integram é por que não querem ou não os deixam e será uma forma de deixar a ferida viva. Os próprios judeus expulsos não o desejariam, mas alguém está a ver os países árabes a receber e dar cidadania plena a todos os seus descendentes?

- Desde o fim da guerra do Yom Kippur de 1973 que tem havido tentativas de estabelecer a paz entre Israel e seus vizinhos, com avanços notórios. O sucesso das mesmas é, no entanto, posteriormente dinamitado por alguém que relança as hostilidades. Hoje é o Hamas, apoiado pelos seus padrinhos Irão e Qatar.

- Institucionalmente Israel está em paz com cada vez mais vizinhos e com processos de colaboração que chegam ao domínio da defesa, concretizado aquando dos últimos ataques do Irão.

. O apoio financeiro e logístico do Qatar (Irmandade Muçulmana) ao Hamas é talvez o maior cancro atual na região. Todos que quiserem saber, sabem que daquele movimento nada de bom se pode esperar, nem sequer para os próprios palestinianos que eles reclamam defender. Qual o objetivo do Qatar em alimentar e promover estes bárbaros?!

- Mesmo que se possa discordar e criticar o que se passou em 1948, Israel é hoje um país consolidado e a História é mesmo assim. Não há marcha atrás a partir de certa fase, A reivindicação do “From the river to the sea…” é uma cantilena irrealista. Alguns até desconhecem o significado concreto da mesma, mas acham giro. Quem a canta está redondamente enganado e de forma nenhuma do lado da solução.

- A ocupação da Cisjordânia e respetivos colonatos são um entrave importante. No entanto, não são irresolúveis no âmbito de um acordo de paz, tal como foram desmantelados os existentes em Gaza, quando Israel abandonou o território.

- Uma certa opinião pública ocidental adora os lenços palestinianos, como no passado gostava das camisas à Mao, das boinas à Che Guevara e de símbolos de outras causas. O fundo da motivação tem muito em comum. O ser contra o “seu mundo”. Da mesma forma como os contestatários passados nunca iriam viver na China maoista, também os ativistas atuais nunca se instalarão no Irão (LGBTs nem se fala). Convinha ganharem a consciência de que não estão a ajudar os palestinianos, mas apenas a branquear manipuladores que os usam para causas e modelos de sociedade que certamente não querem mesmo ver implantados na sua própria casa.

Por hoje, é tudo e espero não estar a pregar no deserto (se bem que no passado alguns tiveram sucesso nesse enquadramento 😊 )


17 outubro 2025

Paz? Talvez…


O processo atualmente em curso na Palestina merece ser saudado e parabenizados todos os que o proporcionaram. Não sabemos, naturalmente, se se a paz será duradoura, mas a libertação dos reféns, pelo menos dos vivos, esvazia os argumentos de Israel para continuar a massacrar a população de Gaza e abre numa nova fase.

Enquanto houver um grupo com vontade de se afirmar aos tiros e alguém que lhe dê as armas, a guerra continuará. Em Gaza não faltará gente com vontade de fazer falar as armas, independentemente se estão enquadrados numa estrutura Hamas, Hamas-bis ou mesmo sem estrutura.

No entanto, aquele território, por si, não tem condições para se armar sozinho. Haver ou não guerra depende mais do que vão fazer os apoiantes e financiadores externos da “causa”. Não sei até que ponto eles foram envolvidos e comprometidos no atual processo, mas o futuro e a paz em Gaza não serão decididos em Gaza.


Atualizado em 19/10 com publicação no Público


08 outubro 2025

Inspirados por Sadat


A famosa flotilha de Gaza parece ter ajustado e apontado o calendário para chegar ao real destino, ponto de interseção, na data do Yom Kippur, o dia mais sagrado do judaísmo, algo equivalente ao Natal dos cristãos. Há um precedente. Em 1973 Anwar Al Sadat, presidente do Egito, lançou a última guerra do seu país contra Israel nesta data e estes, mal informados ou com excesso de confiança, decidiram não “estragar” os festejos dos seus soldados em larga escala e sofreram um rude golpe inicial.

No final o Egito perdeu a guerra, mas de forma mais honrada do que a da humilhação da anterior guerra dos seis dias. Na altura era uma guerra de soldados e de tanques. Não de bombardeamentos a civis nem de pseudo-hospitais como bases militares

Em 1977 Sadat visitava Israel, houve os acordos de Camp David em 1978 e finalmente o tratado de paz em 1979. Foi o primeiro passo para a pacificação entre as várias nações da região, chegando posteriormente mesmo à OLP de Arafat em Oslo, em 1993.

Em 1981 Sadat morre assassinado por jihadistas que não lhe perdoaram a paz. Yitzhak Rabin também pagaria com a vida a sua opção pela paz.

Se alguém pensou em Sadat e no Yom Kippur de 1973, será importante que pense também no que se seguiu. Os herdeiros dos assassinos de Sadat e de Rabin não devem ser desculpados, tolerados … nem financiados. 

29 setembro 2025

Um filme para os generais (e não só)

 

Não faltam relatos, documentários e produções mais ou menos hollywoodescas sobre tragédias, misérias, covardias e heroísmos em cenários de guerra. Este livro vai muito para lá disso. Aliás, parece que as adaptações cinematográficas, mesmo uma recente de 2022, não conseguem atingir a profundidade e sensibilidade da narrativa escrita.

Como pano de fundo, temos a I Grande Guerra. Se todas as guerras podem ser consideradas estúpidas, esta, na minha opinião, consegue uma espécie de recorde de absurdo. Começou sem grande causa, como se fosse anunciada uma partida de póquer e todos decidem ir a jogo, um “jogo” em que milhares de soldados são chacinados, vítimas de estratégias impotentes, quando por vezes estava simplesmente em causa avançar umas centenas de metros, que se voltavam a perder rapidamente.

O livro em causa faz-nos “viver” várias dimensões da brutalidade, desumanidade e das feridas dilacerantes, físicas e psicológicas, sofridas por uma geração arrancada a uma juventude e ao que tinha direito. Brutalidade insana, deste a linha da frente às enfermarias de retaguarda. Uma deriva lenta e irreversível para outro mundo com outros códigos e valores e um conflito interno nessa transição. Mesmo antes de morrer, os jovens soldados já se vêm de certa forma mortos e estranhos ao mundo de onde saíram e onde, mesmo que improvavelmente sobrevivam, nunca mais poderão regressar. Há valores humanos ameaçados, mas não propriamente heróis.

É um livro pleno de interrogações que deviam ser dirigidas e respondidas por todos os fazedores de guerras. Lido, merece ser lido por todos.


03 setembro 2025

Cancelamentos e indignações


Vamos supor que nos idos da década de 60 do século passado, Amália Rodrigues ou Carlos Paredes têm um concerto programado numa sala de Paris e que o mesmo é anulado por questões de segurança, já que um ruidoso movimento contestatário da ditadura e do colonialismo de Portugal exige a o seu cancelamento e ameaça com perturbações da ordem pública, caso se realize. Parece bem?

É delicado avaliar uma ação atual colocando-a num cenário passado, mas podemos sempre questionar se se justifica cancelar todo um país, seus cidadãos e artistas, pelas ações do seu governo. Isto vem a propósito do que assistimos atualmente quanto a Israel. Uma coisa é Netanyahu e a sua geringonça, outra coisa são os cidadãos do país, alguns abertamente contra as ações do seu governo e ainda outra serão os judeus espalhados pelo mundo.

Cancelar e mesmo atacar tudo o que cheire a israelita e judeu é um triste reflexo de uma coisa feia, que pensávamos desaparecida, especialmente da parte dos movimentos “progressistas”.

Se há quem queira contestar contra o que se passa em Gaza, está no seu direito, sem dúvida. Agora, não o façam exclusivamente para essa situação e todos os santos dias. Tentem o seguinte: 2ªfeira pelos palestinianos, 3ªfeira pelos LGBTs no Irão, 4ªfeira pelas mulheres no Afeganistão, 5ªfeira pelos Uigures na China, 6ª feira pelas minorias cristãs no Médio Oriente, sábado pelos curdos na Turquia e domingo pela Ucrânia. Na 2ªfeira seguinte voltam à Palestina ou podem ainda acrescentar alguma situação em África, onde não faltam também motivos de indignação.

Esta fixação exclusiva nos palestinianos não é simplesmente humanitária, é política e, pela minha parte, acrescentaria um dia para protestar contra os financiadores do Hamas e de todos os movimentos que não buscam de todo algum caminho de paz.

Nota adicional em 5/9, para os cépticos quanto à seletividade politica destas contestações. Qual foi a atividade destes ativistas quando, para combater o "Estado Islâmico", Al-Assad e Putin bombardearam e massacraram populações civis? As bombas russas sobre Aleppo eram mais humanitárias do que as de Israel sobre Gaza?

24 agosto 2025

O outro urso no Alasca


Sergey Lavrov chegou ao Alasca, para a famosa cimeira, envergando uma camisola com as letras CCCP, iniciais correspondentes a URSS em russo. Encontro duas possíveis razões para tão bizarro “dress code”. Uma é que, com as sanções aplicadas ao país, seja difícil encontrar boas camisolas no mercado e o senhor precisou de ir ao caixote do sótão buscar esta, preservada da traça, que, pela lógica, terá um mínimo de 34 anos, tantos quantos tem a sepultura da URSS. A outra possível razão é que, da mesma forma que Zelensky aparece em uniforme militar, para recordar que está em guerra, Lavrov quer recordar que se discute o que já foi “deles” e onde ainda têm direitos.

Nesta lógica, Zelensky podia envergar a seguir uma camisola com o mapa da Ucrânia e a localização das ogivas militares CCCP, que entregaram à Rússia em troca de garantias de segurança. A palavra dos atuais senhores do Kremlin vale muito pouco quando apenas limitada pela sua “boa vontade”.

Entretanto ouço falar de sanções adicionais à Rússia. Após 3 anos e meio de guerra, ainda se conseguem desenhar novas sanções com alguma eficácia? As anteriores foram mais macias do que poderiam ter sido? Ao longo de todo este tempo, ainda se foram guardando reservas, apesar dos horrores? Apliquem todas as medidas, com toda a força, para a Rússia sentir efetivamente algo que a pare, mesmo que fiquemos sem camisolas novas no mercado ou outra comodidade qualquer. Subjugar tiranos insensíveis e brutais tem sempre um preço a pagar. Quanto mais rápido melhor e se for sem argumentos puramente militares, ainda melhor!

17 agosto 2025

Atualidades de há 80 anos


Verão de 1944 e tempos seguintes. Depois de uma humilhante derrota e ocupação de quatro anos, França busca um rumo e uma nova normalidade. Os tempos imediatamente após os armistícios nem sempre são tranquilos. Há ajustes de contas e várias fações que se precipitam para o “vazio”, procurando tirar partido da transição para ganharem predominância e se imporem.

Este livro compila um conjunto de editoriais e de respostas públicas de Albert Camus. Clarividente, humano, objetivo, preciso e elegante, ele defende que deve haver justiça, mas resistindo a cair no ódio; que é preciso mudanças, mas não com uma nova guerra e que totalitarismos e campos de concentração são a condenar veemente, independentemente da cor e da bandeira dos mesmos. Convém recordar que na altura uma boa parte da “intelligentsia” ainda acredita na “necessidade” de lutar por todos os meios pelo “homem novo”.

Recortei algumas passagens que passo a seguir. Os que tiverem muito interesse, podem procurar o livro; os que tiverem pouco, que fiquem por aqui. Ninguém é obrigado a ler até ao fim, mas, são sempre atualidades.

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Não há vida sem diálogo. Mas o diálogo foi hoje, na maior parte do mundo, substituído pela polémica. O século XX é o século da polémica e do insulto. Eles ocupam, entre as nações e os indivíduos, e mesmo ao nível das disciplinas outrora desinteressadas, o lugar que tradicionalmente cabia ao diálogo refletido. Dia e noite, milhares de vozes, empenhadas, cada uma por seu lado, num tumultuoso monólogo,

Vivemos no terror, porque a persuasão já não é possível, porque homem se entregou totalmente à História e já não é capaz de se virar para a outra parte de si, tão verdadeira como a parte histórica, que pressente na beleza do mundo e no rosto dos outros; porque vivemos no mundo da abstração, no mundo dos gabinetes e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem cambiantes. Vivemos asfixiados no meio de pessoas que creem ter absoluta razão, seja nas máquinas, seja nas ideias que têm. E para todos os que não podem viver privados de diálogo e de amizade humana, um tal silêncio é o fim do mundo.

Sou pela pluralidade das posições.  Será que se pode fazer o partido dos que não têm a certeza de ter razão? Seria o meu. De qualquer modo, não insulto os que não estão comigo. É a minha única originalidade.

 E não se trata aqui de defender um sentimentalismo ridículo que englobasse todas as raças na mesma terna confusão. Os homens são todos diferentes, é verdade, e eu sei das profundas tradições que me separam de um africano ou de um muçulmano. Mas sei também o que nos une, sei que há, em cada um deles, algo que não posso desdenhar sem me destruir mim mesmo. É por isso que é preciso dizer claramente que tais sintomas, espetaculares o não, de racismo revelam o que há de mais abjeto e de mais insensato no coração do homem

Nos anos vindouros, através dos cinco continentes, irá prosseguir uma luta interminável entre a violência e a prédica. É evidente que a primeira tem mil vezes mais possibilidades de vencer do que a segunda. Mas eu sempre pensei que se o homem que tem esperança na condição humana é um louco, o que desespera dos factos é um covarde. E. doravante, a única honra está em sustentar teimosamente esta formidável aposta que irá decidir se as palavras são ou não são, afinal, mais fortes do que as balas.

Se tivesse tempo, diria também que esses homens deveriam tentar preservar na sua vida pessoal aquela parcela de alegria que não pertence à história. Querem fazer-nos crer que o mundo de hoje tem necessidade de homens totalmente identificados com a sua doutrina e almejando fins definitivos, numa submissão total às próprias convicções. Acho que, no estado em que se encontra o mundo, esse género de homens fará mais mal do que bem. Mas admitindo, o que não creio, que eles acabem por conseguir fazer triunfar o bem até ao final dos tempos, parece-me a mim necessário haver outro género de homens interessados em preservar alguns leves cambiantes, o estilo de vida, a possível felicidade, o amor e, enfim, o difícil equilíbrio, de que os filhos desses homens também irão afinal necessitar, mesmo que a sociedade perfeita seja já uma realidade

Sabemos que a nossa sociedade assenta na mentira. Mas a tragédia da nossa geração foi ter visto, sob as falsas cores da esperança, uma nova mentira sobrepor-se à antiga. Nada, pelo menos, nos obriga a chamar salvadores aos tiranos e a justificar, com a salvação do homem, o assassínio da criança. E assim, recusamo-nos a crer que a justiça porventura exija, mesmo provisoriamente, a supressão da liberdade. A dar-se-lhes ouvidos, sempre as tiranias são provisórias. Explicam-nos que há uma grande diferença entre a tirania reacionária e a tirania progressista. Haveria assim campos de concentração que vão no sentido da história e um sistema de trabalho forçado que pressupõe a esperança. Admitindo que tal fosse verdade, podíamos pelo menos interrogar-nos sobre a duração dessa esperança. Se a tirania, embora progressista, durar mais de uma geração, isso significará, para milhões de homens, uma vida de escravidão, e nada mais. Quando o provisório abarca a vida inteira dum homem, torna-se, para esse homem, definitivo.

 

Quando a morte se torna negócio de estatísticas e de administração é que de facto as coisas do mundo não vão lá muito bem. Mas se a morte se torna abstrata é porque a vida também o é. E a vida de cada um mais não será do que uma abstração, a partir do momento em que alguém se lembre de a submeter a uma ideologia. A desgraça é que nós estamos no tempo das ideologias e das ideologias totalitárias, isto é, suficientemente seguras de si, de sua razão imbecil ou da sua tacanha verdade, para só considerarem a salvação do mundo debaixo do seu próprio domínio. E querer dominar alguém ou alguma coisa é desejar a esterilidade, o silêncio ou a morte dessa mesma coisa ou pessoa.

Tenho horror à violência confortável. Tenho horror aqueles cujas palavras vão mais longe do que os actos. E aí que me afasto de alguns dos nossos grandes espíritos, cujos apelos ao crime deixarei de desprezar, quando forem eles a empunhar as armas da execução.

O longo diálogo dos homens acaba de se interromper. E não há dúvida de que um homem que não se pode persuadir é um homem que mete medo. E é assim que, a par das pessoas que não falavam por considerá-lo inútil, ia alastrando e alastra ainda uma imensa conspiração de silêncio, aceite pelos que tremem e que encontram bons motivos para a si próprios ocultarem esse temor, e criado pelos que nele têm interesse. «Não se deve falar da depuração dos artistas na Rússia, porque isso aproveita à reação.» «Não se deve falar no apoio dos Anglo-saxões a Franco, porque isso só aproveita ao comunismo.» Bem dizia eu que o medo é uma técnica.

15 agosto 2025

Um urso no Alasca


Meio mundo aguarda com expetativa o resultado da próxima cimeira no Alasca entre Trump e Putin, naturalmente. Aquela guerra precisa de acabar e considerando que já passaram mais de 24 horas depois da tomada de posse do presidente dos EUA…

Eu estou expectante, mas também cético. Supondo que até corre bem, as armas se calam e vamos a caminho de um acordo de paz, que garantias há de que Putin não inventa mais uma “ameaça” qualquer para relançar a ofensiva.

De recordar que este conflito foi iniciado sem que a Ucrânia tenha atirado uma simples pedra no território russo ou planear fazê-lo. A menos que a ocidentalização e liberalização de uma antiga colónia fosse uma pedra no sapato dos senhores do Kremlin.

Aparentemente o objetivo era “desnazificar” Kyiv e, se esse argumento legitimava a “operação especial” há três anos, porque não esse ou outro poderão ser de novo invocados? De recordar que em 1994 a Ucrânia entregou o arsenal nuclear soviético em seu poder, em troca de garantias de segurança e…

Quem começa uma guerra desta forma, não parece confiável para manter a paz sem uma forte coação militar e/ou económica. Todos aqueles que acreditam que as promessas de paz destes brutais senhores da guerra garantem algo, podem revisitar a história dos acordos de paz de Munique de 1938 e do que se seguiu.

Atualizado em 16/8 com a publicação no "Público"


05 agosto 2025

De la frontera


Ali para os limites da Andaluzia, existe uma dúzia de topónimos que incluem na sua designação “de la frontera”. Trata-se naturalmente da antiga fronteira entre o cristão e o mouro.

É uma linha que foi avançando para Sul acompanhando a reconquista, deslocando-se do vale do Douro, para o Tejo e depois Guadiana e acabando finalmente no Mediterrâneo… Penso que uma boa parte destas terras “de la frontera” estão associadas ao longo período de 2 séculos entre a tomada de Córdova, Sevilha (e o nosso Algarve) a meados do século XIII e a conquista de Granada, já nos finais do século XV.

Hoje, na península ibérica ficamos com esta “frontera” apenas no diretório do código postal, mas não é assim por todos os lados. Um dos locais onde uma fronteira destas está bem visível é em Chipre, onde ao longo de toda a ilha, de costa a costa, existe uma “zona tampão” fechada, se bem que atualmente mais fácil de transpor do que foi durante décadas. Mesmo a capital Nicósia está dividida, apesar de hoje ser possível atravessar facilmente a pé, mostrando apenas o passaporte (atenção a não comprar e trazer produtos de contrafação do Norte para o Sul).

No extremo leste da linha, zona turca, está uma das principais cidades da ilha, Famagusta, e logo ali ao lado o bairro/praia de Varosha, no passado um dos mais famosos e distintos destinos turísticos do mediterrâneo oriental. Com a entrada das tropas turcas em 1974, tudo foi abandonado precipitadamente, transformando o local numa zona deserta e fantasma durante décadas. Um verdadeiro monumento às novas fronteiras criadas neste mundo.

Mais recentemente as autoridades cipriotas turcas decidiram aproveitar o potencial turístico da cidade-fantasma, apesar de um certo vazio e polémica quanto à propriedade e direitos sobre os imóveis.

Bem asfaltadas as ruas principais, disponibilizadas para aluguer trotinetas elétricas e outros meios de transporte, os “turistas” singram pelo bairro, sorrindo e enquadrando as indispensáveis “selfies”, numa mistura muito exótica de prédios, hotéis e equipamentos em ruínas, instalações militares não fotografáveis e tranquilos veraneantes disfrutando das areias e águas que no passado fizeram a fama de Varosha. Coisas da frontera.

02 agosto 2025

Estado a mais ou Estado a menos


Os recentes anúncios por parte de vários países de reconhecimento de um Estado Palestiniano parecem-se ser principalmente uma tentativa de pressão/castigo sobre Israel, que merece certamente ser forçado a mudar de atitude.

Se esse reconhecimento proporcionará um avanço consistente na pacificação da região, é outra questão. Em primeiro lugar, os defensores do “from the river to the sea…” dizem claramente que Israel não tem direito a existir e não é com esses que a paz chegará. A história está cheia de migrações na sequência da constituição dos Estados Nações, por exemplo após a queda dos impérios (vejam o Otomano, com os gregos e os arménios) e no final das guerras (vejam os milhões no centro da Europa após a II Grande Guerra). No entanto, não há mais nenhum lugar no mundo em que as feridas dessas deslocações fiquem abertas tanto tempo e com netos de refugiados a continuar a usufruir do estatuto de “refugiados”.

Certo que as mortes de civis em Gaza têm que acabar, mas decretar um Estado, a menos de alguma influência indireta sobre Israel, que dará na prática? Esse Estado que representatividade terá, que governação terá, que segurança trará? Em 2006 houve eleições na Palestina, ganhas pelo Hamas, que deu guerra civil e administração separada das duas zonas, Gaza pelo Hamas e Cisjordânia pela Fatah. Depois disso não voltou a haver eleições e não foi Israel quem o impediu.

O que fez o Hamas livre em Gaza desde a retirada completa de Israel em 2005? Preparou nova guerra. Podem decretar que o Hamas ficará agora excluído, mas quem o financia encontrará certamente um Hamas-bis que retomará a cartilha e a ação.

Na minha opinião, o fundo do conflito é haver fações árabes que não aceitam menos do que a hegemonia árabe e muçulmana na região. Todas as guerras neste conflito foram iniciadas pelos árabes: 1948, 1967, 1973 e 2023. Com o tempo, líderes responsáveis, a começar por Sadat em 1978, foram progressivamente entrando num processo de normalização e de aceitação de Israel, mas “sobra” sempre alguém que retoma a atitude agressora. Certo que Israel, tem muitas ações condenáveis na sua história, mas é óbvio que, com o seu modelo de sociedade, se tiver a sua segurança garantida, será fácil encontrar solução. Outubro 2023 provou que deixar Gaza livre durante 17 anos não foi caminho para a paz.

PS: Atualizado a 7/8 com o recorte da publicação no Público

29 junho 2025

Apelar à paz

Por diversas razões e em diversos cenários temos guerra no mundo. A Rússia invadir uma Ucrânia sossegada, que não tinha ambição militar, apenas pretendia viver como no mundo ocidental é diferente de neutralizar preventivamente o potencial nuclear do Irão, que tinha, e tem, propósito assumido de destruir Israel. Estabelecer analogias entre os dois casos, só mesmo para quem os EUA e o ocidente estão sempre do lado errado e não será por essa lógica que chegaremos a algum lado válido.

Certamente que devemos ser pela paz e apelar à mesma. O problema é quando os apelados são insensíveis a discursos de Miss Mundo e de secretários-gerais da ONU. Pode-se referir o belo exemplo de Ghandi, que teve sucesso, mas face a um estado minimamente de direito, que era o Império Britânico. Enviem um Ghandi uigur contestar pacificamente em Pequim e contem-me o resultado.

Para figuras como Putin, os apelos são obviamente inconsequentes. Até se deve rir da ingenuidade. Gente para quem os argumentos válidos são apenas os da força militar ou económica, só responderão face a esses mesmos argumentos. Lamentavelmente é mesmo assim. Só em sociedades democráticas e livres é que os apelos podem surtir algum efeito e, por norma, raramente são eles quem despoleta os conflitos. Sim, já estou a ouvir contestação a esta afirmação, mas vão ver objetivamente nas guerras em curso quem disparou o primeiro tiro.

Como se dizia já na antiguidade, "Se queres a paz, prepara-te para a guerra". Não sei se são necessários 2% ou 5% ou outras percentagens, mas fazer figura de pomba no meio de um bando de falcões… estes agradecem. Não é a pomba que vai converter os falcões maléficos em aves boazinhas

10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

11 outubro 2024

Pobres libaneses


Pobres libaneses que nascendo no que outrora era considerado a Suíça do Médio Oriente, multicultural e livre, vivem hoje num país destruído, desestruturado e de frágil autoridade.

Pobres libaneses que se viram invadidos em 1970 pelos palestinianos da OLP, expulsos da Jordânia num “setembro negro”, após programarem assinar o rei anfitrião e aí tomar o poder. Seguiu-se uma desestabilização e uma guerra civil, cujas cicatrizes ainda não desapareceram.

Pobres libaneses que a seguiram viram instalar-se no seu país uma organização militar patrocinada e dirigida pelo Irão e que, sem ser controlada nem prestar contas às autoridades libaneses, mais não busca do que violência e destruição.

Podemos entender que os Palestinianos na Cisjordânia tenham capital de queixa pela presença e controlo israelita; mais difícil é entender que a faixa de Gaza, deixada tranquila por Israel desde 2005 queira reacender a sua guerra, mas o Hezbollah? Que argumentos tem para estar há um ano a tentar massacrar o norte de Israel? Ainda por cima, sendo xiitas que ainda não há muito tempo lutavam ferozmente na Síria contra a família sunita onde se enquadra e se alimenta o Hamas?

Que, depois de um ano de ameaças e assédio, consideradas “normais” por uma certa comunidade internacional, agora Israel se defenda proactivamente, é de súbito um “ai Jesus”, que estão a escalar a guerra…?

Podemos e devemos questionar a estratégia de Israel em Gaza, mas que contra-ataque quem o ataca a partir do Líbano sem outra razão nem objetivo que não seja a sua destruição, deveria ser mais difícil de criticar.

Pobres libaneses que não os deixam viver em paz no seu outrora belo país, entre os seus cedros.

31 agosto 2024

Pobres palestinianos


Pobres palestinianos de Gaza onde tantos estão a sofrer o que nenhum ser humano deveria sofrer. Mas, como dizia até o insuspeito Guterres, isto não nasceu do nada, nem começou no dia 8/10/2023. Vejamos.

Pobres palestinianos que na sequência da constituição do Estado de Israel foram empurrados para uma guerra pelos seus vizinhos árabes. Pobres palestinianos que após perderem essa guerra, viram a sua parte da Palestina ocupada pela Jordânia e pelo Egito, em vez de os terem deixado constituir livremente o seu Estado, logo naquela altura.

Pobres palestinianos deslocados que, em vez de se integrarem no novo espaço, foram colocados ad-eternum em estatuto de refugiado, a caminhar já para um século. Os gregos ortodoxos ameaçados que fugiram da Ásia Menor após a formação do novo país Turquia, ainda estão em campos de refugiados do outro lado do mar Egeu?

Pobres palestinianos de Gaza que deixados tranquilos pelos Israelitas por quase 2 décadas, viveram numa prisão, num regime ditatorial severo, sem liberdade de expressão, nem de contestação, donde não se podia sair livremente, nem para o Egito, mas onde podiam entrar camiões plenos de armamento. Pobres palestinianos que viram a larga ajuda externa servir para preparar a guerra em vez de tentar construir a paz e promover o seu bem-estar.

Pobres palestinianos que depois das iniciativas e acordos de paz com os países árabes e a próprio OLP sofrem agora um Hamas, que não tem um mínimo de vontade de encontrar um apaziguamento. E, vai uma aposta, se o Hamas acordar em calar as armas, aparecerá a seguir outra coisa qualquer para retomar a guerra?

Pobres palestinianos que viram o Hamas organizar e desencadear o brutal 7/10, que não teve mais propósito ou efeito do que provocar uma reação brutal do vizinho ameaçado.

Para que fica claro, para quem leu até aqui, Israel tem fama de responder desproporcionalmente e não está a deixar os seus créditos por mãos alheias. Infelizmente a qualidade humana dos seus líderes não está ao nível da dos de há umas décadas (não é só por lá), mas colocar o ónus do sofrimento palestiniano apenas ou principalmente em Israel não ajuda a causa do povo palestiniano.

E, já agora, uma palavra para tantos povos no mundo que estão a sofrer tanto ou mais do que os palestinianos, sem que isso pareça ser relevante para as opiniões publicas publicáveis.

18 agosto 2024

KURSKando

Temos visto recentemente noticias sobre esta cidade e região na Rússia, a propósito da audaz ofensiva ucraniana de fazer sentir a guerra também na casa do outro. Ficamos na expetativa do que vai a seguir fazer Putin, humilhado. Os arrogantes humilhados e impotentes são sempre perigosos imprevisíveis…

Não será a primeira vez que muitos ouviram este nome. Em agosto de 2000 um submarino nuclear russo com o mesmo nome foi vítima de uma expulsão de um torpedo, afundando-se e matando todos os tripulantes. Uma vintena de sobreviventes à explosão inicial acabaram também por morrer, por incapacidade, incompetência, falta de meios e soberba da Rússia que se recusou a ser ajudada a tempo. Na altura Putin, recém-eleito Presidente, foi criticado pela forma arrogante e fria como geriu a catástrofe. Na altura ainda era possível criticar.

E porque é que o submarino se chamava Kursk?  Porque próximo desta cidade travou-se em Agosto de 1943 uma grande batalha, que terminou com a vitória soviética e marcou o fim das iniciativas alemãs na frente leste da 2º Guerra Mundial.

Talvez, para alguns russos, seja uma espécie de repetição da “Grande Guerra Patriótica”. Em volta de Kursk haverá uma batalha entre invasores nazis e patriotas soviéticos. Só que esta suposta repetição é já do domínio da farsa. Para todos os que acreditavam que o fim da guerra 39-45 era um passo irreversível no caminho da liberdade e democracia, para todos os que nos anos 70 viram desaparecer os caudilhos ditadores do sul da Europa, para os que em1989 viram cair o muro que amordaçava metade da Europa, para todos os que acreditavam que mais depressa ou mais devagar o caminho tinha uma direção clara, esta Rússia brutal e desumana veio demonstrar que esse caminho não é assim tão irreversível.

O que está em causa não deveria ser objeto de “nem mas nem meio mas” por parte das gentes de boa vontade, que acredito serem a maioria...

Todos aqueles que se recusam a reconhecê-lo, estão a prestar um péssimo serviço à humanidade e trabalharem para deixarem aos próximos um mundo pior do que o que encontraram quando chegaram.


20 maio 2024

Protestos contra… os próprios


Tem-se visto algumas referências ao paralelismo entre os atuais protestos de estudantes, particularmente nos USA, contra a guerra na Palestina e aos de há umas décadas atrás contra a guerra do Vietname. Há alguns pontos em comum, mas a intervenção militar americana na indochina tinha motivações, objetivos e antecedentes completamente diferentes dos do contexto atual. Também quem protestava era quem, ou seus próximos, lá ia expor-se, o que não é o caso de todo neste momento.

O que há também de comum entre estes protestos e outras contestações estudantis é o serem “contra o seu sistema”. É compreensível e meritório que os jovens queiram e exijam um mundo melhor e questionem a forma como o seu mundo é administrado, mas isso não deveria gerar simpatia por regimes brutais, largamente piores em termos de respeito pelos direitos humanos do que o mundo ocidental. Porque será que a brutalidade da Rússia na Síria para acabar com o Estado Islâmico, poucos dedos fez levantar? Xinjiang diz alguma coisa?

Na fundação de Israel, este enfrentou os estados árabes promovidos pelo ocidente, na sequência da reorganização dos Médio Oriente, pós queda do império Otomano. Assim, inicialmente foi buscar apoio ao chamado bloco de Leste. Vai uma aposta em como se hoje os EUA ainda apoiassem apenas os árabes e a Rússia suportasse Israel, os estudantes americanos estariam sossegados ou, quando muito, a sair à rua com bandeiras do estado judaico, protestando contra o (seu) imperialismo que tinha desencadeado esta guerra desnecessária? Depois, há também quem se aproveite desta ingenuidade/ignorância e que lhes chama “idiotas úteis”.

18 janeiro 2024

Obrigado, Mr Trump


Quem já passou pelo Irão ou teve algum contacto com Persas, sabe que ali existe uma cultura com um nível muito superior ao que as notícias sobre as suas lideranças e respetivas políticas sugerem. Sabe que há uma grande parte da sua sociedade com vontade de viver em liberdade, com respeito completo pelos direitos humanos, como no mundo ocidental.

Quando foi celebrado o acordo nuclear em 2015, muitos persas e muitas persas rejubilaram pelo que podia ser uma aproximação e um prenuncio de integração do país num mundo mais livre. Posteriormente em 2018, Mr Trump decidiu abandonar esse acordo, por razões de fundo que ignoro, simpatia pelos sauditas…?

O certo é que, apesar dos defeitos e falhas do acordo, este, apesar de tudo, integrava e condicionava minimamente o país. Depois o Irão voltou a ser pária. Hoje o Irão ajuda a Rússia a massacrar a Ucrânia; hoje o Irão xiita apoia ativamente o Hamas, sunita, histórica e financeiramente patrocinado por outros atores. Os seus procuradores Hezbollah e Houthis, estão mais fortes e ativos do que nunca, com estes últimos a porem causa grandes rotas marítimas internacionais e a escalarem o conflito. Não, não há caso para agradecer ao Mr Trump, apenas desejar que este mundo avance noutra direção, mas talvez seja apenas ingenuidade minha.