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28 agosto 2025

Ser comunista (II)

2)       O contexto histórico

É importante analisar os acontecimentos históricos dentro do contexto em que ocorreram. Neste caso, o marxismo nasce em meados do século XIX, um período de mudanças políticas e sociais enormes. Há a consolidação da revolução industrial que traz um enorme desenvolvimento e enriquecimento, não muito bem distribuído; há a transição do absolutismo para o liberalismo, com avanços e recuos. 

Não há revoluções todos os dias, mas a frequência é elevada. Por exemplo, em 1848 houve uma “primavera dos povos”, com revoluções e perturbações simultâneas em França, Áustria, atuais Itália e Alemanha, Irlanda, Suíça, Hungria, além de outras instabilidades na América Latina.

França que desde a sua revolução de 1789 foi uma espécie de laboratório de ensaio destas convulsões, tem o seguinte histórico de transições no século XIX.

1789 – Revolução inicial

1792 – Primeira República

(1793-1794) Terror de Robespierre e jacobinos

1799 – Consulado Napoleão Bonaparte

1804 – Primeiro Império (Napoleão Bonaparte)

1814 – Restauração monarquia Bourbon

1820 – Revolução e instituição da monarquia de Orleães

1848 – Revolução e instauração da Segunda República
               (Luís Napoleão eleito Presidente da República)

1851 – Luís Napoleão instaura Segundo Império

1870 – Queda de Luís Napoleão e instauração da Terceira República

Portanto: em 100 anos, como regime, temos 3 monarquias, 2 impérios e 3 repúblicas. Alguns destes eventos tiveram repercussões no resto da Europa, como especialmente o de 1848, acima referido. Curiosamente Portugal foi poupado a essa data porque, frescamente saído da guerra da Patuleia, era cedo para novos transtornos.

Voltando ao marxismo, pode-se entender que neste período em que “tudo acontecia” seria “normal” imaginar, especular e propor uma forma radicalmente diferente de organização política, económica e social, que nunca tinha sido tentada e que poderia ser a “solução” que faltava encontrar.

Começou aqui

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21 março 2025

Ainda a Vendeia


A cerca de 50 km a sul de Nantes, há uma placa informativa na autoestrada anunciando “Memorial da Vendeia”. A primeira vez que a vi não tinha a mínima ideia do contexto e após informação e posterior visita do local ficou-me como um dos episódios mais dramáticos e representativos daquele período de liberdade terrifica, dois conceitos que infelizmente se apresentam muitas vezes em conjunto.

O tema já foi objeto de publicação anterior, aqui, e posteriormente li a obra acima representada, verdadeiramente (bem) desenvolvida e documentada sobre o tema. Não é objetivo hoje refazer o histórico dessa guerra e guerrilha, da tentativa de genocídio sobre toda a população civil da zona rebelde e demais as barbaridades desse período de terror absoluto, sem o mínimo de respeito pelos “direitos universais do homem”, nem mesmo o direito a viver para aqueles cujo sangue fosse declarado “impuro” (ver a letra da Marselhesa).

Há aqui um fenómeno daqueles que, acreditando tão inequivocamente estarem do lado “certo” da história, não hesitam em enviar para as masmorras ou para o cadafalso, todos os que se considerem estar do lado errado. Em Nantes, chegaram a afogar sumariamente no rio os inimigos do regime, como suposta medida sanitária na sequência da saturação das prisões.

Uma questão que levanta muitas interrogações é como, séculos depois, com todos os elementos para uma visão clara de toda a barbaridade, ainda haja gente “inteligente” que consegue expressar simpatia, compreensão e benevolência para com “Robespierres” e outros que tais. É um verdadeiro mistério da natureza e da irracionalidade humana.

Numa dada passagem do livro, o autor lança um repto se este totalitarismo ideológico jacobino não foi a matriz inspiradora do que a seguir se viu na Europa com os regimes ditatoriais brutais, nomeadamente no século XX. Pode não ter sido inspirador diretamente, poderão apenas terem génese na mesma “doença do poder”, mas as semelhanças são bastantes.

Efetivamente há atualmente órfãos de Estaline e órfãos de Robespierre e com muitos a partilharem as duas orfandades… Qual será a cura, não sei, racionalidade e humanidade não parecem ser.


30 janeiro 2025

Nem tudo é caso de polícia

Se a imigração passou recentemente a ser tema sensível e até “fraturante” não é por acaso, nem por mera moda ideológica. É porque, menos em Portugal do que noutros locais, há transformações sociais em curso que preocupam quem se deve preocupar com a sociedade em que queremos viver.

Venissieux é uma localidade na periferia de Lyon, em França. Em agosto passado, na padaria da praça central, uma empregada enganou-se e em vez de uma quiche de queijo, entregou uma quiche lorena, que inclui toucinho. Os clientes, ultrajados, quando descobriram o engano, voltaram para agredir a empregada e tentar vandalizar o estabelecimento. Felizmente o proprietário estava presente e conseguiu acalmar os ânimos, sendo o incidente encerrado sem consequências de maior.

Na sequência deste acontecimento, o proprietário decidiu banir a carne de porco do estabelecimento e colocar o mesmo à venda. O principal supermercado tradicional do bairro já migrou para uma versão “halal. Os cafés e restaurantes retiram as bebidas alcoólicas da sua oferta. As professoras receiam apresentarem-se nas escolas com saias que possam “provocar”.

Não há aqui necessariamente um problema legal, mas, a densidade e a pressão de uma comunidade que forçam uma mudança no quadro social e cultural tradicional, sendo que essas mudanças constituem um retrocesso nos direitos, especialmente das mulheres, cerceando liberdades e tantas coisas que fizerem o sucesso deste nosso mundo.

Para evitar entrar por esse caminho devíamos definir e balizar hoje a sociedade em que queremos viver. Deixar rolar até haver uma outra maioria que imponha outros valores não será o ideal e não terá final feliz.

12 janeiro 2025

O que esperar da extrema-direita?


Esta semana faleceu Jen-Marie Le Pen, um dinossauro e um dos principais fundadores dos “novos” movimentos de extrema-direita, que tanto espaço conquistaram recentemente na Europa.

 Ao ouvir a truculência, grosseria e falta de respeito pelos princípios básicos do regime democrático proferidos em devido tempo pelo senhor Le Pen, dá para entender perfeitamente a campanha de “cerca sanitária” montada ao seu partido e a estupefação quando em 1995 conquistam a câmara de Toulon, a primeira de uma grande cidade, e quando em 2002 ele passou à segunda volta das eleições presidenciais.

Ao ouvir agora a sua filha e sucessora, Marine le Pen, que tem a segunda volta das presidenciais garantida e salvo reviravolta jurídica ou outra vai mesmo acabar no Eliseu, há um mundo de diferença. O discurso não é de todo do mesmo calibre do do seu pai, que originou a diabolização daquela franja política e, sejamos objetivos, não coloca em causa os princípios básicos do regime. Podemos dizer que o protecionismo não é solução e podermos questionar o nível de abertura das fronteiras, mas, tanto quanto ouvimos, o RN joga o jogo institucional em vigor. O sucesso e crescimento do movimento em França tem duas razões principais. Uma é a perda de credibilidade da classe política tradicional e outra são as transformações culturais e sociais que a imigração está a provocar e para as quais enfiar a cabeça na areia não é solução.

Os resultados de uma eventual governação da extrema-direita são outra discussão e interrogação. Para lá dos resultados concretos das suas políticas, a questão é: a transformação do discurso do Le Pen pai para a Le Pen filha corresponde a uma efetiva mudança de princípios e valores do movimento ou foi apenas “marketing”?

15 dezembro 2024

A Vendeia e as ideias


A Vendeia está no centro da costa atlântica francesa, um departamento não muito conhecido. A região não tem os pergaminhos históricos da Aquitânia ao Sul, nem a especificidade cultural da Bretanha ao Norte. Um episódio marcou, no entanto, a sua crónica. Nos finais do século XVIII, nas convulsões do processo pós-revolução francesa, ocorreu um levantamento popular contra um recrutamento maciço, tendo-se formado um exército “irregular” que algum trabalho deu àqueles que defendiam a liberdade a todo o custo, passando pelo terror, sempre que “necessário”.

Há uma altura em que, para acabar de vez com a perturbação, os que queriam impor a (sua) fraternidade, custasse o que custasse, decidem enviar expedições punitivas que circularão pela região matando todos os que se apresentam à sua frente, minimamente ou supostamente suspeitos, independentemente da atividade, sexo ou idade. Uma brutal sequência de massacres, existindo um memorial evocativo, em Lucs-sur-Boulogne (imagem abaixo), num dos locais onde essas execuções sumárias foram  realizadas.

Obviamente que os tempos hoje são outros e que este tipo de violência já não é usado para impor ideias, pelo menos por estes lados. No entanto, ainda há quem não hesite em usar toda a força disponível, e socialmente aceitável, para calar opiniões diversas. Chama-se cancelamento. Se antes se entendia que os contestatários podiam perder o direito a viver, hoje ficamos pela perda do direito a falar. Do mal, o menos…

Felizmente que o limite da agressão aceitável está noutra escala e dimensão, mas, por muita bondade que possa existir na sua génese, as ideias que não admitem contraditório são fontes de pobreza, para o mundo e para elas. Uma ideia que se autoproclama inquestionável e se arroga o direito de destruir as outras, está ela própria a caminho da destruição de todos os seus eventuais méritos.



09 julho 2024

De vitória em vitória até…


Uma larga frente, dita democrática e republicana, provocou e festejou em França a derrota da extrema-direita nas eleições deste passado domingo. Para começar, o RN tem muitos defeitos, mas nunca o vi questionar o regime republicano nem eleições e respetivo resultado. Começar por essa (não) caraterização é desde já estar a avaliar mal a questão.

Houve uma larga conjugação de forças sim, para derrotar RN, numa amplitude que em Portugal equivaleria a ir do CDS até ao PC e BE. A questão é que esta vitória não consolida nada. Em muitos círculos, mesmo assim, o RN perdeu por 40 e muitos por cento.

Tem razão Marine Le Pen quando diz que se não foi desta, será a seguir, é apenas uma questão de tempo. O vento sopra nessa direção e, continuando assim, isto é coisa de vitória em vitória até à derrota final.

Será dramático para a França e para o projeto Europeu uma vitória de um extremismo, sendo que os de esquerda também não são inócuos. Há aqui um exercício difícil entre compreender e atender às expetativas dos eleitores e fazê-los compreender os efeitos negativos a prazo das propostas populistas e extremistas. É necessário ter inteligência, seriedade e autoridade moral reconhecida, coisas que não abundam no panorama político atual. Independentemente da complicação de governação que se seguirá, este resultado é positivo, mas celebrá-lo não chega.

06 julho 2024

Quitte ou double

Enquanto se achar que a razão do crescimento da extrema direita está na extrema direita...

01 julho 2024

Quitou, não dobrou


A estratégia ultra-arriscada de Macron de provocar eleições antecipadas em França foi um tiro de bazuca que saiu pela culatra. Sendo óbvio que a extrema-direita iria repetir o sucesso das europeias, qual era a ideia?

As contas do presidente devem ter tido em consideração o fato de se tratar de umas eleições a duas voltas e, sendo fácil gerar uma larga frente contra esses vencedores inoportunos, haveria grandes hipóteses de os segundos saírem reforçados e acabarem por ficar à frente na segunda volta.

O que baralhou as contas foi a criação de uma larga geringonça francesa onde o líder não parece ser o tradicional PS, mas sim o “insubmisso” Jean Luc Mélenchon, que advoga a saída da França da Nato, eventualmente da EU, tiques de antissemitismo, além de outras particularidades e excentricidades, muitas delas comuns às da cartilha de Le Pen. Acontece que foi essa geringonça quem ficou em segundo e serão os seus candidatos a receberem o voto útil contra a extrema-direita.

Portanto, o partido do presidente vai mingar e os pobres franceses terão de optar entre Le Pen e Mélenchon. Não lhes invejo o dilema!! Se a primeira opção constitui um perigo para a França e para a Europa, a segunda também tem riscos que baste …

Acho curiosas as eloquentes declarações de opção de desistência dos terceiros, para ajudar a combater a extrema-direita. Numas eleições a duas voltas, os terceiros têm direito a opção!?

30 junho 2024

Quitte ou double


França é um país que gosta de ideias, mas também alinha facilmente atrás de líderes fortes, que se impõem mais pelo carisma, do que pelas mesmas. Mesmo sem recuar aos tempos de reis solares ou de imperadores autoritários que confiscaram regimes republicanos, todos com boa aceitação popular, tivemos muito recentemente um tal de “mon general” De Gaulle, que na ressaca da traumática participação francesa na II G Guerra, fundou um partido pessoal e um regime com um nível de poder concentrado no presidente de fazer inveja a muitos reis, mesmo reinantes.

Emmanuel Macron, noutra escala certamente, é também alguém que aparece, funda um partido e que toma o poder, muito mais assente na sua personalidade do que numa ideologia. Não está a correr bem, se bem que não é fácil imaginar quem ali podia fazer melhor. No top 3 das últimas presidenciais, nos alternativos, entre Le Pen e Mélenchon, que veja o diabo e não escolha.

Depois das últimas europeias e respetivo descalabro, Macron resolveu jogar o “quitte ou double”. Efetivamente se quisermos excluir xenófobos, putinistas, anti-semitas e irresponsáveis “iluminados”, só mesmo o partido presidente apresenta alguma razoabilidade e racionalidade. Vamos a ver o que a razão dirá este domingo,

12 maio 2023

Era uma vez


Era uma vez um partido socialista europeísta que para conseguir aceder ao poder se aliou a improváveis comunistas. Para se manter no poder alimentou e fomentou a ascensão de um partido populista de extrema-direita, buscando fragmentar o espaço à sua direita.

Falamos de Portugal num passado recente? Não propriamente. Falamos da França, de Mitterrand nos anos 70 e 80, da forma como conseguiu chegar a Presidente da República e como a Frente Nacional cresceu até em 2002 disputar a segunda volta das Presidenciais. Hoje a FN é já cliente habitual dessas segundas voltas, incluindo das últimas de 2022, onde o candidato da direita clássica obteve apenas 4,78% dos votos e o do Partido Socialista 1,75%. A extrema-esquerda radical falhou por pouco a segunda volta, com 21,95% dos votos.

É um pouco cedo para imaginar onde vamos chegar e quando, a história não se repete por igual, mas este nosso PS podia fazer um pouco de esforço para não degradar e incendiar o nosso sistema partidário. A curto prazo a subida da extrema-direita pode ser maquiavelicamente interessante para travar a tradicional alternância, a prazo…

28 outubro 2022

Há, mas é verde


O anúncio do gasoduto “verde” entre Barcelona e Marselha é uma história mal contada e se foi calculada ainda não o vimos. Em primeiro lugar estamos sem saber porque foi abondando o projeto anterior Midcat, para transportar gás natural pelos Pirenéus, sendo certo que as interligações energéticas na Europa são necessárias e que muita água ainda irá passar por pontes e barragens antes de o gás natural ser banido, como muito bem comportadamente já fizemos com as nossas centrais de carvão.

Depois, fazer um investimento desta natureza para algo que ainda não existe em dimensão que se veja, nem em produção, nem em utilização…!? Alguém fez as contas? E qual o papel de Portugal neste negócio? O hidrogénio verde é feito simplesmente a partir da eletrólise da água usando eletricidade de origem renovável. Por alma de quem vamos fazer isso aqui e enviar o hidrogénio a milhares de quilómetros? Não temos excedente de renováveis e a França até tem eletricidade barata a partir do seu parque nuclear. Alguém fez as contas a que custo o gás chegaria ao destino? Será economicamente viável? Ou vamos fazer as contas depois de se gastar uma pipa de massa no gasoduto?

Ou será isto apenas uma forma “esperta” de fazer um investimento em infraestrutura de gás natural, pintado-o de verde, para poder ser mais facilmente aceite e financiado? De qualquer forma, Portugal, seja pelo singelo terminal de Sines, seja pelo hipotético parque de produção de hidrogénio verde, que não existe nem se sabe como nem quando existirá, não tem nada a ganhar com isto. Apenas uma excelente oportunidade para queimar dinheiro.

26 maio 2022

Acusar… (I)


Em setembro de 1894 é encontrado um documento revelador de uma ação de espionagem militar em França a favor da Alemanha. A sua caligrafia é semelhante à de um oficial, até aí de carreira exemplar, de seu nome Alfred Defruys. Isso é suficiente para o julgar sumariamente, condenar grosseiramente, ser publica e humilhantemente destituído e deportado para a “Ilha do Diabo”.

Na prática havia mais do que a semelhança da caligrafia. Defruys era judeu e o antissemitismo básico foi suficiente suportar a “convicção” quanto à sua culpa. Posteriormente o verdadeiro culpado Estherhasy é identificado, julgado e… ilibado.

Para lá do absurdo de as instituições militares terem ignorado a busca da verdadeira origem de um grave problema, transmitir informações sensíveis ao inimigo, o caso vai  provocar uma polémica enorme, entre aqueles absolutamente “convencidos” da culpa do judeu e os defensores do direito à justiça. Entre estes últimos, Émile Zola, faz publicar um texto de acusação, uma carta aberta ao presidente do país, acima reproduzido, o que lhe vale um processo e respetiva condenação por difamação.   

Com toda a pressão na opinião pública, Defruys é repatriado do seu degredo na Guiana e julgado de novo… e de novo condenado.

O objetivo aqui não é relatar todo o caso, apenas evidenciar como é possível tanta cegueira e injustiça popular e institucional contra os judeus. Por serem responsáveis pela morte de Cristo…? Por inveja pelo seu elitismo e relativo sucesso económico?

Pela prática religiosa e os fundamentos do seu credo em si não o será certamente.

Continua para Os judeus não reconhecem a nação?

21 abril 2022

França, Le Pen e UE – Entre divórcio e libertinagem


A primeira vez foi em 2002 quando JM Le Pen chocou o mundo político francês ao passar à segunda volta das eleições presidenciais, contra J. Chirac. A proeza foi repetida pela filha Le Pen contra E. Macron em 2017 e agora de novo em 2022.

Num discurso amaciado face ao passado, ela diz não pretender propor a saída do país da UE, mas promete implementar uma preferência aos nacionais franceses e fazer a legislação francesa prevalecer sobre a europeia. É um pouco como o habilidoso que não quer divorciar-se, aprecia manter o conforto familiar às 2ª, 4ª e 6ªs e estar livre às 3ª, 5ª e sábados.  

Qual a razão para tanto sucesso deste discurso nacionalista? Penso que, entre outras coisas, incluindo uma alteração substancial da paisagem social de muitas cidades e subúrbios, há talvez demasiada “discriminação positiva” de algumas minorias, pelo menos em perceção. Real ou apenas sugerida, de dimensão corretamente avaliada ou pelo discurso populista amplificada, acaba num convite à discriminação positiva da maioria. Discriminações mesmo positivas podem ser remédio perigoso. Igualdade de oportunidades e recompensa objetiva e justa pelo mérito serão caminho mais são. 

No próximo domingo será a segunda volta e veremos. Termos visto JL Mélechon de uma extrema-esquerda utópica com 22% na primeira volta contra 1,7% da candidata do histórico partido socialista, sugere que alguma razoabilidade está a faltar.

06 janeiro 2022

Não, a Europa não é uma página em branco


O cartaz acima representado, patrocinado pela União Europeia, Conselho Europeu, vem defender e valorizar o uso do véu islâmico, em nome do respeito pela diversidade e invocando a liberdade. Gerou polémica suficiente para a campanha ser suspensa.

De facto, se poderá haver quem o use por gosto, muitas o usarão por pressão social e/ou para não serem assediadas e dificilmente se pode associar este monástico esconder o cabelo e a beleza que o mesmo transmite a… beleza.

A Europa tem tradição, parcialmente justificada, de ser terra de acolhimento. Depois há aquele trauma cristão do “mea culpa”, curiosamente até mais assumido pela esquerda, segundo o qual os pecados do nosso passado e os males feitos por esse mundo fora, devem ser expiados recebendo e ajudando todos os pobres do mundo.

Quem achar que deve haver limites para o que pode chegar e mudar é imediatamente desclassificado e carimbado como xenófobo. A Europa não é uma folha de papel em branco onde tudo pode ser escrito, nem uma Torre de Babel multicultural. Tem a sua cultura e o seu quadro social, no qual os europeus se reconhecem. O véu islâmico e os princípios que impõem a sua utilização não estão conforme com os princípios sociais em que a Europa foi construída e teve sucesso, nomeadamente com o papel da mulher na mesma.

Que uma instituição europeia venha promover e valorizar isto, sobe a capa da tolerância, demonstra até que ponto os poderes em vigor estão divorciados dos sentimentos da população. Na campanha presidencial francesa, assiste-se a uma subida fulgurante de Eric Zemmour e simplesmente apontar a componente xenófoba do que ele diz ou uma vez disse é insuficiente para o desacreditar face aos eleitores chocados com a desfiguração do seu país. Pelo contrário…

09 novembro 2020

70 Milhões de Parvos

 


Ao contrário dos golpes palacianos, ou de caserna, em que ocorrem descontinuidades no poder, sem que a rua participe ou saiba bem o que se passa, nas revoluções há uma ignição, eventualmente provocada por uma questão secundária, mas que vai encontrar eco numa parte significativa da população, recetiva a uma mudança de regime, e que assim se consolida.

Acho que estamos a assistir a uma revolução, não necessariamente ao longo de uma simples madrugada, nem em direção a amanhãs entusiasmantes. Está em curso uma mudança significativa de valores e de princípios valorizados pelos eleitores. Os 70 milhões que nos USA votaram num parvo, não são todos parvos, basicamente não queriam mais do mesmo. Numa versão mais suave do que já foi, o “Front Nationale” francês arrisca-se a eleger o próximo presidente do país. Isto era um cenário de pesadelo considerado absolutamente impossível não há muito tempo. E mais exemplos não faltam.

A eleição de Biden (a derrota de Trump) é algo de positivo, mas não é nem deve ser considerada um alívio porque não consolida nada. A revolução contínua e não serve de muito condenar as faíscas quando se é descuidado com a pólvora.


30 outubro 2020

Três tempos e…

Tempo hoje:

Em outubro de 2020, num bonito e cerimonioso cenário, na Sorbonne, entre as figuras de Vitor Hugo e de Louis Pasteur, repousa a urna e é homenageado por toda a França o professor Samuel Paty, assinado por um islamista radical, e cujo crime foi ter mostrado numa aula as famosas caricaturas de Maomé, do Charlie Hebdo, no âmbito de uma discussão sobre a liberdade de expressão. Evocadas generosamente as três palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Tempo antes:

Quantos “Maires”, galhardamente envergando a faixa tricolor, agora inquestionavelmente solidários com o luto, proclamando e repetindo as três palavras mágicas, num tempo antes, não fecharam os olhos e até ajudaram a construção de madraças suspeitas, com financiamentos de origem suspeita, com formações suspeitas, desde que isso os ajudasse a preservar o poder? Democracia a quanto obrigas?

Quantos intelectuais e outros que tais, que aplaudiram o filme de Jean-Luc Godard, o preservativo no nariz de João Paulo II, todas as provocações de bom e mau gosto, do “é proibido proibir”, estão calados, amedrontados ou intelectualmente acorrentados e porquê?

Tempo depois:

Diz o Presidente de lá que a França não renunciará às caricaturas religiosas. Do ponto de vista do princípio é coerente. Na prática, um vendaval se levanta, até maior do que a decapitação original provocara. Apetece questionar até onde irá este vendaval. Até as caricaturas serem aceites, sem causarem mortos, ou até um pouco mais de autocensura e chamemos-lhe respeito virem definitivamente amedrontar e acorrentar a liberdade de expressão? Certamente haverá mais mortos… mas qual será o próximo tempo?

 

28 abril 2019

Sagrado ou mais?


Começo com uma declaração de interesse: sou agnóstico de matriz cultural cristã. Não possuo a tal fé, mas nascido e criado em meio católico, não sou indiferente nem estranho aos seus valores. A tragédia do incêndio na Notre Dame de Paris faz-nos recordar isso. Até que ponto as igrejas, mosteiros e catedrais são nossos e defenidores da nossa identidade.

Recordo-me de há uns anos, na discussão sobre a preambulo da chamada Constituição Europeia, muito se polemizou com a herança e a influencia cultural cristã na História deste continente. Na altura manifestei-me contra a referência, mas, e esta é que é esta, ela existe, mesmo que não esteja escrita e evidenciada em tratados.

Não, não está certo esterilizar o significado das catedrais a simples monumentos históricos; não, também não me parece certo acantonar a sua importância a templos, que só falam aos seus crentes. Bem ou mal, para mim mais bem do que mal, há algo que se sente nestes lugares e que transcende a simples dimensão de um lugar de um culto. Talvez fosse interessante que os seus guardiões vissem este fenómeno mais como uma riqueza do que uma profanação.

Não está em causa especialmente a espetacularidade de, por exemplo, os telhados de uma catedral gótica, mas mais a beleza tranquila de uma igreja cisterciense. Estes locais falam-nos.

O incêndio também nos disse e recordou a finitude, mesmo da pedra e da madeira secular. Que fique essa lição…

21 dezembro 2018

Falta de cor


Quis o azar ou a sorte que eu precisasse mesmo de ir à capital no ameaçador dia dos coletes amarelos, tradução literal de “gilets jaunes”. Na dúvida e por não poder falhar, acrescentei uma hora ao tempo previsto de viagem.

O primeiro contacto com a (não) realidade foi nas portagens de Alverca. Aí estavam umas (4?) viaturas da GNR, mais outras tantas da televisão, prontas para os diretos… e de amarelo ninguém. Se paro, enfio um colete e vou para lá mandar umas bocas, apareço nas televisões todas, sem dúvida. Não o fiz e perdi os meus três minutos de fama, que seriam tão, tão fáceis de obter. De facto, demasiado fáceis.

Esta caricata mobilização é em parte a imagem do que somos e do que não somos. A vitalidade (e a violência) com que os "gilets jaunes" saíram à rua em França durante semanas consecutivas fez muitos acreditarem que poderíamos fazer por cá uma coisa parecida, à la francesa.

Acreditaram as forças de segurança que mobilizaram muito para lá do necessário, antes assim do que ao contrário, mas o desvio foi enorme, e acreditaram excitados uma boa parte do pessoal que tem acesso a microfone público. Uau ! Vamos ter coletes amarelos e fazer vergar o governo…

Obviamente que não nos faltaram razões e motivos para manifestar o “ras le bol” com a trupe que nos governa e mesmo com a que se candidata a nos querer governar. Como é óbvio não é importando uma forma ou uma cor que a coisa funciona… muito menos às três pancadas, como aqui andaram à toa os organizadores, as forças de segurança e os altifalantes.

Assim seremos…? Um pouco infantis?

12 dezembro 2018

Algo de novo?

Expressões como “aquele tempo era único” ou “hoje vivemos tempos singulares” normalmente traduzem alguma preguiça em procurar semelhanças e paralelismos entre o hoje e o ontem, vistos seja de trás para a frente, seja da frente para trás. Os tempos atuais nunca são, em geral, assim tão singulares. No entanto, fica sempre bem falar em transição…

Temos, por exemplo, a famosa transição energética, que até ficou agarrada a nome de Ministério. E quando se tenta justificar o absurdo de uma taxa de IVA razoável na energia elétrica ser apenas possível para potencias instaladas ridículas… fica bem, pensam eles, dizer que é um incentivo à melhoria da eficiência energética. Em França, quando Emmanuel Macron resolveu aumentar o imposto sobre os combustíveis e justificá-lo como um apoio à transição energética deu no que deu, não apenas por isso, mas foi um bom rastilho.

Temos os nossos caros deputados versão 5.0, para as quais a presença no hemiciclo já passou para o domínio do virtual. Uma transição significativa para a desmaterialização da governação.

Temos a transição de competências técnicas, como a definição do plano nacional de vacinação, para o parlamento, dominado por especialistas, excelentes na capacidade de fazer de conta que estão ou que sabem o que dizem ou que pensam no que fazem e exímios em declarar competências e CV’s para lá dos que a realidade da dura vida político-partidária permite. Fico à espera de ver os deputados definirem e votarem o número de pilares das próximas pontes rodoviárias. A transição para fazerem, desfazerem e refazerem programas de ensino, já foi realizada há bastante tempo e isso parece-me ser potencialmente pior do que o número de pilares nas pontes.

Temos ainda, por esta Europa fora e não só, a transição de votos para partidos de ideologia pouco democrática, basicamente porque o povo é estúpido e imprevisível, já que do lado dos políticos dos partidos tradicionais não houve transição nenhuma. Eles continuam com a falta de seriedade, competência e de frontalidade a que já estamos habituados há muito. Pela lógica, aqui não deveria haver nada de novo… mas há.

23 agosto 2018

Deem palco aos charlatões


O Websumit tem uma enorme cobertura mediática. Desconheço quantos frutos concretos trará, mas palpita-me serem bastante inferiores ao seu impacto nos média. Enfim, cada qual faz como quer e gasta o seu tempo e dinheiro como entender, a menos que haja por lá dinheiro público/meu. De todas as formas, face a todo o mau emprego que fazem com os meus impostos, não será também tema para eu me preocupar em demasia.

Como não sei bem para que serve a tal conferência, não consigo avaliar se um personagem político como Marine le Pen tem lá enquadramento. No entanto, parece-me claro que não ganhamos nada em ostracizar quem teve 34% nas últimas eleições presidenciais de um dos maiores países europeus.

As suas ideias são perigosas e demagógicas? Sim, mas não é por lhe tirar o microfone que ela não as divulga. Acho mesmo que, pelo contrário, deve dar-se palco aos charlatões para os confrontar e desmascarar. A postura paternalista de que o “povo” sofre de menoridade intelectual, é de fraco discernimento e, por isso, devem existir uns tutores ideológicos que os protejam de influências nefastas é o primeiro passo para uma coisa muito feia.

Assim, deem palco a Le Pen, Maduro, Lula, Orbin e a todos os órfãos de Estaline. Desde que seja um palco livre e inteligente, não manipulado, temos todos a ganhar… menos os charlatões.