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04 dezembro 2025

Mas as crianças, senhor…

 

Em poucas palavras, já que quando os fatos são claros e facilmente escrutináveis, não é necessário elaborar muitos considerandos.

Dentro das barbaridades cometidas na Ucrânia, inclui-se o rapto de crianças ucranianas e envio das mesmas para a Rússia, alegadamente algumas mesmo para a Coreia do Norte. Mesmo sem conhecer todo o quadro legal relativo aos crimes de guerra, é fácil de entender que isto não pode acontecer e é de uma crueldade enorme para as famílias e uma violência brutal para os inocentes.

A UN votou uma resolução, a A/ES-11/L.16/Rev.1, exigindo o retorno imediato das crianças. No quadro anexo, está o resultado. Sabemos que as resoluções da ONU valem o que valem, muitas vezes pouco, mas 12 criminosos votos contra e 57 covardes abstenções, incluindo China, Brasil e países do Golfo… é demais para a minha confiança na sanidade da Humanidade!


Atualizado a 7/12 com inclusão da publicação no Público



06 fevereiro 2024

Refugiados para sempre?


Na recente polémica com a agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos, a UNRWA, tem-se realçado a importância do trabalho humanitário que ela desenvolve, mas também se pode colocar uma questão. Porque é que ela ainda existe hoje e com tamanha importância?

Refugiado é alguém que perdeu a sua casa e condições de vida onde estava estabelecido, foi forçado a deslocar-se para outro lugar, encontrando-se numa situação de fragilidade. Faz sentido beneficiar de apoio e solidariedade nesse momento, mas a lógica é que seja uma situação transitória. Ou há normalização das condições e ele retorna, ou se instala definitivamente algures. Campos de refugiados com gente em condições precárias durante décadas não fazem sentido.

Aqui, estamos a falar de refugiados na sequência da fundação de Israel em 1948! Quantos dos palestinianos atualmente com esse estatuto eram já vivos nessa altura? Dentro do mesmo processo, os judeus que abandonaram as zonas árabes, instalaram-se algures em Israel e reconstruiram as suas vidas. Algumas décadas antes, centenas de milhares de gregos ortodoxos foram obrigados a abandonar a Turquia, quando esta se constituiu, e atravessaram o mar Egeu, mas não ficaram eternamente a viver em campos de refugiados e a chorar a chave da casa perdida. Inúmeros exemplos análogos podem ser encontrados na História.

Obviamente que para quem quer eternizar os conflitos e manter a pressão, dá jeito existirem ainda e sempre “refugiados”. Ajuda a capitalizar as reivindicações e a manter a causa viva. Estes palestinianos estão de certa forma “aprisionados” e, nisto como noutros pontos, vítimas dos defensores de uma certa causa, não necessariamente a que mais lhes interessa.

27 janeiro 2023

Condenações e omissões


Um destes dias, um excitado queimou um exemplar do Corão em frente da Embaixada turca na Suécia e o assunto tornou-se planetário, gerando protestos na rua árabe e mesmo tomada de posição do secretário-Geral da ONU.

Certo ser condenável, mas tratou-se de um ato individual que não matou nem feriu ninguém e se o SG da ONU tem que se manifestar cada vez que um excitado insulta os princípios ou convicções de um vizinho… não lhe sobrará muito tempo.

Depois, há a curiosidade da fácil mobilização da rua árabe por um ato isolado, quando, ao mesmo tempo, ignora as barbaridades diárias e institucionais que estão a acontecer com os Uigures e a sua religião. Difícil de entender que um debate proposto na ONU sobre a situação desta minoria tenha sido chumbado, contando, entre outros, com os votos contra do Paquistão, onde tão facilmente a rua se inflama, Qatar, Emiratos Árabes, Indonésia e outros países de maioria muçulmana. Difícil ainda de entender a falta de reação popular quando por muito menos nascem incontroladas manifestações e motins violentos.

O quadro com o resultado global da votação, 19 contra, 17 a favor e 11 abstenções, é um monumento à hipocrisia reinante. É alarmante quanto à saúde dos direitos humanos no planeta e à forma como eles são institucionalmente tratados neste fórum da ONU, que se mostra assim assustadoramente atacado por uma mui maligna doença.

- abaixo, versão publicada no Público, que lhe retirou o último parágrafo.



20 abril 2020

A OMS está doente?


Dentro da polémica levantada pela ameaça de D. Trump de cortar o financiamento dos USA à OMS, por esta supostamente estar demasiado alinhada com a China, e independentemente da razoabilidade e da justificação para tal medida, encontrei a referência a um tweet da organização, publicado em 14 janeiro, acima reproduzido e aqui referenciado.

O tweet informava que, à data, segundo as autoridades chinesas não havia evidencia clara que o Covid 19 fosse contagioso entre humanos! Portanto a China enganou a OMS, descaradamente, esta acreditou e reproduziu ingenuamente a patranha. Posteriormente, ao constatar que tinha sido aldrabada não a vi dar nenhum raspanete valente à China, pelo contrário, só me recordo de elogios à forma como o país estava a lidar com a epidemia.

Obviamente que o papel da OMS não termina aqui e enviablizá-la não é solução, mas que a gestão desta crise foi muito pouco saudável e a necessitar de algum tratamento, sem dúvida.

19 maio 2017

Impedir que o mundo se desfaça



"Cada geração, sem dúvida, acredita estar destinada a mudar o mundo. A minha, no entanto, sabe que não o fará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça.


Esta afirmação, podendo parecer muito premente e atual, quando tantas ameaças, de várias origens e naturezas, pairam sobre o nosso mundo, tem 60 anos. Foi proferida por Albert Camus em 1957, no discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura.

Os problemas passados parecem-nos frequentemente menores do que os contemporâneos, mas é de recordar que naquela data ainda pairava no ar o cheiro das cinzas da II Guerra Mundial e estávamos em plena Guerra Fria, que, a aquecer, poderia provocar estragos irreparáveis.

O mundo não se desfez e se, até hoje, a Europa não voltou a cair na barbárie, isso foi em muito devido à construção das Instituições Europeias, assim como, com todas as suas deficiências, a ONU contribuiu para o mundo ficar um bocadinho melhor.

Aqueles que hoje menosprezam a “Europa Construída” e pedem excitados a sua desconstrução, não viveram uma guerra. Também não deveria ser necessário tê-la vivido para sentir a necessidade permanente desta prioridade evocada por Camus.

06 outubro 2016

Felizmente má marioneta

Há uns largos anos vi um cartoon em que o SG da ONU era uma espécie de marioneta comandada por 3 ou 4 senhores do mundo. A particularidade era cada qual ter os seus fios e seu próprio comando. Assim, o desgraçado, penso que na altura seria Boutros-Ghali, estava todo torcido, uma perna para cada lado e de braços cruzados, para grande desespero dos tais senhores que exclamavam: “Este tipo não faz nada de jeito”.

É uma imagem bastante representativa e, de certa forma, feliz. Por um lado o SG tem um poder limitado e sofre enormes pressões; por outro lado é positivo não haver um senhor que o possa controlar. Isso seria o fim da organização. Melhor todos dizerem “este tipo não faz nada de jeito” do que um deles dizer “este tipo faz tudo o que eu quero”.

Neste contexto, a manobra de última hora, pouco cristalina, revela uma atitude extraordinariamente perniciosa e sectária. Não se excitem os “esquerdas” com este falhanço infeliz da direita. Se o favorito fosse de direita e a esquerda tentasse algo de idêntico, ouviríamos o mesmo, apenas em espelho. Posso estar a especular excessivamente e gratuitamente, mas a última coisa de que precisamos são politiquices sectárias de “connosco” ou “contra nós”, relativamente ao SG da ONU. Infelizmente vivemos um tempo em que a luta pelo poder num contexto em mudança está a radicalizar posições.

Há e terão que existir sempre valores de nível superior a politiquices, muito especialmente quando recheadas com tiques populistas. Acredito que António Guterres consiga voar mais alto do que esses mal crescidos.

03 outubro 2016

Posso revelar?


Nem todos possuem fontes que permitam um espaço semanal de revelações em horário nobre, mas, desta vez, eu trago uma boa. O meu amigo Hans, funcionário numa chancelaria de Além Reno, contou-me a razão das reviravoltas de última hora no processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU. E passo a ficcionar:

Diz ele que há umas semanas a Frau Angie apareceu extremamente nervosa depois de um sonho, pior, de um pesadelo que teve. Viu ela a Fraulein Todwasser numa conferência de imprensa a apresentar em primeira mão as linhas orientadoras futuras da ONU. Considerando a proximidade entre o partido do candidato favorito e as Todwasser, ela achou aquilo uma espécie de aviso e de premonição.

Bem lhe tentaram explicar que o candidato favorito não era daqueles socialistas neo-marxistas, era dos antigos, melhor, dos intermédios, parece que até ia à missa, não sendo e forma nenhuma previsível que ele precisasse ou utilizasse o apoio das Todwasser. A Frau Angie continuava desconfiada. Depois de o líder deles ter andado tão excitado a tsiprar, ela já não confiava muito naquela gente e pediu a opinião a uns amigos, que conheciam um pouco o país. Estes conheciam basicamente as praias do sul, mas lá lhe contaram que o geringoncismo pós-eleitoral do partido tinha surpreendido muita gente, mesmo uma parte do seu eleitorado.

É certo e sabido que se há coisas que os alemães não suportam são imprevistos. A Frau Angie disse então: Não pode ser. Que avance a Cristalina, se não conseguir passamos à Depuralina. Não podemos, de forma nenhuma, correr o risco de ver a ONU geringonçar.

30 setembro 2016

Segredo desvendado

O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU estava a correr bem e muito sério. O nosso sério e boa pessoa António Guterres parecia estar bem lançado e com um favoritismo indiscutível.

Mas, eis que de repente, tudo se baralha. Para evitar a nomeação de A Guterres vai aparecer uma búlgara apoiada em força pela direita europeia, parece que também pela Rússia, e subvertendo todo o processo e descredibilizando o mesmo e até colocando sérias questões de legitimidade ao eventual futuro mandato da senhora. Porquê?

Ora bem, eu estou em condições de revelar (o Marques Mendes que se cuide com a concorrência) qual a razão para tanta agitação e excitação. Ao que parece, Angela Merkel teve um grande pesadelo. Sonhou ouvir a Mariana Mortágua a anunciar as linhas diretrizes do orçamento da Onu e, ao acordar, disse: Isto não pode acontecer!

15 abril 2015

Os bons e os maus rebeldes

Há cerca de 4 anos um movimento de contestação e de revolta armada na Líbia foi abertamente apoiado, mesmo militarmente, pela chamada comunidade internacional. Para já, passemos ao lado das consequências da queda do regime de Khadafi e dos tempos sombrios que o país vive e viverá.

Hoje, um movimento de revolta na Iémen, sequência duma grande cisão comunitária do país, que inclui um histórico recente de guerra civil, está a ser bombardeado pelos vizinhos, acusado de desestabilizar o regime “em vigor”. Há, portanto, bons rebeldes que devem ser ajudados e maus rebeldes que devem ser combatidos.

Numa análise simplificada o regime de Khadafi era hostil ao sunismo waabita das monarquias do golfo; os rebeldes houthis do Iémen são xiitas e aparentemente apoiados pelo Irão, o grande inimigo das tais monarquias árabes. Portanto, o critério para a distinção entre o bom e o mau rebelde será muito claro, quando visto assim a partir de Riad ou Doha. Que o conselho de segurança da ONU tenha autorizado o uso da força em favor dos rebeldes líbios e agora vote um embargo de armas aos houthis, é que me faz alguma confusão. Não que eu tivesse/tenha alguma simpatia por Khadafi ou pelos houthis. Apenas não consigo entender a lógica subjacente… !

08 outubro 2014

Feminismo ou outra coisa

Numa televisão muda de um espaço público passavam imagens da intervenção de Ema Watson na ONU, muito mediatizada, em defesa dos direitos das mulheres. Ao pensar no contexto e na premência do assunto, dei por mim a concluir existirem realidades muito distintas, pedindo estratégias diferenciadas. Em países como, por exemplo, a Arábia Saudita ou o Paquistão há evidentemente muito, muitíssimo a fazer. Só que nesses locais o problema dos direitos das mulheres é apenas um fruto, grande é certo, de um mal mais amplo. Se supostamente essa parte fosse resolvida, outras limitações da dignidade humana em geral permaneceriam, sendo aliás muito improvável que uma evolução parcial dessas pudesse acontecer. Aí, o combate não é simplesmente pelos direitos das mulheres, deve ser dirigido à raiz do mal.

Doutro lado, nesta nossa sociedade, haverá ainda muita gente que acredite honestamente que a mulher não deva ter os mesmos direitos e oportunidades que o homem? Não muita. Muitos mais serão aqueles que exploram as especificidades do sexo feminino em proveito próprio, não por convicção, antes por oportunismo. Sem teorizar em demasia, todos temos mais apetência para umas coisas e mais dificuldades noutras. Será sempre melhor uma pessoa de 2,2 m de altura jogar basquetebol e uma de 1,70 m jogar hóquei em patins do que vice-versa. No entanto, se os negros dominam a maratona, isso não deve impedir os brancos de praticarem atletismo, tentarem a sua sorte em pé de igualdade e serem avaliados pelos resultados objectivos.

A discriminação ser feita por convicção ou por oportunismo tem uma diferença grande e exige uma abordagem diferente. Aliás, aqueles que aproveitam qualquer pretexto para abusar de um ser humano e da sua dignidade, não são selectivos. Não é inédito mulheres com poder discriminarem negativamente outras mulheres. O simples “heforshe” pode parecer poético mas nos tempos actuais é até algo redutor. Em resumo, feminismo parece-me ser uma palavra curta.

23 fevereiro 2014

CPLP e Guiné Equatorial


Não consigo entender o discurso de “virgem ofendida” que se vê por aí a propósito da adesão da Guiné Equatorial à CPLP. Acho bem que tenha aderido e não estou a colocar à frente o interesse pragmático de ser um país rico, nem sequer o argumento de que se fosse pouco democrático mas pobre, certamente haveria mais compreensão. Também não vou usar o argumento de que às equivalentes Organização da Francofonia e Commenwealth não faltarão largos motivos de vergonha.

Será que todos os países de regime não completamente sãos devem ser expulsos da ONU, por exemplo? Acho que não. A história mostra que os “problemas” não devem ser excluídos, mas pelo contrário, integrados no “concerto das nações”. É uma forma de os pressionar e de os fazer evoluir. Chegar, apenas isso não chega, mas é certamente melhor do que ficarem isolados. Se há um país que quer integrar a CPLP e há um mínimo de enquadramento cultural e histórico para isso (não estamos a falar do Nepal) isso só pode ser um motivo de valorização da língua de Pessoa. Se, por exemplo, com isso se consegue uma moratória à aplicação da pena de morte, que há de negativo neste facto?

Bem ou mal este mundo é só um e não podemos pretender estarmos entre uma elite restrita que ignora quem quer. As organizações internacionais são um fórum de pressão que pode permitir que o mundo se torne melhor, e para todos os que nele habitam

23 janeiro 2013

Ignorar ou destestar?

Não sou muito adepto de sentimentos fortes negativos como odiar ou detestar. Desgastam e não acrescentam nada. O que não presta e não nos afecta deve ser simplesmente ignorado; contra aquilo que nos pode prejudicar efectivamente, devemos argumentar e actuar com discernimento, pragmatismo e firmeza.

Vem isto a propósito da visão dos “nossos irmãos” sobre o nosso país. Dentro da empresa estrangeira que “folheio” electronicamente com alguma regularidade está o El País, e uma coisa é certa: notícias de destaque sobre Portugal apenas as negativas ou caricatas. Ainda esta semana apareceu bem destacada na página principal a história do tal falso perito da ONU, com direito a foto e tudo. Não se pode dizer que seja muito actual, já passou um mês, mas entenderam que o ridículo merecia sempre divulgação em forma.

Hoje Portugal “regressou aos mercados”, tentando colar-se à Irlanda e ensaiando uma saída da tutela financeira externa. É um assunto sem dúvida de interesse e com forte correlação com a situação espanhola, que nos fundamentos não é tão diferente da nossa como eles gostariam. Não é notícia na página principal. Intrigado lancei uma pesquisa para averiguar se eles teriam realmente ignorado o tema. Encontrei-o algures numa página de economia. A ilustrar a noticia uma fotografia de 2 moedas de 1 euro: uma portuguesa e a outra não era irlandesa nem espanhola, mas sim …. grega! Que lata! 

01 agosto 2012

Mais uma estação...

Quando começou na Tunísia, toda a gente assobiou para o lado, é um acesso de febre que passará rapidamente. Enganaram-se todos e, imodéstia à parte, até eu… e Ben Ali caiu mesmo. Apesar da generosa exposição mediática proporcionada pela Al-Jazira, a causa principal foi mesmo a pressão popular interna.

Quando começou no Egipto, todos foram mais prudentes e, face à incerteza sobre o desfecho, apareceram os discursos públicos ambivalentes. E Moubarak caiu.

Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas, Khadafi iria seguir o mesmo caminho. No entanto a mobilização popular não foi suficiente para levar o processo até ao fim, mesmo com a fortíssima pressão mediática da Al Jazira, do Qatar. E então, Onus, Natos, States, Franças e Qataris tiveram mão pesada, teoricamente a proteger civis e na prática a garantir que Khadafi caía mesmo.

Hoje a Síria parece ir pelo mesmo caminho da Líbia e já se fala na necessidade de “proteger os civis”. Independentemente de todo mal que se pode dizer e constatar sobre o regime de El Assad, o que se passa na Síria não é certamente uma luta de “bons rebeldes” pela democracia e pela liberdade do povo. É a continuação da luta que dura há séculos entre os sunitas da península arábica e os xiitas que actualmente gravitam em torno do Irão. Se o Ocidente acha que o enfraquecimento do Irão é um efeito colateral positivo e desejável desta guerra, eu não estou assim tão convencido.

Que o Qatar e Arábia Saudita sejam uns paladinos e uns patrocinadores da liberdade e da democracia é, no mínimo, irónico. Que busquem aumentar a sua influência e a islamização sunita do Médio Oriente e Magreb, está na lógica das coisas. No entanto, não lhe chamem democratização nem presumam assim tão rapidamente que esses povos irão viver melhor no novo regime.

No norte do Mali, onde foi implantado uma espécie de estado islâmico radical graças às armas que sobraram do dilúvio que caiu na Líbia para “proteger os civis”, foi esta semana morto por delapidação (isto é: à pedrada mesmo) um casal, acusados e condenados pelo crime de viverem juntos e terem filhos sem serem casados.

29 maio 2011

Justiça cega para todos ?

Na minha pasta de viagem estava o último número da “The Economist” que tinha um artigo sobre as diligencias abertas pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia a mais dois dirigentes africanos: Laurent Ghagbo da Costa do Marfim e M. Khadafi da Líbia. Referia ainda uma possível aproximação do Egipto e da Tunísia ao TPI, o que daria alguns motivos mais de preocupação aos seus ex-líderes. Se juntarmos a condenação formal de Omar El Bashid do Sudão e a de Charles Taylor da Libéria que pode vir a seguir, vê-se que África está fortemente representada nos casos tratados por este TPI.

O artigo analisava o facto de os africanos se sentirem discriminados neste campo. Sem entrar muita na questão do continente estar efectivamente bem servida de déspotas criminosos, o artigo tentava concluir que não havia uma preferência especial por esse continente. No TPI existia muita África porque ele se substituía aos sistemas locais de justiça fracos.

Isto até terá alguma lógica, mas, por acaso, eu tinha na mesma pasta de viagem o livro “A era da mentira” de M. Elbaradei. Entre outras coisas ele descreve e pormenoriza o seguinte: a administração Bush tinha decidido a guerra no Iraque e estava disposta a todo o tipo de manipulação para ter as “provas” que sustentassem a sua legalidade. Não as teve antes, nem as conseguiu obter depois, apesar de muito terem procurado. Ou seja, o que ouvimos a administração americana dizer na altura não tinha por motivação esclarecer a verdade e eliminar um perigo mas sim “To get Saddam!”. No entretanto os milhares que sofreram e morreram são certamente humanidade e uma guerra com esta base parece realmente crime. Os USA não fazem parte do TPI, assim como não faz parte o Sudão, cujo caso foi aberto a pedido do conselho de segurança da ONU, onde por acaso os EUA estão representados permanentemente e com natural poder de veto… mas, a justiça para ser justiça deveria ser cega e não depender da nacionalidade nem da importância do criminoso.

09 outubro 2010

Acabou a Paz na China

A atribuição de um Prémio Nobel e em especial o da Paz tem várias dimensões. Uma será premiar uma personalidade pelo trabalho realizado em promoção da paz, outra, dado o seu prestigio, é o que a atribuição em si pode fazer pela paz.

O ano passado foi um exagero. Premiou-se uma pessoa unicamente porque que se pensava que ela iria promover a paz, ficando assim com o prémio condicionada e mais comprometida. Na minha opinião a escolha de Obama foi um erro, não se premeia o futuro com um cheque em branco.

Neste ano, a sensação é de que foi na mouche! A China é uma grande potência económica e acha que tem direito a ocupar um lugar correspondente à sua dimensão no concerto das nações. Por outras palavras, quer ir nadar para a piscina dos grandes. Pode ter o direito de o exigir, só que essa exigência implica abrengência, ou joga o jogo completo ou não pode ser. Não pode pretender um lugar permanente no conselho de segurança da ONU e, ao mesmo tempo, considerar que a declaração universal dos direitos do homem é um regionalismo ocidental que não se aplica à sua cultura. Não pode ameaçar com retaliações a Noruega pelo seu comité Nobel ter distinguido alguém que para eles é um “criminoso”, quando criminoso é fazer essas ameaças.

Este prémio foi um soco no estômago brutal que coloca a China numa encruzilhada tremenda. Ou não muda e perde autoridade moral para ser Grande com maiúscula, ou muda, mas aí, ao mudar o seu sistema, está a mudar os alicerces que lhe permitiram crescer até onde chegou. Grande imbróglio!

19 julho 2008

A Guerra a ser perdida


Algumas notícias :

1. “China ameaça liderança de Portugal em Angola”
“Primeiro-ministro desloca-se propositadamente a Angola para participar no dia de Portugal na FILDA (Feira Internacional de Luanda) [… ] Esta viagem acontece também numa altura em que a China ameaça o primeiro lugar de Portugal enquanto exportador para Angola”. (citando na íntegra o Jornal de Negócios de 16.7.08)

2. “China e Rússia vetaram sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Zimbabwe”. No dia 11/7, depois da fantochada eleitoral, o CS queria impor limitações de deslocação a Mugabe, congelar activos do regime e impor um embargo de armas. Aqueles dois países acharam que não valia a pena…

3. “Presidente do Sudão acusado pelo tribunal internacional de Haia de genocídio”. Parece não haver dúvidas objectivas sobre a “justeza” do processo, mas, por outro lado, há muitas inquietações pragmáticas sobre o resultado da aplicação da justiça. Pode simplesmente implicar que o “Ocidente” passe a ser encarado como um “inimigo não isento”, a ONU deixe de poder actuar, a situação humanitária no Darfur se agrave e… fique lá isolado como parceiro internacional aquele que “tem os olhos em bico”, dando um apoio forte ao regime, com poucas preocupações de moralidade e justiça.

Depois de uma Guerra Fria que em África declinou em guerrilhas, golpes de estado e movimentos de “libertação”, hoje anuncia-se uma “guerra económica” entre o Ocidente e a China e, pelo andar das coisas, acho que a China a vai ganhar. É que cada vez que o Ocidente tenta limpar o registo dos Mobotu's e forçar uma moralização no continente, está a dar um passo atrás e a perder pontos nesse conflito.

E não pensemos que se trata apenas de economia de empresas. Os batéis improvisados que demandam as Canárias, a Andaluzia e a Sicíla são uma consequência muito directa dessa África governada por Mugabe's e Bashir’s.