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20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

29 julho 2018

A propriedade e a partilha

O Huguinho nasceu em família favorecida e juntou uma enorme coleção de automóveis miniatura. O Sr. Padre disse-lhe que ele devia partilhar alguns com os meninos cujos pais tinham menos posses. O Huguinho aceitou o conselho e foi oferecendo algumas miniaturas, enfim, as mais estragadas e as de que gostava menos, aos colegas mais desfavorecidos. O Huguinho tornou-se muito solidário.

O Zezinho não nasceu nem rico, nem perto, mas empenhou-se muito em estudar, aprender e trabalhou seriamente. Hoje tem uma vida desafogada, paga os seus impostos e cumpre todas as obrigações sociais. O Huguinho continua a achar que se deve sempre dividir a propriedade com quem tem menos, mas o Zezinho não concorda completamente, muito especialmente quando está em causa o que se conseguiu por mérito e esforço próprio. O Huguinho continua a ver a riqueza como algo que herdou e vai herdando, culpabilizando-se por ser um favorecido. O Zezinho não sente culpa nenhuma por ter o que tem.

Um destes dias o Huguinho vai participar nuns trabalhos políticos que incluem temas como “A propriedade é o roubo: debate sobre a socialização dos meios de produção”. Ao Zezinho isto parece um grande disparate, mas existir no mesmo programa um outro painel - “Direito à boémia: necessidade da vida noturna para produção e radicalização cultural”, ajuda a entender melhor o contexto.

Obviamente que o universo não se resume a Huguinhos e Zezinhos, mas que há muitos Huguinhos por aí, há…. (e só enfia o barrete quem quiser)

17 maio 2018

Palavras tipo words


É consensualmente considerada caricata a expressão da “casa tipo maison, com janelas tipo fenêtres”. Curiosamente essa avaliação acaba aqui e não se estende ao “tomar um copo tipo drink” ou “fazer uma formação tipo training”. Certo que a sintaxe não costuma ser assim, mas a diferenciação/valorização por dizer a coisa noutra língua é igualzinha e como se sabe, e há quem tenha cantado, são muito mais valiosas as namoradas que “até falam estrangeiro!”. 

Deixemos de lado os neologismos técnicos, por exemplo na informática, onde se demorou bastante tempo a entender e assumir que “file” podia ser ficheiro e “folder” pasta. É certo que o “byte” ainda não é octeto, mas já se evoluiu bastante. 

Não haverá por aí algum exagero na frequência e facilidade com que se passa ao inglês para realçar ou sofisticar mensagens? Se calhar, não havia necessidade de recorrer tanto a “frases tipo sentences”, com “palavras tipo words”. 

Para cúmulo irónico e sintomático, já me passou à frente dos olhos uma página supostamente patriótica, muito convenientemente apelidada de “Rise up Portugal”. Eu, no lugar desse Portugal, não me motivaria muito com um apelo assim formulado, na língua da tal Majestade, por sinal historicamente nossa aliada, mas, enfim, cada casa com a sua língua.

03 maio 2018

A base de dados dos melhores, dos piores e vice-versa


Eu sei que agora com os cookies e outros cozinhados que nos fazem nos computadores e telefones, eles sabem tudo, tudo… mas…

Quando vejo mais uma declaração do melhor ou uma lista dos 10 mais qualquer coisa, por norma à escala mundial, ou os piores ou o assim, assim, não deixo de me surpreender e questionar quanto à origem de tanto conhecimento, rigorosamente escalonado. É certo que algumas ordenações, chamadas rankings para quem gosta de evidenciar modernidade, têm definidas as variáveis de base e os critérios de ponderação. Ao menos, nesses casos, podemos perceber um pouco de onde a coisa sai…

Noutros, pura e simplesmente a coisa parece vir do céu, (de um céu azul?) e ficamos a pensar como de lá terão caído, com mais ou menos trambolhões e reviravoltas. Qual o universo de onde saíram, com que método? Serão apenas fruto de umas sondagens entre amigos numa mesa do café ou entre tipo amigos de rede social?

Como me custa a aceitar existir assim tanta superficialidade sem fundamentação documentada e excluindo a simples feitiçaria, só vejo uma hipótese. Deve ,existir, algures, uma base de dados mundial, de fazer inveja aos googles, facebooks e afins, coisa que não é fácil, onde estarão registadas essas classificações e uns privilegiados irão aí buscar as tais ordenações. Tem que exsitir…! Não pode ser assim inventado à toa.

15 fevereiro 2018

Assim, tipo Porsche


Dizem que muitas pessoas, chegando a uma certa idade, têm uma espécie de mania, enfim… digamos que de procurar regredir uns anos, buscar uma segunda juventude… sei lá, coisas que por aí se dizem. Nessa fase, alguns compram um Porsche. De realçar que, estatisticamente falando, deve ser mais provável ter dinheiro para um Porsche aos 50 do que aos 20.

No entanto, talvez não seja mesmo preciso arranjar um Porsche, ou um Maserati conforme as preferências, para encontrar algum gosto de rejuvenescimento, liberdade e aventura. Uma simples, ou não tão simples, bicicleta também serve? Se calhar, sim…

O que é que leva tanta gente a sair para a estrada e para o monte e a galgar quilómetros e calhaus? Sim, há gente de todas as idades, eu próprio comecei a pedalar com alguma regularidade ainda na adolescência, mas … acho não errar muito se disser que há ali uma franja de idades assim mais para cima, dos que já não passam a noite nos copos, nem se distraem tanto em casa pela manhã.

Num artigo que li recentemente sobre a febre das bicicletas, que nalguns casos atinge temperaturas elevadas, até apresentavam um acrónimo inventado para o fenómeno – MAMIL (Middle Age Men In Lycra…). Sem comentários! Não, não sou um MAMIL!! Quando muito serei um JMIMELQEF (Jovem de Meia Idade Metade Em Lycra Quando Está Frio).

Há uma oração boa para caraterizar o contexto MAMIL – “Senhor, se eu morrer não deixes a minha mulher vender a minha bicicleta pelo preço que eu disse que ela custou!”. Enfim, mais uma vez, não será o meu caso, até porque a minha bicicleta de estrada ainda é a mesma da adolescência.

O indiscutível é existir uma enorme sensação de liberdade e de autossuperação ao ver deslizar quilómetros em cima de uma das máquinas mais simples e geniais que existem.

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.

03 novembro 2016

Coisas dos gostos na rede

Há uns dias, e por exceção excecional, interpelei uma figura pública na sua página facebook, achando que ele estava a apresentar uma posição mal fundamentada. Questionei-o se conhecia a “organização X”, bastante relevante no contexto em causa. Tive direito a uma resposta relativamente rápida, do género de declaração de ignorância. Dizia não conhecer, mesmo apesar da sua vivência, e deixava-me em desafio, com uma ponta de ironia, um convite a explicar.

Lá me apliquei a responder com uma exposição relativamente detalhada, resultando que a declaração irónica de ignorância era efetivamente infeliz. O senhor não respondeu nem comentou mais. Pode ser normal devido à grande quantidade de interações e solicitações, apesar de ter posteriormente comentado outras linhas abertas no mesmo post, talvez porque nessas ele “tinha razão e argumentos”.

O que eu achei mesmo delicioso foi que, antes de eu responder, a declaração de ignorância tinha 2 ou 3 gostos. Já depois da minha resposta a contagem subiu até aos 17, sem uma única reação na minha explicação. Diz bastante do “ouço apenas o que quero ouvir”.

Radicalização não é só a da kalashnikov. A intelectual também faz muitos estragos.

03 outubro 2016

Posso revelar?


Nem todos possuem fontes que permitam um espaço semanal de revelações em horário nobre, mas, desta vez, eu trago uma boa. O meu amigo Hans, funcionário numa chancelaria de Além Reno, contou-me a razão das reviravoltas de última hora no processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU. E passo a ficcionar:

Diz ele que há umas semanas a Frau Angie apareceu extremamente nervosa depois de um sonho, pior, de um pesadelo que teve. Viu ela a Fraulein Todwasser numa conferência de imprensa a apresentar em primeira mão as linhas orientadoras futuras da ONU. Considerando a proximidade entre o partido do candidato favorito e as Todwasser, ela achou aquilo uma espécie de aviso e de premonição.

Bem lhe tentaram explicar que o candidato favorito não era daqueles socialistas neo-marxistas, era dos antigos, melhor, dos intermédios, parece que até ia à missa, não sendo e forma nenhuma previsível que ele precisasse ou utilizasse o apoio das Todwasser. A Frau Angie continuava desconfiada. Depois de o líder deles ter andado tão excitado a tsiprar, ela já não confiava muito naquela gente e pediu a opinião a uns amigos, que conheciam um pouco o país. Estes conheciam basicamente as praias do sul, mas lá lhe contaram que o geringoncismo pós-eleitoral do partido tinha surpreendido muita gente, mesmo uma parte do seu eleitorado.

É certo e sabido que se há coisas que os alemães não suportam são imprevistos. A Frau Angie disse então: Não pode ser. Que avance a Cristalina, se não conseguir passamos à Depuralina. Não podemos, de forma nenhuma, correr o risco de ver a ONU geringonçar.

30 setembro 2016

Segredo desvendado

O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU estava a correr bem e muito sério. O nosso sério e boa pessoa António Guterres parecia estar bem lançado e com um favoritismo indiscutível.

Mas, eis que de repente, tudo se baralha. Para evitar a nomeação de A Guterres vai aparecer uma búlgara apoiada em força pela direita europeia, parece que também pela Rússia, e subvertendo todo o processo e descredibilizando o mesmo e até colocando sérias questões de legitimidade ao eventual futuro mandato da senhora. Porquê?

Ora bem, eu estou em condições de revelar (o Marques Mendes que se cuide com a concorrência) qual a razão para tanta agitação e excitação. Ao que parece, Angela Merkel teve um grande pesadelo. Sonhou ouvir a Mariana Mortágua a anunciar as linhas diretrizes do orçamento da Onu e, ao acordar, disse: Isto não pode acontecer!

26 agosto 2016

Em volta da proibição

Imaginando... que, preparado para mergulhar na onda que se aproxima, sou ultrapassado pela direita e pela esquerda por um monge tibetano e um franciscano, trajados a rigor!? Bom… digamos que seria algo pouco ortodoxo!

E o burkini? Isso é diferente. Apesar da sua ligação confessional clara, pode dizer-se ser apenas uma variante de um fato de banho, algo mais fechada. Mas há outra diferença. Enquanto não estou a imaginar o tibetano e o franciscano envolvidos em grande quezília com objetivo mutuamente exclusivo, com o burkini é diferente. Muitos, não todos mas muitos, dos que defendem a liberdade da sua utilização são os mesmíssimos que se (quando?) puderem, defenderão a proibição do biquíni!

Que bico de obra !

09 agosto 2016

Incêndios em destaque

Será impressão minha ou todos os anos os incêndios começam a sério depois de o primeiro ser notícia na comunicação social? Sem pretender ilibar, mesmo parcialmente, os verdadeiros responsáveis, especialmente da vertente criminosa, e recordando que ninguém pensa em deixar de noticiar crimes para estes não aumentarem, parece evidente que a comunicação social tem uma capacidade de “promover” comportamentos bastante visível neste caso dos incêndios. Como se pode explicar que, após um mês de Julho tão tranquilo, de um momento para o outro o país comece a arder da forma que está? Estiveram todos entretidos a ver a bola?

Para lá de pedir um pouco mais de recato à comunicação social em termos de exploração perniciosa do espetáculo e da desgraça, poder-se-ia, por maioria de razão, pedir mais preparação e prevenção a quem de direito e de função? É que isto ocorre todos os anos!

Em termos de impacto, e para lá daquelas coisas mais abstratas do meio ambiente (se ele já resiste há 30 anos, resistirá certamente até ao final da legislatura), fico a pensar nos turistas que tanto jeito nos fazem. Tão contentes estarão eles com a redução do IVA na restauração e das portagens nas autoestradas que nem se preocuparão muito com este fumozito. Recorrendo à habilidade política tão em voga ultimamente, até os poderemos tentar convencer que ajuda a proteger da radiação UV. Ou, se calhar, nem se importariam de pagar um pouquinho mais de IVA e de portagens para ver menos incêndios e assim cá voltaram e recomendarem o país aos amigos.

14 julho 2016

A má reputação no 14 juillet


Hoje é o dia da festa nacional francesa, da tomada da Bastilha, que iniciou uma revolução com tanto de liberdade e igualdade nos princípios como de tirania e injustiça na prática. Ao ver umas imagens dos desfiles nos Campos Elísios dei-me por mim a trautear a “Mauvaise Reputation”. Deu-me vontade de a traduzir e deixar aqui. Recordando aquela voz quase monocórdica com aquela viola quase monotónica… de um grande trovador.

Na aldeia, sem pretensão,
Eu tenho má reputação;
Que me mexa ou que fique quedo
Passo sempre por um sabe-se lá o quê.
Portanto, não faço mal a ninguém,
Seguindo o meu caminho de homenzito
Mas as bravas gentes não gostam que
Se siga um caminho diferente do deles
Todos me maldizem,
Exceto os mudos, está claro.

No catorze de julho,
Eu fico na minha cama quentinha;
A música marcial,
Não me diz respeito.
Portanto, não faço mal a ninguém,
Por não ouvir os sons do clarim;
Mas as bravas gentes não gostam que
Se siga um caminho diferente do deles
Todo mundo me aponta a dedo,
Exceto os manetas, está claro.

Quando eu encontro um ladrão azarado
Perseguido por um labrego;
Estico a perna e reconheço,
O labrego estatela-se
Portanto, não faço mal a ninguém,
Por deixar fugir os ladrões de maçãs;
Mas as bravas gentes não gostam que
Se siga um caminho diferente do deles
Todos correm atrás de mim,
Exceto os pernetas, está claro.

Não é preciso ser um Jeremias
Para adivinhar o destino que me está prometido:
Se eles encontram uma corda a seu gosto,
Passá-la-ão no meu pescoço.
Portanto, não faço mal a ninguém,
Por seguir caminhos que não vão dar a Roma;
Mas as bravas gentes não gostam que
Se siga um caminho diferente do deles
Todos virão ver-me enforcado,
Exceto os cegos, está claro.

Foto Googleada

Nota: Após o acontecimento de Nice, fiquei a pensar se este apontamento sobre o 14//7 não seria de oportunidade infeliz. Mantenho-no, no entanto, para não misturar coisas. Estes acontecimentos não devem mudar a nossa agenda.

15 junho 2016

Estes dias de junho…


Estes dias de junho são um pouco particulares para mim. Em tempos idos, marcavam o fim do período letivo e a descompressão do início das férias, com um certo cheiro de festa. Em termos biológicos, os dias alongados e o golpe de calor pesam-me. Tenho sempre alguma dificuldade em habituar-me a aumentos de temperatura bruscos.

Por estes dias viajei de Paris a Constantine, Argélia, na Air Algérie, em período de Ramadão, que, nesta altura do ano, representa cerca de 17 horas de abstinência. A hora prevista de aterragem era às 19h15 e o fim do jejum estava previsto para pouco antes das 20h. Apesar de em circunstâncias normais uma hora de atraso ser norma, desta vez não havia tempo a perder. Chegado o autocarro ao avião antes dos passageiros com necessidade de assistência especial, o comandante anunciou: ou os “doentes” estão cá dentro de 5 minutos, ou já não entram. Felizmente chegaram e entraram. Ainda havia umas 9 pessoas de pé e com sacos no corredor e o avião já mexia e manobrava, para sair do ponto de estacionamento. Felizmente conseguiram sentar-se e arrumar os sacos antes da descolagem. 
Não me apercebi se a contagem de passageiros chegou a ser feita. A minha janela de emergência, a da fotografia, tinha aspeto de já ter sofrido alguma urgência. 

Chegamos a horas a Constantine. Fiquei bem instalado. Apesar de inicialmente de me enviarem para um quarto já ocupado, felizmente a chave não abriu, e depois para um piso supostamente fora de serviço, com os corredores sem iluminação. Felizmente os telemóveis servem de lanterna, No dia seguinte a temperatura andava pelos 40 graus, provocando-me o tal golpe de calor. No final do dia, sentia-me pesado e quebrado, apesar de ter comido e bebido…

06 junho 2016

Respeito por Abril

Na lapela do seu melhor fato, o Presidente colocou o mais gordo e vermelho cravo do mercado, preparando-se para as comemorações do 25 de Abril. Isto passa-se numa vila ou numa cidade, no interior ou no litoral, à esquerda ou à direita. Estarão lá todos os representantes da sociedade, todas as suas forças vivas, e até mesmo o líder tradicional da oposição, a cumprimentar com uma ligeira cumplicidade. Este mundo dá muitas voltas e devemos ser uns para os outros. 

Boa notícia é já não aparecer o Brás, o antigo diretor da biblioteca municipal. Não é que o atrevido convidou para uma conferência, sem avisar ninguém, um individuo complicado, com umas ideias que muito embaraçaram o Presidente na sessão pública? Democracia também é respeito e, ele, legitmamente eleito, não tolera nenhuma falta de respeito. O Brás já foi substituído pelo Antonino, um bom rapaz, certinho, que até o ajudou a dar um toque literário ao discurso do dia. Sugeriu duas citações: a das “portas que Abril abriu” e a da “madrugada do dia inicial”. O Presidente optou pelas “portas”. Fazia-lhe alguma impressão a ideia de se passar algo importante de madrugada, enquanto dorme. 

Fechada a porta do carro da Presidência, uma nuvem escureceu-lhe o horizonte. Era naquela viatura oficial que a mulher costumava ir à capital, para as suas necessidades. Um funcionário da câmara, o Quincas, tinha tido o descaramento de a fotografar lá. Esse já tinha carta de marcha e o tio dele, que fazia umas obrazitas para a autarquia, bem podia ir procurar trabalho para outras freguesias. Também lhe faria bem esperar um pouquinho mais pelos pagamentos devidos. É fundamental ensinar o respeito. 

Quando chegou à sua vez, o Presidente colocou a voz para o discurso, tão atento à forma, que se lhe baralhou um pouco o conteúdo: “As portas que Abril não abriu…” Ninguém ousou assinalar-lhe o erro, isso seria falta de respeito. Foram bonitas as comemorações. Como é costume falou-se muito de democracia, liberdades, cidadania, participações, de todas essas coisas importantíssimas. 

Esta história é naturalmente ficcionada. Não conheço ninguém chamado Antonino.

19 maio 2016

Tempos diferentes


Hoje de manhã, ao entrar na VCI, ouço uma vibração tipo besouro... Desconfio de uma carripana suspeita à minha frente. Ultrapassei-a e a coisa continua, sempre. Queres ver que sou que tenho algum plástico solto aí a vibrar?

Nada disso. Uma centena de metros à minha frente iam dois minorcas daqueles carros de rally de agora, Citroenezitos concretamente, de cujo escape saia o tal som de besourito. Isto já não há roncos como antigamente!

28 abril 2016

Café para gatos


Foi notícia esta semana a abertura em Lisboa do primeiro café com gatos, “cat coffee” in english, que sempre soa mais fino. Constato que realmente estamos/estávamos muito atrasados. Já há cerca de 10 anos, e na Argélia, eu frequentava um restaurante com gatos, conforme a foto documenta, ali à entrada das ruínas romanas de Tipaza. Está bem que não se chamava “cat resto”, mas que eram gatos, eram…

Apesar de eu gostar de gatos e de felinos em geral, devo dizer por aqueles não tinha muita simpatia. Miavam desalmadamente aos nossos pés quando aparecia o prato de comida na mesa. Por outro lado, reconheça-se, eram úteis e tinham uma função ecologicamente meritória. Entre o fim da refeição e o levantar da louça de mesa, coisa que poderia demorar um bom bocado, iam adiantando a lavagem dos pratos e reduzindo a quantidade de restos a deitar ao lixo. O ambiente agradece.

Se bem entendi, no tal estabelecimento em Lisboa, pode-se comprar uma hora de convívio com os bichos por três euros, com oferta de café, água ou chã. Não haverá aqui nenhuma “exploração” dos animais? Que dirá o PAN? Acredito ainda que gatos que sejam mesmo gatos, não venderão assim a sua simpática companhia a qualquer um/uma, à hora…

23 fevereiro 2016

Os muros de Francisco e Donald


Antes de mais e como introdução clarificadora. Genericamente aprovo a postura e as iniciativas do Papa Francisco e preocupa-me muitíssimo o cenário de um Donald Trump poder vier a ser presidente dos EUA.

Dito isto, achei de uma enorme infelicidade e despropósito o Papa ter declarado o candidato “não cristão” por querer construir um muro entre os EUA e o México.

Em primeiro lugar, muitas outras figuras públicas e poderosas possuem um currículo com atos não cristãos enormes, muito piores do que construir um muro, e efetivamente realizados, não apenas prometidos/ameaçados, sem terem sido assim diretamente repreendidas pelo Vaticano.

Em segundo lugar o Papa devia/poderia ter criticado a natureza da atitude mas não a genuinidade da crença. Seria muito mais correto.

Em terceiro lugar, e falando de muros, só conheço um Estado no Mundo completamente murado. Chama-se Vaticano. Depreendo portanto, que seguindo os preceitos e a definição de cristandade do Papa, esses muros serão derrubados e o espaço aberto de par e par a todos os pobres e desgraçados do mundo….

20 novembro 2015

Olhar para os americanos

França adota medidas de segurança reforçadas nos comboios – “Vamos colocar um americano em cada carruagem!”.

Esta imagem foi publicada num jornal argelino, após a tentativa de atentado num TGV em França, em 21 de agosto passado, onde o terrorista foi neutralizado por três americanos e um inglês sexagenário. Para lá desta suposta diferença de atitude do lado dos americanos, há um aspeto mais objetivo e significativo que tem a ver com elaboração e adoção de legislação para lidar com esta ameaça e particularmente o registo centralizado dos passageiros aéreos. Os Estados Unidos realizaram-no e exigiram da Europa os dados pessoais de quem para lá vai. Como é habitual, a Europa protestou mas lá teve que aceder.

Do lado Europeu, a criação de um registo comum, o PNR, “Passanger Name Record”, avança, mas muito travado pelo Parlamento Europeu. A celeridade é tal que em julho deste ano, a comissão respetiva do PE aprovou um projeto da Comissão Europeia, inicialmente apresentado em 2011. Os novos atentados voltam a trazer o assunto para o topo da agenda. Qual a frequência necessária para garantir que o PNR se conclui e que haverá coordenação e circulação de informação franca entre os vários países europeus: um atentado cada dois meses?

Curiosamente, do lado das vozes críticas, o bizarro novo líder do Partido Trabalhista Britânico, o Sr Corbyn, conseguiu dizer, e ainda a quente, não concordar muito com as instruções dadas à polícia de atirar a matar contra os terroristas. Neste caso, aparentemente, a chave não estará na frequência, mas sim na proximidade. Dirá o mesmo se acontecer algo no seu quintal?

Se a Europa não necessita de colocar um americano determinado em cada esquina, não lhe faria mal inspirar-se da capacidade de tomar e implementar decisões rapidamente, em vez de ficar eternamente a discutir subtilezas, enquanto o polvo maligno cresce e vai chacinando inocentes.