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10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

13 janeiro 2026

Opus

Certamente que haverá muita gente boa e bem-intencionada associada ao movimento Opus Dei.

Quem se quiser informar (e não pelo “Código da Vinci”) encontrará facilmente alguns detalhes que farão franzir sobrolhos. Uma organização elitista focada no poder, abusos de poder e o degradante tratamento das auxiliares, coerções e limitações das liberdades dos seus membros, mortificações corporais e outros sacrifícios físicos algo medievais, manipulações tocando gente demasiado jovem para ser embarcada nestes projetos, roturas familiares pouco cristãs, altos jogos de xadrez no Vaticano apadrinhados por João Paulo II. Enfim, muita coisa muito pouco enquadrável e abençoável pelos princípios cristãos, sendo que, se Cristo voltasse à Terra, talvez os tratasse pior do que fez aos vendilhões do Templo. E, mais uma vez, todos aqueles que participam e acreditam estar num campeonato pio e meritório, tentem informar-se (se puderem) e ser objetivos.

Sobre o pano de fundo do colapso do Banco Popular, este livro faz uma viagem detalhada sobre a história da organização, visitando muitos dos detalhes que em grande parte já se conheciam. O que me deixou muito surpreendido e mesmo chocado foi, particularmente relativamente aos EUA, a facilidade com que milhões e milhões podem ser oferecidos e circularem sem o público saber bem quem paga o quê e para quê. É conhecido que por lá os donativos para as campanhas eleitorais, por exemplo, atingem dimensões astronómicas, chocando um pouco tentar imaginar o que os doadores estão a (tentar) comprar que possa justificar tais valores.

Quanto à sua entrada e influência nos meios académicos, entre estes e os wokes, o Diabo pode estar à vontade para escolher…!

Voltando ao Opus, resta esperar que o Papa Leão XIV continue os passos do Papa Francisco, refreando os ímpetos e o poder da organização, caso contrário parece-me existir um risco de vermos uma mutação da religião, com José Maria Escriva a substituir Cristo como figura fundamental e este a deslizar para partilhar o fundo da cena com Abrão.

Em conclusão o que me repugna fortemente são organizações, esta e outras semelhantes, utilizarem boas causas como simples engodo para projetos de poder, atraindo e enganando gente bem-intencionada.

Se alguém discordar, diga… 

Sobre estas reflexões de há 20 anos, pouco mudou...

24 outubro 2025

A rua da burca


Portugal legislou algo que implica a proibição da utilização da burca em espaços públicos e “naturalmente” é tema para muita discussão, opinião e polémica. Cruzaram-se várias dimensões. A primeira será a sua “estranheza” face à nossa realidade. Para viver numa dada sociedade é necessário respeitar um certo número de “códigos” e práticas, que fazem a harmonia social e com o qual essa sociedade se identifica.  Não é xenofobia! Cuspir para o chão, arrotar em público, atirar piropos a mulheres que passam na rua, andar em tronco nu ou atravessar a rua fora da passadeira são pequenas coisas naturais e aceites em certos contextos e proibidas ou no mínimo mal vistas noutros. A visão de uma mulher “embrulhada” na rua não pertence certamente à nossa paisagem social.

A outra dimensão é a confessional e eventual conflito com as crenças de cada um. Aqui o Parlamento pode estar a colocar a foice em seara alheia, mas, no fundo, a burca não é uma “necessidade” da prática religiosa. Na origem o Corão impõe a necessidade de a mulher se apresentar publicamente com recato, sendo que a definição de recato evoluiu. Ainda há poucas décadas, por estes lados, uma mulher não devia sair à rua sem cobrir o cabelo… isso evoluiu.

Em resumo, era do interesse do Islão e dos muçulmanos procurar alguma atualização e contextualização dos seus princípios para poderem viver em harmonia nas sociedades ocidentais atuais. A burca é um anacronismo que devia ser banido. Se devem ser os Parlamentos a promover essa evolução é outra questão, mas que está mais do que na hora de fazer algo, está!

09 outubro 2025

Olhando o Islão (XI e final)


11) Quo vadis Islão

Como é óbvio, a larga maioria dos muçulmanos não são violentos e gostariam apenas de viver a sua religião em paz com eles e com o mundo, mas há um contexto problemático:

a)       Na sua génese, a religião, que simultaneamente cria um Estado, é muito regulamentar e algumas regras necessitam de revisão com as evoluções sociais

b)       A ausência de uma figura ou instituição globalmente reconhecida que lidere e contextualize e adapte as regras aos novos tempos

c)       A existência dos salafistas, sempre prontos a assinalar falta, a mobilizar as massas e a desafiar o poder cada vez que há um cheiro de mudança

Alguns exemplos simples

Há 14 séculos, uma mulher fazer-se sozinha à estrada de Meca para Medina corria sérios riscos de acabar mal. Nesse contexto, por essa razão, faria sentido decretar que uma mulher não devia viajar sozinha. Hoje, se essa regra for aplicada sem contextualização, acontece o seguinte. Uma muçulmana quer deslocar-se do Porto a Lisboa para encontrar amigos, visitar uma exposição ou assistir a um espetáculo e

·       Ou vai na mesma sozinha e não cumpre os preceitos da sua religião, problema de consciência

·       Ou é obrigada a arranjar uma companhia masculina, humilhante

·       Ou desiste de viajar, frustrante.

Não há saída digna, além de existirem vários outros pontos do Corão onde é explicitada a inferioridade da mulher face ao homem, o que não é destes tempos atuais.

Há 14 séculos a escravatura era algo de perfeitamente comum naquela sociedade (sim, não nasceu com os europeus no Atlântico, mas isso não é tema aqui). No Corão, há um conjunto de definições e regras relativas a este estatuto, perfeitamente natural e aceite na época. Quando uns séculos mais tarde, alguém diz que a escravatura deve ser abolida, isso vai encontrar resistência. Se no livro sagrado ela é permitida e regulamentada, com que direito vamos mudar isso? Entre os males e os bens da colonização europeia, é ela que irá forçar essa abolição. Na Mauritânia, ali abaixo de Marrocos, ela foi oficialmente abolida apenas em 1981. A prática parece ser outra coisa.

Qual a saída, não sei. Na Europa vivemos um processo de disrupção e da separação da Igreja das estruturas do Estado a partir do século XIX. Envolveu revoluções e algumas ações nem sempre razoáveis e justas, mas funcionou.

O Islão necessita de resolver dois problemas interligados. Um é a revisão/atualização de aspetos regulamentares anacrónicos e ter liderança reconhecida para isso. Uma referência a Marrocos. O rei, que é respeitado e reconhecido, é simultaneamente o “Comandante dos crentes”, o que permite alguma legitimação da legislação que toque aspetos religiosos.

O outro aspeto é o islamismo ou a religião usada como ferramenta política. Não tenhamos dúvidas. A larga maioria dos que buscam o poder, usarão todas as ferramentas disponíveis para alcançar os seus objetivos. Enquanto a alavanca da religião funcionar, não faltará quem a utilizará. Como se resolve isto e se anula… não sei !!

E lamento não poder concluir de forma mais assertiva.

Começou aqui ... e acabou.

03 outubro 2025

Olhando o Islão (X)


10) Os petrodólares

Após o fim do califado, deixou de existir um líder global do mundo muçulmano. Tentativas de ocupar o lugar não faltaram. Gamal Nasser, a partir do Egito, sonhou com um “pan-arabismo” que voltasse a reunir todos aqueles povos. O rei Hussein da Jordânia, invocando que a sua ascendência chegava a Maomé, também com isso sonhou. Penso que terá sido por essa ambição que a Jordânia permaneceu na Cisjordânia, após a guerra da independência de Israel, orgulhosamente controlando o Jerusalém histórico e impedindo a formação na altura do tal Estado Palestiniano, de que tanto se tem falado depois.

No centro da península arábica, entretanto tornada saudita, estão os locais originais da religião. Meca, a Meca, e Medina, a cidade de onde a expansão começou e onde está sepultado Maomé. Os sauditas têm pretensões a exercerem algum tipo de liderança sobre toda a comunidade muçulmana.

Após a guerra do Yom Kippur de 1973 e do choque petrolífero, as receitas do ouro negro disparam. Os sauditas estão ricos e têm os meios de tentar concretizar as suas pretensões. Como habitualmente compram tudo feito, vão imprimir a cartilhas da Irmandade Muçulmana, que não anda muito longe do seu credo rigoroso wahabita, vão construir escolas/madraças e pagar professores/imanes para isso ensinaram.

Portanto... temos um terreno fértil que são as desilusões pós-independências; temos as sementes na ideologia salafista e acrescenta-se a irrigação com os petrodólares. Estão criadas as condições para o desabrochar das radicalizações.

Convém referir que as relações da Irmandade com as monarquias do golfo, não são continuamente estáveis. Há alturas em que o poder sente que ela tem demasiada influência e ambição, os ameaçam e zangam-se. Neste momento com o Qatar está tudo bem e com os sauditas está tudo mal… amanhã, logo se vê.

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02 outubro 2025

Entre a vida e o evangelho

Ernest Renan foi uma das grandes figuras da filosofia e teologia do século XIX. Não diria dos mais relevantes porque a minha bagagem no domínio não chega para estabelecer superlativos. De todas as formas, vale a pena ler o que ele escreveu.

O livro acima representado, “Vida de Jesus” é uma visão de historiador, a partir da análise crítica dos evangelhos e de outras fontes contemporâneas, procurando estruturar e descrever a vida de um dos personagens mais marcantes da história da humanidade.

Uns séculos antes, o livro estaria na fogueira e o seu autor provavelmente também. Isto porque a realidade eventualmente não coincide com o que os cânones oficiais em concílios posteriores consagraram.

Acho que o livro é potencialmente mais disruptivo e polémico para os crentes do que, por exemplo, o cá famoso livro de J. Saramago, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Por muito provocativo que seja, este é um livro de ficção e porque, desculpem lá alguns, Saramago põe uma narrativa diferente da oficial na boca de Cristo, mas, de certa forma, não belisca o seu estatuto divino. É divino, na mesma, mas de forma diferente.

O livro de Renan é científico e cru. Ele humaniza Cristo, mas isso acaba, por efeito colateral, por desumanizar a religião. Acredito que toda a religião, e respetiva fé, necessitam de uma dimensão “fantástica” e algo para lá da racionalidade objetiva. O livro desmonta uma boa parte dessa “fantasia” …

A génese das religiões, e especialmente com a dimensão que esta irá alcançar, é um tema fascinante. Apesar da minha reduzida bagagem, parece-me que este livro será... obrigatório. Fica feito o aviso aos crentes.

 

 

01 outubro 2025

Olhando o Islão (IX)


9) O pós-colonialismo

Após o final do império Otomano, a região vai desmembrar-se em vários Estados, mais ou menos homogéneos, mais ou menos patrocinados pelo Ocidente. Já em 1916 o acordo Sykes-Picot (UK – França) definia a futura repartição da herança Otomana entre os dois países. Grosso modo Damasco para os Franceses e Bagdad para os britânicos… mais uns trocos.

A colonização europeia do Médio Oriente será efetiva apenas entre as duas guerras. No final da II, as independências chegam, incluindo para o Norte de África. Este novo estatuto é saudado e gerador de muitas expetativas. Agora que somos nós que mandamos em nós, sem interferenciais culturais e religiosas externas… agora é que vai ser!

Uma geração depois torna-se óbvio que não foi grande o sucesso. Não é aqui o espaço para desenvolver a análise das razões, mas o facto é que os resultados são dececionantes.

Os novos regimes, muitos deles autoritários e com forte dominância de uniformes militares, são muçulmanos, naturalmente, mas “non troppo”. Do ponto de vista social e especialmente do estatuto da mulher são até mais tolerantes do que se verá mais tarde.

À vista do que corre mal, virão os salafistas dizer “isto corre mal porque os nossos dirigentes não são muçulmanos rigorosos, como deveriam ser”. Este desafio vai correr mal para muitos, ver acima Nasser e Qutb.

Esta pressão política religiosa terá como resposta um maior rigor nas práticas, buscando assim os regimes protegerem-se contra as acusações de serem “fracos muçulmanos”. Em sentido contrário, claramente, a todas as tentativas de modernização.

Um pequeno exemplo. Após a independência a Argélia mantém o fim de semana ocidental, sábado e domingo; em 1976 sobre a pressão islâmica passam a quinta-sexta-feira; em 2009, por pressões de competitividade num mundo, apesar de tudo mais globalizado, passaram a um meio termo de sexta-feira e sábado. Um bom exemplo destas evoluções e involuções.

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28 setembro 2025

Olhando o Islão (VIII)


8) Chega o salafismo

Quando os otomanos perceberam que estavam a entrar em decadência, nomeadamente face a uma Europa “Iluminada”, eles vão tentar adotar as modas e as técnicas que os poderão ajudar a não ficar para trás. São ricos, compram os frutos, mas não plantam as árvores. Nas causas, múltiplas, da decadência do império otomano, creio existir fundamentalmente um défice na geração de conhecimento e, também, um esquema de enriquecimento piramidal. Novas conquistas para alimentar as anteriores. Quando o ciclo para…

Nas cinzas da derrota, Mustafa Kamel Atartuk cria um novo Estado, Turquia, muçulmano é certo, mas onde a religião não entra em escola, tribunal ou parlamento…

Do lado oposto da barricada, há quem pense de outra forma. No passado, éramos poderosos e bem-sucedidos; quando nos afastamos dessa pureza original e tentamos copiar os infiéis, pioramos. A solução passa por “ò tempo volta para trás” … voltar a viver como o profeta Maomé vivia… isto é o salafismo, voltar às origens.

Dentro desta movida, vai ser, e é hoje ainda, muito relevante a Irmandade Muçulmana. Criada em 1928 no Egito por Hassan Al Banna. Ela vai desenvolver e concretizar essa doutrina de… O Islão é a solução; é preciso islamizar o individuo e a sociedade, é preciso lutar por isso, se a lutar tiver que ser violenta, que seja, se se morrer nessa luta, está certo.

Al Banna acreditava na pureza do rigor religioso, com uma profunda rejeição da cultura ocidental. No mundo árabe, eles serão durante um século também uma força política de oposição aos regimes pós-coloniais, não suficientemente islâmicos no seu ponto de vista. Essa ameaça leva-os a serem perseguidos e Nasser, no seu Egipto natal, não hesita em condenar e executar Qutb, um dos principais teóricos e ativista do movimento.

Um século depois, é curioso fazer um ponto de situação e dos seus aderentes, presentes.

Sudão - o criminoso Omar Al Bashid de toda a barbaridade no Darfur

Marrocos - o partido PJD, grande vencedor das eleições de 2011 após as “primaveras”

Tunísia – Ennahda no governo após eleições pós “primaveras”

Egito – Mohamed Morsi, eleito presidente após “primaveras”

Turquia – Erdogan, partido AKP ? (não confirmo nem desminto)

Arábia Saudita e Qatar --- tem dias

Palestina - Hamas

França – Muçulmanos de França (ex UOIF)

Se bem que depois das “Primaveras” o movimento tenha tido bastante sucesso democrático, a prática ficou longe das expetativas e a seguir viram o seu poder institucional diminuir.

Sobre a Europa, de notar que as comunidades muçulmanas emigradas tendem a ficar agrupadas (e agarradas) à origem … os marroquinos de um lado, os argelinos de outro, depois os turcos, etc.

Tarik Ramadan, neto do fundador Hassan al Banna, foi uma figura muito popular deste movimento em França por apresentar um discurso diferente, especialmente dirigido aos jovens. Vocês são franceses e, simultaneamente, muçulmanos e devem poder viver plenamente a vossa religião no vosso país. Esta mensagem tem duas leituras. Por um lado, uma mensagem de integração, por outro lado, as instituições francesas devem-se adaptar para vos permitir viver a vossa religião sem limitações. Em todas as polémicas sobre o uso/proibição do véu, presença de presépios de Natal em espaço público, burkinis nas piscinas, etc, há a assinatura e uma intervenção muito ativa deste movimento. De há uns anos para cá, Tarik Ramadan caiu em desgraça e risco judicial, devido a umas relações extraconjugais não consentidas…

Sendo a cartilha fundadora da Irmandade fortemente salafista, mesmo sem descartar a violência, os discursos externos atuais são bastante mais macios, mas há testemunhos de dissidentes que apontam para importantes discrepâncias entre as convicções internas e as mensagens públicas. O tema é tão potencialmente sensível que o ministério do Interior francês se deu ao trabalho de realizar um estudo específico sobre as formas dissimulados como os islamistas tentam subverter valores fundamentais da república. Ver aqui.

Uma curiosidade. Em 2003, N. Sarkosy cria o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), uma associação supostamente representativa do Islão no país, com a qual o poder político pudesse reunir, discutir e tomar decisões relativamente à tal adaptação da sociedade e das instituições à religião. As disputas internas pelo poder foram mais fortes do que as ações concretas desenvolvidas, nunca conseguiu grande peso e hoje existe, mas em estado vegetativo.

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22 setembro 2025

Olhando o Islão (VII)


7) Quando o califado acaba

 Depois das conturbações iniciais, chegou a dinastia dos Omíadas de Damasco em 661, substituídos depois pelos Abássidas de Bagdad em 750. Nesta transição há um omíada refugiado em Córdova que a autonomiza inicialmente em emirato em 756, posteriormente evoluindo para califado em 929

Entre 910 e 1171, aparece no norte de África e no Egito um califado opositor xiita, os fatímidas, conforme o nome da filha de Maomé.

Entre 1261 e 1517, formalmente o califado continua Abássida, mas o poder efetivo está nos sultões Mamelucos do Cairo.

Em Marrocos houve dois califados secundários. O Almorávida entre 1038 e 1147 e os Almóadas entre 1145 e 1269. Ambos vieram dar uma ajuda aos muçulmanos da Península Ibérica, sendo contra estes últimos que decorreu a reconquista final do Algarve e de quase toda a Andaluzia, exceto Granada.

Em 1517, o poder passa para os Otomanos, que serão poderosíssimos, controlando todo o Mediterrâneo oriental e o norte de África, chegando a ameaçar a Europa central, mesmo Viena. A tristemente famosa batalha de Alcácer Quibir tem algo a ver com isto, nomeadamente com a disputa pelo acesso dos Otomanos ao Atlântico.

O califado/império otomano vai entrar em decadência, tema para muitas reflexões e especulações, e extingue-se após a criação do Estado da Turquia após o final da I Grande Guerra.

Durante todos estes séculos, todo o muçulmano teve o seu califa, sucessor de Maomé, mesmo que não coincidente para toda a comunidade. Este período, após a I guerra, é um choque enorme. Os otomanos estiveram do lado dos derrotados, o império colapsa e, para cúmulo, desaparece a figura do califa. Há uma derrocada e uma falência…

Como vai reagir o mundo muçulmano a este descalabro…?

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19 setembro 2025

Olhando o Islão (VI)


 6) O califado, a continuação do Estado Islâmico

Maomé morre em 632, líder religioso e político, sem deixar definida a organização posterior da religião e sua administração. Não quis, não pode, não o deixaram… não se sabe!

Começa uma disputa pela respetiva herança que não é apenas a liderança espiritual. Há duas fações principais. Por um lado, os defensores da primazia da tradição (suna em árabe), apontando Aboubakr, um dos companheiros de primeira hora; por outro lado os defensores de uma linha familiar próxima, neste caso apontando a Ali, seu primo e genro, casado com a sua filha Fátima. São os xiitas, os seguidores de Ali.

A escolha inicial fica com Aboubakr como califa, literalmente o sucessor, o que vem depois, cuja principal tarefa inicial serão as guerras da apostasia. Guerrear para manter convertidas as tribos que se queriam desvincular após a morte de Maomé. Os tempos são conturbados e dos quatro primeiros califas, três morreram assassinados, até entrar em cena a primeira dinastia, os Omíadas de Damasco.

Apesar das descontinuidades dinásticas e dos califados “paralelos”, como os fatímidas no Egito ou aqui em Córdova, o princípio é existir um único sucessor de Maomé que concentra todos os poderes e lidera todos os muçulmanos. Isto traz alguns problemas.

O primeiro é a dificuldade no posterior desmembramento do califado único em vários Estados-Nação que ficam decapitados da liderança religiosa. Outra é a falta de uma estrutura hierárquica religiosa autónoma.

Como comparação e ilustração, a religião cristã tem padres, bispos, cardeais e papa, que ao longo da história tiveram problemas e interferência dos poderes temporais, é certo, mas que se mantiveram como estrutura intrinsecamente independente. Quando foi precisar decidir e atualizar princípios e práticas, houve concílios que o discutiram e decidiram. Quando amanhã se quiser decidir terminar o celibato dos padres ou a ordenação das mulheres, há um sítio para o tratar.

No islão sunita, isso não existe e daí a enorme dificuldade em consensualizar a adaptação da prática religião às novas realidades e resolver questões anacrónicas, como exemplo o estatuto da mulher.

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14 setembro 2025

Olhando o Islão (V)


5) A construção do Estado Islâmico

Esta fase de expansão (e uma boa parte das seguintes) é feita pela espada, diferente de pelo menos os 3 séculos iniciais do cristianismo. Este nasce e expande-se em contrapoder. Cristo não empunha armas, não conduz exército nem administra territórios. É de realçar que o cristianismo encontra um poder, o império Romano, muito forte, sendo assim possível o contrapoder também ser forte.

Na península Arábica não há Estado. Principalmente na zona central da península há uma tradição de tribos autónomas e as cidades são algo recentes. A expansão do Islão é feita simultaneamente com a construção do Estado. Maomé é líder religioso e político (e militar).

No texto aqui, desenvolvo a minha visão das quatro dimensões nas interações da religião com a sociedade. Não o vou repetir na integra, mas sugiro a leitura. Muito resumidamente: a espiritual, original, a relação do ser humano com a transcendência; a comunitária, como característica identitária de um grupo; a regulamentar, com as regras do bem-fazer a irem para lá da dimensão espiritual e da prática religiosa, finalmente, a da manipulação, quando o poder decreta, interpreta ou manipula as regras para seu benefício próprio exclusivo.

A concentração de todos os poderes numa única pessoa é um fator potenciador da manipulação. Hoje na Arábia Saudita e nos Emiratos Árabes, pelo menos nestes, a apostasia, abandonar a religião, é punível com pena de morte. Perdão?? Isto parece mais castigo por deserção, não? A explicação é a seguinte. Aboubakr, o primeiro califa, sucessor de Maomé após a morte deste, tem dificuldades em se impor (detalhes mais à frente). Algumas tribos declaram que com Maomé tinham aliança, mas que ela se extingue com a sua morte… Aboubakr lembra-se que Maomé terá dito: “Muçulmano uma vez, muçulmano para toda a vida; filho de muçulmano, muçulmano será e muçulmano que o deixa de ser, morte”, criminalizando assim a apostasia.

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12 setembro 2025

Olhando o Islão (IV)


4) A hégira e a dimensão bélica

Maomé começa a pregar a “nova” religião e o Deus único em Meca em 613.  Como é natural estes “novos” movimentos criam sempre alguma instabilidade social e em geral não são bem aceites pelos poderes instituídos, que os vêm como um desafio ao seu estatuto.

Durante algum tempo Maomé beneficia de proteção no xadrez tribal de Meca, mas acaba por a perder e ficar exposto e em perigo. Assim em 622 ele e os seus companheiros fogem para a cidade de Medina. É a Hégira (fuga) e marca o início do calendário muçulmano. O nosso 2025 não corresponde, no entanto, a 1403 (2025-622) mas sim a 1447, dado o tempo islâmico ser contado em ciclos lunares, que não dividem perfeitamente o ciclo solar. Todos os anos ficam a faltar cerca de 11 dias. As festas religiosas islâmicas e as datas em geral deslizam ao longo do ano solar.

Numa primeira fase, Maomé alia-se aos habitantes de Medina e instala-se uma guerra aberta entre as duas cidades. Na guerra há mortos, feridos, saques, prisoneiros, covardias, heroísmo e muitas coisas mais. O Corão revelado durante esta fase de Medina tem uma pendente beligerante muito forte. Vai servir de base e inspiração aos jihadistas de todos os tempos.

Os atritos com os judeus de Medina acumulam-se, dada a relutância destes em aceitarem a conversão. Em 624 a tribo judaica de Medina, os Banû Qurayza, é “julgada” e exterminada por se ter recusado a participar na batalha da Trincheira. Na base da condenação, o facto de serem traidores potenciais. Nada fizeram, mas supostamente estariam preparados para fazer. Todos os homens são executados, mulheres e crianças escravizadas.

É no mesmo ano que a direção das preces é mudada de Jerusalém para Meca.

Os capítulos do Corão, suras, revelados nesta fase de Medina incluem uma dimensão bélica e de vingança contra os infiéis de Meca, com apelos diretos à guerra e morte. Alguns exemplos:

Corão 2.191 – E matai-os, onde quer que os acheis, e fazei-os sair de onde quer que vos façam sair. E a sedição pela idolatria é pior do que o morticínio. E não os combateis nas imediações da Mesquita Sagrada, até que eles vos combatam nela…

Corão 9.5 -   Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho.

A guerra corre de feição a Maomé e Meca é conquistada pelos muçulmanos em 630. Em 632 Maomé morre controlando já a totalidade da península arábica.

Todos estes fatos têm que ser analisados face ao local e ao tempo onde ocorreram, mas é inquestionável que o apelo à morte dos infiéis existe bem explícito no Corão.

Quando face a algumas barbaridades atuais ouço dizer que “Isto não tem nada a ver com o Islão, o Islão é uma religião de paz e amor”, fico a pensar. Ou quem o declara não sabe o que diz e devia abster-se de o dizer assim em palco, ou sabe e é mais grave. Enganar infiéis não é “pecado”. Os jihadistas ao ouvirem afirmações destas, por parte de quem sabe o que está a dizer, podem interpretá-lo como uma validação indireta dos seus atos violentos.

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11 setembro 2025

Olhando o Islão (III)


3) Diferenças entre as três religiões do “Livro”

O Islão e o Cristianismo partilham os mesmos alicerces, o Judaísmo, mas o contexto em que se desenvolvem e a personalidade dos seus profetas principais dão origem a dois edifícios muito distintos.  O que é que os distingue, para lá do dia santo judeu ser sábado, dos cristãos domingo e dos muçulmanos sexta-feira?

A Bíblia e a Tora são também livros sagrados para o Islão, mas supostamente incompletos, e os muçulmanos deverão evitar a sua leitura, para não se baralharem.

Na primeira fase, o Islão tem Jerusalém como cidade-farol, como as outras duas religiões. Jerusalém é a “Meca” inicial, para onde são dirigidas as preces. Só mais tarde mudará para Meca, Meca. O carácter sagrado de Jerusalém para os muçulmanos é devido precisamente a estas raízes comuns. Supostamente Maomé foi uma vez teletransportado para lá e daí, de onde é hoje a cúpula do rochedo, onde Abrão terá sacrificado o carneiro, subiu em visita ao Céu…

Para um muçulmano, ser cristão é sofrer de uma espécie de deficiência, atraso… porque ficar numa religião mais antiga, se existe outra, mais recente e mais completa? É mesmo assim?  O Islão engloba todos os princípios do cristianismo e acrescenta algo, espiritualmente falando? Para mim, objetivamente, não.

Convém recordar que apesar da base judaica do Cristianismo, ele vai metamorfosear-se para uma postura de tolerância, perdão e humanismo. “Todo o homem é meu irmão”; “Oferecer a outra face…” e, muito relevante, o “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. Nada disto passou para o islamismo, que se mantém no rigor castigador do Deus impiedoso do Antigo Testamento.

Há mesmo uma passagem explicita, no Corão. Numa família judaica de Meca é identificado um caso de adultério. Conforme os códigos em vigor, o castigo será a delapidação da mulher. A família, no entanto, com pouca vontade de o aplicar e sabendo que há uma evolução da sua religião em que a mulher pode ser perdoada, faz questionar Maomé, na esperança de que uma conversão possa salvar a senhora. Infelizmente, para ela, Maomé confirma que no Islão esse código se mantém em vigor.

Quando se tentam mostrar as diferenças entre o Islão e as outras duas religiões do livro, evoca-se principalmente o episódio de Abrão, do sacrifício do filho e a troca pelo carneiro. Nas duas primeiras o filho é Isaque e no Corão é Ismail. Muda algo de fundamental? Entendo que não.

Relativamente às diferenças entre o Islão e o Judaísmo, excluindo a dimensão regulamentar, o que se pode fazer e o que é proibido, aliás com muito em comum, quais as diferenças na dimensão básica, espiritual… é um tema ao qual não sei responder, mas que suponho muito sensível.

Existem vozes, dentro do mundo muçulmano, algo críticas relativamente aos rigores regulamentares, alguns anacrónicos, interrogando e questionando os que querem transformar/transformaram a sua religião num catálogo de proibições. Não será por aí que ela acaba por se diferenciar…?

O que é certo é que apesar do que existe em comum, o Islão posiciona-se num não como uma religião diferente, mas superior às outras duas, que serão versões incompletas. Isto justifica algumas posições de não reciprocidade ainda na atualidade.

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08 setembro 2025

Olhando o Islão (II)

2) O Islão de Moisés e de Abrão

Qual é a religião, qual é ela, que tem um único Deus, omnisciente, omnipotente, criador do Céu e da Terra, descansando ao 7º dia, depois proclamado por Abrão e Moisés, numa história em que houve um Adão e uma Eva, um dilúvio e uma arca de um Noé, um Lot e a destruição da cidade dos pecadores, o sacrifício de um filho, trocado à última hora por um carneiro, uma travessia do mar Vermelho, etc… ?

Se acham que sabem, esperem… Sim, é o Cristianismo que todos conhecemos mais ou menos, é também o Judaísmo que serviu de alicerce ao primeiro e… é o Islão.

O Islão é mais uma religião de Abrão e Moisés. Se pedirem a um Cristão que faça um resumo do Antigo Testamento e o mostrarem a um muçulmano, ele identificará os personagens e a história como islâmicos. Até Cristo aparece no Corão, se bem que apenas como mais um importante profeta, cuja particularidade fica pela gestação milagrosa.

Maomé apresenta-se como o último e mais importante profeta de Deus/Alá. Os cristãos e os judeus não são membros de uma outra religião, mas da mesma, apenas num estádio mais atrasado. Diríamos que com a missa a metade…

Maomé explica, dividindo os homens em três grupos. Os bons muçulmanos que cumprem todos os preceitos, o reconhecem como o profeta mais importante e que no juízo final terão tudo de bom; os pagãos politeístas que verão a coisa mal pintada quando chegar a altura (e não pensem que vão enganar Alá com historinhas, porque este sabe tudo e tem lá a folha toda…) e os cristãos e judeus. Para estes últimos ele diz, vocês estão certos em reconhecer Alá, o Deus único, mas … atualizem-se e reconheçam-me!

Daqui existir um histórico de uma certa tolerância, com um preço, é certo, com que estas duas religiões foram aceites ou toleradas no mundo islâmico. Havia a esperança de que um dia acabassem por realizar a tal atualização.

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19 dezembro 2024

A falta de um Olimpo


Em contexto cultural fortemente monoteísta, seja de base cristã, judaica ou muçulmana, algum tipo de invocação dos méritos do politeísmo é quase crime. No passado foi mesmo crime e objeto de pesadas penas.

Efetivamente, na construção da relação do ser humano com a transcendência, estamos habituados que o Deus único seja um dos pilares fundamentais e inquestionáveis (e não me confundam com a Santíssima Trindade).

Se a religião serve para dar uma visão alargada da existência, uma dimensão metafísica, elevar comportamentos e promover valores mais altos do que os dos instintos básicos, … será que o mais “eficaz” é acreditar e temer um Deus único, coisa simples de explicar e assimilar?

Sobre o deserto ser monoteísta e a floresta, eventualmente, politeísta, já especulei ali atrás e uma boa parte desse texto encaixaria neste, mas não o vou repetir.

A panóplia de Deuses Gregos (e posteriormente traduzidos pelos romanos), dá múltiplas dimensões e motivações. Mais ricas, menos castradoras…?

A função reguladora de instintos, que a religião promove, obriga a disciplina e, consequentemente apresenta a ameaça de castigos terrenos ou divinos. Mas não haverá algum exagero redutor e pobreza intelectual derivados de tanta simplicidade, rigor e severidade…?

Acredito que para muitos a religião e a fé têm uma dimensão dogmática que vai muito para lá destas especulações racionais e heréticas. Acredito também que outros se possam sentir perdidos e ter dificuldade em definir uma hierarquia entre Atena e Baco…

Mas também acredito que o esforço para conseguir um mundo melhor tem dimensões e fontes de inspiração múltiplas, divinais ou naturais, dogmáticas ou racionais que irão para lá do receio do castigo.

Será pecado às vezes visitar o Olimpo e valorizar o que por lá anda?

20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

11 outubro 2023

Atirar o Hamas ao mar ?


No rescaldo da II Guerra e com a memória fresca das atrocidades sofridas pelos judeus na Europa, foi decido dar-lhes uma pátria. Curiosamente, Angola até já tinha sido equacionada anteriormente para esse objetivo, no início do século XX.

Historicamente a Palestina era o seu berço. David, Salomão, Herodes, só para referir alguns nomes históricos ali tinham reinado e deixado o seu legado. A região, durante longo tempo integrada no império Otomano, ficara sob administração britânica depois do desmembramento daquele, no final da I Guerra, e consequente partilha do Médio Oriente.

Em 1947 a ONU decidiu a divisão da Palestina entre judeus que chegavam e árabes que já lá estavam. Obviamente que implicava um rearranjo, questionável, mas nada de enorme nem brutal comparado com o que se viu, por exemplo, na Polónia que se deslocou uns bons kms para oeste no final da II Guerra ou com outros pós-guerras.

O que se passou a seguir foi que os árabes, palestinos e dos países vizinhos, não aceitaram de todo a instalação de Israel e declararam-lhes guerra com o objetivo de “atirar os judeus ao mar”. Estes conseguiram resistir, ganharam essa guerra e ainda infligiriam uma humilhante derrota em 6 dias, em 1967. Como é das “leis e das práticas”, quem ganha a guerra, ganha e Israel foi ganhando território, Sinai, Montes Golan e Cisjordânia. Após a guerra do Yom Kippur de 1973, também ganha por Israel, mas de forma mais honrada para os árabes, veio a paz com o Egito, a grande potencia regional e líder do movimento árabe.

Saltando detalhes, as relações com os países vizinhos normalizaram-se e mesmo com a OLP/Fatah iniciou-se um diálogo, … mas nasceu um confronto entre palestinianos. A partir de 2007 há uma divisão clara entre a Cisjordânia governada pela Fatah e a faixa de Gaza controlada pelo Hamas, dois mundos muito diferentes.

As barbaridades realizadas no passado dia 6/10, foram feitas pelo Hamas e o curioso é que a Cisjordânia, mesmo tendo mais capital de queixa contra Israel pelos polémicos colonatos, não aderiu. Se esta população se tivesse levantado em massa, em solidariedade, teria sido muito, muito complicado.

Agora Israel quer atirar o Hamas ao mar e face às barbaridades feitas eles não merecem a mínima compreensão ou tolerância (só mesmo doentes cegados pelo ódio anti-ocidental/anti-americano podem evocar um rasto de justificação). O problema é que física e mentalmente uma boa parte dos 2 milhões dos habitantes de Gaza estão fundidos com esse movimento. Não é possível atirá-los todos ao mar…

Duas sugestões:

  1. Face à penúria de bens essenciais que afeta o território, os seus “responsáveis” podiam trocar a compra dos rockets por alimentos e medicamentos de que a sua população tanto necessita.

  2. Os financiadores do Hamas, provocadores indiretos, mas fortemente responsáveis por estas atrocidades, mostrarem solidariedade para lá da financeira (a tal que vai para os rockets). Abram os seus países para receberem uma boa parte dos palestinianos desesperados. Seria bonito...

10 outubro 2023

Abrão


No limite leste da velha cidade de Jerusalém está o Monte de Templo. Terá sido ali que Salomão construiu o seu templo, referencia fundamental do judaísmo. Também aí se encontra a rocha onde Abrão esteve prestes a sacrificar o seu filho a Deus, substituído à última hora pelo carneiro.

Sendo o cristianismo e o islamismo ambos alicerçados no judaísmo, embora dando origem a construções muito diferentes, o local foi sempre necessariamente referenciado pelas três religiões. A escassos metros daí Cristo iniciou a sua via dolorosa e um pouco mais à frente está o Gólgota onde foi crucificado. Antes da fuga de Maomé para Medina, a “Meca” do Islão era Jerusalém e era nessa direção os muçulmanos rezavam. Diz o Corão que um dia Maomé foi teletransportado para o rochedo e daí subiu ao céu. Deste episódio nasce a importância adicional do monte para os muçulmanos, com a posterior construção da mesquita de Al Aqsa e a Cúpula do Rochedo, cujo dourado é visível em tantas imagens da cidade.

Hoje, em Jerusalém, qualquer um pode tocar as pedras do Muro das Lamentações, parede ocidental do antigo templo, no limite do monte, o local mais importante do judaísmo. Qualquer um pode tocar a pedra onde o corpo morto de Jesus foi supostamente depositado, no Santo Sepulcro. A Pedra Fundamental de Abrão não. Está reservada a muçulmanos. Mesmo a circulação de judeus por ali, na também chamada esplanada das mesquitas, é considerada provocatória, necessitando de proteção musculada e dando potencialmente origem a incidentes violentos. Uma das justificações para as recentes ações terroristas do Hamas foi esta “dessacralização” de Al Aqsa. A pedra de Abrão não poderia estar acessível a todas as religiões de Abrão?

Jerusalém, especialmente a velha cidade, é um local único no mundo de significado e inspirador de reflexão. Num futuro e num mundo saudável deveria ser um local aberto e não sequestrado por fundamentalismos de qualquer natureza.





16 agosto 2023

O Estado paga?


Dentro das polémicas e contestações que se desenvolveram em torno das JMJ e da intervenção do Estado nas mesmas, existe questionamento sobre se este deve pagar infraestruturas ou serviços associados a um evento que não é dirigido a toda a população.

É uma discussão que teria bastante sentido se este evento fosse algo de recorrente e onde, ainda por cima, os seus participantes tivessem predisposição a criar confusão e a precisar de dispositivos de segurança reforçados. Não sendo o caso, nem pela frequência do evento, nem pela atitude dos participantes, parece-me algo despropositado inventar mais uma polémica com o caso.

Isto evoca-me, no entanto, uma outra situação, esta sim recorrente e com muitos participantes de comportamento pouco civilizado. Falo, naturalmente, do futebol profissional, um negócio pouco transparente. que de desporto já tem pouco e cujo contributo para a construção de uma cidadania responsável está próximo de nulo, para não dizer negativo.

Os dispositivos de segurança necessários para conter as hordas de vândalos que semana após semana buscam semear confusão por onde passam deveriam ser pagos por eles e por quem os fomenta, não pelo inocente contribuinte, certo?

Carlos JF Sampaio

Esposende

05 agosto 2023

Deixai-os celebrar


Uma coisa são os venenosos e hipócritas frequentadores de sacristias; outra coisa são as instituições cristãs genuinamente solidárias e humanas.

Uma coisa foram os Torquemadas, outra coisa foi a criação artística e intelectual que a religião promoveu.

Uma coisa foi a mafiosa gestão financeira no Vaticano, outra coisa é o apoio social que em tantos cantos perdidos a igreja proporciona.

Uma coisa é um regime intolerante que impõe uma religião única, a mesma coisa são os que a tentam proibir a sua prática.

A lista pode continuar, mas com tantos duns e doutros, é certamente uma grande ligeireza ficarmos divididos e ter que optar entre os que incensam cada cruz que lhes apareça à frente e os que “pavolvianamente” rosnam a qualquer sotaina que se aproxime.

Passando por uma declaração de interesse, anunciando-me como agnóstico de matriz cultural cristã, não posso deixar de reconhecer que os princípios fundamentais do cristianismo são mais pela tolerância do que pela proibição, mais por promover o coletivo do que destacar o individual, mais pela dignificação do ser humano do que pelo seu aviltamento, mais pela inclusão do que pela exclusão, mais pela primazia da paz do que pela afirmação pela guerra.

Sim, houve, há e haverá desvios, como em tudo, como sempre.

Por isto tudo, sendo as jornadas mundiais de juventude uma festa bonita, se não gostam, não olhem, não ouçam, mas deixem-nos festejar. O fato de não gostarem não devia implicar raiva e menosprezo por quem lá está. Tolerância, senhores!

Por maiores que sejam as crenças em materialismos, racionalismos e outros ismos, a religião não vai desaparecer da face da terra nem do horizonte espiritual de muitos. E mais vale promover festas assim do que outras coisas…

Acrescentada a 6/8 a versão impressa.